segunda-feira, 14 de julho de 2014

O vir a ser consciente e a fé

         O vir a ser consciente implica na responsabilidade de fazer escolhas éticas. Por sua contingência o homem é refém de incertezas e no momento de agir é frequentemente assediado por dúvidas inquietantes. Daí a importância de dispor de critérios confiáveis para as decisões pessoais. A necessidade de ser coerente no exercício da “condição humana”[1] leva o indivíduo a filosofar sobre o que é a verdade, sobre a consciência reflexiva e a liberdade, sobre os valores éticos e a justiça. Assim espera conhecer-se melhor, bem como a sua circunstância para proceder de forma esclarecida, objetivando uma existência rica de sentido.  Contudo o conhecimento, apenas, não o liberta da perplexidade, para vencer a ansiedade decorrente das dúvidas  de um devir incerto precisa estar empolgado por uma experiência emocional profunda de total credibilidade no seu critério de  escolha. Nesse ponto é oportuno lembrar o pensamento de Kierkegaard. Vivendo o drama da angústia humana ele propôs a evolução existencial do nível ético para o nível ético-religioso que demanda, pela fé, a presença no homem do “absoluto transcendental” sob a forma de um alter ego que garanta  definitivamente o marco  ético da escolha pessoal.
Para moldar o comportamento por um valor assumido responsavelmente é fundamental que o indivíduo possua autoconhecimento  e controle emocional. Intelectual e emocionalmente preparado, o homem torna-se mais apto a construir uma sociedade solidária, lutando na sua intimidade psíquica afetiva e no convívio social contra as imposturas que ameaçam a edificação do projeto comunitário. Projeto que é o objetivo central da maturidade humana, identificando-se com a solidariedade coletiva. Nesta luta o grande problema do homem é a sua própria educação e a das pessoas ao seu redor, no sentido de evitar os desacertos que perturbam a harmonia da vida em sociedade. Nem sempre as pessoas estão conscientes do mal que podem promover contra a organização e estabilidade da comunidade humana! Em muitos casos os deslizes comportamentais são estratégias de sobrevivência ingenuamente construídas, ou condicionamentos culturais que moldam o comportamento humano sem pedir licença. A intervenção corretiva dos comportamentos ingênuos inadequados e das condutas falazes culturalmente condicionadas  pressupõe a crença na capacidade das pessoas implicadas, em reconhecer e corrigir as falhas comportamentais em que incorrem. Não existe uma pedagogia totalmente eficaz para induzir as pessoas às mudanças de conduta que se fazem necessárias. Dessa forma, a intervenção corretiva dos comportamentos distorcidos não garante sempre os resultados desejados. Todavia não se deve perder a oportunidade de insinuar mediante o exemplo e um discurso coerente a responsabilidade existencial de todos os homens no processo evolutivo do qual fazem parte. Pode-se tentar sempre induzir as pessoas a examinarem suas vidas e compreender o papel que lhes toca diante dos percalços do convívio coletivo.  Aliás, esse é um ponto chave deste processo evolutivo. Junto com a alfabetização já se deve fazer um esforço pedagógico para incutir na criança o sentimento de ser parte de um todo coletivo maior do que seu mundinho individual, inserindo-a numa visão integrada da sociedade em que vive. Afinal, o futuro da humanidade depende do sucesso na educação das crianças. Educar não é apenas ensinar a ler e escrever, mas, principalmente despertar nos educandos a responsabilidade que lhes toca de contribuir inteligente e responsavelmente para a construção de um mundo em que prevaleça a verdade e a justiça, suprimindo as desigualdades injustas. Tudo isso vem junto com o amor que deve prevalecer entre as pessoas no lar, na escola, no trabalho e na sociedade. Mas, sendo o amor um dom, não se pode impô-lo; pode-se estimular, porém, o convívio coletivo ético responsável, o que já é meio caminho andado.
