sexta-feira, 24 de outubro de 2014

A missão do homem

 “ A vida  nada mais  é  do  que  uma  sombra  que   passa ; um  pobre  comediante  que  se  pavoneia  e  se  agita  no breve  instante  que  lhe  reserva  a  cena  e , depois ,  nada  mais  se  ouve  dele . É  uma  história  contada  por  um    idiota , cheia  de  fúria  e  tumulto , nada significando.”
William  Shakespeare


A fala de “Macbeth” na cena V do ato V da tragédia que leva seu nome está impregnada de um pessimismo perturbador. A repercussão dessa peça teatral no mundo inteiro durante os  quase quatro séculos que se seguiram à sua publicação dá testemunho de que o texto escrito por Shakespeare mexe com a psique humana. Ao reconhecer o brilho estético da obra do grande dramaturgo Inglês, cremos oportunas algumas considerações paralelas que destacam um  olhar positivo sobre a vida.
O otimismo e o pessimismo são modos de encarar a realidade que interferem na conduta das pessoas. Ninguém pode negar que o otimismo e o pessimismo exagerados podem levar, respectivamente, à negligência leviana e à inação depressiva. Por isso é oportuna a intervenção da crítica na orientação prática da conduta pessoal tanto dos que se inclinam ao otimismo, como dos que são mais propensos ao pessimismo. Esta intervenção dá lugar ao que poderíamos chamar de otimismo e pessimismo críticos, pois, não obstante a disposição de espírito subjacente em cada caso, o sujeito consciente pode sempre fazer uso da liberdade pessoal para escolher um comportamento diferente. No processo evolutivo do qual participamos cabe ao homem refletir  livre e responsavelmente antes de fazer suas escolhas.
Distinto dos demais seres vivos, o homem é reflexivamente consciente da própria finitude e capaz de avaliar tanto o acerto como o desacerto do seu comportamento. A consciência reflexiva e o livre arbítrio, aptidões inéditas no universo pré-humano permitem ao homem escolher e deliberar sobre o próprio comportamento.  Essa capacidade  torna possível a dimensão ética inerente à condição humana.  Independente de sua inclinação otimista ou pessimista, o homem ético está sempre predisposto a escolher dentre as várias alternativas comportamentais que se apresentam cada momento, uma que satisfaça os valores assumidos.  
Senhor do seu vir a ser o homem pode mudar o rumo dos acontecimentos e cumpre fazê-lo em favor da própria Evolução. No desempenho desse papel contextualiza-se com autenticidade num projeto que o transcende, empenhando na realização dessa escolha seus dons superiores racionais, afetivos e volitivos. Neste projeto, o referencial histórico que dá sentido ao devir peculiar do homem e que o dignifica é a disposição de construir a comunidade de todos os homens. Solidária, centrada na verdade e na justiça, a organização comunitária é indispensável à sobrevivência da espécie Homo Sapiens sapiens. Agindo dessa forma o homem escapa da “idiotia” e colabora para dar seguimento à Evolução, dignificando o vir a ser pelo qual se torna responsável. Nesse ritual de dedicação aos valores humanísticos éticos, o fator decisivo do sucesso é a vivência genuína de solidariedade que cada um, idealmente, é capaz de experimentar na convivência social. A fidelidade a esse vínculo recíproco de pessoas  dignifica o modo de ser pessoal de cada um. Fora desse contexto a vida efêmera do homem realmente “nada  mais  é do que uma sombra que passa ”. Esquivando-se de sua missão no processo evolutivo o homem parecerá sem dúvida “um  pobre  comediante  que  se  pavoneia  e  se  agita  no  breve   instante  que   lhe  reserva  a cena  e ,  depois , nada  mais  se  ouve dele.”   
Com prazo marcado para realizar sua missão temporal, o homem precisa estar atento às oportunidades de realização dos projetos construtivos que se lhe oferecem. Ao priorizá-los, sem perder o foco comunitário cada um poderá desfrutar coerentemente o prazer dos sentidos e as alegrias espirituais, ancorado no exercício do autoconhecimento e da disciplina emocional.  
A inquietação perdura, a consciência da finitude e as incertezas inerentes continuam estimulando o desejo humano, impossível, de eternidade e de segurança total. Para os que têm fé, a superação desse desassossego é reforçada pela expectativa de integração transtemporal num absoluto unitário (Deus) no qual se desfazem todas as contradições.  Essa esperança se alimenta da confiança num clímax representado pela integração pessoal num todo significativo absoluto que, do ponto de vista estritamente racional é tão impossível provar, como negar. Todavia, o cientificismo ao qual estamos condicionados dispõe que “os métodos científicos podem e devem ser estendidos a todos os domínios do conhecimento”. Ora, isso implica na dificuldade racional de justificar a existência do cosmo e da vida. A matéria, por ser contingente, não se autoproduziu nem apareceu por geração espontânea. Tudo que existe no tempo e no espaço é finito e teve um começo, vem de algo anterior, tem uma causa; portanto retrocedendo no tempo até um primeiro momento  impõe-se concluir  que um absoluto criador[1] precedeu o universo conhecido ou lhe é concomitante. Esse é o argumento milenar da necessidade de uma primeira causa não causada, o motor imóvel proposto por Aristóteles, que não pode ser objetivado num experimento cientifico.
Provisoriamente confirmada em 14 de março de 2013, o Boson de Higgs  partícula elementar  que, teoricamente, surgiu logo após o Big Bang validaria o modelo padrão atual de partículas, e representaria a chave para explicar a constituição da massa das outras partículas elementares. Por isso, foi cognominada impropriamente a partícula de Deus. Denominação inadequada porque esta partícula não pode prescindir de um Absoluto criador, uma vez que sendo uma contingência por si só ela não existiria. Resta-nos, então, a proposta intuitiva do Poeta[2]  que na sua obra “A velhice do Padre Eterno”  nos diz: “Um dia, a humanidade inteira, numa só aspiração reunida há de fazer da razão e da fé os dois olhos da alma; da verdade e da crença os dois polos do mundo”! Mas permanecendo no terreno da razão, apoiados em especulações metafísicas, concebemos ser racionalmente defensável o objeto de fé que completa as lacunas do conhecimento objetivo da realidade.
Especulativamente ganha corpo a ideia de uma consciência universal que antecede e determina a ordem evolutiva desde a matéria primitiva até a organização comunitária da coletividade humana. Mas esta organização histórica, temporal, só se consumaria, à perfeição, prolongando-se na comunidade transtemporal de todas as consciências numa unidade absoluta. Um absoluto cuja transcendentalidade só pode ser vivida, como crença, mediante um ato de fé.  Todavia, com ou sem fé a vida humana só ganha significado quando preenche seu papel na Evolução Universal, promovendo a organização social comunitária da humanidade. Seguindo este roteiro comportamental, a vida do homem já não seria “...uma história  contada  por  um  idiota, cheia  de  fúria  e tumulto, nada significando” . O comportamento individual dignificado pela prática da solidariedade comunitária torna a vida humana uma consagração pessoal aos ideais de Verdade, de Beleza e Justiça que transcendem a contingência temporal, promovendo a plenitude da existência.
                   
