sábado, 15 de abril de 2017

O tempo e a existência



Habitualmente vivemos o tempo como se ele fora algo independente de nossa realidade pessoal. Por isso o tempo nos dá a impressão de ser uma alteridade capaz de interagir conosco favorável ou desfavoravelmente, impondo-nos situações boas ou más, respectivamente. Mas o tempo, reconhecido como condição do nosso vir a ser existencial,  é apenas uma  dimensão de nós mesmos e como tal dele podemos dispor livremente. Nossas decisões é que moldam o que acontece agora e acontecerá nas horas e dias que estão por vir. O tempo não tem independência e muito menos autonomia para mudar o rumo das nossas vidas. As mudanças decorrem de nossas ações e omissões no curso da existência que construímos dia após dia. Só assim, encarnando o próprio  tempo conseguimos  viver em plenitude as experiências específicas dos momentos de alegria, tristeza, criatividade ou abulia, vivenciando-as com sabedoria e bom senso. Não cabe, pois, dizer  que a alegria dura pouco ou que a tristeza é duradoura, porque uma e outra não são entidades autônomas; elas são consequências do nosso modo de conduzir a própria existência, conscientemente, como seres temporais que somos, com nossas virtudes e defeitos. A alegria e a tristeza se atualizam através da realidade psicossocial pela qual  somos todos responsáveis; portanto, o tempo é uma dimensão indispensável porém não determinante do que fazemos. Todavia, vivendo as nossas decisões, eternizamos o momento das experiências vividas uma vez que o vetor temporal é unidirecional, apontando sempre para o futuro. O tempo não volta atrás. Por isso o passado é radical; algo acontecido há alguns segundos é tão passado quanto o é o domínio dos dinossauros sobre a Terra (ocorrido há 230 milhões de anos). Diante da imutabilidade do que passou sobressai a importância de saber lidar com as lembranças boas ou más; sobretudo para evitar a influência das  más (lembranças) no dinamismo do presente. Contra o mau uso destas lembranças  opõe-se a convicção de que somos seres imperfeitos, porém perfectíveis. Nesse contexto, ser misericordioso consigo mesmo não é negar o mal praticado, mas conviver com a lembrança desagradável da má ação, reconhecendo a própria participação condenável, sem esquecer, porém, de que é capaz de aperfeiçoar-se; para não correr o risco de envolver-se com a repulsa ao mal praticado no passado ao ponto de “jogar fora a criança com a água do banho”; ou seja livrar-se da lembrança desagradável, empobrecendo a capacidade criativa do próprio vir a ser perfectível. As boas recordações são sempre estimulantes e potencializam a criatividade. As más, obviamente, deprimem e não produzem estímulos criativos e positivos; mas  serão úteis se estivermos alerta para analisar o comportamento lembrado num contexto novo, valendo-nos da experiência anterior para reelaborar a conduta atual nas circunstâncias presentes.
Como depositário de entidades abstratas, das quais apenas se percebem as consequências, a tendência do homem que não analisa o próprio vir a ser é o empoderamento da lembrança de sua má ação que ganha o poder de sugar sua atenção (do homem que não se analisa), fortalecendo e eternizando o impacto negativo produzido (por sua má ação), o que deforma a visão  que tem de si mesmo e do mundo.
Analogamente, apegado aos padrões da juventude, o homem pode encarar a anosidade comparando-a aos parâmetros estéticos da mocidade; então, a máscara da velhice torna-se um ícone disforme cujas características predispõem a expectativas desanimadoras, empobrecendo a vivência do agora.   O idoso precisa reelaborar sua autoavaliação estética a cada década para não perder o “time” de sua existência; ele é tão mais autônomo e esperançoso, quanto mais integrado na realidade que inclui a própria idade, e menos submisso à influência dos parâmetros estéticos de décadas anteriores.
Suponho que os antecessores do H. Sapiens viviam cada momento muito mais integralmente. Suas lembranças de conquistas coletivas[1] solidárias na salvaguarda da sobrevivência enriqueciam a sabedoria inconsciente de comportamentos voltados para a defesa da própria vida. Não havia tempo para trelas subjetivas fantasiosas. O desenvolvimento do mundo subjetivo coincidiu com a revolução agrícola e a domesticação de animais que antes eram caçados sob a tensão das necessidades alimentares. O domínio da lavoura e a criação de reses (para o consumo humano) libertaram o homem do trabalho exaustivo, permanente, de catador de frutos e caçador, do que dependia até então para sobreviver; depois destas conquistas o homem passou a ter mais tempo para as atividades subjetivas. Só então foi possível a revolução cognitiva que permitiu ao H. Sapiens falar de coisas que só existem na sua imaginação. Começaram então a pesar no vir a ser humano as contradições[2] da existência.  Dessa forma o H sapiens passou a conferir status de realidade a fantasias deificadoras ou demoníacas capazes de influir no seu próprio vir a ser. A capacidade de viver realidades ficcionais facilitou, também, a cooperação de centenas e milhares de seres humanos em torno de ideias muitas delas impulsionadoras do processo civilizatório.
Durante séculos predominou uma concepção teocêntrica da humanidade, ensejando cogitações metafísicas sobre o homem, sua origem, missão histórica e transcendental. Seguiu-se uma visão antropocêntrica da história humana mediante a valorização da participação do homem na construção da própria existência, a partir da compreensão de  que o tempo é uma dimensão do seu próprio ser no mundo. Isso implica, a nosso ver, numa perspectiva espiritualista representada pela intervenção divina (princípio criador)[3] que assegura a manutenção da existência através do dinamismo interno do próprio homem.

