sábado, 31 de maio de 2014

Frustração do ideal democrático

A prática democrática sem o apoio da cidadania plena leva ao poder pessoas sem espírito público, incompetentes e inescrupulosas. Generalizando, podemos dizer serem poucos os políticos profissionais que escapam, no mínimo, ao rótulo de burocratas muito bem pagos pela república, que no exercício dos mandatos fazem mais política eleitoreira do que trabalham para o Estado e, consequentemente, para o povo. Lamentavelmente a maioria deles deixa em segundo plano os interesses da coletividade e, pior, alguns se envolvem em escândalos de corrupção. No fim o povo continua sem saúde, sem educação, sem segurança, sem transporte coletivo além de empobrecido, enquanto os vivaldinos enchem os bolsos com proventos, jetons polpudos e outras vantagens pecuniárias oficiais e extraoficiais. Esse quadro já é por demais conhecido, e suscita uma discussão sobre a possibilidade e o valor do voto consciente e responsável. Os eleitores despreparados, que são maioria, não avaliam o candidato aos cargos eletivos do governo por seu quilate moral e amor à causa pública. Por outro lado a falta de candidatos ilibados (utopia?) não oferece alternativa ao eleitor esclarecido que acaba votando dentre os que disputam a preferência nas urnas os supostamente melhores, embora saiba que eles não preenchem os requisitos de um servidor público exemplar.  Assim, os  eleitos com o voto popular nem sempre reúnem as condições morais e técnicas desejáveis!  Um agravante é que  o eleitor consciente se ressente da falta de credibilidade das informações sobre a vida e personalidade dos que pleiteiam cargos eletivos. Os debates públicos televisionados podem revelar o conhecimento dos candidatos em relação aos problemas que afligem a coletividade, mas não medem a capacidade de resolvê-los, nem a disposição de fazer coincidir depois da posse a prática administrativa com o discurso pré-eleitoral. O resultado da eleição se torna ainda menos seletivo em consequência da corrupção envolvendo a compra de votos. Tudo isso arranha o ideal democrático porque todos os votos nivelados por baixo têm o mesmo peso. Assim, numa democracia todos contribuem voluntária ou involuntariamente para as distorções que maculam o regime. E o resultado desastroso também atinge todos. A má escolha contribui para os desmandos administrativos, privando o povo das melhorias que seriam possíveis contando com  os recursos orçamentários existentes. Não obstante, convenhamos, a Democracia ainda continua sendo o melhor dentre os regimes políticos conhecidos. Por isso apesar das dificuldades é imperioso que nos empenhemos em defesa do rigor das práticas democráticas. É perceptível a deformação produzida pelo Capitalismo corrompido por comportamentos aéticos. Pode-se mesmo dizer que os problemas cruciais da sociedade humana, hoje, decorrem do fato de estarmos vivendo num mundo dominado por uma economia caracterizada pela competição desenfreada e pelo acúmulo de riqueza nas mãos de uma minoria. Essa realidade que não se esconde à análise socioeconômica mais elementar gera uma herança perversa que ameaça as expectativas menos pessimistas para a humanidade, neste começo de milênio. As nações estão divididas entre as ricas, as pobres e muito pobres. As primeiras explorando desumanamente estas últimas, mas todas elas ricas e pobres deformadas pela ambição individual e de corporações privadas. Essa orientação direciona mal a elaboração e execução dos precários orçamentos dos países pobres e impede o investimento nas ações desenvolvimentistas de que carecem. Suas populações, salvo um reduzido número de privilegiados da fortuna são mal alimentadas, sem educação e sem assistência à saúde.  Um clima perfeito para as distorções do processo democrático responsáveis pela manutenção no poder dos profissionais da política mais interessados em engordar as próprias contas bancárias do que em promover políticas públicas benéficas para o povo. Estas distorções  perpetuam um ciclo vicioso de miséria física e moral. A má distribuição do bem comum nos contextos nacional e internacional resulta em boa parte das mazelas da economia capitalista comandada pelo livre mercado frequentemente aético. E reflete-se nos desníveis econômicos caracterizados por classes sociais de alta renda e de baixa ou nenhuma renda (os miseráveis). As consequências político sociais extremas dessa ordem econômica perversa influem de modo importante no desencadeamento da  violência urbana e do terrorismo internacional. Quando os oprimidos chegam ao limite de sua resistência perdem os controles conscientes e apelam para as soluções irracionais. O cidadão esclarecido vê tudo isso e pouco, ou quase nada pode fazer individualmente para reverter o processo cuja inércia só poderá ser contida por uma força social capaz de induzir os líderes mundiais e locais a reavaliar a política econômica nos níveis internacional e nacional, de tal forma que todos os povos de grandes e pequenas nações possam eliminar a pobreza e promover o desenvolvimento humano. A expectativa dessa reviravolta para melhor inclui, obviamente, a reordenação construtiva das iniciativas responsáveis dos países ricos e pobres, tendo em vista prioritariamente o desenvolvimento humano paralelo à organização de uma sociedade solidária, e não apenas o crescimento econômico. Essa reavaliação seria a base de um esforço gigantesco para a edificação da comunidade humana. Pode-se imaginar a grandiosidade dessa revolução socioeconômica. Mas, embora possa parecer bombástica a afirmação que se segue, sem esta revolução a humanidade estará ameaçada de retornar à barbárie. O desalento do observador atento vem com a constatação de que são bem mais numerosos os descomprometidos com o processo de construção da comunidade humana, por alienação ou falta de caráter. Mergulhado nessa realidade hostil o verdadeiro humanista sente-se um inocente útil aviltado pelas tramoias políticas, sociais e econômicas, carente do poder de fogo para combatê-las.
Sem dramatizar, é preciso reconhecer a dificuldade de alcançar resultados mais consistentes e mais rápidos na construção da comunidade humana através dos meios democráticos sordidamente viciados pelos exploradores da massa ignara. Nas circunstâncias atuais, a intolerância, a mentira e as cavilações são largamente praticadas nos meios sociais, político e econômico, obstruindo os canais da organização democrática da sociedade. Os cidadãos íntegros ciosos da responsabilidade social são boicotados nas suas iniciativas pelo embuste dos políticos e empresários corrompidos, e pela ignorância alienante de uma grande maioria dos que fazem a sociedade dita “organizada”.   As denuncias contra a incompetência, a politicagem e o descompromisso com a coisa pública são sepultadas pela avalanche de mentiras com que os militantes espertalhões ludibriam o povão. Todavia sei que não são poucos os que, sem condições de implementar ações socialmente construtivas fazem uma militância de atitude para manter aceso o ideal de competência, verdade e justiça no trato da coisa pública. Por isso alimento a certeza de que ainda contamos com boa reserva moral entre os cidadãos do mundo inteiro à espera, quiçá, de uma liderança política que os aglutine e de uma oportunidade efetiva de intervenção no processo social e econômico. Confio em que as mentiras, os acordos cavilosos, a corrupção um dia se envenenarão com a própria peçonha. Então, a verdade há de prevalecer, libertando a consciência responsável para exercer o seu papel na construção de um mundo novo e melhor. Quando? Não sei. Mas é preciso que cultivemos o amor à verdade e à justiça, enquanto  os vândalos da ética sócio-política e econômica estão à solta espalhando imposturas. Corro o risco de parecer ingênuo, mas alimento a expectativa de que se  não for possível mudar, já, esse processo político e socioeconômico despudorado que nos sufoca hoje, os que se mantiveram fiéis aos ideais de verdade e de justiça hão de multiplicarem-se para constituir um grupo numeroso capaz de garantir a vitória da verdade sobre a mentira, do bem sobre o mal.

