sábado, 3 de fevereiro de 2018

Como vejo o mundo



Numa perspectiva criacionista, monista espiritualista, a realidade visível é fundamentalmente espiritual.  Poder-se-ia compará-la com a produção de uma bolha temporal no seio da eternidade, resultante da coordenação das dimensões espacial e temporal em cada um dos seres criados. O Espírito  Eterno representado pela inteligência e consciência universais personificadas num absoluto criador preexiste, pois, ao big bang (primeira manifestação do tempo e do espaço) e permanecerá após o fim dos tempos. Nesse contexto o ser humano se identifica subjetivamente por um eu histórico que se evidencia a cada indivíduo como ressonância do Espírito Eterno.
A consciência universal é, portanto, uma transcendência que ultrapassa os limites da razão humana  predisposta a lidar exclusivamente com grandezas temporais e espaciais.
Pegando carona no conceito básico da Física quântica pode-se conceber a realidade aparente expressa no processo histórico como o encontro das infinitas possibilidades da transcendência (consciência universal) com a consciência localizada implícita no equilíbrio dinâmico de cada uma das criaturas; finalmente, tudo converge para a harmonia global entre os diferentes níveis de complexidade que integram a unidade absoluta. No ser humano esse equilíbrio se torna pessoal, consciente, reflexivo, manifestado em cada indivíduo através da complementaridade das funções superiores do Sistema Nervoso Central (razão, sentimento e vontade).
A consciência localizada filtra misteriosamente os projetos contidos na consciência universal, reproduzindo estruturas de complexidade crescente; e o que é recapturado pela consciência pessoal resulta na realidade objetiva reconhecida como reflexo do mundo visível captado subjetivamente por cada um dos homens. Assim, a tese criacionista monista espiritualista  fundamenta a  realidade aparente no encontro indescritível da transcendência absoluta com a imanência limitada representada pelos diferentes níveis de complexidade que totalizam o absoluto unitário. Nessa interdependência misteriosa a consciência pessoal se plenifica em cada homem integrando-se na consciência universal (absoluta) e nela encontrando o seu sentido mediante uma experiência mística.
O grande problema existencial é que a dimensão temporal do homem implica em perdas pessoais inerentes ao tempo vivido, que o indivíduo confronta com a intuição da sua dimensão atemporal latente na expectativa de vida eterna. Com esta visão intuitiva, vivendo no tempo, o homem, para não deprimir, precisa superar o sentimento trágico implícito na consciência do determinismo de sua finitude temporal manifestada no envelhecimento e na morte. Dessa forma cada um precisa conservar a força moral necessária para viver as perdas temporais, conservando a autoestima através do aproveitamento inteligente das habilidades remanescentes, entre estas a de participação na unidade absoluta.
Os argumentos articulados pelo exercício da razão, por mais consistentes que sejam, jamais serão capazes de  anular a ansiedade do ser consciente  diante do próprio vir a ser incerto. Qualquer esforço intelectual para urdir teses filosóficas e metafísicas tendo em vista apaziguar a angústia inspirada pela ideia da proximidade da morte resulta geralmente em fracasso. Por sua inevitabilidade a morte é na vida de cada um uma presença virtual desagradável que só é superada mediante uma atitude mística.
            Encontramos na melhor hipótese alguma serenidade ao conseguirmos aconchegar-nos sob o manto protetor da misericórdia divina, invadidos por uma onda de cálido agradecimento ao Deus que nos criou e nos sustenta compassivamente, juntamente com todo o Universo. Nessa vivência mística experimentamos a maior proximidade com o próprio Criador.
 Sendo o espírito uma entidade que transcende a matéria não o experimentamos plenamente enquanto não vencemos literalmente a barreira do tempo; antes disso apenas lhe atribuímos um caráter indescritível no âmbito do nosso vir a ser histórico.
