quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Aconselhamento Filosófico II



Os Filósofos sempre estiveram envolvidos com questões como a origem e destino do Universo e do homem, o sentido da vida, o uso responsável da liberdade... A consciência da precariedade do vir a ser incerto do homem demanda um apoio confiável para sua existência. Urge embasa-la racional e emocionalmente. Daí a necessidade de responder às interrogações filosóficas: Como tudo começou? O que somos nós? Como tudo acabará? A instabilidade existencial se desdobra em conflitos entre a razão e a emoção, em crises de significado do mundo e da vida, e nas perspectivas de envelhecimento e morte pessoais, ou dos entes queridos. Destes impasses ninguém escapa. Especulando metodicamente sobre esses temas os Filósofos chegaram a definir alguns posicionamentos básicos. Para enfatizar esta preocupação lembro o testemunho de Epicuro que dizia ser vazio o argumento do Filósofo que não alivia a aflição humana. Sócrates, por seu turno, afirmava que a vida não analisada não vale a pena ser vivida, e defendia o auto aprimoramento do homem mediante o conhecimento de si mesmo, sendo este saber a vocação mais elevada do ser humano em prol de uma vida mais realizada. Os defensores do Aconselhamento Filosófico admitem como fator de instabilidade a vivência não esclarecida da desordem dos conceitos filosóficos que servem de paradigmas ao vir a ser consciente... e apostam em que, ordenando-os, abre-se o espaço para resgatar o equilíbrio existencial. Neste sentido é de grande ajuda a contribuição do Aconselhamento Filosófico (AF) na medida em que põe o Cliente em contato com ideias e doutrinas positivas que podem contextualizar, corrigindo-o, o desacerto intelectual e afetivo problemático. A missão do Conselheiro é captar a sabedoria dos Filósofos que tentaram compreender o fenômeno humano, e apresenta-la ao cliente, aproveitando o ensejo para situar os seus problemas num todo significativo. O ser consciente precisa encontrar o verdadeiro sentido de sua existência no Universo estruturado que reúne o infinitamente pequeno, o infinitamente grande, e o infinitamente complexo. O Aconselhamento Filosófico oferece orientações gerais para descobrir o papel do vir a ser consciente no contexto da estrutura evolutiva do Universo. Não há um método geral de Aconselhamento Filosófico; o Conselheiro apenas apresenta ao cliente uma visão mais ampla de suas possibilidades de encarar a dificuldade. Com este objetivo alinham-se os cinco passos do Aconselhamento: 1) definir e examinar, progressivamente o Problema; 2) sopesar e canalizar criativamente a Emoção a ele vinculada; 3) ganhar a distância subjetiva necessária para Análise objetiva da situação e das alternativas de solução; 4) olhar em perspectiva o processo para a Contemplação do todo; 5) buscar numa totalidade significativa o Equilíbrio da resposta ao problema focalizado. A paz interior duradoura é o objetivo a ser alcançado... Coincidentemente, as iniciais das etapas do processo descrito formam a palavra “PEACE”.
Confrontando as conclusões inspiradas nos sistemas filosóficos afins com o problema que aflige o cliente, o Conselheiro ajudá-lo-á a alcançar uma posição de equilíbrio fundamentada na compreensão da própria existência, preparando-o para agir apropriadamente tendo em vista a solução de sua problemática pessoal.
Diferentes Escolas Filosóficas oferecem interpretações peculiares da situação existencial do cliente, das quais se tiram orientações gerais sobre o que fazer. Cabe ao Conselheiro discutir uma posição filosófica que seja ao mesmo tempo justificável por seus méritos, coerente com a natureza do problema apresentado pelo cliente e compatível com suas potencialidades. Depois de o cliente articular o problema, depois de exprimir suas emoções e assumir uma posição filosófica consentânea, estará mais próximo de conseguir o equilíbrio psíquico afetivo a que aspira.
