sábado, 24 de outubro de 2015

Amor e ódio



Amor e ódio são emoções inseparáveis na complexidade psicodinâmica das relações humanas. É surpreendente essa química entre sentimentos aparentemente opostos que se alimentam reciprocamente, ora predominando um, ora prevalecendo outro. Quando um deles reina isoladamente o outro se esconde na profundidade subjetiva. A intimidade entre estas duas emoções revela que elas não são opostas porque não se anulam e até, de certa forma, se reforçam... Pode haver antipatia à primeira vista, mas ao ódio antecede sempre uma relação amorosa ou, pelo menos, de conhecimento. Por isso diz-se com toda propriedade que o verdadeiro oposto do amor é a indiferença e não o ódio que é apenas a sua outra face. Ambos, porém, por motivos psíquico-afetivos complexos mantêm os seus protagonistas unidos. É impossível desliga-los enquanto estiverem empolgados pelo amor ou pelo ódio. A  diferença é que a experiência amorosa é prazerosa, enquanto a do ódio é dilacerante, aflitiva.
As formas de amar se distinguem pelo comportamento dos amantes. O amor selvagem que envolve as pessoas apaixonadas faz suas próprias leis. Ele se apresenta sob a forma de forte emoção e dessa experiência arrebatadora a literatura nos traz exemplos emblemáticos de amores consumptivos e trágicos. Em contraponto com paixões avassaladoras, também há registros literários de ódios destrutivos alimentados por toda uma vida.
Por outro lado, o amor conjugal, berço da família, segue outra linha comportamental. É responsável, comporta a prática do bom senso na sua evolução, submete-se aos padrões éticos do grupo, portanto é disciplinado e controlável. Ele se distingue porque se constrói no convívio respeitoso, carinhoso, terno e responsável dos seus  protagonistas. Metaforicamente, compararíamos a paixão com uma fogueira que produz calor intenso, consumindo-se em cinzas; enquanto o amor conjugal se compararia a um sistema de calefação  autossustentável que mantém estável a temperatura indefinidamente. Nesse último caso, o amor perde sua tonalidade egoísta, purificando-se ao calor da solidariedade que preside os  laços de família nos quais sobressaem a responsabilidade, a amizade e o amor-caridade que busca o bem do outro sem a obrigatoriedade de qualquer recompensa.
O amor selvagem (paixão) é incompatível com o compromisso necessário à preservação da estabilidade social da coletividade humana. Aliás, é oportuno registrar que, por definição, a condição humana se caracteriza pelo exercício da consciência livre e responsável. A coerência dessa prática implica na construção de uma ordem indispensável à sobrevivência da humanidade, o que faz do amor selvagem (paixão) um comportamento marginal do ser humano, ou seja, uma conduta que retarda a evolução da espécie. Por ser indisciplinada, a paixão[1]  cria  entre os seres humanos situações incompatíveis com a própria humanização. A liberdade, diferencial da condição humana, fica coarctada pela paixão. E a consequência disso é fatal. Suprimida a liberdade, o homem perde a dignidade de pessoa reduzindo-se à condição de objeto, e como tal não pode amar. Porque sem liberdade o amor perde seu caráter essencial, transformando-se num sentimento de posse ou de submissão. Ora, o  par apaixonado, por definição, nega-se mutuamente a dignidade de ser livre na medida em que  se deixa escravizar pela paixão. É esta escravidão que transforma os apaixonados em objetos, um para o outro, e como tais, sem liberdade, portanto, privados da possibilidade de amar. Só nessa situação justifica-se a afirmação de Sartre: “o amor é uma fraude”.
Por outro lado, a paixão por um absoluto unificador, objeto de fé,  comporta outras considerações. Nesse caso a paixão corresponde a um ato de entrega consciente, incondicional, ao poder supremo, acolhedor, perfeito por sua própria natureza. Consiste na consagração a um absoluto significativo. Esta doação é a saída mais adequada para a angústia existencial marcada pela vivência torturante da finitude biológica que martiriza o homem. A imersão do homem no contexto de uma totalidade transcendental significativa torna-o participante de uma comunidade universal em que as fronteiras interpessoais são superadas pela intersubjetividade amorosa na qual todos se realizam plenamente numa comunidade solidária.
O amor selvagem e o ódio não são, porém, necessariamente fatais. Mediante rigorosa disciplina da razão e da vontade, funções psíquicas superiores que marcam o ser consciente, é possível controlar as catexes[2] que alimentam as paixões, redirecionando a energia psíquica em favor de ações construtivas da paz coletiva. Esse processo de “sublimação”[3] favorece a atualização da condição humana. Impõe-se, pois, ao homem lutar, com todas as reservas psíquicas, para transcender as paixões menores em favor da paixão maior vivida numa experiência mística.
O grande problema do homem é a conquista da harmonia entre as antinomias implícitas na sua condição de ser consciente livre e responsável. Nessa situação reconhece sua finitude, mas aspira à eternidade, quer tudo conhecer e sabe que seu conhecimento será sempre limitado, deseja poder tudo e tem de admitir a impotência de sua própria contingência. Diante destas contradições insolúveis à luz da consciência clara, estamos convencidos de que o remate do problema humano é místico e não racional. A participação apaixonada  num absoluto transcendental significativo integra o homem na realização suprema de uma comunidade universal solidária onde não há contradições e o amor reina absoluto.
Everaldo Lopes