            Para aliviar a percepção do estresse de vivenciar a finitude, e mitigar a angústia existencial decorrente desta percepção, nos valemos de comportamentos que nos projetam numa realidade sempre maior e mais abrangente- até a mais alta aspiração estética, intelectual afetiva ou de ordem prática, corporificada numa coletividade universal solidária por exemplo. Nesse sentido esperamos realizar-nos até mesmo num ponto fora da curva do tempo. Na esteira deste esforço buscamos apreender algo mais de nós mesmos, que ultrapasse as dimensões espacial e temporal, o que nos remete a uma experiência mística. O esforço de transcender estimula o hipocampo que é a área cerebral da criatividade e da memória. Mantê-lo (o hipocampo) estimulado  com atividades criativas diminui o estresse da vivência de finitude, embora não o anule. Podemos ainda buscar uma ajuda natural mediante alimentação sadia, sono reparador e uma perspectiva otimista da existência, tomando consciência do quanto de pressão psíquica é autogerada por nossos cacoetes psíquicos afetivos. No combate prático à ansiedade não se pode esquecer uma rotina de  exercícios físicos que reduzem o estresse, pela produção das endorfinas antálgicas e euforizantes.
 A capacidade humana de fixar novos hábitos nos permite esperar que possamos um dia  habituar-nos à prática salutar da solidariedade como uma extensão do nosso vir a ser existencial, projetando o centro do interesse pessoal para além do próprio umbigo. Dessa forma, deixando-nos absorver no interesse de um todo universal, desviamos a atenção para além de nós mesmos, anulando,  momentaneamente, a consciência da ameaça permanente de saber-nos finitos.
           
            A invasão do espírito por ansiedade e medos incômodos pode ser controlada antes que estas elaborações psíquicas se alinhem num comportamento neurótico. Reagindo com abordagens racionais ao mergulho na insanidade, podemos alcançar um mínimo de conforto psicológico compatível com uma conduta construtiva, otimista. Mas a eficiência desta intervenção racional fica a depender de sua assimilação emocional.
            Afinal, no fundo, o medo e a ansiedade são despertados pelo confronto subjetivo com probabilidades ameaçadoras que se exacerbam à medida em que estamos mais centrados em nós mesmos. Ora, o que se teme e gera ansiedade enquanto vivemos pode acontecer ou não em determinado momento; aliás, na verdade raramente acontece enquanto não chega o instante fatal. Mas quando estamos preocupados com o próprio destino ficamos à mercê dos maus presságios. E até distanciar-se  de vez  das possibilidades alternativas temidas instante a instante, o protagonista das fantasias em questão  já terá sofrido muito, desnecessariamente. Esta realidade deve estar bem presente  no espírito de quem vive em permanente introspecção. O ansioso pode reduzir sua tensão intrapsíquica ao perceber o pseudoproblema implícito na expectativa criada pelo medo ilusório de possibilidades que só acontecerão na hora própria, se vierem a tornar-se realidade. Dessa forma o ansioso crônico pode tirar proveito de seus próprios recursos intelectuais ao reavaliar objetivamente o problema cuja vivência é responsável por estados psíquicos desagradáveis. Assim, deixamos de ser movidos pelo medo ilusório e passamos a conviver de forma objetiva com as probabilidades do acontecer indesejado, como o da velhice e da própria morte.

            Fundamentalmente, gostaríamos de ser senhores do tempo, todavia,  faz parte da nossa condição de criaturas finitas permanecermos sujeitos aos percalços da impermanência implícitos em mudanças que não são  totalmente controláveis no curso do tempo. Nada se pode fazer para evitar que fiquemos cada dia mais velhos e vulneráveis aos azares da idade, mais próximos do fim reservado ao  ser biológico.  Não adianta bater o pé contra a caminhada inexorável do ser temporal no qual vida e morte estão de braços dados. Como seres biológicos, para viver é preciso morrer os instantes em que vivemos, portanto é ridículo assumir postura existencial contrária  à inexorabilidade do tempo. Podemos, sim, aproveitar cada segundo para consumar uma postura a mais confortável possível diante de um desfecho indesejável, mas inevitável. Nesse sentido é indispensável que aprendamos a não confundir probabilidades com possibilidades, deixando-nos envolver cada vez mais por interesses comunitários e pela expectativa de um desfecho apoteótico da existência.
