domingo, 7 de junho de 2015

Um descrente inconformado



            Conheci, há muitos anos, um homem muito inteligente. Inteligente e culto. Versátil na busca inquieta do verdadeiro, do belo e do justo sua invejável bagagem cultural me impressionou desde os primeiros encontros. Médico, mantinha-se informado das mais recentes conquistas  científicas no âmbito da sua especialidade. Humanista, dominava com desembaraço os clássicos da literatura, da música, da pintura e discorria sem tropeços sobre as correntes mais recentes do pensamento filosófico. Escreveu inúmeros sonetos, e haicais[1], belas composições. Nelas, extravasava seu amor à família e a dor moral, a mágoa malsofrida, a revolta contida contra a perda trágica de um filho que nascera pintor, e adolescente já demonstrava a opulência do seu talento. Como se não bastasse, pouco tempo depois dois golpes brutais do destino se abateram sobre este homem extraordinário. A morte levou um após o outro de forma igualmente trágica e prematura, mais dois dos seus sete filhos. Não se pode descrever a profunda tristeza de um pai assim golpeado. Mas este de quem falo aqui sofria duplamente. Enquanto amigos, parentes, conhecidos deixavam que o tempo fizesse o seu papel tecendo o delicado manto do amoroso esquecimento num saudável entorpecimento da memória, este homem profundamente sensível insistia em conservar dolorosamente muito viva a memória dos seus entes queridos falecidos, por querer perpetuá-los com a força do pensamento.
É notório que para defrontar sem angústia os limites inextensíveis da existência a razão sozinha não basta. É preciso crer. E a fé que liberta o ser consciente da vivência de precariedade inerente à própria finitude é um dom. A gente o recebe, mas não o pode forjar. Por isso é um bem precioso a ser cultivado. Certa vez o descrente inconformado que me inspirou este texto contou-me como e quando descobrira desolado haver perdido a fé.  Diante dessa realidade seguíamos caminhos diferentes. Enquanto ele vivia sem esperança sua descrença, eu buscava fundamentar com especulações metafísicas a minha crença bruxuleante numa transcendência absoluta. Discutíamos interminavelmente. Ele não aceitava a minha tese monista, criacionista, espiritualista. Eu argumentava justificando minha proposição: “Uma vez que o conhecimento racional, objetivo, não ultrapassa o mundo fenomenal, por que não aceitar a possibilidade de crer em verdades que não cabem nos modelos racionais do conhecimento objetivo, mas também não podem ser negadas racionalmente?” Tentava convencê-lo de que liberto do racionalismo intransigente ganhar-se-ia espaço para justificada esperança de satisfazer a aspiração humana a uma transcendência absoluta. Nesses termos, o diálogo entre a consciência e o mundo se tornaria mais profundo e efetivo. Animado por essa convicção, insistia na tentativa de persuadi-lo. E lembrava que a análise fenomenológica do real concreto é o instrumento adequado para mergulhar no conhecimento do universo físico, mas o conhecimento científico deste universo fenomênico não  explica a sua origem.  Contudo, mediante especulações inteligentes, a partir do conhecido como real concreto pode-se concluir que algo o precedeu... Algo equivalente a uma inteligência universal misteriosamente atuante no tempo-espaço, impondo uma ordem evolutiva cada vez mais complexa na permanente  transformação da matéria desde o big-bang. Essa abordagem especulativa não foge aos ditames do pensamento lógico o que para mim a torna convincente. No entanto, preso à sua descrença o meu amigo não a aceitava e concluía:  “O homem não tem saída. Olhando sua evolução histórica, não temos motivos para depositar confiança nele. Não acredito mais no homem. Estamos caminhando, como espécie, para a autodestruição.” No momento em que ele assim falava eu concordava em parte. Afinal, a persistir a herança rudimentar da ancestralidade animal que se prolonga ainda hoje no comportamento predatório do homem, não se pode descartar totalmente a inviabilidade da espécie Homo sapiens! Todavia, lembrava em seguida que o momento da Evolução que atravessamos não é mais crítico do que foram outros igualmente difíceis. Exemplificando, há milhões de anos passados, após a última glaciação, a vida quase se extinguiu no nosso planeta, mas entre os animais resistentes à intempérie, sobreviveram uns roedores peludos, homeotérmicos, os mamíferos, de cuja evolução dependeu a existência dos nossos ancestrais mais distantes na escala zoológica. Assim como também foi desafiador para a espécie humana a transição evolutiva da vida instintiva para a existência consciente e livre. Todavia nós próprios somos uma prova viva de que a Evolução prosseguiu e o homem alcançou superar as dificuldades inerentes à transição da vida instintiva para a vida consciente, num processo ainda em curso, aprendendo a lidar com a necessidade de escolher suas ações livre e  responsavelmente. Por outro lado, nas nossas discussões frequentes eu advertia o meu amigo aonde o levaria sua descrença no homem. Pois em não crendo nele (o homem) nós mesmos nos desacreditaríamos  quando pretendêssemos sustentar nossa verdade. Sem este crédito não teríamos porque confiar sequer nas nossas próprias percepções e compreensão do mundo, a dele tampouco. Além do que sua tese pessimista contém uma contradição porque se lhe dermos crédito estaremos afirmando que há pelo menos um homem confiável, aquele que não crê nos seus semelhantes.  E isso invalidaria a suposta descrença no próprio homem! Assim digladiamos intelectualmente durante mais de meio século, sempre amigos porque nos respeitávamos mutuamente com nossas diferenças.
            Eu sempre estive convencido de que o reconhecimento de uma causalidade recíproca no dinamismo da realidade cósmica incorporada num Absoluto eternamente criativo é fundamental para ancorar a vivência integradora compatível com a unidade harmônica de um Todo absoluto que nos inclua. Neste contexto a virtude e finalidade do homem no processo evolutivo consistiriam na flexibilidade criativa das decisões de cada um, fundamentadas e apoiadas no e pelo  exercício da consciência livre e responsável. Obviamente, nessa linha de entendimento, para não cair em enganos grosseiros é preciso levar a sério o conselho de Sócrates: “Conhece-te a ti mesmo”. Embora este conhecimento não pretenda ser completo, ainda assim, é essencial para selecionar  os motivos que impelem o ser consciente às decisões que está tomando instante a instante; não há tarefa mais difícil,  exigente e nobre.
Nos nossos frequentes debates meu amigo tentava justificar sua  visão de mundo com argumentos mais poéticos do que filosóficos. Encantavam-me suas tiradas inspiradas que, todavia, não me convenciam. E encerrávamos nossas discussões sem conseguir influenciar-nos mutuamente.
            Mas a verdade é que com o passar  dos anos o meu amigo abandonou seu agnosticismo radical e assumiu a postura  de quem não crê em bruxas porém não nega que elas existam[2]. Dizia-se agnóstico, mas no seu modo de ser rebelde, criativo e cultor da verdade e da justiça, o Dr. Severino Bezerra de Carvalho deixou o exemplo de uma existência íntegra, proba e generosa, comparável  à de um cristão virtuoso.
                                                                       Everaldo Lopes


