terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Artistas e homens comuns

O ideal do artista é captar e representar a essência das coisas. Ideal que se manifesta no desejo de apreender a verdade, a beleza da natureza e dos homens, os mistérios do Universo. Guardadas as devidas proporções este ideal é o que mais se aproxima da busca mística do ser absoluto. O artista sonha com uma obra prima, a grande revelação, fruto de sua criatividade privilegiada. Nesta  busca incansável, sua alma é um turbilhão de ideias, de formas, cores e de sons onde a inspiração vai colher a matéria prima para exprimir no ato da criação a realidade tal como é concebida pela intuição penetrante. A perfeição perseguida pelo artista faz contra ponto com o torturante sentimento da inaptidão para transmitir a identidade estética essencial que se esconde nos fenômenos representáveis... uma vez que a verdade e a beleza absolutas não podem ser representadas. Avoluma-se, então, no espírito do artista o anseio angustiante de exprimir a unidade harmônica essencial através da pena, do pincel, do cinzel, do som, do movimento que ele aprende a usar com mestria. Imperioso se torna para cada um de acordo com o dom recebido escrever, pintar, esculpir, compor, tocar, cantar, dançar, percorrendo os caminhos indicados por sua sensibilidade privilegiada. Obviamente estamos falando dos verdadeiros talentos que trazem desde o berço aptidões excepcionais. É tal a grandiosidade do ideal artístico que, por mais perfeitas que sejam, a poesia, a tela, a escultura, a composição musical, a coreografia, não conseguem satisfazer a perfeição concebida pelo artista. E  dessa forma a beleza da obra, deslumbrante aos olhos dos demais parece pobre diante do projeto original idealizado pela sensibilidade exaltada do seu autor. “Por que não falas?” Disse Michelangelo ao seu Moisés, escultura esteticamente impecável. Esta é a angústia do artista, a de nunca poder ultrapassar os próprios limites e, todavia, sentir-se obrigado por uma força interior incontida, a tentar alcançar a meta inalcançável. Tenho para mim que a suposta arrogância do artista de reconhecido talento diante da incompreensão das pessoas acorrentadas à medíocre mesmice repetida indefinidamente não é um gesto de presunçosa superioridade, é mais  uma explosão de revolta face à própria incompetência para fazê-las compreender a originalidade escondida no mundo!
A necessidade de transcender comum a todos os homens encaminha-os inicialmente á realização no âmbito da utilidade e do prazer. Nessas experiências imediatistas o ego limitado nem se dá conta do vazio interior que o ameaça  no intervalo de suas acanhadas realizações. Mas esse vácuo subjetivo é doloroso demais para a sensibilidade do artista cujo anseio de perfeição o  mobiliza a tentar, incansavelmente, superar os limites impostos por sua própria contingência. Os artistas se plenificam existencialmente realizando o anseio criativo! Empolgados pela inventividade, concebem o novo numa vivência que os projeta às culminâncias da experiência de ser livre.  Suficientemente motivados, valendo-se da imaginação criativa e  de habilidades específicas eles produzem respostas inéditas no diálogo com o mundo e consigo mesmos. Diferentemente, os homens pobres de inspiração, que são maioria, preenchem o espaço existencial com a esperança de suprir o anelo de riqueza, saúde e poder. Esperança que se sustenta numa crença sem grandeza, expressa na prática burocrática de fórmulas culturais surradas pelo uso. As questões limites sejam no campo da lógica, da ética ou da estética não afetam de forma consciente esta maioria. O grupo numeroso ao qual nos referimos se acomoda aos  modelos culturais vigentes, preocupado com aspirações de ordem prática. Olhando os seus participantes, de um ponto de observação adequado  descobrem-se as tendências que os agrupam ao lidarem com os próprios conflitos existenciais sem  se darem conta de que estão aprisionados nos limites da condição humana, consciência livre e responsável sufocada pelo ego.  Muitos perdem a autocrítica com o sucesso tornando-se prepotentes e injustos. Os que têm uma visão trágica do mundo transformam a existência num dilema, e alguns se condenam a suportar o rigor de uma realidade indesejável. Preferem aceitar estoicamente um carma de sacrifício, a apostar corajosamente na tarefa demiúrgica de reescrever o script da própria existência. Intelectualmente mais perspicazes e emocionalmente mais flexíveis, os que enxergam o ridículo de certos equívocos existenciais, percebem os aspectos cômicos de situações aparentemente embaraçosas. E acabam rindo e fazendo rir das próprias limitações. Finalmente os que são acólitos fiéis do sistema culturalmente fixado vivem num permanente esforço de adaptação aos cânones vigentes. Neste afã se perdem da própria originalidade e, consciente ou inconscientemente, exercem o pragmatismo cínico, escapando como podem das sanções sociais. Neste viés comportamental importa-lhes mais parecer do que ser ético e virtuoso, sem reparar em que o ego é o maior obstáculo à paz e completa felicidade! Em todos os casos a angústia e a ansiedade os assediam na medida da sensibilidade de cada um diante da própria incapacidade de corresponder às exigências do ego. E assim caminham todos, inconformados com o próprio destino, alienados de sua realidade mais profunda. Seres que a Evolução  dotou, miraculosamente, com a capacidade de exercitar a consciência reflexiva, valendo-se de escolhas livres, porém malversam a autonomia de que são capazes. Homens de diferentes raças e etnias que deveriam alcançar a felicidade plena mediante a superação do próprio ego, mas perdidos no meio das suas perplexidades se exaurem em  tentativas vãs de autoafirmação, reforçando o egocentrismo. A todos, porém, está aberta a porta para a paz e a mais completa realização pessoal se se aplicarem à tarefa de pensar no que é o “eu” cuja presença se denuncia nas manifestações existenciais. Todos dizemos a todo instante: Eu quero, eu penso, eu sinto etc., mas o que é este “eu”? Ele não se confunde com, mas antecede o pensamento, o sentimento e a vontade! A resposta a essa pergunta, cerne da experiência mística, é vivenciada quando numa introspecção profunda o indivíduo ultrapassa o próprio ego... superando os limites temporais culturalmente cultivados, iluminando-se. Do ponto de vista psicodinâmico, a iluminação corresponde a um estado alterado de consciência no qual tudo se contextualiza na unidade absoluta vivenciada numa intuição reveladora. Do ponto de vista teológico a iluminação diz respeito à “comunicação da luz divina à alma humana, pelo que a inteligência  se torna capaz  de atingir um conhecimento verdadeiro.”[1] Os artistas se aproximam dessas experiências, porém, diferentemente do místico, quando lhes falta humildade, continuam reféns do próprio ego e da angústia existencial.
Everaldo Lopes.   