Everaldo Lopes

terça-feira, 13 de maio de 2014

Da revolta à aceitação

            O ser humano é problemático. A razão e o sentimento nem  sempre estão de braços dados.  Quando há conflito, as demandas afetivas confrontam as normas éticas estabelecidas. E este confronto é fonte de inquietação. A recusa do sujeito consciente a uma proposta afetiva é opção difícil, por vezes sofrida. De  um lado ele sente que satisfazendo o coração aliviaria o fardo da sua existência; do outro sabe que o desrespeito aos valores éticos assumidos compromete a dignidade pessoal. A resposta existencial harmoniosa que atenda ao sentimento sem romper com as normas éticas depende da sensibilidade e criatividade pessoais para flexibilizar o comportamento de forma a satisfazer o sentimento com dignidade.  O caráter do indivíduo é decisivo na escolha da forma de realizar o desejo imediato de ser feliz comum a todos os homens. A escolha fundamentada em princípios puramente éticos, nem sempre corresponde a uma vivência de felicidade. A prática ética sem amor é insípida. O prêmio de consolação do comportamento ético condicionado à simples determinação da vontade é o sentimento do dever cumprido que  não  preenche todos os anseios existenciais. Todavia, agir responsavelmente sob a égide de princípios morais culturalmente sedimentados é o que se espera de todos os homens. Sem a prática responsável dos indivíduos não haveria civilização. Felizmente “.... a virtude não precisa ser triste.[1]” O amor essencialmente responsável excede a ética convencional e é fonte de alegria inesgotável; sua prática representa o mais alto nível de realização humana. Entendido como sentimento que predispõe alguém a desejar o bem de outrem fundamenta a grande máxima ética de Santo Agostinho: “Ama e faze o que quiseres”. O amor reforça os laços universais de solidariedade entre os homens, mesmo quando fere hábitos e costumes já estabelecidos. Na verdade o amor constitui um salto evolutivo revolucionário confiado ao exercício da liberdade inerente à condição humana.
A ordem universal que assegura o processo evolutivo, e a  emergência da liberdade no homem sugerem  um absoluto  que se manifesta pela comunhão incorruptível (amor) entre o ser consciente e seu alter ego transcendental (Intuição divina). Nesse contexto, Deus não seria um ser supremo isolado do mundo, mas um Dinamismo Absoluto Eternamente Criativo que perpassa todo Universo e se revela ostensivamente no vir a ser humano. O assentimento a este dinamismo transcendental que dá suporte e estrutura à própria existência traz como resultado o reconhecimento do nível ético religioso de existência[2].  Concordância que confere uma base filosófica para a postura mística consentânea com a dimensão transcendental do homem. Todas essas considerações nos remetem ao todo absoluto no qual estamos contextualizados.
O envelhecimento a doença e a morte são eventos naturais do ciclo da vida, mas constituem um desafio para o equilíbrio existencial[3]. O ser consciente transcende o puramente biológico e pensa nesses eventos antecipadamente como um risco iminente. Isso incomoda, e é preciso uma ascese bem sucedida para que o eu pensante possa imaginar esses desdobramentos da vida pessoal sem medo ou constrangimento. É ingênuo lamentar as restrições pessoais e circunstanciais que fazem parte da vida. Para o ser consciente objetivamente centrado na realidade é fundamental aceitar a inevitabilidade do envelhecimento, da doença e da morte. Para consumar, porém, esta aceitação pressupõe-se um fenômeno biopsíquico complexo difícil de definir para o qual contribuímos  conscientemente apenas com a determinação de não interrompê-lo por medo de enfrentar a realidade. A verdade é que no cadinho da subjetividade vão-se misturando experiências, conceitos, emoções e sentimentos variados inclusive a relutância em abraçar a finitude. De repente como resultado de um processo que não está sob o controle da consciência, a vivência de revolta cede lugar à disposição para aceitação mais tranquila dos limites biológicos. O beneficiário desse processo percebe, então, o despertar de uma vivência de serenidade na sua existência desamparada. Talvez haja flutuações dessa vivência daí por diante, como costuma acontecer com os fenômenos psicodinâmicos. Mas, então, já é possível lidar com o pior sem desabar. Depreende-se de tudo isso que a verdade última é uma verdade de fé, porém é mais razoável do que qualquer argumento apresentado pela razão. Levantar a questão dos limites existenciais e discuti-la sem reservas é o primeiro passo a caminho da maturidade intelectual e afetiva. O que se segue é uma transformação interior cuja paternidade não se pode ter a veleidade de assumir como iniciativa individual consciente independente de uma intervenção determinante que escapa à observação. Por isso muitos pensam dever-se esta transformação a uma graça divina que entremostra de forma obscura a unidade do Universo e da consciência na intimidade dinâmica da lógica complexa da realidade!
Racionalmente, viver confrontando a finitude é uma insensatez. Sem abraçar a transitoriedade da vida a existência vira um lixo. É estulto esperar com ansiedade o que vai acontecer se nada se pode fazer para evita-lo!  Todavia é difícil anular a angústia existencial do homem diante da fugacidade dos seus dias, antes que ocorra a transformação interior já mencionada. A persistência do desejo infantil de ser invulnerável explica porque o indivíduo se amofina ao vivenciar sua realidade finita. A superação desse conflito deve evoluir na medida em que as pessoas vão realizando de forma positiva seu movimento subjetivo de amadurecimento. Da revolta contra os limites da existência, à aceitação da finitude cada um tem sua forma peculiar de lidar com os próprios dons na conquista de uma vivência de serenidade!
Everaldo Lopes.



