domingo, 30 de junho de 2019

Roteiro espiritual



           
            Ter fé é mais do que fazer uma simples opção, racionalmente justificada. Há que ser uma escolha radical, envolvendo inteligência e sentimento; é crer em algo ainda que seja absurdo. Sendo um absoluto o objeto intangível da crença, logicamente, não se encontra na razão o instrumento mais eficaz de abordagem do objeto de fé; há que lembrar a afirmação pascaliana[1]. Como as outras virtudes, a fé não é uma construção, é uma dádiva. Pode-se, como se costuma dizer, cultivá-la. Mas, evidentemente, para  cultivá-la, é preciso que ela exista. E é minha convicção que o embrião da fé existe sempre no íntimo de todos nós. Ninguém conseguiria viver diante das incertezas da vida e do mundo, sem alguma âncora para confiar em um dos eventos prováveis ou improváveis da existência. A própria natureza assintótica[2] da verdade imobilizar-nos-ia em dúvidas não fora a crença na veracidade do que percebemos através dos sentidos. Talvez, os que admitem ter perdido a fé, apenas se neguem a cultivá-la! É este cultivo que as igrejas tentam implementar. Mas na medida em que se institucionaliza, a mensagem eclesial empacotada em dogmas rígidos, amesquinha-se como vivência existencial; ainda que se pretenda exaltá-la pela revelação contida nos livros sagrados e pelo apoio na credibilidade das instituições que assumiram a missão evangelizadora. Assim, o cristão, por exemplo, crê em Deus, mas em cada caso específico (católico romano, protestante, copta, grego, etc) precisa acreditar na sua Igreja que, por suposto, encampou a exclusividade da origem divina como Instituição. Todavia, as Igrejas são organizações religiosas históricas. Como tais, têm um pé na falibilidade humana. A fé em Deus tem raízes existenciais, as Igrejas como instituições históricas, amarram-se em incidentes temporais; são úteis para assegurar a transmissão catequética  da mensagem salvífica, mas não são necessárias para a contextualização do indivíduo numa “gestalt”[3] existencial teocêntrica, embora possam facilitá-la para as almas simples carentes de autonomia.
            Para muitos de nós, a imposição de um credo seria traumática. É verdade que esta forma de reagir implica no orgulho humano ou, pelo menos, na falta de humildade. Em face disso, entre muitos de nós, a fé praticada não é tão pura (inspirada, ingênua) quanto seria desejável.  Constitui-se num estado de espírito do qual participa a dúvida superada instante a instante por uma profissão da crença no testemunho da própria realidade num Ser superior, absoluto criador. Lucubrações filosóficas sobre o objeto de fé assim como as peculiaridades  de uma crença podem jogar alguma luz sobre a questão, aproximando mais o postulante, de uma visão compreensiva da sua convicção de fé. Correlacionando o ato de fé com as demandas transcendentais da alma humana, pode-se abrir uma nova frente de abordagem. Não mais, a partir da discussão sobre a veracidade do objeto transcendental da fé, inalcançável pela razão; mas a partir da necessidade de transcendência absoluta, premente no ser consciente, portanto, muito próxima e nossa conhecida. O dogma de fé pretende preencher a lacuna perturbadora existente entre a demanda de um absoluto pela consciência emergente, e  este mesmo absoluto (objeto de fé); entre o homem (contingente), e o Ser Necessário (Criador); entre  a eternidade e o tempo, entre a realidade que transcende os limites da razão e a que conhecemos e podemos comprovar. Nesta perspectiva, o dogma passará a se justificar como forma de atender a uma necessidade ontológica da existência consciente; se assim se pode falar, a necessidade de uma âncora absoluta para a subjetividade. O objeto da fé (o absoluto) já não será, então, um elemento estranho, totalitário, que se põe autoritário diante do crente, mas uma necessidade  da existência anelante, desamparada, “desassossegada”. Embora inabordável pela razão, o objeto de fé será assim melhor “assimilado”, pelos que não gozamos o privilégio da simplicidade, como opção amparada por uma visão compreensiva da realidade carente e misteriosa que envolve o “ser consciente”. Visão compreensiva no sentido da aceitação, no contexto existencial da necessidade do dogma, para fechar uma “gestalt” pessoal. A outra opção é deixar a gestalt aberta, cultivando  a atitude estoica, na qual o indivíduo se consome em desassossego sem assumir a responsabilidade de afirmar seu objeto de fé. Há testemunho histórico de que muitos já conseguiram fechar com sucesso sua “gestalt” pessoal, seguindo as pegadas da primeira opção (a aposta da fé); não será  muito inteligente, pois, desdenhar dessa possibilidade e deixar-se afundar no desespero. Chegar a Deus através de uma visão racional do Universo que, embora parcial, se completa numa tese coerente, compreensiva, da realidade pessoal sedenta de absoluto, é também um caminho. Acredito que o livro “La Gnose de Princeton” escrito por Raymond Ruyer foi o primeiro esforço sistematizado nesse sentido. Não obstante as lições de catecismo recebidas na infância, esta foi a minha trilha, abandonada e retomada tantas vezes... Nessa busca descobri que a solução do “problema humano” não é da ordem intelectual, metafísica, mas uma experiência mística – expressão vivenciada da participação na unidade do todo universal. O clímax da conversão é a viragem interior orientada pelo vislumbre intelectual da necessidade de um absoluto, para a participação existencial nesse absoluto. Neste ponto é que entra a graça – o empurrãozinho misericordioso no contexto de uma experiência de fé. Depois disso, presumo que a repercussão existencial seja a mesma, para o crente comprometido com sua verdade interior sem rodeios intelectuais caprichosos, que aceitou com simplicidade o seu objeto de fé, ou para aquele que palmilhou as trilhas íngremes de lucubrações filosóficas preparatórias. Qualquer que tenha sido o caminho percorrido, o importante é a aceitação incondicional de Deus (Espírito absoluto, causa e finalidade de tudo quanto existe), e da ordem inerente ao Espírito cifrado no universo.
            Nesta gnose, se assim podemos falar, a espiritualidade trans-intelectual a que chegamos pelo caminho da abordagem compreensiva da realidade universal incluída a consciência pessoal, as noções de graça, merecimento, virtude, adquirem conotações que se afastam um pouco das interpretações  beatas. Na nossa abordagem se torna evidente o caráter assimétrico da  relação criatura  / Criador, não obstante a parceria virtual de ambos. O Criador jamais poderia ser influenciado por sua criatura. Consequência disso é  a certeza de que não podemos influir nas decisões divinas, e a ideia de que as conquistas vantajosas que fazemos, não são o fruto do nosso mérito, mas extensões práticas de uma ordem divina da qual passamos a ser obreiros entusiasmados, comprometendo nessa direção o nosso quefazer histórico, como colaboradores da criação divina. No seguimento da nossa experiência existencial, chegamos, todavia, a compreender que a   distância imensurável que separa a criatura do Criador se dissipa ao calor da “certeza” inquestionável, tranquilizadora, da infinita misericórdia de Deus. Dessa forma, numa visão metafísica e espiritual da existência encontramos o suporte para uma psicologia dinâmica que preside os ajustes da subjetividade e suavizam o fragor da luta entre os elementos contraditórios da humana condição. Nesta linha do pensamento, confirma-se a ideia de que o homem é um ser intrinsecamente religioso.


