terça-feira, 2 de outubro de 2012

A existência, a esperança e a fé



A razão e o bom senso advertem-nos: a esperança e a fé são virtudes essenciais à plenitude existencial. Todos possuímos a capacidade de crer, como uma inclinação que se manifesta espontaneamente no nosso quotidiano. Assim, não costumamos questionar: o despertar do sono em que mergulhamos durante a noite, o nascer do Sol no dia seguinte, a possibilidade de um cataclismo nas próximas horas, e até alimentamos a expectativa de um acontecimento muito desejado, mas estatisticamente improvável. Atitudes como estas envolvem necessariamente esperança e fé. Ora, se já existe a predisposição para acreditar no que não vemos e até no improvável, bastará robustecê-la, direcionando-a, e reforçando-a com especulações lógicas dosadas pelo bom senso para deixar-me empolgar, mediante um ato de fé, pela transcendência absoluta.  A tendência para crer no sobrenatural está presente, originariamente, nas manifestações religiosas que refletem o culto a um poder eterno e misterioso, criador e surpreendentemente sensível às súplicas humanas. A dinâmica psicológica deste investimento subjetivo fica facilitada pela consciência ingênua da realidade, que se prolonga na fé incondicional em um Poder Absoluto. Com a maturidade intelectual, sob o olhar da consciência crítica, a crença até então ingênua recebe o apoio de lucubrações que conduzem à conclusão da necessidade lógica de um Dinamismo Absoluto Eternamente Criativo para justificar a própria realidade que vivemos. Embora sendo este Absoluto um absurdo conceitual[1], encontra justificativas convincentes[2] na coerência de uma especulação filosófica sobre a origem do cosmo e da vida. Para testemunhar a universalidade do apelo transcendental inerente à psique humana, peço atenção para duas manifestações culturais emblemáticas. Uma representada pela intuição poética do compositor popular; e outra consistente na abstração logicamente coerente do Filósofo. A atitude mística está por trás de ambas, insinuada, respectivamente, na mensagem da letra de um samba que trata com sabedoria as vicissitudes da “existência”; e na meditação filosófica que dá suporte intelectual à ideia de uma ordem universal dentro da qual estamos contextualizados. Tanto num caso como no outro está implícito o reconhecimento de um “absoluto criativo”, conceito metafísico do incognoscível que paira sobre a realidade percebida pelos sentidos, o mistério de como tudo começou. Ora, diante deste absoluto, a única resposta inteligente do ser consciente é uma atitude de entrega confiante. Diz o sambista: “Deixa a vida me lavar, vida leva eu; deixa a vida me levar, vida leva eu... sou feliz e agradeço por tudo que Deus me deu”[3]. Nestes versos se inscreve o abandono consciente a uma ordem superior implícita na fé em uma transcendência que transparece na intuição criativa do compositor. Por outro lado na conclusão especulativa, filosófica, que “vivemos no melhor dos mundos possíveis”[4] está embutido o reconhecimento intelectual da perfeição da ordem universal, compatível com a noção da Totalidade absoluta necessariamente perfeita, na qual se equilibram a Verdade, a Justiça e a Misericórdia[5].  O Sambista e o Filósofo afirmam tacitamente um Criador, e assumem a postura de entrega que lhes cabe como criaturas. O primeiro deixando-se conduzir docilmente pela vontade de Deus, o segundo, confiante nas lucubrações que o levam a admitir que ao fim de tudo prevaleça a ordem original, transcendental, dentro da qual nos situamos evolutivamente, embora não alcancemos compreender os meandros dessa evolução. Nestas perspectivas, o cosmo e a consciência se integram numa realidade única misteriosa na qual a contingência, e a transcendência absoluta se confundem numa unidade que permanece incompreensível para a razão temporal, e só é acessível através da fé. Os exemplos supracitados são testemunhos que desafiam a indiferença dos ímpios e agnósticos. Em verdade, suspensa a barreira da ortodoxia agnóstica, racionalista e intolerante abre-se o espaço subjetivo para a vivência de fé numa transcendência impossível de ser compreendida racionalmente, mas que atende à expectativa do ser consciente por uma experiência de completude inexcedível.