 Everaldo Lopes




[1] O que existe em si e/ou por si, causa de si mesmo.
[2] Guerra Junqueiro

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

O Pessimista e o Realista Crítico

Depois de longa ausência dois amigos de infância encontraram-se na sala de espera de um aeroporto, e após os cumprimentos de praxe  logo reataram a antiga intimidade. Ambos inteligentes, mas completamente diferentes. Quarentões profissionalmente bem sucedidos, um era Pessimista (P) e o outro Realista Crítico (RC). Enquanto esperavam a chamada para embarque sentaram lado a lado na grande sala climatizada do aeroporto. Sabiam que a espera seria longa e começaram a conversar sobre os mais variados assuntos. Inteiraram-se sumariamente dos caminhos percorridos por cada um até aquele momento. Sentiam-se emocionalmente muito próximos ao reviverem uma amizade de infância e pela expectativa comum de mais uma aventura aérea. Sim, pois em verdade, por mais seguras que sejam as aeronaves, voar é sempre uma aventura na avaliação secreta da maioria dos homens! Obviamente, o Pessimista era o mais tenso dos dois e, num dado momento do bate-papo desabafou.
P – Não sei como você se sente, mas fico inquieto quando tenho de viajar de avião. Por mínimo que seja o risco, incomoda-me saber-me sobrevoando a superfície do nosso planeta a 12.000 metros de altura, inteiramente à mercê de uma máquina e da habilidade dos pilotos. Se já me sinto ansioso no meu dia a dia, só de saber-me vulnerável, incapaz de controlar inteiramente os eventos do momento seguinte, pior fico ao sair da rotina tendo que enfrentar novos desafios.
RC- Pensando bem, acho que a intranquilidade que você acaba de relatar, com maior ou menor intensidade é uma vivência comum a todos   nós seres conscientes da própria contingência. Quem não sente a fragilidade da vida? Somos felizes quando conseguimos viver a vulnerabilidade aos males do corpo e da mente com espírito crítico capaz de distinguir as possibilidades, das probabilidades. No campo das possibilidades tudo pode acontecer, mas somente os eventos mais prováveis ocorrerão de fato. A imensa maioria dos acontecimentos possíveis só muito raramente se confirma. Porém, não raro o medo pode criar fantasias catastróficas envolvendo possibilidades remotas. Para  evitar o pânico é fundamental administrar as operações subjetivas, interpondo certa distância entre o eu cognoscente e as previsões fantasiosas que ampliam a insegurança pessoal. Esse distanciamento torna possível analisar a situação, e avaliar o que nestas previsões há de real, e de imaginário.
P – Confesso que tenho dificuldade para fazer esse controle. O menor indício do inesperado indesejável, invariavelmente, me provoca uma reação de alarme como se estivesse diante de uma situação real concreta ameaçadora. Gostaria de livrar-me disso, mas é difícil consegui-lo!
RC – Sem dúvida sua confissão evidencia uma forma sofrida de encarar a realidade. Permanentemente sob o peso das incertezas você convive mal com a finitude e a insegurança implícitas no simples ato de existir, vivenciando permanentemente a angústia existencial. Eu costumo utilizar mecanismos racionais de controle para amenizar o mal-estar das incertezas ameaçadoras.
P – A dificuldade que sinto de exercer esse controle me faz pensar que minha predisposição pessimista está associada a uma experiência negativa durante o processo de individuação. Esse tropeço evolutivo explicaria a tendência que me aflige de encarar tudo pelo lado negativo.
RC- Certo. E nos casos mais graves do transtorno comportamental inerente à formação da personalidade a libertação do medo ligado à expectativa do pior implica numa verdadeira superação pessoal. O que muitas vezes levanta a necessidade de ajuda especializada. Entre os pessimistas, o medo escapa ao controle consciente, desestabilizando-os emocionalmente. O sujeito consciente normal e lúcido sabe racionalmente que de momento a momento o perigo de adoecer e morrer é real como possibilidade, mas como probabilidade tem muito pouca chance de acontecer no instante em que desponta o temor. E ao avaliar cada situação procura enfatizar os aspectos positivos mais prováveis, sem se envolver em preocupações inúteis.
P. Evidentemente é fundamental separar criteriosamente a realidade e a fantasia na apreciação da experiência em curso. Mas para isso há que afugentar o pânico, e ser determinado para concentrar toda atenção apenas no real concreto, corrigindo os exageros da inclinação pessimista. Essa é a minha grande dificuldade!  
RC- Diante de sua perplexidade sinto-me encorajado a falar da minha experiência pessoal. Reconheço e assumo que na avaliação das situações que defronto a imaginação pode urdir divagações pessimistas em torno da realidade objetiva. Esta representa à luz da consciência a atualização de uma probabilidade real; a divagação  se perde em fantasias possíveis porém improváveis. Usando o bom senso aposto nos conteúdos racionais objetivos, mantendo a certa distância ou anulando o medo que acompanha os devaneios  pessimistas.
P – Reconheço que esse seria o comportamento ideal. Porém sabe-lo racionalmente sem o suporte emocional correspondente não basta para tornar-me menos temeroso. Sinto-me Intimidado ante a fatalidade de nunca poder livrar-me da incerteza do que está para acontecer! E a preocupação decorrente  desse estado de espírito é torturante.
RC- Sem dúvida, os riscos continuam presentes, disso não se pode fugir. Mas posso afiançar-lhe: quando eles são vividos com um pé na realidade ameaçam menos, e não produzem tanto sofrimento. Como isso funciona? Ora, desde que você não seja vítima de um conflito inconsciente não resolvido absorverá o resultado da análise racional da realidade que reduz a participação imaginária dos riscos possíveis, limitando-os aos prováveis. Assim procedendo, você enfraquece o pânico que é seu verdadeiro inimigo e dessa forma, automaticamente, aliviará a pressão interna da ameaça  de perigo imediato.
P - Começo a entender a lógica psicodinâmica do medo!
RC- Mas isso não é tudo. O inconsciente é ladino e sinuoso, não desiste nunca do seu intento. É preciso ficar alerta porque, alheia aos conteúdos conscientes do sujeito psicológico, a raiz inconsciente do medo vai continuar produzindo “metáforas[1]” e “metonímias[2]” para alimentar a ansiedade. Concordo que muitas vezes se faz necessária a intervenção do Psicanalista. Mas nos casos em que há apenas traços neuróticos na personalidade, poder-se-á tirar proveito da adesão voluntária a uma conduta dirigida pela razão. Ou seja, mesmo quando o temor inflaciona os conteúdos conscientes, ainda é possível que o pessimista selecione, voluntariamente, os conteúdos positivos conscientemente concebidos, concentrando-se neles. E repetindo essa operação mental “n” vezes é possível que se criem novas trilhas  subjetivas na busca de segurança e completude, controlando, pelo menos parcialmente, o medo inerente aos conteúdos sinistros de fantasias inspiradas no inconsciente. É isso que espera alcançar a terapia comportamental. Acredito em que a proposição voluntária de uma expectativa otimista pode influir positivamente nos acontecimentos que estão por vir. Uma das inteligências mais brilhantes da humanidade chegou a afirmar: “A imaginação é tudo, é a prévia das construções do futuro”.[3] Dessa forma, um grande Físico reconhecia a força criativa da imaginação, grandeza abstrata que vai além da própria intuição.
P- Esta é uma boa dica. Vou tentar.
O alto falante anunciou a última chamada para o embarque do Realista Crítico. Os amigos se despediram calorosamente e o Pessimista ficou remoendo as informações que lhe foram passadas naquele encontro.
                                               Everaldo Lopes




