domingo, 17 de novembro de 2013

Introspecção reveladora



Saber-se finito implica numa preocupação permanente para o homem embora, por  um mecanismo de defesa compreensível, a maior parte do tempo esse conhecimento permaneça  oculto pelo manto do esquecimento. O objetivo é fugir da angústia existencial que acompanha a consciência da finitude. Este texto pretende abordar a questão expondo-a objetivamente, sem dramaticidade, apontando as alternativas existenciais inerentes à realidade da condição humana.
Para o ser consciente reflexivo é insensata a pretensão de ficar indiferente à morte biológica como fim definitivo; o homem não aceita, naturalmente, a própria destruição. Daí ser o medo de morrer o maior dentre os temores que afligem o ser humano. Mas precisamos aprender a lidar com este medo para conviver com ele sem perder o gosto pela vida, ou cair em depressão. Torna-se, portanto, relevante a questão de como o ser consciente reflexivo trabalhará a contradição entre o desejo de viver e a certeza do fim inexorável. Estamos convencidos de que, baseado na objetividade puramente fenomênica o homem jamais alcançará amenizar sua angústia existencial. O racionalismo radical limita no agnóstico a elaboração resolutiva dos sentimentos despertados pela consciência incômoda de ter vindo ao mundo sem pedir, e dele ter de sair sem querer, todavia veremos que é possível pelo menos suavizar o desconforto resultante, assumindo a dimensão espiritual do homem.
Desde as primeiras manifestações na história da sua evolução o homem deixou indícios de comportamentos que testemunham a crença na sobrevivência do seu “ser” mais íntimo à morte biológica.   A visão materialista da realidade pode arguir de loucura a afirmação dessa transcendência. Porém, uma vez que não se pode negá-la racionalmente[1], é mais inteligente admitir a ideia da essência espiritual do homem. Por sua imaterialidade o espírito não pode ser abordado cientificamente. A sua presença só é acessível à experiência humana mediante um ato de fé, ou seja, a crença numa realidade que não se pode provar objetivamente. Uma vez consumada, a fé na dimensão espiritual do homem se opõe à vivência do espectro de uma resolução pessimista do vir a ser humano. Isto não muda a realidade temporal do ser consciente, mas amplia as perspectivas existenciais. Esta postura é, no mínimo, mais salutar do que descartar sem provas de sua inexistência um absoluto transcendental. Todavia o ato de fé exige certo grau de ingenuidade; não exatamente a espontânea que caracteriza a inocência infantil, mas sim aquela em que, por opção, o adulto reconhece o valor da imaginação e da criatividade na solução dos problemas existenciais. Conferindo o status de realidade a uma criação subjetiva, o ser consciente constrói um porto seguro para suas incertezas. Lamentavelmente, muitos nos negamos a bancar esta ingenuidade adulta, aliás, nem tão ingênua assim, face ao suporte de especulações metafísicas pertinentes[2]. Assim como, embora a psicodinâmica da fé autêntica escape a uma análise racional, o sentimento de plenitude existencial inerente à crença num Absoluto acolhedor que resume toda perfeição demonstra ser real o objeto de fé implícito na experiência mística. À falta da expectativa de realização existencial plena, muitos de nós em algum momento somos assaltados por instantes depressivos que bloqueiam a aspiração à completa felicidade. Todavia, a consciência e a responsabilidade definitórias da condição humana nos exigem construir uma existência que valha a pena ser vivida. Em verdade, para viver em plenitude é preciso estar empolgado por uma paixão que enriqueça com um sentido construtivo nossa permanência neste mundo efêmero. As paixões sensuais que se sobrepõem à lucidez e à razão são auto limitadas e não têm repercussão existencial duradoura. Elas têm um começo e um fim previsíveis, e sofrem o impacto do envelhecimento. Mas não há limite de idade para as paixões espirituais que buscam a perfeição nos valores essenciais. Estas são duradouras e sempre renovadas. Impõe-se, portanto a necessidade de cultiva-las para não deixar que se aprofunde com a idade um sentimento pobre de fim de festa. Afinal, a solução do problema humano não se resolve num equacionamento racional, filosófico, materialista, mas numa experiência mística que envolve os dois epicentros da parábola existencial, a