quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Equívoco na prática religiosa



Os Evangelhos encerram valores morais e a promessa de salvação eterna a troco da adesão existencial às verdades reveladas. As Igrejas se fazem guardiãs desta verdades e se propõem divulga-las. A proposta contida nas suas homilias subentende, também, boa sorte nos negócios, saúde pessoal e familiar. Estas expectativas identificam-se com a ideia de “ter mais”. Todavia o propósito central da pregação é estimular a determinação pessoal de “ser mais” através da prática do amor dos homens entre si e a Deus sobre todas as coisas. Este objetivo grandioso tropeça em dificuldades. A pregação não tem força para inspirar amor e  solidariedade. Diga-se a propósito, a bem da verdade: o amor não se ensina. Não há como fazê-lo brotar no espírito de alguém se ele já não estiver lá à espera de uma oportunidade para manifestar-se. São notórias as limitações pedagógicas da ensinança de uma mensagem existencial de amor. Aliás, em si mesma a mensagem é apenas um recado verbal ou escrito; a  internalização[1] pessoal do seu conteúdo é  que não se ensina e faz a diferença nos processos de individuação e socialização do homem.  Em face da dificuldade de promover motivação eficaz para as práticas virtuosas (que sempre exigem mobilização da vontade, quando não são espontâneas) os pregadores acabam enfatizando o castigo ao qual se expõem os pecadores. E o sermão dos pastores assume um tom moralista, focalizando valores éticos cuja transgressão caracteriza o pecado.
Embora não se possa projetar uma pedagogia do amor[2], é imperativa a adoção de modelos de homilia que ponham o indivíduo a discutir consigo mesmo sua intimidade essencial com Deus, numa perspectiva comunitária. O Grande Mestre utilizava parábolas para doutrinar seus discípulos, levando-os a refletir acerca da narrativa alegórica...  
Nas práticas eclesiais incidem outras dificuldades além das pedagógicas. Por exemplo, o processo de captação dos recursos materiais para custeio da manutenção do culto enseja interpretação ambígua.  E para os fieis criticamente conscientes é difícil desfazer a perplexidade. Em outras palavras, as igrejas têm necessidade de numerário para manter seus serviços. Isso as leva a pedir donativos. Tudo bem. Mas a pretexto de custear a “onerosa” pregação do Evangelho que hoje utiliza tecnologia dispendiosa (Rádio, TV etc.) muitos pastores insistem na importância da ajuda financeira solicitada, envolvendo os fieis com um discurso aliciador que os faz sentirem-se obrigados a contribuir regularmente. Este apelo insistente gera recursos superavitários. Assim, a cobrança feita aos fieis pode parecer cavilosa, configurando-se formalmente como comércio promissor, num casamento bastardo entre espiritualidade e capitalismo. Lamentavelmente, os excessos de receita se confirmam veiculados pela mídia em notícias que dão conta do acúmulo de fortunas vultosas por supostos “líderes espirituais”. É fácil entender a generosidade dos fieis. Excluída uma minoria capaz de elaborar juízo crítico esclarecido, o homem comum, ameaçado pela instabilidade e incertezas do seu vir a ser, sufocado pela angústia existencial, ao procurar abrigo espiritual nas Igrejas fica vulnerável ao pedido de ajuda dos pregadores, e assume docilmente a obrigação “sagrada” de ofertar dinheiro para manter os serviços de sua Igreja. Conta com o benefício de incluir-se num grupo de irmãos pela fé, que lhe confere um sentimento de identidade social, aquietador, e a segurança da garantia anunciada de proteção divina justa e providente. Todavia face à notícia de desvios indevidos é difícil para o fiel certificar o destino real de sua doação...
Não obstante a verdade de tudo que dissemos até agora cabe aqui uma consideração importante. Ora, a angústia existencial é universal e expõe o homem a utilizar os recursos disponíveis para amenizá-la, inclusive os espúrios (uso das drogas, mergulho na luxúria desenfreada, e outros procedimentos marginais). Por isso, apesar da constatação da fragilidade doutrinária e do “comércio da fé” nas práticas de muitas igrejas somos obrigados a reconhecer que os comportamentos alternativos para driblar a angústia existencial são mais lesivos à integridade da condição humana do que a prática “religiosa”. Ainda que esta viabilize interesses paralelos pela manipulação da credulidade dos fieis, habitualmente a filiação a um credo religioso condiciona os seguidores ao comportamento social ordeiro, dentro de uma proposta de aprimoramento pessoal. Salvo os casos deploráveis historicamente registrados de rivalidades e até de lutas sangrentas entre grupos religiosos de diferentes denominações. Afinal as Igrejas são instituições humanas!