[1] Transferência do sentido próprio de uma palavra num contexto determinado, que se fundamenta  numa relação de semelhança subentendida.
[2] Designação de um objeto por palavra designativa de outro objeto que tem com a primeira uma relação de causa e efeito. (Ex.: trabalho por obra)
[3] Albert Einstein

sábado, 13 de setembro de 2014

O comportamento ético, modo de ser peculiar do homem.

Faz alguns anos, nos reuníamos semanalmente uns três ou quatro amigos para desfrutar um bate-papo descontraído, focado em problemas humanos relevantes. Talvez quiséssemos discutir nossas “verdades”, quiçá, descobrir novos caminhos!  O encontro ao qual me reporto agora ocorreu num bar restaurante recém-inaugurado. O piano espalhava sonoridade nostálgica na sala ampla. Alguns clientes bebericavam ou faziam sua refeição habitual. Nós ocupávamos uma mesa mais isolada em um canto do salão menos movimentado, onde podíamos conversar mais à vontade.  
A carta de bebidas encadernada com capa vermelha que nos foi entregue pelo garçom oferecia grande variedade de vinhos. Feito o pedido o garçom o anotou, mas logo depois voltou sem jeito com um riso amarelo nos lábios a pedir desculpas por haver zerado o estoque do vinho solicitado. Decidimos contentar-nos com outro tinto disponível. Para tira-gosto pedimos queijo mussarela e presunto cortados em cubos. O piano continuava encantando nossos ouvidos, ora em ritmo de valsa, ora em compasso de Fox, ou samba canção. O pianista caprichava na escolha de músicas que mexiam com antigas lembranças nossas.
Servida a primeira taça um dos presentes falou para o grupo.
- Gente na última vez que nos reunimos, fui sorteado para conduzir, hoje, o nosso “papo filosófico”. Escolhi conversarmos sobre os valores que devem presidir a relação dinâmica entre os indivíduos na convivência social. Reuni alguns tópicos polêmicos que servirão como pontos de partida para uma abordagem analítica do tema escolhido. E leu um resumo digitado em duas laudas de papel A-4; depois interrogou os presentes com o olhar.
Um dos ouvintes comentou:
- No seu relato evidencia-se o potencial conflituoso entre os aspectos imediatos e transcendentais, respectivamente egoístas e éticos, das aspirações individuais. Estes  aspectos conflitam muitas vezes e devem ser trabalhados até a elaboração do comportamento ético justificado por um valor absoluto. Trabalho que implica no disciplinamento do egoísmo para garantir a harmonia das relações sociais. Sem esta disciplina, a satisfação descontrolada dos interesses individuais imediatos dá lugar a injustiças sociais que prejudicam pessoas ou grupos. No plano econômico os privilégios de uma minoria  acabam criando um fosso entre os ricos e os pobres. Para contornar as consequências das injustiças e desequilíbrio social tem-se apelado, historicamente, para o controle do Estado político no sentido de garantir os direitos fundamentais a todos os cidadãos. Nessa perspectiva não ficou muito claro para mim seu posicionamento com respeito à solução do conflito entre os interesses individuais e a dinâmica social.
O companheiro alvo do comentário retrucou:
- Já foi dito, que a dificuldade de os homens autodisciplinarem-se ensejou a necessidade da intervenção de uma autoridade externa no processo socioeconômico. Não me posicionei sobre a maior ou menor intervenção do Estado político na vida social e econômica porque a minha função hoje é a de provocar. Mas endosso a orientação humanística que você sinalizou ao apontar o esforço a ser empreendido a fim de alcançar o equilíbrio entre as demandas individuais e sociais, em função de um valor ético universal.  
Na sequência, o seu comentarista acrescentou:
- Conquistar para todos os homens condições humanas de vida, anulando as diferenças financeiras e culturais entre as “classes sociais” será sempre um objetivo nobre e consistente. Só temo as consequências da associação inadvertida do ideal socialista com uma tese materialista como faz Marx! Esta associação é muito restritiva, e prejudicial ao desenvolvimento do humanismo integral.
O autor do texto lido concordou e ajuntou:
– Aliás, é bom deixar claro desde agora que se equivoca aquele que reduz o problema social a uma questão puramente material. Estou convencido de que vitoriosa a revolução social nos termos marxistas, o problema existencial persistiria! Mesmo bem alimentado, abrigado, assistido, o homem continuaria a se perguntar sobre como tudo começou e como terminará o mundo visível; permaneceria curioso sobre o sentido da sua própria vida, incomodado com a consciência angustiante da sua própria finitude incontornável! Curiosidades e vivência que são motivos de sobra para alimentar a angústia existencial que tortura o ser consciente e exigem elaborações plausíveis. Uma prova disso é a alta  frequência de suicídios nos países desenvolvidos nos quais os problemas sociais básicos estão resolvidos. Curiosamente, uma frequência equivalente à de homicídios nos países subdesenvolvidos! Estou convencido de que no plano pessoal mais profundo, o alimento espiritual de que precisa o homem para agir eticamente e libertar-se da angústia existencial é uma experiência mística que lhe satisfaça a dimensão transcendental da existência.
            Iniciada a discussão, as intervenções se multiplicaram, e os comentários paralelos atropelaram o debate. Acalmados os ânimos, o mais sisudo do grupo manifestou sua opinião:
