terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

A misteriosa unidade da transcendência e da imanência

O equilíbrio fisiológico entre os nossos órgãos e sistemas vitais é um fenômeno biológico complexo em permanente interação com o meio ambiente. Nesse nível apenas vivemos. Por outro lado, os hábitos e costumes que permeiam as manifestações coletivas estão ligados à prática dos valores éticos. São eventos culturais que espelham o exercício responsável da consciência reflexiva na vida social.  Nesse patamar existimos.
A forma de as pessoas se relacionarem entre si demonstra o maior ou menor comprometimento com a Verdade e a Justiça no encaminhamento das relações interindividuais. Isso se reflete na autoavaliação e disciplina comportamental de cada um.
Desde as especulações dos primeiros pensadores, tornou-se evidente a necessidade de admitir um “primeiro motor não movido”[1], um absoluto criador, visto que nenhum dos seres que constituem o Universo é capaz de criar-se a si mesmo. Analisando retrospectivamente a organização evolutiva destes seres identificamos uma complexidade crescente, desde a matéria primitiva caótica até os organismos vivos e a eclosão no homem da consciência reflexiva. Uma vez que toda ordem  implica numa intenção e esta só existe como um estado de consciência, a constatação do ordenamento impresso na evolução do mundo visível a partir do big bang dá lugar a abstrações metafísicas compatíveis com a intenção de uma consciência universal necessariamente inerente ao Absoluto criador. 
Por outro lado, os seres incapazes de gerar a si mesmos também não possuem a força da subsistência. Isolados do Criador eles desapareceriam. Esse raciocínio conduz à conclusão lógica de que as criaturas não sobrevivem separadas da transcendência absoluta que as criou. Portanto, esta transcendência e a imanência espaço-temporal  constitutiva das criaturas coexistem necessariamente de um modo incompreensível para a razão humana. Diante dessa exigência lógica o pensador coerente é levado a admitir um dinamismo absoluto eternamente criativo que cria e permanece na criatura; em vez de um Criador isolado da sua criação. Conclusão: Deus está presente, necessariamente, em todos os seres que compõem a Natureza. Todavia, apenas o homem presume sua presença misteriosa da qual o único sinal referencial é subjetivo, seja uma expectativa com base especulativa, seja, na melhor hipótese, a fé incondicional no “Dinamismo Absoluto Eternamente Criativo”. Levantando essa questão compreendemos melhor a afirmação mística de São Paulo após a conversão: “Já não sou eu que vivo, mas Cristo que vive em mim.”
            Com essa visão de Deus (o Criador) como um dinamismo absoluto eternamente criativo, necessariamente presente nas suas criaturas, ponho-me a pensar sobre a prática e o fundamento da oração. Orar é conversar com Deus que já está presente em quem reza. O “ego” do suplicante confronta-se na subjetividade do ser humano com o “alter ego” absoluto cuja transcendentalidade não se deixa apreender num conceito, mas está presente, sempre autônoma e poderosa  reconhecível como a “voz da consciência”. A realização miraculosa repousa na força criadora presente em quem pede confiante na coincidência do seu pedido com a integridade da criação, condição para a realização do milagre. Obviamente, tudo está contextualizado num todo absoluto unitário, e o pedido de quem ora só será atendido quando coincidir com a ordem implícita neste absoluto (em linguagem mística: a vontade do Criador). Coincidência viável uma vez que a vontade absoluta de Deus está potencialmente presente na vontade da criatura consciente, inspirando-a a praticar os valores éticos universais. O não atendimento ao pedido extraordinário não seria uma negação, mas a afirmação de uma realidade cuja inteligibilidade escapa ao conhecimento do suplicante. Por mais justa que pareça, a súplica atual pode não se encaixar na ordem evolutiva inerente à intenção da Consciência Universal. Portanto quem roga deve permanecer submisso à vontade do criador que tudo vê, e identifica  as consequências à distância do que se pede hoje, inacessível ao conhecimento do suplicante; eventualmente seu pedido pode não  integrar-se na unidade do Todo absoluto.
Tendo sido criado consciente reflexivo, racional e dotado de livre arbítrio, o homem se identifica com o seu Criador no exercício das funções psíquicas superiores que têm caráter espiritual. Espiritualidade refletida na aspiração do ser consciente à integração pessoal no absoluto transcendental. As especulações desenvolvidas anteriormente sobre a unidade do Absoluto criador sugerem a expectativa de que as limitações temporais se anulam na comunhão perfeita  da criatura e do Criador.
            Na perspectiva desses comentários é infantil pedir que Deus realize o milagre sem a participação de quem o pede; sua colaboração é essencial. Ao dizer: Deus dê-me a graça de ser benevolente e solidário, estou pedindo a mim mesmo a minha própria contribuição pessoal para viabilizar a graça desejada, deixando nas mãos do Criador os fatores que escapam ao meu controle. Sejam as catexes[2] que transitam na minha  intimidade psíquica inconsciente, seja a interação complexa surpreendente das forças da Natureza. Na oração  quem pede o milagre reconhece a própria incapacidade de realizá-lo por si só, todavia está confiante em que seu pedido seja compatível com a intervenção favorável  do Dinamismo Absoluto Eternamente Criativo.
            Em resumo, a unidade misteriosa da transcendência e da imanência é compatível com a tese que a única realidade é o Espírito eterno, transcendência absoluta, origem de tudo[3]. A imanência cósmica essencialmente fugaz que se prolonga na organização biológica, inclusive do homem, pode ser comparada a uma bolha espaço temporal na intimidade do Espírito eterno que a absorve finalmente na sua unidade absoluta. Depois da morte biológica a alma humana, centelha do espírito eterno transfigura-se, sem perder a identidade, participando da unidade comunitária de todas as consciências.     
   Everaldo Lopes