Em resumo, o “comércio da fé” no âmbito das igrejas é escandaloso do ponto de vista místico, porém para o indivíduo e para a sociedade é ainda preferível em relação aos procedimentos alternativos imprudentemente utilizados para espantar a angústia existencial. A encarnação do amor a Deus na prática do amor ao próximo é a única forma idônea de promover uma relação verdadeira com a divindade e banir a ansiedade que ronda a existência consciente da própria finitude. Então, o alvo primário da pregação religiosa deverá convergir para a estruturação solidária das relações humanas. Neste contexto, o primeiro passo é a prática do respeito recíproco e da responsabilidade entre pessoas unidas pela participação solidária na condição humana. Esta experiência ainda pode resultar, inicialmente, de um ato de vontade impulsionado pelo exercício coerente da razão. Ora este primeiro passo é essencial na construção existencial do amor[3] e configura um link entre o dever ainda controlado pela vontade e o amor soberano... Pode-se impor o dever por um ato de vontade, mas não se pode amar por imposição... Portanto, a absorção existencial do comportamento respeitoso e responsável poderá ser uma ponte para o amor fraterno, fundamento da solidariedade humana.
A propósito da luta comum a todos os homens para vencer a angústia existencial vale a pena assinalar o papel da “liberdade” na evolução desta problemática. Na discussão do comportamento humano é fundamental a distinção entre a “liberdade de”, e a “liberdade para”. A primeira (liberdade de) liberta o homem da tirania dos “dogmas” e das crendices, deixando-o livre para conduzir suas virtualidades espirituais, responsavelmente, no sentido de tornar-se alguém diferente, espera-se para melhor, mais veraz e mais justo. A segunda (liberdade para) implica na disponibilidade de o homem escolher e cultivar no seu comportamento a verdade, a justiça e a beleza, valores emblemáticos da existência plena. A má administração da “liberdade para” perverte a prática do livre arbítrio e prejudica a integração social. Conquista-se a “liberdade de” mediante um trabalho subjetivo de autoconhecimento e superação de bloqueios psíquicos. Exercita-se a “liberdade para” pela determinação voluntária de praticar os valores que dignificam o homem. Enquanto o homem não é “livre de”, não tem autonomia, não se pode responsabilizá-lo; mas quando o é torna-se “livre para”, assumir escolhas e decisões que demandam uso inteligente do conhecimento, da criatividade e da vontade resoluta.
Historicamente as Igrejas tentam institucionalizar mensagens existenciais, com o propósito de assegurar aos homens uma orientação correta e o destino transcendental de plenitude. Sabe-se todavia que não se pode institucionalizar a internalização de uma mensagem existencial. E o fracasso desta introjeção tem transformado práticas existenciais de caráter supostamente religioso, místico, numa práxis de caráter ético que não satisfaz aos anseios mais profundos da espiritualidade, mas representa a rotina da maioria dos que frequentam as igrejas. Este fato reflete uma subversão do comportamento verdadeiramente religioso. É necessário o reconhecimento de que só um ato de amor fundamenta a fé inabalável num Deus pessoal que se interessa por sua criatura, e tranquiliza o homem ante a insegurança da própria finitude e fragilidade moral. Em verdade só a intimidade amorosa com Deus é capaz de promover a plena realização do ser humano; este é o cerne da prática religiosa. O comportamento ético será apenas consequência desta realização e não uma finalidade em si mesmo. Portanto, o encontro místico implica necessariamente na “existência” eticamente exemplar, mas a recíproca não é verdadeira. A confusão destas situações torna a prática religiosa ambígua e, muitas vezes, equivocada.
 Everaldo Lopes