[1] Sentimento que se sobrepõe à lucidez e à razão
[2] “Aplicação, consciente ou não, de energia psíquica em pessoa, coisa ou ideia” (Aurélio)
[3] Processo inconsciente que consiste em desviar a energia da libido (q. v.) para novos objetos, de caráter útil.

domingo, 27 de setembro de 2015

Hino à vida



A paixão pelo conhecimento tem que ver com o desejo de explicar o mistério do cosmo e da vida sobre o qual se desdobra o vir a ser existencial[1]. Daí o esforço intelectual que absorve o pensador em busca de respostas para suas indagações. E mais, quanto mais conhecimento tiver maior será sua compreensão da realidade, corroborando o acerto das escolhas que faz.  Arrebatado pela curiosidade o homem aspira a saber cada vez mais sobre a verdade conjuntural, ciente porém de que esta aspiração nunca será completamente satisfeita. O pensador percebe os seus limites racionais e Incapaz de superá-los  é levado a projetar a atenção num Absoluto[2]  criador a fim de explicar a existência do mundo e a sua própria.  Nessa perspectiva, o indivíduo cria uma realidade que não pode objetivar,  vivendo-a como crença que só se torna uma verdade existencialmente consistente quando é consumada  emocionalmente com grande convicção.
O ser consciente, reflexivo, é capaz de usar os próprios recursos racionais para manipular sua circunstância, tendo em vista a conquista de objetivos escolhidos em função de necessidades práticas, ou da afirmação de um ideal. Esta capacidade se acompanha de flexibilidade comportamental construtiva, excepcional na história da vida.  Mas o dom especial do pensamento reflexivo e da consciência inclui a percepção da finitude pessoal, o que gera conflitos racionalmente insolúveis, ponto de partida da ansiedade e angústia existenciais. Para superar esse mal-estar psíquico o homem confia em poder experimentar uma  vivência mística que o  faça sentir-se absorvido na paz de uma transcendência na qual encontre o sentido de sua própria existência. Isso implica ter fé num Absoluto que sustenta o ego  inseguro diante da consciência da finitude.  A necessidade de o homem transcender-se só se satisfaz neste Absoluto que preenche a “falta” ontológica da qual o ser consciente se ressente, confusamente percebida pela razão e afetivamente perturbadora para o eu pensante.
Indiferente às especulações metafísicas, o Poeta propõe ao homem inquieto: “Dorme teu sono, coração liberto, dorme na mão de Deus, eternamente”[3]. Entendendo que dormir na mão de Deus é conviver intimamente com Ele na plenitude de uma experiência mística. Esta convivência é vivenciada psicologicamente como a intimidade subjetiva com uma intuição reveladora da transcendência absoluta.
Na visão de mundo  espiritualista, monista, criacionista, a morte não é mais do que uma passagem para outro nível de existência. Nas cogitações metafísicas que esta visão suscita vive-se neste mundo a liberdade do espírito, incompletamente, como um estado d´alma, “o estado ideal: alma, o estado divino da matéria”[4]. Pode-se especular sobre  a transfiguração da identidade pessoal, consolidada depois da morte biológica na comunidade de todas as consciências em comunhão com o dinamismo absoluto criativo  de Deus. Mas no nível do vir a ser temporal, o homem consciente da própria finitude só se libertará da angústia existencial mediante a maturidade pessoal forjada no “Amor”[5], no sentimento de coparticipação com seus semelhantes num todo absoluto significativo que transcenda a dicotomia Consciência / Mundo. Este sentimento vivido com todas as potências da alma se exprime numa experiência amorosa que dá corpo à raiz ontológica transcendental do homem, exorcizando o medo da morte e das fantasias acompanhantes, pelo reconhecimento de que o óbito é apenas uma passagem no retorno do ser consciente ao Absoluto que o criou. Poder-se-á, então, dizer com Santo Agostinho: “A morte não é nada. / O que eu era para vocês, continuarei sendo. / Passei a viver no mundo do Criador / enquanto vocês continuam vivendo no mundo das criaturas./ Que o meu nome seja pronunciado como sempre foi, / sem ênfase de qualquer tipo, / sem qualquer traço de sombra ou tristeza. / Pense, sinta, reze por mim. / O fio não foi cortado, / somente passei para o outro lado do caminho. / E vocês que ficaram sigam em frente. / A vida continua sendo linda e bela, como sempre foi”. Com essa linguagem simples o Bispo de Hipona desmistifica a morte biológica, e celebra a beleza da vida temporal que se prolonga na plenitude da vida eterna.
Dentro de uma visão de mundo espiritualista monista criacionista a plenitude humana se constitui num ato de amor, uma entrega incondicional. Não se pode controlar voluntariamente a vivência desta entrega do sujeito consciente ao Dinamismo Absoluto eternamente criativo. A prática amorosa é dom sublime que vai além de um ato voluntário. A rendição pessoal a um absoluto transcendental implica na comunhão amorosa dos homens entre si e com o Criador, experiência existencial inexcedível de fé, vivenciada mercê de uma graça[6] particular. Portanto, o conhecimento não basta para preencher o abismo sobre o qual se constrói a existência, é preciso amar; “Sendo que amar é muito mais que  crer”[7].


