segunda-feira, 14 de abril de 2014

Viver por viver

         Viver por viver não preenche o verdadeiro sentido evolutivo da vida consciente reflexiva. Para cumprir fielmente seu objetivo no contexto evolucionário o homem precisa refletir a fim de definir-se através de escolhas e decisões responsáveis, socialmente coerentes. Esse não é o comportamento das pessoas que não atinam ou não assumem o compromisso de honrar a sua condição humana[1]. Todavia todos desejam viver mais! Nas Unidades de Tratamento Intensivo (UTIs) do mundo inteiro um enorme esforço é feito diuturnamente,  no sentido de salvar vidas que estão por um fio. Diante da ameaça de um fim próximo os doentes graves, agarram-se à ajuda médica e até a tratamentos milagrosos com a esperança de vencer a parca impiedosa. A ordem do dia é: viver, viver mais. Reconhecemos ser louvável o esforço despendido para prolongar a vida; essa é a missão do médico. Mas o efetivo exercício livre e responsável da consciência reflexiva é o que torna a vida humana digna de ser vivida. E essa prática é da alçada de cada um mediante o bom uso das funções psíquicas superiores (racionalidade, afetividade e vontade) tendo em vista a realização de ideais nobres. No seu vir a ser o homem protagoniza a luta íntima entre suas tendências egoístas excludentes e a prática solidária indispensável à sobrevivência da espécie. Cada um tem que dar uma resposta pessoal a esse conflito. E a coerência ética das relações do indivíduo consigo mesmo e com os outros é a medida de sua envergadura moral.
Lancemos um olhar inquiridor sobre os antecedentes e o porvir dos que estão sendo salvos nos centros de terapia intensiva. Entre os pacientes graves que ocupam os leitos das Unidades de Tratamento Intensivo (UTIs) a maioria das patologias é produzida pelos desregramentos que suas vítimas consciente ou inconscientemente praticaram por longo tempo, empenhados na conquista de objetivos materiais. O enfartado é um executivo que viveu o tempo todo correndo atrás de maior produtividade, numa atividade lucrativa. Ou um bon vivant disposto a jogar todas as fichas para fruir o prazer que se lhe oferece cada momento. São legiões de indivíduos que desafiaram os limites do próprio corpo para satisfazer suas ambições imediatistas e acabaram sofrendo as consequências.  Nessa insensatez dissiparam as próprias vidas. Tornaram-se vítimas de desordens biológicas que ao longo do tempo evoluíram para moléstias renais crônicas, cirrose hepática, doença coronariana, apoplexia cerebral entre outros estados patológicos graves. Estressados, afanaram-se na tentativa ambiciosa de conquistar alvos fugazes, descuidando a saúde do corpo. Agora, doentes, são obrigados a abandonar suas ambições, já não lhes restam oportunidades de realizá-las, mas continuam sedentos de mais vida. Todavia a experiência mostra que quase todos voltarão para suas rotinas morbígenas se conseguirem sobreviver à doença atual. Poucos terão aprendido a lição. A equipe médica nas unidades de tratamento intensivo não sabe  o que o paciente aos seus cuidados cuja vida está por um fio fará da sua existência se escapar da morte iminente. Não importa, é preciso salvar sua vida ameaçada. Todos querem  viver mais, porém muitos salvos da morte pelos cuidados médicos recebidos não saberão o que fazer dos anos de vida que estão por vir.
Alguém já disse que o verdadeiro desafio de ser homem é caminhar para a morte, lutando pela vida... E eu até concordo com essa visão numa perspectiva de vida apaixonada pela busca heroica de solução harmoniosa para as contradições existenciais. Nessa perspectiva é contraditório assimilar, sem protesto, a monótona repetição dos “mesmos sem roteiros tristes périplos”[2] em que se torna a vida de muitos de nós presos a propostas existenciais egoísticas imediatistas que se esgotam nelas mesmas. Para superar a monotonia da ganância dos bens e prazeres materiais que amesquinham as possibilidades existenciais, o homem precisa alimentar a esperança de uma realização superior, decidido a alcançá-la com talento e determinação. Isso implica no envolvimento com uma causa nobre, associado a um ideal estético, intelectual  e ético-social.  Sem uma proposta existencial criativa coerente com os elevados ideais de verdade e justiça, o homem fica à mercê de uma postura magnetizada pela vontade de viver por viver! Seguramente, conquistar a plenitude pessoal é o objetivo da existência; porém dadas as limitações humanas, a realização a que aspira a maioria das pessoas se confunde com sucessos imediatos voltados para o “ter mais” e não para o “ser mais”. Por falta de crítica sadia, e determinação para realizar os ideais superiores, os erros de ontem se repetem indefinidamente. É preciso carregar a chama divina que ilumina os que cultivam o desejo de ser mais,  a fim de alcançar a verdadeira plenitude do ser consciente. Para dignificar a condição humana é preciso ousar o impossível, tentar  sem desfalecimentos a realização de um ideal nobre. Só os que assim procedem conseguem superar as dificuldades existenciais, alimentando no mais íntimo do ser, o sentimento de respeito a si mesmos, aos outros e à natureza.
Afinal, o que será a vida sem uma paixão transcendental? O que não está claro, para muitos, é que esta paixão conduz à paz da vida comunitária, fundamento supremo da verdadeira alegria de viver! Não obstante, uma força insistente leva o homem a agarrar-se à vida pela vida mesma, na expectativa de algumas migalhas de prazer e felicidade passageira. Esse é o desfecho quando falta ao homem a disposição e a coragem de ser coerente com o ideal solidário,  recriando-se e assumindo a responsabilidade das escolhas que faz. Ele não se dá conta de que a falta da realização existencial superior é a origem da angústia humana, dor muda que fustiga as entranhas da existência. Contra ela é necessário opor a “força interior” que se manifesta num comportamento clarividente, compassivo, determinado a encontrar solução para as contradições do vir a ser humano. Nesse sentido nenhuma proposta supera o exercício do amor que move a vontade à busca do bem de outrem[3]. Na verdade, a prática caridosa  é necessária para realizar o sonho de construir uma comunidade solidária, onde os problemas existenciais partilhados em perfeita cooperação se resolveriam numa epopéia de paz e serenidade, aqui mesmo na Terra.
Para o homem não basta viver mais; é preciso viver dignificando a condição humana.        