[1] Raul de Leoni . Último verso do segundo terceto do soneto intitulado “Cristianismo”.
[2] Kierkegaard propôs como  níveis de existência –o  estético, o ético e o ético religioso.
[3] Existência: Modo de ser peculiar do homem consciente,,reflexivo, livre e responsável.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Eu - individualidade metafísica da pessoa

Nome, idade, sexo, cor, filiação, estado civil, profissão, nº do Registro Geral (RG), nº do Cadastro de Pessoa Física (CPF), nacionalidade, residência habitualmente bastam para a identificação formal de uma pessoa. Mas, na verdade, tudo isso são apenas registros que revelam o status, a ascendência, a profissão e os números pelos quais um indivíduo é reconhecido na coletividade. Esses dados são suficientes para caracterizar alguém como um membro da sociedade organizada. Mas não respondem à pergunta que, eventualmente, este alguém poderia se fazer: “Que sou eu?”. Neste texto quero deter-me na tentativa de compreender a natureza do núcleo ontológico do “eu”, o centro psíquico ao qual se referem todos os nossos pensamentos, desejos e ações. O que é esse centro dinâmico que cada um procura numa introspecção profunda e não descobre como entidade descritível, mas experimenta como vivência indiscutível? Revela-se como a consciência silenciosa e sem forma que antecede todo e qualquer pensamento, sentimento ou ato voluntário. O núcleo mais radical do ser consciente é portanto uma realidade abstrata que se impõe ao reconhecimento pela consciência que todo homem tem do si mesmo. Nessa reflexão o homem se identifica com a capacidade de pensar, escolher, curtir sentimentos, e querer. Sem descer a especulações metafísicas, para uma maioria expressiva dos homens esse núcleo original é a alma imortal.
Quando o sujeito consciente se sente objeto de sua própria observação percebe a fragilidade biológica amarrada à fatalidade da velhice e da morte. Mas como uma pessoa com aptidões[1] que transcendem os determinismos puramente biológicos compreende, ao mesmo tempo, que não se explicaria apenas biologicamente. E por sua consciência reflexiva o homem se torna problemático. Sente necessidade de saber qual é sua realidade mais profunda, e o que por seu caráter consciente representa no contexto evolucionário do Universo. O pensador reconhece a dificuldade de explicitar a individualidade metafísica da sua pessoa, mas ao dizer meu corpo, meu pensamento, meu sentimento denuncia um sujeito transcendental consciente (“eu”) desses atributos. Nesse movimento de reflexão inextrincável da sua relação com o mundo, o ser consciente define uma linguagem, elege valores e desenha uma missão que eticamente se propõe a assumir. Linguagem, valores e missão que ganham força mediante o grau do compromisso de coerência pessoal do vir a ser de cada um no contexto de sua circunstância. Dessa forma o homem elabora um esquema de comportamento que passa a ser o invólucro do núcleo ontológico invisível do seu ser no mundo. Esse involtório comportamental passa a constituir a interface entre o núcleo ontológico do “eu” e o mundo. A personalidade resultante deste processo de interação interfacial é a essência do homem como um ser de cultura.
A Ciência não consegue explicar os dotes humanos transcendentais que, aparentemente, ultrapassam as funções biológicas e até exercem certo poder sobre elas. Isso nos deixa à mercê de especulações filosóficas e da crença em determinados a priori sobre os quais construímos teorias com estrutura lógica coerente, mas que não podem ser objetivamente comprovadas.
A tentativa de abordagem racional do núcleo ontológico de cada um de nós mesmos é uma experiência no mínimo, confusa. Não identificamos a natureza desse núcleo, mas sabemos que ele existe como um vazio a ser preenchido mediante integração do vir a ser consciente num absoluto significativo. Com essa expectativa a memória vai costurando as experiências sucessivas do vir a ser pessoal, na tentativa de construir com o devir humano algo que faça sentido, uma história com começo, meio e fim. O homem procura consolidar essa orientação reverenciando a verdade, com a disposição de respeitar a coerência ética das suas relações com os outros e com o mundo. Então, com a razão, os sentimentos e a disposição voluntária de preservar a congruência existencial o homem constrói um chão subjetivo, lastro moral sobre o qual se apoia e cuja solidez vale o quanto nele deposita de confiança, sem qualquer garantia.
O ponto cego da subjetividade é o próprio “eu”. Nele se projeta a sombra de uma transcendência com a qual o “eu” se identifica, sinalizando que sua verdadeira natureza é transtemporal. A razão se surpreende com a descoberta de que a verdade última da individualidade metafísica do “eu” requer fé, e depois fica feliz ao descobrir que esta fé é o mais racional dos argumentos que a razão possa propor. Não há certezas absolutas, mas o ser consciente estabelece os limites da sua própria certeza, avalizando-a enquanto nela se consuma. Essa verdade é que preenche o vazio original do ser consciente, sustentando-se num pressuposto assumido pela fé, ao arrepio de qualquer evidência. Essa conjectura, assumida como verdade é o “porquê” pelo qual “suportamos qualquer como”[2], ou seja, aquilo que imprime um sentido à existência. Sem outra garantia senão a do aval pessoal, este “porquê” tem o peso que lhe confere a própria pessoa num esforço coerente, inteligente de integração da sua realidade num absoluto significativo. Esse é o caráter profundo da fé. A criação de algo que se projeta na realidade contingente, transitória, conferindo sentido a tudo. Mais uma vez relembro Unamuno quando diz: “Ter fé não é crer no que não se vê, mas criar o que não se vê”.
Felizes são aqueles que têm a força interior necessária para aderir ao seu “porquê” transcendental, razão de ser inspiradora em cuja defesa estão dispostos a morrer. A meio caminho dessa aspiração espiritual estão os ideólogos sociais que dispõem apenas de um “porquê” temporal, posto que se consuma e se extingue na sua própria atualização histórica.
Teoricamente, o núcleo metafísico do “eu” está na fronteira entre o tempo e a eternidade, entre a matéria e o espírito.
Everaldo Lopes



[1] Inteligência lógico-matemática, criatividade, sensibilidade afetiva, consciência reflexiva, capacidade de escolher utilizando critérios de valor.
[2]Nietsche – “Aquele que tem um porquê para viver pode suportar quase qualquer como”