[1] Aristóteles.
[2] Aplicação, consciente ou não, de energia psíquica em pessoa, coisa ou ideia. 
[3] No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus


quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

A consciência pessoal e a eternidade

É presumível o que ocorreu no percurso da Evolução. Recuando no tempo, podemos imaginar que houve um período no qual a consciência reflexiva latente na organização biológica despertou lentamente. Foram momentos de grande comoção para o homem recém-egresso do seu estado anterior de inconsciência de si mesmo. Abriu-se, então, um “espaço virtual” constitutivo da subjetividade do sujeito consciente reflexivo na qual o indivíduo reconhece como seus, pensamentos, sentimentos, emoções que despontam nas relações consigo mesmo e com sua circunstância – o mundo. Experiência absolutamente inédita que distancia o homem, existencialmente, da Natureza. Não é à toa que a Bíblia fala da “queda do homem”. Esta queda representou a sua separação virtual da Natureza, decorrência do exercício da consciência reflexiva, necessariamente autorreferente, que exige um distanciamento subjetivo entre o eu pensante e o mundo, inclusive a estrutura biológica na qual se manifesta o sujeito da consciência. Na história da Evolução, começa com o homem a possibilidade de o comportamento individual escapar do determinismo instintivo em favor do livre arbítrio. Sobrecarregado com a dignidade de ser livre e responsável, sem amarras, num mundo desconhecido e hostil o homem se sentiu isolado e se deu conta da própria fragilidade inquietante, juntamente com o desejo de conquistar paz e segurança. Com essa descoberta se impôs o dever de escolher bem entre as alternativas que se apresentam no seu vir a ser, conforme critérios éticos soberanos, tendo em vista a organização social solidária, tributária da comunidade humana.
Ao  despertar da consciência reflexiva, num primeiro  contato com o mundo, o homem  percebeu obscuramente a realidade como um “todo”, e se deteve nos seus aspectos segmentares e pontuais de interesses mais imediatos inerentes á sobrevivência. Depois, na medida em que foi ampliando o seu campo da percepção, estabeleceu as relações lógicas entre os elementos conhecidos da condição humana e de sua circunstância, tornando-se mais clara a necessidade de contextualizar-se no “todo” já prefigurado vagamente. Todo esse processo  envolve a realidade biopsíquica humana atrelando-a a um absoluto (criador) que não é acessível à experiência sensorial. Depreende-se, portanto, que a ideia deste absoluto transcendental assimilada pela consciência se estruturou intuitivamente a partir do primeiro contato entre a subjetividade  incipiente e o mundo misterioso ao redor.  Certamente, foi nesse primeiro momento que se instalou a vivência  numinosa[1], um “sentimento de fascinação, de terror e de aniquilamento” fundamento existencial da prática religiosa que perdura ainda hoje. Todavia, a razão curiosa, estimulada pela necessidade de resolver os problemas de sobrevivência continuou a esquadrinhar a realidade em busca de associações lógicas. O conhecimento objetivo é crucial para a solução de questões práticas inerentes ao vir a ser humano, mas não resolve a questão da origem e do fim de tudo que existe, curiosidade permanente no ser consciente.
Na verdade, enquanto ser temporal, o homem não pode dissociar-se das realidades objetivas conhecidas a partir de uma abordagem fenomenológica que enfatiza a vinculação entre causa e efeito. Vivendo a contingência de criaturas conscientes ficamos submetidos a um vir a ser em que se misturam a experiência dos sentidos, sensações físicas, e a aspiração de transcender a dicotomia consciência / mundo mediante uma abstração metafísica totalizante. A conjugação dessas tendências, aparentemente antitéticas, (a sensibilidade libidinosa fragmentária, e o ideal de uma totalidade metafisica) é o grande desafio que se  coloca diante da condição humana[2]. Nessa moldura enquadra-se a relação temporal consciência  / mundo, na qual vivemos as experiências sensoriais, carentes, porém, de uma vivência totalizante que transcenda a consciência e o mundo. O próprio homem se define no esforço de elaborar a síntese dessas inclinações. Tudo isso se passa na subjetividade misteriosa cuja natureza intrínseca a ciência não sabe explicar, mas, seguramente transcende o tempo e o espaço configurando a dimensão espiritual que por não se poder objetivar escapa a uma análise fenomênica. Resta-nos prosseguir especulando sobre o destino da alma imortal, na qual se configura a consciência pessoal, que se pode entender como um aspecto localizado da Consciência Universal. Insinua-se, assim, a questão do destino da consciência pessoal depois da morte biológica. O que será feito  da consciência pessoal que se identifica com a alma humana, ao desvencilhar-se da complexidade biológica através da qual o espírito se manifesta? É evidente que após a morte todas as necessidades estão eliminadas. Não havendo necessidades, obviamente, não há desejos a satisfazer, e a plenitude do “ser pessoal” será total. O Espírito liberto dos seus tradutores biológicos, finitos, goza em plenitude as virtudes que lhe são próprias: imortalidade, liberdade, paz, percepção instantânea de tudo que existe na unidade do absoluto transcendental. Mal podemos especular sobre essa beatitude que ultrapassa os limites de uma experiência temporal. É impossível concebê-la enquanto a consciência está presa à materialidade contingente do servomecanismo psicobiológico no qual se manifesta a transcendência indemonstrável. Nem ao menos podemos imaginá-la!!! Daí ser insólita a vivência mística que, por definição reflete a dimensão atemporal, absoluta, do homem,  descrita, porém, como real, pelos grandes místicos, ainda nesta vida. Acredito nos testemunhos que eles nos legaram e seria inútil procurar argumentos racionais para contradizê-los. Do ponto de vista estritamente  racional, nada se pode afirmar ou negar com certeza sobre o absoluto transcendental.
O destino da consciência pessoal marcada  pela necessidade de transcender-se ao infinito é integrar-se na unidade absoluta que ultrapassa os limites da existência histórica. Neste ponto se configura a questão da conservação da identidade pessoal após a morte. Postulamos que nesse “depois” o eu pessoal ganha seu significado definitivo, transfigurando-se no eu comunitário que, obviamente, não existe separado, mas não perde a identidade pessoal  transfigurado, substancialmente, ao dimensionar-se na complexidade do concerto universal de todas as consciências unidas na harmonia  da transcendência absoluta – o Espírito eterno. Diria, que a alma humana, após a morte, se plenifica no Espírito eterno do qual, aliás, nunca se separou. Assumo que a consciência pessoal se identifica na comunidade  de todas as consciências como o eu comunitário definido em relação a todos os demais eus; um não existe sem os outros, e nenhum sente necessidade de distinguir-se na intimidade infinita da unidade absoluta do Espírito Eterno. Quando a sombra animal[3] do homem, finalmente se anula com a morte biológica, a consciência pessoal alcança a completa transfiguração no eu comunitário, integrando-se, finalmente, no Absoluto original pela comunhão de todas as consciências. .Depois da morte biológica a consciência pessoal (a alma humana) vive a plenitude da Eternidade.
 Everaldo Lopes 







