sexta-feira, 4 de novembro de 2016

O luto, consumação de uma expectativa incômoda



Ouve-se o grito lancinante de uma criança. Segue-se um silêncio inquietante. Num átimo a imaginação fantasia as possíveis causas trágicas desse clamor. Felizmente, nada de mal aconteceu. O menino que começava a andar apenas caíra e feriu levemente o cotovelo. A mãe acode o filho querido. O pequeno carente de atenção abraça-a como se fora seu último refúgio. A partir desta ocorrência inesperada a criança começa a descobrir, embora sem a consciência clara de sua identidade psicológica nascente, que o mundo não é uma extensão dela mesma;  sente-se confusamente desamparada no meio de circunstâncias adversas e começa a temer que o pior pode acontecer.  Momentaneamente, a solicitude da mãe, cuidadora atenciosa e carinhosa devolve à criança a paz  que lhe fugira por momentos.
Décadas depois o adulto  em que se tornou aquela criança ainda guarda no inconsciente a repercussão dessa experiência infantil. Não como lembrança do acontecimento, mas como uma vivência remanescente que potencializa a angústia atual de reconhecer sua própria fragilidade e o limite irrevogável da existência temporal. Essa turbulência psíquico-afetiva se esconde momentaneamente na paz da intimidade solidária dos familiares e amigos; mesmo assim, o adulto aparentemente tranquilo resgata apenas parcialmente a autoconfiança e a paz existencial diante do temor a que leva a expectativa inquietante do inesperado e da morte.
 Depois que perdemos a inocência da criança que fomos um dia, nunca mais nos libertamos das malhas da incerteza de um vir a ser sobre o qual não temos inteiro controle. Insegurança que se reflete no zelo e ternura dedicada aos nossos ancestrais queridos ainda vivos, supostamente, mais próximos de acontecimentos indesejáveis. Buscamos então um antídoto eficaz para o mal estar que causa a imprevisibilidade do porvir. Mas, na prática não há solução definitiva controlável para essa inquietação. A atitude mística de entregar a própria vida a um absoluto todo poderoso perfeito e misericordioso é a única  postura capaz de conferir a paz desejada pelo ser consciente da própria fragilidade e finitude. Mas para tanto é preciso incorporar visceralmente a certeza de fé neste absoluto intangível e no seu amor misericordioso incondicional. Só n´Ele encontraríamos, finalmente a plenitude do “ser”.
Pode-se inferir especulativamente a necessidade lógica de um Deus, mas essa fé filosófica não acalma o espírito. A entrega mística exige fé profunda. Todavia, como um dom, a virtude de uma crença inabalável não pode ser imposta. Apenas podemos deixar-nos vulneráveis ao sentimento de entrega total, confiantes na misericórdia infinita do absoluto ao qual estamos entregando a própria vida.
O abismo entre a vida e a morte é insondável. Essa ruptura total encerra a impossibilidade de descrever qualquer laço objetivo entre a vida e a morte - ou não vida biológica. Apenas sabemos que para viver cada segundo é preciso morrer este segundo. O que equivale dizer que morrer cada instante é condição para viver o momento em que se está morrendo, até exaurir todos os potenciais biológicos do organismo vivo, indispensáveis  à manutenção das funções vitais. Entrementes este saber não nos chama a atenção o tempo todo; geralmente vivemos como se fôssemos eternos, até que um acidente ou doença nos tire da zona de conforto.
No desdobramento existencial do homem, é no abismo insondável que separa a morte e a vida onde nasce a ideia do espírito. Para anular a ruptura entre a vida e a morte o homem cria um vínculo essencial entre o material e o imaterial admitindo que um sopro divino criador deva perpassar o mundo visível e aparente cuja complexidade crescente enseja a manifestação do Espírito eterno.
“No princípio era o verbo e o verbo era Deus”. A Bíblia Sagrada resume dessa forma a origem de tudo. Aristóteles fala da necessidade lógica de um motor não movido, traduzindo em termos filosóficos a proposta bíblica. E a ciência fala de uma explosão inicial, o big-bang, a partir da qual estava criada a matéria; então começou a ser possível dimensionar o tempo e o espaço. São inacessíveis ao conhecimento científico os antecedentes deste fenômeno que ocorreu há mais de treze bilhões e oitocentos milhões de anos, segundo cálculos aproximados dos astrofísicos. Mas a organização crescente da matéria primitiva caótica, desde os primeiros segundos após o big bang faz pressupor a intenção que visa uma complexidade crescente. Ora, a intenção só existe na esfera da consciência. Portanto impõe-se a ideia de uma consciência universal que desde sempre acolheu o propósito da criação dos mundos e do homem. Conceito assimilável ao Espírito criador que envolve o antes e o depois da grande explosão anunciada pelos astrofísicos.  A esta altura o homem começa a filosofar, especulando a partir dos dados conhecidos.
Porém por mais coerente que seja uma especulação não passa de investigação teórica sem evidência sólida. E dessa forma sua conclusão se confunde com uma verdade de fé. Para ganhar força com repercussão na vida pessoal de qualquer um de nós esta verdade tem que ser incorporada visceralmente. Não existe, porém, uma pedagogia infalível para a conquista da fé; esta é um dom que como o amor arrebata o ser consciente sem pedir permissão e o transforma. É dessa forma que o homem de fé se dá conta do sopro divino que perpassa toda  criação e se torna dócil ao seu comando sem abdicar da liberdade de criatura. Vivência indispensável para legitimar o gesto de entrega do ser consciente aos desígnios do misericordioso amor de Deus. Este sim, amparo incomparável para os momentos de dor em que mergulhamos, diante da morte de um ente querido. Privados, definitivamente, de sua presença física, nos amparamos na certeza de ser “um” com ele na unidade absoluta de Deus. Nessa perspectiva não o perdemos, amparando-nos na esperança de encontrar-nos todos transfigurados e integrados na perfeição absoluta do ser infinito, o Deus uno, criador de todas as coisas. Animados pela confiança nesta unidade, ao consumar-se, a expectativa indesejável se torna menos doloroso o luto pela perda irreparável dos que amamos e partem para sempre.
Everaldo  Lopes