[1] Poema japonês constituído de três versos, dos quais dois são pentassílabos e um, o segundo, heptassílabo.
[2] Parodiando Miguel de Cervantes Saavedra no seu livro Dom Quixote : “Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay”.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Como vejo a timidez

O tímido ressente-se do temor de ser avaliado aquém da importância que alimenta sua autoestima. Evita manifestar-se em público para não arriscar  comprometer a boa impressão que deseja despertar nos circunstantes. Dessa forma a timidez cala as pessoas pelo temor de correr o risco de errar, impedindo-as de manifestarem-se livremente. É admissível que por trás deste impedimento esteja o orgulho que tolhe a iniciativa pelo receio de revelar suposta e inaceitável incompetência... Diferente do silêncio prudente que é fruto da sabedoria. Para o tímido ter seu valor reconhecido é o objetivo nem sempre claramente consciente. Para o sábio o que conta é ser íntegro, coerente e verdadeiro. O tímido oculta o desejo vaidoso de sobressair pelo saber, competência e virtude moral... o que lhe impõe sofrida cautela no que diz e no que faz. No vir a ser cotidiano nutre a expectativa ansiosa de ser sempre melhor do que os demais, porém sabe que não o é, embora reconheça o próprio potencial. E na corrida perfeccionista que se impõe, expõe-se a comparações com performances exemplares, mal conseguindo esconder uma pontinha de inveja ou incômoda sensação de menos valia  quando se percebe em desvantagem. Inseguro, diante dos que   opinam e discutem temas polêmicos o tímido silencia, torcendo para que o mutismo em que se esconde passe despercebido, ou, pelo menos, que o  seu silêncio não seja interpretado como despreparo.
A falta de ousadia do tímido tem outros desdobramentos. Nas relações de gênero, por exemplo, sob o medo da rejeição o tímido não se aventura... insinua-se com paciência, esperando o melhor momento para uma abordagem segura. E assim perde oportunidades que jamais voltarão. Mas, quando ao calor da emoção de uma conquista é empolgado pelo impulso sensual, não raro cede ao engodo de situações facilitadoras... excede-se, precipitando-se em comportamentos que resultam em consequências mais ou menos sérias. Quando se descobre nessas situações embaraçosas o tímido, perplexo, geralmente comprometido com um modelo rígido de moralidade mergulha na dor da culpa, e para acalma-la toma decisões austeras como a penitenciar-se por haver contrariado os princípios éticos aos quais se submete sem crítica. Nessas circunstâncias o indivíduo pode comprometer  a própria existência num vir a ser insípido, pobre de emoções. Pusilânime, o tímido não arrisca ações ousadas, obriga-se à prática de condutas ordeiras convencionais, ainda que tenha de  abrir mão da liberdade de viver experiências mais gratificantes. Ora, a felicidade se conquista com decisões conscientes vividas na experiência afetiva de relações interpessoais saudáveis. A relação moralista divorciada de cálidos sentimentos de aproximação é afetivamente pobre, e sufoca a felicidade!
É notório que amainada a paixão o par conjugal perde um estímulo muito forte de aproximação, e se não houver estima  verdadeira, instala-se sofrido desinteresse que explica a apatia de muitos casais convencionais. Nesse momento, se o par conjugal conservar a disposição para  um reencontro intersubjetivo solidário e cúmplice, ainda é possível lançar mão da criatividade e das reservas afetivas de ambos a fim de manter acesa a chama da parceria. Mas a criatividade aplicada à consolidação da união nupcial não é um artifício de última hora nem convive bem com a timidez. Para torna-la efetiva é preciso ousar a superação do medo subjacente à timidez, revitalizando a inspiração do verdadeiro interesse pelo bem do outro. Obviamente, não se pode improvisar esta inspiração quando falta o desejo de seduzir e o empenho efetivo na realização da/o companheira/o.
O encontro intersubjetivo, o “nós” maiúsculo, sempre será o ideal conjugal. Todavia, depois que passa a paixão, o “companheirismo” e a “convivência responsável” civilizada e inteligente ainda podem criar condições capazes de alimentar uma parceria honesta e cúmplice. De qualquer forma não há lugar para a timidez na intimidade de um verdadeiro  encontro  intersubjetivo cujo vigor  está ligado ao exercício criativo de ações responsáveis livres e solidárias.
Everaldo Lopes