razão e a fé[3] fertilizadas pela imaginação criadora. Portanto não podemos descartar o objeto de fé simplesmente porque a razão não o alcança, todavia, sendo a fé inadministrável não podemos por um simples ato de vontade conferir realidade existencial a um artigo de fé tal como o TU[4]  absoluto indispensável à experiência mística. Daí dizer-se que a fé é uma graça[5]; não alcançaremos professá-la sem ajuda de imponderáveis que não controlamos. Daí o valor inestimável para o vir a ser existencial, da esperança de uma intervenção divina na intimidade subjetiva do ser humano, que para os incrédulos demanda uma crença ingênua inerente ao pensamento mágico. Contudo, a própria razão denota ser tolo ficar na contramão dos indícios implícitos na realidade conhecida a que temos acesso, que apontam para um absoluto inacessível à razão[6]. Absoluto criador que o orgulho racional recusa aceitar no âmbito estreito do agnosticismo empírico, postura negativa que não traz vantagem para a paz interior do homem. De uma forma ou de outra é preciso caminhar ao encontro da velhice e da morte, com ou sem fé, mas com dignidade (por auto respeito).
Estava eu para encerrar estes comentários quando me caiu nas mãos um opúsculo intitulado Meditação Cristã, contendo três conferências sobre a meditação contemplativa, na linha oriental, e um posfácio acerca de Dom John Main[7], autor das Conferências. A leitura deste pequeno livro remeteu-me à experiência mística sugerida anteriormente neste texto como evento inadministrável, agora com uma ressalva, a de podermos nos tornar suscetíveis à sua emergência mediante uma meditação contemplativa (oração).  Neste opúsculo encontrei ideias, exemplos, testemunhos que proporcionam elementos para um vislumbre das possibilidades imensas que se escondem na subjetividade humana, lá onde se misturam pensamentos lógicos, sentimentos, intuições e desejos. Adverti-me de que se nos dispusermos a explorar essas possibilidades descobriremos recursos psíquico-afetivos insuspeitos. A experiência oriental milenar demonstra que a simplicidade da recitação de um mantra (prática da oração contemplativa) abre uma brecha na não administrabilidade do enlevo místico. Na meditação profunda se dá uma experiência subjetiva na qual o sentido do sagrado que perpassa o cosmo é percebido como vivência convincente do que não se pode verbalizar. Não se trata de entendê-lo ou explica-lo, mas de vivê-lo numa intuição da harmonia que se esconde nas contradições inerentes à percepção da realidade fenomênica tal como ela se nos apresenta cientificamente.  Neste plano está próximo da compreensão da realidade última aquele que reconhece humildemente a própria ignorância diante dos mistérios do Universo e da vida. Entretanto, mais perto ainda da verdade suprema estará quem for capaz de ultrapassar a barreira da lógica racional à compreensão das contradições da existência, intuindo a unidade de tudo numa vivência marcada pela fé.
É equivocada a ideia de ser a obediência a preceitos éticos o caminho de ouro da perfectibilidade humana; esta obediência jamais levará às primícias de uma experiência de integração na unidade do absoluto transcendental no qual se realiza a plenitude existencial. Para ser transformante, a relação das criaturas com seu criador deverá ser ontológica e não ética. É na vida (ação, dinamismo) que as coisas acontecem pra valer, e não no cultivo de paradigmas teóricos assumidos intelectualmente como propostas éticas. O “Seja feita a Tua vontade” do Mestre dos mestres em hora de muito sofrimento não se concretiza na obediência a preceitos, mas no mergulho confiante, gratuito, na perfeição a que aspira o homem. A assimilação pacífica do absurdo racional (pela fé) abre espaço para a experiência mística na qual se completa a realização existencial. Historicamente é notória a aposta de Pascal no absurdo lógico de um Absoluto transcendental. Mediante esta opção salva-se a integridade existencial.
A vocação da humanidade é manifestar através de um servomecanismo altamente complexo (Sistema Nervoso Central) lavrado na matéria viva a dimensão transcendental cifrada no Universo. Nesta manifestação a paixão dos sentidos se volatiliza, transmutando-se num arrebatamento espiritual que projeta o “si mesmo”[8] para além da dimensão espaço temporal, desfazendo a distinção entre a consciência e o mundo.