             Não se pode materializar a origem do Universo e a essência da consciência reflexiva, da razão, da afetividade e da vontade. De como tudo começou, e da substância dos atributos psicossociais altamente desenvolvidas no homem não podemos ter certeza racional. A análise  profunda da polaridade consciência-mundo desemboca sempre em especulações que escapam a qualquer tentativa de objetivação. Em verdade, através de uma abordagem estritamente racional não se pode afirmar ou negar  com certeza a intervenção de um absoluto criador. Embora se possa aventar a hipótese de um Dinamismo Absoluto Eternamente Criativo para justificar a existência do mundo e de nós mesmos. Essa ideia tem respaldo em especulações sobre a evolução da matéria desde o big bang até a vida consciente. Afinal, a ordem impressa nesse processo evolutivo pressupõe uma intenção e só há intenção na esfera da consciência. O que faz supor uma consciência universal. Estas especulações implicam numa integração misteriosa da transcendência e da contingência no universo, que se manifesta na consciência reflexiva sinalizando uma realidade transtemporal cuja afirmação implica num ato de fé.  Na experiência mística esta realidade identifica-se com a vivência do amor divino que arrebata o ser consciente por um sentimento de paz infinita. Mas para usufruir plenamente os benefícios desta experiência não basta aceitar intelectualmente uma cosmovisão espiritualista. É necessário vivenciar uma relação absoluta com o absoluto (abstração inefável) que realiza subjetivamente a intimidade do homem com Deus. E para tanto é preciso incorporar existencialmente as virtudes teologais[2] que excedem a mera determinação ética, e a humildade talhada numa formalidade ritual disciplinada. É preciso sentir estas virtudes como emanação do “ser pessoal”. É abismal a experiência psicossocial implícita na prática destas virtudes! Tomando o amor caridade como paradigma, para vislumbrar sua grandiosidade basta ler a segunda carta de Paulo aos Coríntios[3]. Confesso que fico tonto só de pensar a altitude existencial a que preciso alçar-me para viver caridosamente! Equivoca-se o beato que pratica o ritual místico, apenas formalmente, sem realizar a “experiência numinosa”[4] implícita na relação absoluta com o absoluto. O comportamento místico não é uma panaceia à qual se recorre para espantar o medo de morrer. Requer uma profissão de fé. A “firme opinião de que algo é verdade, sem qualquer tipo de prova ou critério objetivo de verificação”  resulta de uma experiência psíquica afetiva profunda que tem mais a ver com o amor e a coragem de ser do que com o medo!  E só esta experiência anula a angústia da “existência”. De outra forma a consciência reflexiva arrisca-se afundar no dilaceramento das contradições existenciais. Resumindo, a plenitude existencial exige a fé em um  Deus criador e misericordioso, absoluto que ultrapassa os limites do conhecimento estritamente racional como um absurdo lógico (conceitual) necessário, porém, para fechar a gestalt da existência ou vir a ser consciente. Na verdade pode-se conviver com o absurdo lógico, mas o absurdo existencial representado pela vivência de contradições insolúveis é desagregador da unidade pessoal porque implica em vivenciar a própria consciência irremediavelmente dilacerada pelas dicotomias[5] da “existência”. Tendo em vista banir o absurdo existencial é preciso assimilar pela fé o absurdo lógico para fechar a gestalt da existência pessoal. Todavia não controlamos a vivência de fé inabalável que não deixa espaço para a dúvida e nos coloca no seio de uma transcendência absoluta. Eis o impasse que é preciso superar para salvar a integridade existencial.  Sem o respaldo de um referencial absoluto os valores éticos não passam de atribuições humanas falíveis. Mesmo ao testemunhar a “palavra revelada”, sem a experiência mística (de fé) o homem continua sendo o sustentáculo da verdade absoluta, o que é um contrassenso porque limitado pela contingência histórica não poderia ser um referencial absoluto para suas afirmações. Por isso  Miguel de Unamuno afirmava: “Ter fé não é crer no que não se vê, mas criar o que não se vê”.  E como toda criação original, a fé tem raízes numa intuição ou revelação significativa veiculada pelos símbolos que transitam no pré-consciente. O que nos remete à  religiosidade inconsciente do homem, estudada por Viktor Frankl como reflexo da divindade na intimidade subjetiva.
 Everaldo Lopes               