[1] Santo Agostinho

sábado, 25 de janeiro de 2014

Incoerência da proposta cínica

Diógenes[1], o cínico, filósofo da Grécia antiga despreza os cânones sociais, cultiva a autossuficiência e menospreza a morte. A virtude para ele consiste na simplicidade natural da vida sem demandas supérfluas, o que equivale a um retorno aos hábitos primitivos. Embora reconheçamos ser salutar para o indivíduo o cultivo civilizado da autossuficiência e o despojamento inerente à vida simples, no modo cínico de proceder o desdém às normas sociais é um estorvo à completa humanização. Esta implica exatamente na interdição dos impulsos instintivos e construção de um modelo cultural humano social cujos preceitos favoreçam a convivência pacífica e cooperativa. A orientação política e econômica responsável pelo desenho social moderno demarcado por desigualdades criadas pelo próprio homem é ridícula ao olhar crítico de um humanista esclarecido. E mostra claramente que, cedendo aos impulsos ambiciosos, os homens estão destruindo a dimensão social do seu vir a ser existencial.
É compreensível que na era cibernética o homem esteja abrindo espaço cada vez maior para a máquina cuja utilização inteligente e disciplinada amplia sua capacidade produtiva. As conquistas tecnológicas fazem parte do processo evolutivo. O homem já não saberia mais viver sem o equipamento tecnológico moderno. No seu caminhar histórico a humanização é o resultado de um processo cultural que está caminhando na direção oposta à vida simples, natural. Mas é indispensável preservar a colaboração que existiu entre os membros da coletividade humana primitiva, necessária para garantir a sobrevivência da espécie.
A conquista da consciência reflexiva constituiu-se no ponto crítico da Evolução. Presumivelmente, esta conquista evolutiva ocorreu no período em que o homem vivia da caça, da pesca e da coleta de frutos silvestres. Então, todos estavam visceralmente conscientes  de que os laços de cooperação e solidariedade são vitais para a sobrevivência do indivíduo. Para coletar frutos suficientes, pescar para toda coletividade  e caçar animais de grande porte impunha-se a necessidade da colaboração de muitos que partilhavam depois o produto do trabalho coletivo. Mas a novidade é que a partir de determinado momento cada homem começou a refletir sobre o seu papel no âmbito da vida coletiva. A reflexão implica necessariamente numa auto referência consciente que pode evoluir para o comportamento egoísta. Posteriormente, com o advento da agricultura, a domesticação dos animais e o progresso tecnológico industrial, o homem sentiu-se mais independente. As facilidades industriais e comerciais do mundo moderno esconderam ainda mais a vinculação do bem estar pessoal à contribuição de todos os membros da coletividade. O homem tornou-se individualista ao esquecer  que sua sobrevivência depende dos demais membros do grupo. Não obstante, ainda hoje a sustentabilidade da vida pessoal depende, sim, da solidariedade grupal. Embora o homem não sinta esta dependência tanto quanto antes, ela é ainda fundamental para a perpetuação da espécie. Mas, perdido o sentimento profundo de ser o trabalho coletivo a garantia para a sobrevivência individual, o homem precisa esforçar-se, agora, para retomar o comportamento cooperativo e solidário, mediante determinação pessoal. Na verdade, diante da falsa independência recentemente adquirida, a solidariedade deixou de ser um comportamento espontâneo; ela tem que ser reaprendida e praticada pela força de uma proposta consciente inspirada no ideal humanístico comunitário. Lamentavelmente, até agora, este ideal tem sido mais discutido teoricamente do que praticado! Daí porque a realidade social do homem, deformada pelo individualismo, ainda está muito distante de uma interdependência comportamental entre os indivíduos, conscientemente administrada e vivida voluntariamente sob o imperativo ético inerente à condição humana. Acostumados às facilidades da vida moderna os homens se esqueceram de que essas facilidades apenas ocultam a fragilidade original do indivíduo isolado. Exemplificando, para desfrutar o mínimo conforto de saborear um simples pãozinho cada um depende do trabalho coordenado de agricultores, transportadores, operários da indústria do trigo, padeiros e todos quantos contribuem com o fabrico dos implementos que tornam possível essas atividades... um exército de colaboradores. O impacto de um colapso eventual do parque industrial e dos centros de excelência em serviços indispensáveis ao bem estar pessoal e  coletivo bastaria para relembrar o homem de como sua independência é ilusória. Não obstante, seduzido pelo crescimento econômico e tecnológico, o homem não dá a atenção devida às demandas éticas sociais impostas pela condição humana[2]. Um analista atento vê que a orientação vigente é suicida, e está minando lentamente  as relações entre os homens e entre estes e a natureza, inviabilizando a vida no planeta. Essa degringolada parece óbvia, no entanto é ignorada pelo individualismo reinante. Urge que todos se capacitem da realidade evidente para o analista atento: “daqui por diante é crescer em saber, consciência ética social, solidariedade e respeito à natureza, ou morrer.” Esse comportamento implica num processo complexo caracterizado pela prática de hábitos culturais  que favoreçam as relações humanas comunitárias e a defesa do meio ambiente.  O divisor de águas é o exercício da consciência livre e responsável cuja prática deve alinhar-se nas diretrizes da própria Evolução. Nessa perspectiva, lamentavelmente, o modelo cultural baseado na aspiração ao humanismo integral construído pelo exercício do diálogo entre os homens e pelo respeito à natureza é ainda um ideal distante. A maioria dos homens não ultrapassou o estágio descrito por Aristóteles e Hobbes, caracterizado pela ideia de ser “o homem o lobo do homem”. Salvas as exceções dos que atingiram certa maturidade psicossocial, as relações interindividuais são superficiais e descomprometidas. Comumente os supostos diálogos não passam de monólogos paralelos, quiçá improvisados pelos interlocutores para convencerem-se a si mesmos de possuírem virtudes nas quais eles próprios não acreditam. Assim, pela inconsequência no desempenho de sua própria condição, os homens desatendem à sagrada missão que lhes coube no processo evolutivo, de participar criativamente da realidade universal mediante a elaboração de formas de convivência baseadas na solidariedade entre as pessoas. Fica evidente que nessas circunstâncias torna-se difícil a tarefa pedagógica de converter indivíduos inautênticos e sem fidedignidade à prática de um comportamento solidário calcado na Verdade e na Justiça.  Mas essa conversão é fundamental para que o Homo Sapiens sapiens não se configure como uma “variante genética inviável”.
Depois de considerar longamente a condição humana e a caminhada para a humanização, qualquer observador experto percebe a derrocada em que a humanidade está escorregando ao cultivar os paradigmas da competição aética e do acúmulo de bens materiais. Em verdade, caminhamos demais para um retorno à vida simples sugerida por Diógenes, mas ainda é muito longa a distância a percorrer até a organização solidária da coletividade humana. Tropeçamos hoje na falta de bom senso cristalizada nos paradigmas da economia capitalista globalizada. Todavia, é forçoso reconhecer, a corrupção que permeia a prática dos sistemas político, social e econômico é mais danosa ao processo de humanização do que a orientação embutida nos próprios  sistemas. Aqui está o maior obstáculo. Os sistemas podem ser manipulados, mas a disposição de mudar o comportamento ético deve ser abraçada livremente pelo homem. E disso depende um redirecionamento da história da humanidade. Uma análise cuidadosa da situação a que chegamos denuncia que se se mantiverem inalterados os dados apresentados pelos indicadores educacionais, sanitários, demográficos, socioeconômicos e políticos atuais, a humanidade está, hoje, diante de desafios que ameaçam a sobrevivência da espécie Homo Sapiens sapiens. Diante dessa perspectiva, ciente das limitações humanas conforta-nos acreditar nos imponderáveis[3]. Eles atuam sub-repticia e inesperadamente, promovendo a ordem inerente à Consciência Universal... a mesma que conduziu a Evolução desde a desorganização da matéria primitiva até a vida consciente[4]. Essa visão intelectual aposta na potencialidade cooperativa do homem que viabilizará, afinal, os desígnios da Consciência Universal. Abordagem que abre espaço para uma visão mística da realidade. Não é mais na vida natural que o homem busca sua realização, mas na funcionalidade inteligente de uma construção psicossocial  complexa com desdobramentos místicos.
 Everaldo Lopes




[1] Diógenes de Sinope 404 ou 412 a.C.323 a.C. também conhecido como Diógenes, o Cínico. Pregou o cinismo, doutrina voltada para a vida em estrita concordância com a natureza e por isso opunha-se radicalmente aos valores e às regras sociais vigentes.
[2] Ser consciente e responsável
[3] Que ou aquilo que não pode ser calculado, nem previsto, mas cujo efeito pode ser determinante.