 Everaldo Lopes.


[1] Do ponto de vista estritamente racional é impossível afirmar ou negar com certeza a existência de um absoluto transcendental.
[2] Vide neste blog os textos intitulados “Devaneios especulativos”.
[3] “E um dia, oceano em calma, a humanidade inteira há de fazer, numa só aspiração reunida, da razão e da fé os dois olhos da alma, da verdade e da crença os dois polos do mundo.”(Guerra Junqueiro)
[4] Um Alter Ego transcendental (Deus).
[5] dom que Deus concede aos homens e que os torna capazes de alcançar a salvação

[6] Afinal, como explicar a origem do cosmo uma vez que ele não se  explica por si mesmo, nem a ordem universal sugestiva das leis que comandam o infinitamente grande, o infinitamente pequeno e o infinitamente complexo?
[7] Monge beneditino Irlandês nascido em Londres (1926 a 1982).
[8] Self, o núcleo pessoal de cada um.

sábado, 2 de novembro de 2013

Analogia feliz



Entre os mistérios da vida sobressai a consciência reflexiva. Analisando este fenômeno singular é impossível estabelecer os limites funcionais entre as atividades biológicas e psíquicas. Impossibilidade que leva a cogitações metafísicas sobre a fronteira entre o espírito e a matéria, ensejando reflexões acerca da origem de tudo. Fundamento da condição humana, a consciência reflexiva abre as portas para o conhecimento racional e a comunicação. Só o ser humano sabe que sabe e é capaz de construir uma linguagem[1] completa através da qual comunica suas ideias, emoções e sentimentos.
Conhecemos o mundo através dos sentidos. As sensações produzidas pelos objetos são percebidas no córtex cerebral como “termos mentais”, conceitos que são representados por palavras, unidades mínimas da linguagem com som, e significado completo. Este processo é permeado por símbolos que associam imagens sonoras a significados específicos. Os símbolos transitam na subjetividade humana mais profunda como elos que fazem a intermediação entre a sensação[2] e a percepção[3]. A codificação simbólica que antecede a palavra é o ponto de partida da articulação de uma linguagem representativa da realidade. O processo abstrato que preside o  conhecimento e a linguagem revela desde sua origem um psicodinamismo impermeável à compreensão lógica causal. Envolve múltiplas experiências cumulativas vividas pelo homem em milênios de evolução, que deixaram marcas impressas na subjetividade, mixando intelecção, sensações, emoções e sentimentos. Neste nível de complexidade, fazendo uma extrapolação metafísica, nem os recursos científicos mais avançados serão capazes de demonstrar o ponto de corte entre o psíquico (espírito) e o biológico (matéria).
A comunicação entre as pessoas na convivência familiar, profissional, social enfim vale-se da linguagem oral e de modelos culturalmente estabelecidos.  Na produção artística fruto da intuição criativa original de caráter estético, os romancistas, contistas, poetas comunicam suas experiências pessoais mediante a linguagem escrita. Mas os textos criados permanecem desconhecidos enquanto não são editados em livro, revista ou outra forma de publicação.
Li certa vez uma composição literária elaborada com mestria[4] em que o autor descreve a analogia da relação entre o texto e o livro, com a relação que existe entre a alma e o corpo. Transcrevendo a inspiração criativa, abstrata na sua origem, o texto[5] ganha alma que se corporifica na edição em livro, revista, CD, pen drive ou outra modalidade editorial. Mutatis mutandis, evolutivamente, as funções psíquicas superiores (pensamento, intuição, criatividade) eminentemente espirituais não ganham visibilidade senão através da estrutura biológica extremamente complexa do sistema nervoso central e do córtex cerebral, denunciando a intimidade misteriosa espírito / matéria. A analogia inscrita em “O verso indelével” (a composição literária há pouco referida e identificada em nota de rodapé) exemplifica de maneira simples a unidade inextrincável e inexplicável ostensiva no homem, da transcendência (espiritual) e  da imanência (material).  A edição do texto comunicativo em livro ou outras formas de publicação serve como uma luva para representar, analogicamente, a integração alma e corpo (espírito e matéria) que tem sua máxima revelação na condição humana. 