[1]  Segundo Rudolf Otto (1869-1927), teólogo e filósofo alemão, o sentimento único vivido na experiência religiosa, a experiência do sagrado, em que se confundem a fascinação, o terror e o aniquilamento. 
[2] Ser consciente, livre e responsável.
[3] Remanescente da carga instintiva de sua ancestralidade animal remota.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Fantasia e realidade


            No discurso informal os vocábulos fantasia e realidade referem-se, respectivamente, ao imaginário e ao concreto. Todavia contextualizadas na experiência humana, fantasia e realidade se fundem, numa vivência singular.
Mergulhando na intimidade subjetiva descobrimos que existir não é simplesmente sobreviver, mas viver por algo que transcende  o  vir a ser aqui-e-agora. A sobrevivência apoia-se em recursos biológicos automáticos e reflexos primários; mas existir implica na elaboração e construção de projetos estético-artísticos e ético-comunitários que ultrapassam o simples ato de viver e o justificam mediante a consagração de valores estéticos, morais e sociais. Nestes projetos a criatividade se traduz em atitudes e atos impregnados de um sentido social responsavelmente assumido.
A  realidade humana dispõe de dois  focos, um racional e  outro afetivo intuitivo. No primeiro destaca-se  a objetividade  limitada ao espaço-tempo cósmico; no segundo projeta-se a sensibilidade  que se prolonga  na magia da intuição e da imaginação.  Por sua condição de ser consciente e responsável ávido de um sentido definitivo para sua existência, o  homem se utiliza dos recursos que convergem nestes dois focos para contextualizar-se num todo absoluto significativo.  Nesse dinamismo existencial, fantasia e realidade são entidades  justapostas na atividade psicobiológica do vir a ser humano.  No plano cósmico a realidade se enclausura num mundo suicida  que caminha conforme a  2ª lei da termodinâmica para a completa desordem de todos os sistemas físicos, desordem dimensionada pela entropia[1]. No campo da sensibilidade manifesta-se a criatividade humana capaz de transformar a Natureza. Não há como  compatibilizar a criatividade humana com a limitação dos determinismos físico-químicos  biológicos para os quais se espera um desfecho entrópico[2]. Se a realidade universal se reduzisse à perspectiva da “morte térmica”, não haveria como justificar o arremate coerente  da ordem evolutiva na organização da matéria desde o big-bang até a consciência reflexiva. Essa coerência sugere a interveniência de um anti-acaso, tão grande é o acúmulo de coincidências bem sucedidas durante todo o processo evolutivo! A simultaneidade destas coincidências em prol da complexidade crescente levanta a expectativa de um desfecho diferente, mais criativo e grandioso para o processo evolutivo. A especulação sobre a complexidade crescente da Evolução revela uma intenção que por sua vez faz supor uma consciência universal cuja natureza transcendental  ultrapassa os limites de qualquer demonstração. Tudo isso conduz à certeza de que o paradigma racional não comporta a realidade toda.  Esta é muito mais  ampla e se reflete  pujante na intuição  de um todo significativo absoluto que não exclui o racional, mas vai além  do puramente sensível. Se o destino do homem é superar-se sempre, transcendendo-se pelo exercício da consciência reflexiva  pode-se inferir que seu último fim é compatível com um absoluto inalcançável pela razão, mas absolutamente necessário para consumar o fenômeno humano. Este absoluto intangível afirmado por um ato de fé ganha o status de realidade na medida em que inspira o ser consciente a abraçar a transcendência absoluta na qual logra um sentido definitivo. Precisamos criar o que não vemos[3], para superar  a insuportável limitação racional que deixa de fora grande parte da nossa própria realidade humana. E a força desta crença alimenta a dimensão transcendental do homem.
            Os sentidos auxiliam no conhecimento da realidade palpável da Natureza. Mas a capacidade criativa da imaginação é que confere um sentido a esta mesma realidade. Nessa perspectiva será imprópria a alternativa: fantasia ou realidade! De fato, à luz da análise fenomenológica da existência, fantasia e realidade são dimensões de um mesmo processo no qual ambas se integram completando-se misteriosa e mutuamente.
A tentativa de insistir em projetar a existência pessoal no plano  puramente lógico, racional e objetivo leva inevitavelmente ao fosso do absurdo vivencial, ou seja, ao desespero sem retorno de ser para nada. Aflição que é temporariamente camuflada por metas provisórias urgentes impostas como exigência mínima de sobrevivência.  O esforço para sobreviver absorve o homem na conquista do que é fundamental para manutenção da vida, envolvendo-o em questões práticas que exigem pronta solução. Não é à toa que  o maior índice de suicídios ocorre exatamente nos países mais desenvolvidos onde os problemas  materiais imediatos[4] de manutenção da vida foram resolvidos. Com a sobrevivência confortável garantida se torna mais premente a aspiração de superar a finitude, celebrando valores transcendentais em busca de um sentido definitivo para a “existência” pessoal. É maior então a exigência para a construção da humanidade. Quando falha a conquista do primeiro objetivo, a fome física maltrata e pode até matar, mas quando o homem não alcança o segundo objetivo a fome de sentido mata o desejo de viver, o que transforma a existência numa tarefa tão desesperadora que a própria morte se torna para a consciência inquieta e abandonada à sorte entrópica, uma maneira equivocada de o homem posicionar-se diante do aparente sem sentido de tudo. Obviamente, essa decisão desesperada não coincide com o objetivo a que se propõe a Evolução! Diante desse conflito existencial vale a pena  lembrar que a tarefa magna do ser consciente é harmonizar na existência pessoal as dimensões  material e  espiritual da condição humana, integrando a “realidade” e a “fantasia”, ao consolidar a afirmação criativa de fé num Absoluto significativo que dignifica a existência pessoal e dá sustentação à solidariedade universal.

                                               Everaldo Lopes




[1] Entropia- medida da quantidade de desordem de um sistema
[2] Relativo à desordem da matéria
[3] O que significa crer para Miguel de Unamuno
[4] Alimentares, sanitários, educacionais, de segurança , etc,

domingo, 30 de novembro de 2014

O idoso lúcido

                                                               Pudor
Quando fores descobrindo que o fulgor
Do teu ser se corrompe e a adolescência
Do teu gênio desmaia, perde a cor,
Entre penumbras em deliquescência,

Faze a tua sagrada penitência,
Fecha-te num silêncio superior,
Mas não mostres a tua decadência
Ao mundo que assistiu teu esplendor!