sexta-feira, 3 de abril de 2015

Significação do Jesus histórico no processo evolutivo

                      A mensagem otimista de Jesus ameniza a insegurança inerente à  consciência de ser provisório. A fé inabalável num Poder absoluto, criador, que envolve suas criaturas com amor misericordioso alimenta a esperança de um desfecho histórico e transtemporal glorioso para a vida consciente. 
                        O determinismo do processo evolutivo se prolonga na organização biológica até o despertar no homem da subjetividade consciente reflexiva na qual se revelam grandezas abstratas (o pensamento, o amor-caridade[1]...) imensuráveis, de natureza espiritual. Essas manifestações denotam um imponderável que se esconde na realidade visível, e justifica a fala de Hamlet na tragédia que leva o seu nome - “Há mais mistérios entre o céu e a terra, Horácio, do que sonha a tua vã filosofia". Imagino que o dramaturgo[2] referia-se à  intuição de uma transcendência absoluta misteriosamente presente no tempo!
                           Jesus viveu e pregou a solidariedade entre os homens unidos pelo amor ao Criador. Este amor se revela no diálogo de cada um com seu Alter ego, o Espírito incriado, necessariamente presente nas suas criaturas, mais íntimo e pessoal no homem do que seu próprio ego.                 Diálogo que na prática não é mais do que o desdobramento de um monólogo existencial profundo. Afinal Deus fala ao homem, mas o homem identifica apenas a voz da própria consciência à qual atribui o timbre divino por intuição que se consolida num ato de fé.  Ninguém viveu mais intensamente esse monólogo dialógico do que Jesus na sua vida até a morte. Para Ele  a relação com o divino era tão real  que dela não podia abrir mão sem comprometer sua integridade pessoal. Dessa forma, num contexto bíblico religioso os cristãos reconhecem em Jesus o filho de Deus que veio ao mundo para salvar o homem do “pecado”, reaproximando-o do seu Criador. Numa leitura leiga, antropológica,  Jesus representa o protótipo cultural do homem, uma vez que deste não existe um modelo natural. Ao nascer, o indivíduo da espécie Homo sapiens é dotado da condição humana, ou seja, de consciência reflexiva, razão e livre arbítrio, elementos indispensáveis para tornar-se homem.   O caminho da humanização é longo. O indivíduo começa identificando  os anseios imediatistas sensuais, egoístas, cuja natureza temporal enseja a insegurança peculiar à própria contingência. Identifica-os e experimenta-os; porém, para continuar responsavelmente livre sabe que não deve apegar-se a eles. Nesse contexto vale-se do exercício da razão e da consciência reflexiva, associadas ao livre arbítrio para libertar-se dos determinismos egoicos e assumir valores éticos superiores.  Este salto evolutivo de natureza espiritual indispensável à continuidade da Evolução se concretizou em toda sua extensão na pessoa de Jesus.  Mas todos os homens reúnem as condições necessárias para imitá-Lo. Por isso, conhecendo e amando profundamente seus irmãos  Ele proclamava com autoridade, convidando-os a segui-lo: “eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Assim falava um  homem inteligente,  sensível, dono da própria  vontade, que se distinguia por sua fé inabalável numa visão de mundo criacionista, monista espiritualista. Sua proposta existencial é o caminho régio da humanização.  Daí a importância do Jesus histórico no processo evolutivo.
                     Conclusão. A prática das virtudes cristãs representa o momento evolutivo mais importante para a consumação da humanidade plena.  Esta prática tem sido valorizada como experiência mística de caráter religioso. E nesse nível ela é muito mais intensa e pacificadora. Mas a  leitura antropológica, laica, da experiência em questão põe em evidência que os fatores dinâmicos dessa prática são o exercício responsável da razão, da consciência reflexiva e do livre arbítrio, elementos indispensáveis à flexibilidade criativa do comportamento humano ante os obstáculos à consecução da organização comunitária da sociedade. De tudo isso se depreende que a construção do homem integral implica em mobilizar os recursos da condição humana para elaborar e praticar um comportamento justo e solidário. Nesse processo, obviamente é indispensável participação pessoal criativa que demanda a disciplina de impulsos passionais e tendências primitivas.
                Espiritualistas e materialistas fiéis à análise crítica da realidade humana, livres de preconceitos, chegam à mesma conclusão quanto ao papel do homem no processo evolutivo.  Tendo em vista o exercício coerente da razão, da consciência reflexiva e do livre arbítrio o comportamento ético de uns e de outros não difere, objetivamente, mas só os primeiros gozam o benefício da esperança de um desfecho otimista histórico e transtemporal para a vida consciente. Os materialistas não esgotam todas as possibilidades especulativas ao analisar a “condição humana”, e ficam reféns do destino entrópico[3] da matéria.
              Everaldo Lopes