A linguagem, como meio de expressão e comunicação do resultado das operações intelectuais e afetivas atinge um nível de tal precisão entre os humanos que se tornou uma característica da espécie. Contudo, os símbolos que estruturam a linguagem escondem mensagens que escapam ao reconhecimento da consciência clara. Por isso os verbetes[6] são interpretações aproximadas do vocábulo dicionarizado, sempre aquém da extensão significativa do termo mental, o conceito resultante de uma percepção. É impossível descrever o que ocorre no recesso obscuro da subjetividade inconsciente onde as sensações se transformam em percepções representadas pelos vocábulos utilizados na linguagem comunicativa. Constrói-se assim a singularidade do humano inerente à capacidade de conhecer e de codificar os símbolos em uma linguagem que possibilita a comunicação entre os indivíduos. Idiomas diferentes recorrem a formas diversas para representar a imagem sonora ou gráfica das percepções humanas. Mas todos os idiomas codificam os mesmos símbolos arquetípicos universais que se manifestam nos temas oníricos e na transcrição artística de intuições reveladoras das profundezas insondáveis da subjetividade. Esse assunto encerra segredos desafiadores. No fundo, a integração essencial corpo e alma no ser humano, assim como na literatura a unidade da inspiração e do texto que lhe corresponde editado em livro, não é uma soma, nem a mistura que resulta num composto, constitui-se num todo inconsútil incompreensível para a razão pura. É impossível distinguir a intuição original de sua transcrição em signos linguísticos nos textos editados numa publicação. Escapa à mais acurada observação a passagem da intuição artística (puro pensamento coadjuvado pela emoção estética) inerente à subjetividade, e sua expressão editorial (seja literária, seja pictórica ou escultural) inerente à realidade objetiva.
Tudo que precedeu o marco zero do espaço e do tempo (o big-bang) é imensurável, portanto não é acessível ao conhecimento objetivo. Isso, porém, não autoriza, racionalmente, negar um Princípio metafísico, “absoluto” criador do Universo. Neste ponto da especulação insinua-se a ideia da Consciência Universal, absurdo racional (por ser irredutível às leis da razão), porém, necessária para justificar a ordem que presidiu a organização evolutiva da matéria desde sua origem até o próprio homem[7]. Mal começamos a filosofar, nos deparamos com a dualidade matéria e espírito que só se desfaz, existencialmente, numa vivência integrativa.
            Em “O verso indelével” o autor fala do verso escrito como o “médium de si mesmo”. Imagino que ele quis dizer que o verso escrito incorpora a intuição artística, a alma do texto versificado, e não há como separar o estro criativo, do texto que se corporifica numa forma editorial. Portanto, o texto é a alma dele mesmo  que se revela sem intermediários. O homem também é médium de si mesmo. Em sua realidade se manifesta a transcendência absoluta, sem a qual ele mesmo não subsistiria como ser contingente. Mas, se o exercício da consciência reflexiva denuncia uma transcendência, é por sua imanência que o homem manifesta a dimensão absoluta do seu ser. Ou seja, sendo a criatura humana ao mesmo tempo imanente e transcendente, o homem histórico é, todavia, o único avalista do Absoluto que nele se manifesta. Acreditando n´Ele, assume  a Transcendência Absoluta como uma realidade de fé. Esta é a raiz do sentimento religioso maquiado pelas igrejas em rituais simbólicos, cerimônias pontuais nas quais se pretende aproximar o fiel de um Ser Absoluto. Proposta nobre, existencialmente correta que, todavia é explorada de uma maneira equivocada. Ordinariamente, as Igrejas pelo menos na sua pedagogia primária reduzem a relação do  fiel  com seu Deus a um plano ético, desfigurando a natureza ontológica desse encontro. Aliás, considerando que a criação se continua no processo evolutivo é mais plausível falar-se de Deus como um Dinamismo Absoluto Eternamente Criativo do qual o homem participa.  Uma vez que o cosmo e a vida não subsistem por si mesmos a  Criação não existiria separada do seu Criador. Assim, participando conscientemente do dinamismo criativo absoluto o homem desenvolve uma espiritualidade engajada no melhor desempenho da humanidade[8]. O indivíduo descomprometido dos rituais simbólicos das igrejas convencionais dispõe-se a vivenciar a inseparabilidade da imanência e da transcendência no seu vir a ser quotidiano, praticando a comunhão dos homens não apenas numa cerimônia religiosa, mas no contexto da convivência quotidiana de uma sociedade solidária.  Transcender-se é a essência da consciência reflexiva, mas no vir a ser existencial para realizar a intimidade Deus/homem este transcender será necessariamente vivenciado na convivência coletiva.  
A consciência reflexiva revela a intimidade espírito / matéria inexplicável, racionalmente.  Por ser absurda, esta intimidade exige do indivíduo a humildade necessária para reverenciar uma absurdidade racional, mediante um ato de fé ancorado na esperança de que no Absoluto, necessariamente, tudo se integra sem contradições.
   Everaldo Lopes.


[1] Qualquer meio sistemático de comunicar ideias ou sentimentos através de signos convencionais, sonoros, gráficos, gestuais etc.