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Relações intersubjetivas, evolução e equívocos




É na subjetividade  de cada um que se define o ponto de corte das virtudes que presidem as relações familiares e sociais. Nesse nível, as interações psicodinâmicas são complexas e nem sempre somos capazes de perceber claramente as motivações subconscientes do nosso vir a ser. Isso é uma pedra no caminho do amadurecimento do caráter.
A tolerância desenvolvida por cada um no convívio coletivo depende do grau de maturidade alcançado pelos interlocutores. Tolerância que varia de acordo com a capacidade pessoal de  disciplinar a vontade para manter o equilíbrio racional e emocional das relações interindividuais. Enfim, o limite de tolerância das pessoas envolvidas em situações sociais problemáticas está sempre na dependência da flexibilidade que elas têm de trabalhar o próprio potencial de integração  psicodinâmica mediante a atualização do autoconhecimento, da compaixão, do respeito ao outro e do amor à liberdade. Funcionalmente, a influência dos dois primeiros itens amplia o horizonte das relações intersubjetivas e preserva o equilíbrio existencial, enquanto  os dois últimos favorecem a superação do comportamento exclusivista dos interlocutores diante das diferenças que  os distinguem. Quanto mais integradas, maduras, autoconfiantes, capazes de compreender o outro, tanto mais compassivas  serão as pessoas nas suas  respostas aos estímulos sociais. Nesse processo ocorrem grandes variações. Cristo fez doação integral de si mesmo à causa da bondade e do perdão, porém a maioria dos mortais  estabelece um limite menos arrojado que coincide com sua própria capacidade de doação. Ou seja, sua disponibilidade para amar ou pelo menos respeitar o próximo, mesmo quando ele se apresente como  agressor.
Despindo as diferenças pessoais culturais, nos identificamos com os nossos semelhantes. Percebemos, então, serem comuns as ambiguidades em que incorremos todos, nas nossas relações interindividuais, e nos tornamos mais compassivos. Entrevemos as virtudes que a voz da consciência reclama, e nos damos conta dos desejos egoicos que delas nos afastam. Reconhecendo nossas demandas egoístas, avaliamos o quanto de autodisciplina emocional precisamos desenvolver para exercitar o equilíbrio desejável  na elaboração das relações interpessoais. Este equilíbrio deverá ser orquestrado por valores universais assumidos plenamente para aferir nosso comportamento social. Quando abandonamos a ética dogmática e descobrimos o fim das certezas, reconhecemos também a dificuldade inerente à construção de uma ética racional, e caímos, facilmente, na descrença absoluta[1] caótica, vazia de valores.
Eliminando a fé num absoluto criador (suporte dos valores universais), nos deparamos com a ameaça  do absurdo existencial de ser para objetivos que se esgotam no tempo.  Para fugir dessa situação incômoda depositamos nossa esperança de ser-para-algo definitivo, significativo numa dimensão transtemporal, integrando-nos num absoluto intangível (objeto de fé), fonte de perfeição. Dessa forma cultivamos o ânimo de dar um sentido transcendental à existência mediante o ato de fé numa consciência universal (divina) que, aliás, encontra apoio racional em especulações metafísicas[2]. A crença nesse absoluto abre caminho para a experiência mística de uma realidade atemporal que acolhe o homem, protegendo-o contra a angústia existencial, e absorve-o em Deus (a perfeição absoluta), depois da morte biológica.  De outra forma, seria viver para morrer, enfrentando a contradição inevitável  entre o desejo de ser e a fatalidade de deixar de  ser, emocionalmente rejeitada.