Everaldo Lopes


[1] Modo de ser próprio do homem.
 [2] Diz-se da realidade plena, ilimitada, essencial, que não depende  senão de si mesma para existir
[3] Antero de Quental in Sonetos :”Na mão de Deus”
[4] Raul de Leoni – do soneto : “De um fantasma”
[5] Ato de doação incondicional do si mesmo a uma causa ou ao próprio Deus.
[6] Dom ou virtude especial concedido por Deus como meio de salvação ou   santificação.

[7] Raul de

domingo, 23 de agosto de 2015

Viver e existir



Na sua marcha inexorável o tempo consome, até a morte, instante a instante, a vida que ganhamos ao nascer. Obviamente, essa consumpção acontece a todo ser vivo. Resulta de fenômenos naturais. Nada há de novo nessas afirmações. Há um detalhe, porém, que também não é novidade mas merece destaque especial: o homem é o único animal que se dá conta da própria vida e de sua finitude. Isso tem implicações. Entre outras, por ser autoconsciente o homem é capaz de avaliar antecipadamente as consequências sobre a saúde do corpo e da alma, decorrentes do seu modo de viver.  Assim ele se torna em certa medida responsável pela manutenção do próprio equilíbrio biológico. Adotando hábitos alimentares sadios, evitando o sedentarismo, dormindo regularmente etc. pode influir beneficamente na conquista de sua saúde física e psíquica. Obviamente, estas medidas salutares não anulam a ação do tempo. O tempo continua soberano, promovendo o envelhecimento que culmina, sempre, com a morte.
Há uma diferença essencial entre viver e existir.  A vida em si é um processo biológico sujeito às leis da Natureza, enquanto a existência é uma construção cultural feita de escolhas pessoais inspiradas no sentimento, analisadas pela razão e executadas por determinação da vontade que ora atende à razão, ora ao sentimento, ou acaba subscrevendo um acordo negociado entre estas potências da alma humana. Então podemos dizer que em grande parte o vir a ser existencial está em nossas mãos.
As situações que envolvem a vida de cada um exigem decisões responsáveis. É razoável que diante dos problemas familiais, sociais e econômicos que assediam o sujeito consciente, em momentos de lucidez ele se detenha para questionar: como estou gerenciando minha existência? Tenho feito o de que realmente gosto, ou apenas sigo um script cultural? Neste caso assumo comportamentos culturalmente induzidos que não me  proporcionam felicidade?... E descubro que para ser responsavelmente livre sou obrigado a policiar o meu comportamento e muitas vezes tomar decisões que me custam algum sacrifício. Isso é necessário porque o que acontece em cada momento além de nos afetar individualmente tem reflexos sociais que podem prejudicar a harmonia do grupo. Habitualmente pautamos a conduta por valores éticos já consagrados. Todavia, em situações limítrofes faltam parâmetros confiáveis para aferir o equilíbrio das respostas aos estímulos que nos assediam. E nestes casos, não raro, ou transgredimos a ordem estabelecida ou nos reprimimos demasiadamente. Então, embora não queiramos podemos criar com nossa conduta situações desconfortáveis para nós mesmos ou para os outros, promovendo comoções sociais ao nosso redor. Contudo, na falta de uma pauta comportamental pré-estabelecida, temos sempre a possibilidade de encontrar o caminho da coerência no exercício da razão, do sentimento e da vontade, respeitando o outro e a nós mesmos, o que sempre repercute positivamente no bem estar coletivo. A disposição de agir equilibrando nobremente o que estamos fazendo e o que sentimos ser moralmente correto é fundamental para a conquista da paz e autoconfiança de que precisamos para existir construtivamente. Mas a busca em que nos empenhamos para alcançar paz e segurança só se completa definitivamente quando prolongamos, pela fé, o esforço ético-racional deixando-nos empolgar por um valor absoluto  transcendental. Embora sabendo-nos incompletos e vulneráveis a ocorrências imprevisíveis, precisamos assumir o comando da nossa própria existência o que implica em riscos cuja expectativa gera insegurança. Para enfrenta-los (os riscos) recorremos em primeira mão ao conhecimento e à competência complementados pela vontade de proceder corretamente. Mesmo assim não ficamos inteiramente a salvo da possibilidade de deslizes comportamentais. E as pessoas sensíveis se ressentem de suas condutas destoantes das próprias convicções éticas.