– Concordo com o pronunciamento que acabamos de ouvir. A satisfação das necessidades primárias do homem não basta. Impõe-se uma prática ética humanística que sacie harmoniosamente a fome do corpo e da alma. O conflito entre as demandas individuais e sociais é emblemático e exige um posicionamento honesto. Historicamente é notório que para atingir as metas materiais colimadas, o estatuto socialista mais radical justifica todos os meios. Dessa forma, a dinâmica político-social adotada pelo ativista marxista-leninista desfigura os princípios humanísticos integrais fundamentados na prioridade do exercício da consciência livre e responsável. A ditadura do proletariado perdeu-se num passado distante. Mas a sombra deste passado ainda amedronta os grupos radicais conservadores. Urge estimular o convívio democrático e solidário evolutivo. Gandhi resumiu magistralmente a metodologia capaz de conduzir o aprimoramento das transformações sociais necessárias ao desenvolvimento da humanidade: “É preciso ser a mudança que queremos ver no mundo a fim de contribuir para a construção de uma verdadeira comunidade humana”. E isso exige autenticidade e determinação.
Um dos componentes do grupo que se mantivera calado até então falou:
– Nesses termos a questão fica muito bem posta. Aliás, complementando o que ficou dito, acho pertinente definir um parâmetro avaliativo universal a fim de estimar o ideal do comportamento humanístico integral. Na minha apreciação a ordem evolutiva centrada na construção da comunidade humana seria o referencial padrão-ouro para a caracterização da missão evolutiva histórica do homem. Essencialmente, na trilha do ideal comunitário a verdade ética estaria sempre associada à solidariedade livremente escolhida e praticada.
Retomando o debate, o mais velho do grupo interveio reportando-se ao depoimento anterior.
- Isso faz sentido. Os valores inerentes à proposta evolutiva que objetiva a comunidade humana deverão ser considerados referenciais seguros para distinguir o certo e o errado nos modelos que plasmam as relações sociais. A coerência ética em relação ao existir pleno solidário só será uma realidade no seio da comunidade humana. Portanto é nesse sentido que a humanidade deve caminhar. Em  verdade o homem é capaz de amar e de odiar, de criar e destruir, de aderir à verdade ou à mentira! E será, afinal, o resultado de suas escolhas. Nessa perspectiva não é mais um ser natural, porém um ser de cultura. Quando falamos do existir pleno, estamos conceituando uma construção cultural (a existência) e não um evento natural (o simples ato de viver). Os valores que satisfazem a prática solidária são os marcos regulatórios desta construção.
 Um dos presentes comentou oportunamente:
- Aliás, no contexto existencial já está implícita a relação eu-tu que é o cerne da própria dimensão social solidária do homem. O “eu” não existe sem o “tu”. Da relação harmoniosa de ambos resulta o “nós” que abre a porta para uma sólida interação comunitária. A corresponsabilidade dos indivíduos os obriga a respeitarem-se e, na melhor hipótese, a serem solidários. O comportamento regido por uma moral humanística nunca se alinha com fins alheios à dignidade pessoal. Portanto, só a ética solidária garante o padrão ouro das relações sociais humanas. Não  podemos esperar que a sociedade feita de indivíduos assuma formas cada vez mais perfeitas, enquanto os indivíduos fenecem descaracterizando-se eticamente, visto que o comportamento ético é a forma de ser peculiar do homem. A existência sem a empolgação  com o ideal moral solidário vira uma rotina pueril que beira o ridículo.
O autor do texto em discussão retomou a palavra:
- Certo. Estamos sempre em processo de mudança. E para mudar evolutivamente, mais importante do que teorizar sobre os valores ideais, é que cada um os pratique de forma plena no convívio com os outros.  Resumindo, é fundamental que cada um incorpore em si mesmo um protótipo humano que reúna a competência necessária para distinguir o maior número de alternativas nas várias situações vividas, e a aptidão para selecionar consciente e responsavelmente aquela (alternativa) que melhor convier aos propósitos comunitários. A maturidade humana é alcançada com a total consciência do indivíduo de estar em processo de mudança, permanentemente aberto a qualquer experiência nova que reforce os valores comunitários básicos. Nesse sentido é preciso que cada um confie no próprio julgamento, capaz de assumir atitudes éticas, sem rigidez ou insegurança.  Nessa perspectiva, as decisões pessoais podem conflitar com os cânones sociais eventualmente defasados por sua própria inércia histórica, criando obstáculos às mudanças necessárias. Muita calma e ponderação nessa hora. A ação reformadora que vai além dos limites do padrão cultural vigente, não pode perder o foco do ideal comunitário universal. E, fiel a este ideal, quando necessário o indivíduo precisa ter a coragem de reformular comportamentos que se demonstram incapazes de promover níveis mais elevados de integração comunitária. De outra forma jamais teriam ocorrido as transformações sociais indispensáveis à própria Evolução. Um observador simples e virtuoso, intuitivo, sábio diria que o  caminho ideal desta conquista é a prática do amor caridade entendido como um sentimento calmo, duradouro desinteressado, criativo, que não faz exigências, indulgente, respeitoso, responsável, que nasce do conhecimento profundo do ser amado!
Já era tarde quando os amigos se despediram até um próximo encontro. 