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Viver por viver

         Viver por viver não preenche o verdadeiro sentido evolutivo da vida consciente reflexiva. Para cumprir fielmente seu objetivo no contexto evolucionário o homem precisa refletir a fim de definir-se através de escolhas e decisões responsáveis, socialmente coerentes. Esse não é o comportamento das pessoas que não atinam ou não assumem o compromisso de honrar a sua condição humana[1]. Todavia todos desejam viver mais! Nas Unidades de Tratamento Intensivo (UTIs) do mundo inteiro um enorme esforço é feito diuturnamente,  no sentido de salvar vidas que estão por um fio. Diante da ameaça de um fim próximo os doentes graves, agarram-se à ajuda médica e até a tratamentos milagrosos com a esperança de vencer a parca impiedosa. A ordem do dia é: viver, viver mais. Reconhecemos ser louvável o esforço despendido para prolongar a vida; essa é a missão do médico. Mas o efetivo exercício livre e responsável da consciência reflexiva é o que torna a vida humana digna de ser vivida. E essa prática é da alçada de cada um mediante o bom uso das funções psíquicas superiores (racionalidade, afetividade e vontade) tendo em vista a realização de ideais nobres. No seu vir a ser o homem protagoniza a luta íntima entre suas tendências egoístas excludentes e a prática solidária indispensável à sobrevivência da espécie. Cada um tem que dar uma resposta pessoal a esse conflito. E a coerência ética das relações do indivíduo consigo mesmo e com os outros é a medida de sua envergadura moral.
Lancemos um olhar inquiridor sobre os antecedentes e o porvir dos que estão sendo salvos nos centros de terapia intensiva. Entre os pacientes graves que ocupam os leitos das Unidades de Tratamento Intensivo (UTIs) a maioria das patologias é produzida pelos desregramentos que suas vítimas consciente ou inconscientemente praticaram por longo tempo, empenhados na conquista de objetivos materiais. O enfartado é um executivo que viveu o tempo todo correndo atrás de maior produtividade, numa atividade lucrativa. Ou um bon vivant disposto a jogar todas as fichas para fruir o prazer que se lhe oferece cada momento. São legiões de indivíduos que desafiaram os limites do próprio corpo para satisfazer suas ambições imediatistas e acabaram sofrendo as consequências.  Nessa insensatez dissiparam as próprias vidas. Tornaram-se vítimas de desordens biológicas que ao longo do tempo evoluíram para moléstias renais crônicas, cirrose hepática, doença coronariana, apoplexia cerebral entre outros estados patológicos graves. Estressados, afanaram-se na tentativa ambiciosa de conquistar alvos fugazes, descuidando a saúde do corpo. Agora, doentes, são obrigados a abandonar suas ambições, já não lhes restam oportunidades de realizá-las, mas continuam sedentos de mais vida. Todavia a experiência mostra que quase todos voltarão para suas rotinas morbígenas se conseguirem sobreviver à doença atual. Poucos terão aprendido a lição. A equipe médica nas unidades de tratamento intensivo não sabe  o que o paciente aos seus cuidados cuja vida está por um fio fará da sua existência se escapar da morte iminente. Não importa, é preciso salvar sua vida ameaçada. Todos querem  viver mais, porém muitos salvos da morte pelos cuidados médicos recebidos não saberão o que fazer dos anos de vida que estão por vir.
Alguém já disse que o verdadeiro desafio de ser homem é caminhar para a morte, lutando pela vida... E eu até concordo com essa visão numa perspectiva de vida apaixonada pela busca heroica de solução harmoniosa para as contradições existenciais. Nessa perspectiva é contraditório assimilar, sem protesto, a monótona repetição dos “mesmos sem roteiros tristes périplos”[2] em que se torna a vida de muitos de nós presos a propostas existenciais egoísticas imediatistas que se esgotam nelas mesmas. Para superar a monotonia da ganância dos bens e prazeres materiais que amesquinham as possibilidades existenciais, o homem precisa alimentar a esperança de uma realização superior, decidido a alcançá-la com talento e determinação. Isso implica no envolvimento com uma causa nobre, associado a um ideal estético, intelectual  e ético-social.  Sem uma proposta existencial criativa coerente com os elevados ideais de verdade e justiça, o homem fica à mercê de uma postura magnetizada pela vontade de viver por viver! Seguramente, conquistar a plenitude pessoal é o objetivo da existência; porém dadas as limitações humanas, a realização a que aspira a maioria das pessoas se confunde com sucessos imediatos voltados para o “ter mais” e não para o “ser mais”. Por falta de crítica sadia, e determinação para realizar os ideais superiores, os erros de ontem se repetem indefinidamente. É preciso carregar a chama divina que ilumina os que cultivam o desejo de ser mais,  a fim de alcançar a verdadeira plenitude do ser consciente. Para dignificar a condição humana é preciso ousar o impossível, tentar  sem desfalecimentos a realização de um ideal nobre. Só os que assim procedem conseguem superar as dificuldades existenciais, alimentando no mais íntimo do ser, o sentimento de respeito a si mesmos, aos outros e à natureza.
Afinal, o que será a vida sem uma paixão transcendental? O que não está claro, para muitos, é que esta paixão conduz à paz da vida comunitária, fundamento supremo da verdadeira alegria de viver! Não obstante, uma força insistente leva o homem a agarrar-se à vida pela vida mesma, na expectativa de algumas migalhas de prazer e felicidade passageira. Esse é o desfecho quando falta ao homem a disposição e a coragem de ser coerente com o ideal solidário,  recriando-se e assumindo a responsabilidade das escolhas que faz. Ele não se dá conta de que a falta da realização existencial superior é a origem da angústia humana, dor muda que fustiga as entranhas da existência. Contra ela é necessário opor a “força interior” que se manifesta num comportamento clarividente, compassivo, determinado a encontrar solução para as contradições do vir a ser humano. Nesse sentido nenhuma proposta supera o exercício do amor que move a vontade à busca do bem de outrem[3]. Na verdade, a prática caridosa  é necessária para realizar o sonho de construir uma comunidade solidária, onde os problemas existenciais partilhados em perfeita cooperação se resolveriam numa epopéia de paz e serenidade, aqui mesmo na Terra.
Para o homem não basta viver mais; é preciso viver dignificando a condição humana.        