As pessoas são auto referentes mas em geral o homem alienado de sua realidade mais íntima assume o que lhe convêm, circunstancialmente, e dissocia-se de tudo que compromete sua autoestima, atribuindo-o a terceiros. Este descompasso interior leva à irresponsabilidade neurótica que é o cerne de um comportamento de fuga inconsciente, de uma realidade insuportável. Uma visão panorâmica do problema existencial corretamente contextualizado pode despertar o homem “alienado” de si mesmo, e abrir caminho para a recomposição de sua integridade pessoal. A análise filosófica das situações existenciais conflitantes pode ajudá-lo a compreender a incoerência de sua alienação. Este passo rumo ao comportamento centrado, objetivo elimina a ansiedade e amplia a liberdade pessoal, condições indispensáveis à plenitude existencial .   
A evolução das doutrinas filosóficas através dos tempos mostra os posicionamentos correspondentes a modos peculiares de explicar, e responder às inquietações do “ser consciente”.
Representado pelo exercício da consciência responsável, o devir humano é em si mesmo problemático. As incertezas inerentes à situação humana mobilizam as potencialidades do ser consciente num esforço heroico para a construção de um apoio no meio de tantas dúvidas. Esta mobilização de forças, intelectuais e morais, resultou na busca de um saber universal que é o cerne da Filosofia. E o Aconselhamento Filosófico pressupõe que este saber pode ajudar na reordenação existencial do cliente.
Faremos na próxima postagem uma breve incursão na história do pensamento, destacando os desenvolvimentos especulativos mais marcantes sobre os fundamentos fenomenológicos do exercício da consciência livre e responsável. É importante o reconhecimento teórico dos fundamentos existenciais. Todavia, para mudar o rumo da história pessoal é preciso que o conhecimento profundo mobilize a afetividade, ou melhor, nela se continue insensivelmente, e ative a vontade para a ação pertinente livremente escolhida pelo sujeito consciente... Não conheço melhor aplicação para o conceito deuleuziano de “dobra”[1], do que a implicação funcional complexa  do conhecimento, da afetividade e da vontade no laboratório subjetivo da existência pessoal.
(Continua no próximo texto) Everaldo Lopes.            


[1] “Dobra”- caráter coextensivo do dentro e do fora; do pensamento que representa conceitualmente uma relação específica de conhecimento e a afetividade,  indistinguíveis no mundo subjetivo.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Aconselhamento Filosófico I



     O Filósofo propõe-se conhecer a realidade, desenvolvendo a razão dialética em busca da Verdade, da Justiça, e da Beleza nas relações humanas ambientais e sociais. O autoconhecimento profundo dos seres humanos acaba mobilizando um sentimento de aproximação entre eles. Aliás, este é o caminho a ser trilhado por todos os homens.  A Maior virtude do Filósofo é a disposição de refletir, isenta de preconceitos, sobre a realidade mais íntima do sujeito pensante tendo em vista alcançar uma maneira funcional e apropriada de lidar com as dificuldades do vir a ser existencial. Na sua origem a Filosofia constituiu-se num conhecimento para ser aplicado na experiência humana quotidiana. Sua aplicação na vida prática precede, pois, a institucionalização como disciplina acadêmica. Reforçando a vocação original da Filosofia, o Aconselhamento Filosófico destina-se a ajudar as pessoas a encontrar um estilo de vida que lhe garanta a melhor realização pessoal e paz interior. Isto implica no bom uso das funções psíquicas superiores[1]. A missão do Conselheiro Filosófico (CF) é ajudar o cliente a compreender melhor a natureza humana. Neste sentido é fundamental induzi-lo a pensar por si mesmo, ajudando-o a identificar sua própria visão de mundo[2].
Aprendendo a distanciar-se subjetivamente do seu problema, o cliente consegue analisa-lo com objetividade. Este olhar filosófico permite-lhe definir as situações aflitivas com realismo e serenidade; oportunidade de aprender que “a vida é tensa e complicada, mas não é inevitável que o leve à angústia e à confusão”. O CF leva o cliente a reconhecer a analogia do seu problema com temas já explorados intelectualmente pelos Filósofos. Repassando-lhe as doutrinas destes Pensadores sobre as questões inerentes ao valor, ao significado e à ética, o Conselheiro ajudá-lo-á a encontrar uma resposta pessoal para seus conflitos. 