[1] Capacidade de ser consciente reflexivo, racional, afetivo e volitivo.
[2] Fé, Esperança e Caridade (Amor).
[3] Entre outras afirmações destaco esta: “E ainda que eu distribuísse todos os meus bens entre os pobres, e ainda que eu entregasse meu próprio corpo à cremação se não tivesse caridade nada disso me aproveitaria.”
[4] Segundo Rudolf Otto (1869-1927)  teólogo e filósofo alemão, o sentimento único vivido na experiência religiosa, “a experiência do sagrado, em que se confundem a fascinação, o terror e o aniquilamento. Dic. Aurélio Sec. XXI
[5] Nascer sem pedir e saber que vai  morrer sem querer; aspirar a tudo poder e saber que reterá apenas uma pequena parcela de poder; desejar  tudo conhecer e saber que terá acesso a um conhecimento limitado.

domingo, 29 de junho de 2014

Congruência pessoal e comportamento democrático

Nos dois textos antecedentes discorremos sobre a frustração do ideal democrático e a cidadania ameaçada. Em ambos evidenciam-se comportamentos pessoais e institucionais que deformam o exercício da democracia. Mas o elemento dinâmico desta deformação é sempre o indivíduo, mediante atitudes e ações prejudiciais à convivência social harmoniosa e respeitosa. É inquestionável que a sabedoria das escolhas individuais depende do nível de coerência de cada um ao operacionalizar a razão, a afetividade e a vontade à luz  da consciência reflexiva e dos valores éticos inspirados na Verdade e na Justiça. Essa performance pessoal espelha o exercício virtuoso dos atributos da condição humana[1] no convívio social. A integridade moral dos  cidadãos é que assegura o caráter ético dos desdobramentos econômicos e políticos das  relações sociais.
Idealmente, a construção da comunidade humana fundamenta-se no envolvimento interpessoal centrado no respeito mútuo, solidário, entre todos os homens. Essa unanimidade não é a norma, porém em virtude da perfectibilidade humana a solidariedade vai se difundindo mediante o apelo do princípio ético universal implícito no exercício responsável da consciência reflexiva.  
A democracia é a doutrina política mais compatível com a realização plena da comunidade humana. A prática democrática torna possível a convivência harmoniosa livre e solidária de todos os cidadãos, respeitada a facticidade[2] de cada um. Essas considerações levam naturalmente à conclusão de que a prática  política democrática exige do candidato à função pública o compromisso de respeitar a Verdade e a Justiça ao exercer o poder que lhe é conferido pelo povo. E a credibilidade do candidato é delimitada pela autenticidade e competência de sua proposta de crescimento econômico compatível com o desenvolvimento humano. Lamentavelmente a profissionalização do político  e o fisiologismo partidário deturpam a prática do ideal democrático, envergonhando o eleitor e desdenhando da sua capacidade crítica.
É fundamental para a construção de uma democracia participativa a harmonia interior dos cidadãos na prática solidária do respeito ao outro que por sua vez é consequência do autorrespeito dos indivíduos interagentes. Esse fundamento depende mais do esforço pessoal na elaboração de comportamentos fiéis aos valores éticos universais  do que da forma oficial de governo. São as pessoas que assumem a doutrina  política, e não o contrário. Numa democracia o estado de direito assegura a disciplina das manifestações individuais e oferece condições para o comportamento solidário. Mas é pela conduta livre exemplar dos indivíduos que se constrói uma verdadeira democracia.
É oportuno lembrar que a crítica aos comportamentos individualistas ambiciosos que distorcem as relações sociais, econômicas e políticas não sinaliza necessariamente a má fé dos infratores, mas tão pouco a excluí. Em sendo estes  comportamentos o resultado de um condicionamento desenvolvido desde a mais tenra idade, a conduta individualista ambiciosa se instala muito antes de o indivíduo ser capaz de decidir livre e criteriosamente pelo comportamento ético solidário.  Depois de sedimentada, essa distorção comportamental ganha vida própria e passa a dominar mental e emocionalmente os indivíduos nas suas relações sociais. Daí a dificuldade de uma mudança de conduta que contrarie a orientação cultural vigente. Impõe-se  então a sensibilização das pessoas a novos valores, associada à determinação de cada uma no sentido da assimilação de uma ordem social e  econômica mais justa e solidária. Essa superação implica numa profunda transformação da maneira de entender o papel da consciência no mundo, que resulta na valorização do “ser” em vez do “ter”.   
Uma análise objetiva, desapaixonada, revela que o indivíduo envolvido na distorção capitalista (valorização do ter) alimenta a crença de que o comportamento alternativo da conduta exclusivista vigente representa um risco para a sociedade organizada. Bloqueado por esta crença infundada, para o homem comum influenciado pela cultura capitalista a solidariedade extensiva a todos os homens é incompatível com uma realidade social e econômica sustentável; e no âmbito dessa visão estreita do problema humano social, na prática, as ações solidárias assumem o caráter de uma esmola, sem repercussão estrutural na sociedade. Aí emperra o processo evolutivo. Só a partir de uma verdadeira libertação da conduta individualista ambiciosa é possível construir o comportamento democrático autêntico, solidário, mediante o exercício livre e responsável da consciência reflexiva. Quanto mais estruturados são os condicionamentos geradores do comportamento exclusivista  maior é o obstáculo oposto à substituição da “competição selvagem” e do “acúmulo de bens materiais”, respectivamente, pela “cooperação” e pela “partilha”.  Todavia, liberto do condicionamento ambicioso o individuo será capaz de exercer coerentemente os atributos da condição  humana capacitando-se a fazer escolhas e tomar decisões livres, corretas, compatíveis com o comportamento comunitário.  É necessário apostar na capacidade de o homem libertar-se da inclinação congênita e dos condicionamentos culturais individualistas ambiciosos. De outro modo fica comprometida a sobrevivência da espécie humana. Dito assim essa afirmação parece despropositada, mas ela encontra apoio numa análise profunda da realidade evolutiva do homem.
Concluindo, é evidente a importância da congruência pessoal no desenvolvimento da Democracia plena. Ao mesmo tempo sabemos todos que as mudanças interiores necessárias para o exercício coerente da condição humana não se impõem pela força, mas pelo convencimento. A História dá testemunho do fracasso das tentativas violentas de mudança do paradigma comportamental que se nutre da ambição humana e fomenta a exploração econômica no seio da sociedade. A revolução que redime o homem do equívoco individualista ambicioso se dá no íntimo de cada um e é indispensável na realização do ideal comunitário, esperança de salvação da humanidade. Em verdade, estamos todos no mesmo barco; ou nos salvamos todos ou não se salva ninguém. Para alcançar o ideal comunitário a prática democrática conta com a liberdade individual e a determinação de respeitar os limites da cidadania comum a todos os homens, o que pressupõe a congruência pessoal inerente ao exercício responsável da consciência reflexiva.    Everaldo Lopes           