[4] Ideia desenvolvida nos textos intitulados “Devaneios especulativos I,II e III”

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

A hora da decisão

            Embora boa parte do comportamento humano seja culturalmente estabelecida, a todo instante cada um é desafiado a escolher e a agir criativa e coerentemente. Coerência inspirada no autorrespeito, no respeito ao próximo e à natureza tendo em vista a consecução de uma meta humanística nobre. A hora da decisão está sempre no presente psicológico definido em texto anterior como o “agora”. Ou seja, o intervalo que abrange os segmentos imediatos do passado e do futuro,  separados por um corte no tempo - o presente  ontológico[1] - janela da eternidade. As decisões maiores se referem ao que cada indivíduo pode e deve fazer da própria existência, como realizar as potencialidades pessoais, como comportar-se diante de questões econômicas, políticas e sociais, harmonizando objetivos pessoais e coletivos. As decisões menores estão relacionadas ao modo como aproveitar as horas ociosas no vir a ser pessoal. Mas todas as decisões envolvem algum tipo de responsabilidade inerente ao exercício da condição humana[2]. As escolhas e decisões definem o modo de ser próprio de cada um.
Ao confrontar sua realidade existencial o homem pode ser otimista ou pessimista, objetivo, racional, ou entregue a fantasias românticas, senhor do seu próprio nariz ou dependente da opinião alheia, confiante ou falto de esperança. Mas não pode fugir da responsabilidade inerente ao exercício da liberdade inseparável da condição humana. A tarefa de existir não é fácil, ao contrário é exigente. Basta lembrar que construímos nossa existência em torno de valores éticos que são preceitos capazes de guiar a ação humana, e que de modo relativo ou absoluto são tidos ou  devem ser tidos como objetos de estima ou desejo. Nesta perspectiva, a menos que esteja embasado no amor, o comportamento ético não ocorre naturalmente no vir a ser pessoal. Sem amor, o homem se impõe agir eticamente por dever. Pivô da existência, o valor ético constitui-se no referencial do caráter pessoal. A existência está sempre referida à contextualização cultural do vir a ser humano num todo significativo, à sombra dos valores éticos assumidos. Nesse sentido é indispensável o exercício coerente da consciência livre e responsável fundamentada em princípios éticos. Princípios que são impessoais e exigem a disciplina da tendência egoica dos indivíduos. O equilíbrio do comportamento humano nas relações psicossociais que não se inserem num contexto amoroso  fica, portanto, na dependência de uma prática voluntariamente adotada. Diante das alternativas entre as quais necessita fazer sua opção, o indivíduo vivencia não raro o conflito íntimo de suas dimensões racional e afetiva. Neste momento torna-se necessário o esforço voluntário para agir corretamente. E como grande parte do psiquismo humano funciona abaixo do plano consciente, para salvaguardar a ordem social é fundamental a interdição dos impulsos inconscientes egoísticos conflitantes com os valores assumidos. Sem a interdição necessária das pulsões egoísticas antissociais não há civilização.
Para os que creem, Deus se revela através de intuições que também emergem dos planos inconscientes da psique. E em parceria com o homem seu Criador o conduz equilibrado sobre o fio da navalha de um vir a ser incerto em busca da realização suprema que encerra a expectativa de felicidade plena. A sabedoria e a santidade evoluem com o reconhecimento e superação ou aceitação criativa das limitações impostas pela contingência da condição humana. Na verdade, o homem sobrevive milagrosamente no meio da impermanência de tudo. É muito estreita a faixa de segurança do seu devenir, no qual ele conta apenas com um poder limitado de controlar as vicissitudes da contingência circunstancial. Do ponto de vista biológico, o equilíbrio instável é necessário ao dinamismo da vida; deve-se pois cultivar este equilíbrio e não a expectativa da estabilidade que no processo vital corresponde à morte do organismo vivo. Nestes termos algum controle é sempre possível, mas não se podem descartar os imprevistos, e muitas situações imutáveis. Por outro lado como ser consciente o homem precisa transcender-se permanentemente, e neste processo existencial o limite é o absoluto. A necessidade humana de transcender só se satisfaz na completude unitária do absoluto. O controle do equilíbrio fisiológico instável e a administração da capacidade de transcender exigem respectivamente autonomia da vontade e criatividade. Virtudes essenciais para atender aos cuidados sanitários biologicamente requeridos, e à inovação pessoal mediante superação individual dos próprios limites.
            A paz cai mansamente sobre quem reconhece sua impotência como ser contingente, e mergulha de olhos fechados no porvir desconhecido, arrimado nos valores assumidos e confiante na misericórdia divina. O suporte racional mais forte para esta aceitação repousa na compreensão de que no âmbito do absoluto (por definição, único) se consuma a solução de todos os problemas existenciais. Usando o vocabulário teológico diríamos que de Deus (absoluto) tudo provém e a Ele tudo retorna num movimento infinito no qual tudo se integra, anulando-se todas as contradições existenciais. Este background especulativo ampara a confiança na consumação harmoniosa da realidade universal embora se ignorem os detalhes imponderáveis do percurso até esse desfecho. Esta seria a única forma de o ser consciente ficar mais à vontade diante do seu destino histórico incerto, fortalecido pela certeza de fé num arremate glorioso para a existência.  Nas horas de crise nas quais não se vislumbra como integrar a existência numa realidade significativa confortável, a afirmação especulativa da consumação harmoniosa da existência alimenta a fé no arremate perfeito da realidade temporal no horizonte da eternidade.  Amparado nesta crença, nos momentos difíceis da vida resta pedir humildemente o amparo transcendental. Nesse instante crucial ajuda muito o saber especulativo de uma ordem suprema inerente à perfeição do Absoluto criador. Aqui vale lembrar o comportamento exemplar que o Mestre dos mestres nos deixou. Em situação de extrema vulnerabilidade Ele suplicou: “Senhor, se for possível afastai de mim este cálice!” Não negou seu desejo de aliviar-se da dor moral e física, mas permaneceu confiante e submisso à vontade divina. No percurso da existência o homem constrói um protocolo que lhe permita controlar com mais segurança o devir existencial sobreposto ao puro dinamismo vital. Mas há sempre limites inerentes à própria contingência humana. Diante do último limite (a morte) mais uma vez o Mestre dos mestres na sua imensa sabedoria, colocou-se ante o Absoluto criador e orou: “Senhor, está tudo consumado. Em Tuas mãos entrego a minha alma.” Uma lição de humildade e confiança que aconchega a contingência humana sob o manto do Deus pai misericordioso. Nos dois momentos em que Jesus invocou o amparo do Pai não assumiu apenas uma postura piedosa, mas um gesto profundamente humano de confiança na perfeição e no amor do Criador.
Homem como qualquer um de nós, Jesus deu testemunho de que podemos ser verazes, justos e generosos, e só palmilhando este roteiro existencial alcançaremos conduzir o processo da perfectibilidade humana na plenitude de um contexto comunitário. O homem não precisa ser fisicamente crucificado, mas terá de carregar a sua cruz com dignidade.
 A grande missão de Jesus foi desafiar o brio dos homens de todas as épocas a descobrir e professar as verdades sintetizadas no Sermão da Montanha[3], o único caminho para a realização plena da humanidade.
De tudo que ficou dito nesse resumo despretensioso do vir a ser humano, depreende-se que a salvação da espécie Homo Sapiens sapiens depende das decisões pessoais livres e responsáveis de cada indivíduo, fundadas na prática da cooperação e da partilha, voltadas para a construção da comunidade humana!   
  Everaldo Lopes.