Iniciado por Gerd Achenbach na Alemanha, nos anos oitenta do último século, a prática do “Aconselhamento Filosófico” migrou para a América do Norte na década seguinte, granjeando ampla aceitação. O livro de Lou Marinoff intitulado “Mais Platão, menos Prosac” foi meu primeiro contato com esta aplicação da Filosofia. A partir da leitura que fiz deste livro tentarei resumir neste e nos próximos textos os aspectos mais importantes do tema em questão.
  Para o Conselheiro Filosófico deve estar bastante claro que o foco do aconselhamento é o “agora”; e o diálogo, a troca de ideias é que é terapêutica. Lembrando sempre que se o problema tem uma causa conhecida, suprimi-la quando possível é a primeira  providência. No caso de ser difícil remover o motivo do desconforto psíquico, ajudará muito discutir as razões que dificultam a remoção do obstáculo à paz interior do consulente.
      O CF assume a premissa que o ser consciente é responsável, em boa medida, pelo próprio devir, e as anormalidades de conduta frequentemente são forjadas pela impropriedade ou desarticulação do seu pensar, querer e agir. Estes desvios estão ligados a desejos e necessidades mal dimensionados, e à desorientação das funções psíquicas superiores. O Aconselhamento Filosófico aposta na possibilidade de o próprio indivíduo reorientá-las, na medida em que entende o funcionamento do seu psiquismo.
Todos estamos mais ou menos condicionados aos pacotes culturais que encerram soluções formais, destinadas a resolver os problemas corriqueiros de convivência. A inércia cultural exclui, ou pelo menos retarda as mudanças comportamentais que se fazem necessárias em razão do fluxo evolutivo humano e social. Adotar uma postura nova implica sempre um risco, e isto assusta as pessoas prejudicando, muitas vezes, sua determinação voluntária heroica para empreender a mudança desejada.
O sentido da vida é viver, disso a Natureza dá conta. Porém o sentido da existência deve ser escolhido por cada um no seu vir a ser, mediante opções livres e responsáveis. Não há respostas naturais para os problemas existenciais, nem satisfaz ao ser consciente simplesmente obedecer à padronização das respostas culturalmente cultivadas. No processo de individuação[3] é preciso que cada um seja suficientemente crítico em relação à moldagem social que a pretexto de salvaguardar a ordem coletiva pode asfixiar a capacidade individual de escolher. Para ser legítimo, o sentido da existência deve evoluir de forma socialmente estruturada e estruturante coerente com o ser pessoal integrado num contexto solidário universal. Obviamente, isto não significa anular o indivíduo, e sim induzi-lo a desenvolver-se como pessoa – membro de uma comunidade. Portanto, é necessário que a socialização do indivíduo respeite o compromisso de uma proposta pessoal compatível com o ideal comunitário. Orientação que exige flexibilidade comportamental responsável. Desta forma consegue-se escapar de um roteiro estandardizado que já não responde às necessidades presentes, criando nova maneira de conviver que garanta a ordem coletiva e seja dignificante para os indivíduos. Ao fazer a própria hora, sabiamente, cada um caminha deliberadamente no sentido da satisfação equilibrada dos seus anseios compatibilizando-os com uma organização social que vise à inclusão igualitária de todos os homens. Fiéis a esta orientação o indivíduo assediado muitas vezes por conflitos entre a razão e o sentimento responde na sua prática à pergunta que todos se fazem a cada momento sobre o sentido da existência. Para manter o equilíbrio existencial faz-se necessário esforço criativo dentro de uma visão de mundo integrada. Nesta mobilização de forças intelectuais e morais o homem esculpe a si mesmo mediante escolhas e decisões pessoais consentâneas com a harmonia solidária alicerçada em valores universais. É preciso usar a força que sustenta a dignidade pessoal para assumir voluntariamente a responsabilidade de uma mudança necessária, mas dolorosa. Toda mudança envolve algum risco, mas é mandatório investir na escolha consciente e responsável, amparada na compreensão do valor da opção de hoje sobre o que acontecerá amanhã. O que de bom ou de mau acontece hoje não é mero acaso, reflete a influência maior ou menor das escolhas de ontem. É claro que, contextualizando as decisões assumidas percebe-se que elas trazem a marca de determinismos limitantes da capacidade pessoal de escolher. Estes determinismos são a facticidade[4] inextrincável da contingência da criatura humana. É preciso que cada um compreenda sua facticidade para sobre ela e apesar dela implementar voluntariamente as escolhas ainda possíveis. Obviamente as opções precisam passar pelo crivo de uma crítica racional que poderá ser enriquecida pela sabedoria dos Filósofos. Neste ponto o Aconselhamento Filosófico é uma ferramenta útil para facilitar a escolha de orientações construtivas. A compreensão da dinâmica psicossocial leva o indivíduo a parar de culpar os outros por seus problemas, e a assumir a responsabilidade que lhe toca. Agir com responsabilidade implica necessariamente em incorporar interdições e criar novas formas de convivência. É necessário eliminar os papéis culturalmente sedimentados que já não satisfazem as necessidades do momento, e criar novos que atendam o ideal comunitário.