  Everaldo Lopes



[1] Ser consciente, livre e responsável
[2] Do poema de Carlos Drumond de Andrade – “A máquina do mundo”
[3] Caridade no vocabulário cristão.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Desafios da pós-modernidade

Vemos  hoje mudanças no comportamento das pessoas, que  refletem o ritmo acelerado das conquistas científicas e tecnológicas havidas nos últimos sessenta anos. Para se ter uma ideia do que isso significa, basta fazer uma conta elementar.  O homem habita o mundo há  mais ou menos 40.000 anos,  e nas últimas seis décadas a ciência e a tecnologia progrediram mais do que nos 35.940 anos anteriores. Como é compreensível, as novas e abundantes descobertas da ciência,  e suas consequências práticas viabilizadas pela tecnologia, alteraram as rotinas estabelecidas até então. Alterações que ocasionaram mudanças nos campos da produção industrial, da educação, da política, das relações sociais e da própria dinâmica familiar.  Estas mudanças  estão aí, algumas já consumadas, outras, embrionárias, atropeladas pelos acontecimentos que se sucedem com uma rapidez estonteante. A humanidade nunca viveu situação igual. Ansioso diante das incertezas de um porvir incerto, chamado a dar solução a problemas inéditos o homem esclarecido se esforça para adaptar-se aos novos tempos, harmonizando as situações originadas pelas conquistas recentes com os Valores Universais[1] que   presidem a ética humanística. Mas sente-se no ar a perplexidade que o  torna refém da angústia e da ansiedade. Podemos dizer sem exagero que nessa pós-modernidade, sobre a qual poucos arriscam  falar  com alguma profundidade, está  fermentando a salvação ou condenação da espécie humana.  Alternativa cuja resolução dependerá da atuação desta e das próximas gerações, no que tange a forma de responder ao desafio  dos problemas sócio econômicos e ecológicos criados pelo próprio homem. Os estudiosos analisam as questões educacionais, sanitárias, urbanísticas, sociais,  econômicas e políticas, tentando entendê-las e dimensiona-las, para dar-lhes respostas adequadas. Todavia, precisamos estar conscientes de que as soluções que venham a ser propostas só se tornarão efetivas se forem praticadas por cada um dos cidadãos, principalmente por aqueles que fazem as instituições e organizações sociais de caráter público ou privado.
O crescimento irregular das coletividades humanas deu lugar à existência, hoje, de enormes desigualdades. Dois terços da humanidade vivem num nível de pobreza que lhes inviabiliza alimentação suficiente, saúde, habitação e educação adequadas. Estão nessa situação, aproximadamente, 2 bilhões e 400 milhões de seres humanos que habitam os países  subdesenvolvidos. Nesse contexto, é desolador o quadro sanitário e educacional. Urgem mudanças socioeconômicas e politicas justas e efetivas envolvendo todas as nações do planeta para que um número cada vez maior de pessoas em todos os continentes tenha acesso a habitação, saúde e educação de qualidade. Todavia, toda atividade humana está necessariamente contextualizada em modelos culturais. É preciso, portanto, quebrar a inércia dos erros sedimentados durante séculos, por políticas econômicas desastrosas para a harmonia social, com repercussão nefasta sobre cada indivíduo. Empreendimento gigantesco, que não depende apenas de novas propostas sociais, políticas e econômicas,  mas, sobretudo, da cooperação de todos na prática dos valores que dão suporte a uma verdadeira comunidade: o amor à verdade, a solidariedade, o autoconhecimento e a autodisciplina.  Sobre estes valores é que se edifica a verdadeira cidadania esclarecida, apoio indispensável à democracia sustentável. Em face da magnitude desse ideal comecemos pondo em ordem o nosso próprio quintal. Refiro-me a esse “mundinho” caracterizado por eleitores vítimas de carência alimentar e cultural, que acabam sendo induzidos a votar por benesses, enquanto os mais bem informados ficam sem escolha pela má qualidade dos candidatos que  se propõem preencher funções vitais para a nação nos poderes executivo e legislativo.  Por conta de tais distorções, o governo do povo e para o povo, acaba sendo o governo dos espertalhões contra o povo.
Vamos pensar um pouco. Que futuro estamos construindo? O que podemos esperar de uma sociedade feita por indivíduos empenhados em competir (geralmente de forma aética) e em acumular? Aonde nos levarão esses paradigmas político-sociais e econômicos cuja prática aumenta cada vez mais o número de pessoas excluídas dos bens essenciais? Como ignorar a importância da exclusão resultante, na escalada da violência urbana? Aonde levarão a humanidade os Governos que fazem guerra para manter a hegemonia econômica dos seus países, no âmbito internacional? Com esse comportamento excludente estamos promovendo a escandalosa disparidade que vemos hoje entre as classes sociais, e até entre países, em termos de saúde, educação e bem estar familiar. Assusta perceber a impotência de cada um de nós, isoladamente, para resolver os problemas que ameaçam a humanidade.
O raciocínio mais elementar põe em evidência que só promovendo a inclusão social  haverá salvação para a humanidade. Um desfecho que não ocorrerá se os homens não forem capazes de exercitar a cooperação e a partilha como paradigmas do comportamento econômico-social, o oposto do que se faz hoje.    Impõe-se fomentar uma economia solidária, algo bem diferente da atividade econômica do  mundo capitalista cuja força propulsora é o ânimo guloso dos indivíduos de competir e acumular. Não há uma fórmula fácil para que as mudanças necessárias aconteçam. Todavia, nada vai mudar se cada um de nós não fizer a sua parte, criteriosamente, neste processo evolutivo gigantesco no qual estamos incluídos e pelo qual somos corresponsáveis na medida em que dotados de livre arbítrio podemos influir no rumo da própria Evolução. Mas, como induzir as pessoas a assumirem a responsabilidade de que são investidas ao fazerem suas escolhas? Que estratégia pedagógica deverá polarizar a ação dos ativistas de um programa social que vise fomentar a solidariedade universal? O bom senso mostra que não há outra forma de alcançar esse propósito senão apelando para o exercício esclarecido e criativo da consciência livre e responsável de cada um. O grande obstáculo é a sedução da estrada larga do egoísmo negligente (des)comprometido com os valores sociais e com o “bem comum”. São bem mais íngremes as trilhas que o homem deverá palmilhar para cumprir seu papel no processo evolutivo.
Só por um golpe de sorte as famílias famintas e desabrigadas, vivendo em condições precaríssimas conseguem passar para seus filhos os valores que ajudarão a preserva-los da marginalidade social. Todavia, os que analisam a questão friamente estão convencidos de que as sequelas sociais do Capitalismo não dependem apenas da teoria intrinsecamente cruel que lhe dá suporte, porém muito, também, da forma mesquinha como ela é posta em prática. Só para exemplificar. O salário mínimo é o piso inferior estabelecido por lei, para a remuneração do trabalhador, mas é uma obrigação ética do patrão remunera-lo melhor quando puder fazê-lo. Não obstante, para salvaguardar o lucro financeiro  o empregador ignora o julgamento moral que faz justiça ao trabalhador! Diante dessa realidade inaceitável ninguém se justificará pela alegação da pureza de suas intenções  se não for capaz de transformá-las em ações práticas, compatíveis com os  princípios humanísticos defendidos. Pregar justiça sem a prática social e econômica correspondente é dar testemunho de profunda incoerência. É fundamental estar consciente de que as distorções do sistema político e da orientação macroeconômica importam muito, mas o que define o rumo da História são as decisões pessoais. A análise criteriosa dos problemas humanos sociais torna evidente a imprescindível colaboração para o bem comum de todos os membros válidos da comunidade humana. E há muitas formas de desservi-lo (o bem comum). Entre outros  elementos que prejudicam o patrimônio coletivo alinham-se o comportamento de executivos e legisladores incompetentes e corruptos, a exploração dos assalariados por empresários gananciosos, a mediocridade e incompetência dos prestadores de serviço no desempenho dos seus misteres, o descompromisso dos docentes com o processo do ensino aprendizagem, o desperdício das oportunidades educativas pelos discentes que, ainda jovens, cedem ao apelo da fraude (cola) e não se empenham em aprender. Esses deslizes comportamentais prolongam indefinidamente um processo histórico de desagregação social. Urge revertê-lo confiando no desenvolvimento das potencialidades do homem, proporcionando-lhe oportunidade para educar-se e trabalhar. Esse é o desafio que se põe diante de todos os cidadãos.
O desenvolvimento deve ser centrado no homem e não no capital. O ingrediente principal desse desenvolvimento é o trabalho sério e construtivo, embasado na determinação de produzir riquezas em benefício do bem comum e não, apenas, para o conforto de uns poucos. Isto implica em que cada um desempenhe com proficiência o papel que detém no seio da coletividade... que aprenda a controlar os interesses pessoais supérfluos... que assuma a responsabilidade de construir sua existência à luz da consciência crítica de estar com os outros no mundo. A inclusão de todos os homens livres nesse mutirão será a resposta redentora ao desafio ao qual nos expõem os graves problemas que ameaçam a sobrevivência da humanidade. Isso não é uma utopia como pensam muitos. Mas exige de cada um a prática responsável e criativa do livre arbítrio,  o que implica em esforço pessoal dirigido e sustentado.  A Evolução já passou por dificuldades aparentemente impossíveis de superar! E venceu! As dificuldades atuais são mais complexas, porém, as virtudes extraordinárias do ser humano nos levam a acreditar que nem tudo está perdido enquanto não desistirmos de lutar.
Everaldo Lopes Ferreira