Foge de tudo para o teu nadir!
Poupa ao prazer dos homens o teu drama!
Que é mesmo triste para os olhos ver

E assistir, sobre o mesmo panorama,
A alegoria matinal subir
E a ronda dos crepúsculos descer.

                               Raul de Leoni


Consciente da própria finitude o homem reage inconformado ante o  envelhecimento e a morte. O soneto que prefacia o texto transparece uma atitude estoica, ou seja, de impassibilidade diante do infortúnio de envelhecer. Participando ou não dessa postura o idoso lúcido é sempre um crítico impiedoso de sua condição. Cônscio da própria decadência física estética e funcional assume a única postura decente para quem vive essa situação irreversível. Em respeito à própria dignidade e à sensibilidade dos demais cala a maior parte do tempo. E quando fala confere maior rigor à elaboração do seu discurso, selecionando melhor o teor de sua mensagem para torna-la objetiva e concisa. Dessa forma assegura-se de não ser repetitivo nos diálogos que protagoniza, ou invasivo da autonomia e tranquilidade dos que o cercam. Seguindo essa linha de comportamento, antes de falar pondera a coerência do que tem a dizer, sonda a verdade do que dirá e avalia o que sua intervenção pode acrescentar positivamente à realidade. Depois dessa triagem sobra muito pouco, quase nada para dizer, salvo nas oportunidades em que a experiência de vida do mais velho for solicitada para ajudar na solução de problemas pontuais. Obviamente a anosidade não é garantia de sabedoria. Todavia, quem já viveu muito uma existência analisada tem mais chance de ser sensato por haver acumulado maior experiência sobre como lidar com os percalços das relações humanas, garantia potencial de maior flexibilidade na solução das dificuldades que atropelam a convivência social. Todavia, neste ponto é oportuno salientar que numa participação social solidária, mais importante do que ter o conhecimento, é vivenciar um crescimento interior que envolva disciplina emocional, generosidade, e capacidade de tomar decisões.
O comportamento reservado e elaborado do idoso lúcido não é sinônimo de intransigência presunçosa. Ele não nega a dor moral das perdas que acompanham o passar dos anos, mas não se deixa afogar nelas nem as alardeia, antes procura alguma forma de compensá-las com os recursos de que ainda dispõe. Para suavizar o impacto da marcha biológica regressiva tenta ser tolerante no julgamento da desfiguração estética do envelhecimento,  e “desdramatiza” o sentimento de menos valia ao constatar a fragilidade física e o pobre desempenho funcional inerentes à idade. Consciente de sua autoavaliação objetiva realista, o idoso lúcido compreende sem ressentimento o distanciamento involuntário dos mais jovens que vivem ao ritmo de outro tempo e têm interesses diferentes. Sente-se bem quando é procurado por amigos, filhos e netos, mas não alimenta a  expectativa de ser o centro de suas atenções, e muito menos exige que o procurem, sem que essa postura ofusque o afeto que eles lhe inspiram.
É possível que alguns idosos conservem a criatividade e continuem cativando os circunstantes com sua capacidade de transmitir mensagens construtivas. Obviamente, quanto mais sábio e humilde for o idoso melhor aproveitará os seus talentos comunicativos. Mas é conveniente lembrar que mesmo os que não alcançam reproduzir um perfil excepcional podem tornar-se pessoas menos agressivas, mais tolerantes, em harmonia consigo mesmas. Com essas características, os que conservam as funções psíquicas superiores intactas, e estão dispostos a enfrentar corajosamente os revezes da idade com bom senso, sem mágoa, conseguem ser simpáticos e bem acolhidos por todos.
Faz parte da lucidez do idoso perceber que sua existência vai se tornando cada vez mais pobre de lances excitantes, prazerosos e, portanto, é urgente aprender a lidar com essa situação. A saída desse impasse depende dos quocientes intelectual e emocional do idoso, da visão de mundo na qual ele se contextualiza e de sua resiliência psíquica[1]. Uma resposta eficaz para as restrições que o afetam não exige, necessariamente, riqueza de conhecimento intelectual nem refinamento cultural, mas não dispensa a intuição do equilíbrio pessoal no exercício da razão, da sensibilidade afetiva e da vontade.
A consciência de um passado já longo e de um futuro que mingua, inevitavelmente anuncia a proximidade da  morte dos que já viveram mais de dois terços de suas vidas, o que os leva a pensar nela com mais frequência. Aparentemente não há como negar o clima de fim de  festa no último terço de suas vidas. Mas o idoso lúcido sabe que pode optar por não fazer da velhice um ritual de desistência da vida que ainda flui no seu corpo já muito vivido, e assumirá esta opção com proficiência tanto maior quanto maior for seu envolvimento com uma atividade criativa. Não se pode prever até quando o idoso sadio conservará sua lucidez, compatibilizando-a com uma atividade criativa que lhe confira o prazer de viver!  Certamente nessa evolução influem fatores socioeconômicos, pessoais, culturais e genéticos, além da mundividência na qual o homem assume uma posição definida, seja numa visão de mundo espiritualista, ou materialista. O idoso materialista evoluirá coerentemente para uma postura apática, indiferente que no vocabulário cético estoico se confunde com a ataraxia[2]. O idoso espiritualista encarna uma visão mística  inerente à fé em um dinamismo absoluto eternamente criativo que permanece na sua criatura. No homem este dinamismo alimenta a esperança de vida eterna como individualidade espiritual pessoal. Promessa que suaviza a aceitação da finitude biológica à qual está condenado. A entrega incondicional do sujeito consciente a um absoluto transcendental ameniza o sentimento de orfandade de uma existência desgarrada e vazia, razão do distanciamento de si mesmo que ameaça o idoso. Mas o pleno resultado prático desta entrega, traduzido em paz e serenidade, só se evidencia quando esta entrega está embasada numa crença autêntica que absorve inteiramente o homem de qualquer idade predisposto a crer numa transcendência absoluta sem questionar. Não se produz o mesmo efeito entre os mais racionais que recorrem a argumentos especulativos metafísicos para justificar a adesão intelectual a uma transcendência absoluta. A vivência de pertencimento a um todo significativo faz toda diferença no desdobramento da conduta do idoso lúcido. Alguns homens teimam em afirmar que podem  conviver sem sobressalto com a ideia de ser a morte biológica o seu fim definitivo; não sei até que ponto se pode confiar na integridade existencial desta afirmação! Em verdade é realmente mais razoável admitir o “dinamismo absoluto” que criou o cosmo e a vida, manifestando-se por fim como pessoa[3] no exercício das funções psíquicas superiores do homem. Como individualidade espiritual este dinamismo absoluto continua presente nas suas criaturas e sobreviverá à morte física do indivíduo. Nesta linha de raciocínio o místico aposta na comunidade universal de todas as consciências integradas na unidade do absoluto transcendental no qual se manifesta a perfeição por toda eternidade. Tudo isso pode encontrar respaldo em especulações filosóficas, mas a razão por si só não promove  a vivência de participação neste absoluto transcendental. Reafirmo, pois, o que disse no fechamento do texto anterior: felizes os que experimentam a vivência autêntica dessa expectativa mística amparados por uma fé ingênua,  prescindindo de cogitações filosóficas.
Obviamente, em qualquer dos casos, o sofrimento por doença é um complicador que cada  um terá de enfrentar de acordo com as reservas morais remanescentes! Em todo caso, embora seja o homem um ser de cultura, na ausência de uma experiência mística aquietadora, o idoso pode ainda confiar na ajuda da natureza para resolver os problemas criados por ela mesma; afinal, nascer e morrer são fenômenos que obedecem aos determinismos da natureza, e todos acabamos cumprindo nosso destino natural. A responsabilidade que pesa sobre o homem consiste em empenhar-se  para crescer e envelhecer com dignidade, cultivando a generosidade numa convivência social solidária.     