[1] Capacidade de exercitar consciente e responsavelmente a razão, a afetividade e a vontade.
[2] Facticidade- Caráter próprio da condição humana pelo qual cada homem se encontra sempre já comprometido com uma situação não escolhida.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Cidadania ameaçada

Ao som do Hino Nacional milhões de brasileiros sentem um arrepio de patriótica emoção. Eles amam o seu torrão natal e se entusiasmam com as conquistas da pátria amada. Otimistas, trabalham com afinco para garantir o sustento seu e da sua família. São pacíficos, mas lamentam a dificuldade para matricular o filho na Escola Pública,  e revoltam-se ao ouvir a queixa da esposa de haver esperado horas na fila do SUS para um atendimento especializado. Ganham pouco, mas, apesar de tudo isso, não abandonam os seus princípios  de honradez e solidariedade. Esses brasileiros fiéis são exemplos de paciência cívica na tentativa persistente de praticar a cidadania apesar das dificuldades circunstanciais. Periodicamente votam nos candidatos que lhes parecem mais honestos e competentes. Na verdade, tudo que sabem sobre eles é o que a mídia deixa passar, pró ou contra os postulantes aos cargos eletivos. E, lamentavelmente, a malha desse filtro de informações é determinada mais por interesses corporativos do que pelo compromisso com a verdade. A propaganda eleitoral assessorada por marqueteiros regiamente pagos apresenta os candidatos como exemplos de competência e espírito público. Depois os eleitores constatam que estes candidatos após a vitória nas urnas esquecem as promessas de campanha. Uma vez eleitos e empossados eles protagonizam comportamentos autopromocionais na expectativa de se reelegerem no próximo pleito. Esses falsos homens públicos subestimam a inteligência do eleitor e confiam na memória curta da massa votante. Não raro acertam, e quatro anos depois tudo se repete do mesmo jeito: as promessas de palanque, o esquecimento dos compromissos de campanha, e a decepção do eleitor, logo esquecida, mais uma vez. Estes brasileiros fiéis que teimam em esperar por melhores dias voltam às urnas com renovada esperança, malgrado os maus tratos a que os sujeitaram as administrações incompetentes e perdulárias dos mesmos candidatos que ajudaram a eleger no passado e se apresentam agora para novo mandato. Embora fiel ao protocolo democrático esse comportamento do eleitor revela certa ingenuidade, mas também a falta de garra ou de meios para fiscalizar e exigir conduta exemplar dos gestores públicos.  Aliás, atualmente a prática democrática em nosso país está sendo desmoralizada pelo próprio governo  através da compra escamoteada de votos mediante a concessão de “bolsas” distribuídas entre as pessoas economicamente marginalizadas. Procedimento legítimo que perde seu poder transformador quando não exige nem fiscaliza a contrapartida necessária para assegurar a eficácia do benefício na promoção do desenvolvimento humano do beneficiário. Essas bolsas passam, então, a atender fins puramente eleitoreiros. Não educam, apenas ajudam a reeleger os que reivindicam a paternidade dessa pequena ajuda financeira. Momentaneamente, a injeção na economia de bilhões de reais através da concessão das “bolsas” dá lugar à falsa impressão de crescimento econômico, pela ampliação do mercado consumidor. Mas esse aumento de consumo não representa real crescimento econômico. O Governo não consegue segurar por muito tempo a grande mentira, enquanto a incompetência de sua gestão envolvida em escândalos de corrupção o distancia mais ainda dos interesses do povo.  De repente, esguicham por todos os canais de comunicação de massa, notícias lamentáveis de toda espécie de irregularidades dentro e fora do governo. Atônitos, os brasileiros bem intencionados que sonham com um Brasil  desenvolvido são sacudidos por avalanche de notícias deploráveis sobre a real situação do país, muito aquém da que o governo anuncia. Já não é possível esconder a corrupção que se alastra, sorrateira ou explicitamente, em todos os escalões dos poderes constituídos. A mesma corrupção denunciada em campanha eleitoral pelos que fazem o Governo atual, e que não estancou depois da investidura no poder dos supostos arautos de uma “nova ordem.” Ao invés da renovação anunciada, as instituições ditas democráticas continuam se deteriorando, corroídas pelas mentiras embutidas em manobras escusas envolvendo executivos e legisladores. Aqueles brasileiros esclarecidos que não se deixam comprar com benesses ficam perplexos ante o dever cívico de escolher nas urnas homens públicos responsáveis. É evidente a inconsistência ideológica dos partidos e a falta de líderes autênticos identificados com um projeto nacional de desenvolvimento. Esse panorama não dá lugar à expectativa de mudanças salutares do quadro político atual. E é preocupante vislumbrar o caos ao qual o país está sendo levado pelos vivaldinos de plantão que são muitos, despudorados e cheios de ardis. Impõe-se dar corpo ao protesto do povo usurpado em seus direitos, mediante uma campanha nacional que acelere o amadurecimento político da nação brasileira. Porém todos sabemos que esta maturação não acontece de repente, depende da conjugação de muitos fatores. É um processo longo que demanda educação continuada desde a família, passando pela escola com o respaldo da sociedade organizada. Faz parte deste processo o expurgo efetivo dos candidatos de ficha suja, vedando o registro dos seus nomes para a concorrência eleitoral, além da punição severa pelos atos de corrupção já praticados. Paralelamente, os brasileiros esclarecidos imbuídos do ideal democrático deverão sair da sombra do anonimato, expondo-se à ocupação dos espaços que se abrirem na administração pública. Isso exige conhecimento, coragem e determinação dos democratas autênticos. Os obstáculos são enormes. A corrupção a varejo que infelicita os países pobres é sucursal da corrupção por atacado, capitaneada pelo crime contra a humanidade embutido na exploração dos países ricos sobre os povos subdesenvolvidos. Além das dificuldades internas, as nações subdesenvolvidas estão expostas às manobras de exploração das grandes corporações econômicas multinacionais, e  à dominação política internacional dos países ricos. É cruel a flagelação a que se expõem populações inteiras privadas de alimentação, abrigo, saúde, educação e emprego, enquanto crescem os privilégios desfrutados por  uma minoria! As nações pobres, economicamente manipuladas na negociação de uma dívida externa impagável são induzidas a sacrificar investimentos básicos que lhe são essenciais. Todavia, obrigam-se a fazer uma reserva financeira a fim de garantir o pagamento dos juros de uma dívida fabulosa escravizante.  
Olhando o cenário internacional cada vez mais sobressai a certeza de que a persistir a política econômica vigente, inspirada na competição aética, o agravamento da má distribuição de renda e de condições de vida, levará a  humanidade a um caos social vizinho da barbárie. O que representa em longo prazo uma ameaça à sobrevivência da espécie humana. Oxalá as nações ricas e pobres se compenetrem de que a política econômica global inspirada nos paradigmas capitalistas é suicida. É necessário deter a ganância desavergonhada dos donos do capital. Se a fúria do ágio não for contida,  os excluídos famintos e ignorantes hão de desenvolver reação irracional que porá em perigo tudo que a humanidade construiu até o momento. Por menos exequível que pareça reverter o processo socioeconômico que está sufocando a humanidade, é preciso dizer “não” à competição aética substituindo-a pela cooperação inteligente; é preciso dizer “não” ao acúmulo injusto de riqueza nas mãos de poucos, em prol da partilha equânime dos bens da Terra entre todos os homens. É possível conter a agressividade do ágio sem prejudicar o progresso científico e tecnológico. Também nessa área a cooperação é mais enriquecedora do que a competição exclusivista.
Toda turbulência econômica, social, política e existencial reflete a dificuldade humana de ser cooperativo e veraz por escolha e decisão pessoais no exercício da consciência livre e responsável.
 Na medida em que somos todos responsáveis no processo de humanização, a grande revolução cultural em favor da justiça social e da solidariedade indispensáveis à sobrevivência da espécie demanda a participação inteligente, efetiva e ética de cada um de nós, consolidando o comportamento cidadão.           