[2] Impressão causada nos sentidos e que por via aferente é conduzida ao córtex cerebral.
[3] Conhecimento adquirido através dos sentidos.
[4] “O verso indelével” no blog Mundo Fantasmo de Bráulio Tavares.
[5] Conjunto de palavras  e frases escritas.
[6] Verbete- conjunto de acepções e exemplos  respeitantes a um vocábulo dicionarizado.
[7] Este tema foi abordado em “Devaneio especulativo I,II,III” neste blog.
[8] Conjunto de características específicas da natureza humana

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Dramas da vida consciente



A consciência reflexiva coloca o homem no centro da incerteza. A existência, modo de ser consciente e responsável peculiar do homem envolve escolhas e decisões. Elaboradas a partir do confronto de cada indivíduo com sua circunstância, elas devem atender aos desejos pessoais, respeitando os valores éticos assumidos por seus atores. Este processo disciplinar não é pacífico; o comportamento moral encerra interdição de anseios, ambições e apetites que contrariam os valores eleitos. Assim se define o vir a ser pessoal que implica em contínua vigilância.  Mas nem sempre temos o conhecimento exato dos elementos da escolha que fazemos. As dúvidas são frequentes. E em função da sensibilidade moral de cada um diante de suas opções, a autoavaliação comportamental resulta em vivências de paz interior, ou de culpa e arrependimento. Nesse contexto se desenvolve a responsabilidade existencial.
Paralelamente aos conflitos éticos, o homem sabe que o seu equilíbrio biológico é instável, e está permanentemente ameaçado pela probabilidade maior ou menor de doenças e acidentes. A insegurança resultante da consciência desse fato é fonte de temores e angústias. Diante das incertezas existenciais e da precariedade biológica, é latente no subjetivismo humano a aspiração a poder amenizar a consciência aflitiva das dúvidas diante das alternativas existenciais conflitantes, e a suavizar o impacto provocado pela noção da fragilidade biológica.  O homem aspira à vivência do momento libertador de aceitação tranquila de todos os percalços derivados da sua vulnerabilidade como ser contingente, inclusive a própria finitude. Ao mesmo tempo se impõe a pergunta inquietante: seria isso possível?
            Pela consciência de sua temporalidade, o ser humano  está condenado  a viver o drama da insegurança diante da possibilidade de riscos imprevisíveis, inclusive o de morrer sem qualquer aviso prévio. Seguramente, no vir a ser incerto há uma margem variável de controle sempre limitada.  Porém, mesmo quando as dificuldades desse devir sem garantia são superadas durante toda uma vida, o homem sofre,  inevitavelmente, como qualquer ser perecível, os efeitos da corrosão do tempo. A idade  lhe vai roubando, uma após outra, as probabilidades de desfrutar as alegrias do viver apaixonado. Até mesmo os que ultrapassam a década dos oitenta com vitalidade para apaixonar-se e atuar socialmente são vistos por muitos como exemplares raros que provocam nos circunstantes, no mínimo, a emoção de quem se depara com um fenômeno incomum. É difícil evitar a comoção disfarçada do observador mais jovem ante o interlocutor envelhecido! Suficientemente crítico dos seus limites biológicos e culturais, o próprio idoso se retrai, para não se expor a paixões consideradas extemporâneas. Por outro lado é melancólico o espetáculo do longevo ingênuo que estimulado por uma observação admirativa exibe sua vitalidade decadente. Ainda ontem, numa loja de produtos naturais, presenciei o comportamento ingênuo de um homem negro idoso. A balconista certamente para ser agradável declarou sua avaliação favorável à “juventude” do cliente que, ato contínuo, anunciou vaidoso estar nos seus “85 janeiros”. Lia-se na sua afirmação o desejo de causar admiração; e de repente fez uns dois agachamentos rápidos para justificar o acerto do julgamento de que fora alvo. Era um homem do povo cujo grau de instrução não pude avaliar bem, mas seguramente não era analfabeto e, por sua indumentária me pareceu ter condição financeira para viver decentemente. Ingênuo ou crítico em relação às próprias limitações indeclináveis o homem vai elaborando como pode as incertezas e inseguranças,  de acordo com sua personalidade e seu nível intelectual.