Ao confrontar a consciência de nossa finitude cada etapa da vida tem suas características peculiares. Nos verdes anos da juventude vislumbramos um longo  futuro no qual esperamos  consolidar muitas conquistas em realizações significativas; vivemos, então, como se fôssemos eternos. Na velhice, reduzem-se as possibilidades de novas conquistas, passamos apenas a colher os frutos do que plantamos na maturidade dos anos vividos. “Quando a adolescência do nosso gênio desmaia, perde a cor”[3] torna-se mais incômoda a ideia de nossa própria finitude. Devo confessar que na minha experiência o reconhecimento da finitude pessoal, sem o respaldo de uma espiritualidade mística autêntica (a crença numa projeção transtemporal da própria existência), não satisfaz totalmente o anseio de plenitude. A falta desta crença reforça a melancolia que ameaça penumbrar o ocaso da vida. Por mais que nos tenhamos preparado intelectual e emocionalmente na primavera de nossa aventura nesse mundo, para enfrentar o envelhecimento e a morte, é fantasioso esperar  no outono de nossa permanência na Terra um anoitecer enluarado, romântico, apaixonado. Por mais que valorizemos as virtudes conquistadas durante os anos vividos, como negar a frustração da dificuldade de conviver com a perda do vigor físico e as marcas indeléveis que o tempo vai desenhando no nosso corpo, ao longo dos anos? Na melhor hipótese o idoso recebe o respeito e atenção de familiares e conhecidos. E mesmo assim não consegue  disfarçar a sensação de estar sobrando, e de impor com sua presença limitações à mobilidade familiar e social. Na verdade, o idoso exige mais cuidados do que é capaz de prodigalizar. Felizes os que  nesta  quadra da vida vivem a experiência  de parcerias solidárias, transparentes, francas, confiantes e criativas, construídas ao longo dos anos da juventude e da maturidade. Imagino que para coroar essa ventura, uma relação de gênero com estas características compensa fartamente as limitações à satisfação da libido remanescente nos idosos.
A rapidez do progresso tecnológico torna cada vez mais difícil o entrosamento entre pessoas de gerações distintas. Os mais jovens até podem ver os mais velhos como senhores da sabedoria  conquistada numa longa experiência de vida, mas, ambiguamente, também os veem como depositários de verdades antigas, hoje ultrapassadas. Os sentimentos que circunstanciam esta avaliação transitam, paradoxalmente, entre o respeito ao idoso e o desprezo velado pela (des)atualização cultural  atribuível à relutância em acompanhar o rápido progresso tecnológico.
O moço é capaz de sentir-se grato e respeitoso face à ajuda psicológica e apoio material que recebeu dos ancestrais. Mas em seguida pode reagir com airosa pseudo superioridade à intervenção dos mais velhos, como se eles fossem simples representantes  de um mundo morto, ultrapassado. Se o idoso não for capaz de reconhecer, compassivamente, as causas do comportamento impertinente e não raro agressivo do jovem, a sua relação com as gerações seguintes  pode tornar-se inviável. Caso em que se entrincheiram, o idoso  na autoridade, e o jovem na rebeldia. Por trás destas posturas se escondem, respectivamente, a frustração do idoso por sentir-se isolado e dispensável, e a arrogância do jovem tão mais atrevido quanto mais inseguro. Quando conseguimos ver de perto essa realidade, percebemos claramente o risco de os idosos e os jovens nela incluídos se distanciarem cada vez mais, privados de alimentar uma relação intersubjetiva equilibrada. Esta exige do idoso a difícil aceitação do próprio declínio biológico, enriquecida pela tolerância compassiva; e do jovem requer o respeito aos mais velhos, pelo reconhecimento de sua contribuição à evolução do processo histórico do qual  todos  participam.
Everaldo Lopes