[1] “O coração tem razões que a própria razão desconhece”.
[2] Assíntota- Reta que é tangente a uma curva no infinito; reta limite da família de tangentes a uma curva quando o ponto de tangência tende para o infinito.



[3] Um todo que justifica as suas partes.

sábado, 18 de maio de 2019

Alegria


Alegria.

Ser alegre é um privilégio dos que conseguem viver cada momento, imbuídos de otimismo. Ou seja, viver instante a instante um vir a ser marcado pela expectativa de que prevalecerá  a melhor dentre as possibilidades que se abrem diante da vida pessoal. Por trás desta expectativa nos deparamos, porém, intimidados, com a consciência de nossa própria finitude. Há sempre um limite. A certeza deste limite deve estimular-nos a redobrar esforços para alcançar, no mais breve espaço de tempo, as realizações às quais nos propomos; mas esta certeza também pode deprimir.  Pois a morte pessoal concebida como fatalidade nos faz sentir permanentemente ameaçados tal como sentira-se o invejoso Dâmocles ao receber do Rei Dionísio o trono ambicionado[1].
O desejo fundamental do ser consciente é o da superação da própria finitude, que só conseguirá realizar na experiência de existir em plenitude, uma forma de ser problemática, em face da efemeridade inerente ao ser temporal. Embora na unidade do ser absoluto no qual tudo se integra a morte não exista, a lembrança desta é uma ameaça permanente nas elaborações da subjetividade de cada um de nós seres temporais conscientes, e se nos apresenta como uma nuvem ensombrecendo os prazeres que cada um vivencia no seu dia a dia. No fundo tudo converge no desdobramento da luta do ser consciente para conviver com seus limites temporais. Mas esta luta, fruto da consciência de nossa finitude não faz sentido uma vez que não existimos, enquanto seres históricos, fora do tempo e do espaço; para sermos, precisamos estar inseridos no universo físico e é imperioso aceitar a impermanência do ser temporal, abraçando-a conscientemente, para manter a unidade absoluta sem a qual nada existiria. Ou seja, falando por cada um de nós: todo esforço no sentido de empoderar-me se resume na luta em prol da unidade do todo que me eterniza. Em cada mudança me realizo ao contribuir para a unidade do todo. Só assim ganha sentido para o indivíduo a precariedade da comunidade humana. O grande problema do homem é a dificuldade de cada um impregnar-se com a perfeição do todo absoluto, integrando-o, sem tergiversar, sem qualquer restrição, mesmo consciente da condição momentânea de ser temporal. O universo, incluindo nossa própria existência está governado por leis eternas inerentes ao próprio Criador (Deus). Um místico dirá: Tudo faz parte do plano de Deus para fazer-nos caminhar sob sua vontade, garantindo a unidade universal.
 Compete-nos, obviamente, preencher os pressupostos no sentido de alcançar o êxito desejado na existência de cada um sem conflitar com a harmonia do todo universal. Esta atitude positiva implementada inteligentemente será a alavanca dos acontecimentos cuja evolução determinará o desfecho favorável dos projetos que alimentamos centrados numa existência plena de realizações e satisfação pessoal. Esta perspectiva  positiva  demandará que encaremos a responsabilidade de criar condições favoráveis à realização dos projetos existenciais concebidos e sustentados pela esperança de que o melhor está por vir. É salutar a predisposição para a alegria de viver assumida conscientemente na espera confiante da realização de um projeto global intensamente desejado. Como uma construção mental esta expectativa independe da realidade aparente e é assumida a partir do momento em que nos esforçamos para construir um projeto coerente,   apostando nele. Assim, mesmo que depois não venha a tornar-se realidade, no momento em que jogamos todas as fichas na realização projetada já se produzem os efeitos subjetivos esperados, antecipando-se, ou melhor, confundindo-se, na vivência existencial de cada um, com a concretização do projeto no qual se está empenhado. Nesta perspectiva o ser consciente pode superar os medos inerentes à consciência dolorosa da impermanência de tudo, suavizando a angústia existencial e ampliando, na subjetividade, os limites temporais da realidade física.