[1] Trazer para dentro de si, incorporar ao seu mundo interior aquilo que é exterior
[2] Os procedimentos pedagógicos do amor são praticados no lar, na escola, nas instituições sociais, mas se resumem em qualquer destas situações a um comportamento inclusivo e generoso; remetem mais ao exemplo do que ao discurso.
[3] Não há amor sem respeito e responsabilidade

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Vivência romântica



A vivência romântica resulta da resposta amorosa a um estímulo que comove sobremodo a sensibilidade afetiva e a imaginação. Geralmente envolve a estética, reflexo do belo universal revelado num detalhe da realidade que nos cerca. A experiência romântica é despertada, entre outros estímulos, ora pela harmonia de uma composição musical, ora pelo jogo de cores de uma tela, ora pela plástica do perfil humano, ora pela delicadeza do comportamento cortês. Característica da comoção romântica é a purificação da libido pelo encantamento diante das formas perfeitas que povoam o mundo sensível. Tomemos como exemplo emblemático da vivência romântica a que suscita a beleza plástica e sincronia coreográfica de um par de bailarinos movendo-se com a leveza de uma pluma, ao som de acordes inspirados!
A vivência romântica da intuição do belo absoluto é como um “transe” que não implica a excitação erótica, nem exclui o erotismo delicado equivalente a um beijo inocente. É uma experiência juvenil, vibrante, porém nada agressiva. Algo assim como um sonho bom que se gostaria de prolongar e dar-se-ia a vida para eternizá-lo, mas sabe-se que é passageiro como a própria vida. Poder-se-ia viver esta experiência durante toda uma vida sem jamais esgotar suas nuances emocionais ao mesmo tempo sensuais e virginais. Mas esta vivência pode exaurir-se num instante fugaz quando submetida aos tropeços da relação de casais.
Um elemento constante na experiência romântica é a sedução do eterno feminino, a essência do feminino simbolizando toda beleza que a Natureza pode exprimir com inesperada sutileza, provocando um deslumbramento que teme revelar-se para não poluir-se, tão delicado que não resistiria à rudeza de uma aproximação física lúbrica, nem mesmo a um pensamento erótico explícito! Tão puro quanto a vivência que evoca num adolescente a imagem angelical da jovem que inspirou seu primeiro amor.
De forma surpreendente constatamos que não há um ícone do eterno masculino porque a beleza do masculino é virtual, uma realidade configurada em nuances originais porém efêmeras. A mulher encanta por seu “ser” integral; o homem seduz por atributos ornamentais. Não obstante essas diferenças, a experiência romântica que enriquece o par humano é Igualmente pura para ambos, em qualquer idade, enquanto  pulsa no espírito o ideal de perfeição. Todavia para o homem esta experiência é uma empolgação cavalheiresca criativa; e para a mulher representa mais uma curiosidade receptiva cuja emoção envolvente implica, sem roubar-lhe a pureza sentimental, junto com o afeto e a receptividade também ressonâncias emocionais equivalentes à expectativa de um “predador” diante da aproximação de sua presa.
Privilegiando a sensibilidade e a imaginação, para o homem a postura romântica é uma rendição da razão; e para a mulher uma exaltação do devaneio e da possessividade, predicados que lhe são próprios, lapidados culturalmente ao lado de sentimentos nobres. Contudo em ambos os casos, por explorar a sensibilidade e a imaginação a experiência romântica é mais calorosa e emocionalmente expressiva do que o prazer intelectual da descoberta estritamente racional. Por isso a experiência racional é mais solitária e menos inclusiva! Por sua natureza poética a vivência romântica ameniza a rigidez racional e predispõe a maior flexibilidade crítica diante das imperfeições humanas. O indivíduo envolvido numa experiência romântica fica mais propenso a compreender e a perdoar, valorizando menos o caráter racional do enfoque lógico critico e condenatório na abordagem da realidade objetiva.   
Lamentavelmente, a prática social poluída pelo egoísmo expõe a benevolência do romântico ao assédio dos inescrupulosos. Todavia a credulidade do romântico diz respeito ao objeto de uma experiência especifica. Sua credulidade não exclui a lucidez que fica embaçada na vigência da paixão. Do que se conclui que nem todo romântico é apaixonado, e o apaixonado pode estar muito longe de ser romântico.
Everaldo Lopes