[1] Niilismo
[2] A ordem crescente que levou a matéria caótica dos primeiros segundos após o “big-bang” à organização do mundo em que vivemos exige uma intenção (não há ordem sem intenção) e não há intenção sem consciência, no caso uma consciência universal (Deus).
[3] Raul de Leoni no Soneto “Pudor”, do seu livro Luz Mediterrânea.

sábado, 25 de junho de 2016

Democracia e solidariedade



A condição fundamental para o pleno desenvolvimento do homem é a predisposição no sentido de  contribuir  positivamente para a construção  da comunidade humana universal. Esta contribuição pressupõe a disposição pessoal de aperfeiçoamento na prática da solidariedade[1]. Não há comunidade humana sem solidariedade no exercício da qual os indivíduos são movidos pela vontade que busca o bem do outro, todos inspirados no ideal comunitário humano. O comportamento solidário é que garante a integridade do processo político democrático e das relações econômicas que presidem as interações sociais da coletividade humana.
Quando enaltecemos a solidariedade sem analisar política e economicamente as relações humanas, o apelo à prática solidária pode parecer romântico. Todavia o chamamento implícito neste apelo para a convivência justa e fraterna entre os homens é basilar para a  conservação da espécie. Nunca é demais salientar que a Evolução, a partir do homem, já não depende do aperfeiçoamento biológico do indivíduo, mas da sua capacidade de organizar-se numa sociedade estruturada em relações interindividuais calcadas na busca efetiva da participação de todos no bem comum. A desobediência a essa orientação empobrece a sociedade humana. A prática do sistema capitalista baseada na competição entre os homens e no acúmulo de bens reforça este empobrecimento. Já temos uma longa experiência com o exercício deste sistema  econômico social que traz nas suas entranhas o egoísmo como força propulsora das ações humanas. Nessa linha de conduta socioeconômica será cada vez maior o número de excluídos das riquezas naturais e das produzidas pelo homem, reduzindo-se a um pequeno número os que gozam os privilégios dos bens acumulados. Ao longo da história, tal desequilíbrio cria situações em que sobressaem injustiças sociais inaceitáveis. É escandaloso o contraste de pessoas muito ricas vivendo ao lado de outras extremamente pobres que apenas sobrevivem em condições miseráveis. Como se vê, a forma capitalista de lidar com a riqueza das nações tem implicações sociais contrárias à prática solidária.  A conduta competitiva aética e o afã de acumular geram crises políticas e econômicas contaminadas pela corrupção, por conflitos e violência entre os homens.
A globalização da economia favoreceu a superacumulação de capitais, associada à “financeirização”[2] da economia. Situação em que o lucro do capital fundamenta-se na busca frenética de vantagens pecuniárias no mercado das ações de megaempresas que exploram o trabalho humano; o rendimento já não decorre, diretamente, da produção de bens e serviços, mas de aplicações rendosas do capital ocioso nas bolsas de valores. Livres de normas restritivas, os recursos monetários disponíveis para investimentos deslocam-se facilmente em busca da mão de obra mais barata onde quer que ela esteja. Enquanto isso, o trabalhador, sem recursos adequados para defender-se fica preso às pressões patronais, e deixa-se explorar a fim de sobreviver. Obviamente,  a prática da solidariedade entre os homens pode minimizar as injustiças inerentes ao exercício do capitalismo predador, mas permanece a vantagem dos que possuem o capital e os meios de produção. Anular  as consequências dessa diferença é o objetivo do processo de humanização da economia.