O tempo é um sumidouro de presentes que se sucedem  interminavelmente. A expectativa positiva de realizações futuras desejadas minimiza o sentimento da efemeridade do vir a ser pessoal; enfatizá-la (a expectativa) fortalecerá o ânimo para prosseguir na jornada existencial, libertando-a da armadilha da inanição provocada pelo desespero que espreita a consciência da própria contingência. Ao perder a esperança, o ser consciente mergulha num beco  sem saída, limitado à realidade incômoda de sua temporalidade. Pois viver o presente significa ultrapassá-lo, ou seja, para que haja futuro é preciso que o presente morra. Este é o ponto de partida de uma contradição insolúvel representada pelo desejo de ser eterno que colide com a efemeridade essencial inerente à própria natureza do mundo temporal. A solução seria viver o presente absoluto, ideal incompatível com a estrutura temporal da existência enquanto realização humana. Todavia, a visão pessoal positiva do vir a ser existencial, inclusive a noção de eternidade que se consegue projetar, em pensamento, vale como real na medida em que a vivenciamos plenos de fé, como algo atual ou possível. A distância entre o real vivido e o possível fica reduzida pela intensidade volitiva inerente à força do  ideal projetado e pela abordagem criativa inteligente das circunstâncias na caminhada em direção ao objetivo desejado, o que  confere a cada momento o sabor de uma realização. A consciência confiante da disposição de alcançar o objetivo colimado caracteriza a sanidade mental, até mesmo quando, sem negar a realidade cremos (temos fé) no aparentemente impossível.  Ainda que a vida se consuma, inexoravelmente em presentes fugidios, no momento de um auto de fé vale aquilo  em que cremos e não a realidade temporal aparente, passageira. Nisto reside a força de quem ama. Pois amar é mergulhar confiante na harmonia da unidade do universo na qual tudo ganha realidade na perfeição do uno indivisível, o absoluto - Deus - princípio e fim de tudo que existe, inclusive a própria consciência. A alternativa empobrecida desta vivência de totalidade é esperar que as circunstâncias fragmentárias de um vir a ser incerto nos conduza a realizações capazes, apenas, de proporcionar, episodicamente, uma alegria de viver ameaçada, todavia, pela morte como termo inevitável de tudo, inclusive do que mais amamos. Nisso consistiria, simplesmente, estar alegre, ou seja, ser envolvido por uma eventualidade feliz, essencialmente transitória, diferente de uma conquista existencial capaz de influir na maneira de lidar com a efemeridade e suas consequências, das quais participamos.
A experiência vivida de uma visão holística de nossa própria existência eliminará o preconceito da velhice, incorporando sem trauma a realidade imediata de estar morrendo minuto a minuto, na medida em que entendemos que o todo é que conta e disciplina a delimitação  das partes que o integram e esse todo é eterno.
Historicamente, almejo encontrar uma atividade que tenha repercussão comunitária, ou, que torne realidade um elo unificante entre os que nos cercam, dando sentido e (re) significando a minha própria finitude. Nesse contexto já se percebe um dilema insolúvel: envelhecer é ruim, mas não sofrer a ação do tempo é uma maldição - reporto-me ao tema do filme que vi recentemente, “A estranha história de Adaline” no qual uma filha se faz passar por vovó para não constranger a mãe que, por estranho sortilégio, não envelhecera.
Vale a pena repetir: meu envelhecimento pessoal, no contexto da unidade universal (absoluta) faz parte da própria criação; descartá-lo é uma aberração. Anulá-lo no contexto universal, para libertar-me do todo e tornar-me independente é contraditório e suicida. Logo me dou conta de que esta independência não tem consistência alguma, uma vez que não existo fora do universo, e este não dispensa toda contribuição pessoal. Para ser precisamos estar inseridos n´ele (o Universo), abraçá-lo conscientemente, para manter sua unidade absoluta sem a qual nada existiria. O grande problema humano é aceitar essa entrega sem qualquer restrição, sem tergiversar. Pois, numa linguagem mística, “Seja sorrindo, seja chorando, tudo faz parte do plano de Deus para completar a sua obra, fazendo-nos crescer” em harmonia com o todo universal, integrando-nos cada vez mais na unidade do absoluto. Esta aceitação é que garante a verdadeira alegria de viver - ser alegre.
Exemplificando, uma composição musical só nos toca profundamente quando fixa um momento significativo na vida do compositor, momento em que ele foi um significante verdadeiro. Só por isso a música conserva-se uma fonte de inspiração. Um ouvinte momentaneamente empolgado vibra de emoção na mesma frequência , remetendo-se à essência de sua natureza romântica... Ser significante e captar o significado original de uma mensagem romântica são os elementos que distinguem uma experiência existencial autêntica. Eu próprio me ponho a assuntar nos momentos em que me sinto desapaixonado ou vazio de insights originais e fico deprimido com a sensaboria  do meu vir a ser divorciado de um sentido sublime (autêntico). Na verdade, olhando minha vida em retrospecto descubro que só vivi realmente nos momentos  em que amei ou criei alguma coisa. Não é o que a gente pensa ou diz que nos faz felizes, mas o que a gente sente e momentaneamente nos aproxima da unidade absoluta, mergulhado num todo indivisível. Não importa o que a gente sente, mas o que enche cada instante a nossa mente (razão e sensibilidade) com expectativas positivas, originais, que raiam o infinito; isso sim, significa ser alegre.
Everaldo Lopes