  Everaldo Lopes



[1] Ser consciente, livre e responsável
[2] Do poema de Carlos Drumond de Andrade – “A máquina do mundo”
[3] Caridade no vocabulário cristão.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Desafios da pós-modernidade

Vemos  hoje mudanças no comportamento das pessoas, que  refletem o ritmo acelerado das conquistas científicas e tecnológicas havidas nos últimos sessenta anos. Para se ter uma ideia do que isso significa, basta fazer uma conta elementar.  O homem habita o mundo há  mais ou menos 40.000 anos,  e nas últimas seis décadas a ciência e a tecnologia progrediram mais do que nos 35.940 anos anteriores. Como é compreensível, as novas e abundantes descobertas da ciência,  e suas consequências práticas viabilizadas pela tecnologia, alteraram as rotinas estabelecidas até então. Alterações que ocasionaram mudanças nos campos da produção industrial, da educação, da política, das relações sociais e da própria dinâmica familiar.  Estas mudanças  estão aí, algumas já consumadas, outras, embrionárias, atropeladas pelos acontecimentos que se sucedem com uma rapidez estonteante. A humanidade nunca viveu situação igual. Ansioso diante das incertezas de um porvir incerto, chamado a dar solução a problemas inéditos o homem esclarecido se esforça para adaptar-se aos novos tempos, harmonizando as situações originadas pelas conquistas recentes com os Valores Universais[1] que   presidem a ética humanística. Mas sente-se no ar a perplexidade que o  torna refém da angústia e da ansiedade. Podemos dizer sem exagero que nessa pós-modernidade, sobre a qual poucos arriscam  falar  com alguma profundidade, está  fermentando a salvação ou condenação da espécie humana.  Alternativa cuja resolução dependerá da atuação desta e das próximas gerações, no que tange a forma de responder ao desafio  dos problemas sócio econômicos e ecológicos criados pelo próprio homem. Os estudiosos analisam as questões educacionais, sanitárias, urbanísticas, sociais,  econômicas e políticas, tentando entendê-las e dimensiona-las, para dar-lhes respostas adequadas. Todavia, precisamos estar conscientes de que as soluções que venham a ser propostas só se tornarão efetivas se forem praticadas por cada um dos cidadãos, principalmente por aqueles que fazem as instituições e organizações sociais de caráter público ou privado.
O crescimento irregular das coletividades humanas deu lugar à existência, hoje, de enormes desigualdades. Dois terços da humanidade vivem num nível de pobreza que lhes inviabiliza alimentação suficiente, saúde, habitação e educação adequadas. Estão nessa situação, aproximadamente, 2 bilhões e 400 milhões de seres humanos que habitam os países  subdesenvolvidos. Nesse contexto, é desolador o quadro sanitário e educacional. Urgem mudanças socioeconômicas e politicas justas e efetivas envolvendo todas as nações do planeta para que um número cada vez maior de pessoas em todos os continentes tenha acesso a habitação, saúde e educação de qualidade. Todavia, toda atividade humana está necessariamente contextualizada em modelos culturais. É preciso, portanto, quebrar a inércia dos erros sedimentados durante séculos, por políticas econômicas desastrosas para a harmonia social, com repercussão nefasta sobre cada indivíduo. Empreendimento gigantesco, que não depende apenas de novas propostas sociais, políticas e econômicas,  mas, sobretudo, da cooperação de todos na prática dos valores que dão suporte a uma verdadeira comunidade: o amor à verdade, a solidariedade, o autoconhecimento e a autodisciplina.  Sobre estes valores é que se edifica a verdadeira cidadania esclarecida, apoio indispensável à democracia sustentável. Em face da magnitude desse ideal comecemos pondo em ordem o nosso próprio quintal. Refiro-me a esse “mundinho” caracterizado por eleitores vítimas de carência alimentar e cultural, que acabam sendo induzidos a votar por benesses, enquanto os mais bem informados ficam sem escolha pela má qualidade dos candidatos que  se propõem preencher funções vitais para a nação nos poderes executivo e legislativo.  Por conta de tais distorções, o governo do povo e para o povo, acaba sendo o governo dos espertalhões contra o povo.
Vamos pensar um pouco. Que futuro estamos construindo? O que podemos esperar de uma sociedade feita por indivíduos empenhados em competir (geralmente de forma aética) e em acumular? Aonde nos levarão esses paradigmas político-sociais e econômicos cuja prática aumenta cada vez mais o número de pessoas excluídas dos bens essenciais? Como ignorar a importância da exclusão resultante, na escalada da violência urbana? Aonde levarão a humanidade os Governos que fazem guerra para manter a hegemonia econômica dos seus países, no âmbito internacional? Com esse comportamento excludente estamos promovendo a escandalosa disparidade que vemos hoje entre as classes sociais, e até entre países, em termos de saúde, educação e bem estar familiar. Assusta perceber a impotência de cada um de nós, isoladamente, para resolver os problemas que ameaçam a humanidade.
O raciocínio mais elementar põe em evidência que só promovendo a inclusão social  haverá salvação para a humanidade. Um desfecho que não ocorrerá se os homens não forem capazes de exercitar a cooperação e a partilha como paradigmas do comportamento econômico-social, o oposto do que se faz hoje.    Impõe-se fomentar uma economia solidária, algo bem diferente da atividade econômica do  mundo capitalista cuja força propulsora é o ânimo guloso dos indivíduos de competir e acumular. Não há uma fórmula fácil para que as mudanças necessárias aconteçam. Todavia, nada vai mudar se cada um de nós não fizer a sua parte, criteriosamente, neste processo evolutivo gigantesco no qual estamos incluídos e pelo qual somos corresponsáveis na medida em que dotados de livre arbítrio podemos influir no rumo da própria Evolução. Mas, como induzir as pessoas a assumirem a responsabilidade de que são investidas ao fazerem suas escolhas? Que estratégia pedagógica deverá polarizar a ação dos ativistas de um programa social que vise fomentar a solidariedade universal? O bom senso mostra que não há outra forma de alcançar esse propósito senão apelando para o exercício esclarecido e criativo da consciência livre e responsável de cada um. O grande obstáculo é a sedução da estrada larga do egoísmo negligente (des)comprometido com os valores sociais e com o “bem comum”. São bem mais íngremes as trilhas que o homem deverá palmilhar para cumprir seu papel no processo evolutivo.
Só por um golpe de sorte as famílias famintas e desabrigadas, vivendo em condições precaríssimas conseguem passar para seus filhos os valores que ajudarão a preserva-los da marginalidade social. Todavia, os que analisam a questão friamente estão convencidos de que as sequelas sociais do Capitalismo não dependem apenas da teoria intrinsecamente cruel que lhe dá suporte, porém muito, também, da forma mesquinha como ela é posta em prática. Só para exemplificar. O salário mínimo é o piso inferior estabelecido por lei, para a remuneração do trabalhador, mas é uma obrigação ética do patrão remunera-lo melhor quando puder fazê-lo. Não obstante, para salvaguardar o lucro financeiro  o empregador ignora o julgamento moral que faz justiça ao trabalhador! Diante dessa realidade inaceitável ninguém se justificará pela alegação da pureza de suas intenções  se não for capaz de transformá-las em ações práticas, compatíveis com os  princípios humanísticos defendidos. Pregar justiça sem a prática social e econômica correspondente é dar testemunho de profunda incoerência. É fundamental estar consciente de que as distorções do sistema político e da orientação macroeconômica importam muito, mas o que define o rumo da História são as decisões pessoais. A análise criteriosa dos problemas humanos sociais torna evidente a imprescindível colaboração para o bem comum de todos os membros válidos da comunidade humana. E há muitas formas de desservi-lo (o bem comum). Entre outros  elementos que prejudicam o patrimônio coletivo alinham-se o comportamento de executivos e legisladores incompetentes e corruptos, a exploração dos assalariados por empresários gananciosos, a mediocridade e incompetência dos prestadores de serviço no desempenho dos seus misteres, o descompromisso dos docentes com o processo do ensino aprendizagem, o desperdício das oportunidades educativas pelos discentes que, ainda jovens, cedem ao apelo da fraude (cola) e não se empenham em aprender. Esses deslizes comportamentais prolongam indefinidamente um processo histórico de desagregação social. Urge revertê-lo confiando no desenvolvimento das potencialidades do homem, proporcionando-lhe oportunidade para educar-se e trabalhar. Esse é o desafio que se põe diante de todos os cidadãos.
O desenvolvimento deve ser centrado no homem e não no capital. O ingrediente principal desse desenvolvimento é o trabalho sério e construtivo, embasado na determinação de produzir riquezas em benefício do bem comum e não, apenas, para o conforto de uns poucos. Isto implica em que cada um desempenhe com proficiência o papel que detém no seio da coletividade... que aprenda a controlar os interesses pessoais supérfluos... que assuma a responsabilidade de construir sua existência à luz da consciência crítica de estar com os outros no mundo. A inclusão de todos os homens livres nesse mutirão será a resposta redentora ao desafio ao qual nos expõem os graves problemas que ameaçam a sobrevivência da humanidade. Isso não é uma utopia como pensam muitos. Mas exige de cada um a prática responsável e criativa do livre arbítrio,  o que implica em esforço pessoal dirigido e sustentado.  A Evolução já passou por dificuldades aparentemente impossíveis de superar! E venceu! As dificuldades atuais são mais complexas, porém, as virtudes extraordinárias do ser humano nos levam a acreditar que nem tudo está perdido enquanto não desistirmos de lutar.
Everaldo Lopes Ferreira