  Everaldo Lopes   





[1] Capacidade de recuperação depois de uma agressão emocional.
[2] Estado em que a alma, pelo equilíbrio e moderação da escolha de prazeres sensíveis e espirituais atinge o ideal supremo de felicidade: a imperturbabilidade;
[3] Pessoa –Individualidade física e espiritual, portadora de qualidades quais sejam a racionalidade, a consciência de si, a capacidade de agir conforme fins determinados e o discernimento de valores éticos.

sábado, 15 de novembro de 2014

Temas para meditação


O cosmo, a vida, o homem são realidades cuja complexidade desafia o entendimento racional. Contudo, astrofísicos, paleontólogos, arqueólogos, biólogos e antropólogos tentam compreender cada vez mais os segredos que envolvem a origem do mundo, a estrutura da vida e a condição humana. Suas investigações nos oferecem, hoje, uma visão impressionante do que  possivelmente  aconteceu. Os dados obtidos através da observação científica são estonteantes. E mesmo  assim tudo que sabemos é apenas uma aproximação da realidade. À luz da teoria do big bang a matéria surgiu há 15 bilhões de anos, depois de uma grande explosão fenômeno que deu o nome à citada teoria. Por muito tempo após a fantástica explosão a matéria  primitiva permanecera caótica,  feita de radiações que alternavam com partículas subatômicas movendo-se a velocidades próximas à da luz, submetidas a temperaturas altíssimas  e a pressões inimagináveis. Nesse ambiente físico não havia condição sequer para a organização de um simples átomo de hidrogênio, o mais simples de todos. Com o resfriamento paulatino as subpartículas foram se organizando em átomos, moléculas e corpos compostos, numa complexificação crescente, e há 5 bilhões de anos surgiu a Terra, obviamente, ainda despovoada de qualquer forma de vida. Muito depois, há 3,5 bilhões de anos surgiram nos oceanos primitivos organismos monocelulares equivalentes a bactérias e algas. Em seguida, através de muitos ensaios biológicos evolutivos sobrevieram sucessivamente, os moluscos, os peixes, os anfíbios, os répteis, as aves, os mamíferos e dentre estes os antropóideos, os hominídeos e finalmente o homem capaz de reconhecer-se como  consciência reflexiva. Nele há 1 milhão de anos começaram a desabrochar capacidades como a de pensar logicamente, a de imaginar, a de refletir, e de articular uma intenção. Mas só há 200.000 anos desenvolveu-se do gênero homo, a espécie sapiens capaz de dominar o raciocínio abstrato, de fazer introspecção e resolver problemas, assim como introduzir mudanças programadas no meio ambiente. Há 50.000 anos na subespécie sapiens sapiens da qual somos representantes, o homem alcançou a melhor performance dessas características. Mas só 3.000 anos antes de Cristo nasceu a primeira escrita silábica, marcando a passagem da pré-história para a história. Grosso modo podemos dizer que o patrimônio cultural humano com registro escrito se estende durante os últimos 5.000 anos.
            A cultura progressivamente construída pelo homem é cumulativa, por isso o acervo cultural evolui de forma exponencial. Mas durante um longo período esse processo caminhou a um ritmo muito lento. Só há muito pouco tempo o crescimento cultural exponencial se tornou mais evidente. Examinando os fatos que marcaram a Evolução mais recente, constata-se que embora a subespécie que representamos exista há 50.000 anos, surpreendentemente, nos últimos 65 anos o progresso científico e  tecnológico foi maior do que o que ocorreu nos 49.935 anos anteriores.            Estamos sentindo, hoje, na própria pele a repercussão cultural deste progresso.
  Para evidenciar uma visão panorâmica temporal da Evolução, Carl Sagan propôs comprimir o tempo de existência do universo em um ano  do calendário solar. Nessa escala o big bang teria ocorrido no segundo inicial do dia primeiro de janeiro do calendário cósmico, e a história escrita do homem estaria se desenrolando nos últimos segundos do dia 31 de dezembro deste mesmo ano.