Everaldo Lopes



[1] Os primeiros homens viviam em grupos solidários para garantir a própria sobrevivência.
[2] Desejar ser eterno e saber-se finito; desejar tudo conhecer e reconhecer que terá sempre um saber limitado; desejar poder tudo e perceber as próprias limitações.
[3] Da mesma forma que o cosmo não se criou a si mesmo, nenhuma criatura, inclusive o homem, tem o poder de subsistir por conta própria.

terça-feira, 7 de março de 2017

Superação



Deparo uma foto na qual apareço entre alguns dos meus filhos e netos, numa festa familiar. Constato que cercado pela  juventude dos meus descendentes, amparado  pelo afeto  generoso dos entes queridos pareço mirrado, insignificante. Mas percebo-me ainda saudável e lúcido, uma bênção na minha idade já avançada. Agradeço, então, a Deus as reservas físicas e intelectuais que não me abandonaram ainda. Essa reflexão remete à tarefa nada fácil da humilde aceitação do envelhecimento sem perder a alegria de viver. Só há duas opções: viver amargurado com as marcas inevitáveis que o tempo vai imprimindo no perfil físico, ou encarar com bom humor  e criatividade o futuro incerto, apostando na possibilidade de enriquecê-lo de forma inteligente e esperançosa. Obviamente, é mais sensato fazer a segunda opção com ânimo combativo. Encorajado pela esperança, aceito o desafio, e predisponho-me a vivenciar a unidade da matéria e do espírito que me são constitutivos. Assim conto com assimilar intelectual e emocionalmente a mais perfeita intimidade entre ambos, convencido da vitória final do espírito, pela projeção da realidade psicossocial que experimento em minha vida temporal, transfigurada numa perfeição absoluta transtemporal. Dessa forma é possível apaziguar os temores habituais e viver as realidades cósmica e humana, integrando-as numa dimensão que transcende o tempo, convencido de, como homem, abrigar uma  alma imortal, perfectível. Essa contemplação coerente com especulações[1] transcendentais constitui a expressão cabal de uma espiritualidade que não se ressente das mudanças temporais. Nessa perspectiva vai se estruturando a superação dos temores e inquietações existenciais. Na verdade,  a vida e o equilíbrio psíquico alcançado como seres conscientes nos parecem verdadeiros milagres que refletem o espírito, princípio de tudo.
Há mais mistérios na sobrevivência de um organismo biológico do que pode supor nossa ciência circunscrita  a medições espaciais e temporais. O essencial, o que mantém  a integridade biológica funcional de  uma simples ameba não é analisável, escapa ao conhecimento objetivo, esconde a transcendentalidade do impulso criador absoluto. Os cientistas podem ser capazes de construir uma molécula original semelhante ao DNA, mas para fazê-la reproduzir-se (ter vida) e transmitir suas características individuais terão que usar um organismo vivo capaz de absorver o genoma artificial. Dessa forma, homens de ciência elaboram protocolos de experiências que se propõem criar vida no laboratório; todavia, ainda que fossem bem sucedidos, não teriam conseguido realizar este objetivo nos seus tubos de ensaio. Portanto, a incapacidade de a ciência produzir a vida em laboratório nos confere o direito de mergulhar mais fundo na contemplação de um absoluto criador intangível.
 Vivencio um profundo sentimento de admiração e reverência ao pensar que cada segundo de nossas vidas  depende do equilíbrio de alguns sextilhões de reações químicas integradas umas às outras num todo harmônico, renovando-se  continuamente  para que possamos existir. Seria impossível sequer imaginar o controle externo absoluto das relações funcionais entre as reações bioquímicas e os sistemas biológicos que garantem a vida, seja a de uma ameba seja a do homem. No complexo algoritmo de um organismo vivo há interações próximas e remotas tão caprichosas entre as reações físico-químicas inerentes aos vários órgãos dos sistemas aos quais pertencem, e dos próprios sistemas entre si,  que se torna impossível nesse nível elaborar um mapa da vida. Na origem de  tudo isso o sagrado anda de braços dados com o mistério que só se entremostra furtivamente no exercício da consciência reflexiva.
