segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Amor e Etica I



            A experiência amorosa só tem repercussão existencial plena quando há reciprocidade. Isto parece óbvio. Mas, para avaliar adequadamente o conteúdo desta afirmação é preciso ter a noção mais aproximada possível do que é o amor, conquanto não se possa defini-lo racionalmente. Só experimentando-o é possível mergulhar fundo na intimidade de sentimento tão complexo, e compreender o significado de uma relação intersubjetiva profunda (encontro). Sem esta experiência, as pessoas apenas conversam frivolamente sobre o amor.
O amor está presente em experiências diversificadas com características próprias. Excluído o elemento erótico, configuram-se relacionamentos tais como o amor parental, o amor filial, a amizade, formas de amar inspiradas na admiração das virtudes do outro, no respeito, na solidariedade espontânea e na estima. Finalmente, o amor a Deus constitui-se numa experiência peculiar de entrega humilde das criaturas ao seu Criador, desejosas do acolhimento paternal.  
Ater-nos-emos aqui ao amor sensual, caracterizado pela atração física. Na experiência inerente a este tipo de envolvimento do par humano os protagonistas vivem a expectativa da intimidade sexual que leva eventualmente à reprodução. Diferentemente dos demais animais, o impulso sexual humano não visa apenas à sobrevivência da espécie. A pulsão sexual é uma força poderosa que contextualiza os casais humanos em posturas e comportamentos variados. Nesta perspectiva distinguem-se: os pares apaixonados desde o início, entre os quais a sensualidade e a intimidade sexual se tornam uma linguagem comunicativa exigente, espiritualizada pela cumplicidade afetiva; os pares que por algum tempo se conhecem, respeitam-se, e num dado momento sentem-se empolgados por forte atração física, dispostos a assumir publicamente a parceria; os pares que se gostam e respeitam-se como amigos, porém cedem, eventualmente, a um envolvimento erótico, livre, esclarecido e conscientemente consentido, mas ainda não estão dispostos a assumir publicamente a situação. Todos estes relacionamentos, moralismos à parte, salvaguardam de alguma forma a essência da dignidade humana. Porém quando a tônica da relação recai apenas na sensualidade, e cada um dos parceiros está interessado somente no seu próprio prazer sem um propósito genuíno de respeitar a autonomia do outro, configura-se uma situação que, “stricto sensu”, fere a dignidade humana.
Em todo encontro de pessoas há uma tensão entre a sensualidade e o acolhimento afetivo. A sensualidade é egoísta, avara, centrada no “eu”; a afetividade amorosa é generosa, desprendida, centrada na relação “eu-tu”. Se a relação for guiada apenas pela sensualidade, o casal não alcançará a intersubjetividade que caracteriza o verdadeiro encontro amoroso e só este preenche realmente o vazio existencial. Pior quando a sensualidade se sobrepõe à  cumplicidade afetiva, e ocorre uma gravidez. Cria-se uma situação moralmente comprometedora, de caráter dramático. Esvaziados da pulsão, sem cumplicidade afetiva, os protagonistas imprevidentes são intimados a  encarar responsavelmente a situação, em nome da dignidade humana e sob pressão social. O que redunda em ônus incalculável e imprevisível para o casal, seus familiares, e para o fruto de um instante de prazer. Durante muito tempo, por imposição de princípios éticos e até legais, embora carentes de cumplicidade afetiva o casal imprevidente era obrigado a permanecer formalmente ligado por compromisso legal ou religioso. Os costumes estão mudando, mas numa perspectiva humanística, dentro da organização social vigente nenhum argumento anula a responsabilidade dos pais biológicos para com o filho.
Não obstante os descaminhos possíveis da satisfação da libido, será imprudência fatal despreza-la sumariamente. A libido é uma mola importante da criatividade humana. Dessa forma podemos dizer que o “amor conjugal” compromete o par humano numa construção responsável, mediada pela tensão entre a pulsão sexual e a cumplicidade afetiva intimamente relacionada com o respeito ao/à parceiro/a. Esta é responsável pelo controle da libido e deverá prevalecer sobre o desejo de intimidade sensual que, todavia, precisa ser inteligentemente estimulado para maior estabilidade do casal.