[1] Depois de sentar-se no trono ele olhou distraidamente para cima e notou que havia uma espada presa por um fio acima dele, apontando para sua cabeça.

sexta-feira, 22 de março de 2019

A perspectiva do fim


A perspectiva do fim.
(Uma abordagem existencial).

               Antes da aceitação elaborada de sua finitude o ser consciente fica refém do medo, da expectativa ansiosa e da angústia. O sofrimento é diretamente proporcional à desesperança da superação de nossa contingência finita.  Este sentimento é inerente à própria consciência reflexiva, diria, algo inevitável posto que o próprio vivente tem ciência antecipada do seu fim, e a finitude biológica anunciada lhe sabe uma sentença fatal, mesmo antes de saber-se portador de grave enfermidade. Em face desta antinomia todos vivemos num equilíbrio existencial precário depois que perdemos a ignorância infantil da própria fragilidade.
               Ao passar dos anos, o olhar adulto sobre o devir humano destaca o medo da morte agravado pela ideia da sua proximidade. Mesmo descartando os exageros hipocondríacos, as pessoas sofrem ao confrontar seu limite temporal, numa perspectiva realista. A vivência será devastadora se não tivermos aprendido a amar, se não praticarmos a generosidade, ou não nos sentirmos amados! É compreensível que nessas circunstâncias, em luta contra medos e incertezas nos perguntemos: - Como reverter esta situação? A resposta é óbvia: Optando pela prática do otimismo e do comportamento generoso, esforçando-nos para respeitar e cuidar do outro, dando assim um passo largo em direção ao amor. Só a prática do amor liberta o homem dos seus limites existenciais.
               O exercício da generosidade começa quando aprendemos a desenvolver empatia e descobrimos em nós mesmos as fraquezas do outro, o que nos faz assumir uma postura solidária mostrando sermos capazes de oferecer amor, ou, pelo menos, o respeito que o outro merece. Evidentemente, todos esses movimentos interiores só produzem os efeitos esperados quando vividos existencialmente e não apenas formalmente.
O amor ao semelhante, a uma causa ou ideal significativo é o grande antídoto para o medo da morte. E não há empreitada maior e mais respeitável do que a da autoafirmação comunitária de cada um de nós, como pessoa, sob a égide da verdade e da justiça, no esforço de buscar, constantemente, o bem honesto cuja dimensão social fundamenta-se na solidariedade. O compartilhamento comunitário é uma tarefa heroica que exige autoconhecimento, humildade, disciplina emocional, objetividade, e não dispensa a ajuda da misericórdia divina tal é a sua envergadura.  Pois o esforço exigido pela elaboração positiva do sentimento de que tudo é provisório nesta vida demanda um espírito superior e inspiração divina. Ouso dizer que sem uma visão mística da própria existência, será muito difícil a realização cabal da vivência humana de serenidade, e se tornará  deprimente o confronto de cada um  com a própria condição de simples mortal. É preciso reconhecer que o amor (caridade) ancora sua eficácia na misericórdia divina, e o envolvimento existencial com um absoluto que nos empolga é o antídoto definitivo para o “mal” do qual o homem é autor e vítima. Fora deste contexto místico a convivência com os nossos limites resultará sempre numa gestalt aberta, geratriz de expectativa inquieta; e a vitória sobre o mal será sempre uma vitória de Pirro em que o vencedor amarga seu feito no próprio sucesso.
A autoafirmação pessoal exitosa começa com o reconhecimento de que somos perecíveis, mas  a nossa dignidade cresce com o exercício  da consciência responsável de uma missão a  cumprir neste mundo, apesar de nossa impermanência. É verdade que somos contraditórios,  mas querermos elaborar, com simplicidade, as antinomias da existência, esforçando-nos, finalmente, para acolher com respeito o irmão, sem cultivar mágoas ou ressentimentos. Nessa caminhada o amor à verdade não nos deixará enveredar  pelos descaminhos  da condenação leviana do outro, livrando-nos da intemperança e da cavilação.