            Surpreendo-me preocupado ao imaginar o que me pode acontecer no momento seguinte; chego mesmo a ficar intimidado por acontecimentos que só existem na minha imaginação. Os traços remanescentes do caráter obsessivo da personalidade torna essa tendência mais problemática. Momentaneamente, uma onda de pessimismo pode atropelar a expectativa de saúde, paz e vida longa. No meio dessas cogitações o angustiado se dá conta de que está sadio, vivenciando no presente uma realidade diferente dos presságios que lhe afligem a imaginação descontrolada. E percebendo o disparate sente uma fisgada no seu amor próprio por ceder aos temores fantasiosos e aos medos infantis nos quais se sente envolvido. O termômetro para medir o que lhe resta de sanidade mental é a capacidade de contrapor os recursos racionais disponíveis ao turbilhão de expectativas fantasiosas, e em analisando-as, desmistificá-las, confinando-as aos limites do real concreto; dessa forma é possível reduzir o impacto de devaneios desastrosos construídos na subjetividade impregnada de pessimismo. Com esse objetivo tenho desenvolvido ao longo dos anos, com relativo sucesso, a análise racional das minhas preocupações e temores. Mesmo assim, os traços obsessivos do caráter de cada um são uma pedra no caminho desta análise, limitando o resultado  otimista a ser conquistado pela pacificação do espírito ansioso.

Everaldo Lopes

quinta-feira, 20 de julho de 2017

A inconformidade com a finitude - nossa fragilidade



O poeta inspirado pela beleza da Natureza ou da mulher amada escreve um soneto apaixonado, sente a ventura da criatividade e desfruta a paz da harmonia interior, num momento privilegiado da existência. O mesmo poeta, num outro instante de lucidez existencial, descobre-se, sobrenadando o vazio do seu vir a ser quando não está amando nem criando. Certamente, a paixão episódica e o arroubo criativo isolado não se confundem com o amor sem fronteiras que integra o ser consciente no contexto do todo perfeito da unidade divina. E a experiência deste amor é fundamental para resgatar o homem de sua inconformidade com a própria finitude.
            A limitação temporal é sempre objeto de preocupação do homem; pois a consciência de a qualquer momento ser tragado pelo não ser é a expressão de uma realidade incontornável. O sofrimento moral correspondente é para muitos um incômodo que tolda a alegria de viver. Por isso a aceitação emocional deste desfecho será sempre um desafio para o ser consciente. O medo de morrer está na raiz do próprio instinto de conservação, manifestação normal em todo ser vivo, que se agrava dramaticamente no homem por sua capacidade de imaginar, com antecedência, o próprio fim. Teoricamente só o presente é real, mas, não raro nos surpreendemos ocupados com boas ou más lembranças do passado e preocupados com as incertezas que nos aguardam no futuro, realidades virtuais que deslocam a atenção sobre o presente real.
A inconformidade com a finitude é uma “loucura” peculiar da condição humana. Porque no homem a autoconsciência do ser biológico o expõe inevitavelmente à vivência de sua temporalidade constitutiva e, consequentemente, à previsão do envelhecimento e da própria morte.   Na dialética existencial vive-se morrendo, de tal modo que processualmente vida e morte estão sempre entrelaçadas, ou seja, é preciso morrer este minuto que passa agora, para poder vivê-lo. Todavia, sempre pensamos a morte em termos absolutos como o fim definitivo da vida. Daí a ansiedade da espera sem data prevista do desfecho fatal.
É insensato tentar escapar da provisoriedade da vida biológica e, no entanto, é notório o medo de morrer considerado por muitos estudiosos como o maior de todos os medos que afligem o homem. Por isso, na vida íntima de cada um, torna-se evidente a necessidade de encontrar uma forma de superar a angústia do ser humano de saber-se mortal. Analisando a questão em todos os seus aspectos, na tentativa de amenizar a angústia existencial a proposta mais razoável será contextualizar a existência numa dimensão mística, projetando-a para além do tempo.
O medo inerente ao sentimento de finitude é exacerbado pela saudade da vida, tão mais forte quanto maior o número de décadas vividas. É confortante para o homem, pois, a força aquietadora da esperança de transcender a vida biológica, vivência que encontra um amparo efetivo na crença em uma realização transtemporal da essência espiritual do eu histórico. Esta expectativa remete necessariamente a uma experiência mística contextualizada na fé em um absoluto transcendental que tudo envolve na sua perfeição. 