A luxúria se caracteriza pelo desejo sexual insistente, inespecífico, que leva à manifestação anônima da sensualidade, em que a intimidade física centraliza todo interesse dos pares envolvidos. Não há transcendência nesta relação, falta-lhe um mínimo de compromisso ético, e, como tal, deixa de ser uma expressão responsável da libido. A convivência social civilizada exige a introdução de um viés ético na relação entre os pares envolvidos numa experiência sensual. Do ponto de vista humanístico a tonalidade moral do encontro se impõe ao seu caráter libidinoso físico, sem, contudo, anulá-lo. Cabe aqui uma digressão. Embora a sociedade aceite, veladamente, certo relaxamento do padrão existencial exemplar da relação conjugal, não há como negar a pobreza emocional e o potencial socialmente destrutivo da experiência sexual embasada apenas na luxúria. Da mesma forma que é existencialmente pobre, embora socialmente aceitável, e até imposta em circunstâncias especiais, a tirania ética da submissão do par humano às regras morais e costumes codificados, mesmo sem a cumplicidade afetiva do par conjugal. Esses exemplos extremos são o oposto do amor conjugal genuíno, embora possam mimetiza-lo. Idealmente harmonizado, o casal buscaria sempre o encontro total de almas e de corpos em que o aspecto físico da relação só é completo no contexto de uma relação intersubjetiva amorosa. Em nossa realidade cultural, o encontro ideal dificilmente acontece sem a contaminação indesejável de acomodações viciadas pela luxúria ou pela rigidez da formalidade moral. Pode-se mesmo dizer que um encontro perfeito é muito raro. A criatividade do casal é indispensável para contornar o desgaste provocado pela rotina conjugal e pelas obrigações familiares oficialmente estatuídas. Uma convivência muito íntima sem criatividade é vulnerável à mesmice da rotina esterilizante. Isso faz parte da condição humana. Mas o ideal de um relacionamento maduro pode sempre ser atualizado pelo esforço recíproco dos parceiros na prática do diálogo inteligente e saudável, amparado pela autenticidade, paciência e legítima compaixão entre ambos. 
            No último quartel da vida o par humano vive uma situação peculiar. A libido do idoso, disciplinada pela vontade ética é uma bênção na medida em que alimenta o élan vital. Torna-se, porém, uma ameaça e motivo de constante vigilância para os velhos/as saudáveis, lúcidos/as, ainda não refeitos/as psicologicamente das perdas do envelhecimento, mas conscientes da incapacidade de seduzir o objeto do seu desejo, ou seja, descrentes da possibilidade de serem desejados/as por um/a parceiro/a sedutor/a. A autocrítica os remete a uma postura reservada que esconde o desejo de intimidade sensual confiante e cúmplice, livre de remorsos; desejo cuja satisfação se torna cada vez mais distante, ou mesmo impossível. Sem pré-conceitos, quando está em jogo a sensualidade, a beleza e a sedução casam mais com a juventude do que com a velhice. Convenhamos, esta é uma lei estética com reflexos psicossociais irrevogáveis. A grande sabedoria do idoso reside na elaboração do impacto desta “lei” na sua própria realidade existencial. A superação deste impacto exige autodomínio que à luz da crítica pessoal é reforçado pelo sentimento do grotesco ao qual se exporia o/a idoso/a por seu comportamento incontinente. Quando se rompe o dique da interdição auto imposta, o idoso autocrítico não só sente ameaçado o respeito que deve a si mesmo, mas também o seu conceito na coletividade. A consciência desta ameaça é para o idoso um alerta preventivo permanente.  