 Por outro lado, é notório que a doutrina democrática propõe o regime político mais adequado ao pleno desenvolvimento da humanidade. Mas a formalidade democrática dissociada da prática solidária abre  espaço para comportamentos lesivos a uma estruturação social que atenda efetivamente às exigências da comunidade humana universal. Os frutos humanitaristas da doutrina democrática dependem do quilate moral dos homens que fazem a democracia[3], embora a prática democrática exija mais do que a simples potencialidade moral dos indivíduos. Sem esquecer que à falta do rigor ético a cobiça e o egoísmo prevalecem, deformando as relações sociais e econômicas da coletividade humana. Por isso são poucos os exemplos de nações que praticam uma democracia plena. A falta de solidariedade tem ensejado comportamentos contrários à doutrina democrática original concebida como o governo do povo, pelo povo e para o povo. Ao fugir de suas diretrizes legítimas, a Democracia tende a transformar-se em plutocracia[4], marginalizando, economicamente, a maioria da população.  Em suas conferencias publicadas sob o título “Réquiem do sonho americano”, Noam Chomsky [5] citou um Estudo da Universidade de Princeton que concluiu: “70% da população norte-americana (brancos de classe média baixa, e minorias pobres de negros e latinos) não têm meios para influenciar a política de Washington.” Exatamente a porção maior da sociedade que, todavia, detém a menor cota do capital circulante fica marginalizada do poder que a doutrina democrática original lhe assegura. Essa impotência  política de porção tão expressiva da população de um país considerado exemplo de democracia no mundo é um testemunho da fragilidade política do sistema democrático dissociado da solidariedade. Vivemos na própria pele como é frustrante esta vivência de fragilidade experimentada pela maioria dos americanos inseridos no contexto sócio econômico e político dos EE UU da América do Norte. No Brasil, “53,8% do total de impostos arrecadados são pagos por brasileiros que ganham até três salários mínimos, e que representam 79% da população.” Informações fidedignas dão conta, ainda, de que entre nós só “28,5% da arrecadação provém dos que recebem de três a dez salários mínimos e apenas 17,7% da receita do Estado recaem sobre a classe média alta e as elites com rendimento superior a dez salários mínimos.” E é esta maioria frustrada da população de países ditos democráticos, que sustenta o Estado com os impostos que paga. O deslocamento do encargo de financiar o Estado para as costas dos mais pobres e classe média caminha paralelamente com a instalação da plutocracia. Os dados estatísticos citados são  uma demonstração  objetiva da injustiça de onerar os mais pobres, sob a proteção da lei.  Isso gera frustração e ódio contra as instituições, e, por extensão, as pessoas ficam desconfiadas e passam a temer umas às outras, chegando até a odiarem-se. Nesse clima de descontentamento e desorientação política, a mídia fabrica consensos de acordo com os interesses da classe dominante. 
  A situação descrita até agora nesse texto define panoramicamente o caos em que a humanidade está afundando enquanto não se articula um esforço comum para o desenvolvimento da prática efetiva da solidariedade entre os homens.
É oportuno salientar, porém, que não obstante a crise socioeconômica  em que estamos mergulhados, há sinais evidentes do ganho cultural de uma consciência cada vez maior de que a orientação solidária  do comportamento humano é a única saída para a sobrevivência da espécie. Como decorrência desta conscientização, crescem o apelo à empatia, à prática responsável do interesse recíproco entre os homens, e à força do chamamento à luta contra os crimes ecológicos. Há um entendimento cada vez mais amplo da necessidade de salvar a Natureza e incentivar a prática da solidariedade para salvaguardar o futuro da espécie humana.
Everaldo Lopes