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Uma intuição comentada



           Há muitos anos, indagando o que seria mais importante para alcançar o equilíbrio existencial, a resposta emergiu como uma intuição: “desenvolver a capacidade de viver sob o signo do amoroso desapego à vida”. Obviamente, este objetivo se desdobra em outros menos ambiciosos, porém não menos exigentes, no dia a dia de cada um. O desapego[1] à vida, basicamente, é o desapego aos bens materiais, ao conforto, aos prazeres legítimos, ao prestígio social, ao poder econômico. O que não significa renegar estas situações privilegiadas, mas estar apto a lidar com a falta delas; enfim, é apenas o reconhecimento de que elas não são essenciais. Esta disposição torna o indivíduo mais autônomo e capaz de desfrutar com maturidade as vantagens conquistadas por mérito.  Para ilustrar o significado da afirmação anterior dir-se-ia: ninguém em sã consciência alimenta o ideal de viver só, mas é preciso aprender a viver só para melhor valorizar o companheirismo e ser uma boa companhia. O/a companheiro/a carente desenvolverá, salvo raras exceções, uma relação de dependência; e a falta de autonomia e liberdade a que leva a carência de um dos parceiros sufoca a pureza do amor entre ambos.
           Na caminhada existencial é relevante estar consciente do que significa “ser-responsável-no-mundo”. Nesta perspectiva o amor à vida implica desejar degustá-la com prazer e sabedoria. Ou seja, aprender a fruir os prazeres dos sentidos, definindo-lhes, os limites críticos, aquém e além dos quais a humanidade se desfigura, respectivamente, seja pela autoagressão que acontece na ruptura da sobriedade, seja pela heteroagressão que ocorre no desrespeito ao «outro». Estes limites se definem nos processos simultâneos de individuação e socialização que marcam a história de cada um. Tendo em vista alcançar o equilíbrio ideal da existência é preciso modular a vida com a sensibilidade do poeta e a liberdade do sábio, numa experiência comunitária. Neste patamar existencial é evidente a predisposição do indivíduo de encarnar com autenticidade a dimensão solidária do seu  vir-a-ser no mundo. Este é o primeiro passo  de uma caminhada longa, longa, interminável... o caminho único, aberto para a humanização integral. Perlustrá-lo, significa abrir mão do narcisismo básico e de tudo que ele representa: egoísmo, orgulhosa ostentação do ego projetado na autoimagem valorizada, dificuldade em fazer empatia. Estas mazelas psicológicas têm sido responsáveis por grandes tragédias e por todas as ambiguidades que enfermam o convívio social humano.
           O equilíbrio entre a fruição dos desejos individuais e a colaboração espontânea em atividades coletivas representa o climax da sabedoria de “ser-consciente-no-mundo”. Sabedoria que transborda no sentimento de estar o indivíduo de bem consigo mesmo, aceitando os próprios limites e os alheios, sem abandonar o esforço permanente de transcender as fronteiras virtuosas alcançadas. Um jeito de ser que depende, fundamentalmente, do exercício da humildade e da criatividade, virtudes básicas do homem universal. O amor excessivo a si mesmo é inquestionavelmente negativo no âmbito das relações humanas; por ser excludente, afasta o indivíduo do grupo. Quando alguém ama a vida como oportunidade para integrar-se num todo significativo transcende-se porque este amor se prolonga no fervor com que aspira a realizar o ideal atemporal de solidariedade que o empolga. O desapego está implícito neste ato de amor a um ideal que se esquiva de todo egoísmo. O obstáculo maior para a conquista do equilíbrio existencial é que o homem não é apenas razão, mas também sentimento, forças psíquicas poderosas que na hora da escolha podem competir na subjetividade.  Na constituição do homem, o conhecimento racional é um patamar importante, mas o amoroso desapego à vida escapa ao controle da razão e só se realiza na experiência existencial que incorpora numa resposta global, conhecimento, sentimento e vontade. Neste contexto, o amor à vida se prolonga no ideal comunitário, rechaçando o egoísmo sempre carente, ambicioso, e temeroso da fragilidade individual.
Ao compreender a natureza da existência torna-se evidente que o “amoroso desapego da vida” é um processo dinâmico que exige o empenho inteligente emocional e volitivo no trato com as questões práticas do dia a dia. Se não for uma vocação absorvente, este desapego deverá ser uma decisão consciente, retomada de instante para instante, com a determinação de cumprir com dignidade o destino humano no processo evolutivo. Neste ponto, o comportamento solidário se impõe como “dever” pela necessidade de coerência existencial; e mais do que um comportamento ético, constitui-se na manifestação amorosa de uma verdade pessoal na qual damos testemunho da dignidade da condição humana. Determinação que demanda conhecimento, responsabilidade, respeito e estima, componentes fundamentais do amor. Portanto, o generoso desapego à vida vem a ser uma manifestação de amor.
                                                                                                                                                         Everaldo Lopes