Assim, a existência[1] implica numa contradição vivida subjetivamente entre o desejo de viver e o medo de morrer. Oposição cuja única forma de contornar sem estresse é a doação pessoal do ser consciente a um absoluto transcendental que o inclua. O que corresponde a uma experiência mística embalada por fé ingênua (sem questionamentos). Embora possamos afirmar a existência de Deus mediante especulação filosófica a partir do conhecimento profundo do Universo e do processo evolutivo, a relação que podemos estabelecer com o Criador é puramente intuitiva e emocional. Dessa experiência a razão participa apenas remotamente; uma vez que o fundamento da fé unificadora da consciência com o mundo é essencialmente místico. Para que a fé produza seu efeito redentor não há que buscar razões para crer. Quem crê realmente em Deus afirma: creio porque creio, e me entrego cegamente à vontade absoluta do supremo Criador plenamente confiante no imenso amor que me faz existir como beneficiário de Sua infinita misericórdia. Daí ser fundamental uma crença ingênua para viver em plenitude a experiência mística, animado pela certeza de experimentar a eternidade na presença majestosa de Deus.
Racionalmente Deus não pode ser confundido com uma realidade objetiva, mas à luz de uma especulação metafísica O reconhecemos necessária[2] e misteriosamente presente no universo palpável e em nossa própria realidade pessoal na qual se dá a conhecer, obscuramente, pela manifestação das funções psíquicas superiores[3], só possível depois da supercomplexificação da matéria no Sistema Nervoso Central no homem.
            As pessoas sofrem mais ao confrontar seu limite temporal, quando são pessimistas, não aprenderam a amar, não praticam a generosidade, ou não se sentem amadas. É compreensível que, em luta contra seus medos e incertezas elas se perguntem: - Como reverter esta situação? A resposta é óbvia: Optando pelo otimismo na prática existencial; aprendendo a respeitar e cuidar do outro, dando assim um passo largo em direção ao amor; praticando a generosidade que começa quando fazemos empatia com o outro e descobrimos em nós mesmos as suas fraquezas, assumindo que somos capazes de amar ou, pelo menos, respeitar o outro. Evidentemente, todos esses movimentos interiores só produzem os efeitos esperados quando vividos emocionalmente e não apenas como uma formalidade.
O amor a uma causa ou a um ideal significativo é o grande antídoto para o medo da morte. E não há causa mais elevada do que a da autoafirmação de cada um de nós, como pessoa, sob a égide da verdade e da justiça, no esforço de buscar, constantemente, o bem honesto. Tarefa heroica que exige autoconhecimento, humildade, disciplina emocional, objetividade, e, tal é sua grandeza, que não dispensa a ajuda da misericórdia divina. Sem a contrapartida de uma personalidade criativa ancorada na perfeição absoluta de Deus, o golpe desfechado pelo sentimento de que tudo é provisório nesta vida tem um poder devastador. Ouso dizer que sem uma visão mística da própria existência, será impossível a realização cabal do ideal humano de serenidade, e se tornará muito deprimente o confronto de cada um com a condição de simples mortal. Fora de um contexto místico, a convivência com os nossos limites resultará sempre na vivência de um todo inacabado, geratriz de expectativa inquieta; e no nível puramente racional a vitória sobre o mal-estar induzido pelo sentimento da finitude será sempre uma “vitória de Pirro”, em que o vencedor amarga enormes perdas com o próprio sucesso.
            A autoafirmação pessoal começa com o reconhecimento de que somos perecíveis, mas temos uma missão a cumprir neste mundo; de que somos contraditórios, mas é-nos possível elaborar, com simplicidade, as antinomias da existência; finalmente, de que somos capazes de acolher com respeito o irmão, sem cultivar mágoas ou ressentimentos.