[1] O “presente” nunca passa, é sempre o mesmo. No vir a ser histórico os acontecimentos é que passam  por ele. O corte no tempo corresponde à própria atemporalidade assimilável à ideia de eternidade. Ponto fixo, referencial para a sucessão de segundos, minutos, horas, dias etc. que marcam o tempo cósmico.
[2] Ser consciente e responsável.
3- “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus.
Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.
Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra.
Bem-aventurados os que tem fome e sede de Justiça, porque serão  fartos.
Bem-aventurados os misericordiosos, porque encontrarão a Misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a face e Deus.
Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da Justiça, porque deles é o Reino dos Céus.
Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem, perseguirem e mentirem, dizendo todo mal contra vós por minha causa.
Exultai e alegrai-vos, porque é grande vosso galardão nos céus, porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós."

                                                                                        Mateus 5, 1-12

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

A espiritualidade reflete uma tentativa de superação pessoal

A angústia existencial é a mesma para materialistas e espiritualistas.  Confiar na sobrevivência da alma imortal não muda a ansiedade do ser consciente que se sabe biológica e existencialmente limitado. O que faz a diferença é ser empolgado pelo amor que tudo envolve e eterniza, transformando a existência numa abertura permanente para a plenitude pessoal contextualizada num todo significativo. Viver este amor que tudo transforma tem mais força e promove maior repercussão no equilíbrio psicobiológico do que ter o saber especulativo que demonstra a necessidade lógica de uma transcendência absoluta. A própria fé só é um refúgio espiritual se for um testemunho de amor. Conceber racionalmente a necessidade lógica de um dinamismo absoluto eternamente criativo para justificar a existência do cosmo e a do próprio ser consciente (ambas contingentes) satisfaz a razão, mas essa conquista intelectual sem um suporte amoroso não suprime a ansiedade diante do vir a ser existencial incerto. Se não formos empolgados pelo amor, possuir este saber é como ter um depósito em moeda estrangeira sem poder trocá-la por moeda corrente. Acabaríamos com uma fortuna nas mãos sem poder “comprar” o de que precisássemos para abrigar-nos da angústia despertada pelas fragilidades temporais.
O amor doação que necessitamos experimentar para existir em plenitude é um dom e como tal não se pode adquiri-lo, por mais disciplinado, inteligente e desejoso de possui-lo que alguém possa ser. Pode-se, todavia, manter e cultivar a receptividade para uma experiência totalizante, de cunho afetivo. Para consumar existencialmente o propósito de estabelecer uma relação de amor com a transcendência absoluta é preciso sentir uma comoção espiritual que não há como forjar senão pela mobilização das potencialidades afetivas inerentes à condição humana; estas potencialidades, porém, são insensíveis aos argumentos racionais. Ou seja: “O coração tem razões que a própria razão desconhece.”[1] É preciso sentir-se emocionalmente envolvido pela presença do absoluto transcendental cuja existência encontra apoio racional em especulações metafísicas pertinentes a partir da realidade conhecida[2]. Não basta, porém, reconhecer este apoio intelectual. Para vivenciar a reciprocidade do amor universal é preciso ser tocado por sentimentos que aproximem a criatura consciente, do seu Criador. A iniciativa do convite é do Criador, mas a criatura precisa responder a este convite reconhecendo humildemente sua precariedade existencial. A reação receptiva do ser consciente pode ser inicialmente uma abertura racional, mas precisa ser traduzida em sentimento, em amor pelo Criador e por suas criaturas. Muitos de nós não ultrapassamos a etapa intelectual do saber esclarecido que aponta para uma transcendência absoluta. É preciso amar e sentir-se amado pessoalmente no vir a ser histórico pessoal a fim de que floresça a vivência do amor universal. Não se tem como comandar este desfecho, mas todos sentem que ser capaz de protagonizar o amor doação é fundamental para a realização da experiência mística. A vivência intuitiva da unidade perfeita de toda realidade visível e invisível predispõe ao encontro redentor na comunidade de consciências inscrita na unidade do Espírito absoluto. A transição do comportamento racional para o afetivo é um “salto quântico”[3], e não o resultado de um  processo[4]. Com seus recursos psíquico afetivos o ser consciente pode apenas permanecer receptivo ao chamamento do Absoluto intangível, e esperar o milagre que lhe há de proporcionar a vivência interior de uma intimidade amorosa com as criaturas, e através delas com o próprio Criador. Desta intimidade entre a criatura consciente e o Criador resultaria a vivência de plenitude absoluta. Uma analogia ajuda a descrever a paz infinita desta vivência. A comparação mais apropriada dessa experiência seria com a de sentir-se invadido por uma luz que espalhasse a mesma intensidade luminosa em todos os sentidos desfazendo as sombras e as contradições.  Iluminação que corresponderia a uma vivência de plenitude absoluta. Só este sentimento profundo confirma a entrega total resultante do amor doação (caridade[5]). Com essa experiência o ser consciente faz uma ponte subjetiva com a transcendência absoluta. Em verdade a “entrega” implícita na doação é algo que acontece, não pode ser ensinado ou aprendido. A capacidade do homem de ultrapassar-se sinaliza a predisposição do seu ser biopsíquico para viver uma entrega incondicional, transcendendo-se. Não obstante inalcançável mediante um esforço dirigido, o amor doação pode ser despertado, de repente, por uma palavra, um gesto, uma manifestação autêntica de solidariedade.
Enquanto vive a precariedade do seu vir a ser temporal, o homem se esforça para manter a serenidade que lhe é possível, na tentativa de despreocupar-se de cuidados excessivos com sua integridade física e moral. Isto implica estar disposto a enfrentar qualquer dificuldade, contando apenas com os recursos (razão, afetividade e vontade) disponibilizados ao ser consciente objetivamente cônscio dos limites inelásticos de ser no tempo. Esta disposição implica em não se deixar abater pelas derrotas sofridas ao longo do vir a ser histórico, alimentando o gosto de viver a despeito das adversidades, esperançoso de sempre dar a volta por cima sem perder o foco do objetivo existencial colimado, acreditando no próprio potencial criativo. Sem a ajuda mística do Criador este desempenho existencial redunda numa sobrecarga intolerável. O equilíbrio existencial precário só se transforma numa vivência de verdadeira paz mediante a experiência de fé num absoluto transcendental que tudo engloba e em que tudo faz sentido. No julgamento objetivo do materialista a experiência mística é ingênua. Mas, como vimos há pouco, na visão crítica do espiritualista esta “ingenuidade esclarecida” encontra respaldo em especulações metafísicas a partir da análise do mundo conhecido.  Tudo isso reflete a luta interior inerente aos desafios da elaboração de uma postura espiritual que alicerce a plenitude do ser consciente.
  Everaldo Lopes



[1] Blaise Pascal (1612 – 1662) Matemático, Físico, Filósofo.
[2] Vide em “Devaneio  especulativo I”: Se há uma ordem na construção do mundo e da vida, se toda ordem pressupõe uma intenção, se não há intenção fora da esfera da consciência, é forçoso que haja uma Consciência Universal! Portanto, a lógica especulativa nos conduz a uma realidade abstrata que a própria razão não consegue entender e descrever objetivamente. Mas isto ainda não basta. A elaboração intelectual precisa transformar-se numa forte convicção, consolidada no sentimento de comunhão profunda com a “transcendência absoluta”, patenteada numa vivência da unidade criatura / Criador.

[3] Que diz respeito a um sistema físico cujas grandezas físicas observáveis assumem valores discretos, de tal modo que a passagem de um determinado valor para outro ocorre de maneira descontínua, segundo as leis da mecânica quântica (Houaiss).

[4] Num sistema físico, a sucessão de estados intermediários na passagem entre dois estados evolutivos.

[5] No vocabulário cristão, o amor que move a vontade à busca efetiva do bem de outrem. (Aurélio)

sábado, 14 de dezembro de 2013

Espiritualidade em perspectiva

Para o filósofo, o espírito é uma essência incorpórea pensante, princípio absoluto[1] criador do tempo e do espaço, que rege o Universo e a vida. O espírito manifesta-se na consciência reflexiva, oferecendo ao homem a capacidade de transcender-se[2], compatível com a manifestação temporal deste princípio absoluto imaterial, incompreensível para a razão humana. Sua manifestação misteriosa cria no homem a possibilidade de viver o distanciamento subjetivo entre o “eu sujeito” observador e o objeto de sua observação (o mundo e a vida).  Experiência que constitui o cerne da própria consciência reflexiva. Surge assim o pensamento; processo mental que se concentra na formulação de conceitos e no relacionamento logico das ideias. Desenvolve-se então a possibilidade da crítica construtiva que dá suporte a escolhas criteriosas favoráveis a mudanças oportunas nas relações do homem com o mundo, consigo mesmo, e com os outros. É óbvio que o pensamento não é redutível a uma explicação fenomenológica. Mas ele justifica o ser consciente, fundamentando-o. O simples fato de o homem ser capaz de pensar leva-o à conclusão inevitável de que existe[3]. A partir da confirmação de sua própria existência o homem se dá conta de que não se criou a si mesmo nem o mundo que habita. Daí a especulação filosófica sobre o Criador, um absoluto que permanece necessariamente inscrito na sua criação uma vez que esta não possui o poder de subsistir. Obviamente, em face da incapacidade de a criatura subsistir por conta própria não se pode separar a Criação (o cosmo e a vida), do seu Criador. Todavia, o Princípio espiritual absoluto que cria e permanece cifrado na sua criação só se manifesta mais ostensivamente no homem. O Espírito fundamento da consciência reflexiva paralela à liberdade utilizou a organização psicobiológica complexa do homem (Sistema Nervoso Central) para manifestar-se ostensivamente. Ambas, consciência e liberdade se implicam mutuamente; a consciência reflexiva não existe sem liberdade e a prática desta obriga o ser consciente a assumir responsavelmente os valores éticos de uma existência[4] sustentável. Esta implicação envolve a dinâmica subjetiva entre a razão[5], os sentimentos e a  vontade, oferecendo ao homem a oportunidade de fazer escolhas e de produzir mudanças evolutivas construtivas. Mas, ao mesmo tempo, o ser consciente reflexivo se expõe ao conhecimento das incertezas decorrentes da sua própria finitude, origem da angústia existencial e de outros medos. A maior angústia do ser humano resulta do reconhecimento da fragilidade inerente à contingência de ser no mundo sem garantias. O que implica em defrontar a incerteza do seu vir a ser sem poder abrir mão de uma proposta existencial na qual faz suas escolhas pessoais, mesmo correndo riscos. A experiência demonstra que a plenitude existencial inexcedível só acontece quando amamos verdadeiramente, ou criamos dando asas à inspiração artística e inventiva; então, o tempo não conta, ou não o sentimos passar. Por isso a capacidade de amar incondicionalmente se acompanha de maior felicidade do que a que nos pode proporcionar o sentimento de ser amado! Ser amado é uma consequência; quem ama a vida a Natureza e os outros é também amorável e recebe com naturalidade a retribuição ao seu comportamento amoroso! Todavia, o amor e a criação artística, assim como a prática solidária não são ações manipuláveis, envolvem integração exemplar das funções psíquicas superiores, e talento; equilíbrio e virtude que não resultam apenas de um simples esforço voluntário. São dons congênitos que recebemos gratuitamente e apenas podemos cultivá-los. Nas relações humanas a dinâmica psíquica afetiva é muito complexa, não é facilmente administrável, e o melhor resultado depende ainda da participação do outro mediante sintonia  espontânea e recíproca que não acontece com a frequência desejável. A base da experiência amorosa é a prática do respeito ao outro e da responsabilidade social; até este ponto os comportamentos individuais são controláveis pela vontade.  Mas o amor se torna uma elaboração heroica quando se trata de viver a intersubjetividade de almas gêmeas[6], o encontro ideal que todos almejam realizar um dia!
Na subjetividade humana transitam pensamentos, sentimentos, intuições, desejos que convergem na definição e assimilação de um sentido para a existência pessoal, que passa necessariamente pela relação eu-tu. Nesse processo todos aspiram à plenitude, substrato da felicidade. Porém a instabilidade e incertezas da existência interferem na intersubjetividade inerente à relação “eu-tu” [7]. Interferência relevante uma vez que o homem só nasce como pessoa mediante a possibilidade deste relacionamento.
            Nas dúvidas e inquietações que o assaltam, o homem se sente desamparado diante da fragilidade da vida e do seu vir a ser existencial precário. E se não for capaz de resistir à vivência de abandono diante dos riscos inerentes à própria vida, no mínimo tornar-se-á torturado pelo medo, e ficará permanentemente assustado, incapaz de arriscar o novo. Privado desta possibilidade corre o risco de sobrenadar a estagnação da mesmice de uma existência insípida. Se o amor é o sal da vida, a coragem de arriscar quando ele o exigir é o oxigênio do amor. Precisamos ter a coragem de afirmar-nos como algo além de uma organização biológica exemplar condicionada à contingência temporal; precisamos transcender o presente fugidio para viver o aqui e agora, sem apego aos bens materiais, convencidos de ter em nós mesmos tudo de que precisamos para dar um sentido à existência. Sentido que inclui necessariamente a presença do outro.
Todos somos dotados de razão, afetividade e vontade. A  afetividade e a vontade trabalham o conhecimento racional influindo nas escolhas que o homem faz e nas decisões que precisa tomar no seu vir a ser temporal. A espiritualidade se desenvolve na medida em que o ser consciente é capaz de lidar com as funções psíquicas superiores (razão, afetividade e vontade), integrando-as de forma criativa e equilibrada tendo em vista a construção da comunidade humana. E dela (a espiritualidade) faz parte a busca e assimilação de um sentido imanente e transcendente que enobreça a existência.  Para não nos desgarrarmos nessa jornada há que projetar a relação “eu-tu”, temporal, numa relação “eu-Tu” transcendental em que o eu dialoga na subjetividade com um Alter ego absoluto criador. A intersubjetividade com uma transcendência absoluta demanda um ato de fé. Esta é a única forma de construirmos um porto seguro no mais íntimo da nossa realidade biopsíquica e espiritual. Neste sentido crer equivale a criar o objeto de fé, vivenciando-o como um poder absoluto que a todos nos ampara. Esta aventura existencial  não se resume apenas na indução racional da necessidade de um poder absoluto, mas assumindo-O por um vínculo afetivo que O abraça, sem conhece-Lo, confiante em que n´Ele tudo faz sentido. A espiritualidade plena se confunde com a sabedoria, estado de espírito em que há uma integração harmônica da razão, da afetividade e da vontade na busca da plenitude existencial inerente à participação do “eu” pessoal no absoluto significativo onde reina a iluminação[8] e a paz. É óbvio que esta paz ilimitada só existe numa dimensão transtemporal o que implica ter fé na participação pessoal em uma realidade que transcende o mundo sensível. Essa experiência é pacificadora na medida em que integrado no absoluto, necessariamente único, o ser consciente se liberta de todas as contradições e dúvidas, assim como do medo induzido pela própria finitude. No contexto da espiritualidade que vimos de descrever, a sabedoria e a santidade andam de braços dados. O sábio e o santo são homens simples e humildes.   Ambos encontraram o sentido da vida e o arremate significativo da existência, fazendo de suas fraquezas o trampolim da perfectibilidade humana. Entendendo-se que a perfeição só existe na comunidade de todas as consciências integradas na unidade do absoluto criador (Deus).              Everaldo Lopes             



[1] Algo que existe em si e por si.
[2] O próprio ato de pensar, refletir, implica em transcender  (ultrapassar) o conhecimento imediato associando-o a outros para articular o pensamento lógico.
[3] René Descarte depois de duvidar dos próprios sentidos concluiu “Eu duvido, logo penso, logo existo” (1596 - 1650).
[4] Modo de ser peculiar do homem segundo Kierkegaard (1813-1855) e no existencialismo contemporâneo,
[5] Inteligência linguístico-matemática, intrapessoal e interpessoal (emocional), espacial, cinestésica, existencial , naturalística.
[6] Se você sentir por uma  pessoa vontade de ficar junto,  ternura, saudade de vez em quando, e prazer de conversar com ela, dialogar, esta pessoa reúne condições para ser sua  alma gêmea. Tal  sintonia é a primeira condição para um encontro intersubjetivo verdadeiro. Se, além disso, existe entre vocês o diálogo indispensável à pratica do bom senso podemos afirmar que acabam de encontrar a verdadeira alma gêmea. E se esta experiência se prolonga numa forte atração sensual, e parceria sexual afetuosa, cúmplice e respeitosa  está configurado o amor conjugal exemplar.

[7]“Eu e tu” de Martin Bubber .( 1878 –1965)
[8] Segundo sto Agostinho, comunicação da luz divina à alma do homem, pelo que a inteligência se torna capaz de atingir um conhecimento verdadeiro.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Viver é perigoso