É normal ter problemas. E a aflição emocional imediata inerente aos mesmos não é doença. Esta começa com a tendência de alimentar a aflição recusando a realidade, em vez de solucionar o problema ou, quando este for irrevogável, aprender a conviver com ele. E isto implica em contextualizar a existência numa mundividência coerente.
(Continua no próximo texto)
                                  Everaldo Lopes


       [1] Controle consciente do comportamento, atenção e lembrança voluntária, memorização
         ativa,  pensamento abstrato, raciocínio dedutivo, capacidade de planejamento etc.
        [2] Compreensão geral do Universo e da posição nele ocupada pelo homem, que se expressa por um
         conjunto mais ou menos integrado de representações e que deve determinar, em última instância, a
         vontade e os atos do seu portador (Dic. De Aurélio). 
   
       [3] Processo através do qual uma pessoa se torna consciente de sua individualidade.(Jung)
       [4] Caráter  próprio da condição humana, pela qual cada homem se encontre sempre já comprometido
            com  uma situação não escolhida ( corporal, famíliar, cultural vigente etc.)

terça-feira, 2 de outubro de 2012

A existência, a esperança e a fé



A razão e o bom senso advertem-nos: a esperança e a fé são virtudes essenciais à plenitude existencial. Todos possuímos a capacidade de crer, como uma inclinação que se manifesta espontaneamente no nosso quotidiano. Assim, não costumamos questionar: o despertar do sono em que mergulhamos durante a noite, o nascer do Sol no dia seguinte, a possibilidade de um cataclismo nas próximas horas, e até alimentamos a expectativa de um acontecimento muito desejado, mas estatisticamente improvável. Atitudes como estas envolvem necessariamente esperança e fé. Ora, se já existe a predisposição para acreditar no que não vemos e até no improvável, bastará robustecê-la, direcionando-a, e reforçando-a com especulações lógicas dosadas pelo bom senso para deixar-me empolgar, mediante um ato de fé, pela transcendência absoluta.  A tendência para crer no sobrenatural está presente, originariamente, nas manifestações religiosas que refletem o culto a um poder eterno e misterioso, criador e surpreendentemente sensível às súplicas humanas. A dinâmica psicológica deste investimento subjetivo fica facilitada pela consciência ingênua da realidade, que se prolonga na fé incondicional em um Poder Absoluto. Com a maturidade intelectual, sob o olhar da consciência crítica, a crença até então ingênua recebe o apoio de lucubrações que conduzem à conclusão da necessidade lógica de um Dinamismo Absoluto Eternamente Criativo para justificar a própria realidade que vivemos. Embora sendo este Absoluto um absurdo conceitual[1], encontra justificativas convincentes[2] na coerência de uma especulação filosófica sobre a origem do cosmo e da vida. Para testemunhar a universalidade do apelo transcendental inerente à psique humana, peço atenção para duas manifestações culturais emblemáticas. Uma representada pela intuição poética do compositor popular; e outra consistente na abstração logicamente coerente do Filósofo. A atitude mística está por trás de ambas, insinuada, respectivamente, na mensagem da letra de um samba que trata com sabedoria as vicissitudes da “existência”; e na meditação filosófica que dá suporte intelectual à ideia de uma ordem universal dentro da qual estamos contextualizados. Tanto num caso como no outro está implícito o reconhecimento de um “absoluto criativo”, conceito metafísico do incognoscível que paira sobre a realidade percebida pelos sentidos, o mistério de como tudo começou. Ora, diante deste absoluto, a única resposta inteligente do ser consciente é uma atitude de entrega confiante. Diz o sambista: “Deixa a vida me lavar, vida leva eu; deixa a vida me levar, vida leva eu... sou feliz e agradeço por tudo que Deus me deu”[3]. Nestes versos se inscreve o abandono consciente a uma ordem superior implícita na fé em uma transcendência que transparece na intuição criativa do compositor. Por outro lado na conclusão especulativa, filosófica, que “vivemos no melhor dos mundos possíveis”[4] está embutido o reconhecimento intelectual da perfeição da ordem universal, compatível com a noção da Totalidade absoluta necessariamente perfeita, na qual se equilibram a Verdade, a Justiça e a Misericórdia[5].  