  Everaldo Lopes 

sábado, 31 de maio de 2014

Frustração do ideal democrático

A prática democrática sem o apoio da cidadania plena leva ao poder pessoas sem espírito público, incompetentes e inescrupulosas. Generalizando, podemos dizer serem poucos os políticos profissionais que escapam, no mínimo, ao rótulo de burocratas muito bem pagos pela república, que no exercício dos mandatos fazem mais política eleitoreira do que trabalham para o Estado e, consequentemente, para o povo. Lamentavelmente a maioria deles deixa em segundo plano os interesses da coletividade e, pior, alguns se envolvem em escândalos de corrupção. No fim o povo continua sem saúde, sem educação, sem segurança, sem transporte coletivo além de empobrecido, enquanto os vivaldinos enchem os bolsos com proventos, jetons polpudos e outras vantagens pecuniárias oficiais e extraoficiais. Esse quadro já é por demais conhecido, e suscita uma discussão sobre a possibilidade e o valor do voto consciente e responsável. Os eleitores despreparados, que são maioria, não avaliam o candidato aos cargos eletivos do governo por seu quilate moral e amor à causa pública. Por outro lado a falta de candidatos ilibados (utopia?) não oferece alternativa ao eleitor esclarecido que acaba votando dentre os que disputam a preferência nas urnas os supostamente melhores, embora saiba que eles não preenchem os requisitos de um servidor público exemplar.  Assim, os  eleitos com o voto popular nem sempre reúnem as condições morais e técnicas desejáveis!  Um agravante é que  o eleitor consciente se ressente da falta de credibilidade das informações sobre a vida e personalidade dos que pleiteiam cargos eletivos. Os debates públicos televisionados podem revelar o conhecimento dos candidatos em relação aos problemas que afligem a coletividade, mas não medem a capacidade de resolvê-los, nem a disposição de fazer coincidir depois da posse a prática administrativa com o discurso pré-eleitoral. O resultado da eleição se torna ainda menos seletivo em consequência da corrupção envolvendo a compra de votos. Tudo isso arranha o ideal democrático porque todos os votos nivelados por baixo têm o mesmo peso. Assim, numa democracia todos contribuem voluntária ou involuntariamente para as distorções que maculam o regime. E o resultado desastroso também atinge todos. A má escolha contribui para os desmandos administrativos, privando o povo das melhorias que seriam possíveis contando com  os recursos orçamentários existentes. Não obstante, convenhamos, a Democracia ainda continua sendo o melhor dentre os regimes políticos conhecidos. Por isso apesar das dificuldades é imperioso que nos empenhemos em defesa do rigor das práticas democráticas. É perceptível a deformação produzida pelo Capitalismo corrompido por comportamentos aéticos. Pode-se mesmo dizer que os problemas cruciais da sociedade humana, hoje, decorrem do fato de estarmos vivendo num mundo dominado por uma economia caracterizada pela competição desenfreada e pelo acúmulo de riqueza nas mãos de uma minoria. Essa realidade que não se esconde à análise socioeconômica mais elementar gera uma herança perversa que ameaça as expectativas menos pessimistas para a humanidade, neste começo de milênio. As nações estão divididas entre as ricas, as pobres e muito pobres. As primeiras explorando desumanamente estas últimas, mas todas elas ricas e pobres deformadas pela ambição individual e de corporações privadas. Essa orientação direciona mal a elaboração e execução dos precários orçamentos dos países pobres e impede o investimento nas ações desenvolvimentistas de que carecem. Suas populações, salvo um reduzido número de privilegiados da fortuna são mal alimentadas, sem educação e sem assistência à saúde.  Um clima perfeito para as distorções do processo democrático responsáveis pela manutenção no poder dos profissionais da política mais interessados em engordar as próprias contas bancárias do que em promover políticas públicas benéficas para o povo. Estas distorções  perpetuam um ciclo vicioso de miséria física e moral. A má distribuição do bem comum nos contextos nacional e internacional resulta em boa parte das mazelas da economia capitalista comandada pelo livre mercado frequentemente aético. E reflete-se nos desníveis econômicos caracterizados por classes sociais de alta renda e de baixa ou nenhuma renda (os miseráveis). As consequências político sociais extremas dessa ordem econômica perversa influem de modo importante no desencadeamento da  violência urbana e do terrorismo internacional. Quando os oprimidos chegam ao limite de sua resistência perdem os controles conscientes e apelam para as soluções irracionais. O cidadão esclarecido vê tudo isso e pouco, ou quase nada pode fazer individualmente para reverter o processo cuja inércia só poderá ser contida por uma força social capaz de induzir os líderes mundiais e locais a reavaliar a política econômica nos níveis internacional e nacional, de tal forma que todos os povos de grandes e pequenas nações possam eliminar a pobreza e promover o desenvolvimento humano. A expectativa dessa reviravolta para melhor inclui, obviamente, a reordenação construtiva das iniciativas responsáveis dos países ricos e pobres, tendo em vista prioritariamente o desenvolvimento humano paralelo à organização de uma sociedade solidária, e não apenas o crescimento econômico. Essa reavaliação seria a base de um esforço gigantesco para a edificação da comunidade humana. Pode-se imaginar a grandiosidade dessa revolução socioeconômica. Mas, embora possa parecer bombástica a afirmação que se segue, sem esta revolução a humanidade estará ameaçada de retornar à barbárie. O desalento do observador atento vem com a constatação de que são bem mais numerosos os descomprometidos com o processo de construção da comunidade humana, por alienação ou falta de caráter. Mergulhado nessa realidade hostil o verdadeiro humanista sente-se um inocente útil aviltado pelas tramoias políticas, sociais e econômicas, carente do poder de fogo para combatê-las.
Sem dramatizar, é preciso reconhecer a dificuldade de alcançar resultados mais consistentes e mais rápidos na construção da comunidade humana através dos meios democráticos sordidamente viciados pelos exploradores da massa ignara. Nas circunstâncias atuais, a intolerância, a mentira e as cavilações são largamente praticadas nos meios sociais, político e econômico, obstruindo os canais da organização democrática da sociedade. Os cidadãos íntegros ciosos da responsabilidade social são boicotados nas suas iniciativas pelo embuste dos políticos e empresários corrompidos, e pela ignorância alienante de uma grande maioria dos que fazem a sociedade dita “organizada”.   As denuncias contra a incompetência, a politicagem e o descompromisso com a coisa pública são sepultadas pela avalanche de mentiras com que os militantes espertalhões ludibriam o povão. Todavia sei que não são poucos os que, sem condições de implementar ações socialmente construtivas fazem uma militância de atitude para manter aceso o ideal de competência, verdade e justiça no trato da coisa pública. Por isso alimento a certeza de que ainda contamos com boa reserva moral entre os cidadãos do mundo inteiro à espera, quiçá, de uma liderança política que os aglutine e de uma oportunidade efetiva de intervenção no processo social e econômico. Confio em que as mentiras, os acordos cavilosos, a corrupção um dia se envenenarão com a própria peçonha. Então, a verdade há de prevalecer, libertando a consciência responsável para exercer o seu papel na construção de um mundo novo e melhor. Quando? Não sei. Mas é preciso que cultivemos o amor à verdade e à justiça, enquanto  os vândalos da ética sócio-política e econômica estão à solta espalhando imposturas. Corro o risco de parecer ingênuo, mas alimento a expectativa de que se  não for possível mudar, já, esse processo político e socioeconômico despudorado que nos sufoca hoje, os que se mantiveram fiéis aos ideais de verdade e de justiça hão de multiplicarem-se para constituir um grupo numeroso capaz de garantir a vitória da verdade sobre a mentira, do bem sobre o mal.