 Não obstante o avanço cultural constatado em nossos dias, o mundo apresenta-se ainda dividido em centros de excelência civilizacional ao lado de grandes bolsões de pobreza e ignorância caracterizados por precárias condições alimentares, habitacionais e sanitárias de grupos humanos numerosos. Essa disparidade ameaça a própria Evolução que a fim de seguir adiante deve contar com a solidariedade comunitária de todos os homens, incompatível com as diferenças econômicas e sociais excludentes. A razão desse descompasso da caminhada evolutiva é que  avançamos muito do ponto de vista científico e tecnológico, porém muito pouco do ponto de vista emocional, e solidário. Em verdade essa discrepância repousa em que para ampliar o conhecimento objetivo da realidade basta fazer uso apropriado da razão; enquanto a capacidade de interagir com o próximo em função da solidariedade coletiva exige muito mais,  demanda esforço pessoal competente e mantido no combate ao egoísmo e à ambição, coadjuvado pelo compromisso com o bem comum. Aliás, como já sinalizamos antes, dessa conquista depende o futuro da própria Humanidade. O homem ocupa na linha da Evolução o momento em que o vetor  do movimento  evolucionário muda de direção, da estruturação e aprimoramento biológico dos indivíduos humanos, para a organização social dos mesmos. Ou seja, a partir do homem a Evolução dependerá da capacidade dos indivíduos de organizarem-se em comunidade. Os humanos devem impor-se livremente uma organização social flexível que garanta a sustentabilidade da espécie, mediante comportamento criativo, original, diferentemente de tentativas evolutivas anteriores de organização social confiada a determinismos instintivos (sociedade das abelhas e das formigas). Dessa forma recai sobre o ser consciente a responsabilidade de contribuir com sua ação livre, criativa, para o desfecho da própria Evolução. Mas, não obstante assumir no processo evolucionário a dimensão de parceiro voluntário do próprio “Dinamismo absoluto criativo”, o homem continua vivenciando sua condição de criatura, finito, preso às limitações temporo-espaciais. Continua prisioneiro dos prazos inextensíveis da vida biológica, escravo de sua contingência incerta, com tempo de validade determinado e previsível. Diante das incertezas inerentes à própria contingência, na sua caminhada evolutiva o homem sente necessidade de um referencial totalmente confiável que o oriente sem deixar dúvidas sobre os caminhos a seguir e a forma correta de participar da evolução. Sem um referencial totalmente confiável o projeto existencial fica limitado por um sistema de referência incapaz de definir com autoridade o papel que cabe  ao homem protagonizar na história da Evolução. A ciência, por sua  própria natureza objetal não pode propor um valor absoluto transcendental que sirva de referência ao processo evolutivo. Então, para preencher essa necessidade o homem recorreu em diferentes épocas a uma autoridade externa representada ora por entidades mitológicas, ora por divindades cultuadas mediante práticas religiosas. De qualquer forma fica bem claro que para sua completa realização o homem  necessita arrimar-se num absoluto transcendental.  Ora este absoluto transcendental ultrapassa os limites da matéria sugerindo uma  realidade espiritual que fundamenta o mundo, revela-se na condição humana, e nela o  homem se realiza plenamente. Realidade eventualmente  vivenciada numa experiência subjetiva essencialmente mística[1]  (existem relatos históricos de místicos famosos). Ao admitir  uma mundividência espiritualista  torna-se presumível que quando a morte sobrevier a consciência assumirá sua essência transtemporal, num outro nível de vida.
Do que ficou dito depreende-se que reconhecendo a própria contingência  a segurança e a felicidade do homem nessa vida consiste na sua contextualização  num todo absoluto, essencialmente significativo com o qual mantenha uma relação de confiança. Nesta contextualização o ser consciente conta com a certeza de que na unidade absoluta  tudo tem sentido, desfazendo-se nela todas as contradições. Mesmo que jamais venhamos a entender nessa vida por que as coisas acontecem do jeito que acontecem, a favor ou contra o nosso desejo, os desencontros temporais que transtornam a realidade histórica não perturbarão a harmonia da unidade absoluta de tudo quanto existe. No vir a ser histórico do homem o sofrimento é tão fugaz quanto o prazer que a vida pode oferecer. Conceitualmente podemos dizer numa linguagem mística que só a unidade transcendental (em Deus) de todas as consciências reúne toda paz e felicidade possíveis para todo o sempre. Especulações metafísicas podem dar suporte remoto a essa visão espiritualista criacionista do cosmo, da vida e do homem. Mas a fé filosófica que busca apoiar-se nestas especulações  não tranquiliza tanto quanto a crença ingênua que não procura um amparo racional para consagrar  a existência individual a um Deus pessoal interessado em sua criatura.  
Everaldo Lopes