Everaldo Lopes

domingo, 24 de agosto de 2014

O neto curioso

As crianças brincavam no Parque sob o olhar atento dos pais e cuidadores. O corre-corre alegre da meninada contrastava com a disciplina dos adultos que caminhavam ou corriam para manter boa forma física e mental. Um homem idoso de aspecto saudável sentado num banco à margem da “pista de Cooper” interrompera por um instante a leitura que fazia. Tinha sobre a perna cruzada um livro entreaberto com o dedo indicador de uma das mãos marcando a última página lida. Olhando as árvores do Parque agora crescidas e frondosas que ele vira plantar há muitos anos, acudiram-lhe outras recordações. Absorto, entretinha-se com antigas lembranças quando um neto que fazia sua corrida habitual deteve-se beijou o avô na careca, cumprimentando-o, e sentou-se ao seu lado. Encorajado pela intimidade respeitosa característica da relação entre os dois, o jovem perguntou.
- Vô, sempre que o vejo nessa postura meditativa fico pensando nos assuntos que alimentam suas reflexões. Conhecendo-o como conheço não consigo imaginá-lo vazio de pensamentos nesses instantes de aparente alheamento.
-Meu neto. Fico feliz por despertar sua atenção.  Agradeço a Deus   haver-me conservado a lucidez necessária para satisfazer sua curiosidade e falar da minha experiência pessoal. Em verdade, avesso a lamentações eu prefiro viver minha precariedade existencial sem enganações. E para entender cada vez mais profundamente minha realidade mais íntima,  medito a natureza espiritual da consciência reflexiva, a liberdade e a responsabilidade que caracterizam a condição humana. Temas inesgotáveis de implicações fascinantes que esbarram nos limites da nossa temporalidade.
-Vô, você não acha doloroso insistir em refletir acerca da  angústia inerente à consciência da finitude? Não seria preferível fugir um pouco dessa ansiedade embaraçosa?
-Meu querido neto. Você tem razão, em parte. É bom que uma vez ou outra a gente se dê a oportunidade de um recreio espiritual. Mas o distanciamento da fonte principal de nossa ansiedade não ajuda a responder aos questionamentos impostos pela condição humana; embora essa distração tenha seu momento, a  intervalos, como um merecido repouso da mente cansada de pensar o mistério do mundo e da consciência.
            -Vô. Nessa perspectiva como você sente a velhice?
-Sinto-a como um declínio progressivo da possibilidade de experimentar os prazeres da juventude. Acho impossível adocicar o envelhecimento. A aceitação é a única forma de vivê-lo sem mistificações. Mas aceitar as próprias limitações com naturalidade e criatividade não é algo que a gente possa impor-se. Demanda mais do que autoconhecimento, disciplina emocional e uma leitura filosófica da realidade. Exige humildade para lidar com as perdas que acumulamos durante os anos vividos. A ruína do vigor físico e a redução ou supressão dos prazeres da cama e da mesa são alguns dos sinais indeléveis do declínio biológico. Todavia avalio esse processo na sua justa medida como um conjunto de eventos regressivos inevitáveis. Reconheço-os, dimensiono-os e os enfrento com os recursos interiores de que disponho. Imponho-me assistir ao meu próprio envelhecimento sem me deixar abater pelas  limitações da idade, e sem negá-las tão pouco. Procuro encarar cada novo dia como o primeiro dos que ainda  hei de viver, e não como o último dos que já vivi.  Mas não posso deixar de sentir a  melancolia de um fim de festa; preciso ficar alerta para não deixar este sentimento minar minha disposição de ir além.
-Vô. Vejo que envelhecer é um processo que exige compreensão profunda da realidade humana e grande determinação! Você faz muito esforço para levar adiante sua proposta?
-Meu neto. Não é fácil encarar com naturalidade a expectativa do fim previsível da jornada histórica pessoal. É desoladora a dificuldade de preencher o vazio de emoções e interesses absorventes que se amplia com a idade. A consciência da precariedade  temporal do ser biológico tem início muito cedo, torna-se cada vez mais desafiadora com o passar dos anos, e depois da oitava década de vida, por motivos óbvios, faz-se ameaçadora. A vivência acompanhante da expectativa de um futuro cujo limite está cada vez mais próximo é incômoda. As cogitações metafísicas que teorizam um destino transcendental para o homem amenizam a inquietação provocada pelo sentimento de finitude que constrange a existência, mas não suprime a angústia. Todavia, essa transcendência cogitada (necessariamente unificadora) é o desfecho mais compatível com o Universo totalmente integrado no qual tudo tem a ver com tudo e a morte é a transição da vida para a “vida”, uma vez que a criatura e o Criador são inseparáveis[1]. Comparo o tempo histórico em que as criaturas se movem a uma bolha no seio da eternidade que finalmente a absorve.
-Vô. Foi bom ouvi-lo tratar a questão por esse ângulo. O que você acaba de me dizer implica em admitir um absoluto. Diante desta implicação certamente a fé religiosa é o recurso mais poderoso para apaziguar a angústia da finitude vivenciada. Mas percebo em alguns textos postados no seu blog que para você as especulações metafísicas têm sido um suporte eficaz na construção de sua visão mística do mundo e da consciência!
-Correto. Todavia devo confessar que a experiência mística do amor à verdade que  abraça sem questionar o absoluto em cuja unidade (Deus) se desfazem todas as contradições é o melhor caminho para viver a esperança de vida plena. A pura especulação metafísica conquanto dê suporte a uma expectativa animadora não integra emocionalmente o pensador num todo significativo. Contando apenas com a abordagem filosófica algum esforço pessoal é sempre necessário para sobreviver com dignidade às perdas inerentes à idade, e à consciência da finitude. Seguramente, a “fé  ingênua”[2] é o que mais ajuda no combate à angústia existencial decorrente da vivência de ser perecível. Mas nas horas de crise, muitos dos que não possuímos a robustez da fé ingênua nos apoiamos em especulações metafísicas para dar suporte a aspirações transcendentais (fé crítica).
           
-Vô, você não imagina como sua postura diante da vida me inspira e tranquiliza. Ela me dá a certeza de que por pior que seja envelhecer ainda pode ser uma experiência excitante. Confirma que a existência é uma luta heroica que avalia a inteligência, a criatividade e o valor moral de cada um de nós.
            -Fico feliz de poder contribuir para que você pense assim. No processo de envelhecimento é preciso assumir atitudes muito firmes para superar as dificuldades que sobrevêm com a idade. No vir a ser do idoso restringem-se progressivamente a independência e a produtividade o que o expõe a crises existenciais que podem evoluir para a depressão psíquica ao lhe faltar a capacidade de aceitar as mudanças restritivas. Sem flexibilidade intelectual e afetiva para assumir os percalços do envelhecimento, o idoso percebe a realidade deficitária da velhice como uma tristeza rebelde que faz contraponto com reminiscências românticas perdidas no passado, e revolta-se. Falta-lhe a humildade necessária para assimilar sem constrangimento a dependência progressiva a que leva o envelhecimento, enquanto continua aceso o desejo de viver. É compreensível que o velho não deseje a morte, mas a verdade é que ela se torna cada vez menos mortal para os seus sonhos que estão fenecendo, ou já morreram. Obviamente, viver mais é um anseio espontâneo, o tempo todo ameaçado pela finitude biológica geneticamente programada.
            -Vô. Entendo que sua visão da velhice não oferece alternativa concreta de plenitude existencial aqui na Terra, mas não é pessimista. É uma postura comedida que associa o bom senso ao enfrentamento objetivo da realidade inerente ao “envelhecer”!
-Você é perspicaz meu rapaz. Não preciso enfatizar que para o idoso tudo se torna mais complicado. O equilíbrio biológico é mais delicado e a sensação de estar sadio nunca é completa; o equilíbrio psicológico diante dessa fragilidade é um desafio. Mas o Criador não nos propõe problemas que não possamos resolver, senão com ações, pelo menos com atitudes. Resumindo: o idoso lúcido que conserva intactas as funções psíquicas superiores sente que no plano biológico a vida útil tem um prazo de validade, e constata que o seu já expirou, mas não perde a esperança de aproveitar as virtudes e os talentos remanescentes para arrematar sua existência com dignidade.
    Everaldo Lopes




[1] A criatura não tem a força da subsistência; para existir precisa manter-se unida ao absoluto criador.
[2] De quem nega, preliminarmente, qualquer dúvida quanto à existência de um Absoluto criador; diferente da “fé crítica” de  quem analisa a dúvida inerente à crença no objeto de fé e encontra na realidade evolutiva do mundo e do homem argumentos racionais para refutá-la (a dúvida).