Everaldo Lopes

terça-feira, 13 de maio de 2014

Da revolta à aceitação

            O ser humano é problemático. A razão e o sentimento nem  sempre estão de braços dados.  Quando há conflito, as demandas afetivas confrontam as normas éticas estabelecidas. E este confronto é fonte de inquietação. A recusa do sujeito consciente a uma proposta afetiva é opção difícil, por vezes sofrida. De  um lado ele sente que satisfazendo o coração aliviaria o fardo da sua existência; do outro sabe que o desrespeito aos valores éticos assumidos compromete a dignidade pessoal. A resposta existencial harmoniosa que atenda ao sentimento sem romper com as normas éticas depende da sensibilidade e criatividade pessoais para flexibilizar o comportamento de forma a satisfazer o sentimento com dignidade.  O caráter do indivíduo é decisivo na escolha da forma de realizar o desejo imediato de ser feliz comum a todos os homens. A escolha fundamentada em princípios puramente éticos, nem sempre corresponde a uma vivência de felicidade. A prática ética sem amor é insípida. O prêmio de consolação do comportamento ético condicionado à simples determinação da vontade é o sentimento do dever cumprido que  não  preenche todos os anseios existenciais. Todavia, agir responsavelmente sob a égide de princípios morais culturalmente sedimentados é o que se espera de todos os homens. Sem a prática responsável dos indivíduos não haveria civilização. Felizmente “.... a virtude não precisa ser triste.[1]” O amor essencialmente responsável excede a ética convencional e é fonte de alegria inesgotável; sua prática representa o mais alto nível de realização humana. Entendido como sentimento que predispõe alguém a desejar o bem de outrem fundamenta a grande máxima ética de Santo Agostinho: “Ama e faze o que quiseres”. O amor reforça os laços universais de solidariedade entre os homens, mesmo quando fere hábitos e costumes já estabelecidos. Na verdade o amor constitui um salto evolutivo revolucionário confiado ao exercício da liberdade inerente à condição humana.
A ordem universal que assegura o processo evolutivo, e a  emergência da liberdade no homem sugerem  um absoluto  que se manifesta pela comunhão incorruptível (amor) entre o ser consciente e seu alter ego transcendental (Intuição divina). Nesse contexto, Deus não seria um ser supremo isolado do mundo, mas um Dinamismo Absoluto Eternamente Criativo que perpassa todo Universo e se revela ostensivamente no vir a ser humano. O assentimento a este dinamismo transcendental que dá suporte e estrutura à própria existência traz como resultado o reconhecimento do nível ético religioso de existência[2].  Concordância que confere uma base filosófica para a postura mística consentânea com a dimensão transcendental do homem. Todas essas considerações nos remetem ao todo absoluto no qual estamos contextualizados.
O envelhecimento a doença e a morte são eventos naturais do ciclo da vida, mas constituem um desafio para o equilíbrio existencial[3]. O ser consciente transcende o puramente biológico e pensa nesses eventos antecipadamente como um risco iminente. Isso incomoda, e é preciso uma ascese bem sucedida para que o eu pensante possa imaginar esses desdobramentos da vida pessoal sem medo ou constrangimento. É ingênuo lamentar as restrições pessoais e circunstanciais que fazem parte da vida. Para o ser consciente objetivamente centrado na realidade é fundamental aceitar a inevitabilidade do envelhecimento, da doença e da morte. Para consumar, porém, esta aceitação pressupõe-se um fenômeno biopsíquico complexo difícil de definir para o qual contribuímos  conscientemente apenas com a determinação de não interrompê-lo por medo de enfrentar a realidade. A verdade é que no cadinho da subjetividade vão-se misturando experiências, conceitos, emoções e sentimentos variados inclusive a relutância em abraçar a finitude. De repente como resultado de um processo que não está sob o controle da consciência, a vivência de revolta cede lugar à disposição para aceitação mais tranquila dos limites biológicos. O beneficiário desse processo percebe, então, o despertar de uma vivência de serenidade na sua existência desamparada. Talvez haja flutuações dessa vivência daí por diante, como costuma acontecer com os fenômenos psicodinâmicos. Mas, então, já é possível lidar com o pior sem desabar. Depreende-se de tudo isso que a verdade última é uma verdade de fé, porém é mais razoável do que qualquer argumento apresentado pela razão. Levantar a questão dos limites existenciais e discuti-la sem reservas é o primeiro passo a caminho da maturidade intelectual e afetiva. O que se segue é uma transformação interior cuja paternidade não se pode ter a veleidade de assumir como iniciativa individual consciente independente de uma intervenção determinante que escapa à observação. Por isso muitos pensam dever-se esta transformação a uma graça divina que entremostra de forma obscura a unidade do Universo e da consciência na intimidade dinâmica da lógica complexa da realidade!
Racionalmente, viver confrontando a finitude é uma insensatez. Sem abraçar a transitoriedade da vida a existência vira um lixo. É estulto esperar com ansiedade o que vai acontecer se nada se pode fazer para evita-lo!  Todavia é difícil anular a angústia existencial do homem diante da fugacidade dos seus dias, antes que ocorra a transformação interior já mencionada. A persistência do desejo infantil de ser invulnerável explica porque o indivíduo se amofina ao vivenciar sua realidade finita. A superação desse conflito deve evoluir na medida em que as pessoas vão realizando de forma positiva seu movimento subjetivo de amadurecimento. Da revolta contra os limites da existência, à aceitação da finitude cada um tem sua forma peculiar de lidar com os próprios dons na conquista de uma vivência de serenidade!
Everaldo Lopes.