[1] Experiência subjetiva em que um indivíduo dá testemunho de ter tido um encontro ou uma união com  entidade divina, ou ter tido contato com uma realidade transcendental.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

A missão do homem

 “ A vida  nada mais  é  do  que  uma  sombra  que   passa ; um  pobre  comediante  que  se  pavoneia  e  se  agita  no breve  instante  que  lhe  reserva  a  cena  e , depois ,  nada  mais  se  ouve  dele . É  uma  história  contada  por  um    idiota , cheia  de  fúria  e  tumulto , nada significando.”
William  Shakespeare


A fala de “Macbeth” na cena V do ato V da tragédia que leva seu nome está impregnada de um pessimismo perturbador. A repercussão dessa peça teatral no mundo inteiro durante os  quase quatro séculos que se seguiram à sua publicação dá testemunho de que o texto escrito por Shakespeare mexe com a psique humana. Ao reconhecer o brilho estético da obra do grande dramaturgo Inglês, cremos oportunas algumas considerações paralelas que destacam um  olhar positivo sobre a vida.
O otimismo e o pessimismo são modos de encarar a realidade que interferem na conduta das pessoas. Ninguém pode negar que o otimismo e o pessimismo exagerados podem levar, respectivamente, à negligência leviana e à inação depressiva. Por isso é oportuna a intervenção da crítica na orientação prática da conduta pessoal tanto dos que se inclinam ao otimismo, como dos que são mais propensos ao pessimismo. Esta intervenção dá lugar ao que poderíamos chamar de otimismo e pessimismo críticos, pois, não obstante a disposição de espírito subjacente em cada caso, o sujeito consciente pode sempre fazer uso da liberdade pessoal para escolher um comportamento diferente. No processo evolutivo do qual participamos cabe ao homem refletir  livre e responsavelmente antes de fazer suas escolhas.
Distinto dos demais seres vivos, o homem é reflexivamente consciente da própria finitude e capaz de avaliar tanto o acerto como o desacerto do seu comportamento. A consciência reflexiva e o livre arbítrio, aptidões inéditas no universo pré-humano permitem ao homem escolher e deliberar sobre o próprio comportamento.  Essa capacidade  torna possível a dimensão ética inerente à condição humana.  Independente de sua inclinação otimista ou pessimista, o homem ético está sempre predisposto a escolher dentre as várias alternativas comportamentais que se apresentam cada momento, uma que satisfaça os valores assumidos.  
Senhor do seu vir a ser o homem pode mudar o rumo dos acontecimentos e cumpre fazê-lo em favor da própria Evolução. No desempenho desse papel contextualiza-se com autenticidade num projeto que o transcende, empenhando na realização dessa escolha seus dons superiores racionais, afetivos e volitivos. Neste projeto, o referencial histórico que dá sentido ao devir peculiar do homem e que o dignifica é a disposição de construir a comunidade de todos os homens. Solidária, centrada na verdade e na justiça, a organização comunitária é indispensável à sobrevivência da espécie Homo Sapiens sapiens. Agindo dessa forma o homem escapa da “idiotia” e colabora para dar seguimento à Evolução, dignificando o vir a ser pelo qual se torna responsável. Nesse ritual de dedicação aos valores humanísticos éticos, o fator decisivo do sucesso é a vivência genuína de solidariedade que cada um, idealmente, é capaz de experimentar na convivência social. A fidelidade a esse vínculo recíproco de pessoas  dignifica o modo de ser pessoal de cada um. Fora desse contexto a vida efêmera do homem realmente “nada  mais  é do que uma sombra que passa ”. Esquivando-se de sua missão no processo evolutivo o homem parecerá sem dúvida “um  pobre  comediante  que  se  pavoneia  e  se  agita  no  breve   instante  que   lhe  reserva  a cena  e ,  depois , nada  mais  se  ouve dele.”   
Com prazo marcado para realizar sua missão temporal, o homem precisa estar atento às oportunidades de realização dos projetos construtivos que se lhe oferecem. Ao priorizá-los, sem perder o foco comunitário cada um poderá desfrutar coerentemente o prazer dos sentidos e as alegrias espirituais, ancorado no exercício do autoconhecimento e da disciplina emocional.  
A inquietação perdura, a consciência da finitude e as incertezas inerentes continuam estimulando o desejo humano, impossível, de eternidade e de segurança total. Para os que têm fé, a superação desse desassossego é reforçada pela expectativa de integração transtemporal num absoluto unitário (Deus) no qual se desfazem todas as contradições.  Essa esperança se alimenta da confiança num clímax representado pela integração pessoal num todo significativo absoluto que, do ponto de vista estritamente racional é tão impossível provar, como negar. Todavia, o cientificismo ao qual estamos condicionados dispõe que “os métodos científicos podem e devem ser estendidos a todos os domínios do conhecimento”. Ora, isso implica na dificuldade racional de justificar a existência do cosmo e da vida. A matéria, por ser contingente, não se autoproduziu nem apareceu por geração espontânea. Tudo que existe no tempo e no espaço é finito e teve um começo, vem de algo anterior, tem uma causa; portanto retrocedendo no tempo até um primeiro momento  impõe-se concluir  que um absoluto criador[1] precedeu o universo conhecido ou lhe é concomitante. Esse é o argumento milenar da necessidade de uma primeira causa não causada, o motor imóvel proposto por Aristóteles, que não pode ser objetivado num experimento cientifico.
Provisoriamente confirmada em 14 de março de 2013, o Boson de Higgs  partícula elementar  que, teoricamente, surgiu logo após o Big Bang validaria o modelo padrão atual de partículas, e representaria a chave para explicar a constituição da massa das outras partículas elementares. Por isso, foi cognominada impropriamente a partícula de Deus. Denominação inadequada porque esta partícula não pode prescindir de um Absoluto criador, uma vez que sendo uma contingência por si só ela não existiria. Resta-nos, então, a proposta intuitiva do Poeta[2]  que na sua obra “A velhice do Padre Eterno”  nos diz: “Um dia, a humanidade inteira, numa só aspiração reunida há de fazer da razão e da fé os dois olhos da alma; da verdade e da crença os dois polos do mundo”! Mas permanecendo no terreno da razão, apoiados em especulações metafísicas, concebemos ser racionalmente defensável o objeto de fé que completa as lacunas do conhecimento objetivo da realidade.
Especulativamente ganha corpo a ideia de uma consciência universal que antecede e determina a ordem evolutiva desde a matéria primitiva até a organização comunitária da coletividade humana. Mas esta organização histórica, temporal, só se consumaria, à perfeição, prolongando-se na comunidade transtemporal de todas as consciências numa unidade absoluta. Um absoluto cuja transcendentalidade só pode ser vivida, como crença, mediante um ato de fé.  Todavia, com ou sem fé a vida humana só ganha significado quando preenche seu papel na Evolução Universal, promovendo a organização social comunitária da humanidade. Seguindo este roteiro comportamental, a vida do homem já não seria “...uma história  contada  por  um  idiota, cheia  de  fúria  e tumulto, nada significando” . O comportamento individual dignificado pela prática da solidariedade comunitária torna a vida humana uma consagração pessoal aos ideais de Verdade, de Beleza e Justiça que transcendem a contingência temporal, promovendo a plenitude da existência.
                   