[1] Dignidade, Justiça, Respeito mútuo, Solidariedade, Diálogo e Corresponsabilidade.

sábado, 15 de março de 2014

Um aprendizado longo e difícil

                 A experiência de envelhecer põe o homem diante de vivências peculiares e ensina saberes valiosos. Sacar o conhecimento e a sabedoria que os anos vividos podem ensinar custa prolongado esforço crítico e criativo. Não basta viver décadas. Cabe a cada um usar os talentos individuais nas suas relações intrapessoais e interpessoais, buscando a elaboração inteligente e criativa de soluções congruentes para o vir a ser individual, tumultuado pelas  mudanças físicas e psíquicas do envelhecimento que afetam a autoestima. O sucesso desse empreendimento é fundamental para assegurar a paz e amor-próprio dos que alcançam a terceira idade. Ao lidar com essas mudanças, o óbvio se torna contundente. O perfil físico do idoso não é atraente, comparado com o do jovem. O velho tem consciência disso e constrange-se por sua imagem haver perdido o poder de sedução. Desde a meia idade as pessoas se esforçam para esconder os sinais do tempo, lutando no seu íntimo para aceita-los como realidade indisfarçável. Todavia sabem que é preciso conquistar a leniência psíquica necessária a fim de conviver com as marcas impressas no seu semblante e as perdas impostas pela idade avançada, sem mergulhar em desespero ou comportamentos depressivos.  Diante do inevitável, em princípio, só a impassibilidade estoica dá suporte moral ao idoso para assimilar suas perdas com dignidade, sem apelar para evasões fantasiosas da realidade. Justificado por especulações filosóficas ou mediante um ato de fé os idosos esclarecidos e os menos cultos buscam assegurar-se a expectativa de que tudo se resolverá na unidade harmônica do espírito absoluto. Nessa expectativa encontram um lenitivo para os momentos de sofrimento existencial incontornável. Igualmente, é salutar ter a convicção de haver bem aproveitado os dons pessoais na condução da própria existência.
                 Diante dos impactos do envelhecimento, o idoso precisa esforçar-se para não perder a espontaneidade na manifestação da sua afetividade. Mas deve ser prudente, respeitando com verdadeira humildade, sem depreciar-se, o nível de aceitação de sua presença pelos outros, principalmente os mais jovens. Por mais que se esforcem, jovens e idosos têm certa dificuldade de sustentar uma parceria espontânea, ainda que se estimem. O idoso sábio compreende-os. Nos subterrâneos da consciência, sem  confessarem a si mesmos seus temores, os jovens veem  no idoso o seu amanhã e não conseguem anular a fonte inconsciente da repulsa contida  ao destino que os espera, simbolizado na figura humana fisicamente desfeita pelo tempo. Esta comoção pode resultar numa manifestação consciente de carinho dos jovens por seus idosos queridos. Mas, a análise psicodinâmica do comportamento destes jovens evidencia, ao mesmo tempo, componentes inconscientes inerentes ao medo de perde-los (os idosos queridos),  e repulsa à lembrança da fugacidade da própria juventude, despertada pela velhice dos que lhe estão próximos. Enquanto isso o idoso lúcido se esforça por  fazer  “a sagrada penitência de fechar-se num silencio superior”[1], sem transformar a própria  decadência física num espetáculo deprimente para os que presumem, ou assistiram “ao  esplendor da sua juventude”[2].
                 O velho sente necessidade de desenvolver especial habilidade na defesa do seu espaço de liberdade. Sabe que na avaliação subjetiva dos mais jovens é  inevitável a presunção do déficit físico e mental que, com variações individuais, realmente acompanha o envelhecer. E tem consciência de que o excesso de zelo momentâneo dos circunstantes mais jovens (sem negar-lhes o carinho demonstrado), pode ser uma forma inconsciente de enfatizar a juventude que ostentam no momento, o que os faz esquecer, por instantes a própria fragilidade. Compreendendo este determinismo psíquico afetivo, o idoso sábio recebe com bonomia esclarecida o cuidado dos seus descendentes e circunstantes, demonstrando, discretamente, depositar neles sua confiança. Mas não se perde em falsas expectativas de convivência mais íntima, salvo casos especialíssimos. Até torce para que o jovem saiba dosar o vínculo afetivo com o idoso querido para que não sofra à vista da sua decadência física, prenúncio do fim ao qual ninguém escapa. Não obstante a inevitabilidade desse desfecho, o idoso precisa adotar profilaticamente comportamentos preventivos. Por exemplo, evitar o sedentarismo, e inventar, cada dia, um objetivo de curto prazo integrado num projeto que satisfaça sua necessidade de transcender. Um hobby que o absorva intelectual e emocionalmente, e estimule sua capacidade criativa. Seja uma atividade manual, espiritual ou social. Por outro lado deverá encontrar uma maneira de fugir do sedentarismo, respeitando as limitações físicas da idade, mas evitando a todo custo a inatividade prolongada. Por outro lado, no convívio social o idoso deve precaver-se para não falar com tristeza ou revolta sobre as restrições que a idade lhe impõe, cuidando, porém, de não se expor ao ridículo de superestimar seus possíveis dotes físicos ou espirituais. É mister que reconheça as limitações inerentes à idade, sem afetação e sem perder a autoconfiança. E, ao mesmo tempo, é necessário estar consciente de que pode desenvolver contatos compensadores numa intimidade física ou psíquica prazerosa. Nesse ponto, pesa muito ter uma/um companheira/o com a/o qual possa estabelecer convívio gratificante.