[1] Dignidade, Justiça, Respeito mútuo, Solidariedade, Diálogo e Corresponsabilidade.

sábado, 15 de março de 2014

Um aprendizado longo e difícil

                 A experiência de envelhecer põe o homem diante de vivências peculiares e ensina saberes valiosos. Sacar o conhecimento e a sabedoria que os anos vividos podem ensinar custa prolongado esforço crítico e criativo. Não basta viver décadas. Cabe a cada um usar os talentos individuais nas suas relações intrapessoais e interpessoais, buscando a elaboração inteligente e criativa de soluções congruentes para o vir a ser individual, tumultuado pelas  mudanças físicas e psíquicas do envelhecimento que afetam a autoestima. O sucesso desse empreendimento é fundamental para assegurar a paz e amor-próprio dos que alcançam a terceira idade. Ao lidar com essas mudanças, o óbvio se torna contundente. O perfil físico do idoso não é atraente, comparado com o do jovem. O velho tem consciência disso e constrange-se por sua imagem haver perdido o poder de sedução. Desde a meia idade as pessoas se esforçam para esconder os sinais do tempo, lutando no seu íntimo para aceita-los como realidade indisfarçável. Todavia sabem que é preciso conquistar a leniência psíquica necessária a fim de conviver com as marcas impressas no seu semblante e as perdas impostas pela idade avançada, sem mergulhar em desespero ou comportamentos depressivos.  Diante do inevitável, em princípio, só a impassibilidade estoica dá suporte moral ao idoso para assimilar suas perdas com dignidade, sem apelar para evasões fantasiosas da realidade. Justificado por especulações filosóficas ou mediante um ato de fé os idosos esclarecidos e os menos cultos buscam assegurar-se a expectativa de que tudo se resolverá na unidade harmônica do espírito absoluto. Nessa expectativa encontram um lenitivo para os momentos de sofrimento existencial incontornável. Igualmente, é salutar ter a convicção de haver bem aproveitado os dons pessoais na condução da própria existência.
                 Diante dos impactos do envelhecimento, o idoso precisa esforçar-se para não perder a espontaneidade na manifestação da sua afetividade. Mas deve ser prudente, respeitando com verdadeira humildade, sem depreciar-se, o nível de aceitação de sua presença pelos outros, principalmente os mais jovens. Por mais que se esforcem, jovens e idosos têm certa dificuldade de sustentar uma parceria espontânea, ainda que se estimem. O idoso sábio compreende-os. Nos subterrâneos da consciência, sem  confessarem a si mesmos seus temores, os jovens veem  no idoso o seu amanhã e não conseguem anular a fonte inconsciente da repulsa contida  ao destino que os espera, simbolizado na figura humana fisicamente desfeita pelo tempo. Esta comoção pode resultar numa manifestação consciente de carinho dos jovens por seus idosos queridos. Mas, a análise psicodinâmica do comportamento destes jovens evidencia, ao mesmo tempo, componentes inconscientes inerentes ao medo de perde-los (os idosos queridos),  e repulsa à lembrança da fugacidade da própria juventude, despertada pela velhice dos que lhe estão próximos. Enquanto isso o idoso lúcido se esforça por  fazer  “a sagrada penitência de fechar-se num silencio superior”[1], sem transformar a própria  decadência física num espetáculo deprimente para os que presumem, ou assistiram “ao  esplendor da sua juventude”[2].
                 O velho sente necessidade de desenvolver especial habilidade na defesa do seu espaço de liberdade. Sabe que na avaliação subjetiva dos mais jovens é  inevitável a presunção do déficit físico e mental que, com variações individuais, realmente acompanha o envelhecer. E tem consciência de que o excesso de zelo momentâneo dos circunstantes mais jovens (sem negar-lhes o carinho demonstrado), pode ser uma forma inconsciente de enfatizar a juventude que ostentam no momento, o que os faz esquecer, por instantes a própria fragilidade. Compreendendo este determinismo psíquico afetivo, o idoso sábio recebe com bonomia esclarecida o cuidado dos seus descendentes e circunstantes, demonstrando, discretamente, depositar neles sua confiança. Mas não se perde em falsas expectativas de convivência mais íntima, salvo casos especialíssimos. Até torce para que o jovem saiba dosar o vínculo afetivo com o idoso querido para que não sofra à vista da sua decadência física, prenúncio do fim ao qual ninguém escapa. Não obstante a inevitabilidade desse desfecho, o idoso precisa adotar profilaticamente comportamentos preventivos. Por exemplo, evitar o sedentarismo, e inventar, cada dia, um objetivo de curto prazo integrado num projeto que satisfaça sua necessidade de transcender. Um hobby que o absorva intelectual e emocionalmente, e estimule sua capacidade criativa. Seja uma atividade manual, espiritual ou social. Por outro lado deverá encontrar uma maneira de fugir do sedentarismo, respeitando as limitações físicas da idade, mas evitando a todo custo a inatividade prolongada. Por outro lado, no convívio social o idoso deve precaver-se para não falar com tristeza ou revolta sobre as restrições que a idade lhe impõe, cuidando, porém, de não se expor ao ridículo de superestimar seus possíveis dotes físicos ou espirituais. É mister que reconheça as limitações inerentes à idade, sem afetação e sem perder a autoconfiança. E, ao mesmo tempo, é necessário estar consciente de que pode desenvolver contatos compensadores numa intimidade física ou psíquica prazerosa. Nesse ponto, pesa muito ter uma/um companheira/o com a/o qual possa estabelecer convívio gratificante.