 Everaldo Lopes




[1] O que existe em si e/ou por si, causa de si mesmo.
[2] Guerra Junqueiro

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

O Pessimista e o Realista Crítico

Depois de longa ausência dois amigos de infância encontraram-se na sala de espera de um aeroporto, e após os cumprimentos de praxe  logo reataram a antiga intimidade. Ambos inteligentes, mas completamente diferentes. Quarentões profissionalmente bem sucedidos, um era Pessimista (P) e o outro Realista Crítico (RC). Enquanto esperavam a chamada para embarque sentaram lado a lado na grande sala climatizada do aeroporto. Sabiam que a espera seria longa e começaram a conversar sobre os mais variados assuntos. Inteiraram-se sumariamente dos caminhos percorridos por cada um até aquele momento. Sentiam-se emocionalmente muito próximos ao reviverem uma amizade de infância e pela expectativa comum de mais uma aventura aérea. Sim, pois em verdade, por mais seguras que sejam as aeronaves, voar é sempre uma aventura na avaliação secreta da maioria dos homens! Obviamente, o Pessimista era o mais tenso dos dois e, num dado momento do bate-papo desabafou.
P – Não sei como você se sente, mas fico inquieto quando tenho de viajar de avião. Por mínimo que seja o risco, incomoda-me saber-me sobrevoando a superfície do nosso planeta a 12.000 metros de altura, inteiramente à mercê de uma máquina e da habilidade dos pilotos. Se já me sinto ansioso no meu dia a dia, só de saber-me vulnerável, incapaz de controlar inteiramente os eventos do momento seguinte, pior fico ao sair da rotina tendo que enfrentar novos desafios.
RC- Pensando bem, acho que a intranquilidade que você acaba de relatar, com maior ou menor intensidade é uma vivência comum a todos   nós seres conscientes da própria contingência. Quem não sente a fragilidade da vida? Somos felizes quando conseguimos viver a vulnerabilidade aos males do corpo e da mente com espírito crítico capaz de distinguir as possibilidades, das probabilidades. No campo das possibilidades tudo pode acontecer, mas somente os eventos mais prováveis ocorrerão de fato. A imensa maioria dos acontecimentos possíveis só muito raramente se confirma. Porém, não raro o medo pode criar fantasias catastróficas envolvendo possibilidades remotas. Para  evitar o pânico é fundamental administrar as operações subjetivas, interpondo certa distância entre o eu cognoscente e as previsões fantasiosas que ampliam a insegurança pessoal. Esse distanciamento torna possível analisar a situação, e avaliar o que nestas previsões há de real, e de imaginário.
P – Confesso que tenho dificuldade para fazer esse controle. O menor indício do inesperado indesejável, invariavelmente, me provoca uma reação de alarme como se estivesse diante de uma situação real concreta ameaçadora. Gostaria de livrar-me disso, mas é difícil consegui-lo!
RC – Sem dúvida sua confissão evidencia uma forma sofrida de encarar a realidade. Permanentemente sob o peso das incertezas você convive mal com a finitude e a insegurança implícitas no simples ato de existir, vivenciando permanentemente a angústia existencial. Eu costumo utilizar mecanismos racionais de controle para amenizar o mal-estar das incertezas ameaçadoras.
P – A dificuldade que sinto de exercer esse controle me faz pensar que minha predisposição pessimista está associada a uma experiência negativa durante o processo de individuação. Esse tropeço evolutivo explicaria a tendência que me aflige de encarar tudo pelo lado negativo.
RC- Certo. E nos casos mais graves do transtorno comportamental inerente à formação da personalidade a libertação do medo ligado à expectativa do pior implica numa verdadeira superação pessoal. O que muitas vezes levanta a necessidade de ajuda especializada. Entre os pessimistas, o medo escapa ao controle consciente, desestabilizando-os emocionalmente. O sujeito consciente normal e lúcido sabe racionalmente que de momento a momento o perigo de adoecer e morrer é real como possibilidade, mas como probabilidade tem muito pouca chance de acontecer no instante em que desponta o temor. E ao avaliar cada situação procura enfatizar os aspectos positivos mais prováveis, sem se envolver em preocupações inúteis.
P. Evidentemente é fundamental separar criteriosamente a realidade e a fantasia na apreciação da experiência em curso. Mas para isso há que afugentar o pânico, e ser determinado para concentrar toda atenção apenas no real concreto, corrigindo os exageros da inclinação pessimista. Essa é a minha grande dificuldade!  
RC- Diante de sua perplexidade sinto-me encorajado a falar da minha experiência pessoal. Reconheço e assumo que na avaliação das situações que defronto a imaginação pode urdir divagações pessimistas em torno da realidade objetiva. Esta representa à luz da consciência a atualização de uma probabilidade real; a divagação  se perde em fantasias possíveis porém improváveis. Usando o bom senso aposto nos conteúdos racionais objetivos, mantendo a certa distância ou anulando o medo que acompanha os devaneios  pessimistas.
P – Reconheço que esse seria o comportamento ideal. Porém sabe-lo racionalmente sem o suporte emocional correspondente não basta para tornar-me menos temeroso. Sinto-me Intimidado ante a fatalidade de nunca poder livrar-me da incerteza do que está para acontecer! E a preocupação decorrente  desse estado de espírito é torturante.
RC- Sem dúvida, os riscos continuam presentes, disso não se pode fugir. Mas posso afiançar-lhe: quando eles são vividos com um pé na realidade ameaçam menos, e não produzem tanto sofrimento. Como isso funciona? Ora, desde que você não seja vítima de um conflito inconsciente não resolvido absorverá o resultado da análise racional da realidade que reduz a participação imaginária dos riscos possíveis, limitando-os aos prováveis. Assim procedendo, você enfraquece o pânico que é seu verdadeiro inimigo e dessa forma, automaticamente, aliviará a pressão interna da ameaça  de perigo imediato.
P - Começo a entender a lógica psicodinâmica do medo!
RC- Mas isso não é tudo. O inconsciente é ladino e sinuoso, não desiste nunca do seu intento. É preciso ficar alerta porque, alheia aos conteúdos conscientes do sujeito psicológico, a raiz inconsciente do medo vai continuar produzindo “metáforas[1]” e “metonímias[2]” para alimentar a ansiedade. Concordo que muitas vezes se faz necessária a intervenção do Psicanalista. Mas nos casos em que há apenas traços neuróticos na personalidade, poder-se-á tirar proveito da adesão voluntária a uma conduta dirigida pela razão. Ou seja, mesmo quando o temor inflaciona os conteúdos conscientes, ainda é possível que o pessimista selecione, voluntariamente, os conteúdos positivos conscientemente concebidos, concentrando-se neles. E repetindo essa operação mental “n” vezes é possível que se criem novas trilhas  subjetivas na busca de segurança e completude, controlando, pelo menos parcialmente, o medo inerente aos conteúdos sinistros de fantasias inspiradas no inconsciente. É isso que espera alcançar a terapia comportamental. Acredito em que a proposição voluntária de uma expectativa otimista pode influir positivamente nos acontecimentos que estão por vir. Uma das inteligências mais brilhantes da humanidade chegou a afirmar: “A imaginação é tudo, é a prévia das construções do futuro”.[3] Dessa forma, um grande Físico reconhecia a força criativa da imaginação, grandeza abstrata que vai além da própria intuição.
P- Esta é uma boa dica. Vou tentar.
O alto falante anunciou a última chamada para o embarque do Realista Crítico. Os amigos se despediram calorosamente e o Pessimista ficou remoendo as informações que lhe foram passadas naquele encontro.
                                               Everaldo Lopes




[1] Transferência do sentido próprio de uma palavra num contexto determinado, que se fundamenta  numa relação de semelhança subentendida.
[2] Designação de um objeto por palavra designativa de outro objeto que tem com a primeira uma relação de causa e efeito. (Ex.: trabalho por obra)
[3] Albert Einstein