                 Ao descermos às profundezas de nós mesmos, todos temos “surpresas infelizes”[3]. O avanço nos anos pode ajudar a desenvolver tolerância crítica e aceitação das fraquezas humanas que a todos nos afetam.  Mas esta conquista demanda um esforço sustentado para vencer o inconformismo vaidoso no confronto objetivo com os defeitos pessoais, e humildade para reconhecê-los e vence-los. Nesse momento seria oportuno desenvolver uma postura Zen na qual se aprofundaria o autoconhecimento, ao tempo em que o sujeito consciente substituiria o rigor da racionalidade (que acentua os contrastes), pela percepção intuitiva de uma totalidade harmoniosa, significativa. Essa abordagem da realidade amplia as perspectivas existenciais, tem o amparo racional em especulações metafísicas, mas na prática só se torna eficaz num ato de fé. A incorporação da dimensão espiritual da qual todos participamos  é a base  da verdadeira solidariedade.
                 Diante do envelhecimento duas perguntas se impõem: a) Como oferecer ajuda real ao idoso diante de sua situação progressiva e irreversivelmente  deficitária?  b) É possível ao idoso ser feliz? À primeira indagação responderíamos com a proposta de falar ao idoso com franqueza e objetividade sobre a velhice e suas consequências inevitáveis, contando, obviamente com o equilíbrio da infraestrutura psíquica do interlocutor.  É oportuno sublinhar que o coroamento feliz do envelhecimento consiste na imersão espiritual no  amoroso desapego à vida. Este sentimento corresponde a uma postura de total compreensão e aceitação responsável da realidade provisória do vir a ser histórico, integrando o acontecer finito num contexto universal significativo. A verdade é libertadora, e é o antídoto para as decepções sofridas por alimentar ilusões. À segunda pergunta responderíamos com um palpite... O idoso consegue sim, manter pelo menos sua autoestima se for capaz de conquistar a compreensão dinâmica da existência, e a capacidade de ser compassivo consigo mesmo e com os outros. Esse background moral, afetivo e intelectual ajuda a manter a conformação face aos percalços inevitáveis da própria finitude. São tantos os itens a preencher que não dá para falar genericamente sobre a questão da sabedoria do envelhecimento. Aparentemente, os exemplos de sucesso total não são numerosos. Todavia não dispomos de estatísticas que demonstrem quantas pessoas revoltadas com o envelhecimento e com a inevitabilidade do próprio fim tiveram uma morte tranquila... Mas o que os idosos que não perderam a lucidez podem e devem fazer é impedirem-se de ser infelizes, mobilizando para combater o infortúnio a criatividade de que ainda forem capazes. É oportuno lembrar que a paz interior não abandona os idosos privilegiados com a experiência espiritual que se traduz na expectativa de uma vivência atemporal de plenitude pessoal.
                 É evidente a diferença circunstancial da forma como as pessoas lidam com a consciência dolorosa da finitude ao longo do tempo vivido. Quando jovem, o indivíduo conta o futuro em décadas; então, a expectativa de vida longa lhe é confortável. Hoje, quando conta o futuro em poucos anos, torna-se muito claro que antes viveu a ilusão do superdimensionamento de mera expectativa provisoriamente favorável. É que, enquanto jovem, tinha a seu favor a menor probabilidade de ser acometido por uma doença terminal, embora estivesse sujeito às patologias inesperadas, ou acidentes traumáticos fatais. Porém tanto antes como hoje o tempo não passa de um dado provisório e incerto. O futuro dilatado que conforta o jovem pode terminar num piscar de olhos.  A mesma imprevisibilidade está presente no agora do idoso. Da mesma forma de antanho, ele continua refém da incerteza total do vir a ser transitório. Mas agora, dispondo de um futuro menos longo, o idoso convive com a certeza de que o fim está mais próximo, embora permaneça a esperança de que a sorte ajude a esticar o limite da sua vida um pouco além do agora! Todavia o velho sente o peso dos anos e das perdas acompanhantes o que o torna mais sensível  ao mínimo sinal de descompasso do ritmo biológico. O menor sintoma parece anunciar o fim inevitável, vivência mais perturbadora para os hipocondríacos. Mais disciplinado, porém, o idoso realista busca concentrar energia moral para conviver com as ameaças que o assaltam, sejam reais ou ilusórias. Na melhor hipótese a experiência acumulada dá suporte intelectual e emocional para controlar a ansiedade associada à consciência da finitude inexorável. Obviamente, esta forma de reagir se enriquece quando é estruturada sobre a crença da participação pessoal na comunidade eterna de todas as consciências, que se consuma numa unidade absoluta (Deus). Não sei se seria possível ao ser consciente normal permanecer totalmente indiferente à morte pessoal. Mas, certamente, ajuda muito a crença que se corporifica na expectativa da possibilidade transtemporal de realização pessoal na mais perfeita harmonia, numa plenitude ilimitada da qual, mergulhados no tempo, não podemos ter sequer uma ideia aproximada.
                  Everaldo Lopes