               Advirto-me de que no desvario de uma perspectiva existencial infantilmente crédula, surpreendemos-nos buscando segurança nas fantasias, ancorados em arrimos discutíveis que desejáramos transformar em fortalezas inexpugnáveis. Parafraseando, diria: algo assim como alguém que se imagina seguro porque sua poupança é expressiva. Na verdade ele não está a salvo de nada além da carência econômica imediata, porque no frigir dos ovos, tudo passa, nada é definitivo. Situação equivalente é a do homem que cuida com esmero do seu condicionamento físico e imagina-se livre das doenças que acometem os sedentários e glutões. Todavia a proteção conferida pelos cuidados preventivos realmente existe, mas é limitada, porque há fatores genéticos cujo determinismo o exercício físico e a dieta sadia retardam, mas não anulam totalmente. Todos esses cuidados são recomendáveis, mas na avaliação dos seus resultados não se pode confundir a menor probabilidade de ocorrência de um mal, com a segurança de estar definitivamente livre dele. É bom sentirmo-nos confiantes na reserva vital que um bom condicionamento físico nos garante, tal como é compensador ter um sono tranquilo por nos sentir libertos de aperturas financeiras, confiando na poupança acumulada. Porém, mais sábio do que fiar-se em defesas vulneráveis, é vivenciar que a maior segurança consiste na aceitação humilde objetivamente posta da insegurança total, confiante na misericórdia divina. Isto equivale a investir num arrimo interior absoluto (Deus), o sustento íntimo que só a fé nos confere, necessário para continuar de pé quando tudo ao redor está ruindo. E ao aceitar com serenidade a insegurança total, com fé na proteção da misericórdia divina, nada mais sobra para causar insegurança. Certamente esta aceitação é o resultado difícil de uma ascese rigorosa ao longo do processo de individuação.
Estamos morrendo todo o tempo, esta é a condição da própria vida; não se pode viver sem morrer, instante a instante, na medida em que  vivemos. E nesta perspectiva não se consegue superar a vivência da dicotomia vida / morte senão mediante a inserção pessoal numa experiência mística que transcenda a antinomia do nosso vir a ser contingente, incluindo-se o ser consciente num todo absoluto significativo, mediante uma experiência existencial de confiança no amor divino universal.
               A consciência reflexiva depende, operacionalmente, do servomecanismo biopsíquico desenvolvido no homem através do sistema nervoso central. Neste evento singular na história da vida (revolução cognitiva), transpomos um pseudo-hiato entre a infraestrutura biológica e a superestrutura dos sentimentos e do pensamento logicamente articulado. Considerando o todo - a gestalt consciência mundo - esse hiato virtual representa a dobra[1] entre a bioquímica dos neurônios cerebrais e o pensamento, entre o biológico e o espiritual, entre a ciência fenomênica imanente e a dimensão metafísica do ser que se transcende pela consciência. É neste pseudo-hiato que se insere a experiência mística, da prática Zen ao êxtase descrito por São João da Cruz. Este é o momento em que o espírito onipresente, mas imperceptível, mostra-se da maneira mais ostensiva, urdindo pela fé um contraponto autoconsciente na polifonia da vida.[2] Exatamente por isto a complexidade humana não se exaure no fenômeno biopsicológico e exige o arremate místico para consumar-se. No pseudo-hiato entre o biológico e o existencial se evidencia o Deus inconsciente de que fala Victor Frankel, ubíquo, apenas vivenciado no  subjetivismo do ser consciente como um Alter-Ego que, recursivamente, acaba espelhando o próprio ego individual. É que o Absoluto se revela à nossa contingência e conversa conosco na mais total intimidade, embora escutemos apenas a nossa voz e vejamos apenas a nós mesmos. É que se dá a conhecer o mistério tremendo da parceria entre a imanência e a transcendência, entre o homem e Deus.
               Se a solução do problema humano não é racional, filosófica, porém mística, a oração será o instrumento adequado para proteger o homem contra a devastação do medo da morte e da angústia existencial. Despindo-me do racionalismo frio, retomo a postura ingênua para, numa conversa honesta com o Criador, evocar as condições do momento existencial perfeito numa Oração.

                                                  Oração

Deus permita-me a graça de vivenciar a unidade consciência - mundo, na intersecção das dimensões imanente e transcendente do meu eu mais profundo.
Amparado pelo mistério da relação criatura–Criador, só em Ti encontro a força necessária para cumprir a missão que me reservaste neste mundo, alimentando a esperança de alcançar a paz interior, elaborando com simplicidade as antinomias da existência, acolhendo com respeito meu irmão, sem cultivar mágoas ou ressentimentos, perfilhando na comunhão fraterna a paternidade amorosa de Deus.
           
Everaldo Lopes                               




[1] Conceito epistemológico definido por Deleuse.
[2] Um dia, a humanidade inteira, oceano em calma,
 há de fazer numa só oração reunida, da razão e da fé os dois olhos da alma, da verdade e da crença
 os dois polos do mundo. Antero de Quental em A velhice do Padre Eterno.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019


Desvio da maturidade pessoal
O comportamento de quem não reconhece os próprios limites é inconsequente e ridículo, ao mesmo tempo. A farsa se revela quando o protagonista desta incoerência supervaloriza-se, minimizando o compromisso de solidariedade necessária ao convívio ético da coletividade humana. Uma pessoa com essa característica acaba malversando suas potencialidades sociais através de  manifestações que não retratam a simplicidade dos sentimentos autênticos de fraternidade e liberdade dignificantes do ser humano. Embalada pela ambição de “ser mais”, ela tenta esconder as próprias  limitações, e recorre à manipulação de seus pares para obter deles a aprovação. Seu objetivo maior  é passar uma autoimagem valorizada mais sólida e virtuosa do que na realidade é. Tal pessoa pode até não ter consciência da própria má fé, sendo seu procedimento autopromocional resultado de uma visão infantil das relações sociais; por isso mesmo quando falha na sua realização pessoal ela se queixa da falta de colaboração dos circunstantes; frequentemente arrepende-se das próprias escolhas, e  lamenta-se por não haver sido orientada em tempo hábil para agir no sentido de obter o sucesso desejado; está, sempre, a explicar-se ou a justificar-se, deslocando para longe de si a responsabilidade pelo insucesso.
Nunca se sabe o que tal pessoa  pretende com seu discurso: transmitir o que  diz, explicitamente,  ou escamotear algo inaceitável que tenta esconder. Ela se inclui entre as que não suportam a própria carência e insistem em confundir fantasia e realidade nos seus projetos de vida, esperando que os outros aceitem naturalmente seu descompromisso com a realidade.
Este perfil além de risível e patético  é profundamente desagradável para os circunstantes, colegas ou familiares que desejem levar a sério uma relação intersubjetiva sincera. O convívio prolongado com esta pessoa pode se tornar um desafio para os mais próximos empenhados na construção de uma intimidade confiável, porque se lhes exigirá, a todo instante, desconsiderar o equívoco proposto pelo outro. Submeter os circunstantes a esse constrangimento é já um desrespeito à sua integridade intelectual e moral.  Pior é que a tentativa de desmascarar a farsa, certamente daria início a uma discussão interminável da qual o farsante subtrai a objetividade de um julgamento honesto para encobrir o próprio erro. Faz-se necessária muita disciplina interior para não denunciar o logro da pessoa dissimulada, e não repudiá-la de pronto, jogando fora suas virtudes juntamente com as cavilações. Ela é uma mistura esquisita  de carência ousada na prática de manipulações improvisadas em arrebatamentos românticos que se desfazem, no convívio subsequente ao primeiro encontro efusivo. Esta mescla de tendências mal articuladas condiciona contrastes inevitáveis. A incoerência é a marca registrada desse comportamento. Não é raro, por exemplo, ver a pessoa dissimulada humilhar um subalterno ou mesmo um “igual” depois  de participar (?), piamente, de um ritual comunitário na Igreja que frequenta; propalar ideal elevado, mas fracassar em realizá-lo, atribuindo o insucesso, tal qual uma criança,   à falta de colaboração dos circunstantes, nunca a si mesma. É possível que sofra ao tomar consciência da própria incoerência. Mesmo assim não nos deixa ajudá-la porque a sua vaidade não lhe permite abandonar os próprios enganos, preferindo pousar de rebelde a confirmá-los publicamente. Mas, tão pouco,   se pode odiá-la porque, eventualmente, tem gestos de doação que por vezes refletem um cuidado genuíno com o próximo; embora, torne-se invasiva da autonomia do outro pela insistência autoritária no gesto de ofertar algo a alguém, a título de ajuda. Resistente à aceitação dos seus limites, essa pessoa  não consegue dosar nas suas manifestações  os componentes  racional e emocional. Isto não a ajuda a construir uma cosmovisão dentro da qual se realizem, por excelência, todas as potencialidades humanas. A personalidade inconsequente luta  para edificar uma existência significativa, mas falha por conta do seu comportamento incongruente. Para ser autêntico alguém precisa viver o sentido que dá à própria vida na convergência de todas as virtualidades da alma (racional, sentimental, estética e ética), uma elaboração difícil para quem cede à ilusão de ser mais do que realmente é. Na esteira desta trajetória ela não  consegue largar pelo caminho desejos interditos pelo exercício coerente da consciência reflexiva e vai caminhando entre o ser e o  nada, subestimando a própria malevolência, com  os olhos postos em objetivos inalcançáveis. Nesta caminhada cada passo pretende ser uma conquista, mas a cada instante um escorrego revela a farsa encenada. Escapar desse risco custa uma ascese laboriosa que depende, fundamentalmente, da coragem de ser, no caso, mascarada pelo desejo incontrolável de autovalorização e prestígio pessoal.
É óbvio que para o ser humano, a consciência dos limites pessoais é dolorosa e exige saber praticar a liberdade, responsavelmente, assumindo  o risco de errar no encaminhamento do próprio vir a ser; demanda o reconhecimento do erro eventualmente praticado          voltando atrás para corrigi-lo se possível. Eis o sinete da existência autêntica. Entende-se desta forma o porquê algumas pessoas se escondem em estereótipos culturais ou transferem para outrem a responsabilidade dos seus insucessos. Esse comportamento reflete o medo de ser livre que também sepulta a própria originalidade. Então, para compensar, criam-se fantasias gratas à vaidade de exibir uma imagem valorizada, embora falsa, marcada pela inautenticidade. Diante do desejo imenso de sucesso um recurso frequente para suprir a própria incompetência é o apelo infantil aos poderes mágicos de rituais obsessivos.      Obviamente, este recurso não se confunde com a vivência da unidade mística do absoluto intangível, única abertura salutar para a solução das antinomias existenciais que a  razão não pode resolver sozinha. Nesta perspectiva, a unidade mística do absoluto repousa na lógica complexa que rege a integração de tudo que existe, na qual se anulam todas as diferenças, e torna-se transparente que tudo tem a ver com tudo. Este vislumbre racional abre as portas para a fé no criador e na providência divina.
 Na plenitude da maturidade pessoal  a verdadeira atitude mística não se propõe a pedir favores, consiste, sim, na doação de cada um à realização do plano de Deus, atitude em que se afirma a transcendentalidade do todo absoluto. Processualmente, essa entrega se confunde com  o apelo dos simples ou dos sábios para o encontro definitivo do homem com seu alter ego, com o seu Deus inconsciente. A fé que esse processo exige implica em cultivar uma ingenuidade adulta,  com a seriedade de um crítico realista. Ela (a fé) é necessária para transcender o absurdo lógico de um absoluto inexplicável pela razão prática, para escapar do absurdo existencial (desnaturante) de ser para a morte ou para nada. A fé repousa na ingenuidade necessária para deixar-nos invadir pela vivência numinosa do absoluto cifrado no UNIVERSO. Perseguindo o mesmo objetivo, as Religiões se esforçam para concentrar todo esforço catequético na promoção do encontro do homem consigo mesmo sob o signo do sagrado. E isso faz sentido, demonstrando que  a solução do problema humano se resume numa experiência mística. Quem não tem a humildade necessária para prolongar os próprios limites históricos numa realidade transtemporal inexplicável pela razão, malversa cada vez mais a capacidade de construir um arremate existencial definitivo por um ato de fé que cria aquilo em que se crê, mesmo sem entender.

                                               Everaldo Lopes (1)


sábado, 10 de março de 2018

A ética e o amor no comportamento humano



 A ética e o amor no comportamento humano.
Por definição o homem é um ser consciente e responsável. A coerência desse modo de ser elevada à última  potência deverá conduzir a um comportamento  ético. Na prática, os procedimentos inerentes  acabam elegendo normas  cujo cumprimento cerceia as manifestações de egoísmo das pessoas no convívio social. As regras eleitas passam a ser, então, a base de uma pedagogia manipulável mediante gratificações e punições oferecidas e impostas, respectivamente, no sentido de estimular condutas desejáveis e coibir as indesejáveis, em benefício de uma convivência pacífica. Mas quando o homem vive na plenitude de sua capacidade racional, de sua sensibilidade emocional e da própria vontade é levado a agir solidariamente; fazendo empatia com seus pares  e vivendo visceralmente um “nós comunitário” vai além da simples obediência aos cânones éticos direcionados primacialmente à obrigação de respeitar o bem do outro. Uma alma evoluída ama o seu próximo como a si mesma, e dessa forma se capacita a elaborar suas próprias leis. Nesse sentido alinha-se  à afirmação  de Santo Agostinho quando disse: “Ama e faze o que quiseres”. Essa orientação está relacionada à prática do amor-caridade que implica necessariamente na realização do bem estar do outro, ou seja, na prática de ações espontâneas resultantes do exercício da empatia, comum na vida de muitos santos, e que representa a mais elevada forma de darmos testemunho de nossa própria humanidade. Em face de o comportamento empático não ser frequente como tendência natural determinante, verifica-se a necessidade de disciplinar a conduta  das pessoas o que torna indispensável a imposição do exercício de normas éticas cujo descumprimento expõe o infrator a punições determinadas pelo Estado de direito chamado a policiar as relações interindividuais numa sociedade organizada. Ou seja, quando não prevalece o comportamento empático amoroso impõe-se a intervenção de uma autoridade externa mediante aplicação de códigos legais para controlar a ação dos indivíduos no convívio social. Ai está a diferença entre a visão ética e a leitura existencial empática da conduta solidária dos que integram o grupo social humano. A visão ética é policialesca, enquanto a amorosa (empática) emana do sentimento de identidade entre as pessoas que compõem a coletividade. Não é certo, porém, que a imposição da prática do dever moral possa levar por si só à realização pessoal do amor ao  próximo, todavia, somente a vivência deste amor solidário é capaz de transformar os indivíduos.  Quando isso acontece é por virtude de um salto de qualidade na evolução do homem, o que caracteriza uma verdadeira conversão. O comportamento normativo (ético) é voluntaria e formalmente virtuoso, porém não necessariamente empático (amoroso); nele impera o respeito ao outro pela submissão a uma coleção de leis, e não pelo amor, embora, convenhamos, o respeito venha a ser o primeiro passo na direção do amor. A diferença fundamental é que na conduta amorosa propriamente dita há um envolvimento cognitivo afetivo harmonioso, absorvente, entre as pessoas; ao passo que na conduta apenas ética existe em perspectiva a espera de um ganho, ou o temor de uma privação que alimentam o esforço comportamental para uma convivência harmoniosa. No primeiro caso (conduta amorosa) o homem é livre, não há amor sem liberdade; no segundo, os pares estão sob a tutela (submissão) de códigos legais que protegem a harmonia social. A disponibilidade de cada um para a doação de si mesmo inerente à  prática do amor-caridade é que liberta o homem do medo, inclusive de sua própria morte. Daí porque dizemos que só amando o bem do outro o homem é verdadeiramente livre.
Tomando a prática do amor caridade como o ápice da perfeição humana evidencia-se que o homem nasce com a capacidade de amar, porém deverá desenvolver esse talento mediante disciplina pessoal envolvendo o domínio das tendências egoicas que se insinuam espontânea e insistentemente. No caráter evolutivo do homem está implícita sua própria perfectibilidade, capacidade que envolve a administração competente de todas as funções psíquicas superiores do ser consciente (consciência reflexiva, sentimento e vontade) exigidas na prática do amor-caridade.
Todas as mazelas que afetam a humanidade decorrem de tropeços na dinâmica psicossocial  que obstruem de forma pessoal  e estrutural a prática do amor-caridade.

Em resumo o amor-caridade é necessariamente ético, mas a moralidade das relações humanas não é necessariamente amorosa.
Everaldo Lopes