A precariedade humana nos expõe à necessidade de amparo moral nos momentos de angústia existencial. Os que têm fé confiam na providência[1]. Aos homens de pouca fé resta confiar na especulação metafísica que sugere uma consciência universal inteligente e eternamente coerente. É ela que garante a ordenação da complexidade crescente da matéria caótica dos primeiros segundos após o “big-bang”, até a vida consciente[2]. Na mística existencial a consciência universal é o próprio Deus que garante a paz do sujeito consciente mediante sua integração na unidade perfeita de tudo que existe. Em ambos os casos o homem alcança a paz interior, sintonizando seu ser mais íntimo com um todo absoluto significativo. Mas esta sintonia só será efetiva quando emocionalmente consumada. Só então o homem sente que o caminho existencial (imanência) se confunde com o ponto de chegada proposto pela fé como uma transcendência absoluta... e sente a paz existencial que a razão sozinha não pode promover.  Este é o mistério da fé.
Dúvidas, incertezas que ensombrecem a paz do vir a ser consciente sempre existirão. Caso a caso, cada um deverá fazer a escolha fundamental entre seguir à risca o que está culturalmente estabelecido, ou vencer a inércia cultural e criar soluções originais no sentido de cumprir a missão da vida consciente no processo evolutivo, ou seja, a de construir uma humanidade solidária. Isso implica em enfrentar a realidade priorizando a responsabilidade de agir eficientemente no sentido da defesa do bem comum, ainda que seja necessário pagar pesado ônus. Essa postura confiante é a mais adequada para a superação da vivência de incerteza que ameaça a integridade subjetiva do homem como protagonista responsável da História. Quando a ameaça é insuportável sobrevém aflição e amargura. Nesses casos, suaviza o sofrimento existencial sabê-lo tão fugaz quanto os momentos de prazer que a vida pode proporcionar. Em última instância, os homens que trilham o caminho místico acreditam em que a realidade mais íntima do ser consciente se projetará além do tempo numa harmonia perfeita na qual encontrará sua plena realização. Essa perfeição já se entremostra na experiência subjetiva do ser consciente, racional e volitivo, mediante a intuição da unidade do todo universal. Este todo é necessariamente um absoluto que é único e perfeito. O referencial dessa totalidade significativa, assumido pela fé, é representado por uma transcendência infinita, totalmente confiável (Deus). Sem esta âncora o projeto existencial fica vinculado a atribuições volúveis, verdades contingentes incapazes de definir com autoridade o papel que cabe ao homem como protagonista da história e da Evolução. Sem um referencial absoluto o homem se perde num relativismo ético perturbador. Uma pauta ética baseada estritamente na razão temporal está sempre sujeita a revisões corretivas. É transitória e não satisfaz a necessidade humana de segurança total. A inquietação resultante deprime o indivíduo que aspira à transcendência absoluta. Na prática, a superação de uma depressão moral, antes que ela se transforme em doença orgânica, implica em o indivíduo erguer a cabeça, deixar de ter pena de si mesmo e buscar alternativas, reavaliando as posturas assumidas.
Até na terceira idade, quando o automatismo biológico começa a falhar, oportunizando a queda da autoestima e reforçando a ameaça de depressão, é possível ter motivação para viver. Para tanto é preciso manter atividade social que contribua para o bem estar das pessoas, exercitar uma ocupação prazerosa e, finalmente, alimentar sonhos e projetos. Esta proposta de uma vida proativa é intrínseca ao exercício coerente da consciência, mas demanda criatividade e determinação. Implica em “apostar todas as fichas” na mobilização dos recursos morais e talentos pessoais, tendo em vista construir um vir a ser capaz de objetivar condições favoráveis para o bem comum. Isso exige um esforço consciente para assumir de forma ativa e confiante atitudes e ações coerentes com um programa social focado na solidariedade.