[1] Raul de Leoni . Último verso do segundo terceto do soneto intitulado “Cristianismo”.
[2] Kierkegaard propôs como  níveis de existência –o  estético, o ético e o ético religioso.
[3] Existência: Modo de ser peculiar do homem consciente,,reflexivo, livre e responsável.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Eu - individualidade metafísica da pessoa

Nome, idade, sexo, cor, filiação, estado civil, profissão, nº do Registro Geral (RG), nº do Cadastro de Pessoa Física (CPF), nacionalidade, residência habitualmente bastam para a identificação formal de uma pessoa. Mas, na verdade, tudo isso são apenas registros que revelam o status, a ascendência, a profissão e os números pelos quais um indivíduo é reconhecido na coletividade. Esses dados são suficientes para caracterizar alguém como um membro da sociedade organizada. Mas não respondem à pergunta que, eventualmente, este alguém poderia se fazer: “Que sou eu?”. Neste texto quero deter-me na tentativa de compreender a natureza do núcleo ontológico do “eu”, o centro psíquico ao qual se referem todos os nossos pensamentos, desejos e ações. O que é esse centro dinâmico que cada um procura numa introspecção profunda e não descobre como entidade descritível, mas experimenta como vivência indiscutível? Revela-se como a consciência silenciosa e sem forma que antecede todo e qualquer pensamento, sentimento ou ato voluntário. O núcleo mais radical do ser consciente é portanto uma realidade abstrata que se impõe ao reconhecimento pela consciência que todo homem tem do si mesmo. Nessa reflexão o homem se identifica com a capacidade de pensar, escolher, curtir sentimentos, e querer. Sem descer a especulações metafísicas, para uma maioria expressiva dos homens esse núcleo original é a alma imortal.
Quando o sujeito consciente se sente objeto de sua própria observação percebe a fragilidade biológica amarrada à fatalidade da velhice e da morte. Mas como uma pessoa com aptidões[1] que transcendem os determinismos puramente biológicos compreende, ao mesmo tempo, que não se explicaria apenas biologicamente. E por sua consciência reflexiva o homem se torna problemático. Sente necessidade de saber qual é sua realidade mais profunda, e o que por seu caráter consciente representa no contexto evolucionário do Universo. O pensador reconhece a dificuldade de explicitar a individualidade metafísica da sua pessoa, mas ao dizer meu corpo, meu pensamento, meu sentimento denuncia um sujeito transcendental consciente (“eu”) desses atributos. Nesse movimento de reflexão inextrincável da sua relação com o mundo, o ser consciente define uma linguagem, elege valores e desenha uma missão que eticamente se propõe a assumir. Linguagem, valores e missão que ganham força mediante o grau do compromisso de coerência pessoal do vir a ser de cada um no contexto de sua circunstância. Dessa forma o homem elabora um esquema de comportamento que passa a ser o invólucro do núcleo ontológico invisível do seu ser no mundo. Esse involtório comportamental passa a constituir a interface entre o núcleo ontológico do “eu” e o mundo. A personalidade resultante deste processo de interação interfacial é a essência do homem como um ser de cultura.
A Ciência não consegue explicar os dotes humanos transcendentais que, aparentemente, ultrapassam as funções biológicas e até exercem certo poder sobre elas. Isso nos deixa à mercê de especulações filosóficas e da crença em determinados a priori sobre os quais construímos teorias com estrutura lógica coerente, mas que não podem ser objetivamente comprovadas.
A tentativa de abordagem racional do núcleo ontológico de cada um de nós mesmos é uma experiência no mínimo, confusa. Não identificamos a natureza desse núcleo, mas sabemos que ele existe como um vazio a ser preenchido mediante integração do vir a ser consciente num absoluto significativo. Com essa expectativa a memória vai costurando as experiências sucessivas do vir a ser pessoal, na tentativa de construir com o devir humano algo que faça sentido, uma história com começo, meio e fim. O homem procura consolidar essa orientação reverenciando a verdade, com a disposição de respeitar a coerência ética das suas relações com os outros e com o mundo. Então, com a razão, os sentimentos e a disposição voluntária de preservar a congruência existencial o homem constrói um chão subjetivo, lastro moral sobre o qual se apoia e cuja solidez vale o quanto nele deposita de confiança, sem qualquer garantia.
O ponto cego da subjetividade é o próprio “eu”. Nele se projeta a sombra de uma transcendência com a qual o “eu” se identifica, sinalizando que sua verdadeira natureza é transtemporal. A razão se surpreende com a descoberta de que a verdade última da individualidade metafísica do “eu” requer fé, e depois fica feliz ao descobrir que esta fé é o mais racional dos argumentos que a razão possa propor. Não há certezas absolutas, mas o ser consciente estabelece os limites da sua própria certeza, avalizando-a enquanto nela se consuma. Essa verdade é que preenche o vazio original do ser consciente, sustentando-se num pressuposto assumido pela fé, ao arrepio de qualquer evidência. Essa conjectura, assumida como verdade é o “porquê” pelo qual “suportamos qualquer como”[2], ou seja, aquilo que imprime um sentido à existência. Sem outra garantia senão a do aval pessoal, este “porquê” tem o peso que lhe confere a própria pessoa num esforço coerente, inteligente de integração da sua realidade num absoluto significativo. Esse é o caráter profundo da fé. A criação de algo que se projeta na realidade contingente, transitória, conferindo sentido a tudo. Mais uma vez relembro Unamuno quando diz: “Ter fé não é crer no que não se vê, mas criar o que não se vê”.
Felizes são aqueles que têm a força interior necessária para aderir ao seu “porquê” transcendental, razão de ser inspiradora em cuja defesa estão dispostos a morrer. A meio caminho dessa aspiração espiritual estão os ideólogos sociais que dispõem apenas de um “porquê” temporal, posto que se consuma e se extingue na sua própria atualização histórica.
Teoricamente, o núcleo metafísico do “eu” está na fronteira entre o tempo e a eternidade, entre a matéria e o espírito.
Everaldo Lopes



[1] Inteligência lógico-matemática, criatividade, sensibilidade afetiva, consciência reflexiva, capacidade de escolher utilizando critérios de valor.
[2]Nietsche – “Aquele que tem um porquê para viver pode suportar quase qualquer como”