A dinâmica da esperança e da fé é como se fora um prolongamento das forças instintivas de sobrevivência que ecoam nas interações psíquicas profundas para modular a vivência da crença numa realidade que extrapola a pura imanência do vir a ser consciente. E para ser coerente com sua própria realidade, o homem se curva intuitivamente à esperança e à fé, admitindo uma transcendência absoluta indefinível objetivamente, sem diminuir a majestade da razão temporal, justificando a genuflexão de sábios e cientistas ante o mistério no qual imergem a consciência e o mundo. Nesta perspectiva de fé o homem se liberta da prisão imposta pela vivência de finitude, e rompe a barreira espaço temporal, debruçando-se sobre a eternidade, para deixar-se envolver no infinito das possibilidades. Tudo isso faz parte do modo peculiar de o homem existir. E que remanso de paz e segurança surpreendê-lo-á quando, ao largo da turbulência de fantasias pessimistas, vislumbrar a possibilidade eleita de uma experiência única de completude, além dos limites do tempo e do espaço.
Auscultando a natureza incompleta do seu ego finito, o pensador que aspira a realizar uma experiência pessoal inexcedível dá-se conta da ilusão de segurança e sustentabilidade que o seduzem no enlevo de fantasias imediatistas de poder e sensualidade. Percebe, então, no mais íntimo de si mesmo a nostalgia de um Tu absoluto, com o qual realizará afinal sua experiência suprema de “ser”, numa relação profunda com o absoluto indondável. No curso da “existência” o homem pode negar-se a render-se a esta Transcendência absoluta, mas com isto exclui a possibilidade de uma experiência mística que se apresenta como a única solução cabal para o problema existencial no  vir a ser consciente, finito, mas sedento de eternidade. A postura de entrega mística, obviamente, não recebe a chancela das Ciências exatas, mas estas não oferecem uma alternativa satisfatória à necessidade de transcender peculiar do homem. A intuição de um Alter Ego é concebida como o prolongamento de uma vivência crítica do próprio self[6] onde se processa a integração da transcendência absoluta e da imanência, na experiência do “ser consciente”. Mas esta incorporação permanece misteriosa - Deus “cifrado”[7] no Universo - realidade que escapa ao exame fenomenológico. Todavia, pode-se postular logicamente, que nem por um instante o “dinamismo absoluto eternamente criativo” subtrai-se das suas criaturas porque estas não têm o poder de subsistir por si mesmas; desligadas d´Ele deixariam de existir. Assim o Absoluto criador está universalmente presente (a transcendência na imanência, eis o mistério!), na menor partícula de matéria, e no homem, mas só este é capaz de reconhecer Sua presença, através das funções psíquicas superiores lideradas pela consciência reflexiva.
 Lendo suas próprias respostas nas relações consciência – mundo[8], o homem se define culturalmente assumindo comportamentos diferentes, que deverão ser responsáveis, de acordo com sua leitura da realidade. Nesta leitura, a Hipocondria e a Obsessão se constituem em interpretações patologicamente magnificadas da finitude e dos riscos inerentes ao vir a ser existencial incerto, modulando as respostas atípicas suscitadas pelas ameaças implícitas no vir a ser existencial. Quando a estrutura psicológica não suporta sequer reconhecer a realidade hostil, sobrevém a crise histérica que pretende negar o real insuportável. A própria análise existencial pode explicar a origem destas patologias, sem apelar, preliminarmente, para uma etiopatogenia orgânica complexa. Este conhecimento justifica a abordagem filosófica dos comportamentos humanos como recurso hábil para explicar a hipocondria, a obsessão e a histeria.
No processo psíquico implícito no curso da “individuação”, a  esperança e a fé subjazem à unificação das forças da Natureza com uma dimensão transcendental. Mas estas virtudes devem ser corretamente direcionadas para fomentar comportamentos criativos que preencham o vazio ontológico sobre o qual se edificará a existência. O exame crítico da existência será, pois, um auxiliar valioso da Psicanálise. É a isto que se propõe o Aconselhamento Filosófico.   
Everaldo Lopes