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Reflexão sobre a condição humana

Do 12º andar no edifício residencial onde moro olho o entorno. em baixo a cidade se espalha exibindo o contraste entre as casas antigas com telhados marcados pelo tempo, e os arranha-céus que se elevam salpicando o desenho das ruas com as marcas da modernidade. Na via  pública movimentada,  destaca-se o colorido dos veículos que cruzam céleres em todas as direções. Vagueando o olhar sobre a paisagem familiar meu espírito flutua sem propósito definido; enquanto no fundo da mente inquisitiva carente de certezas oculta-se o desejo de mergulhar no mistério do mundo e dos homens. Ao pôr do Sol as janelas das casas e dos edifícios multiplicam-se em  pontos de luz. Ponho-me a pensar... dentro, milhares de seres como eu sentem a vida fluindo através das suas existências singulares... Para onde? Cada um tem um perfil próprio, mas os objetos de suas preocupações são os mesmos: a sobrevivência, o sexo, o poder, a necessidade de comunicação, tudo isso associado ao anseio de dar sentido à “existência” pessoal e ser feliz. Para a maioria das pessoas esse anelo está embutido e se cumpre numa rotina cultural monótona repetitiva, mas para muitas outras está inserido e se resolve numa missão plena de entusiasmo e envolvimento criativo. Cada uma demonstra humor peculiar de acordo com a tendência individual para a alegria, a esperança, a tristeza, ou o pessimismo. Assim vamos todos caminhando em busca da realização pessoal.
Existir por existir é um destino pobre demais para o esforço da Evolução que em bilhões de anos perseguiu a organização complexa da matéria primitiva, e a partir do caos original desembocou na vida, tornando possível afinal a manifestação da consciência reflexiva e do livre arbítrio. A ordem que permeia o movimento evolucionário sugere que nesse processo se contém um propósito transcendental que vai muito além  do devir aleatório. Não foi à toa que a consciência reflexiva e a liberdade desabrocharam na condição humana. A Evolução atingira a máxima complexidade biológica do indivíduo e teria agora que voltar-se para a perfeição da convivência social entre os homens. Tarefa que caberia a estes realizar contribuindo para a própria Evolução. Entre os animais que povoam a Terra há outras espécies sociais cuja organização depende de um determinismo instintivo. Mas entre os homens esta organização  teria de ser conquistada de forma livre e criativa mediante a prática de um esquema político e econômico capaz de dar sustentabilidade à vida social, salvaguardando a liberdade dos indivíduos. A organização da coletividade humana composta de seres racionais, livres, autocentrados, emocionais e voluntariosos implica necessariamente numa interação dialogal. A integração social resultante se fará portanto não mais em função de comportamentos instintivos, porém através de escolhas inerentes a decisões livres e responsáveis.  Isso envolve toda uma elaboração comportamental calcada em valores éticos, indispensável à preservação da espécie. A humanidade não terá futuro em longo prazo sem a livre determinação de todos os homens de cooperar e partilhar entre si as riquezas naturais e as resultantes do trabalho coletivo. Nesse sentido cada homem terá de vencer o próprio egoísmo para alcançar o destino grandioso representado pela participação na comunidade humana alicerçada nas relações solidárias autênticas com seus semelhantes. Esse projeto aparentemente utópico está implícito na  ordem surpreendente do  processo evolutivo desde a matéria primitiva caótica até a vida consciente, que sugere uma intenção misteriosa transcendental presente na realidade temporal. Na experiência mística[1] que se apoia na fé incondicional o homem assume existencialmente o reconhecimento desta presença. De qualquer forma reconhecendo-a  ou não terá que subjugar o egoísmo ao poder criativo do amor para garantir a harmonia comunitária.  Todavia, a fé e o amor são dons que não se deixam manipular mediante uma pedagogia convencional. Quando estas virtudes não se manifestam espontaneamente, praticá-las exige uma ascese espiritual prolongada e difícil. Fundamentalmente, o exercício prático que  leva à efetiva realização da virtude moral implica o esforço pessoal no sentido da libertação do atavismo animal cujo ranço impregna de egoísmo o comportamento humano. É preciso sair do casulo do egoísmo para poder realizar integralmente o ideal humanístico. Com essa visão da condição humana contemplo minha realidade psicossocial  e a dos coirmãos, todos nós desafiados a cumprir importante missão na Evolução. E descortino os equívocos da família humana caracterizados pelo imediatismo absorvente. Fascinados pela posse de bens materiais e domínio do poder político os homens se iludem, deixando-se envolver numa aura de esperteza ingênua.
Não contamos com certezas absolutas!!! Todos os homens acabam defrontando o mistério da consciência e do mundo. A razão por si só não nos dá as respostas de que carecemos.  Para alcança-las de alguma forma precisamos ser susceptíveis a um movimento interior que envolve e ultrapassa a razão, o sentimento, a vontade e encontra sua maior expressão na experiência mística. Nesta experiência o homem vivencia a unidade do Dinamismo absoluto eternamente criativo (Deus), e tem acesso a toda verdade, beleza, paz e felicidade a que pode aspirar. Os que realizaram plenamente essa vivência[2] alcançaram o alvo supremo da Evolução, que o Poeta declama na originalidade dos seus versos lembrando aos homens  “Que o sentido da vida e o seu arcano / É a imensa aspiração de ser divino, /  No supremo prazer de ser humano”. [3]
Everaldo Lopes


[1] Vivência  de união perfeita com Deus (o absoluto), que não raro se acompanha de manifestações psíquicas.
[2] Os místicos que experimentaram a” noite dos sentidos” descrita por São João da Cruz, e muitos outros dos quais existe registro histórico.
[3] Raul de Leoni em “Ode a um Poeta morto”.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