A solução ideal seria o amadurecimento durante um longo convívio, entre pares com excepcionais condições emocionais e intelectuais, unidos por sentimentos recíprocos, construtivos, que tenham conservado interesses sensuais compensadores malgrado a depreciação física imposta pela idade! Todavia, esta ocorrência é excepcional. A relação exemplar construída ao longo dos anos depende da coincidência de muitos fatores cuja convergência não é comum. Talvez por isso alguém já disse, demonstrando amarga leviandade algo que se deve entender como um chiste tragicômico: “Morrem cedo aqueles que os Deuses amam[1]”! No texto intitulado “Sublimação da libido”, postado neste blog em 4 de março do ano em curso, tratei deste tema e na ocasião fui agraciado com um comentário inteligente de minha filha, opondo-se ao meu ponto de vista sobre a limitação sedutora do idoso. Não nego seu argumento da maior sensibilidade da mulher inteligente e espiritualizada para encantar-se com o discernimento do amante revelado num discurso coerente, irrelevantemente à sua aparência física. Mas, não é a mesma a força de sedução da juventude e da beleza, e a da palavra sábia! Insisto, pois, na minha resposta ao seu comentário: vamos continuar elaborando esta questão...
A vida consciente reflexiva e inteligente não se resume afinal em satisfazer a libido sexual! Transcendendo a condição animal, a plenitude da “existência” ultrapassa a satisfação da sensualidade e consuma-se numa experiência mística de integração consciência - mundo. Para Kierkegaard, na sua caminhada existencial o homem percorre três etapas distintas: o estágio estético, o estágio ético e o estágio ético-religioso. No estágio estético, o ser humano vive apenas no nível sensual, centrado em si mesmo, desfrutando os prazeres dos sentidos. Como tal orientação de vida leva à insatisfação e ao desespero, o homem acaba saltando para um nível mais elevado de existência, o estágio ético, em que procura conviver com os outros solidariamente. Mas, tal pretensão ética raramente é alcançada, levando mais uma vez à culpa e ao desespero que obrigam o homem a dar outro salto no escuro, o salto para a vida ético-religiosa na qual abandona-se numa entrega total à transcendência absoluta fundada unicamente na fé. Esta atitude representa analiticamente a prática potencializada ao infinito do amor à Verdade, à Justiça  e à beleza universais. E confirma que a solução do problema humano existencial não é racional, porém mística... tem muito mais a ver com a vivência afetiva intuitiva, do que com o pensamento lógico, fundamento da razão pura.                            
Everaldo Lopes


[1] Pensamento atribuído a Giacomo Leopardi, (1798-1837) escritor italiano.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Aconselhamento Filosófico IV



No diálogo terapêutico é indispensável que o Conselheiro e o Cliente encarem os fatos em discussão sem qualquer julgamento de valor. Durante o exame do seu problema o cliente analisa as emoções despertadas, e identifica possíveis associações com experiências anteriores. Reconhecendo-as poderá contornar influências estranhas à conjuntura atual. Neste processo se denunciam os parâmetros comportamentais já incorporados culturalmente. Todavia, para responder com pertinência às situações novas, o Cliente deverá deter-se, examinando-as e avaliando as alternativas de resposta responsável.
No Aconselhamento Filosófico é fundamental o compromisso do Conselheiro e do Cliente com a autenticidade. Disposição que ajudará o consulente a reorientar-se livre e objetivamente. Neste clima de liberdade se tornará mais fácil para ele manifestar espontaneamente suas ideias e seus sentimentos, permitindo-se reconhecer os próprios deslizes. Dessa forma reunirá condições para elaborar a resposta pessoal às demandas existenciais.  Quando não ocorrer espontaneamente, o conselheiro estimulará o Cliente a descobrir no seu comportamento as intenções não reconhecidas, de ganhos secundários. Esta é a oportunidade de o Conselheiro  examinar com o consulente as premissas filosóficas desenvolvidas na obra de um filósofo conhecido que trate de questões afins às dificuldades do cliente, e descobrir a sua orientação filosófica. Reconhecendo sua própria postura diante da realidade, o cliente poderá reorienta-la, se for o caso, motivado pela coerência pessoal. A tendência filosófica do aconselhado pode ser, por exemplo, a de agravar (dramatizando) as situações conflitantes, esperando com isso ganhar atenções, um ganho secundário ainda não reconhecido explicitamente. E, descobrindo essa disposição, o cliente percebe o engodo que sua conduta encerra. A partir desta descoberta é possível que mude o próprio modo de agir, atendendo ao desejo de valorização pessoal. Igualmente, quando o cliente consegue integrar numa nova visão de mundo o problema que o aflige, alivia muitas tensões psíquicas aflitivas. Reconhecendo algo essencial sobre si mesmo, compreende a essência do conflito evocado na  sessão terapêutica. O problema pode estar associado à confusão de conceitos erroneamente interpretados como sinônimos, que implicam, porém, em posturas existenciais diferentes. É o caso, por exemplo, da diferença conceitual nem sempre percebida claramente entre os vocábulos indivíduo e pessoa, dano e ofensa. No primeiro exemplo, indivíduo é apenas a unidade taxinômica de uma espécie qualquer, enquanto a pessoa é cada ser humano considerado pelas qualidades psíquicas superiores que se atribuem exclusivamente á espécie Homo Sapiens sapiens[1], e  abrem espaço para relações interindividuais peculiares. Na prática social, a confusão entre estes conceitos deixa margem para avaliações distorcidas da dignidade humana com repercussão no comportamento. Esta falta de clareza conceitual atropela o caráter dialógico do “eu”[2] a cuja constituição está atrelado o fundamento da solidariedade. A percepção de que a pessoa é um indivíduo especial com características ímpares faz toda diferença. Mesmo reduzido a privações morais e físicas, o homem, como pessoa, é credor de um tratamento especial. No segundo exemplo, na prática, a indistinção entre dano e ofensa pode gerar sofrimento desnecessário. Ora, enquanto o dano é unilateral, a ofensa é bilateral. Ou seja, não haverá ofensa sem que alguém se sinta ofendido e o sentir-se ofendido não é uma postura essencial, pode ser modificada por opção pessoal esclarecida. Já o dano não depende do objeto danificado. Por exemplo, uma martelada no dedo causa um dano que independe da reação do indivíduo lesado, isto é, o dano tem um valor absoluto. Diferente da ofensa que tem a dimensão conferida pelo ofendido. Um apelido só pega se o apelidado reagir irado. A ofensa depende da reação do ofendido, não tem, portanto, valor absoluto. Não distinguindo existencialmente o dano, da ofensa o cliente poderá sofrer desnecessariamente como danos, ofensas que só se consolidarão com o seu consentimento. Ao assimilar intelectual e emocionalmente a distinção conceitual entre indivíduo e pessoa, e entre dano e ofensa, o Cliente impedir-se-á, respectivamente, de praticar ações ofensivas ao outro, e de sofrer aflições desnecessárias.  
O Conselheiro Filosófico ajuda o Cliente a compreender-se melhor à luz da leitura filosófica das situações existenciais que vivencia, capacitando-se a assumir atitudes voluntárias, maduras e objetivas.
            Para Sócrates, todos nós temos ciência das coisas, apenas precisamos lembrar o que já está dentro de nós; mas não raro se faz necessária ajuda externa para trazer à tona esse conhecimento. Para comprovar sua tese Sócrates fazia uma série de perguntas correlatas para que o interpelado respondendo-as chegasse por si mesmo à solução definitiva da questão que supunha ignorar. A Maiêutica[3] e o Aconselhamento Filosófico embora sejam metodologias distintas contam sempre com a capacidade intelectual e domínio emocional do par dialogal: respectivamente, o Filósofo e o Discípulo, o Conselheiro e o Cliente. É preciso confiar na perspicácia do interlocutor, para conduzi-lo com proveito numa introspecção investigativa. O conselheiro não oferece verdades acabadas, mas dá orientações para quem esqueceu ou negligenciou os meios de examinar a si mesmo, a fim de que encontre a resposta que lhe parecer verdadeira. A evolução deste processo dependerá do nível de liberdade existencial do Cliente para elaborar respostas originais resolutivas face aos desafios do vir a ser consciente. O CF pressupõe no orientando a sensibilidade necessária à percepção de sutilezas do seu conteúdo subjetivo intelectual e afetivo, e a capacidade de estabelecer analogia entre este conteúdo e as reflexões filosóficas inseridas nas doutrinas que marcaram a evolução histórica do pensamento[4]. Exemplificando. Enquanto os Empiristas distinguem o conhecimento teórico do prático, privilegiando este último, em detrimento do meramente racional, os Racionalistas enfatizam a razão, e não a experiência prática, como referencial de valor. Muitos de nós seguimos uma destas duas orientações como diretrizes de vida e não nos damos conta das suas implicações existenciais. Porém, consciente de haver adotado uma ou outra destas alternativas, o cliente poderá ter um insight revelador sobre sua própria orientação existencial, descobrindo um pouco de si mesmo e, quiçá, o motivo dos seus conflitos. Na verdade, Empiristas e Racionalistas assumem posições extremas e, todavia, a vivência do equilíbrio existencial demanda a perfeita coerência integrativa da teoria e da prática. Aí entra a criatividade do Cliente. É óbvio que estes exemplos simplificados apenas mostram como funciona o aconselhamento Filosófico. Como dissemos no texto anterior, “é o diálogo, a troca de ideias que é terapêutica.” Na medida em que o CF e o cliente debatem impessoalmente as doutrinas filosóficas evocadas, multiplicam-se as oportunidades de esclarecer questões pontuais relacionadas com os conflitos do consulente. Nestes debates, só para exemplificar, quanta sabedoria se descobre na proposta kierkegaardiana de uma transcendência necessária, em resposta à angústia diante da finitude! Quanto discernimento se revela na afirmação de Schopenhauer: “estamos sempre tentando dissipar a obscura perspectiva do nada”. Perspectiva que ameaça a existência de instante para instante, e que tentamos superar apostando seriamente em crenças que podem não passar de invenção articulada, com alguma probabilidade de acerto. Situação que poderia parecer ao mesmo tempo aleatória, patética ou ridícula para pessoas que se querem solidamente objetivas. Mas que, uma vez assumida e vivida com entusiasmo mediante um ato de fé é a verdade de cada um. De repente, o que poderia parecer um simples palpite ingênuo se transforma em referência essencial ao exercício da consciência crítica!...
                  Termino lembrando que o saber filosófico milenar é um recurso poderoso para ajudar o homem a lidar com a realidade. Acredito em que o “Aconselhamento Filosófico” pode ser um auxiliar valioso da Psicanálise, fazendo uma ponte entre milênios de sabedoria e o enfrentamento dos desafios existenciais atuais, ajudando as pessoas a levarem uma “vida examinada” como preconizava Sócrates.
                 Everaldo Lopes


         [1] Racionalidade, consciência de si, discernimento de valores.
[2] O “tu” está presente na constituição do “eu” ; um não existe sem o outro ( Vide Martim Buber  no seu livro “eu e    tu”.  )  
[3] Método socrático que consiste na multiplicação de perguntas, induzindo o interlocutor na descoberta de suas próprias verdades e na conceituação geral de um objeto. Houaiss

        [4]Vide texto anterior

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Aconselhamento Filosófico III


    Os filósofos nos legaram lições de sabedoria. Todas elas objetivam elaborar uma “visão de mundo”[1] para contextualizar a existência[2], ensejando a plena realização das  potencialidade humanas. O exemplo de Epicuro (342aC - 271aC) é emblemático. Ele filosofava exercitando-se para aumentar a autoestima em busca da felicidade serena, transformando em alegria o medo profundo diante de um devir incerto. Desde então, o pensamento evoluiu através de Escolas Filosóficas que buscaram entender a realidade cósmica e como nela se contextualiza o fenômeno humano. A partir de uma intuição fundamental, cada Pensador tem contribuído para o patrimônio cultural da Humanidade com mundividências diferentes.
Platão (470a.C-399a.C) defendeu o primado das essências. Acreditava na existência das formas puras (essências), abstratas, das quais os objetos materiais são cópias imperfeitas. Para ele conhecer a essência das coisas é o propósito mais belo do homem, embora as essências sejam inalcançáveis. Todavia o pensador pode delas se aproximar pelo conhecimento sem nunca alcança-las. No exercício da consciência responsável, a essência da felicidade estaria vinculada à realização intelectual e afetiva do ser consciente, à luz de critérios éticos. Orientação específica do modo de ser próprio do homem.
Aristóteles (384a.C-322aC) inventou a lógica, instrumento intelectual indispensável para a orientação da resposta coerente ao problema existencial cuja compreensão está sujeita a erros do pensamento crítico. É muito nítida a relação entre a atitude intelectual diante da realidade e as ações empreendidas pelos seres conscientes. Daí a importância da Lógica no desenvolvimento da existência de cada um. Nesta perspectiva a especulação metafísica realiza o coroamento do pensamento filosófico, construindo uma mundividência logicamente coerente e significativa na qual se contextualiza a “existência”[3].
Montaigne (1533-1692) filosofava auscultando os próprios pensamentos. Entendia a Filosofia como uma forma de cultura[4], e não uma ginástica intelectual acadêmica que tenta encher os vazios da vida com pensamentos abstratos. Para ele, filosofar é a arte de viver corretamente. Montaigne queria fazer um auto retrato do seu pensamento para evidenciar os meandros existenciais, entende-los e corrigi-los quando necessário. Seus Ensaios demonstram que qualquer movimento do espírito, e toda e qualquer mudança física pode ganhar cor na tela da consciência. Os sentimentos encarados sem censura, mas com respeito e inteligência são os grandes companheiros do homem sincero, autêntico, capaz de enfrentar a solidão. Como ele mesmo dizia: “Acho que não posso proporcionar nada melhor ao meu espírito do que permitir que ele dialogue consigo mesmo de modo centrado, em plena tranquilidade”... desta forma encontrará a coerência e a paz existencial.
Séculos depois John Locke (1632-1704), representante maior do Empirismo[5] distinguia conceitualmente informação e reflexão. Entendendo que a informação é adquirida pelos sentidos, e que a reflexão é o tratamento especulativo da informação colhida pela introspecção, através de processos mentais como pensar, acreditar, imaginar, querer. A informação adquirida através dos sentidos poderá ser comprovada na prática, levando a conclusões objetivas. Mas a reflexão é da ordem do subjetivo e não pode ser comprovada objetivamente. Estas incursões filosóficas estabeleceram a distinção entre o conhecimento teórico e o prático, conferindo ênfase especial ao pensamento objetivo, empírico, experimental.
Os Racionalistas vieram depois, liderados por Imannuel Kant (1724-1804). Para estes a razão, e não a experiência é o giz que escreve nas páginas em branco do cérebro. A reflexão ganhou força pondo o indivíduo no centro do processo social e político; diferentemente do teocentrismo dos primeiros séculos da idade Média. Com esta orientação ocorreu uma exaltação da razão pura. A razão prática ficou encrustada na razão crítica, na medida em que esta define princípios gerais que delimitam o comportamento humano conferindo coerência à prática existencial.
Realçando a afetividade, como uma reação ao racionalismo, quase ao mesmo tempo, Rousseau (1712-1770) e Hegel (1770-1831) inauguraram o Romantismo. Esta visão alimentou o nacionalismo que consolidou os Estados europeus. Neste mesmo contexto histórico, Jeremy Bentham (1748-1832) pregava que o objetivo do homem é promover “a maior felicidade para o maior número de pessoas”. Este Pensador inaugurou a Filosofia Utilitarista segundo a qual o conhecimento (pensamentos) e as ações humanas (práticas) valeriam pelo quanto pudessem melhorar a qualidade de vida da maioria das pessoas.
Na sequência, Arthur Schopenhauer (1788-1860), denuncia o otimismo das pessoas. Dizia ele: “Este otimismo é um escárnio ante o indescritível sofrimento da humanidade”. Assim como a criança teme a escuridão, “estamos sempre tentando dissipar a obscura perspectiva do nada” que ameaça a existência de instante para instante. Como? Apostando em formas de pensar que não passam de invenção articulada, aleatória, com alguma probabilidade de acerto. Situação que é ao mesmo tempo patética e ridícula para pessoas que se querem sérias. Mas que, assumida e realizada com entusiasmo o que seria “invenção articulada” passa a ser a verdade de cada um. 
Posteriormente, William James (1842-1910) e John Dewey (1859-1952) propuseram o Pragmatismo, a única Escola Filosófica moderna  exclusivamente americana como uma reação à presunção do Racionalismo e à ingenuidade do Romantismo. O pensamento pragmático assim se resume: “a verdade de uma teoria, a justeza de uma ação, e o valor de uma atividade são demonstrados pelo proveito imediato”. Orientação que abriu espaço para o desenvolvimento do Capitalismo.
No século XIX a descoberta das consequências da teoria da Relatividade, as formulações do princípio de indeterminação de Heisemberg e da Teoria Quântica coincidiram com a derrocada do iluminismo[6]. Ficou demonstrado que não há verdade absoluta, tudo muda em relação a tudo, dependendo da posição do observador. Essa perspectiva contrasta com a expectativa de que as Ciências pudessem resolver todos os problemas humanos. Os Existencialistas surgiram então nesta lacuna cultural. Rejeitaram o “Essencialismo” platônico; admitiram não existir nenhuma essência inicial, somente o ser fenomênico, pelo menos em relação ao homem. E no rastro deste posicionamento veio o questionamento inevitável. Se não há nenhuma essência somos todos ocos. Bradou, então, Nietzsche (1844-1900): “Deus está morto e nós o matamos.” O Universo é imprevisível e indiferente (que desespero!). Por que então levantar amanhã? Esse desespero foi pavor para Kierkegaard (1813-1855) Teólogo Dinamarquês, náusea para Sartre (1905-1980), absurdo para Cumus (1913-1960). Fundamentalmente, o existencialismo estava empenhado na busca de uma moral para fazer a coisa certa sem Deus. Fazer a coisa certa pelo próprio Bem e não por medo de punição ou por vantagens (ganho secundário). Isto demonstra que o  existencialismo conta com um núcleo de esperança e bondade encoberto na retórica depressiva. Os existencialistas descobriram de fato a moralidade na dignidade de ser consciente e livre. Kierkegaard acentuou a dificuldade de encarar a existência pura, sem essência, sem significado, sem propósito. O Teólogo transcendeu este impasse consolidando o conceito do nível “ético religioso” da existência.
E assim, nesta mesma linha existencialista, ao longo do tempo, o fenômeno humano (existencial) foi examinado e associado a diferentes maneiras de pensar. Há existencialistas materialistas e os há espiritualistas convictos vinculados a uma orientação religiosa. Kierkegaard é considerado por muitos como existencialista cristão e Gabriel Marcel (1889-1973) como o representante católico desta corrente do pensamento.
          Martim Buber (1878-1965) demonstrando que o “eu” se constitui existencialmente no confronto com um “tu”, descobriu o homem na sua relação identitária com o outro. Dessa forma, a busca assumida de alguém com quem se possa partilhar a experiência de existir assume importância renovada. A concepção buberiana da relação “eu-tu” pode ser considerada como a base psicossocial da solidariedade.
          Bérgson (1859-1941) ao pregar a originalidade do homem argumentou: “Que tipo de mundo existiria se a mecanização dos espíritos, imbuídos de uma tecnologia absorvente, avassalasse a raça humana levando os povos e as pessoas à uniformidade das coisas?” Este questionamento sugere que as diferenças estão inscritas no conceito amplo de Humanidade e devem ser superadas pelo efetivo exercício da consciência livre e responsável.
Como sempre os Filósofos nos põem diante de verdades que eles experimentaram ao longo de profundas meditações, mas discordam em muitos pontos. Com essa autoridade Pitágoras nos afirma: Nenhum homem é livre se não puder comandar a si mesmo. Para Hobbes, sem um poder que todos reverenciem, os homens guerreiam, inevitavelmente. O que contraria os que confiamos na possibilidade de evolução deste estado de beligerância para uma convivência comunitária através da prática solidária, encampada espontaneamente pelo próprio homem.
        O Aconselhamento Filosófico (A.F.) vale-se das lições de sabedoria que os Filósofos deixaram, para ajudar o homem na difícil tarefa de “existir” enfrentando problemas novos a serem absorvidos pelo vir a ser existencial. Desta forma o Aconselhamento Filosófico ampliou o significado da Filosofia Prática já utilizada pela Ética Aplicada. E está ajudando as pessoas a levarem uma vida examinada como preconizava Sócrates, fazendo uma ponte entre milênios de sabedoria e a necessidade de enfrentar os desafios atuais.  
             A verdade é que há intransigente necessidade humana de contato social. O próprio Nietzsche, enfatizando o caráter social do homem disse que        para viver só, ou se é um animal ou um Deus! Neste contexto, apresenta-se o vazio já denunciado por Schoupenhauer quando anunciou que o dinamismo da existência está montado em cima de uma “falta”. A assimetria no vir a ser existencial é que gera o dinamismo de atualização da condição humana e o preenchimento desta falta ou vazio representa um valor ancorado na razão ou na fé. Valor que confere significado aos comportamentos pessoais. Para Sartre o homem é aquilo que faz de si mesmo. Eu acrescentaria: a partir da facticidade e contando com o imponderável - elemento que supõe algo ultra fenomênico- essencial, para arrimar o desenvolvimento da existência. Acho que não se pode ignorar a possibilidade de um princípio metafísico inerente à existência para que o ser consciente possa construir sua própria essência. Mas só o outro preenche o vazio, a falta original. E isto aponta a capacidade humana de transcender-se, denunciando o Princípio metafísico já mencionado[7].
                        (Continua no próximo texto)
                        Everaldo Lopes


[1] Compreensão geral do Universo e da posição nele ocupada pelo homem, que   se expressa por um conjunto mais ou menos integrado de representações e que deve determinar, em última instância, a vontade e os atos do seu portador.(Aurélio)
[2]No pensamento de Kierkegaard (1813-1855) e no existencialismo contemporâneo, modo de ser próprio do homem. (Dic.Houaiss)

[3] Modo de ser próprio do homem.
[4] Categoria dialética de análise do processo pelo qual o homem, por meio de sua atividade concreta (espiritual e material ), ao mesmo tempo que modifica a Natureza, cria a si mesmo como sujeito social da História.
[5] Empirismo é um movimento que acredita nas experiências como únicas (ou principais) formadoras das ideias, discordando, portanto, da noção de ideias inatas.(Wikipédia)
          [6] Movimento intelectual do século XVIII, caracterizado pela centralidade da
          ciência e da racionalidade crítica no questionamento filosófico, o que implica
          recusa a todas as formas de dogmatismo, especialmente o das doutrinas
          políticas e religiosas tradicionais.
[7] Vide o texto Existência, esperança e fé, neste blog.