[1]Sugestão de Raul de Leoni no soneto intitulado “pudor”.
[2] Idem
[3] Do soneto “Prudência”, de Raul de Leoni, 

domingo, 9 de março de 2014

A saga do homem perfeito

A perfectibilidade humana implica na disposição diligente de cada um, de respeitar-se a si mesmo, ao próximo e à natureza. Esse propósito se objetiva nas relações familiares, políticas, sociais e econômicas inspiradas na verdade e na justiça. E através de escolhas conscientes e responsáveis o indivíduo abre caminho para aprimorar o seu desempenho no processo de hominização[1]. Aprimoramento pessoal que pressupõe um compromisso ético indissociável do exercício da própria consciência reflexiva. Seguramente, a fidelidade a esse compromisso é a solução para todos os problemas que afligem a humanidade. Se analisarmos historicamente o processo psicossocial que antecede as mazelas da sociedade vamos deparar em algum ponto no passado com o descompromisso ético de uma pessoa ou grupo. Desobrigação que desestrutura a sociedade, a partir de comportamentos amorais potencializados pela difusão das práticas correspondentes.
A hominização começa com a interdição das pulsões instintivas e se continua no esforço pessoal para disciplinar o comportamento social de acordo com um projeto cultural humanístico voltado para os valores que dignificam a existência[2]. Obviamente, a humanização vai muito além da simples interdição de pulsões inconscientes. Interdição, todavia, indispensável uma vez que estas pulsões são essencialmente egoísticas (ignoram as interações sociais) e o processo de humanização se acompanha necessariamente da socialização dos indivíduos. Como foi sugerido inicialmente as virtudes éticas envolvem o respeito do indivíduo a si mesmo, aos semelhantes e à própria natureza. Este envolvimento se completa na prática solidária do amor-caridade[3]. Mas antes de alcançar essa perfeição o nível e o grau de participação social construtiva do homem  ficam na dependência da sensibilidade moral  dos indivíduos à dignidade dos outros, na contextualização da existência de cada um numa sociedade igualitária. A correção ética desta contextualização acaba induzindo soluções diferenciadas, moralmente corretas, para os problemas econômicos, políticos e ambientais.  Soluções que exigem discernimento e disciplina da vontade. No outro extremo, o desrespeito aos princípios éticos existenciais e sociais abre caminho para condutas marginais, e alimenta a corrupção que degrada profissionais autônomos, funcionários públicos, “políticos de carreira” e as instituições que os abrigam.
O resultado de uma avaliação especulativa do processo de humanização demonstra que o grande salto evolutivo consiste na integração comunitária da coletividade humana sob a égide dos valores éticos universais. Este salto evolutivo  resulta do exercício da consciência livre e responsavelmente assumida, não obstante os limites restritivos do ego.  Na verdade, paradoxalmente, na busca da realização pessoal o ego deverá ser superado. Daí podermos afirmar que o homem é um ser problemático. Expandindo o ego o homem permanecerá sempre limitado por seu caráter egoísta. Portanto, a paz social e a plena realização do homem exigem a ultrapassagem do ego que é apenas um momento subjetivo de referência, supervalorizado, na descrição de uma  rede de relações interpessoais. Para ultrapassá-lo é preciso que cada um vivencie algo muito íntimo anterior a este momento subjetivo. Proposta que leva o ser consciente a uma profunda meditação. Só para dar uma ideia do que estou querendo dizer transcrevo um pequeno texto da autoria de um pensador indiano: “Pense em si mesmo,  e uma imagem subtil  é formada no interior da mente. Você não é isto, nem nenhuma imagem ou pensamento. Você é a consciência silenciosa e sem forma, dentro da qual inúmeras impressões aparecem e desaparecem  sem deixar rasto.” Mooji.[4]  Esta “consciência silenciosa e sem forma” precede o “ego”, e é lá que o indivíduo identifica o sentimento difuso da unidade  do seu self[5]. Mas deixemos o aprofundamento dessa questão para depois.
Voltemos à discussão fenomenológica sobre a perfectibilidade humana. Freud deu o nome de libido à energia psíquica dos instintos de vida. Esta força psíquica implementa no homem a sequência de pensamentos e atos que configuram o comportamento individual espontâneo nas várias conjunturas psicossociais. A libido, como uma força da natureza é em si mesma acrítica, não tem compromisso com  valores éticos. A virtude pedagogicamente definida consiste em  reconhecer a libido, disciplinando lhe o dinamismo selvagem. Nessa perspectiva a Psicanálise explica os comportamentos sociais  altruístas mediante a reorientação da força psíquica da libido no sentido de fortalecer as manifestações psicossociais dignificantes do ser humano. Nisso consiste o processo de “sublimação”[6].  Desgarrada deste processo a libido se satisfaz num leque de comportamentos primários que vão da  indiferença agressiva, à violência social, com desdobramentos na esfera sexual a exemplo do voyeurismo, das várias formas de satisfação solitária do desejo sexual, e da prostituição. A diligência inteligente no sentido de redirecionar a energia psíquica para a promoção do comportamento social solidário e ético implica num processo de aprendizagem complexo que, inicialmente demanda consciência esclarecida e disciplina da vontade. Basicamente, a razão distingue na realidade psicossocial as interações comprometidas com o ideal comunitário, orientando a direção em que se deve aplicar a vontade para a consecução do equilíbrio solidário, ético, universal da convivência humana. Essa disciplina comportamental impregna de verdade e de justiça o comportamento das pessoas, criando hábitos culturais solidários que levam a coletividade à prática das virtudes socializantes. Faz parte destas virtudes, a intenção resoluta de buscar o ideal de excelência do comportamento humano social, reconhecendo o limite dos desejos  pessoais  para lapidá-los com coragem e determinação em prol da harmonia social. No contexto psicodinâmico, o paradigma de perfeição seria o coroamento da  existência com a prática da solidariedade comunitária inspirada no amor à verdade e à justiça.  Portanto a saga do homem perfeito é mais propriamente a história da perfectibilidade humana levada a efeito mediante um esforço esclarecido e voluntário de contextualização ética, comunitária, dos indivíduos. Quanto mais coerente for o desempenho pessoal nos processos de individuação e socialização  mais próximo do modelo de perfeição humana o  indivíduo chegará, embora fique sempre aquém do ideal perseguido. A santidade se definiria como o arremate místico desse processo evolutivo, incorporando a existência pessoal num todo absoluto significativo transcendental, unidade na qual se harmonizam todas as contradições.
Diante das considerações que vimos de fazer podemos dizer que o homem é um ser perfectível, porém não existe o homem perfeito. Não se pode descrever o homem perfeito sem divinizá-lo. A “História de Jesus de Nazaré”, escrita por Renan, pensador visto por muitos como cético, mas que se dizia crítico moderado serve de exemplo para o que vimos de afirmar. O autor declara que se tivesse que definir com uma palavra o  personagem central do seu livro , “divino” seria o adjetivo escolhido.
Everaldo Lopes



[1] Aquisição de caráter ou atributos distintivos da espécie humana em relação às espécies ancestrais; Atualização da condição humana caracterizada pela consciência reflexiva, pela liberdade e pela escolha responsável.
[2] Modo de ser peculiar do homem
[3] No vocabulário cristão, o amor que move a vontade à busca efetiva do bem de outrem e procura identificar-se com o amor a Deus.
[4] Fonte: Blog “satsung with mooji”
[5] Indivíduo, tal como se revela e se conhece, representado em sua própria consciência fora da influência de qualquer clichê.
[6] Psican. Processo inconsciente que consiste em desviar a energia da libido para novos objetos, de caráter útil.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Considerações em torno da condição humana