O vir a ser consciente e a fé

         O vir a ser consciente implica na responsabilidade de fazer escolhas éticas. Por sua contingência o homem é refém de incertezas e no momento de agir é frequentemente assediado por dúvidas inquietantes. Daí a importância de dispor de critérios confiáveis para as decisões pessoais. A necessidade de ser coerente no exercício da “condição humana”[1] leva o indivíduo a filosofar sobre o que é a verdade, sobre a consciência reflexiva e a liberdade, sobre os valores éticos e a justiça. Assim espera conhecer-se melhor, bem como a sua circunstância para proceder de forma esclarecida, objetivando uma existência rica de sentido.  Contudo o conhecimento, apenas, não o liberta da perplexidade, para vencer a ansiedade decorrente das dúvidas  de um devir incerto precisa estar empolgado por uma experiência emocional profunda de total credibilidade no seu critério de  escolha. Nesse ponto é oportuno lembrar o pensamento de Kierkegaard. Vivendo o drama da angústia humana ele propôs a evolução existencial do nível ético para o nível ético-religioso que demanda, pela fé, a presença no homem do “absoluto transcendental” sob a forma de um alter ego que garanta  definitivamente o marco  ético da escolha pessoal.
Para moldar o comportamento por um valor assumido responsavelmente é fundamental que o indivíduo possua autoconhecimento  e controle emocional. Intelectual e emocionalmente preparado, o homem torna-se mais apto a construir uma sociedade solidária, lutando na sua intimidade psíquica afetiva e no convívio social contra as imposturas que ameaçam a edificação do projeto comunitário. Projeto que é o objetivo central da maturidade humana, identificando-se com a solidariedade coletiva. Nesta luta o grande problema do homem é a sua própria educação e a das pessoas ao seu redor, no sentido de evitar os desacertos que perturbam a harmonia da vida em sociedade. Nem sempre as pessoas estão conscientes do mal que podem promover contra a organização e estabilidade da comunidade humana! Em muitos casos os deslizes comportamentais são estratégias de sobrevivência ingenuamente construídas, ou condicionamentos culturais que moldam o comportamento humano sem pedir licença. A intervenção corretiva dos comportamentos ingênuos inadequados e das condutas falazes culturalmente condicionadas  pressupõe a crença na capacidade das pessoas implicadas, em reconhecer e corrigir as falhas comportamentais em que incorrem. Não existe uma pedagogia totalmente eficaz para induzir as pessoas às mudanças de conduta que se fazem necessárias. Dessa forma, a intervenção corretiva dos comportamentos distorcidos não garante sempre os resultados desejados. Todavia não se deve perder a oportunidade de insinuar mediante o exemplo e um discurso coerente a responsabilidade existencial de todos os homens no processo evolutivo do qual fazem parte. Pode-se tentar sempre induzir as pessoas a examinarem suas vidas e compreender o papel que lhes toca diante dos percalços do convívio coletivo.  Aliás, esse é um ponto chave deste processo evolutivo. Junto com a alfabetização já se deve fazer um esforço pedagógico para incutir na criança o sentimento de ser parte de um todo coletivo maior do que seu mundinho individual, inserindo-a numa visão integrada da sociedade em que vive. Afinal, o futuro da humanidade depende do sucesso na educação das crianças. Educar não é apenas ensinar a ler e escrever, mas, principalmente despertar nos educandos a responsabilidade que lhes toca de contribuir inteligente e responsavelmente para a construção de um mundo em que prevaleça a verdade e a justiça, suprimindo as desigualdades injustas. Tudo isso vem junto com o amor que deve prevalecer entre as pessoas no lar, na escola, no trabalho e na sociedade. Mas, sendo o amor um dom, não se pode impô-lo; pode-se estimular, porém, o convívio coletivo ético responsável, o que já é meio caminho andado.
             Não se pode materializar a origem do Universo e a essência da consciência reflexiva, da razão, da afetividade e da vontade. De como tudo começou, e da substância dos atributos psicossociais altamente desenvolvidas no homem não podemos ter certeza racional. A análise  profunda da polaridade consciência-mundo desemboca sempre em especulações que escapam a qualquer tentativa de objetivação. Em verdade, através de uma abordagem estritamente racional não se pode afirmar ou negar  com certeza a intervenção de um absoluto criador. Embora se possa aventar a hipótese de um Dinamismo Absoluto Eternamente Criativo para justificar a existência do mundo e de nós mesmos. Essa ideia tem respaldo em especulações sobre a evolução da matéria desde o big bang até a vida consciente. Afinal, a ordem impressa nesse processo evolutivo pressupõe uma intenção e só há intenção na esfera da consciência. O que faz supor uma consciência universal. Estas especulações implicam numa integração misteriosa da transcendência e da contingência no universo, que se manifesta na consciência reflexiva sinalizando uma realidade transtemporal cuja afirmação implica num ato de fé.  Na experiência mística esta realidade identifica-se com a vivência do amor divino que arrebata o ser consciente por um sentimento de paz infinita. Mas para usufruir plenamente os benefícios desta experiência não basta aceitar intelectualmente uma cosmovisão espiritualista. É necessário vivenciar uma relação absoluta com o absoluto (abstração inefável) que realiza subjetivamente a intimidade do homem com Deus. E para tanto é preciso incorporar existencialmente as virtudes teologais[2] que excedem a mera determinação ética, e a humildade talhada numa formalidade ritual disciplinada. É preciso sentir estas virtudes como emanação do “ser pessoal”. É abismal a experiência psicossocial implícita na prática destas virtudes! Tomando o amor caridade como paradigma, para vislumbrar sua grandiosidade basta ler a segunda carta de Paulo aos Coríntios[3]. Confesso que fico tonto só de pensar a altitude existencial a que preciso alçar-me para viver caridosamente! Equivoca-se o beato que pratica o ritual místico, apenas formalmente, sem realizar a “experiência numinosa”[4] implícita na relação absoluta com o absoluto. O comportamento místico não é uma panaceia à qual se recorre para espantar o medo de morrer. Requer uma profissão de fé. A “firme opinião de que algo é verdade, sem qualquer tipo de prova ou critério objetivo de verificação”  resulta de uma experiência psíquica afetiva profunda que tem mais a ver com o amor e a coragem de ser do que com o medo!  E só esta experiência anula a angústia da “existência”. De outra forma a consciência reflexiva arrisca-se afundar no dilaceramento das contradições existenciais. Resumindo, a plenitude existencial exige a fé em um  Deus criador e misericordioso, absoluto que ultrapassa os limites do conhecimento estritamente racional como um absurdo lógico (conceitual) necessário, porém, para fechar a gestalt da existência ou vir a ser consciente. Na verdade pode-se conviver com o absurdo lógico, mas o absurdo existencial representado pela vivência de contradições insolúveis é desagregador da unidade pessoal porque implica em vivenciar a própria consciência irremediavelmente dilacerada pelas dicotomias[5] da “existência”. Tendo em vista banir o absurdo existencial é preciso assimilar pela fé o absurdo lógico para fechar a gestalt da existência pessoal. Todavia não controlamos a vivência de fé inabalável que não deixa espaço para a dúvida e nos coloca no seio de uma transcendência absoluta. Eis o impasse que é preciso superar para salvar a integridade existencial.  Sem o respaldo de um referencial absoluto os valores éticos não passam de atribuições humanas falíveis. Mesmo ao testemunhar a “palavra revelada”, sem a experiência mística (de fé) o homem continua sendo o sustentáculo da verdade absoluta, o que é um contrassenso porque limitado pela contingência histórica não poderia ser um referencial absoluto para suas afirmações. Por isso  Miguel de Unamuno afirmava: “Ter fé não é crer no que não se vê, mas criar o que não se vê”.  E como toda criação original, a fé tem raízes numa intuição ou revelação significativa veiculada pelos símbolos que transitam no pré-consciente. O que nos remete à  religiosidade inconsciente do homem, estudada por Viktor Frankl como reflexo da divindade na intimidade subjetiva.
 Everaldo Lopes               