Everaldo Lopes




[1] A suprema sabedoria com que Deus conduz todas as coisas.
[2] Esta ordem pressupõe uma intenção e consequentemente uma consciência, pois não há intenção sem consciência. No caso teríamos de admitir uma Consciência universal.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

A experiência mística



Desde os tempos mais remotos de sua evolução o homem sente  necessidade de compreender o mundo e a si mesmo. Com esse objetivo empenha-se na busca de respostas para as interrogações que desafiam sua curiosidade. Ao longo do tempo criou enredos mitológicos explicativos, fez filosofia, metafísica, teologia, e mais recentemente espera que a ciência satisfaça seu desejo de desvendar os segredos da Natureza e da vida consciente. As realidades cósmica e humana o põem, respectivamente, diante da matéria em transformação permanente e de fenômenos abstratos como o pensamento e o amor-caridade[1] que transcendem os limites da experiência sensível.  Tudo isso perfaz uma complexidade difícil de penetrar que frustra os esforços da razão humana no sentido de alcançar uma explicação científica sobre  a origem do mundo físico e a natureza da consciência. A falta de um esclarecimento objetivo acerca destas questões abre espaço para conjecturas coerentes. Especulando sobre o acervo  das  informações que já possui, o pensador  sente-se autorizado a afirmar: o processo evolutivo da matéria desde o big bang se fez no sentido de uma “complexificação crescente”[2] que chegou ao seu mais alto nível na perfeição estrutural no Sistema Nervoso Central (SNC) do homem, tornando possível a manifestação da consciência. A ordem evolutiva desde as partículas subatômicas até a vida consciente pressupõe uma intenção (não há ordem sem intenção), e esta por sua vez só existe no âmbito da consciência que, portanto, no caso, teria de ser universal. Isso supõe a preexistência do espírito desde todo o sempre,  que finalmente se manifesta através do SNC objetivando no homem as funções psíquicas superiores (percepção, memória, atenção, raciocínio lógico etc.). Aliás, no monólogo dialogal do ser consciente, o caráter apriorístico conferido ao alter ego que reconhecemos como a “voz da consciência pessoal”, sugere uma transcendência absoluta implícita na experiência subjetiva.  A própria consciência, “atributo pelo qual o homem toma em relação ao mundo (e, posteriormente, em relação aos chamados estados interiores, subjetivos) aquela distância em que se cria a possibilidade de níveis mais altos de integração”[3] não se explicaria mediante reações físico químicas dos neurônios corticais, suposta sede da consciência.
Dotado de consciência e livre arbítrio como um prolongamento de sua evolução individual toca ao homem, agora, a responsabilidade de promover a organização social solidária da coletividade humana, envolvendo todos os homens. Fora disso a espécie Homo Sapiens não sobreviveria, e a própria Evolução interromper-se-ia. Dessa forma com o homem o vetor da Evolução desvia-se, obrigatoriamente, do aperfeiçoamento individual para a mais perfeita organização social.
Há exemplos de participação coletiva organizada em outras espécies animais notadamente entre os insetos. Essas experiências evolutivas que se caracterizam pela divisão do trabalho e certa hierarquia social demonstraram vantagens  incontestáveis para o processo evolutivo. Entre as espécies sociais não humanas prevalece, porém, um comportamento extremamente rígido o que as torna vulneráveis às variações ambientais. Falta-lhes a liberdade para criar e escolher comportamentos adequados de adaptação às mudanças que se sucedem. Ao contrário, a espécie humana privilegiada com a consciência, a razão e o livre arbítrio, ganhou flexibilidade comportamental, ampliando a capacidade de resolução dos problemas emergentes, inclusive, lançando mão da cooperação consciente entre os seus membros. Assim o homem se tornou capaz de superar eventuais dificuldades  intercorrentes no curso  do seu desenvolvimento. Valendo-se de respostas inteligentes é capaz  de trabalhar a Natureza para servir aos seus próprios interesses, e de criar mecanismos intermediários que garantam sua sobrevivência quando