[1] Algo que escapa a regras ou a condições determinadas.
[2] Vide os  textos neste blog intitulados “Devaneio especulativo I, II, III”, e “Construindo uma visão de mundo”.
[3] Zeca Pagodinho – Compositor de música popular.
[4] Conclusão de Gottfried Wilhelm Von Leibeniz (1646 -1716)– Filósofo.
[5] Realidade assimilável a um Deus de amor.
[6]Sentimento difuso da unidade da personalidade (suas atitudes e predisposições de comportamento).Indivíduo, tal como se revela e se conhece, representado em sua própria consciência
[7] Conceito implícito na Filosofia existencial de Karl Jaspers(1883 – 1969).
[8] Vide texto anterior

domingo, 23 de setembro de 2012

Como vejo a Hipocondria, a Obsessão e a Histeria.



A Hipocondria[1], a Obsessão[2] e a Histeria[3] são distúrbios psíquicos ditos funcionais que constituem empecilhos à paz interior de suas vítimas. Os Hipocondríacos interpretam sintomas comuns como prenúncios reais de doença grave, ou de morte, e sofrem o mal-estar da expectativa ansiosa de que aconteça o pior. Esta predisposição psíquica se acompanha de sintomas psicossomáticos desagradáveis. Todavia, a preocupação dos hipocondríacos recai em doenças que nunca ou raramente se confirmam nos prazos imaginários estabelecidos pela fantasia neurótica. Quando os pressentimentos incômodos se acompanham de comportamentos repetitivos ou rituais supostamente preventivos viram obsessão compulsiva, caracterizando o Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC). O tratamento das perturbações psíquicas referidas é da alçada dos Psicanalistas e Psicólogos Clínicos. Porém ajuda muito compreender, numa perspectiva existencial[4], a elaboração destas desordens psíquicas. Ao discutir o fundamento e a dinâmica existencial, ilumina-se a compreensão de como as desordens descritas se inserem no devir pessoal, dramatizando os percalços do vir a ser incerto próprio do homem. De fato os distúrbios mencionados são um exagero das respostas do ser consciente à sua própria vulnerabilidade vivenciada na insegurança inerente à incerteza do que está por vir.
A consciência reflexiva e a liberdade emergiram juntas no curso da Evolução, conferindo ao ser humano a faculdade de perceber seus limites temporais e de escolher uma dentre as várias alternativas que se lhe apresentam de instante para instante. A análise existencial é compatível com a ideia de a Hipocondria estar relacionada, na sua origem, à consciência da fragilidade e incertezas peculiares à “existência”[5]. A perspectiva de que se está condenado à doença, ao envelhecimento e à morte contradiz, dolorosamente, a expectativa de vida eterna e felicidade perene que, infantilmente, todos almejamos nesta vida. Tal contraste representa a maior antinomia da existência, entendida esta como uma construção a partir de escolhas livres. A elaboração deste paradoxo é um desafio permanente. Ser consciente implica em que cada um é responsável pelo seu próprio devir, mas, ao mesmo tempo, não tem o controle total sobre os acontecimentos. É impossível evitar na sequência temporal alguns eventos, indesejáveis, mas inevitáveis, inerentes ao ciclo biológico. Todavia, a psique humana não consegue muitas vezes abafar o medo e ansiedade implícitos na simples previsão destes mesmos acontecimentos. É admissível, contudo, dizer que a dificuldade de lidar com a vivência de ser limitado e vulnerável varia de indivíduo para indivíduo, podendo levar alguns à Hipocondria, outros à Obsessão e à Histeria em função do temperamento de cada um, e de experiências traumáticas sofridas. Deixemos aos especialistas a discussão do mecanismo psíquico implícito nestes desvios do comportamento. Vamos nos ater à análise filosófica da situação humana. Nesta perspectiva é razoável afirmar que as patologias mencionadas decorrem da natureza mesma da “existência” uma vez que são um exagero do medo natural despertado no ser consciente ao saber-se vulnerável e finito (Hipocondria); ou são respostas existenciais atípicas aos acontecimentos reais ou imaginários que ameaçam o ser humano (Neurose obsessiva e Histeria). A resposta da psique estruturalmente capaz de resistir ao primeiro impacto destas ameaças é tentar proteger-se da angústia e da ansiedade inerentes às situações de risco. A necessidade exagerada desta proteção coincide com um comportamento obsessivo que, potencializado, corresponde ao Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC). Conduta geralmente estereotipada que representa existencialmente uma tentativa fantasiosa de abafar a angústia e a ansiedade despertadas no homem pela consciência da sua vulnerabilidade e finitude. Diante dos riscos existenciais o indivíduo assume um comportamento rígido, obsessivamente regido por regras que visam a prevenção dos acontecimentos indesejados. Transformado em verdadeiro ritual (repetição compulsiva), este comportamento teria simbolicamente o poder de garantir alguma segurança ao indivíduo ansioso, por exemplo: ao fazer o sinal da cruz, ao bater três vezes na madeira com os nós dos dedos da mão, ao lavar compulsoriamente as mãos, ao revisar repetidas vezes o fechamento da porta sob o temor de invasão domiciliar, etc. Quando esta conduta se torna incômoda impõe-se a Terapia Comportamental ou a prática da Intenção Paradoxal, esta preconizada pela Logoterapia. A primeira implica