[1] Entenda-se por desapego a desnecessidade de agarrar-se, prender-se buscando amparo.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

O momento humano



         O momento humano: a “existência” [1]
    A comparação entre os decênios da vida humana e os bilhões de anos de existência da Terra reduz o ciclo biológico do homem a algo insignificante na linha do tempo. Mas cada homem é um ente especial; a sua “existência” é um absoluto dentro da imensidão cósmica. No momento de exercer o livre arbítrio, o homem assume uma dignidade inédita na Natureza, como indivíduo consciente. O seu devir passa a ser o resultado de uma interação peculiar entre o sujeito da consciência e as pessoas e coisas ao seu redor.  Nesta interação o homem decide, cria, seja no confronto com seu semelhante, seja na sua relação com as “coisas”. No primeiro caso ele se depara com alguém igualmente livre, num relacionamento intersubjetivo no qual incidem problemas[2] específicos que dificultam o diálogo. Dificuldades que apontam para a necessidade do controle ético do comportamento humano social.
Existir para o homem é trabalhar o desafio que lhe é feito para a construção de si mesmo. Este empenho se resume na dinâmica psicossocial que preside a individuação[3] e socialização concomitantes. Processos que envolvem o exercício das funções psíquicas superiores do homem[4] aplicadas às relações do indivíduo consigo mesmo e com sua circunstância. Isto é o que faz da “existência” humana algo diferente de todas as outras existências. Exercitando a consciência e a liberdade o homem é responsável pelo seu vir a ser histórico; torna-se senhor de si mesmo na medida em que se submete a um darma[5], e aceita responsavelmente o seu carma[6]; transcende-se quando mergulha, desamparado, no «novo»[7], motivado pelo desejo de encontrar um sentido  para sua vida; ganha sabedoria quando aprende a distinguir o que pode, do que não pode ser mudado; dignifica-se pela coragem de implementar a mudança do que pode e deve ser mudado; supera-se  vencendo o egoísmo que impede o comportamento solidário; pensa, emociona-se, ama, cria, e em cada um desses momentos assume sua realidade pessoal apoiada sobre o abismo do nada[8]. Ao transpor este abismo o homem vivencia a descoberta das imensas possibilidades de realização dentro da sua própria insignificância temporal. Assume a necessidade de estruturar sua “existência” na convivência com seus semelhantes, pelo respeito dispensado à dignidade do outro. Finalmente, vivendo a aventura de ser-consciente-no-mundo o homem se dá conta da urgência de aprender a abandonar-se, diante do inevitável, à teia de um processo psicossocial complexo no qual intervêm variáveis imponderáveis que escapam à análise racional; é o momento em que busca apoio em pressupostos vivenciais e intuitivos[9]. Sobre tudo isso, o homem sabe que nada se constrói de realmente grandioso, sem autenticidade. À falta deste sinete, as manifestações humanas são caricaturas das virtudes que alardeiam, não retratam uma verdade existencial.
A análise simultânea dos processos de individuação e socialização evidencia a primazia da união entre os homens. Mas é impossível vivenciar este sentimento de unidade sem reverenciar uma transcendência que a todos envolva por igual, seja um ideal histórico, seja um absoluto transtemporal. Este é o fundamento da religiosidade pura, não contaminada pelo esforço eclesial da institucionalização[10] de uma mensagem revelada. Sem o apoio de uma revelação, o selo de legitimidade do procedimento social fundamenta-se na universalidade do benefício das decisões estruturadas nas relações humanas solidárias. Então, o indivíduo torna-se acessível ao outro, sem ficar vulnerável; será sensível à beleza e à harmonia, sem parecer patético; será contemplativo, intuitivo, mas, também comunicativo, analítico; tornar-se-á participativo sem sufocar os demais; respeitoso da dignidade dos outros, enquanto guardião da sua própria; curioso do «novo», mas consciente de sua responsabilidade nas escolhas que faz.
A paz subjetiva é o sinal inconfundível de que corpo e alma  conseguem sintetizar no comportamento pessoal o  verdadeiramente humano. Os prazeres da carne desfrutados na cama e na mesa, não são propriamente humanos sem um toque espiritual de respeito e ternura; os prazeres da alma, consubstanciados no conhecimento, na contemplação estética, no sentimento do dever cumprido e do sagrado, para serem humanos precisam ter a marca da emoção enraizada na vibração de todos os coloides orgânicos.
    Não seria exagero afirmar que o “momento humano” é o instante supremo da Evolução em que o “Dinamismo Absoluto Eternamente Criativo” se revela anunciando sua Criação. Na projeção deste movimento infinito se apagam todas as contradições inerentes à realidade fenomênica. Fazendo uma analogia grosseira, na perspectiva cósmica a Física teórica também prevê o nivelamento de todas as diferenças de potencial, pelo crescimento da entropia[11] que culmina com a morte do Universo. A esta imobilidade mortal levam os desdobramentos práticos da 2ª lei da Termodinâmica. Mas, ao contrário, na perspectiva existencial a anulação de todas as contradições resulta da integração da consciência numa realidade infinitamente maior, inalcançável pela razão temporal. A inteligência criativa do homem já representa no curso da Evolução uma tendência oposta ao caos energético previsto pela lei Física. A criatividade humana deixa entrever que a entropia não será o fim do Universo e sim o portal para o mundo das “essências”, em que a consciência participará de um princípio intangível, o “logos”[12], absoluto donde emergem as leis que dão consistência aos processos de transformação da matéria↔energia e ao comportamento dos sistemas nesses processos. Esta especulação remete à intuição genial do Apóstolo João: “No princípio era o Verbo, e o Verbo era  Deus...”                                                                                                                      Everaldo Lopes