                 Ao descermos às profundezas de nós mesmos, todos temos “surpresas infelizes”[3]. O avanço nos anos pode ajudar a desenvolver tolerância crítica e aceitação das fraquezas humanas que a todos nos afetam.  Mas esta conquista demanda um esforço sustentado para vencer o inconformismo vaidoso no confronto objetivo com os defeitos pessoais, e humildade para reconhecê-los e vence-los. Nesse momento seria oportuno desenvolver uma postura Zen na qual se aprofundaria o autoconhecimento, ao tempo em que o sujeito consciente substituiria o rigor da racionalidade (que acentua os contrastes), pela percepção intuitiva de uma totalidade harmoniosa, significativa. Essa abordagem da realidade amplia as perspectivas existenciais, tem o amparo racional em especulações metafísicas, mas na prática só se torna eficaz num ato de fé. A incorporação da dimensão espiritual da qual todos participamos  é a base  da verdadeira solidariedade.
                 Diante do envelhecimento duas perguntas se impõem: a) Como oferecer ajuda real ao idoso diante de sua situação progressiva e irreversivelmente  deficitária?  b) É possível ao idoso ser feliz? À primeira indagação responderíamos com a proposta de falar ao idoso com franqueza e objetividade sobre a velhice e suas consequências inevitáveis, contando, obviamente com o equilíbrio da infraestrutura psíquica do interlocutor.  É oportuno sublinhar que o coroamento feliz do envelhecimento consiste na imersão espiritual no  amoroso desapego à vida. Este sentimento corresponde a uma postura de total compreensão e aceitação responsável da realidade provisória do vir a ser histórico, integrando o acontecer finito num contexto universal significativo. A verdade é libertadora, e é o antídoto para as decepções sofridas por alimentar ilusões. À segunda pergunta responderíamos com um palpite... O idoso consegue sim, manter pelo menos sua autoestima se for capaz de conquistar a compreensão dinâmica da existência, e a capacidade de ser compassivo consigo mesmo e com os outros. Esse background moral, afetivo e intelectual ajuda a manter a conformação face aos percalços inevitáveis da própria finitude. São tantos os itens a preencher que não dá para falar genericamente sobre a questão da sabedoria do envelhecimento. Aparentemente, os exemplos de sucesso total não são numerosos. Todavia não dispomos de estatísticas que demonstrem quantas pessoas revoltadas com o envelhecimento e com a inevitabilidade do próprio fim tiveram uma morte tranquila... Mas o que os idosos que não perderam a lucidez podem e devem fazer é impedirem-se de ser infelizes, mobilizando para combater o infortúnio a criatividade de que ainda forem capazes. É oportuno lembrar que a paz interior não abandona os idosos privilegiados com a experiência espiritual que se traduz na expectativa de uma vivência atemporal de plenitude pessoal.
                 É evidente a diferença circunstancial da forma como as pessoas lidam com a consciência dolorosa da finitude ao longo do tempo vivido. Quando jovem, o indivíduo conta o futuro em décadas; então, a expectativa de vida longa lhe é confortável. Hoje, quando conta o futuro em poucos anos, torna-se muito claro que antes viveu a ilusão do superdimensionamento de mera expectativa provisoriamente favorável. É que, enquanto jovem, tinha a seu favor a menor probabilidade de ser acometido por uma doença terminal, embora estivesse sujeito às patologias inesperadas, ou acidentes traumáticos fatais. Porém tanto antes como hoje o tempo não passa de um dado provisório e incerto. O futuro dilatado que conforta o jovem pode terminar num piscar de olhos.  A mesma imprevisibilidade está presente no agora do idoso. Da mesma forma de antanho, ele continua refém da incerteza total do vir a ser transitório. Mas agora, dispondo de um futuro menos longo, o idoso convive com a certeza de que o fim está mais próximo, embora permaneça a esperança de que a sorte ajude a esticar o limite da sua vida um pouco além do agora! Todavia o velho sente o peso dos anos e das perdas acompanhantes o que o torna mais sensível  ao mínimo sinal de descompasso do ritmo biológico. O menor sintoma parece anunciar o fim inevitável, vivência mais perturbadora para os hipocondríacos. Mais disciplinado, porém, o idoso realista busca concentrar energia moral para conviver com as ameaças que o assaltam, sejam reais ou ilusórias. Na melhor hipótese a experiência acumulada dá suporte intelectual e emocional para controlar a ansiedade associada à consciência da finitude inexorável. Obviamente, esta forma de reagir se enriquece quando é estruturada sobre a crença da participação pessoal na comunidade eterna de todas as consciências, que se consuma numa unidade absoluta (Deus). Não sei se seria possível ao ser consciente normal permanecer totalmente indiferente à morte pessoal. Mas, certamente, ajuda muito a crença que se corporifica na expectativa da possibilidade transtemporal de realização pessoal na mais perfeita harmonia, numa plenitude ilimitada da qual, mergulhados no tempo, não podemos ter sequer uma ideia aproximada.
                  Everaldo Lopes