            Ao meditar sobre essas questões, advirto-me de que no desvario infantilmente crédulo da nossa perspectiva existencial, surpreendemo-nos buscando segurança em fantasias românticas, ancorados em arrimos discutíveis que desejáramos transformar em fortalezas inexpugnáveis. Esgotando nossa expectativa em metas temporais agiríamos como quem se imaginasse seguro porque dispõe de poupança expressiva. Na verdade esta pessoa não está a salvo de nada além da carência financeira imediata. Situação equivalente à do homem que cuida com esmero da alimentação sadia e do seu condicionamento físico para assegurar-se a salvo das doenças que acometem os glutões e os sedentários. A proteção conferida pelos cuidados preventivos realmente existe, mas é limitada, porque há fatores genéticos cujo determinismo o exercício físico e a dieta retardam, mas não anulam totalmente. Todos os cuidados são recomendáveis, mas na avaliação dos resultados não se pode confundir a menor probabilidade de ocorrência de um mal, com a segurança de estar definitivamente livre dele. É bom sentirmo-nos confiantes, com a reserva vital que nos garante um bom condicionamento físico. Porém, mais sábio do que fiar-se em defesas vulneráveis é vivenciar que a maior segurança consiste na aceitação da insegurança total, confiante, porém, no amparo de uma força superior, e num destino transtemporal. Isto equivale a investir num arrimo interior que excede nossa capacidade de entendimento, o sustento íntimo necessário para continuar de pé quando tudo ao redor está ruindo. E amparado neste arrimo interior, ao aceitar com serenidade a insegurança total nada mais sobra para ameaçar a integridade pessoal.
            A consciência reflexiva depende, operacionalmente, do mecanismo de controle automático biopsíquico desenvolvido no homem através da supercomplexificação da matéria na construção do Sistema Nervoso Central. Neste processo singular, na história da vida, há um pseudo-hiato entre a infraestrutura biológica e a superestrutura cultural do pensamento logicamente articulado, do sentimento disciplinado e da vontade determinante. Considerando o todo consciência mundo, esse hiato virtual representa a dobra[4] entre a bioquímica neuronal cerebral e o pensamento, entre o biológico e o espiritual, entre a ciência fenomênica imanente e a metafísica do ser que se transcende pela consciência. É neste pseudo hiato que se insere a experiência mística embasada na fé, desde a prática contemplativa ao êxtase vivenciado por São João da Cruz[5]. Este é o momento em que o espírito onipresente, mas imperceptível, se entremostra da maneira mais ostensiva. Exatamente por isso a complexidade humana não se exaure no fenômeno biopsicológico e exige o arremate místico para consumar-se. No pseudo-hiato entre o biológico e o espiritual se evidencia o Deus inconsciente de que fala Victor Frankel, onipresente, vivenciado no subjetivismo do ser consciente como um Alter Ego que, recursivamente, acaba espelhando o próprio ego individual. É aí que o Absoluto se revela à nossa contingência e conversa conosco na mais total intimidade, embora escutemos apenas a nossa própria voz e vejamos tão só a nós mesmos. É aí que se dá a conhecer o mistério tremendo da parceria entre a imanência e a transcendência, entre o homem e Deus.
            Se a solução do problema humano não é racional, filosófica, porém mística, a oração será o instrumento adequado para proteger o homem contra a devastação da angústia existencial e do medo da morte. Despindo-me do racionalismo frio, retomo a postura ingênua para evocar numa Oração (conversa com Deus) as condições para o momento existencial perfeito.
                                                           Oração

Deus, permite-me a graça de vivenciar a unidade consciência / mundo na intersecção das dimensões imanente e transcendente do meu eu mais profundo. Que sob o mistério da reciprocidade na relação criatura / Criador, encontre em Ti a força necessária para cumprir a missão que me reservaste neste mundo, e a esperança de alcançar a paz interior, acolhendo com respeito meu irmão, sem cultivar mágoas ou ressentimentos, reconhecendo, voluntariamente, na comunhão fraterna a paternidade amorosa de Deus.   
 Everaldo Lopes


[1] Modo de ser peculiar do homem.
[2] O Criador não pode afastar-se de sua criatura porque esta não tem a força da subsistência e sem Ele deixaria de existir.
[3] Consciência reflexiva, pensamento, sentimento e vontade.
[4] Conceito epistemológico definido por Deleuse; a passagem contínua e imperceptível entre duas realidades.  