         
                   A consciência reflexiva é o divisor de águas no curso da Evolução. Ela torna viável a possibilidade de escolher, decidir e, finalmente, de agir coerentemente. Essa potencialidade envolve a prática coordenada das funções psíquicas superiores[1] do ser humano que revelam o estágio evolutivo mais avançado, em complexidade, do sistema nervoso central. A partir de então o indivíduo evolui no sentido psicossocial buscando a melhor organização social da coletividade humana. Dessa forma desvia-se o vetor da Evolução até agora direcionado para o aperfeiçoamento biológico do indivíduo. O objetivo passa a ser a elaboração de formas cada vez mais sustentáveis de sociedade. Nesse ponto a Evolução ultrapassa o determinismo físico-químico assumindo a intervenção do livre arbítrio, característica eminentemente humana. O homem se constitui, portanto, num colaborador consciente e voluntário da própria Evolução. A sequência representada pela escolha, decisão e ação pertinente define uma maneira de ser, a existência[2] que  resulta de uma sucessão de escolhas, confundindo-se com a manifestação da própria liberdade. Idealmente, estas escolhas devem ser coerentes com um princípio diretor fonte de valores morais que delimitam o exercício responsável da liberdade. Mas, na prática há variações de comportamento concernentes à ideologia inerente ao princípio diretor assumido, à visão objetiva da realidade e ao compromisso do homem com a verdade.  Por conseguinte o recém-nascido da espécie Homo Sapiens sapiens deverá tornar-se homem mediante o processo de individuação[3], marcado por escolhas pessoais. Assim o homem não é um ser natural, mas um ser de cultura. Ou seja, não há um modelo de homem na Natureza. Nessa perspectiva, ao  tomar decisões o homem se inventa e dá consistência de verdade à sua criação (atualização da condição humana[4]) com o testemunho do comportamento pessoal. Isso implica na busca continuada, nem sempre exitosa, de relações intersubjetivas talhadas pela solidariedade. Ao longo da história, as escolhas felizes que satisfazem o objetivo dessa busca constituem modelos culturais perseguidos voluntariamente como um ideal de convivência. Assim sendo a perfectibilidade humana evolui das relações sociais respeitosas às solidárias, fundamentadas no amor.
                   A razão, a afetividade e a vontade são os recursos psíquicos fundamentais para a construção da “existência”. Destarte, pelo pensamento o ser consciente compreende o mundo, pela afetividade liga-se à sua circunstância mediante sentimentos e emoções, e pela vontade (ânimo, desejo, empenho) prioriza a ação escolhida, resultado da negociação, sob o signo da verdade, entre o pensamento (razão) e a afetividade (sentimento) integrados na realização dos Princípios diretores do vir a ser pessoal. Daí podermos dizer com propriedade que o “homem se inventa a si mesmo” e por isso é responsável pelo que faz. Todavia o indivíduo não pode ser original o tempo todo porque muitos comportamentos foram codificados culturalmente antes do seu nascimento. Constituem hábitos e costumes, condicionamentos, enfim, aos quais o indivíduo adere naturalmente durante o processo de individuação. Todavia o padrão cultural cultivado pode ser questionado e reformulado em qualquer tempo, tendo em vista uma visão mais ampla do modo de ser-com-os-outros-no-mundo. Nessa situação o homem “se reinventa” para atender a uma mundividência mais abrangente e o faz afirmando sua verdade ao protagonizar o segmento histórico da Evolução.  Sua participação é fundamental para o arremate do processo de complexificação crescente desde a matéria primitiva caótica até a vida consciente. Neste processo a essência do homem é o que ele consegue fazer de si mesmo, através de suas escolhas e decisões. Em outras palavras, a essência do homem é definida a partir de sua própria existência, o que justifica a célebre conclusão de Sartre: “no homem a existência precede a essência”, o inverso da concepção aristotélica sobre o que acontece nos seres naturais. Diante de muitas possibilidades cada um decide conscientemente atualizar esta ou aquela alternativa, e arca com as consequências de sua decisão, tornando-se, portanto, responsável pelo que “é”. Essa peculiaridade especificamente humana converge idealmente para a construção de uma comunidade solidária, a única forma de tornar viável a espécie Homo Sapiens sapiens, “parte da biosfera mais influenciada pelo universo do pensamento e pela atividade mental consciente”[5]
                   Como foi dito antes, ao nascer o homem já encontra um ambiente cultural constituído por usos e costumes para os quais o recém-chegado não contribuiu. Porém, mediante o pensamento e sua capacidade criativa o ser consciente reflexivo transcende o momento cultural em que está inserido podendo modifica-lo, modificando-se. Percebendo melhor a complexidade histórica do seu momento existencial o indivíduo pode criar novos esquemas para responder às situações existenciais conflitantes promovendo melhores condições de interação social. Nesse sentido é legítimo dizer-se que “pensar criativamente é transgredir”... é o passo inicial da mudança dos comportamentos atuais para outros mais adequados à atualização da condição humana. Numa perspectiva evolutiva, esse esforço criativo influi no universo através de relações intersubjetivas que garantam a unidade social. A sustentabilidade desta unidade exige interação responsável com a natureza, fechando o ciclo de influências recíprocas entre o homem e o mundo. Afinal, o cosmo toma consciência de si mesmo através do homem na mesma medida em que a consciência reflexiva é a imagem especular peculiar de cada um de nós enquanto somos uma extensão privilegiada do próprio cosmo. Ao lidar, consciente e responsavelmente com a própria realidade, escolhendo o modo de ser mais compatível com o pleno desenvolvimento psicossocial, o homem interage, também, com o mundo, influindo no equilíbrio ecológico. É de certa forma terrificante para o homem assumir essa responsabilidade sem outro apoio senão o dos seus próprios recursos finitos. Este é um sentimento aflitivo para os agnósticos que não dão crédito a uma transcendência absoluta unificadora e significativa na qual possam encontrar apoio moral para as suas escolhas. Realmente o mundo não “tem sentido sem o nosso olhar.” Mas não é “este” olhar que dá sentido ao mundo, e sim, a capacidade deste olhar de reconhecer no mundo a ordem emanada de uma transcendência absoluta - a “Consciência Universal”. Em se tratando de um absoluto, a Consciência Cósmica (universal) pode ser fundamentada teoricamente por uma especulação metafísica, mas dificilmente escapa de ganhar um colorido místico no imaginário coletivo. A Física Quântica dá suporte teórico às cogitações racionais que conduzem à necessidade lógica de uma Consciência Universal, mas para grande parte dos seres pensantes ela é ainda apenas objeto de fé.
                   O tema é deveras fascinante e comporta desdobramentos teóricos e práticos. Muitos destes desdobramentos estão sendo abordados neste Blog numa linguagem leiga, despretensiosa. Visite-o, compartilhe-o com seus amigos  e faça seus comentários.
                                   Everaldo Lopes                            





[1] Consciência reflexiva, razão, sentimento (Disposição afetiva em relação a coisas de ordem moral ou intelectual) e vontade.
[2] Modo de ser peculiar do homem.
[3] Processo por meio do qual uma pessoa se torna consciente de sua individualidade, de acordo com C.G. Jung (1875-1961)


[4] Ser consciente e responsável
[5] Pe. Teilhard de Chardin (Arqueólogo, antropólogo e Filósofo)