em permanente disciplina por um esforço de vontade para não ceder à compulsão; a segunda exige da imaginação que incorpore fantasia abraçando o mal temido. Um exemplo clássico da intensão paradoxal é o combate à insônia mediante a aceitação da vigília, sem resistência. Assimilando comportamento semelhante, o medo de não dormir perde força na medida em que o ego temeroso decide aceitar o pior, e a tranquilidade resultante facilita o adormecer. Igualmente, se o hipocondríaco sente-se ameaçado diante da vulnerabilidade inevitável do seu vir a ser contingente será terapêutica a aceitação do fato de não ser possível controlar tudo. Aliás, a maioria das vezes o temor desencadeado está centrado numa fantasia decorrente da confusão entre possibilidade e probabilidade na avaliação das situações de risco. Tomamos como exemplo o caso de alguém com uma viagem de avião programada. O indivíduo normal sabe que é possível a queda eventual da aeronave, mas é estatisticamente improvável que ocorra o desastre, como se constata pela raridade de acidentes registrados entre os milhares de voos que acontecem diariamente no mundo inteiro. Todavia, para o neurótico, confuso, fragilizado pelo medo, se há possibilidade de um desastre é certo que acontecerá!!! Então, apavorado ele apela para os rituais obsessivos que, supostamente evitariam o acontecimento nefasto. O objetivo da análise filosófica do problema é desfazer racionalmente o engodo, e dispensar, voluntariamente, o amparo de uma barganha subjetiva simbólica cuja efetividade preventiva é puramente imaginária e, portanto, descartável. Isso constitui um apoio ao esforço do combate consciente à obsessão e aos rituais neuróticos que visam contornar os maus eventos temidos. O simples exercício racional de fazer a distinção entre possibilidade e probabilidade torna-se uma arma simples auxiliar no combate à obsessão. Quando o medo irracional não cede à análise filosófica do problema, a solução será a Psicoterapia.
Portanto, existencialmente, pode-se admitir que a Hipocondria e a Obsessão  nasçam, respectivamente, de uma sensibilidade exaltada ante o risco de adoecer, e do exagero da necessidade  de segurança e controle do ser consciente sobre o seu vir a ser  incerto.  Os quadros mórbidos resultam no primeiro caso de um temor exagerado, e no segundo de uma necessidade intensa de aliviar a ansiedade e angústia existenciais, apostando numa fantasia à qual se conferem poderes mágicos. O simbolismo do comércio subjetivo destas condutas mexe com forças inconscientes poderosas que podem ser aliciadas a favor do cliente. Entre estas forças sobressaem a Esperança e a fé que dão suporte à expectativa de que acontecerá o melhor na perspectiva em que nos encontramos. Esta é a etapa mais delicada do processo terapêutico, pois não temos controle direto sobre as forças inconscientes relacionadas com a esperança e a fé, nisto residindo, aliás, a dificuldade da cura  perseguida por qualquer terapia psíquica.
Uma alternativa atípica de defesa ocorre entre os indivíduos cuja psique não é capaz, estruturalmente, de resistir ao primeiro impacto da consciência de serem finitos, ou de estarem ameaçados na sua segurança. Dada a extrema sensibilidade à angústia e à ansiedade amplia-se a intensidade do impacto produzido pela expectativa de riscos reais ou imaginários, ao ponto de dissociarem-se as funções psíquicas, obstruindo uma resposta racional, e produzindo a crise histérica. A crise pode ser desencadeada por fatos ou objetos que estejam associados no inconsciente ao conflito existencial traumático que deixou como sequela a incapacidade de o ser consciente resistir ao impacto dos reveses da existência.
Enquanto o Obsessivo compulsivo, diante da ansiedade despertada pela vivência da finitude e riscos inerentes procura uma forma simbólica de controlar o medo incômodo; o histérico, diante do mesmo estímulo desaba, dissociam-se suas funções psíquicas, e ele age irracionalmente, sempre à espera de uma ajuda externa. Face a um estímulo hostil o Histérico perde o controle devido ao pânico extremo provocado por lembranças reprimidas de eventos traumáticos marcados no inconsciente por grande carga emocional.
Em termos comportamentais a orientação obsessiva compulsiva implica em certa autonomia do indivíduo, ao passo que a Histeria o leva a uma dependência latente. Os obsessivos são persistentes e muito racionais... Porém os histéricos diante de uma ameaça não conseguem sequer pensar ordenadamente, tal a instabilidade emocional de que são vítimas. Por isso o histérico é mais volúvel, e leviano no seu discurso descomprometido com a rigidez lógica. Na Histeria conversiva, a incapacidade de pensar transfere a linguagem simbólica para um sintoma físico (paralisia, cegueira, surdez etc.) de acordo com a mensagem que o corpo tenta transmitir, na impossibilidade de uma comunicação verbal.
Uma visão filosófica da questão pode auxiliar o processo psicanalítico, através da análise da realidade existencial problemática por sua própria natureza. A contemplação[6] do propósito central da existência e seus desdobramentos ajudam a conquistar o equilíbrio subjetivo que consiste na aquisição pelo cliente da confiança em si mesmo para resolver os problemas emergentes, ainda que sem a garantia de sucesso absoluto.
(Continua)
Everaldo Lopes