Na complexidade da estrutura molecular do universo estelar ocorrem transformações fantásticas; conversões da integração de partículas materiais insignificantes em organizações vitais com propriedades inteiramente diferentes da matéria bruta. Não obstante, é impossível distinguir onde termina a matéria e começa a vida. Tudo isso acontece, aparentemente, sem razão, mas, certamente, sob o comando da vontade absoluta de uma consciência universal; de outra forma seria necessário admitir o acaso que funcionaria na organização da matéria e da vida exatamente como um absoluto criador, como tal, também objeto de fé.
Mesmo incapazes de desenhar o mapa da vida, podemos entender que pequenas interferências num algoritmo de sobrevivência biológica tão complexo podem produzir efeitos  capazes de corrigir distúrbios iminentes destrutivos do organismo  vivo ou agravá-los. Que argumentos há para contradizer o poder sutil de intervenções ao nível bioquímico, capazes de interferir na dinâmica fisiológica responsável pela vida? Como negar que esta interferência seja capaz de influir  no conjunto das reações biológicas que garantem ou ameaçam a homeóstase[2] dos organismos vivos? No prolongamento dessas especulações, o poder da fé  na oração, e de influências benéficas decorrentes de fenômenos como a “ressonância límbica”[3] entre as pessoas tornam possibilidades reais o que parecia impossível. E uma postura rigidamente racional materialista deixa de fora muitas práticas sadias que enriqueceriam a vida consciente, livrando-nos de medos perturbadores.
Lamentavelmente não há uma didática convincente para ensinar a ter fé. Como o amor, a fé é um dom. Compete-nos apenas abrir a alma para a experiência da crença incondicional no espírito incriado para que este dom possa manifestar-se.
A consciência reflexiva também não se explica à luz da biologia neuronal. A complexidade do Sistema Nervoso Central que torna possível a manifestação das funções psíquicas superiores não  basta para justificar a natureza íntima destas funções; o homem, movido pela curiosidade é obrigado, então, a valer-se das verdades de fé  capazes de preencher com suposta entidade  imaterial (o espírito) as lacunas que resistem à análise cartesiana do processo psicobiológico da consciência reflexiva, do pensamento racional, da afetividade e da vontade.  A ciência não explica o ser consciente; para justifica-lo, o pensador utiliza-se, então, de uma plataforma especulativa da qual empreenderá o salto  transcendental   mediante introspecção iluminante apoiada pela  fé num absoluto criador.
No processo de percepção da consciência reflexiva introduz-se a intuição de verdades eternas que só a fé transforma  em realidades existenciais insofismáveis. Não podemos localizar na subjetividade do ser humano o ponto mágico dessas transformações, mas é evidente que só através da intimidade subjetiva espírito-matéria, pela fé,  nos conectamos com o próprio Criador do universo. Só num enlevo místico vislumbramos o toque deste Criador nas nossas vidas, conduzindo-nos docemente para o arremate de uma perfeição que se confunde com  a luminosidade do sagrado, fonte de tudo. A entrega a esta contemplação suaviza o temor incômodo de ser irremediavelmente suprimido da existência; e nos permite vislumbrar a possibilidade de uma transfiguração pessoal pela qual nos tornemos  participantes da eternidade.
Depois das ponderações feitas até aqui, razoáveis como possibilidades imagináveis, sinto que na minha subjetividade reforçam-se os laços inextrincáveis entre o espírito e a matéria que de fato são inseparáveis (a matéria não existe sem o espírito), e percebo que a angústia da finitude que me amofina se torna menos incômoda. Mas a consumação desse processo exige atitude de entrega confiante do ser consciente a um absoluto criador, experiência cujo caráter místico requer  a prática incondicional da fé, virtude que com a esperança e o amor (caridade[4]) dão sentido à existência. Essa realização é o arremate da verdadeira superação das contradições da existência[5].
Everaldo Lopes.