as condições ambientais forem hostis. Não é à toa que o Homo sapiens é a única espécie animal que sobrevive em todos os climas do Planeta. Mas esse poder lhe impôs, concomitantemente, a responsabilidade de assegurar a sustentabilidade da Terra, o seu lar. As especulações que vimos de fazer deixam claro que o destino da Evolução está agora entregue ao próprio homem que pode fazer da Terra um paraíso, ou destruí-la. Enorme responsabilidade cujo cumprimento demanda necessariamente uma postura de respeito à Natureza e solidariedade dos homens entre si. Mas para isso, como sujeito criativo e crítico  de suas próprias ações o homem enfrenta a dificuldade de existir harmonizando as dimensões intelectual e afetiva do seu comportamento.  Em outras palavras, ele é capaz de imaginar alternativas comportamentais inspiradas em desejos  conflitantes com a ordem natural e com sua própria  visão de mundo. Mas baseado em critérios éticos sente-se obrigado a dizer “não”  aos desejos que não se integram numa proposta existencial comunitária. E tropeça muitas vezes na responsabilidade que lhe toca de respeitar a Natureza e a própria integridade existencial. Em verdade, por ignorância ou pura indisciplina, nos dez milênios de História escrita há registros de que o homem tem poluído a Terra cada vez mais agressivamente e por conta disso já se  observam alterações climáticas importantes, bem como catástrofes ambientais que ameaçam a vida no planeta.
 A prática virtuosa é exigente, mas garante a tão sonhada paz interior. Sobrenadando as incertezas e as dúvidas angustiantes, a paz  existencial depende, em última análise, da disponibilidade de o sujeito consciente abraçar intelectual e afetivamente a transcendência universal   que se entremostra  na experiência subjetiva. Aliás, esta Transcendência  essencialmente criadora é a única forma de explicar a origem do cosmo e da consciência. Por isso tenho repetido, para estranheza de muitos, que a solução do problema humano é mística e não racional, embora reconheça a participação da razão em especulações filosóficas coerentes que apoiam indiretamente a postura mística[4]. Mas o homem não sente a plenitude existencial representada pelo alinhamento do pensamento e da subjetividade afetiva enquanto a experiência mística não alcança a proporção de uma paixão avassaladora. Só esta paixão o torna  pleno em si mesmo, tranquilo e feliz. A oração vazia desta experiência de plenitude não tranquiliza o espírito. No entanto,  insistindo na prece o homem espera vivenciar no mais íntimo da alma a ressonância do Deus criador que habita sua criatura. Insistindo na oração o crente espera, finalmente, abrir uma brecha na sua carapaça materialista para sentir os eflúvios do espírito eterno, mais íntimo do que o seu próprio ego. Compenetrado da expectativa do final apoteótico da  comunidade de todas as consciências em Deus, o homem aprofunda essa ideia numa experiência mística.   
Esse discurso ganha envergadura quando o ser humano se ressente da consciência angustiante de que tudo é provisório, reconhecendo a própria finitude que o faz refém de ameaça permanente à  sua integridade física e moral. Não é possível a descrição fenomênica da  vivência mística inspirada pela presença do Absoluto criador na sua criatura, mas pode-se afirmar que por seu caráter divinal ela é magnífica e inexcedível. Experimentando-a o homem realiza superlativamente a homeostase psicobiológica fruindo a verdadeira paz individual e social ainda na existência temporal. Empolgado pelo ideal social comunitário o indivíduo transcende-se para conviver  solidariamente com seu próximo; esquece as próprias carências doando-se à causa comum.   Levando essa realidade às últimas consequências cada um vive a esperança de gozar a realização cabal da comunidade dos homens na unidade transtemporal de Deus. Afirma essa comunhão e nela crê, vivendo-a como uma atitude filosófica consolidada na experiência mística.
Everaldo Lopes


[1] O amor que move a vontade à busca efetiva do bem de outrem.
[2] Tema tratado por Teilhard de Chardin em “O Fenômeno Humano”.
[3] Dicionário de Aurélio, 5ª edição
[4] Referente à transcendência da fé, da união com Deus: