sábado, 24 de novembro de 2012

Evolução, referencial significativo da realidade universal



 O mundo objetivo é feito de espaço-tempo. Está sujeito a constantes transformações mensuráveis que obedecem a regras conhecidas como Leis da Natureza. Leis que ao longo do tempo têm se mostrado capazes de construir uma ordem cósmica. Nos milionésimos de segundo seguintes à grande explosão (o “Big Bang” que deu nome à célebre teoria da origem do Universo), a matéria primitiva era constituída por uma nuvem de partículas que foram se organizando paulatinamente...  das subatômicas ao átomo, do átomo às moléculas, e às substâncias simples que formaram compostos cada vez mais complexos. Sob certas circunstâncias físicas, propriedades especiais de algumas estruturas químicas deram início à vida, num mundo até então rigorosamente mineral. Sabe-se que a vida começou sob a forma de geleia informe capaz de auto reproduzir-se, nos mares tépidos do Arqueano[1] há 3.800 bilhões de anos. Os seres monocelulares evoluíram para os pluricelulares que se multiplicaram em miríade de espécies. Dos protótipos desses organismos destacaram-se 12 linhagens denominadas filos[2]. Destes, os “cordatos” que protegem seu sistema nervoso com uma carapaça calcária tomaram a dianteira na evolução da vida, através de espécimens cada vez mais independentes e autônomos. Pode-se alinhá-los numa sequência: peixes, répteis, aves, mamíferos, macacos, antropóides, hominídeos e finalmente o homem tal como o conhecemos hoje. Nesta sucessão, a característica preponderante é o desenvolvimento progressivo do Sistema Nervoso.
A “grande explosão”[3] marca o início da realidade percebida pelos sentidos, objeto de  conhecimento. Nada pode ser objetivamente conhecido antes do grande evento cósmico. Qualquer investigação sobre o que precedeu o marco zero da matéria é meramente especulativa. Mas tudo que veio depois obedeceu a uma Complexificação Crescente[4] que permeia a Evolução desde a matéria cósmica elementar até a complexidade dos seres vivos, e a vida consciente.
Durante a Evolução, os determinismos físico-químicos, e depois, com  o advento da vida, os feedbacks biológicos sustentaram, respectivamente,  o equilíbrio instável da matéria e da vida em suas múltiplas manifestações. Mas estes mecanismos se mostraram insuficientes quando, no homem, o organismo vivo alcançou um grau inexcedível de organização biológica e para assegurar a continuidade do processo, a Evolução teria que redirecionar o seu sentido, do individual para o social. Impunha-se dotar os homens de atributos que os permitissem organizarem-se socialmente de forma flexível, diferentemente das sociedades rigidamente administradas pelo instinto como é o caso das abelhas e das formigas. A partir do homem, então, a liberdade e a consciência seriam os instrumentos necessários para suprir a necessidade evolutiva de redirecionamento. A consciência responsável inerente à prática de decisões livres deveria propiciar condições para estabelecer relações interindividuais baseadas na cooperação solidária. Esta aquisição recente no processo evolutivo permite aos indivíduos organizarem-se livremente em sociedade, tendo em vista a construção da comunidade humana, condição sine qua non para a sobrevivência da espécie. Nesta etapa crucial da Evolução o máximo que se pode dizer do ponto de vista biológico é que se criaram no Sistema Nervoso Central conexões sinápticas, entre os núcleos cerebrais profundos com funções específicas, estabelecendo circuitos internos supostamente indispensáveis a um servomecanismo neuropsíquico compatível com a auto identificação - a consciência reflexiva. Este servossistema biológico ainda não garante, porém, ser a consciência apenas um epifenômeno da matéria! O sistema neuropsíquico especializado, com seus milhões de sinapses não bastaria para explicar as funções psíquicas superiores[5]... Os espiritualistas entre os quais me incluo admitem que o mecanismo neuropsíquico de controle automático apenas permite a manifestação de uma realidade imaterial, o Espírito[6], que preexiste ao Big-bang, e reúne no seu dinamismo absoluto eternamente criativo o potencial da energia cósmica, indissociável das próprias leis do Universo. Algo que escapa a qualquer objetivação e, portanto, é objeto de fé. Mas, sem apelar para especulações metafísicas, tomemos o processo evolutivo como referencial para validar a tese de um “Projeto” que se tornou conspícuo no curso da complexificação crescente, desde a poeira cósmica até a vida consciente. Na fase avançada do Projeto que vivemos hoje, a Evolução depende, agora, do exercício coerente da consciência e da liberdade. Sob a coordenação da consciência, a razão, a sensibilidade intelectual e afetiva inscrita no respeito à dignidade do outro, a suscetibilidade política em relação às demandas coletivas e aos valores éticos universais permitem imprimir novos rumos no processo evolutivo, orientando-o para a construção consciente de um organismo social harmonioso. A Evolução abandona assim, o estágio inconsciente, e passa a depender das decisões livres, que para serem socialmente responsáveis deverão disciplinar as tendências atávicas representadas no homem por vícios comportamentais[7] que ameaçam o equilíbrio social. Ao comprometer as instituições, estes desregramentos comportamentais condenam a convivência humana a grave crise. Exemplo disso é o que ocorre no nosso mundo capitalista globalizado. A doutrina econômica prevalente institucionalizou a competição ambiciosa e a concentração avara de bens, acentuando a deplorável divisão da sociedade em ricos e pobres. Nunca é demais repetir este chavão para lembrar a responsabilidade que nos cabe de pensar esta chaga da humanidade. O desrespeito à dignidade de cada homem, acobertado por leis sociais injustas está minando a manifestação plena do fenômeno humano. A morte de milhares de crianças e adultos nos países pobres, sacrificados pela fome, desnutrição e doenças curáveis, são crimes hediondos que escandalizam as consciências sensíveis. Não é menos hediondo o terrorismo, uma maneira desarrazoada de afrontar o imperialismo capitalista.  Todos esses descaminhos decorrem da prática de uma filosofia desenvolvimentista que sufoca o homem, em favor do capital. Basta refletir um pouco para perceber o disparate desta orientação. A mesma liberdade que conferiu aos homens a possibilidade de construir uma sociedade justa e igualitária os expõe ao risco de desunirem-se. Desta forma acumularam-se erros históricos que desviaram o homem de sua missão no processo evolutivo[8]. Diante desta perspectiva desagregante, a coerência pessoal responsável exige de cada um que reordene suas práticas políticas econômicas e sociais no sentido de uma “economia solidária”. Não basta um estatuto legal. É preciso que cada cidadão escolha livremente ser solidário nas suas relações coletivas. É imperioso que o homem assuma decisões políticas sociocêntricas, caracterizadas pela cooperação e pela partilha. Estas conclusões resultam da lógica de um processo cosmogônico cujo caráter evolutivo se tornou evidente no curso verificável de uma complexificação crescente da matéria no mundo em que vivemos. Processo que permeia o cosmo, do infinitamente pequeno, ao infinitamente grande e ao infinitamente complexo.
            Com os olhos postos no objetivo supremo da Evolução que no seu próprio curso demonstra visar a construção da unidade comunitária dos homens, os percalços do momento presente são um desafio à capacidade humana de praticar a liberdade responsável.  Desafio que implica no exercício consciente da verdade, da justiça e da solidariedade, nas escolhas que fazemos na convivência familiar, profissional e social. Sem ser espetaculoso, não é demais afirmar com base na análise dos fatos, que vencer este desafio é a garantia única de sobrevivência da Humanidade!
Everaldo Lopes


[1] Período geológico
[2] Categoria taxonômica que agrupa classes relacionadas filogeneticamente, distinguíveis das outras por diferenças marcantes.

[3] Big-bang
[4] Teilhar de Chardin – “Lei da centro complexificação crescente”
[5] Consciência reflexiva, a intuição criativa, a vontade, o amor a capacidade de escolher( livre arbítrio).
[6] Suposta entidade superior, absoluta, inteligente, que transcende  a matéria e lhe é inerente necessariamente de vez que, sem autonomia, a matéria não subsistiria por si mesma.
[7] Avareza, preguiça, inveja, vaidade, gula. ira e luxúria
[8] Dar continuidade à espécie mediante a organização comunitária da Humanidade.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Amor e Etica I



            A experiência amorosa só tem repercussão existencial plena quando há reciprocidade. Isto parece óbvio. Mas, para avaliar adequadamente o conteúdo desta afirmação é preciso ter a noção mais aproximada possível do que é o amor, conquanto não se possa defini-lo racionalmente. Só experimentando-o é possível mergulhar fundo na intimidade de sentimento tão complexo, e compreender o significado de uma relação intersubjetiva profunda (encontro). Sem esta experiência, as pessoas apenas conversam frivolamente sobre o amor.
O amor está presente em experiências diversificadas com características próprias. Excluído o elemento erótico, configuram-se relacionamentos tais como o amor parental, o amor filial, a amizade, formas de amar inspiradas na admiração das virtudes do outro, no respeito, na solidariedade espontânea e na estima. Finalmente, o amor a Deus constitui-se numa experiência peculiar de entrega humilde das criaturas ao seu Criador, desejosas do acolhimento paternal.  
Ater-nos-emos aqui ao amor sensual, caracterizado pela atração física. Na experiência inerente a este tipo de envolvimento do par humano os protagonistas vivem a expectativa da intimidade sexual que leva eventualmente à reprodução. Diferentemente dos demais animais, o impulso sexual humano não visa apenas à sobrevivência da espécie. A pulsão sexual é uma força poderosa que contextualiza os casais humanos em posturas e comportamentos variados. Nesta perspectiva distinguem-se: os pares apaixonados desde o início, entre os quais a sensualidade e a intimidade sexual se tornam uma linguagem comunicativa exigente, espiritualizada pela cumplicidade afetiva; os pares que por algum tempo se conhecem, respeitam-se, e num dado momento sentem-se empolgados por forte atração física, dispostos a assumir publicamente a parceria; os pares que se gostam e respeitam-se como amigos, porém cedem, eventualmente, a um envolvimento erótico, livre, esclarecido e conscientemente consentido, mas ainda não estão dispostos a assumir publicamente a situação. Todos estes relacionamentos, moralismos à parte, salvaguardam de alguma forma a essência da dignidade humana. Porém quando a tônica da relação recai apenas na sensualidade, e cada um dos parceiros está interessado somente no seu próprio prazer sem um propósito genuíno de respeitar a autonomia do outro, configura-se uma situação que, “stricto sensu”, fere a dignidade humana.
Em todo encontro de pessoas há uma tensão entre a sensualidade e o acolhimento afetivo. A sensualidade é egoísta, avara, centrada no “eu”; a afetividade amorosa é generosa, desprendida, centrada na relação “eu-tu”. Se a relação for guiada apenas pela sensualidade, o casal não alcançará a intersubjetividade que caracteriza o verdadeiro encontro amoroso e só este preenche realmente o vazio existencial. Pior quando a sensualidade se sobrepõe à  cumplicidade afetiva, e ocorre uma gravidez. Cria-se uma situação moralmente comprometedora, de caráter dramático. Esvaziados da pulsão, sem cumplicidade afetiva, os protagonistas imprevidentes são intimados a  encarar responsavelmente a situação, em nome da dignidade humana e sob pressão social. O que redunda em ônus incalculável e imprevisível para o casal, seus familiares, e para o fruto de um instante de prazer. Durante muito tempo, por imposição de princípios éticos e até legais, embora carentes de cumplicidade afetiva o casal imprevidente era obrigado a permanecer formalmente ligado por compromisso legal ou religioso. Os costumes estão mudando, mas numa perspectiva humanística, dentro da organização social vigente nenhum argumento anula a responsabilidade dos pais biológicos para com o filho.
Não obstante os descaminhos possíveis da satisfação da libido, será imprudência fatal despreza-la sumariamente. A libido é uma mola importante da criatividade humana. Dessa forma podemos dizer que o “amor conjugal” compromete o par humano numa construção responsável, mediada pela tensão entre a pulsão sexual e a cumplicidade afetiva intimamente relacionada com o respeito ao/à parceiro/a. Esta é responsável pelo controle da libido e deverá prevalecer sobre o desejo de intimidade sensual que, todavia, precisa ser inteligentemente estimulado para maior estabilidade do casal.
A luxúria se caracteriza pelo desejo sexual insistente, inespecífico, que leva à manifestação anônima da sensualidade, em que a intimidade física centraliza todo interesse dos pares envolvidos. Não há transcendência nesta relação, falta-lhe um mínimo de compromisso ético, e, como tal, deixa de ser uma expressão responsável da libido. A convivência social civilizada exige a introdução de um viés ético na relação entre os pares envolvidos numa experiência sensual. Do ponto de vista humanístico a tonalidade moral do encontro se impõe ao seu caráter libidinoso físico, sem, contudo, anulá-lo. Cabe aqui uma digressão. Embora a sociedade aceite, veladamente, certo relaxamento do padrão existencial exemplar da relação conjugal, não há como negar a pobreza emocional e o potencial socialmente destrutivo da experiência sexual embasada apenas na luxúria. Da mesma forma que é existencialmente pobre, embora socialmente aceitável, e até imposta em circunstâncias especiais, a tirania ética da submissão do par humano às regras morais e costumes codificados, mesmo sem a cumplicidade afetiva do par conjugal. Esses exemplos extremos são o oposto do amor conjugal genuíno, embora possam mimetiza-lo. Idealmente harmonizado, o casal buscaria sempre o encontro total de almas e de corpos em que o aspecto físico da relação só é completo no contexto de uma relação intersubjetiva amorosa. Em nossa realidade cultural, o encontro ideal dificilmente acontece sem a contaminação indesejável de acomodações viciadas pela luxúria ou pela rigidez da formalidade moral. Pode-se mesmo dizer que um encontro perfeito é muito raro. A criatividade do casal é indispensável para contornar o desgaste provocado pela rotina conjugal e pelas obrigações familiares oficialmente estatuídas. Uma convivência muito íntima sem criatividade é vulnerável à mesmice da rotina esterilizante. Isso faz parte da condição humana. Mas o ideal de um relacionamento maduro pode sempre ser atualizado pelo esforço recíproco dos parceiros na prática do diálogo inteligente e saudável, amparado pela autenticidade, paciência e legítima compaixão entre ambos. 
            No último quartel da vida o par humano vive uma situação peculiar. A libido do idoso, disciplinada pela vontade ética é uma bênção na medida em que alimenta o élan vital. Torna-se, porém, uma ameaça e motivo de constante vigilância para os velhos/as saudáveis, lúcidos/as, ainda não refeitos/as psicologicamente das perdas do envelhecimento, mas conscientes da incapacidade de seduzir o objeto do seu desejo, ou seja, descrentes da possibilidade de serem desejados/as por um/a parceiro/a sedutor/a. A autocrítica os remete a uma postura reservada que esconde o desejo de intimidade sensual confiante e cúmplice, livre de remorsos; desejo cuja satisfação se torna cada vez mais distante, ou mesmo impossível. Sem pré-conceitos, quando está em jogo a sensualidade, a beleza e a sedução casam mais com a juventude do que com a velhice. Convenhamos, esta é uma lei estética com reflexos psicossociais irrevogáveis. A grande sabedoria do idoso reside na elaboração do impacto desta “lei” na sua própria realidade existencial. A superação deste impacto exige autodomínio que à luz da crítica pessoal é reforçado pelo sentimento do grotesco ao qual se exporia o/a idoso/a por seu comportamento incontinente. Quando se rompe o dique da interdição auto imposta, o idoso autocrítico não só sente ameaçado o respeito que deve a si mesmo, mas também o seu conceito na coletividade. A consciência desta ameaça é para o idoso um alerta preventivo permanente.  
A solução ideal seria o amadurecimento durante um longo convívio, entre pares com excepcionais condições emocionais e intelectuais, unidos por sentimentos recíprocos, construtivos, que tenham conservado interesses sensuais compensadores malgrado a depreciação física imposta pela idade! Todavia, esta ocorrência é excepcional. A relação exemplar construída ao longo dos anos depende da coincidência de muitos fatores cuja convergência não é comum. Talvez por isso alguém já disse, demonstrando amarga leviandade algo que se deve entender como um chiste tragicômico: “Morrem cedo aqueles que os Deuses amam[1]”! No texto intitulado “Sublimação da libido”, postado neste blog em 4 de março do ano em curso, tratei deste tema e na ocasião fui agraciado com um comentário inteligente de minha filha, opondo-se ao meu ponto de vista sobre a limitação sedutora do idoso. Não nego seu argumento da maior sensibilidade da mulher inteligente e espiritualizada para encantar-se com o discernimento do amante revelado num discurso coerente, irrelevantemente à sua aparência física. Mas, não é a mesma a força de sedução da juventude e da beleza, e a da palavra sábia! Insisto, pois, na minha resposta ao seu comentário: vamos continuar elaborando esta questão...
A vida consciente reflexiva e inteligente não se resume afinal em satisfazer a libido sexual! Transcendendo a condição animal, a plenitude da “existência” ultrapassa a satisfação da sensualidade e consuma-se numa experiência mística de integração consciência - mundo. Para Kierkegaard, na sua caminhada existencial o homem percorre três etapas distintas: o estágio estético, o estágio ético e o estágio ético-religioso. No estágio estético, o ser humano vive apenas no nível sensual, centrado em si mesmo, desfrutando os prazeres dos sentidos. Como tal orientação de vida leva à insatisfação e ao desespero, o homem acaba saltando para um nível mais elevado de existência, o estágio ético, em que procura conviver com os outros solidariamente. Mas, tal pretensão ética raramente é alcançada, levando mais uma vez à culpa e ao desespero que obrigam o homem a dar outro salto no escuro, o salto para a vida ético-religiosa na qual abandona-se numa entrega total à transcendência absoluta fundada unicamente na fé. Esta atitude representa analiticamente a prática potencializada ao infinito do amor à Verdade, à Justiça  e à beleza universais. E confirma que a solução do problema humano existencial não é racional, porém mística... tem muito mais a ver com a vivência afetiva intuitiva, do que com o pensamento lógico, fundamento da razão pura.                            
Everaldo Lopes


[1] Pensamento atribuído a Giacomo Leopardi, (1798-1837) escritor italiano.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Aconselhamento Filosófico IV



No diálogo terapêutico é indispensável que o Conselheiro e o Cliente encarem os fatos em discussão sem qualquer julgamento de valor. Durante o exame do seu problema o cliente analisa as emoções despertadas, e identifica possíveis associações com experiências anteriores. Reconhecendo-as poderá contornar influências estranhas à conjuntura atual. Neste processo se denunciam os parâmetros comportamentais já incorporados culturalmente. Todavia, para responder com pertinência às situações novas, o Cliente deverá deter-se, examinando-as e avaliando as alternativas de resposta responsável.
No Aconselhamento Filosófico é fundamental o compromisso do Conselheiro e do Cliente com a autenticidade. Disposição que ajudará o consulente a reorientar-se livre e objetivamente. Neste clima de liberdade se tornará mais fácil para ele manifestar espontaneamente suas ideias e seus sentimentos, permitindo-se reconhecer os próprios deslizes. Dessa forma reunirá condições para elaborar a resposta pessoal às demandas existenciais.  Quando não ocorrer espontaneamente, o conselheiro estimulará o Cliente a descobrir no seu comportamento as intenções não reconhecidas, de ganhos secundários. Esta é a oportunidade de o Conselheiro  examinar com o consulente as premissas filosóficas desenvolvidas na obra de um filósofo conhecido que trate de questões afins às dificuldades do cliente, e descobrir a sua orientação filosófica. Reconhecendo sua própria postura diante da realidade, o cliente poderá reorienta-la, se for o caso, motivado pela coerência pessoal. A tendência filosófica do aconselhado pode ser, por exemplo, a de agravar (dramatizando) as situações conflitantes, esperando com isso ganhar atenções, um ganho secundário ainda não reconhecido explicitamente. E, descobrindo essa disposição, o cliente percebe o engodo que sua conduta encerra. A partir desta descoberta é possível que mude o próprio modo de agir, atendendo ao desejo de valorização pessoal. Igualmente, quando o cliente consegue integrar numa nova visão de mundo o problema que o aflige, alivia muitas tensões psíquicas aflitivas. Reconhecendo algo essencial sobre si mesmo, compreende a essência do conflito evocado na  sessão terapêutica. O problema pode estar associado à confusão de conceitos erroneamente interpretados como sinônimos, que implicam, porém, em posturas existenciais diferentes. É o caso, por exemplo, da diferença conceitual nem sempre percebida claramente entre os vocábulos indivíduo e pessoa, dano e ofensa. No primeiro exemplo, indivíduo é apenas a unidade taxinômica de uma espécie qualquer, enquanto a pessoa é cada ser humano considerado pelas qualidades psíquicas superiores que se atribuem exclusivamente á espécie Homo Sapiens sapiens[1], e  abrem espaço para relações interindividuais peculiares. Na prática social, a confusão entre estes conceitos deixa margem para avaliações distorcidas da dignidade humana com repercussão no comportamento. Esta falta de clareza conceitual atropela o caráter dialógico do “eu”[2] a cuja constituição está atrelado o fundamento da solidariedade. A percepção de que a pessoa é um indivíduo especial com características ímpares faz toda diferença. Mesmo reduzido a privações morais e físicas, o homem, como pessoa, é credor de um tratamento especial. No segundo exemplo, na prática, a indistinção entre dano e ofensa pode gerar sofrimento desnecessário. Ora, enquanto o dano é unilateral, a ofensa é bilateral. Ou seja, não haverá ofensa sem que alguém se sinta ofendido e o sentir-se ofendido não é uma postura essencial, pode ser modificada por opção pessoal esclarecida. Já o dano não depende do objeto danificado. Por exemplo, uma martelada no dedo causa um dano que independe da reação do indivíduo lesado, isto é, o dano tem um valor absoluto. Diferente da ofensa que tem a dimensão conferida pelo ofendido. Um apelido só pega se o apelidado reagir irado. A ofensa depende da reação do ofendido, não tem, portanto, valor absoluto. Não distinguindo existencialmente o dano, da ofensa o cliente poderá sofrer desnecessariamente como danos, ofensas que só se consolidarão com o seu consentimento. Ao assimilar intelectual e emocionalmente a distinção conceitual entre indivíduo e pessoa, e entre dano e ofensa, o Cliente impedir-se-á, respectivamente, de praticar ações ofensivas ao outro, e de sofrer aflições desnecessárias.  
O Conselheiro Filosófico ajuda o Cliente a compreender-se melhor à luz da leitura filosófica das situações existenciais que vivencia, capacitando-se a assumir atitudes voluntárias, maduras e objetivas.
            Para Sócrates, todos nós temos ciência das coisas, apenas precisamos lembrar o que já está dentro de nós; mas não raro se faz necessária ajuda externa para trazer à tona esse conhecimento. Para comprovar sua tese Sócrates fazia uma série de perguntas correlatas para que o interpelado respondendo-as chegasse por si mesmo à solução definitiva da questão que supunha ignorar. A Maiêutica[3] e o Aconselhamento Filosófico embora sejam metodologias distintas contam sempre com a capacidade intelectual e domínio emocional do par dialogal: respectivamente, o Filósofo e o Discípulo, o Conselheiro e o Cliente. É preciso confiar na perspicácia do interlocutor, para conduzi-lo com proveito numa introspecção investigativa. O conselheiro não oferece verdades acabadas, mas dá orientações para quem esqueceu ou negligenciou os meios de examinar a si mesmo, a fim de que encontre a resposta que lhe parecer verdadeira. A evolução deste processo dependerá do nível de liberdade existencial do Cliente para elaborar respostas originais resolutivas face aos desafios do vir a ser consciente. O CF pressupõe no orientando a sensibilidade necessária à percepção de sutilezas do seu conteúdo subjetivo intelectual e afetivo, e a capacidade de estabelecer analogia entre este conteúdo e as reflexões filosóficas inseridas nas doutrinas que marcaram a evolução histórica do pensamento[4]. Exemplificando. Enquanto os Empiristas distinguem o conhecimento teórico do prático, privilegiando este último, em detrimento do meramente racional, os Racionalistas enfatizam a razão, e não a experiência prática, como referencial de valor. Muitos de nós seguimos uma destas duas orientações como diretrizes de vida e não nos damos conta das suas implicações existenciais. Porém, consciente de haver adotado uma ou outra destas alternativas, o cliente poderá ter um insight revelador sobre sua própria orientação existencial, descobrindo um pouco de si mesmo e, quiçá, o motivo dos seus conflitos. Na verdade, Empiristas e Racionalistas assumem posições extremas e, todavia, a vivência do equilíbrio existencial demanda a perfeita coerência integrativa da teoria e da prática. Aí entra a criatividade do Cliente. É óbvio que estes exemplos simplificados apenas mostram como funciona o aconselhamento Filosófico. Como dissemos no texto anterior, “é o diálogo, a troca de ideias que é terapêutica.” Na medida em que o CF e o cliente debatem impessoalmente as doutrinas filosóficas evocadas, multiplicam-se as oportunidades de esclarecer questões pontuais relacionadas com os conflitos do consulente. Nestes debates, só para exemplificar, quanta sabedoria se descobre na proposta kierkegaardiana de uma transcendência necessária, em resposta à angústia diante da finitude! Quanto discernimento se revela na afirmação de Schopenhauer: “estamos sempre tentando dissipar a obscura perspectiva do nada”. Perspectiva que ameaça a existência de instante para instante, e que tentamos superar apostando seriamente em crenças que podem não passar de invenção articulada, com alguma probabilidade de acerto. Situação que poderia parecer ao mesmo tempo aleatória, patética ou ridícula para pessoas que se querem solidamente objetivas. Mas que, uma vez assumida e vivida com entusiasmo mediante um ato de fé é a verdade de cada um. De repente, o que poderia parecer um simples palpite ingênuo se transforma em referência essencial ao exercício da consciência crítica!...
                  Termino lembrando que o saber filosófico milenar é um recurso poderoso para ajudar o homem a lidar com a realidade. Acredito em que o “Aconselhamento Filosófico” pode ser um auxiliar valioso da Psicanálise, fazendo uma ponte entre milênios de sabedoria e o enfrentamento dos desafios existenciais atuais, ajudando as pessoas a levarem uma “vida examinada” como preconizava Sócrates.
                 Everaldo Lopes


         [1] Racionalidade, consciência de si, discernimento de valores.
[2] O “tu” está presente na constituição do “eu” ; um não existe sem o outro ( Vide Martim Buber  no seu livro “eu e    tu”.  )  
[3] Método socrático que consiste na multiplicação de perguntas, induzindo o interlocutor na descoberta de suas próprias verdades e na conceituação geral de um objeto. Houaiss

        [4]Vide texto anterior