[1] Especulação - Investigação teórica, de natureza exploratória, sem apoio de evidência sólida
[2] Tendência à estabilidade do meio interno do organismo.

[3] Ressonância Límbica é uma capacidade dos mamíferos de entrar em sintonia com as  manifestações internas dos outros. É a capacidade de sentir e até mesmo entender o que o outro sente, é um fenômeno que podemos dizer físico, anatômico, psicológico e espiritual.
[4] No vocabulário cristão, o amor que move a vontade à busca efetiva do bem de outrem e procura identificar-se com o amor de Deus. (Aurélio).
[5] Desejar ser eterno e sentir-se biologicamente limitado; desejar tudo conhecer e saber que terá sempre um conhecimento limitado; desejar realizar-se em plenitude e saber  que sua própria condição é de  ser criatura imperfeita, embora perfectível.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Fundamento do eu



A evolução dos seres vivos percorreu caminhos tortuosos até a emergência no homem da capacidade de pensar e refletir sobre a existência pessoal. Depois de um longo percurso, a organização complexa do sistema nervoso central ensejou o exercício coordenado da consciência, do sentimento e da vontade. Estas funções psíquicas superiores permitiram ao homem escolher e orientar sua ação segundo os valores consagrados, culturalmente, pela sociedade em que está inserido. O livre arbítrio surgiu então no horizonte da evolução tornando-se o homem responsável por suas escolhas. Dessa forma, o ser humano se caracteriza por uma vertente biológica e outra cultural. A biológica culmina com a formação de estruturas complexas do sistema nervoso central, e a cultural, elaborada por cada um prolonga a sabedoria natural do corpo e culmina com a capacidade de julgar para decidir responsavelmente de acordo com um código comportamental assumido. Podendo erigir uma sociedade justa e igualitária,  o homem deverá influir na conservação do equilíbrio biológico e social, disciplinando seus hábitos alimentares e pautando a melhor forma de organizar livremente a coletividade humana . Finalmente, o diálogo entre os potenciais biológico e cultural do indivíduo abre espaço para variações de sua conduta, configurando a necessidade de estabelecer e tornar efetivos critérios decisórios representados por direitos e deveres individuais e sociais que assumem a dignidade de valores.
A realidade cultural é de natureza extremamente complexa ao envolver fatores psicobiológicos pessoais, sociais, e ambientais que interagem mutuamente. A dinâmica cultural fundamentada no livre arbítrio deverá  promover a harmonia da unidade perfeita do indivíduo integrado num todo significativo. A compreensão das  conexões biopsíquicas e culturais  ultrapassa os limites da lógica linear limitada a causas e efeitos singulares imediatos. Esta compreensão só se evidencia à luz da lógica da complexidade que abrange em perspectiva a interação exemplar entre todos os elementos da realidade humano-social, e revela a perfeição da unidade psicossocial, na qual tudo tem a ver com tudo.
            A integração das vertentes biológica e cultural do homem se constrói, exemplarmente, mediante o processo de socialização consciente e livre do indivíduo inspirado no ideal comunitário cujo fundamento é a solidariedade humana. O comportamento resultante desta integração envolve conhecimento, respeito, humildade, estima, responsabilidade e indulgência essenciais à construção e manutenção da comunidade dos homens.