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Artistas e homens comuns

O ideal do artista é captar e representar a essência das coisas. Ideal que se manifesta no desejo de apreender a verdade, a beleza da natureza e dos homens, os mistérios do Universo. Guardadas as devidas proporções este ideal é o que mais se aproxima da busca mística do ser absoluto. O artista sonha com uma obra prima, a grande revelação, fruto de sua criatividade privilegiada. Nesta  busca incansável, sua alma é um turbilhão de ideias, de formas, cores e de sons onde a inspiração vai colher a matéria prima para exprimir no ato da criação a realidade tal como é concebida pela intuição penetrante. A perfeição perseguida pelo artista faz contra ponto com o torturante sentimento da inaptidão para transmitir a identidade estética essencial que se esconde nos fenômenos representáveis... uma vez que a verdade e a beleza absolutas não podem ser representadas. Avoluma-se, então, no espírito do artista o anseio angustiante de exprimir a unidade harmônica essencial através da pena, do pincel, do cinzel, do som, do movimento que ele aprende a usar com mestria. Imperioso se torna para cada um de acordo com o dom recebido escrever, pintar, esculpir, compor, tocar, cantar, dançar, percorrendo os caminhos indicados por sua sensibilidade privilegiada. Obviamente estamos falando dos verdadeiros talentos que trazem desde o berço aptidões excepcionais. É tal a grandiosidade do ideal artístico que, por mais perfeitas que sejam, a poesia, a tela, a escultura, a composição musical, a coreografia, não conseguem satisfazer a perfeição concebida pelo artista. E  dessa forma a beleza da obra, deslumbrante aos olhos dos demais parece pobre diante do projeto original idealizado pela sensibilidade exaltada do seu autor. “Por que não falas?” Disse Michelangelo ao seu Moisés, escultura esteticamente impecável. Esta é a angústia do artista, a de nunca poder ultrapassar os próprios limites e, todavia, sentir-se obrigado por uma força interior incontida, a tentar alcançar a meta inalcançável. Tenho para mim que a suposta arrogância do artista de reconhecido talento diante da incompreensão das pessoas acorrentadas à medíocre mesmice repetida indefinidamente não é um gesto de presunçosa superioridade, é mais  uma explosão de revolta face à própria incompetência para fazê-las compreender a originalidade escondida no mundo!
A necessidade de transcender comum a todos os homens encaminha-os inicialmente á realização no âmbito da utilidade e do prazer. Nessas experiências imediatistas o ego limitado nem se dá conta do vazio interior que o ameaça  no intervalo de suas acanhadas realizações. Mas esse vácuo subjetivo é doloroso demais para a sensibilidade do artista cujo anseio de perfeição o  mobiliza a tentar, incansavelmente, superar os limites impostos por sua própria contingência. Os artistas se plenificam existencialmente realizando o anseio criativo! Empolgados pela inventividade, concebem o novo numa vivência que os projeta às culminâncias da experiência de ser livre.  Suficientemente motivados, valendo-se da imaginação criativa e  de habilidades específicas eles produzem respostas inéditas no diálogo com o mundo e consigo mesmos. Diferentemente, os homens pobres de inspiração, que são maioria, preenchem o espaço existencial com a esperança de suprir o anelo de riqueza, saúde e poder. Esperança que se sustenta numa crença sem grandeza, expressa na prática burocrática de fórmulas culturais surradas pelo uso. As questões limites sejam no campo da lógica, da ética ou da estética não afetam de forma consciente esta maioria. O grupo numeroso ao qual nos referimos se acomoda aos  modelos culturais vigentes, preocupado com aspirações de ordem prática. Olhando os seus participantes, de um ponto de observação adequado  descobrem-se as tendências que os agrupam ao lidarem com os próprios conflitos existenciais sem  se darem conta de que estão aprisionados nos limites da condição humana, consciência livre e responsável sufocada pelo ego.  Muitos perdem a autocrítica com o sucesso tornando-se prepotentes e injustos. Os que têm uma visão trágica do mundo transformam a existência num dilema, e alguns se condenam a suportar o rigor de uma realidade indesejável. Preferem aceitar estoicamente um carma de sacrifício, a apostar corajosamente na tarefa demiúrgica de reescrever o script da própria existência. Intelectualmente mais perspicazes e emocionalmente mais flexíveis, os que enxergam o ridículo de certos equívocos existenciais, percebem os aspectos cômicos de situações aparentemente embaraçosas. E acabam rindo e fazendo rir das próprias limitações. Finalmente os que são acólitos fiéis do sistema culturalmente fixado vivem num permanente esforço de adaptação aos cânones vigentes. Neste afã se perdem da própria originalidade e, consciente ou inconscientemente, exercem o pragmatismo cínico, escapando como podem das sanções sociais. Neste viés comportamental importa-lhes mais parecer do que ser ético e virtuoso, sem reparar em que o ego é o maior obstáculo à paz e completa felicidade! Em todos os casos a angústia e a ansiedade os assediam na medida da sensibilidade de cada um diante da própria incapacidade de corresponder às exigências do ego. E assim caminham todos, inconformados com o próprio destino, alienados de sua realidade mais profunda. Seres que a Evolução  dotou, miraculosamente, com a capacidade de exercitar a consciência reflexiva, valendo-se de escolhas livres, porém malversam a autonomia de que são capazes. Homens de diferentes raças e etnias que deveriam alcançar a felicidade plena mediante a superação do próprio ego, mas perdidos no meio das suas perplexidades se exaurem em  tentativas vãs de autoafirmação, reforçando o egocentrismo. A todos, porém, está aberta a porta para a paz e a mais completa realização pessoal se se aplicarem à tarefa de pensar no que é o “eu” cuja presença se denuncia nas manifestações existenciais. Todos dizemos a todo instante: Eu quero, eu penso, eu sinto etc., mas o que é este “eu”? Ele não se confunde com, mas antecede o pensamento, o sentimento e a vontade! A resposta a essa pergunta, cerne da experiência mística, é vivenciada quando numa introspecção profunda o indivíduo ultrapassa o próprio ego... superando os limites temporais culturalmente cultivados, iluminando-se. Do ponto de vista psicodinâmico, a iluminação corresponde a um estado alterado de consciência no qual tudo se contextualiza na unidade absoluta vivenciada numa intuição reveladora. Do ponto de vista teológico a iluminação diz respeito à “comunicação da luz divina à alma humana, pelo que a inteligência  se torna capaz  de atingir um conhecimento verdadeiro.”[1] Os artistas se aproximam dessas experiências, porém, diferentemente do místico, quando lhes falta humildade, continuam reféns do próprio ego e da angústia existencial.
Everaldo Lopes.   