[1] Entendida como relação de responsabilidade entre pessoas unidas por interesses comuns em prol da comunidade humana universal, de maneira que cada elemento        do grupo se sinta na obrigação moral de apoiar o(s) outro(s), numa dependência recíproca.
[2] O capital gerando renda desvinculada à produção de bens materiais ou serviços.
[3] Políticos partidários militantes ávidos de votos, mas nem sempre comprometidos com a coisa pública, e eleitores despreparados para exercer a cidadania.
[4] Dominação da classe capitalista, detentora dos meios de produção, circulação e distribuição de riquezas, sobre a massa proletária, mediante um sistema político e jurídico que assegura àquela classe o controle social e econômico.
(Aurélio)
[5] Linguista, filósofo, cientista cognitivo, comentarista e ativista político norte-americano, um dos representantes mais importantes dos pensadores modernos.

domingo, 22 de maio de 2016

A Vontade de Deus



         Teoricamente, a Vontade de Deus pode ser entendida como um dinamismo absoluto eternamente criativo. Como tal é, necessariamente, atuante em tudo que existe, dado que o universo espaço-temporal não subsiste por si só, depende de um absoluto criador. Como criatura, o homem alcançou, todavia, a condição de ser consciente. Distingue-se pela capacidade de saber que existe e de integrar-se em sua circunstância, contextualizando-se nela para compor um todo significativo. Paralelamente, percebe a transcendentalidade das funções psíquicas superiores que lhe asseguram a condição humana, o que abre espaço para admitir como certo, por um ato de fé, a presença de algo mais no mundo, que ultrapassa o tempo e o espaço. Dessa forma, desvela-se uma dimensão mística na qual se espelha a relação entre a imanência do homem (criatura) e a transcendência absoluta de Deus (criador).
O tema  - a Vontade de Deus -  suscita muitos questionamentos. Afinal, como podemos reconhecer a Vontade Divina no nosso vir a ser pessoal? Como salvaguardar a liberdade humana (de criatura) no seio da liberdade absoluta (do Criador)? Nessa questão, em particular, podemos dizer apenas que o homem tem a liberdade de um pássaro engaiolado; é livre, não obstante suas limitações como criatura. É evidente que a Vontade Divina é soberana, mas o homem pode optar por uma das alternativas  que Ela oferece para a solução dos problemas pendentes. Chega-se ao mesmo destino por caminhos diferentes, cabendo ao homem escolher um deles. Na prática, a identificação final da Vontade Divina está associada ao reconhecimento e adoção de um valor universal que define a escolha pessoal e se torna realidade operacional ao ser incorporado no processo em curso do próprio vir a ser consciente de cada um. Assim, a Vontade de Deus está presente na História, através do exercício da vontade humana que escolhe e realiza um valor coerente com a evolução da comunidade dos homens. Nesse contexto, é a parceria humano-divina que trabalha misteriosamente os acontecimentos dos quais somos atores. Este trabalho é misterioso, por sua própria natureza. No processo evolutivo, a presença do absoluto criador se manifesta pela integração dos níveis cada vez mais complexos da realidade: o da natureza inanimada, o da biosfera, o psicológico, o social, o cultural e o espiritual. Essa sintonia é tão complexa que só se explica pela indissociabilidade (incompreensível para a razão humana) da transcendência divina do Criador e da imanência do ser em geral e do homem em particular. É impossível definir com precisão  os pontos de contato verticais e horizontais entre todos os níveis da realidade em cada momento do processo  que resulta, finalmente, num determinado acontecimento. Cada evento envolve sempre  interações fenomênicas desconhecidas que foram, todavia, decisivas para o acontecimento em foco.  Elas (as interações desconhecidas) constituem os elementos imponderáveis que permeiam os antecedentes das ocorrências que se sucedem no vir a ser do real concreto. A imponderabilidade de algumas causas possíveis se esconde na limitação do conhecimento humano ao qual escapam coincidências sutis só identificáveis no exame a posteriori do processo que culminou em determinado desfecho. A contemporaneidade de dois ou mais acontecimentos que contribuem para uma ocorrência  pode ser atribuída ao mero acaso, ou ser vinculada a uma intervenção misteriosa intencional de Deus na parceria humano-divina. Eu prefiro a segunda alternativa arriscando-me às controvérsias inerentes à questão do destino versus liberdade individual. Neste terreno movediço Calvino enveredou pelos caminhos da predestinação, enquanto Tomaz de Aquino ficou com a tese do livre arbítrio. Entre esses posicionamentos eu me sinto mais à vontade enfatizando a parceria extraordinária, mas necessária, do homem e Deus, que conta com o livre arbítrio da criatura humana. O diálogo honesto inerente a esta parceria conduz às grandes decisões humanas, interferindo no rumo da história. Neste diálogo assimétrico, Deus (transcendência absoluta) misteriosamente consubstancial com o  homem  (imanência) é o mago da transubstancialidade, que opera no ser humano o milagre do entendimento, da compaixão, do amor e da solidariedade, biologicamente inexplicáveis.
                     Ressalvada a soberania de Deus, é necessário registrar que a parceria humano-divina é responsável pelo processo histórico pondo em cheque o papel específico do homem na Evolução do Universo. Este papel conta com sua ação criativa no sentido de estruturar a comunidade humana universal. Justificar tudo que acontece, sob a alegação de que expressa a Vontade de Deus é um sinal da demissão humana, incompatível com a autonomia inerente ao livre arbítrio da criatura consciente. Precisamos, portanto, assumir nossa cota de responsabilidade histórica ao agir ou não no nosso devir em benefício da convivência humana comunitária. Esta forma de encarar a Vontade divina, reservando ao homem a avaliação das situações em evolução para agir coerentemente em prol dos valores universais, diferencia a fé crítica  da que se configura como uma fé ingênua; esta simplesmente crê. Caso em que a análise processual da realidade vai além da razão lógica  para dar lugar à intuição, complementando assim a alquimia da espiritualidade humana. Não se trata, portanto, de irracionalizar a fé, porém de tornar-nos sensíveis a uma interpretação intuitiva das manifestações de Deus na sua parceria preciosa e magnânima com o homem. No fundo, sobressai a convicção de que a paz e felicidade  verdadeiras tão almejadas só serão alcançadas pela submissão à Vontade Divina. O que não significa, necessariamente, escravidão a um determinismo fatal, considerando a possibilidade humana de dizer não às alternativas que se apresentam  além daquela escolhida, ética e solidariamente.
         O ponto de partida do comportamento crítico é a capacidade de bem utilizar a inteligência lógica para definir, classificar e lidar com as mais variadas situações psicossociais e ambientais dentro das quais assumimos a decisão de escolher. Sabendo que a engrenagem multifatorial da realidade, extensiva a todo universo encerra a complexa  integração holística do ser humano empenhado na tarefa de empreender a cada instante um todo significativo que envolve a consciência e o mundo.
      Na malha da realidade, são muitos os fatores que contribuem para cada situação específica; e entre eles estão os nossos próprios interesses pessoais que devem ser julgados e disciplinados com imparcialidade tendo em vista a consistência do todo social e ambiental no qual nos inserimos. Nessa perspectiva emerge a intuição de que tudo tem a ver com tudo.
         O que foi dito até agora evidencia que, dadas a complexidade e abrangência do real concreto, nem mesmo o trabalho analítico mais exaustivo deixa à mostra com clareza meridiana a complexidade da situação  analisada. Assim, nossas escolhas guardam sempre elementos desconhecidos inevitáveis. No fim, sobram dúvidas residuais irredutíveis que associam a qualquer decisão um risco presumível. Este é o momento em que a intuição é decisiva para o reconhecimento da Vontade divina consubstanciada na convicção de estarmos tomando a decisão correta. Um momento místico no qual a fé preenche os vazios da alma. Na vivência resultante o que percebemos, porém, é apenas um movimento subjetivo que se resolve numa atribuição de valor, decisiva para definir o critério que determina o comportamento final. Para sustentar o equilíbrio comportamental nestes termos é preciso manter uma relação muito íntima com a consciência pura, anterior à vivência de experiências pessoais, numa intimidade de fé com o próprio Deus, fonte de verdade e amor. No fundo isso acaba sendo uma relação profunda do indivíduo consigo mesmo, na qual a loucura da fé cura a loucura do absurdo vivencial de ser para a morte. A razão temporal, encolhida, treme impotente a um canto do espaço subjetivo indelineável, e a fé procura afirmar sem restrições um apoio transcendental na estrutura profunda do “eu” inquieto, que lhe garanta a convicção de abraçar uma realidade imarcescível[1] muito além das verdades empíricas mutáveis conhecidas. Neste clima, como diria Unamuno, “crer é criar o que não se vê”, no caso, construindo um ancoradouro na profundeza abissal da psique em busca da paz e felicidade que só uma verdade absoluta proporciona mediante opção de fé.
Obviamente, a Vontade de Deus é normativa, consagrando os valores universais que, necessariamente, são os que guardam o caráter divino. Todavia, esta normatividade oferece alternativas mais amplas do que as sugeridas pelo conjunto de regras que compõem os códigos da ética oficial. A corresponsabilidade social embasada no amor-caridade envolve recursos que propiciam um perfil comportamental mais generoso e fiel a um todo significativo, do que o comportamento eticamente codificado. O amor ao próximo amplia ao infinito as possibilidades de interação humana. Para o  místico, a harmonia desta interação denuncia a compatibilidade entre a vontade humana e  a Vontade Divina. Não há conflito entre ambas quando elas se dimensionam reciprocamente como expressões do amor universal. Na ausência deste, o máximo da harmonia a que chegamos decorre do diálogo ético entre os homens num esforço louvável para manter a dignidade das relações interindividuais, salvaguardando o respeito mútuo. Na prática, a Vontade Divina poderá ser interpretada eticamente, mas sua verdadeira natureza se revela no exercício amoroso da solidariedade humana comunitária.       
 Everaldo Lopes


[1] Incorruptível, inalterável (Aurélio)