[1]Sugestão de Raul de Leoni no soneto intitulado “pudor”.
[2] Idem
[3] Do soneto “Prudência”, de Raul de Leoni, 

domingo, 9 de março de 2014

A saga do homem perfeito

A perfectibilidade humana implica na disposição diligente de cada um, de respeitar-se a si mesmo, ao próximo e à natureza. Esse propósito se objetiva nas relações familiares, políticas, sociais e econômicas inspiradas na verdade e na justiça. E através de escolhas conscientes e responsáveis o indivíduo abre caminho para aprimorar o seu desempenho no processo de hominização[1]. Aprimoramento pessoal que pressupõe um compromisso ético indissociável do exercício da própria consciência reflexiva. Seguramente, a fidelidade a esse compromisso é a solução para todos os problemas que afligem a humanidade. Se analisarmos historicamente o processo psicossocial que antecede as mazelas da sociedade vamos deparar em algum ponto no passado com o descompromisso ético de uma pessoa ou grupo. Desobrigação que desestrutura a sociedade, a partir de comportamentos amorais potencializados pela difusão das práticas correspondentes.
A hominização começa com a interdição das pulsões instintivas e se continua no esforço pessoal para disciplinar o comportamento social de acordo com um projeto cultural humanístico voltado para os valores que dignificam a existência[2]. Obviamente, a humanização vai muito além da simples interdição de pulsões inconscientes. Interdição, todavia, indispensável uma vez que estas pulsões são essencialmente egoísticas (ignoram as interações sociais) e o processo de humanização se acompanha necessariamente da socialização dos indivíduos. Como foi sugerido inicialmente as virtudes éticas envolvem o respeito do indivíduo a si mesmo, aos semelhantes e à própria natureza. Este envolvimento se completa na prática solidária do amor-caridade[3]. Mas antes de alcançar essa perfeição o nível e o grau de participação social construtiva do homem  ficam na dependência da sensibilidade moral  dos indivíduos à dignidade dos outros, na contextualização da existência de cada um numa sociedade igualitária. A correção ética desta contextualização acaba induzindo soluções diferenciadas, moralmente corretas, para os problemas econômicos, políticos e ambientais.  Soluções que exigem discernimento e disciplina da vontade. No outro extremo, o desrespeito aos princípios éticos existenciais e sociais abre caminho para condutas marginais, e alimenta a corrupção que degrada profissionais autônomos, funcionários públicos, “políticos de carreira” e as instituições que os abrigam.
O resultado de uma avaliação especulativa do processo de humanização demonstra que o grande salto evolutivo consiste na integração comunitária da coletividade humana sob a égide dos valores éticos universais. Este salto evolutivo  resulta do exercício da consciência livre e responsavelmente assumida, não obstante os limites restritivos do ego.  Na verdade, paradoxalmente, na busca da realização pessoal o ego deverá ser superado. Daí podermos afirmar que o homem é um ser problemático. Expandindo o ego o homem permanecerá sempre limitado por seu caráter egoísta. Portanto, a paz social e a plena realização do homem exigem a ultrapassagem do ego que é apenas um momento subjetivo de referência, supervalorizado, na descrição de uma  rede de relações interpessoais. Para ultrapassá-lo é preciso que cada um vivencie algo muito íntimo anterior a este momento subjetivo. Proposta que leva o ser consciente a uma profunda meditação. Só para dar uma ideia do que estou querendo dizer transcrevo um pequeno texto da autoria de um pensador indiano: “Pense em si mesmo,  e uma imagem subtil  é formada no interior da mente. Você não é isto, nem nenhuma imagem ou pensamento. Você é a consciência silenciosa e sem forma, dentro da qual inúmeras impressões aparecem e desaparecem  sem deixar rasto.” Mooji.[4]  Esta “consciência silenciosa e sem forma” precede o “ego”, e é lá que o indivíduo identifica o sentimento difuso da unidade  do seu self[5]. Mas deixemos o aprofundamento dessa questão para depois.
Voltemos à discussão fenomenológica sobre a perfectibilidade humana. Freud deu o nome de libido à energia psíquica dos instintos de vida. Esta força psíquica implementa no homem a sequência de pensamentos e atos que configuram o comportamento individual espontâneo nas várias conjunturas psicossociais. A libido, como uma força da natureza é em si mesma acrítica, não tem compromisso com  valores éticos. A virtude pedagogicamente definida consiste em  reconhecer a libido, disciplinando lhe o dinamismo selvagem. Nessa perspectiva a Psicanálise explica os comportamentos sociais  altruístas mediante a reorientação da força psíquica da libido no sentido de fortalecer as manifestações psicossociais dignificantes do ser humano. Nisso consiste o processo de “sublimação”[6].  Desgarrada deste processo a libido se satisfaz num leque de comportamentos primários que vão da  indiferença agressiva, à violência social, com desdobramentos na esfera sexual a exemplo do voyeurismo, das várias formas de satisfação solitária do desejo sexual, e da prostituição. A diligência inteligente no sentido de redirecionar a energia psíquica para a promoção do comportamento social solidário e ético implica num processo de aprendizagem complexo que, inicialmente demanda consciência esclarecida e disciplina da vontade. Basicamente, a razão distingue na realidade psicossocial as interações comprometidas com o ideal comunitário, orientando a direção em que se deve aplicar a vontade para a consecução do equilíbrio solidário, ético, universal da convivência humana. Essa disciplina comportamental impregna de verdade e de justiça o comportamento das pessoas, criando hábitos culturais solidários que levam a coletividade à prática das virtudes socializantes. Faz parte destas virtudes, a intenção resoluta de buscar o ideal de excelência do comportamento humano social, reconhecendo o limite dos desejos  pessoais  para lapidá-los com coragem e determinação em prol da harmonia social. No contexto psicodinâmico, o paradigma de perfeição seria o coroamento da  existência com a prática da solidariedade comunitária inspirada no amor à verdade e à justiça.  Portanto a saga do homem perfeito é mais propriamente a história da perfectibilidade humana levada a efeito mediante um esforço esclarecido e voluntário de contextualização ética, comunitária, dos indivíduos. Quanto mais coerente for o desempenho pessoal nos processos de individuação e socialização  mais próximo do modelo de perfeição humana o  indivíduo chegará, embora fique sempre aquém do ideal perseguido. A santidade se definiria como o arremate místico desse processo evolutivo, incorporando a existência pessoal num todo absoluto significativo transcendental, unidade na qual se harmonizam todas as contradições.
Diante das considerações que vimos de fazer podemos dizer que o homem é um ser perfectível, porém não existe o homem perfeito. Não se pode descrever o homem perfeito sem divinizá-lo. A “História de Jesus de Nazaré”, escrita por Renan, pensador visto por muitos como cético, mas que se dizia crítico moderado serve de exemplo para o que vimos de afirmar. O autor declara que se tivesse que definir com uma palavra o  personagem central do seu livro , “divino” seria o adjetivo escolhido.
Everaldo Lopes



[1] Aquisição de caráter ou atributos distintivos da espécie humana em relação às espécies ancestrais; Atualização da condição humana caracterizada pela consciência reflexiva, pela liberdade e pela escolha responsável.
[2] Modo de ser peculiar do homem
[3] No vocabulário cristão, o amor que move a vontade à busca efetiva do bem de outrem e procura identificar-se com o amor a Deus.
[4] Fonte: Blog “satsung with mooji”
[5] Indivíduo, tal como se revela e se conhece, representado em sua própria consciência fora da influência de qualquer clichê.
[6] Psican. Processo inconsciente que consiste em desviar a energia da libido para novos objetos, de caráter útil.