[1] Exercício responsável da consciência que implica na capacidade pessoal de decidir e agir livremente. Para os existencialistas, o modo de ser próprio do homem.
[2] Discutimos esses problemas  num dos primeiros textos deste blog, intitulado “A arte de conviver”.
[3] Processo  por meio do qual uma pessoa se torna consciente de sua individualidade.  C.G. Jung (1875-1961)

[4] Consciência reflexiva, intuição criativa, vontade, livre arbítrio, amor.
[5] Conjunto de preceitos morais e religiosos; conformidade com a lei.
[6] Ações humanas e suas consequências
[7] Que nunca foi visto, sem precedentes; original
[8] Não há um protótipo do homem na Natureza. Neste quadro em branco o homem  precisa inventar-se e estabelecer os próprios limites nas suas relações coletivas.
[9] O que coloca o homem diante da alternativa de praticar  um ato de fé.
[10] A formalização de uma mensagem existencial tem a missão histórica de perpetuá-la, embora as vicissitudes deste processo turve a pureza existencial da mensagem.
[11] Medida da quantidade de desordem de um sistema.
[12] O Logos significava inicialmente a palavra escrita ou falada - o Verbo. Mas a partir de filósofos gregos como Heraclito passou a ter um significado mais amplo. Logos passa a ser um conceito filosófico traduzido como razão, tanto como a capacidade de racionalização individual ou como um princípio cósmico da Ordem e da Beleza. (Internet-Wikipédia)