[1] No vocabulário cristão , o amor que move a vontade à busca do bem de outrem.
[2] William Shakespeare
[3] Entropia – medida da quantidade de desordem de um sistema

segunda-feira, 2 de março de 2015

Desenvolvendo o amoroso desapego à vida


Mais cedo ou mais tarde o homem tem a consciência  clara de sua finitude. Não creio que de posse das faculdades mentais alguém seja totalmente indiferente ao incômodo de assumir o envelhecimento e o limite da morte. É notório que o medo de morrer, nem sempre confessado com humildade, é o maior dentre todos os medos despertados na subjetividade humana; isso vale para todo mundo, porém, por motivos óbvios, se torna mais aflitivo depois dos oitenta anos. A elaboração[1] da expectativa de ser vulnerável às doenças, às perdas inerentes à idade avançada e à morte, bem como a força necessária para vivê-la (a expectativa) sem deprimir exigem alto nível de integração pessoal.
             A degringolada, física, da memória, da criatividade e da disposição de enfrentar o novo reduz a atividade do idoso a rotinas repetitivas, e intensifica sua preocupação com o que está por vir de pior no futuro imediato. Na medida em que a idade avança cresce o interesse pelo destino depois da morte intensificando-se a angústia existencial. Para reagir aos estragos deixados na esteira do tempo as  pessoas adotam diferentes formas de  conduta. Todos sabem que a plenitude da experiência mística é a fórmula infalível para uma existência sem medo, rica de sentido. Esta plenitude é alcançada através da doação pessoal incondicional à vontade do Criador, que coincide com a forma radical de praticar o amoroso desapego à vida. Lamentavelmente, muitas Igrejas transformam a prática religiosa numa relação ética disciplinar em que  o descumprimento das normas que preconizam levaria o  fiel à condenação eterna. Além do que os pregadores insistem em associar o progresso material à obediência à palavra de Deus revelada nos livros sagrados. Essa associação coloca o crente numa relação de troca em que a obediência aos preceitos recomendados o torna credor da graça divina (benefícios).  Embora pressuposta teoricamente, nesta relação não é enfatizada a solidariedade, virtude que preside a comunidade universal dos homens, fulcro da verdadeira religiosidade. Todavia a experiência religiosa autêntica é movida pelo amor-caridade[2] e não por uma troca de favores entre Deus e a criatura humana. O diálogo místico se realiza através da relação entre os irmãos de fé unidos em comunidade. Nesse sentido, particularizando, a missa não simbolizaria um face a face de cada pessoa com o Criador, mas uma reunião de homens de boa vontade  na qual Deus se faz presente,[3] ou seja revela-se na sua criatura. O conteúdo sacramental da missa é a confraternização ou comunhão dos fieis solidários reunidos em caráter comunitário. O padre oficiante, o templo, o cerimonial seguido à risca são apenas detalhes da confraternização festiva entre os fieis, refletindo a solidariedade vivida no dia a dia da comunidade cristã. Em resumo o compromisso com a solidariedade comunitária é o fundamento de todos os sacramentos. Com isso queremos enfatizar que religião é vida e não um ritual apenas.
Sabemos que muitos homens de boa vontade, justos e solidários não estão filiados formalmente a uma igreja.  Para estes, aparentemente desligados de uma visão mística da realidade, a relação respeitosa e solidária com o próximo é uma extensão da afirmação de sua própria dignidade ao exercitar a condição humana. Nas suas relações com as pessoas eles se esforçam para entender o  outro  imaginando-se sob sua pele (fazendo empatia). Igualmente, sabem que não é razoável a pretensão de ter merecimento diante de Deus. Isso seria admitir que a criatura humana tivesse o poder de influir na vontade do criador, quando não passamos de receptores de Sua misericórdia gratuita e generosa. Os que vivem com dignidade a condição humana reproduzem, pois, um comportamento laico compatível com a conduta religiosa dos que se dizem crentes. Como os que professam autenticamente um credo religioso, fazem a sua parte priorizando a solidariedade que deve presidir a comunidade humana.