[5] Grande místico católico.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Tropeços do processo evolutivo



A mídia divulga com frequência desastres ecológicos e sociais, os últimos geralmente atrelados à corrupção e ao crime contra a vida. Esses acidentes comprometem, respectivamente, o equilíbrio dos biomas no nosso planeta e a convivência entre os homens. Estiagens prolongadas, alternando com chuvas torrenciais e inundações, furacões, tsunamis representam turbulências da própria natureza; não as podemos evitar. Por outro lado, o desmando administrativo, a cupidez, o uso da violência e a irresponsabilidade humana na condução da coisa pública envolvem a escolha de cada um, e, portanto, são controláveis.
Escandalosamente,  a fome ainda ameaça, hoje, a sobrevivência de bilhões de indivíduos no mundo  inteiro. Presenciamos, recentemente, a emigração desordenada de milhões de seres humanos que fogem de seus países de origem, tangidos pela fome,  guerras fratricidas e extrema pobreza.  Não é à toa que a ONU acaba de declarar que estamos ameaçados neste começo de século por uma “calamidade” que compromete a dignidade e o bem estar da humanidade. Salvo os cataclismos naturais, alguns dos quais também ligados à ação poluente do homem, tudo corre por conta da falta de planejamento e má gestão do bem comum que um sistema econômico perverso, perversamente administrado, concentra cada vez mais nas mãos de poucos. Por outro lado, o desrespeito ao outro, traduzido em condutas levianas, está na raiz da violência urbana, dos acidentes rodoviários, ferroviários e aeroviários promovendo mais mortes do que a soma das provocadas pelos desastres da natureza e por doenças graves.
Paralelemente observa-se a incompetência do Estado político para gerir a coisa pública, o que se traduz na incapacidade de  promover a justa distribuição do bem comum entre todos os cidadãos; obviamente, esta situação se agrava em razão de expressivo contingente da sociedade não ser capaz de exercer a cidadania plena. A alarmante  falta de ética dos administradores das empresas pública e privada é uma extensão  (muito mais grave por suas consequências) da corrupção praticada pela população em geral. Nesse contexto, a prática corrupta escandalosa dos executivos e parlamentares prolonga a desfaçatez da  população, como um todo. Entre outros expedientes condenáveis, é  notória a utilização de recibos falsos para burlar a Receita Federal, ou a tentativa de subornar o guarda de trânsito, ou o recurso a  atestado médico gracioso para justificar a falta ao trabalho... considere-se também como um deslize ético reprovável a imposição aos trabalhadores da tirania do salário mínimo mesmo quando o beneficiário (patrão) do trabalho prestado reconhece o bom desempenho do trabalhador e pode remunerar  melhor sua atividade. Essa corrupção a varejo está tão difundida que o comportamento ético (por definição, obrigatório) dá manchete, pois já é tido por muitos como um ato heroico. É necessário lembrar que “para mudar o mundo cada um precisa exigir de si mesmo a mudança que deseja ver no mundo”.
Os organismos internacionais, também não se têm demonstrado suficientemente fortes para sanar  as divergências que pautam a desarmonia mundial afetando a paz entre as nações. Numa visão mesmo superficial do nosso mundo conturbado, em que a vida e a natureza estão permanentemente ameaçadas, espanta-nos dar-nos conta de que tudo isso está acontecendo depois de cinquenta mil anos do aparecimento do primeiro Homo sapiens na face da Terra, tempo bastante para o amadurecimento das práticas sociais solidárias não fora o individualismo e a ambição prevalentes no comportamento dos homens.  Vivemos ainda sob a ameaça permanente à sobrevivência da espécie, e, no entanto, tudo depende, hoje, de decisões conscientes e responsáveis. Estamos nos destruindo por falta de solidariedade, ou seja, da prática irrestrita da cooperação e da partilha entre os homens, comportamento que é a marca definitiva da humanização.
A observação de como caminha a humanidade, hoje, dá lugar a temores apocalípticos. Mas, acompanhando a linha evolutiva desde o Homo erectus, passando pelo H. faber, H. habilis  até o estágio atual do H.sapiens sapiens é fácil imaginar que nas etapas anteriores de sua evolução, antes da comunicação verbal e dispondo apenas da tecnologia paleolítica para resolver os problemas emergentes, o homem passou por situações muito mais difíceis tendo em vista garantir a sobrevivência da espécie. É  bem verdade que os problemas sociais, políticos e econômicos eram muito mais simples no passado distante. Pode-se mesmo dizer que no início da humanidade tudo girava em torno da luta pelo alimento e por um abrigo.  Catando frutos, pescando e caçando, abrigando-se em cavernas o homem concentrava todo seu esforço no sentido de     sobreviver, e essa preocupação era bastante absorvente para ocupá-lo por inteiro.