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Viver por viver

         Viver por viver não preenche o verdadeiro sentido evolutivo da vida consciente reflexiva. Para cumprir fielmente seu objetivo no contexto evolucionário o homem precisa refletir a fim de definir-se através de escolhas e decisões responsáveis, socialmente coerentes. Esse não é o comportamento das pessoas que não atinam ou não assumem o compromisso de honrar a sua condição humana[1]. Todavia todos desejam viver mais! Nas Unidades de Tratamento Intensivo (UTIs) do mundo inteiro um enorme esforço é feito diuturnamente,  no sentido de salvar vidas que estão por um fio. Diante da ameaça de um fim próximo os doentes graves, agarram-se à ajuda médica e até a tratamentos milagrosos com a esperança de vencer a parca impiedosa. A ordem do dia é: viver, viver mais. Reconhecemos ser louvável o esforço despendido para prolongar a vida; essa é a missão do médico. Mas o efetivo exercício livre e responsável da consciência reflexiva é o que torna a vida humana digna de ser vivida. E essa prática é da alçada de cada um mediante o bom uso das funções psíquicas superiores (racionalidade, afetividade e vontade) tendo em vista a realização de ideais nobres. No seu vir a ser o homem protagoniza a luta íntima entre suas tendências egoístas excludentes e a prática solidária indispensável à sobrevivência da espécie. Cada um tem que dar uma resposta pessoal a esse conflito. E a coerência ética das relações do indivíduo consigo mesmo e com os outros é a medida de sua envergadura moral.
Lancemos um olhar inquiridor sobre os antecedentes e o porvir dos que estão sendo salvos nos centros de terapia intensiva. Entre os pacientes graves que ocupam os leitos das Unidades de Tratamento Intensivo (UTIs) a maioria das patologias é produzida pelos desregramentos que suas vítimas consciente ou inconscientemente praticaram por longo tempo, empenhados na conquista de objetivos materiais. O enfartado é um executivo que viveu o tempo todo correndo atrás de maior produtividade, numa atividade lucrativa. Ou um bon vivant disposto a jogar todas as fichas para fruir o prazer que se lhe oferece cada momento. São legiões de indivíduos que desafiaram os limites do próprio corpo para satisfazer suas ambições imediatistas e acabaram sofrendo as consequências.  Nessa insensatez dissiparam as próprias vidas. Tornaram-se vítimas de desordens biológicas que ao longo do tempo evoluíram para moléstias renais crônicas, cirrose hepática, doença coronariana, apoplexia cerebral entre outros estados patológicos graves. Estressados, afanaram-se na tentativa ambiciosa de conquistar alvos fugazes, descuidando a saúde do corpo. Agora, doentes, são obrigados a abandonar suas ambições, já não lhes restam oportunidades de realizá-las, mas continuam sedentos de mais vida. Todavia a experiência mostra que quase todos voltarão para suas rotinas morbígenas se conseguirem sobreviver à doença atual. Poucos terão aprendido a lição. A equipe médica nas unidades de tratamento intensivo não sabe  o que o paciente aos seus cuidados cuja vida está por um fio fará da sua existência se escapar da morte iminente. Não importa, é preciso salvar sua vida ameaçada. Todos querem  viver mais, porém muitos salvos da morte pelos cuidados médicos recebidos não saberão o que fazer dos anos de vida que estão por vir.
Alguém já disse que o verdadeiro desafio de ser homem é caminhar para a morte, lutando pela vida... E eu até concordo com essa visão numa perspectiva de vida apaixonada pela busca heroica de solução harmoniosa para as contradições existenciais. Nessa perspectiva é contraditório assimilar, sem protesto, a monótona repetição dos “mesmos sem roteiros tristes périplos”[2] em que se torna a vida de muitos de nós presos a propostas existenciais egoísticas imediatistas que se esgotam nelas mesmas. Para superar a monotonia da ganância dos bens e prazeres materiais que amesquinham as possibilidades existenciais, o homem precisa alimentar a esperança de uma realização superior, decidido a alcançá-la com talento e determinação. Isso implica no envolvimento com uma causa nobre, associado a um ideal estético, intelectual  e ético-social.  Sem uma proposta existencial criativa coerente com os elevados ideais de verdade e justiça, o homem fica à mercê de uma postura magnetizada pela vontade de viver por viver! Seguramente, conquistar a plenitude pessoal é o objetivo da existência; porém dadas as limitações humanas, a realização a que aspira a maioria das pessoas se confunde com sucessos imediatos voltados para o “ter mais” e não para o “ser mais”. Por falta de crítica sadia, e determinação para realizar os ideais superiores, os erros de ontem se repetem indefinidamente. É preciso carregar a chama divina que ilumina os que cultivam o desejo de ser mais,  a fim de alcançar a verdadeira plenitude do ser consciente. Para dignificar a condição humana é preciso ousar o impossível, tentar  sem desfalecimentos a realização de um ideal nobre. Só os que assim procedem conseguem superar as dificuldades existenciais, alimentando no mais íntimo do ser, o sentimento de respeito a si mesmos, aos outros e à natureza.
Afinal, o que será a vida sem uma paixão transcendental? O que não está claro, para muitos, é que esta paixão conduz à paz da vida comunitária, fundamento supremo da verdadeira alegria de viver! Não obstante, uma força insistente leva o homem a agarrar-se à vida pela vida mesma, na expectativa de algumas migalhas de prazer e felicidade passageira. Esse é o desfecho quando falta ao homem a disposição e a coragem de ser coerente com o ideal solidário,  recriando-se e assumindo a responsabilidade das escolhas que faz. Ele não se dá conta de que a falta da realização existencial superior é a origem da angústia humana, dor muda que fustiga as entranhas da existência. Contra ela é necessário opor a “força interior” que se manifesta num comportamento clarividente, compassivo, determinado a encontrar solução para as contradições do vir a ser humano. Nesse sentido nenhuma proposta supera o exercício do amor que move a vontade à busca do bem de outrem[3]. Na verdade, a prática caridosa  é necessária para realizar o sonho de construir uma comunidade solidária, onde os problemas existenciais partilhados em perfeita cooperação se resolveriam numa epopéia de paz e serenidade, aqui mesmo na Terra.
Para o homem não basta viver mais; é preciso viver dignificando a condição humana.        

  Everaldo Lopes



[1] Ser consciente, livre e responsável
[2] Do poema de Carlos Drumond de Andrade – “A máquina do mundo”
[3] Caridade no vocabulário cristão.