 A capacidade de cultivar o amoroso desapego à vida está implícita na prática da solidariedade comunitária. Este desapego caminha na direção da doação mística incondicional inerente ao amor caridade que é o antídoto eficaz contra o desalento do envelhecimento e o medo de morrer. É oportuno salientar que o comportamento solidário exige do sujeito consciente um redimensionamento psíquico que não se pode impor. Acontece como uma graça que supera o ranço egoísta de nossa ancestralidade animal. Todavia para recebê-la é preciso estar aberto à experiência caridosa. Tendo em vista facilitar a caminhada existencial  nessa direção é salutar que o indivíduo se condicione a algumas atitudes indispensáveis às relações solidárias. Inicialmente impõe-se a predisposição determinada para dialogar sem preconceitos visando a convivência pacífica com as diferenças acidentais entre as pessoas, sem desrespeitar os princípios básicos (lógicos e éticos) do humanismo integral. Ao mesmo tempo isso implica em disciplinar as emoções.
A vida comunitária por si mesma é capaz de dissipar muitos medos mas ante a inquietação despertada pela consciência da finitude é preciso desenvolver um esforço racional no sentido de conceber a morte como transição e não como fim. O nascimento também é uma transição. Somos o que somos em função de muitos fatores desconhecidos que precederam a nossa entrada no mundo. Fatores biológicos, sociais e econômicos (facticidade[4]) alheios à nossa vontade, que se anteciparam ao  nascimento, influíram nas características biotipológicas que possuímos, além de delimitar nosso caráter através do tipo de família em que nascemos, da educação intelectual e emocional que recebemos e das condições sanitárias e culturais nas quais  vivemos a infância e a adolescência. Contudo, ao desconhecido antes do nascimento segue-se o ser humano problemático mas real, possuidor dos instrumentos necessários (consciência, razão e vontade) para administrar o seu vir a ser; e por isso o nascimento não é tão questionado. O mesmo não acontece com o passamento pela morte da vida para o desconhecido, visto que depois dela nada podemos afirmar com rigor. Por isso mesmo nos angustiamos diante da certeza implacável de sermos finitos, e a morte é tão questionada.
No encalço da superação da ressaca moral deixada pela consciência da finitude  é fundamental poder desenvolver o amoroso desapego à vida, e é auspiciosa a percepção de que a própria existência é parte de um “todo absoluto” no qual temos a missão de integrá-la. Não menos importante para alcançar o objetivo colimado é visualizar a morte, também, como possibilidade de libertação da dor física, de toda hesitação e sofrimento moral, de todo desencanto estético, e do próprio sentimento doloroso de finitude. Ao mesmo tempo é sábio enfrentar a existência com otimismo crítico, convicto de que ninguém perde o que nunca teve. Se amou e foi amado guardará disto imorredoura lembrança. No caso contrário não adianta lamentar experiências existenciais capengas vividas no passado. Elas deixaram  desgosto, mas proporcionaram oportunidades de crescimento pessoal para os seus protagonistas. Afinal a verdade é que em grande parte somos o fruto das nossas escolhas. E não teremos muito a lamentar se nos empenharmos em viver o momento que flui, com autenticidade, respeitando o compromisso assumido com um projeto humanístico integral que dê sentido à existência. Nesse patamar existencial a plenitude interior resulta na serenidade inerente à intuição da  unidade do todo absoluto no qual estamos contextualizados.  Na unidade divina que nos inclui se anulam todas as diferenças e conflitos.
            Ao assimilar essas propostas estamos disciplinando os nossos medos, ao tempo em que criticamente conscientes da fugacidade de tudo que é temporal nos predispomos a não ficar presos às experiências efêmeras do nosso vir a ser pessoal. O que não significa desprezá-las, porém vive-las com intensidade e dignidade, desfrutando-as enquanto duram sem a pretensão de eternizá-las. 
 