Preocupar-se é cuidar do amanhã, hoje, antecipando inquietações inerentes à incerteza do que está por vir. A pré-ocupação que visa um resultado ou forma um projeto implica em cuidar, hoje, do planejamento inteligente do amanhã, sem inquietações, tendo em vista um objetivo dentro da margem de liberdade e autonomia de cada um. Muitos se torturam, porém, imaginando acontecimentos indesejáveis possíveis no porvir e deixando de viver a experiência do agora. Ora, o futuro chegará, inexoravelmente. Portanto é tolice sofrer por antecipação as incertezas do amanhã; o que for inevitável acontecerá.  Quedar-se em expectativas sinistras ou mesmo auspiciosas sobre as quais não se tem controle é enredar-se em devaneios. E as fantasias pessimistas antecipadas com a imaginação mortificam a alma e podem levar ao desespero. Irreais, elas têm a importância que lhes emprestamos. Em si mesmas são tão inconsistentes como uma sombra, mas se forem assumidas como realidades iminentes terão o poder destruidor de uma força cega da Natureza. Não se deve deixar as fantasias pessimistas criarem raízes. Ao contrário, a fantasia otimista sendo uma expectativa construtiva, tranquilizadora e ética deve ser cultivada... ela também pode ganhar força quando as assimilamos como realidade inquestionável.  Este seria o caso de uma crença no absoluto transcendental criador que se consuma na fé e leva à plena realização existencial.
Construir uma existência que proporcione mais instantes de bem estar interior, paz e felicidade do que de desassossego e infelicidade demanda boa administração das potencialidades intelectuais afetivas e volitivas na circunstância em que se está contextualizado. As metas auspiciosas implícitas no desejo de ser feliz alcançam a plena realização quando fazem parte de projetos definidos aos quais dedicamos nosso empenho; principalmente se vierem ao encontro de dons naturais e contribuírem para a harmonia social.
A existência é um contínuum. Na verdade ela se constrói sobre um corte (vazio) no tempo físico[1].  A experiência temporal para o sujeito consciente se configura no “agora” que definiremos logo mais. Porém é o presente metafísico ou eterno que pontua o acontecer no agora onde, diante do olhar do ser consciente tudo acontece antes de ser transferido para o arquivo da memória. O “presente metafísico” que não passa, assiste imóvel à passagem do tempo físico entendido como a quarta dimensão da matéria. Este presente metafísico é a janela que se abre para a eternidade na subjetividade humana, pela qual o tempo físico é sugado inexoravelmente. Neste sentido, como uma fenda cronologicamente  indefinível no tempo físico, o presente metafísico demarca historicamente o antes e o  depois, separando o passado e o futuro na existência de cada um. Por um mecanismo psicológico complexo o tempo passado é arquivado com rigidez marmórea, em algum escaninho do servomecanismo biopsíquico do homem; enquanto o tempo futuro é reconhecido como projeto sujeito a mudanças antes de tornar-se passado. Os segmentos imediatos do antes (passado) e do depois (futuro) permanecem no “agora”. O primeiro vivido como vivência do passado mais recente, e o segundo como expectativa do que há de vir no momento seguinte, ambas (vivência e expectativa) guardadas em arquivo provisório num lugar qualquer do córtex cerebral. Esta descrição do dinamismo do vir a ser consciente é uma tentativa de representar a complexidade biopsíquica social e espiritual da subjetividade, experimentada como o “agora” que representa na prática o presente psicológico.  Seria insensato ocupar esse intervalo virtual com fantasias inspiradas em lembranças deprimentes ou expectativas sinistras. O presente metafísico ou eterno por ser atemporal é um ponto de observação do qual a consciência identifica a cronologia do tempo físico. Dele descortinam-se lembranças e expectativas que se sucedem, dando a impressão de um movimento temporal do passado para o futuro. O presente eterno (janela da eternidade) tem como representação subjetiva uma vivência permanente de ser[2]. Mas é no agora que vivemos nossas experiências históricas rotineiras ou criativas, cultas, inteligentes, agradáveis ou desagradáveis que materializam o sentimento de ser, de estar vivo, em pleno gozo da liberdade.
Este preâmbulo serve como introdução à compreensão das experiências psicossociais e das introspecções que, dia após dia, preenchem a existência feita de escolhas. A partir do advento da consciência crítica o indivíduo estabelece certa distância subjetiva entre seu ser mais íntimo e a realidade, por isso, capacita-se a julgá-la (a realidade) e fazer escolhas. Então, defronta-se com a interrogação que a vida lhe faz sobre o sentido que deseja imprimir à sua existência. Esta é uma questão cuja resposta não é redutível a um jogo lógico de ideias claras, ela é mais um acorde temático na construção do vir a ser pessoal. Ninguém pode ter certeza absoluta do acerto e consequências da sua resposta à pergunta que lhe faz a vida. A escolha inerente (a resposta) depende de muitas influências positivas umas e negativas outras. É preciso sentir as sutilezas e peculiaridades da existência de cada um, antes de avaliar o trágico ou o patético dos encontros e desencontros que se multiplicam sob todas as bandeiras e sob todos os credos. O reconhecimento da contingência humana é fundamental para a prática da tolerância caridosa que enriquece a solidariedade.
Escapa ao sujeito do conhecimento a essência das coisas, mas não lhe passa despercebida a intuição nebulosa de uma totalidade organizada universal, na qual se apoia a crença em que tudo tem um sentido. Assim a vida consciente tem um sentido no contexto evolucionário, mas à consciência pessoal de cada um cabe descobri-lo (o sentido) e torná-lo presente no mundo através do vir a ser existencial.  Quando a resposta do eu consciente é responsável, contextualizada num todo universal estruturado criativamente significativo garante ao eu agente uma vivência de paz e dignidade mais convincentes do que as certezas racionais. Nesta perspectiva, elabora-se o sentimento de autoestima que flutua ao sabor da eficiência dos esforços empreendidos para manter a coerência da contextualização histórica do que devemos e queremos fazer das nossas vidas. A autoestima se apoia na capacidade de integrar os valores assumidos na dinâmica estrutural psicossocial inerente à realização existencial de cada um, e se confirma subjetivamente mediante a vivência de significação pessoal. Isso implica na definição dos valores em torno dos quais construímos nossas existências. Na prática, esta contextualização se dá no processo da “individuação”[3]. Processo que é eminentemente cultural, portanto envolve sempre antecedentes que nos oferecem fórmulas comportamentais já formatadas. Todavia, nas decisões magnas que ultrapassam a rotina cultural, o sujeito consciente está só e não tem outra garantia para o acerto de suas escolhas além da autoridade ética que ele mesmo se outorga. Quando elas não recebem a chancela dos hábitos e valores culturalmente consagrados, contrariando o que ficou estabelecido culturalmente, batem de frente com a orientação da sociedade organizada sob outra visão de mundo já consagrada. Neste confronto, a sociedade fecha os olhos para toda verdade nova que  contrarie suas crenças, hábitos e costumes. Jesus é o exemplo extremo mais emblemático dessa disputa. Todos sabemos o Seu sacrifício pessoal para sustentar as verdades soberanas que pregou. Talvez este  saber tenha sido a razão que levou Guimarães Rosa a dizer em seu livro[4] que “Viver é muito perigoso”.
                                   Everaldo Lopes





[1] O tempo cósmico no qual os seres sensíveis acontecem; em oposição ao tempo metafísico em que  o presente é uma janela da eternidade que se abre no tempo cósmico.
[2] Enquanto privamos da consciência lúcida, cada um se sente, em essência, o mesmo, da infância à adultidade, não importando que o nosso corpo físico tenha mudado inteiramente morfológica e substancialmente. Ninguém depois de algumas décadas possui um só dos átomos de sua composição bioquímica na infância, mas, não se altera a vivência do “si mesmo”, ou self, centro de toda personalidade, para Jung.  
[3] Processo por meio do qual uma pessoa se torna consciente de sua individualidade, de acordo com C.G. Jung (1875-1961)


[4] “Grande Sertão:Veredas!