            Quando nos detemos diante da análise da constituição do homem  chama atenção a necessidade de um apoio transcendental para a consciência da própria identidade individual. O fundamento do “eu” verdadeiro não são as funções biológicas estruturadas do sistema nervoso central nem tão pouco o conteúdo subjetivo pessoal. Não corresponde a uma síntese de ideias sobre a realidade íntima (subjetiva) de cada um. Esses conteúdos variam ao longo do crescimento desde a infância até a adultidade, no entanto a vivência do “eu” profundo que centraliza a consciência original de cada um é a mesma, não muda com o tempo. Este fundamento do eu,  portanto,  está para além do tempo e do espaço, transcende tudo que é permeável à análise racional. A natureza universal e totalizante (dedutiva e indutiva) deste fundamento lhe permite separar o eu e o tu (o  outro), mas também os reúne numa unidade transcendental (o nós) e os torna solidários mediante a coparticipação constitutiva de ambos (eu e tu), inspirada na busca da integração perfeita em um absoluto que tudo abrange.  
O eu só existe diante de um tu. Constitutivamente, como dissemos antes, o “eu” não pode ser reduzido a uma realidade biológica ou cultural, tem originalmente um viés social, transcende a psique pura; e é  vivenciado por cada um como um princípio subsistente em si mesmo, manifesto “na consciência silenciosa e sem forma dentro da qual  inúmeras impressões aparecem e desaparecem sem deixar rastro.” [1] Existencialmente, este princípio ancora a razão, o sentimento e a vontade e se manifesta sabiamente pleno na interseção destas dimensões humanas, à sombra de  uma visão de mundo que para ser válida precisa ser holística[2], isto é, deve acolher as partes do todo integrando-as numa totalidade significativa. Nessa caminhada, a dificuldade de vivenciar o suporte pessoal do “eu” na diversidade complexa do todo absoluto deixa o homem sem chão do ponto de vista psíquico afetivo. Faz-lhe falta definir o indefinível, um princípio transcendental que apenas pode ser vivenciado, sobre o qual o indivíduo apoia sua realidade subjetiva assumindo-a como o próprio “eu”. Ou seja, por trás da vivência egoica de um conteúdo subjetivo existe um potencial inesgotável de reconhecimento da unidade de tudo que existe, vivenciado como uma aspiração incontornável à integração holística do próprio eu na realidade toda, o homem e o universo. Esse potencial é o fundamento do eu mais profundo. Na ausência deste fundamento, o indivíduo flutua sem um ancoradouro onde possa amarrar suas crenças, mal amparado apenas por especulações metafísicas que não bastam para garantir ao ser consciente a vivência do seu lugar num todo absoluto, perfeito. Sem esta vivência, o indivíduo sofre a ansiedade e a angústia de apoiar-se no nada. E para anular a inquietação acompanhante urge que cada um abrace, com a força de uma crença, sua vocação de perfeição unitária reflexo da realidade interior mais profunda. Neste espaço subjetivo o homem trabalha os dados da sua realidade interior e circunstancial, em busca da vivência da perfeição unitária absoluta que só se realiza na prática mística. A vivência da integração na unidade de um absoluto transcendental significativo confere ao indivíduo a certeza de vir a ser harmoniosamente criativo com os outros no mundo, mediante participação holística em que cada um mantém relação imediata com todos os demais membros da comunidade sob a inspiração de participar de uma totalidade acabada significativa.
            Enquanto não vivencia o fundamento transcendental do “eu”, o sujeito consciente fica perdido dentro de si mesmo, perturbado pela insegurança, tornando-se presa fácil da depressão. Descentrado, corre o risco de buscar aturdir-se em atividades frenéticas nas quais espera afogar a ansiedade e angústia decorrentes da insegurança total. Nesse clima de incertezas encontram-se  muitos jovens e adultos que, desarvorados, procuram nas drogas e na violência mitigar a dor existencial do sem sentido aparente da vida desgarrada de uma unidade absoluta criadora.