[1] Santo Agostinho

sábado, 25 de janeiro de 2014

Incoerência da proposta cínica

Diógenes[1], o cínico, filósofo da Grécia antiga despreza os cânones sociais, cultiva a autossuficiência e menospreza a morte. A virtude para ele consiste na simplicidade natural da vida sem demandas supérfluas, o que equivale a um retorno aos hábitos primitivos. Embora reconheçamos ser salutar para o indivíduo o cultivo civilizado da autossuficiência e o despojamento inerente à vida simples, no modo cínico de proceder o desdém às normas sociais é um estorvo à completa humanização. Esta implica exatamente na interdição dos impulsos instintivos e construção de um modelo cultural humano social cujos preceitos favoreçam a convivência pacífica e cooperativa. A orientação política e econômica responsável pelo desenho social moderno demarcado por desigualdades criadas pelo próprio homem é ridícula ao olhar crítico de um humanista esclarecido. E mostra claramente que, cedendo aos impulsos ambiciosos, os homens estão destruindo a dimensão social do seu vir a ser existencial.
É compreensível que na era cibernética o homem esteja abrindo espaço cada vez maior para a máquina cuja utilização inteligente e disciplinada amplia sua capacidade produtiva. As conquistas tecnológicas fazem parte do processo evolutivo. O homem já não saberia mais viver sem o equipamento tecnológico moderno. No seu caminhar histórico a humanização é o resultado de um processo cultural que está caminhando na direção oposta à vida simples, natural. Mas é indispensável preservar a colaboração que existiu entre os membros da coletividade humana primitiva, necessária para garantir a sobrevivência da espécie.
A conquista da consciência reflexiva constituiu-se no ponto crítico da Evolução. Presumivelmente, esta conquista evolutiva ocorreu no período em que o homem vivia da caça, da pesca e da coleta de frutos silvestres. Então, todos estavam visceralmente conscientes  de que os laços de cooperação e solidariedade são vitais para a sobrevivência do indivíduo. Para coletar frutos suficientes, pescar para toda coletividade  e caçar animais de grande porte impunha-se a necessidade da colaboração de muitos que partilhavam depois o produto do trabalho coletivo. Mas a novidade é que a partir de determinado momento cada homem começou a refletir sobre o seu papel no âmbito da vida coletiva. A reflexão implica necessariamente numa auto referência consciente que pode evoluir para o comportamento egoísta. Posteriormente, com o advento da agricultura, a domesticação dos animais e o progresso tecnológico industrial, o homem sentiu-se mais independente. As facilidades industriais e comerciais do mundo moderno esconderam ainda mais a vinculação do bem estar pessoal à contribuição de todos os membros da coletividade. O homem tornou-se individualista ao esquecer  que sua sobrevivência depende dos demais membros do grupo. Não obstante, ainda hoje a sustentabilidade da vida pessoal depende, sim, da solidariedade grupal. Embora o homem não sinta esta dependência tanto quanto antes, ela é ainda fundamental para a perpetuação da espécie. Mas, perdido o sentimento profundo de ser o trabalho coletivo a garantia para a sobrevivência individual, o homem precisa esforçar-se, agora, para retomar o comportamento cooperativo e solidário, mediante determinação pessoal. Na verdade, diante da falsa independência recentemente adquirida, a solidariedade deixou de ser um comportamento espontâneo; ela tem que ser reaprendida e praticada pela força de uma proposta consciente inspirada no ideal humanístico comunitário. Lamentavelmente, até agora, este ideal tem sido mais discutido teoricamente do que praticado! Daí porque a realidade social do homem, deformada pelo individualismo, ainda está muito distante de uma interdependência comportamental entre os indivíduos, conscientemente administrada e vivida voluntariamente sob o imperativo ético inerente à condição humana. Acostumados às facilidades da vida moderna os homens se esqueceram de que essas facilidades apenas ocultam a fragilidade original do indivíduo isolado. Exemplificando, para desfrutar o mínimo conforto de saborear um simples pãozinho cada um depende do trabalho coordenado de agricultores, transportadores, operários da indústria do trigo, padeiros e todos quantos contribuem com o fabrico dos implementos que tornam possível essas atividades... um exército de colaboradores. O impacto de um colapso eventual do parque industrial e dos centros de excelência em serviços indispensáveis ao bem estar pessoal e  coletivo bastaria para relembrar o homem de como sua independência é ilusória. Não obstante, seduzido pelo crescimento econômico e tecnológico, o homem não dá a atenção devida às demandas éticas sociais impostas pela condição humana[2]. Um analista atento vê que a orientação vigente é suicida, e está minando lentamente  as relações entre os homens e entre estes e a natureza, inviabilizando a vida no planeta. Essa degringolada parece óbvia, no entanto é ignorada pelo individualismo reinante. Urge que todos se capacitem da realidade evidente para o analista atento: “daqui por diante é crescer em saber, consciência ética social, solidariedade e respeito à natureza, ou morrer.” Esse comportamento implica num processo complexo caracterizado pela prática de hábitos culturais  que favoreçam as relações humanas comunitárias e a defesa do meio ambiente.  O divisor de águas é o exercício da consciência livre e responsável cuja prática deve alinhar-se nas diretrizes da própria Evolução. Nessa perspectiva, lamentavelmente, o modelo cultural baseado na aspiração ao humanismo integral construído pelo exercício do diálogo entre os homens e pelo respeito à natureza é ainda um ideal distante. A maioria dos homens não ultrapassou o estágio descrito por Aristóteles e Hobbes, caracterizado pela ideia de ser “o homem o lobo do homem”. Salvas as exceções dos que atingiram certa maturidade psicossocial, as relações interindividuais são superficiais e descomprometidas. Comumente os supostos diálogos não passam de monólogos paralelos, quiçá improvisados pelos interlocutores para convencerem-se a si mesmos de possuírem virtudes nas quais eles próprios não acreditam. Assim, pela inconsequência no desempenho de sua própria condição, os homens desatendem à sagrada missão que lhes coube no processo evolutivo, de participar criativamente da realidade universal mediante a elaboração de formas de convivência baseadas na solidariedade entre as pessoas. Fica evidente que nessas circunstâncias torna-se difícil a tarefa pedagógica de converter indivíduos inautênticos e sem fidedignidade à prática de um comportamento solidário calcado na Verdade e na Justiça.  Mas essa conversão é fundamental para que o Homo Sapiens sapiens não se configure como uma “variante genética inviável”.
Depois de considerar longamente a condição humana e a caminhada para a humanização, qualquer observador experto percebe a derrocada em que a humanidade está escorregando ao cultivar os paradigmas da competição aética e do acúmulo de bens materiais. Em verdade, caminhamos demais para um retorno à vida simples sugerida por Diógenes, mas ainda é muito longa a distância a percorrer até a organização solidária da coletividade humana. Tropeçamos hoje na falta de bom senso cristalizada nos paradigmas da economia capitalista globalizada. Todavia, é forçoso reconhecer, a corrupção que permeia a prática dos sistemas político, social e econômico é mais danosa ao processo de humanização do que a orientação embutida nos próprios  sistemas. Aqui está o maior obstáculo. Os sistemas podem ser manipulados, mas a disposição de mudar o comportamento ético deve ser abraçada livremente pelo homem. E disso depende um redirecionamento da história da humanidade. Uma análise cuidadosa da situação a que chegamos denuncia que se se mantiverem inalterados os dados apresentados pelos indicadores educacionais, sanitários, demográficos, socioeconômicos e políticos atuais, a humanidade está, hoje, diante de desafios que ameaçam a sobrevivência da espécie Homo Sapiens sapiens. Diante dessa perspectiva, ciente das limitações humanas conforta-nos acreditar nos imponderáveis[3]. Eles atuam sub-repticia e inesperadamente, promovendo a ordem inerente à Consciência Universal... a mesma que conduziu a Evolução desde a desorganização da matéria primitiva até a vida consciente[4]. Essa visão intelectual aposta na potencialidade cooperativa do homem que viabilizará, afinal, os desígnios da Consciência Universal. Abordagem que abre espaço para uma visão mística da realidade. Não é mais na vida natural que o homem busca sua realização, mas na funcionalidade inteligente de uma construção psicossocial  complexa com desdobramentos místicos.
 Everaldo Lopes




[1] Diógenes de Sinope 404 ou 412 a.C.323 a.C. também conhecido como Diógenes, o Cínico. Pregou o cinismo, doutrina voltada para a vida em estrita concordância com a natureza e por isso opunha-se radicalmente aos valores e às regras sociais vigentes.
[2] Ser consciente e responsável
[3] Que ou aquilo que não pode ser calculado, nem previsto, mas cujo efeito pode ser determinante.

[4] Ideia desenvolvida nos textos intitulados “Devaneios especulativos I,II e III”