domingo, 17 de novembro de 2013

Introspecção reveladora



Saber-se finito implica numa preocupação permanente para o homem embora, por  um mecanismo de defesa compreensível, a maior parte do tempo esse conhecimento permaneça  oculto pelo manto do esquecimento. O objetivo é fugir da angústia existencial que acompanha a consciência da finitude. Este texto pretende abordar a questão expondo-a objetivamente, sem dramaticidade, apontando as alternativas existenciais inerentes à realidade da condição humana.
Para o ser consciente reflexivo é insensata a pretensão de ficar indiferente à morte biológica como fim definitivo; o homem não aceita, naturalmente, a própria destruição. Daí ser o medo de morrer o maior dentre os temores que afligem o ser humano. Mas precisamos aprender a lidar com este medo para conviver com ele sem perder o gosto pela vida, ou cair em depressão. Torna-se, portanto, relevante a questão de como o ser consciente reflexivo trabalhará a contradição entre o desejo de viver e a certeza do fim inexorável. Estamos convencidos de que, baseado na objetividade puramente fenomênica o homem jamais alcançará amenizar sua angústia existencial. O racionalismo radical limita no agnóstico a elaboração resolutiva dos sentimentos despertados pela consciência incômoda de ter vindo ao mundo sem pedir, e dele ter de sair sem querer, todavia veremos que é possível pelo menos suavizar o desconforto resultante, assumindo a dimensão espiritual do homem.
Desde as primeiras manifestações na história da sua evolução o homem deixou indícios de comportamentos que testemunham a crença na sobrevivência do seu “ser” mais íntimo à morte biológica.   A visão materialista da realidade pode arguir de loucura a afirmação dessa transcendência. Porém, uma vez que não se pode negá-la racionalmente[1], é mais inteligente admitir a ideia da essência espiritual do homem. Por sua imaterialidade o espírito não pode ser abordado cientificamente. A sua presença só é acessível à experiência humana mediante um ato de fé, ou seja, a crença numa realidade que não se pode provar objetivamente. Uma vez consumada, a fé na dimensão espiritual do homem se opõe à vivência do espectro de uma resolução pessimista do vir a ser humano. Isto não muda a realidade temporal do ser consciente, mas amplia as perspectivas existenciais. Esta postura é, no mínimo, mais salutar do que descartar sem provas de sua inexistência um absoluto transcendental. Todavia o ato de fé exige certo grau de ingenuidade; não exatamente a espontânea que caracteriza a inocência infantil, mas sim aquela em que, por opção, o adulto reconhece o valor da imaginação e da criatividade na solução dos problemas existenciais. Conferindo o status de realidade a uma criação subjetiva, o ser consciente constrói um porto seguro para suas incertezas. Lamentavelmente, muitos nos negamos a bancar esta ingenuidade adulta, aliás, nem tão ingênua assim, face ao suporte de especulações metafísicas pertinentes[2]. Assim como, embora a psicodinâmica da fé autêntica escape a uma análise racional, o sentimento de plenitude existencial inerente à crença num Absoluto acolhedor que resume toda perfeição demonstra ser real o objeto de fé implícito na experiência mística. À falta da expectativa de realização existencial plena, muitos de nós em algum momento somos assaltados por instantes depressivos que bloqueiam a aspiração à completa felicidade. Todavia, a consciência e a responsabilidade definitórias da condição humana nos exigem construir uma existência que valha a pena ser vivida. Em verdade, para viver em plenitude é preciso estar empolgado por uma paixão que enriqueça com um sentido construtivo nossa permanência neste mundo efêmero. As paixões sensuais que se sobrepõem à lucidez e à razão são auto limitadas e não têm repercussão existencial duradoura. Elas têm um começo e um fim previsíveis, e sofrem o impacto do envelhecimento. Mas não há limite de idade para as paixões espirituais que buscam a perfeição nos valores essenciais. Estas são duradouras e sempre renovadas. Impõe-se, portanto a necessidade de cultiva-las para não deixar que se aprofunde com a idade um sentimento pobre de fim de festa. Afinal, a solução do problema humano não se resolve num equacionamento racional, filosófico, materialista, mas numa experiência mística que envolve os dois epicentros da parábola existencial, a razão e a fé[3] fertilizadas pela imaginação criadora. Portanto não podemos descartar o objeto de fé simplesmente porque a razão não o alcança, todavia, sendo a fé inadministrável não podemos por um simples ato de vontade conferir realidade existencial a um artigo de fé tal como o TU[4]  absoluto indispensável à experiência mística. Daí dizer-se que a fé é uma graça[5]; não alcançaremos professá-la sem ajuda de imponderáveis que não controlamos. Daí o valor inestimável para o vir a ser existencial, da esperança de uma intervenção divina na intimidade subjetiva do ser humano, que para os incrédulos demanda uma crença ingênua inerente ao pensamento mágico. Contudo, a própria razão denota ser tolo ficar na contramão dos indícios implícitos na realidade conhecida a que temos acesso, que apontam para um absoluto inacessível à razão[6]. Absoluto criador que o orgulho racional recusa aceitar no âmbito estreito do agnosticismo empírico, postura negativa que não traz vantagem para a paz interior do homem. De uma forma ou de outra é preciso caminhar ao encontro da velhice e da morte, com ou sem fé, mas com dignidade (por auto respeito).
Estava eu para encerrar estes comentários quando me caiu nas mãos um opúsculo intitulado Meditação Cristã, contendo três conferências sobre a meditação contemplativa, na linha oriental, e um posfácio acerca de Dom John Main[7], autor das Conferências. A leitura deste pequeno livro remeteu-me à experiência mística sugerida anteriormente neste texto como evento inadministrável, agora com uma ressalva, a de podermos nos tornar suscetíveis à sua emergência mediante uma meditação contemplativa (oração).  Neste opúsculo encontrei ideias, exemplos, testemunhos que proporcionam elementos para um vislumbre das possibilidades imensas que se escondem na subjetividade humana, lá onde se misturam pensamentos lógicos, sentimentos, intuições e desejos. Adverti-me de que se nos dispusermos a explorar essas possibilidades descobriremos recursos psíquico-afetivos insuspeitos. A experiência oriental milenar demonstra que a simplicidade da recitação de um mantra (prática da oração contemplativa) abre uma brecha na não administrabilidade do enlevo místico. Na meditação profunda se dá uma experiência subjetiva na qual o sentido do sagrado que perpassa o cosmo é percebido como vivência convincente do que não se pode verbalizar. Não se trata de entendê-lo ou explica-lo, mas de vivê-lo numa intuição da harmonia que se esconde nas contradições inerentes à percepção da realidade fenomênica tal como ela se nos apresenta cientificamente.  Neste plano está próximo da compreensão da realidade última aquele que reconhece humildemente a própria ignorância diante dos mistérios do Universo e da vida. Entretanto, mais perto ainda da verdade suprema estará quem for capaz de ultrapassar a barreira da lógica racional à compreensão das contradições da existência, intuindo a unidade de tudo numa vivência marcada pela fé.
É equivocada a ideia de ser a obediência a preceitos éticos o caminho de ouro da perfectibilidade humana; esta obediência jamais levará às primícias de uma experiência de integração na unidade do absoluto transcendental no qual se realiza a plenitude existencial. Para ser transformante, a relação das criaturas com seu criador deverá ser ontológica e não ética. É na vida (ação, dinamismo) que as coisas acontecem pra valer, e não no cultivo de paradigmas teóricos assumidos intelectualmente como propostas éticas. O “Seja feita a Tua vontade” do Mestre dos mestres em hora de muito sofrimento não se concretiza na obediência a preceitos, mas no mergulho confiante, gratuito, na perfeição a que aspira o homem. A assimilação pacífica do absurdo racional (pela fé) abre espaço para a experiência mística na qual se completa a realização existencial. Historicamente é notória a aposta de Pascal no absurdo lógico de um Absoluto transcendental. Mediante esta opção salva-se a integridade existencial.
A vocação da humanidade é manifestar através de um servomecanismo altamente complexo (Sistema Nervoso Central) lavrado na matéria viva a dimensão transcendental cifrada no Universo. Nesta manifestação a paixão dos sentidos se volatiliza, transmutando-se num arrebatamento espiritual que projeta o “si mesmo”[8] para além da dimensão espaço temporal, desfazendo a distinção entre a consciência e o mundo.

 Everaldo Lopes.


[1] Do ponto de vista estritamente racional é impossível afirmar ou negar com certeza a existência de um absoluto transcendental.
[2] Vide neste blog os textos intitulados “Devaneios especulativos”.
[3] “E um dia, oceano em calma, a humanidade inteira há de fazer, numa só aspiração reunida, da razão e da fé os dois olhos da alma, da verdade e da crença os dois polos do mundo.”(Guerra Junqueiro)
[4] Um Alter Ego transcendental (Deus).
[5] dom que Deus concede aos homens e que os torna capazes de alcançar a salvação

[6] Afinal, como explicar a origem do cosmo uma vez que ele não se  explica por si mesmo, nem a ordem universal sugestiva das leis que comandam o infinitamente grande, o infinitamente pequeno e o infinitamente complexo?
[7] Monge beneditino Irlandês nascido em Londres (1926 a 1982).
[8] Self, o núcleo pessoal de cada um.