[1] Mooji (Guru indiano)
[2] Tendência, que se supõe seja própria do Universo, a sintetizar unidades em totalidades organizadas. Teoria segundo a qual o homem é um todo indivisível, e que não pode ser explicado pelos seus distintos componentes (físico, psicológico ou psíquico), considerados separadamente; holística.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Limite do conhecimento



Num diálogo de Hamlet com Horátio, Shakespeare diz textualmente: “Há  mais coisas no céu e na Terra, do que foram sonhadas na Filosofia.”  
Esta afirmação continua atual, cinco séculos depois. Não obstante o avanço do conhecimento entre os astrofísicos, nada se pode dizer sobre a realidade desconhecível de antes do big-bang. Só a partir desta grande explosão que deu origem ao cosmo surgiu a matéria conhecível. O desconhecível foi confinado inicialmente em explicações míticas, mas a ciência sempre se esforçou para compreender objetivamente o conhecível, ou seja, o que é espacial e temporal. Por sua vez, as  religiões transformaram em crenças místicas o que a ciência não sabe explicar, diferençando o misticismo sustentado pela fé e o conhecimento cientifico suportado pela razão. Desejamos recordar outra abordagem, menos lembrada, que dilui este antagonismo. Refiro-me à especulação sobre a análise da Evolução da matéria desde a sua forma primitiva logo após o big-bang, até o homem. A complexificação crescente demonstrada pela investigação desta evolução leva a ponderações razoáveis sobre o desconhecível.
O que existia ou aconteceu antes do big-bang, obviamente, faz parte de uma realidade atemporal, algo que não se pode provar  e cuja afirmação passa a ser objeto de crença. Todavia a pré-existência dessa realidade misteriosa fundamenta-se num raciocínio elementar. A matéria não poderia criar-se a si mesma do nada, porém começou a existir a partir de uma explosão fantástica já referida linhas atrás, sem que se possa falar objetivamente sobre o que a antecedeu, exceto levantar a suposição razoável de que neste nível a realidade carece de tempo e espaço, portanto, é imaterial. Antes do big bang, o que não é conhecível pela observação direta, não sendo suscetível a uma abordagem objetiva, pode, no entanto ser inferido a partir de especulações sobre o mundo conhecido.
Da mencionada explosão resultaram partículas de matéria e de antimatéria. Se ambos os tipos de partículas fossem numericamente iguais nada sobraria depois que cada partícula de antimatéria anulasse uma de matéria. Portanto a constatação do Universo tal qual o vemos hoje nos obriga a admitir que as partículas de matéria predominaram perfazendo uma massa que mesmo ínfima, possibilitou a existência, hoje, dos milhões de galáxias e bilhões de estrelas em expansão permanente no espaço infinito. Os astrofísicos ainda não sabem explicar o porquê da diferença numérica inicial das referidas partículas. Mas é inegável que tudo que existe hoje resultou dessa desigualdade.
Por outro lado, recordando o caminho da Evolução desde a matéria primitiva até o homem, é evidente que houve uma complexificação crescente da organização da matéria inicialmente caótica. Nos primeiros segundos após o big bang as partículas subatômicas movimentavam-se a uma imensa velocidade. A instabilidade resultante não dava chance à formação de um simples átomo de hidrogênio. Mas da organização subsequente destas mesmas partículas através de bilhões de anos resultaram, por fim, estruturas atômicas, moleculares e organismos biológicos de máxima complexidade compatíveis até com a manifestação de funções psíquicas superiores. Ora, se podemos constatar que houve uma ordem progressiva cada vez mais complexa que culminou no homem com a emergência da consciência, é de supor, necessariamente, uma intenção por trás das transformações no processo evolutivo. Não há organização sem intenção. E se toda intenção encerra sempre um propósito que é inerente à dimensão da consciência, somos logicamente forçados a admitir uma consciência universal cuja natureza imaterial  impede sua objetivação científica. São João, utilizando uma linguagem mística fala desta realidade, no seu evangelho, de forma simples e definitiva: “No princípio era o verbo[1] e o verbo era Deus.”
As especulações pertinentes à análise retrospectiva da evolução da matéria levam o pensador a perceber a necessidade lógica de um absoluto[2] criador. Estas especulações dão respaldo lógico à proposta mística da origem do cosmo e do homem, embora o começo de tudo continue sendo matéria de fé, uma vez que não há como objetivar cientificamente um ser imaterial absoluto, criador. Não obstante, apoiado nestas mesmas especulações o pensador pode aceitar mais confortavelmente a existência deste Absoluto. Nesse contexto está inscrita a ideia de ser a matéria suportada intrinsecamente por uma realidade imaterial assimilável ao que se poderia imaginar como o espírito eterno do qual nada se pode dizer objetivamente. Essa mesma linha de especulações é que levou Aristóteles a propor um primeiro motor imóvel para justificar o movimento de todos os corpos no mundo visível. Se tudo se move na natureza como resultado da ação de um movente preexistente, o  primeiro movimento foi acionado, necessariamente, por um movente não movido - um absoluto - responsável pelo movimento inicial. A limpidez lógica desse raciocínio encerra uma realidade evidente por si mesma que, como tal, dispensa comprovação. Mas, sendo o absoluto um conceito limite esta realidade permanece no plano da pura abstração. Para que ela venha a se transformar em verdade substantiva na vida do homem, deverá ser absorvida pela  subjetividade de cada um, mediante um ato de fé.
Portanto, especulações filosóficas baseadas  na evolução da matéria  marcada pela complexidade crescente levam  o pensador a admitir uma consciência universal inteligente e criativa. Ou seja, um logos[3] que se confunde com o Absoluto criador. Mas só a fé plenamente vivenciada neste absoluto garante a integração do homem na unidade da consciência universal que encerra o cosmo e o próprio homem.
Everaldo Lopes


[1] Verbo- Sabedoria eterna
[2] Absoluto- conceito-limite que satisfaz a tendência totalizante e unificante do pensamento; conceito de um ser, ideal ou material, que se definiria como o princípio constitutivo e explicativo de toda a realidade.

[3]Logos-  princípio cósmico da Verdade e da Beleza.