O Sambista e o Filósofo afirmam tacitamente um Criador, e assumem a postura de entrega que lhes cabe como criaturas. O primeiro deixando-se conduzir docilmente pela vontade de Deus, o segundo, confiante nas lucubrações que o levam a admitir que ao fim de tudo prevaleça a ordem original, transcendental, dentro da qual nos situamos evolutivamente, embora não alcancemos compreender os meandros dessa evolução. Nestas perspectivas, o cosmo e a consciência se integram numa realidade única misteriosa na qual a contingência, e a transcendência absoluta se confundem numa unidade que permanece incompreensível para a razão temporal, e só é acessível através da fé. Os exemplos supracitados são testemunhos que desafiam a indiferença dos ímpios e agnósticos. Em verdade, suspensa a barreira da ortodoxia agnóstica, racionalista e intolerante abre-se o espaço subjetivo para a vivência de fé numa transcendência impossível de ser compreendida racionalmente, mas que atende à expectativa do ser consciente por uma experiência de completude inexcedível.
A dinâmica da esperança e da fé é como se fora um prolongamento das forças instintivas de sobrevivência que ecoam nas interações psíquicas profundas para modular a vivência da crença numa realidade que extrapola a pura imanência do vir a ser consciente. E para ser coerente com sua própria realidade, o homem se curva intuitivamente à esperança e à fé, admitindo uma transcendência absoluta indefinível objetivamente, sem diminuir a majestade da razão temporal, justificando a genuflexão de sábios e cientistas ante o mistério no qual imergem a consciência e o mundo. Nesta perspectiva de fé o homem se liberta da prisão imposta pela vivência de finitude, e rompe a barreira espaço temporal, debruçando-se sobre a eternidade, para deixar-se envolver no infinito das possibilidades. Tudo isso faz parte do modo peculiar de o homem existir. E que remanso de paz e segurança surpreendê-lo-á quando, ao largo da turbulência de fantasias pessimistas, vislumbrar a possibilidade eleita de uma experiência única de completude, além dos limites do tempo e do espaço.
Auscultando a natureza incompleta do seu ego finito, o pensador que aspira a realizar uma experiência pessoal inexcedível dá-se conta da ilusão de segurança e sustentabilidade que o seduzem no enlevo de fantasias imediatistas de poder e sensualidade. Percebe, então, no mais íntimo de si mesmo a nostalgia de um Tu absoluto, com o qual realizará afinal sua experiência suprema de “ser”, numa relação profunda com o absoluto indondável. No curso da “existência” o homem pode negar-se a render-se a esta Transcendência absoluta, mas com isto exclui a possibilidade de uma experiência mística que se apresenta como a única solução cabal para o problema existencial no  vir a ser consciente, finito, mas sedento de eternidade. A postura de entrega mística, obviamente, não recebe a chancela das Ciências exatas, mas estas não oferecem uma alternativa satisfatória à necessidade de transcender peculiar do homem. A intuição de um Alter Ego é concebida como o prolongamento de uma vivência crítica do próprio self[6] onde se processa a integração da transcendência absoluta e da imanência, na experiência do “ser consciente”. Mas esta incorporação permanece misteriosa - Deus “cifrado”[7] no Universo - realidade que escapa ao exame fenomenológico. Todavia, pode-se postular logicamente, que nem por um instante o “dinamismo absoluto eternamente criativo” subtrai-se das suas criaturas porque estas não têm o poder de subsistir por si mesmas; desligadas d´Ele deixariam de existir. Assim o Absoluto criador está universalmente presente (a transcendência na imanência, eis o mistério!), na menor partícula de matéria, e no homem, mas só este é capaz de reconhecer Sua presença, através das funções psíquicas superiores lideradas pela consciência reflexiva.
 Lendo suas próprias respostas nas relações consciência – mundo[8], o homem se define culturalmente assumindo comportamentos diferentes, que deverão ser responsáveis, de acordo com sua leitura da realidade. Nesta leitura, a Hipocondria e a Obsessão se constituem em interpretações patologicamente magnificadas da finitude e dos riscos inerentes ao vir a ser existencial incerto, modulando as respostas atípicas suscitadas pelas ameaças implícitas no vir a ser existencial. Quando a estrutura psicológica não suporta sequer reconhecer a realidade hostil, sobrevém a crise histérica que pretende negar o real insuportável. A própria análise existencial pode explicar a origem destas patologias, sem apelar, preliminarmente, para uma etiopatogenia orgânica complexa. Este conhecimento justifica a abordagem filosófica dos comportamentos humanos como recurso hábil para explicar a hipocondria, a obsessão e a histeria.
No processo psíquico implícito no curso da “individuação”, a  esperança e a fé subjazem à unificação das forças da Natureza com uma dimensão transcendental. Mas estas virtudes devem ser corretamente direcionadas para fomentar comportamentos criativos que preencham o vazio ontológico sobre o qual se edificará a existência. O exame crítico da existência será, pois, um auxiliar valioso da Psicanálise. É a isto que se propõe o Aconselhamento Filosófico.   
Everaldo Lopes


[1] Algo que escapa a regras ou a condições determinadas.
[2] Vide os  textos neste blog intitulados “Devaneio especulativo I, II, III”, e “Construindo uma visão de mundo”.
[3] Zeca Pagodinho – Compositor de música popular.
[4] Conclusão de Gottfried Wilhelm Von Leibeniz (1646 -1716)– Filósofo.
[5] Realidade assimilável a um Deus de amor.
[6]Sentimento difuso da unidade da personalidade (suas atitudes e predisposições de comportamento).Indivíduo, tal como se revela e se conhece, representado em sua própria consciência
[7] Conceito implícito na Filosofia existencial de Karl Jaspers(1883 – 1969).
[8] Vide texto anterior

domingo, 23 de setembro de 2012

Como vejo a Hipocondria, a Obsessão e a Histeria.



A Hipocondria[1], a Obsessão[2] e a Histeria[3] são distúrbios psíquicos ditos funcionais que constituem empecilhos à paz interior de suas vítimas. Os Hipocondríacos interpretam sintomas comuns como prenúncios reais de doença grave, ou de morte, e sofrem o mal-estar da expectativa ansiosa de que aconteça o pior. Esta predisposição psíquica se acompanha de sintomas psicossomáticos desagradáveis. Todavia, a preocupação dos hipocondríacos recai em doenças que nunca ou raramente se confirmam nos prazos imaginários estabelecidos pela fantasia neurótica. Quando os pressentimentos incômodos se acompanham de comportamentos repetitivos ou rituais supostamente preventivos viram obsessão compulsiva, caracterizando o Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC). O tratamento das perturbações psíquicas referidas é da alçada dos Psicanalistas e Psicólogos Clínicos. Porém ajuda muito compreender, numa perspectiva existencial[4], a elaboração destas desordens psíquicas. Ao discutir o fundamento e a dinâmica existencial, ilumina-se a compreensão de como as desordens descritas se inserem no devir pessoal, dramatizando os percalços do vir a ser incerto próprio do homem. De fato os distúrbios mencionados são um exagero das respostas do ser consciente à sua própria vulnerabilidade vivenciada na insegurança inerente à incerteza do que está por vir.
A consciência reflexiva e a liberdade emergiram juntas no curso da Evolução, conferindo ao ser humano a faculdade de perceber seus limites temporais e de escolher uma dentre as várias alternativas que se lhe apresentam de instante para instante. A análise existencial é compatível com a ideia de a Hipocondria estar relacionada, na sua origem, à consciência da fragilidade e incertezas peculiares à “existência”[5]. A perspectiva de que se está condenado à doença, ao envelhecimento e à morte contradiz, dolorosamente, a expectativa de vida eterna e felicidade perene que, infantilmente, todos almejamos nesta vida. Tal contraste representa a maior antinomia da existência, entendida esta como uma construção a partir de escolhas livres. A elaboração deste paradoxo é um desafio permanente. Ser consciente implica em que cada um é responsável pelo seu próprio devir, mas, ao mesmo tempo, não tem o controle total sobre os acontecimentos. É impossível evitar na sequência temporal alguns eventos, indesejáveis, mas inevitáveis, inerentes ao ciclo biológico. Todavia, a psique humana não consegue muitas vezes abafar o medo e ansiedade implícitos na simples previsão destes mesmos acontecimentos. É admissível, contudo, dizer que a dificuldade de lidar com a vivência de ser limitado e vulnerável varia de indivíduo para indivíduo, podendo levar alguns à Hipocondria, outros à Obsessão e à Histeria em função do temperamento de cada um, e de experiências traumáticas sofridas. Deixemos aos especialistas a discussão do mecanismo psíquico implícito nestes desvios do comportamento. Vamos nos ater à análise filosófica da situação humana. Nesta perspectiva é razoável afirmar que as patologias mencionadas decorrem da natureza mesma da “existência” uma vez que são um exagero do medo natural despertado no ser consciente ao saber-se vulnerável e finito (Hipocondria); ou são respostas existenciais atípicas aos acontecimentos reais ou imaginários que ameaçam o ser humano (Neurose obsessiva e Histeria). A resposta da psique estruturalmente capaz de resistir ao primeiro impacto destas ameaças é tentar proteger-se da angústia e da ansiedade inerentes às situações de risco. A necessidade exagerada desta proteção coincide com um comportamento obsessivo que, potencializado, corresponde ao Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC). Conduta geralmente estereotipada que representa existencialmente uma tentativa fantasiosa de abafar a angústia e a ansiedade despertadas no homem pela consciência da sua vulnerabilidade e finitude. Diante dos riscos existenciais o indivíduo assume um comportamento rígido, obsessivamente regido por regras que visam a prevenção dos acontecimentos indesejados. Transformado em verdadeiro ritual (repetição compulsiva), este comportamento teria simbolicamente o poder de garantir alguma segurança ao indivíduo ansioso, por exemplo: ao fazer o sinal da cruz, ao bater três vezes na madeira com os nós dos dedos da mão, ao lavar compulsoriamente as mãos, ao revisar repetidas vezes o fechamento da porta sob o temor de invasão domiciliar, etc. Quando esta conduta se torna incômoda impõe-se a Terapia Comportamental ou a prática da Intenção Paradoxal, esta preconizada pela Logoterapia. A primeira implica em permanente disciplina por um esforço de vontade para não ceder à compulsão; a segunda exige da imaginação que incorpore fantasia abraçando o mal temido. Um exemplo clássico da intensão paradoxal é o combate à insônia mediante a aceitação da vigília, sem resistência. Assimilando comportamento semelhante, o medo de não dormir perde força na medida em que o ego temeroso decide aceitar o pior, e a tranquilidade resultante facilita o adormecer. Igualmente, se o hipocondríaco sente-se ameaçado diante da vulnerabilidade inevitável do seu vir a ser contingente será terapêutica a aceitação do fato de não ser possível controlar tudo. Aliás, a maioria das vezes o temor desencadeado está centrado numa fantasia decorrente da confusão entre possibilidade e probabilidade na avaliação das situações de risco. Tomamos como exemplo o caso de alguém com uma viagem de avião programada. O indivíduo normal sabe que é possível a queda eventual da aeronave, mas é estatisticamente improvável que ocorra o desastre, como se constata pela raridade de acidentes registrados entre os milhares de voos que acontecem diariamente no mundo inteiro. Todavia, para o neurótico, confuso, fragilizado pelo medo, se há possibilidade de um desastre é certo que acontecerá!!! Então, apavorado ele apela para os rituais obsessivos que, supostamente evitariam o acontecimento nefasto. O objetivo da análise filosófica do problema é desfazer racionalmente o engodo, e dispensar, voluntariamente, o amparo de uma barganha subjetiva simbólica cuja efetividade preventiva é puramente imaginária e, portanto, descartável. Isso constitui um apoio ao esforço do combate consciente à obsessão e aos rituais neuróticos que visam contornar os maus eventos temidos. O simples exercício racional de fazer a distinção entre possibilidade e probabilidade torna-se uma arma simples auxiliar no combate à obsessão. Quando o medo irracional não cede à análise filosófica do problema, a solução será a Psicoterapia.
Portanto, existencialmente, pode-se admitir que a Hipocondria e a Obsessão  nasçam, respectivamente, de uma sensibilidade exaltada ante o risco de adoecer, e do exagero da necessidade  de segurança e controle do ser consciente sobre o seu vir a ser  incerto.  Os quadros mórbidos resultam no primeiro caso de um temor exagerado, e no segundo de uma necessidade intensa de aliviar a ansiedade e angústia existenciais, apostando numa fantasia à qual se conferem poderes mágicos. O simbolismo do comércio subjetivo destas condutas mexe com forças inconscientes poderosas que podem ser aliciadas a favor do cliente. Entre estas forças sobressaem a Esperança e a fé que dão suporte à expectativa de que acontecerá o melhor na perspectiva em que nos encontramos. Esta é a etapa mais delicada do processo terapêutico, pois não temos controle direto sobre as forças inconscientes relacionadas com a esperança e a fé, nisto residindo, aliás, a dificuldade da cura  perseguida por qualquer terapia psíquica.
Uma alternativa atípica de defesa ocorre entre os indivíduos cuja psique não é capaz, estruturalmente, de resistir ao primeiro impacto da consciência de serem finitos, ou de estarem ameaçados na sua segurança. Dada a extrema sensibilidade à angústia e à ansiedade amplia-se a intensidade do impacto produzido pela expectativa de riscos reais ou imaginários, ao ponto de dissociarem-se as funções psíquicas, obstruindo uma resposta racional, e produzindo a crise histérica. A crise pode ser desencadeada por fatos ou objetos que estejam associados no inconsciente ao conflito existencial traumático que deixou como sequela a incapacidade de o ser consciente resistir ao impacto dos reveses da existência.
Enquanto o Obsessivo compulsivo, diante da ansiedade despertada pela vivência da finitude e riscos inerentes procura uma forma simbólica de controlar o medo incômodo; o histérico, diante do mesmo estímulo desaba, dissociam-se suas funções psíquicas, e ele age irracionalmente, sempre à espera de uma ajuda externa. Face a um estímulo hostil o Histérico perde o controle devido ao pânico extremo provocado por lembranças reprimidas de eventos traumáticos marcados no inconsciente por grande carga emocional.
Em termos comportamentais a orientação obsessiva compulsiva implica em certa autonomia do indivíduo, ao passo que a Histeria o leva a uma dependência latente. Os obsessivos são persistentes e muito racionais... Porém os histéricos diante de uma ameaça não conseguem sequer pensar ordenadamente, tal a instabilidade emocional de que são vítimas. Por isso o histérico é mais volúvel, e leviano no seu discurso descomprometido com a rigidez lógica. Na Histeria conversiva, a incapacidade de pensar transfere a linguagem simbólica para um sintoma físico (paralisia, cegueira, surdez etc.) de acordo com a mensagem que o corpo tenta transmitir, na impossibilidade de uma comunicação verbal.
Uma visão filosófica da questão pode auxiliar o processo psicanalítico, através da análise da realidade existencial problemática por sua própria natureza. A contemplação[6] do propósito central da existência e seus desdobramentos ajudam a conquistar o equilíbrio subjetivo que consiste na aquisição pelo cliente da confiança em si mesmo para resolver os problemas emergentes, ainda que sem a garantia de sucesso absoluto.
(Continua)
Everaldo Lopes


[1] Preocupação excessiva com o próprio estado de saúde.
[2] Pensamento recorrente, indesejável e aflitivo – ideia fixa.
[3] Comportamento caracterizado por excessiva emotividade ou por um terror pânico.
[4] Como se encaixam no modo peculiar de o homem existir como ser consciente. Livre e responsável.
[5] Vir a ser consciente e responsável próprio do homem, sobre o qual, porém, ele não tem controle total.
[6]  Aplicação demorada e absorta da atenção a um objetivo existencial marcante, sem a presunção da garantia total de sucesso .