[1] Preocupação excessiva com o próprio estado de saúde.
[2] Pensamento recorrente, indesejável e aflitivo – ideia fixa.
[3] Comportamento caracterizado por excessiva emotividade ou por um terror pânico.
[4] Como se encaixam no modo peculiar de o homem existir como ser consciente. Livre e responsável.
[5] Vir a ser consciente e responsável próprio do homem, sobre o qual, porém, ele não tem controle total.
[6]  Aplicação demorada e absorta da atenção a um objetivo existencial marcante, sem a presunção da garantia total de sucesso .

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Amar com a cabeça e pensar com o coração



Faz muitos anos, numa conversa informal entre amigos, fui desafiado a tecer alguns comentários sobre a proposta aparentemente extravagante contida no título deste texto. Não me senti intimado a aceitar o desafio, mas fiquei curioso de descobrir ao que me levaria um ensaio sobre o tema sugerido. Com este espírito comecei a escrever sobre o assunto, sem qualquer pretensão de transformar em tese um simples exercício intelectual. E por falta de maior motivação, esqueci no computador uma minuta alinhando algumas ideias que me surgiram na primeira tentativa de escrever sobre “amar com a cabeça e pensar com o coração.” A postagem anterior neste blog, sobre a “Essência do homem” me fez escarafunchar os arquivos salvos no meu micro, em busca do rascunho esquecido, para retomar o tema proposto anos atrás. Comecei indagando-me: Que sentido se poderia atribuir a este disparate? Percebi então que as resposta às dúvidas subentendidas nesta pergunta ecoavam no fundo da minha alma, sinalizando a ideia de amar sem paixão e de pensar generosa e solidariamente. Situações que não se definiriam claramente numa linguagem dialética, mas poderiam ser expressas em alegorias significativas de uma realidade psíquica indescritível, porém indiscutível. No ensaio iniciado à época do desafio tentara representar alegoricamente, e com algum sucesso, a unidade essencial do sentimento e do pensamento. