A intemporalidade do presente; o livre arbítrio, transcendência e imanência da “existência”.
É impossível delimitar o “presente” fugaz, mas nele se formaliza a escolha pela ação emergente. Neste transe o homem tem a liberdade de fazer sua opção. Embora esta liberdade esteja limitada por condicionamentos culturais e pela circunstância que envolve o ser humano, o indivíduo não está inteiramente privado de assumir uma postura existencial peculiar, de falar, e de agir de acordo com decisões pessoais. O “livre arbítrio” está vinculado a esta liberdade restrita. Neste contexto, a escolha feita no presente evanescente se eterniza pela atualização[1]! Em milésimos de segundo, define-se irrevogavelmente uma situação de fato. O gesto esboçado, a palavra dita, a ação praticada são imodificáveis, tornam-se eternos. O “presente” é a janela através da qual o ser consciente pinça e atualiza uma das infinitas possibilidades do “ser”. Isto constitui a base dinâmica da existência pessoal.
Embora não possa ter certeza absoluta sobre o acerto das suas escolhas, o homem precisa fazê-las para existir. E o faz, não obstante as limitações que o constrangem, vivenciando uma centelha de esperança no fundo da consciência de sua própria fragilidade. Não tem certeza de nada, mas espera superar dificuldades e realizar projetos que lhe são caros... É exatamente neste momento subjetivo da existência (saber-se frágil e carente de certezas) que, humildemente, o homem fica sensível à idéia mística de uma intervenção sobrenatural... Porém, coerentemente sabe que esta intervenção demanda uma intimidade essencial entre a criatura e o Criador[2]... Absurdo lógico[3] cuja aceitação cabal é a essência da fé[4]. Todavia, quando a fé já não se tenha manifestado, plenamente, como graça divina, não há uma metodologia eficaz para o seu ensino aprendizagem. Não basta um simples ato de vontade para crer. A fé envolve adesão e anuência a uma realidade transcendental absoluta inacessível à crítica racional. O intelecto pode colaborar, até certo ponto, oferecendo algum suporte para superar a contradição “existencial”[5] entre a contingência e a transcendência.
O existente deverá contextualizar-se num todo significativo que o transcenda, para que o discurso existencial seja assertivo, realista, criativo, esperançoso. Isto implica num envolvimento místico no qual o existente encontra o melhor remédio para o seu desamparo de criatura consciente. Na indigência de “ser” contingente o homem espera ouvir do Poder Supremo a promessa de que nunca será abandonado à sua sorte, e nada lhe será cobrado que não possa pagar... experiência subjetiva que exige condições psíquicas afetivas especiais presentes, igualmente, na ingenuidade da criança e na sabedoria do santo. Em ambos os casos a contingência e a transcendência se misturam numa vivência intuitiva de fé. Sem a “crença confiante” na transcendência que lhe é inerente, o ser consciente fica preso numa armadilha. Pela análise introspectiva da própria realidade subjetiva sabe que se transcende no ato da reflexão, mas não pode explicá-lo, objetivamente... sabe-se contingente, e não consegue realizar-se, integralmente, nesta condição... mas não concebe como harmonizar na sua unidade pessoal a transcendência e a imanência inerentes à condição humana. A “fé” intermedeia a imanência e a transcendência mediante uma intuição comovida – chave do enigma pessoal e intransferível do ser consciente. A “entrega mística”, feita a uma “transcendência absoluta” vai além da pura reflexão, exige a submissão pessoal a um “absurdo lógico” assimilável, pela fé.
É angustiante perceber, racionalmente, que a solução do problema humano é mística, e não estar aquecido pela fé, o único caminho de acesso a uma transcendência que a razão não alcança. Para os que vivem esta dificuldade, todavia, a especulação coerente sobre o cosmo e a vida, a partir da ordem crescente que se constata no Universo constitui um ponto de partida para vencer as restrições impostas pelo “racionalismo materialista”. Esta especulação permite ilações que extrapolam o conhecimento positivo, abrindo espaço para a elaboração de uma mundividência espiritualista. Por exemplo, é razoável o argumento que se segue... Se há uma ordem na construção do mundo e da vida, se toda ordem pressupõe uma intenção, se não há intenção fora da esfera da consciência, é forçoso que haja uma Consciência Universal! Portanto, a lógica especulativa nos conduz a uma realidade abstrata que a própria razão não consegue entender e descrever objetivamente. Mas isto ainda não basta. A elaboração intelectual precisa transformar-se numa forte convicção, consolidada no sentimento de comunhão profunda com a “transcendência absoluta”, patenteada numa vivência da unidade criatura / Criador. Nisto reside a essência da experiência mística estruturada pela fé. O ser consciente só consegue superar cabalmente a angústia existencial diante da precariedade congênita de sua contingência, sob os auspícios da fé. Confiante no amparo transcendental, ele realiza o seu destino, imprimindo um sentido definitivo na sua existência ao participar da unidade comunitária de todas as consciências (em Deus[6]). Somente vivendo a presença inefável de Deus mediante o sentimento solidário de integração comunitária, o ser consciente ganha significado definitivo, integrando-se num “Todo” absoluto.
A mobilização intelectual, centrada na observação crítica da intemporalidade do “presente existencial” evidencia um contraponto - a eternidade... Vejamos. O passado e o futuro se configuram sempre em relação ao “presente”. Passado e futuro são definíveis, respectivamente, como “memória congelada” e “expectativa” a ser confirmada, separadas no “agora” pelo presente fugidio. Especulativamente, poderemos considerar o “presente” como um “ponto de acumulação”[7] que se move constantemente no “agora” sem que se possa fisgá-lo. Sabemos que no presente se atualizam a ação, o gesto, a atitude, só confirmados e manifestados subjetiva e objetivamente, ao tempo em que se tornam “lembranças” (passado); enquanto as expectativas permanecem como projetos, meros movimentos subjetivos que podem ou não consumar-se... quimeras que apontam para um futuro possível, mas não real, ainda. O “presente”, conquanto essencial, existencialmente, não tem expressão temporal definível como o “agora”. Ora o que é atemporal é eterno! O “presente”, então, só pode ser entendido como um corte no tempo que separa o passado e o futuro. Seria como a janela da eternidade no tempo. Nesta perspectiva, o pensamento tangencia a transcendência absoluta que escapa totalmente ao conhecimento racional. Na prática é o “agora” que o homem assume como seu presente. Na verdade, o presente real não seria um intervalo[8], mas uma fenda no tempo, preenchida pela eternidade. Assim essa análise especulativa do “agora” sugere à consciência crítica uma ligação entre a “existência” precária (temporal) e a “eternidade”, reino do Espírito que reúne todas as possibilidades. Desta forma, um raciocínio linear nos coloca de saída no âmago do caráter transcendental da existência. A abordagem racional da realidade não substitui a fé, mas abre uma janela para além do mundo visível, aparente, predispondo o descrente para as verdades de fé... Mesmo sem vivenciar a experiência mística, o existente abre a mente para a transcendência absoluta sumariamente negada pela abordagem materialista da realidade.
Continua no próximo texto.
Everaldo Lopes
[1] No aristotelismo, movimento pelo qual uma realidade se atualiza, se efetiva, adquire sua forma final; passagem da potência ao ato.;
[2] Numa visão criacionista, monista o Criador e a criatura estão indissoluvelmente unidos. Fora disso ter-se-ia que admitir dois princípios absolutos, tese conceitualmente inaceitável uma vez que o absoluto tudo inclui, nada lhe fica de fora.
[3] Diferente do absurdo existencial!
[4] A primeira virtude teologal: adesão e anuência pessoal a Deus, seus desígnios e manifestações.
[5] Modo de ser próprio do homem.
[6] Princípio supremo de explicação da existência, da ordem e da razão universais, e garantia dos valores morais. (Aurélio Sec.XXI)
[7] Ponto em cuja vizinhança arbitrária existe sempre pelo menos um ponto de um conjunto; ponto-limite.
[8] Lapso de tempo que medeia entre dois momentos.