[1] Capacidade de ser consciente reflexivo, racional, afetivo e volitivo.
[2] Fé, Esperança e Caridade (Amor).
[3] Entre outras afirmações destaco esta: “E ainda que eu distribuísse todos os meus bens entre os pobres, e ainda que eu entregasse meu próprio corpo à cremação se não tivesse caridade nada disso me aproveitaria.”
[4] Segundo Rudolf Otto (1869-1927)  teólogo e filósofo alemão, o sentimento único vivido na experiência religiosa, “a experiência do sagrado, em que se confundem a fascinação, o terror e o aniquilamento. Dic. Aurélio Sec. XXI
[5] Nascer sem pedir e saber que vai  morrer sem querer; aspirar a tudo poder e saber que reterá apenas uma pequena parcela de poder; desejar  tudo conhecer e saber que terá acesso a um conhecimento limitado.

domingo, 29 de junho de 2014

Congruência pessoal e comportamento democrático

Nos dois textos antecedentes discorremos sobre a frustração do ideal democrático e a cidadania ameaçada. Em ambos evidenciam-se comportamentos pessoais e institucionais que deformam o exercício da democracia. Mas o elemento dinâmico desta deformação é sempre o indivíduo, mediante atitudes e ações prejudiciais à convivência social harmoniosa e respeitosa. É inquestionável que a sabedoria das escolhas individuais depende do nível de coerência de cada um ao operacionalizar a razão, a afetividade e a vontade à luz  da consciência reflexiva e dos valores éticos inspirados na Verdade e na Justiça. Essa performance pessoal espelha o exercício virtuoso dos atributos da condição humana[1] no convívio social. A integridade moral dos  cidadãos é que assegura o caráter ético dos desdobramentos econômicos e políticos das  relações sociais.
Idealmente, a construção da comunidade humana fundamenta-se no envolvimento interpessoal centrado no respeito mútuo, solidário, entre todos os homens. Essa unanimidade não é a norma, porém em virtude da perfectibilidade humana a solidariedade vai se difundindo mediante o apelo do princípio ético universal implícito no exercício responsável da consciência reflexiva.  
A democracia é a doutrina política mais compatível com a realização plena da comunidade humana. A prática democrática torna possível a convivência harmoniosa livre e solidária de todos os cidadãos, respeitada a facticidade[2] de cada um. Essas considerações levam naturalmente à conclusão de que a prática  política democrática exige do candidato à função pública o compromisso de respeitar a Verdade e a Justiça ao exercer o poder que lhe é conferido pelo povo. E a credibilidade do candidato é delimitada pela autenticidade e competência de sua proposta de crescimento econômico compatível com o desenvolvimento humano. Lamentavelmente a profissionalização do político  e o fisiologismo partidário deturpam a prática do ideal democrático, envergonhando o eleitor e desdenhando da sua capacidade crítica.
É fundamental para a construção de uma democracia participativa a harmonia interior dos cidadãos na prática solidária do respeito ao outro que por sua vez é consequência do autorrespeito dos indivíduos interagentes. Esse fundamento depende mais do esforço pessoal na elaboração de comportamentos fiéis aos valores éticos universais  do que da forma oficial de governo. São as pessoas que assumem a doutrina  política, e não o contrário. Numa democracia o estado de direito assegura a disciplina das manifestações individuais e oferece condições para o comportamento solidário. Mas é pela conduta livre exemplar dos indivíduos que se constrói uma verdadeira democracia.
É oportuno lembrar que a crítica aos comportamentos individualistas ambiciosos que distorcem as relações sociais, econômicas e políticas não sinaliza necessariamente a má fé dos infratores, mas tão pouco a excluí. Em sendo estes  comportamentos o resultado de um condicionamento desenvolvido desde a mais tenra idade, a conduta individualista ambiciosa se instala muito antes de o indivíduo ser capaz de decidir livre e criteriosamente pelo comportamento ético solidário.  Depois de sedimentada, essa distorção comportamental ganha vida própria e passa a dominar mental e emocionalmente os indivíduos nas suas relações sociais. Daí a dificuldade de uma mudança de conduta que contrarie a orientação cultural vigente. Impõe-se  então a sensibilização das pessoas a novos valores, associada à determinação de cada uma no sentido da assimilação de uma ordem social e  econômica mais justa e solidária. Essa superação implica numa profunda transformação da maneira de entender o papel da consciência no mundo, que resulta na valorização do “ser” em vez do “ter”.   
Uma análise objetiva, desapaixonada, revela que o indivíduo envolvido na distorção capitalista (valorização do ter) alimenta a crença de que o comportamento alternativo da conduta exclusivista vigente representa um risco para a sociedade organizada. Bloqueado por esta crença infundada, para o homem comum influenciado pela cultura capitalista a solidariedade extensiva a todos os homens é incompatível com uma realidade social e econômica sustentável; e no âmbito dessa visão estreita do problema humano social, na prática, as ações solidárias assumem o caráter de uma esmola, sem repercussão estrutural na sociedade. Aí emperra o processo evolutivo. Só a partir de uma verdadeira libertação da conduta individualista ambiciosa é possível construir o comportamento democrático autêntico, solidário, mediante o exercício livre e responsável da consciência reflexiva. Quanto mais estruturados são os condicionamentos geradores do comportamento exclusivista  maior é o obstáculo oposto à substituição da “competição selvagem” e do “acúmulo de bens materiais”, respectivamente, pela “cooperação” e pela “partilha”.  Todavia, liberto do condicionamento ambicioso o individuo será capaz de exercer coerentemente os atributos da condição  humana capacitando-se a fazer escolhas e tomar decisões livres, corretas, compatíveis com o comportamento comunitário.  É necessário apostar na capacidade de o homem libertar-se da inclinação congênita e dos condicionamentos culturais individualistas ambiciosos. De outro modo fica comprometida a sobrevivência da espécie humana. Dito assim essa afirmação parece despropositada, mas ela encontra apoio numa análise profunda da realidade evolutiva do homem.
Concluindo, é evidente a importância da congruência pessoal no desenvolvimento da Democracia plena. Ao mesmo tempo sabemos todos que as mudanças interiores necessárias para o exercício coerente da condição humana não se impõem pela força, mas pelo convencimento. A História dá testemunho do fracasso das tentativas violentas de mudança do paradigma comportamental que se nutre da ambição humana e fomenta a exploração econômica no seio da sociedade. A revolução que redime o homem do equívoco individualista ambicioso se dá no íntimo de cada um e é indispensável na realização do ideal comunitário, esperança de salvação da humanidade. Em verdade, estamos todos no mesmo barco; ou nos salvamos todos ou não se salva ninguém. Para alcançar o ideal comunitário a prática democrática conta com a liberdade individual e a determinação de respeitar os limites da cidadania comum a todos os homens, o que pressupõe a congruência pessoal inerente ao exercício responsável da consciência reflexiva.    Everaldo Lopes           


[1] Capacidade de exercitar consciente e responsavelmente a razão, a afetividade e a vontade.
[2] Facticidade- Caráter próprio da condição humana pelo qual cada homem se encontra sempre já comprometido com uma situação não escolhida.