Everaldo Lopes



[1] Elaboração – Processo mental de reorganização e ajuste dos aspectos psíquicos  de uma experiência existencial.
[2] No vocabulário cristão, o amor que move a vontade à busca efetiva do bem de outrem.
[3] Pois onde se reunirem dois ou mais em meu nome, aí estarei entre eles. Hebreus 10:25
[4] Facticidade – Caráter próprio da condição humana pelo qual cada homem se encontra sempre já comprometido com uma situação não escolhida.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

A misteriosa unidade da transcendência e da imanência

O equilíbrio fisiológico entre os nossos órgãos e sistemas vitais é um fenômeno biológico complexo em permanente interação com o meio ambiente. Nesse nível apenas vivemos. Por outro lado, os hábitos e costumes que permeiam as manifestações coletivas estão ligados à prática dos valores éticos. São eventos culturais que espelham o exercício responsável da consciência reflexiva na vida social.  Nesse patamar existimos.
A forma de as pessoas se relacionarem entre si demonstra o maior ou menor comprometimento com a Verdade e a Justiça no encaminhamento das relações interindividuais. Isso se reflete na autoavaliação e disciplina comportamental de cada um.
Desde as especulações dos primeiros pensadores, tornou-se evidente a necessidade de admitir um “primeiro motor não movido”[1], um absoluto criador, visto que nenhum dos seres que constituem o Universo é capaz de criar-se a si mesmo. Analisando retrospectivamente a organização evolutiva destes seres identificamos uma complexidade crescente, desde a matéria primitiva caótica até os organismos vivos e a eclosão no homem da consciência reflexiva. Uma vez que toda ordem  implica numa intenção e esta só existe como um estado de consciência, a constatação do ordenamento impresso na evolução do mundo visível a partir do big bang dá lugar a abstrações metafísicas compatíveis com a intenção de uma consciência universal necessariamente inerente ao Absoluto criador. 
Por outro lado, os seres incapazes de gerar a si mesmos também não possuem a força da subsistência. Isolados do Criador eles desapareceriam. Esse raciocínio conduz à conclusão lógica de que as criaturas não sobrevivem separadas da transcendência absoluta que as criou. Portanto, esta transcendência e a imanência espaço-temporal  constitutiva das criaturas coexistem necessariamente de um modo incompreensível para a razão humana. Diante dessa exigência lógica o pensador coerente é levado a admitir um dinamismo absoluto eternamente criativo que cria e permanece na criatura; em vez de um Criador isolado da sua criação. Conclusão: Deus está presente, necessariamente, em todos os seres que compõem a Natureza. Todavia, apenas o homem presume sua presença misteriosa da qual o único sinal referencial é subjetivo, seja uma expectativa com base especulativa, seja, na melhor hipótese, a fé incondicional no “Dinamismo Absoluto Eternamente Criativo”. Levantando essa questão compreendemos melhor a afirmação mística de São Paulo após a conversão: “Já não sou eu que vivo, mas Cristo que vive em mim.”
            Com essa visão de Deus (o Criador) como um dinamismo absoluto eternamente criativo, necessariamente presente nas suas criaturas, ponho-me a pensar sobre a prática e o fundamento da oração. Orar é conversar com Deus que já está presente em quem reza. O “ego” do suplicante confronta-se na subjetividade do ser humano com o “alter ego” absoluto cuja transcendentalidade não se deixa apreender num conceito, mas está presente, sempre autônoma e poderosa  reconhecível como a “voz da consciência”. A realização miraculosa repousa na força criadora presente em quem pede confiante na coincidência do seu pedido com a integridade da criação, condição para a realização do milagre. Obviamente, tudo está contextualizado num todo absoluto unitário, e o pedido de quem ora só será atendido quando coincidir com a ordem implícita neste absoluto (em linguagem mística: a vontade do Criador). Coincidência viável uma vez que a vontade absoluta de Deus está potencialmente presente na vontade da criatura consciente, inspirando-a a praticar os valores éticos universais. O não atendimento ao pedido extraordinário não seria uma negação, mas a afirmação de uma realidade cuja inteligibilidade escapa ao conhecimento do suplicante. Por mais justa que pareça, a súplica atual pode não se encaixar na ordem evolutiva inerente à intenção da Consciência Universal. Portanto quem roga deve permanecer submisso à vontade do criador que tudo vê, e identifica  as consequências à distância do que se pede hoje, inacessível ao conhecimento do suplicante; eventualmente seu pedido pode não  integrar-se na unidade do Todo absoluto.
Tendo sido criado consciente reflexivo, racional e dotado de livre arbítrio, o homem se identifica com o seu Criador no exercício das funções psíquicas superiores que têm caráter espiritual. Espiritualidade refletida na aspiração do ser consciente à integração pessoal no absoluto transcendental. As especulações desenvolvidas anteriormente sobre a unidade do Absoluto criador sugerem a expectativa de que as limitações temporais se anulam na comunhão perfeita  da criatura e do Criador.
            Na perspectiva desses comentários é infantil pedir que Deus realize o milagre sem a participação de quem o pede; sua colaboração é essencial. Ao dizer: Deus dê-me a graça de ser benevolente e solidário, estou pedindo a mim mesmo a minha própria contribuição pessoal para viabilizar a graça desejada, deixando nas mãos do Criador os fatores que escapam ao meu controle. Sejam as catexes[2] que transitam na minha  intimidade psíquica inconsciente, seja a interação complexa surpreendente das forças da Natureza. Na oração  quem pede o milagre reconhece a própria incapacidade de realizá-lo por si só, todavia está confiante em que seu pedido seja compatível com a intervenção favorável  do Dinamismo Absoluto Eternamente Criativo.
            Em resumo, a unidade misteriosa da transcendência e da imanência é compatível com a tese que a única realidade é o Espírito eterno, transcendência absoluta, origem de tudo[3]. A imanência cósmica essencialmente fugaz que se prolonga na organização biológica, inclusive do homem, pode ser comparada a uma bolha espaço temporal na intimidade do Espírito eterno que a absorve finalmente na sua unidade absoluta. Depois da morte biológica a alma humana, centelha do espírito eterno transfigura-se, sem perder a identidade, participando da unidade comunitária de todas as consciências.     
   Everaldo Lopes





[1] Aristóteles.
[2] Aplicação, consciente ou não, de energia psíquica em pessoa, coisa ou ideia. 
[3] No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus


quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

A consciência pessoal e a eternidade

É presumível o que ocorreu no percurso da Evolução. Recuando no tempo, podemos imaginar que houve um período no qual a consciência reflexiva latente na organização biológica despertou lentamente. Foram momentos de grande comoção para o homem recém-egresso do seu estado anterior de inconsciência de si mesmo. Abriu-se, então, um “espaço virtual” constitutivo da subjetividade do sujeito consciente reflexivo na qual o indivíduo reconhece como seus, pensamentos, sentimentos, emoções que despontam nas relações consigo mesmo e com sua circunstância – o mundo. Experiência absolutamente inédita que distancia o homem, existencialmente, da Natureza. Não é à toa que a Bíblia fala da “queda do homem”. Esta queda representou a sua separação virtual da Natureza, decorrência do exercício da consciência reflexiva, necessariamente autorreferente, que exige um distanciamento subjetivo entre o eu pensante e o mundo, inclusive a estrutura biológica na qual se manifesta o sujeito da consciência. Na história da Evolução, começa com o homem a possibilidade de o comportamento individual escapar do determinismo instintivo em favor do livre arbítrio. Sobrecarregado com a dignidade de ser livre e responsável, sem amarras, num mundo desconhecido e hostil o homem se sentiu isolado e se deu conta da própria fragilidade inquietante, juntamente com o desejo de conquistar paz e segurança. Com essa descoberta se impôs o dever de escolher bem entre as alternativas que se apresentam no seu vir a ser, conforme critérios éticos soberanos, tendo em vista a organização social solidária, tributária da comunidade humana.
Ao  despertar da consciência reflexiva, num primeiro  contato com o mundo, o homem  percebeu obscuramente a realidade como um “todo”, e se deteve nos seus aspectos segmentares e pontuais de interesses mais imediatos inerentes á sobrevivência. Depois, na medida em que foi ampliando o seu campo da percepção, estabeleceu as relações lógicas entre os elementos conhecidos da condição humana e de sua circunstância, tornando-se mais clara a necessidade de contextualizar-se no “todo” já prefigurado vagamente. Todo esse processo  envolve a realidade biopsíquica humana atrelando-a a um absoluto (criador) que não é acessível à experiência sensorial. Depreende-se, portanto, que a ideia deste absoluto transcendental assimilada pela consciência se estruturou intuitivamente a partir do primeiro contato entre a subjetividade  incipiente e o mundo misterioso ao redor.  Certamente, foi nesse primeiro momento que se instalou a vivência  numinosa[1], um “sentimento de fascinação, de terror e de aniquilamento” fundamento existencial da prática religiosa que perdura ainda hoje. Todavia, a razão curiosa, estimulada pela necessidade de resolver os problemas de sobrevivência continuou a esquadrinhar a realidade em busca de associações lógicas. O conhecimento objetivo é crucial para a solução de questões práticas inerentes ao vir a ser humano, mas não resolve a questão da origem e do fim de tudo que existe, curiosidade permanente no ser consciente.
Na verdade, enquanto ser temporal, o homem não pode dissociar-se das realidades objetivas conhecidas a partir de uma abordagem fenomenológica que enfatiza a vinculação entre causa e efeito. Vivendo a contingência de criaturas conscientes ficamos submetidos a um vir a ser em que se misturam a experiência dos sentidos, sensações físicas, e a aspiração de transcender a dicotomia consciência / mundo mediante uma abstração metafísica totalizante. A conjugação dessas tendências, aparentemente antitéticas, (a sensibilidade libidinosa fragmentária, e o ideal de uma totalidade metafisica) é o grande desafio que se  coloca diante da condição humana[2]. Nessa moldura enquadra-se a relação temporal consciência  / mundo, na qual vivemos as experiências sensoriais, carentes, porém, de uma vivência totalizante que transcenda a consciência e o mundo. O próprio homem se define no esforço de elaborar a síntese dessas inclinações. Tudo isso se passa na subjetividade misteriosa cuja natureza intrínseca a ciência não sabe explicar, mas, seguramente transcende o tempo e o espaço configurando a dimensão espiritual que por não se poder objetivar escapa a uma análise fenomênica. Resta-nos prosseguir especulando sobre o destino da alma imortal, na qual se configura a consciência pessoal, que se pode entender como um aspecto localizado da Consciência Universal. Insinua-se, assim, a questão do destino da consciência pessoal depois da morte biológica. O que será feito  da consciência pessoal que se identifica com a alma humana, ao desvencilhar-se da complexidade biológica através da qual o espírito se manifesta? É evidente que após a morte todas as necessidades estão eliminadas. Não havendo necessidades, obviamente, não há desejos a satisfazer, e a plenitude do “ser pessoal” será total. O Espírito liberto dos seus tradutores biológicos, finitos, goza em plenitude as virtudes que lhe são próprias: imortalidade, liberdade, paz, percepção instantânea de tudo que existe na unidade do absoluto transcendental. Mal podemos especular sobre essa beatitude que ultrapassa os limites de uma experiência temporal. É impossível concebê-la enquanto a consciência está presa à materialidade contingente do servomecanismo psicobiológico no qual se manifesta a transcendência indemonstrável. Nem ao menos podemos imaginá-la!!! Daí ser insólita a vivência mística que, por definição reflete a dimensão atemporal, absoluta, do homem,  descrita, porém, como real, pelos grandes místicos, ainda nesta vida. Acredito nos testemunhos que eles nos legaram e seria inútil procurar argumentos racionais para contradizê-los. Do ponto de vista estritamente  racional, nada se pode afirmar ou negar com certeza sobre o absoluto transcendental.
O destino da consciência pessoal marcada  pela necessidade de transcender-se ao infinito é integrar-se na unidade absoluta que ultrapassa os limites da existência histórica. Neste ponto se configura a questão da conservação da identidade pessoal após a morte. Postulamos que nesse “depois” o eu pessoal ganha seu significado definitivo, transfigurando-se no eu comunitário que, obviamente, não existe separado, mas não perde a identidade pessoal  transfigurado, substancialmente, ao dimensionar-se na complexidade do concerto universal de todas as consciências unidas na harmonia  da transcendência absoluta – o Espírito eterno. Diria, que a alma humana, após a morte, se plenifica no Espírito eterno do qual, aliás, nunca se separou. Assumo que a consciência pessoal se identifica na comunidade  de todas as consciências como o eu comunitário definido em relação a todos os demais eus; um não existe sem os outros, e nenhum sente necessidade de distinguir-se na intimidade infinita da unidade absoluta do Espírito Eterno. Quando a sombra animal[3] do homem, finalmente se anula com a morte biológica, a consciência pessoal alcança a completa transfiguração no eu comunitário, integrando-se, finalmente, no Absoluto original pela comunhão de todas as consciências. .Depois da morte biológica a consciência pessoal (a alma humana) vive a plenitude da Eternidade.
 Everaldo Lopes 







[1]  Segundo Rudolf Otto (1869-1927), teólogo e filósofo alemão, o sentimento único vivido na experiência religiosa, a experiência do sagrado, em que se confundem a fascinação, o terror e o aniquilamento. 
[2] Ser consciente, livre e responsável.
[3] Remanescente da carga instintiva de sua ancestralidade animal remota.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Fantasia e realidade