Confrontando a cultura do H. habilis com a do H. sapiens sapiens constata-se uma admirável diferença entre essas duas fases da Evolução. Na primeira a humanidade dispunha de praticamente nenhum recurso tecnológico, mas contava com a solidariedade imposta pelo desejo de sobrevivência que unia os homens na caça e na coleta de frutos silvestres; na segunda desenvolveu-se tecnologia refinada sem o crescimento paralelo da sabedoria necessária para gerir as fabulosas conquistas da ciência e da técnica, em benefício de todos. Em ambos os casos o comportamento ideal desejável sempre girou em torno da solidariedade comunitária. O que lamentavelmente não tem acontecido de forma extensiva.  Ao contrário constatamos que a falsa impressão de segurança produzida pelas facilidades que a tecnologia oferece induziu a impressão enganosa de independência pessoal, reforçando o predomínio do individualismo sobre a solidariedade comunitária. Ao comprar no supermercado uma caixa de fósforos, mal nos damos conta de que estamos usufruindo do trabalho de dezenas de pessoas que atuaram na produção da matéria prima, na fabricação, no transporte e comercialização do produto. Dependemos do esforço de muitos para desfrutar do conforto de acender um simples palito de fósforo. Mas a falta de visibilidade do trabalho embutido no produto industrializado induz a falsa impressão de autossuficiência e independência; essa ilusão leva ao individualismo exacerbado e torna mais difícil organizar uma sociedade voltada para a distribuição equânime do bem comum. Resultado, somos capazes de  produzir alimento suficiente para suprir a necessidade alimentar da humanidade inteira, todavia em muitos lugares no mundo, agora, há milhões de pessoas morrendo de fome.
Por sua imensa capacidade de adaptar-se a todos os climas e, ao mesmo tempo, por não estar submetida aos processos naturais de controle da natalidade, a espécie humana multiplicou-se de forma surpreendente. Os demais animais só procriam em determinados momentos impostos pela natureza o que redunda num processo natural de controle dos nascimentos. Mas, entre os homens só a paternidade consciente e responsável é  capaz de manter a multiplicação da espécie em níveis aceitáveis, tendo em vista o bem-estar de todos. Cabe ao próprio homem estabelecer o marco regulatório da procriação na sua espécie. E esta conquista depende de elevado grau de humanização e socialização com ênfase na solidariedade. Da mesma maneira, a nutrição e conforto da humanidade estão intimamente relacionados com a organização planetária  da produção de alimentos e de bens de consumo, que deve ser prolongada por uma política de distribuição equânime de tudo que é  produzido, por todos os homens. Tudo isso envolve problemas políticos, econômicos e sociais cuja solução depende do grau de consciência comunitária das sociedades humanas. Refinamento comportamental que demanda o esforço da participação de todos no humanismo inscrito no ideal cristão do “amai-vos uns aos outros”. Comportamento que para muitos pode parecer romântico, mas, verdadeiramente, é a  única saída para a sobrevivência da humanidade.
Arrisco dizer sem medo de errar que temos, hoje, mais condição material de resolver os problemas que afligem a humanidade, do que tiveram os nossos antepassados. Atualmente, a solução dos problemas humanos depende da escolha e decisão pessoais de viver de acordo  com o espírito comunitário; ou seja, de praticar, criteriosa e respeitosamente, a distribuição entre os homens dos recursos materiais de que dispomos, para que todos vivamos confortavelmente. Lamentávelmente, mesmo havendo crescido tanto  tecnologicamente, não desenvolvemos, ainda, de modo extensivo, a prática solidária da cooperação e da partilha. Ao contrário, o egoísmo está afastando o homem da orientação comunitária na organização social, a única escolha compatível com a sobrevivência da humanidade.
 Everaldo Lopes