O fato que acabo de relatar comprova que há uma tendência cultural a sustentar a autoestima alimentando a fantasia de prolongar a juventude que do ponto de vista biológico é impossível conservar indefinidamente. Essa disposição, só pode levar, mais cedo ou mais tarde a uma decepção dolorosa. Antes que as limitações físicas e intelectuais que  acometem a maioria dos que vivem muitos anos os incapacitem, algumas fantasias transitórias ainda inflam o ego de muitos dos maiores de sessenta, e os compensam, momentaneamente, do sentimento de envelhecimento irreversível. Porém uma forma mais efetiva de driblar a saudade da juventude é a projeção do idoso nos seus descendentes ou, na falta destes, nos seus discípulos. E, melhor ainda será, havendo condições, que o longevo mantenha uma atividade criativa, seja de ordem prática, intelectual ou artística. Obviamente, todo esforço empreendido, com dignidade, no sentido de elaborar a vivência depressiva induzida pela ação corrosiva do tempo representa um conjunto de atitudes e ações que convergem, contribuindo para manter elevada a autoestima. Esta convergência, idealmente, alinha as potencialidades intelectivas, intuitivas, emocionais e volitivas no sentido de alimentar o sentimento de integração pessoal num todo significativo. Afinal a existência se constrói em torno de valores, e apoiar neles o sentido de sua vida é a missão de todo homem. O fracasso desta empreitada heroica é aflitivo; de tão devastador, arrisco-me a dizer que o fato de não conseguir dar um sentido para a própria vida é uma das principais razões porque alguns homens se matam. Sentido que corresponde a um ideal transcendental, não cabe num objetivo temporal. Pelo que se sabe não há registro cientificamente comprovado da evidência de que o animal irracional ponha fim aos seus dias de vida, deliberadamente. O homem é o único animal que comete suicídio; e também o único ao qual é conferido o poder de dar um sentido à própria vida. Por isso, seja qual for sua explicação, o suicídio nunca será uma resposta ética no roteiro da Evolução da vida.
Ao homem cabe alimentar a aspiração ao ideal do perfeito equilíbrio da razão, do sentimento e da vontade, necessário à aceitação criativa dos percalços da existência. O coroamento desta aceitação é o sentimento de amoroso desapego à vida, do qual santos e heróis nos deixaram testemunhos inolvidáveis. Conquista laboriosa que tangencia a  experiência mística e se constitui numa resposta definitiva às dificuldades existenciais. Um apoio racional para esse apelo à fé numa transcendência é a especulação metafísica sobre a “ordem” impressa na evolução da matéria desde o big-bang. A constatação dessa ordem leva à conclusão da necessidade racional de admitir a preexistência de uma intenção (não há ordem sem intenção) que por sua vez demanda necessariamente a consciência universal (não há intenção sem consciência) de um plano perfeito, que se define como entidade eminentemente espiritual. Neste Blog já falamos, detalhadamente, sobre o que pensamos  a esse respeito, nos três textos  nomeados  “Devaneios  especulativos I, II e III”. A alternativa materialista seria a atitude estoica de viver os limites inevitáveis da vida, corajosa e desamparadamente, respeitando os valores universais numa postura nobre, porém muito solitária e triste.
Racionalmente, é fácil conceber a necessidade lógica de um “dinamismo absoluto eternamente criativo” que, pela perfeição do projeto em execução é uma garantia de que nada existe em vão e de que os males do mundo são intervalos entre um bem menor e outro maior. Mas para que o homem absorva, emocionalmente, uma postura de entrega à perfeição desse “dinamismo” é preciso que ocorram no seu subjetivismo mudanças psicodinâmicas profundas representadas pela integração das potências psíquicas. A dificuldade maior do homem para mergulhar numa experiência mística é sua incapacidade de se auto induzir os eflúvios de um envolvimento afetivo que preencha os espaços da relação confiante com uma transcendência absoluta vivenciada como seu Alter Ego.  Íntimo e misericordioso este Alter Ego tem a mesma natureza da Transcendência indispensável à subsistência da própria experiência temporal do ser consciente.  A essência espiritual é comum à consciência reflexiva e ao Alter Ego. Ou seja, a própria experiência temporal só é possível pela presença dessa transcendência absoluta. Ela garante a subsistência da contingência psicodinâmica, denunciando-se no “presente eterno” temporalmente indefinível, comparável a um corte no tempo que se intui como um referencial  abstrato, imóvel, a dividir a duração cósmica entre o passado e o futuro. Sendo atemporal, este corte é percebido, indiretamente no “agora”, o nosso presente psicológico, representado em cada momento pela vivência do passado e do futuro imediatos.
                                   Everaldo Lopes