            No discurso informal os vocábulos fantasia e realidade referem-se, respectivamente, ao imaginário e ao concreto. Todavia contextualizadas na experiência humana, fantasia e realidade se fundem, numa vivência singular.
Mergulhando na intimidade subjetiva descobrimos que existir não é simplesmente sobreviver, mas viver por algo que transcende  o  vir a ser aqui-e-agora. A sobrevivência apoia-se em recursos biológicos automáticos e reflexos primários; mas existir implica na elaboração e construção de projetos estético-artísticos e ético-comunitários que ultrapassam o simples ato de viver e o justificam mediante a consagração de valores estéticos, morais e sociais. Nestes projetos a criatividade se traduz em atitudes e atos impregnados de um sentido social responsavelmente assumido.
A  realidade humana dispõe de dois  focos, um racional e  outro afetivo intuitivo. No primeiro destaca-se  a objetividade  limitada ao espaço-tempo cósmico; no segundo projeta-se a sensibilidade  que se prolonga  na magia da intuição e da imaginação.  Por sua condição de ser consciente e responsável ávido de um sentido definitivo para sua existência, o  homem se utiliza dos recursos que convergem nestes dois focos para contextualizar-se num todo absoluto significativo.  Nesse dinamismo existencial, fantasia e realidade são entidades  justapostas na atividade psicobiológica do vir a ser humano.  No plano cósmico a realidade se enclausura num mundo suicida  que caminha conforme a  2ª lei da termodinâmica para a completa desordem de todos os sistemas físicos, desordem dimensionada pela entropia[1]. No campo da sensibilidade manifesta-se a criatividade humana capaz de transformar a Natureza. Não há como  compatibilizar a criatividade humana com a limitação dos determinismos físico-químicos  biológicos para os quais se espera um desfecho entrópico[2]. Se a realidade universal se reduzisse à perspectiva da “morte térmica”, não haveria como justificar o arremate coerente  da ordem evolutiva na organização da matéria desde o big-bang até a consciência reflexiva. Essa coerência sugere a interveniência de um anti-acaso, tão grande é o acúmulo de coincidências bem sucedidas durante todo o processo evolutivo! A simultaneidade destas coincidências em prol da complexidade crescente levanta a expectativa de um desfecho diferente, mais criativo e grandioso para o processo evolutivo. A especulação sobre a complexidade crescente da Evolução revela uma intenção que por sua vez faz supor uma consciência universal cuja natureza transcendental  ultrapassa os limites de qualquer demonstração. Tudo isso conduz à certeza de que o paradigma racional não comporta a realidade toda.  Esta é muito mais  ampla e se reflete  pujante na intuição  de um todo significativo absoluto que não exclui o racional, mas vai além  do puramente sensível. Se o destino do homem é superar-se sempre, transcendendo-se pelo exercício da consciência reflexiva  pode-se inferir que seu último fim é compatível com um absoluto inalcançável pela razão, mas absolutamente necessário para consumar o fenômeno humano. Este absoluto intangível afirmado por um ato de fé ganha o status de realidade na medida em que inspira o ser consciente a abraçar a transcendência absoluta na qual logra um sentido definitivo. Precisamos criar o que não vemos[3], para superar  a insuportável limitação racional que deixa de fora grande parte da nossa própria realidade humana. E a força desta crença alimenta a dimensão transcendental do homem.
            Os sentidos auxiliam no conhecimento da realidade palpável da Natureza. Mas a capacidade criativa da imaginação é que confere um sentido a esta mesma realidade. Nessa perspectiva será imprópria a alternativa: fantasia ou realidade! De fato, à luz da análise fenomenológica da existência, fantasia e realidade são dimensões de um mesmo processo no qual ambas se integram completando-se misteriosa e mutuamente.
A tentativa de insistir em projetar a existência pessoal no plano  puramente lógico, racional e objetivo leva inevitavelmente ao fosso do absurdo vivencial, ou seja, ao desespero sem retorno de ser para nada. Aflição que é temporariamente camuflada por metas provisórias urgentes impostas como exigência mínima de sobrevivência.  O esforço para sobreviver absorve o homem na conquista do que é fundamental para manutenção da vida, envolvendo-o em questões práticas que exigem pronta solução. Não é à toa que  o maior índice de suicídios ocorre exatamente nos países mais desenvolvidos onde os problemas  materiais imediatos[4] de manutenção da vida foram resolvidos. Com a sobrevivência confortável garantida se torna mais premente a aspiração de superar a finitude, celebrando valores transcendentais em busca de um sentido definitivo para a “existência” pessoal. É maior então a exigência para a construção da humanidade. Quando falha a conquista do primeiro objetivo, a fome física maltrata e pode até matar, mas quando o homem não alcança o segundo objetivo a fome de sentido mata o desejo de viver, o que transforma a existência numa tarefa tão desesperadora que a própria morte se torna para a consciência inquieta e abandonada à sorte entrópica, uma maneira equivocada de o homem posicionar-se diante do aparente sem sentido de tudo. Obviamente, essa decisão desesperada não coincide com o objetivo a que se propõe a Evolução! Diante desse conflito existencial vale a pena  lembrar que a tarefa magna do ser consciente é harmonizar na existência pessoal as dimensões  material e  espiritual da condição humana, integrando a “realidade” e a “fantasia”, ao consolidar a afirmação criativa de fé num Absoluto significativo que dignifica a existência pessoal e dá sustentação à solidariedade universal.

                                               Everaldo Lopes




[1] Entropia- medida da quantidade de desordem de um sistema
[2] Relativo à desordem da matéria
[3] O que significa crer para Miguel de Unamuno
[4] Alimentares, sanitários, educacionais, de segurança , etc,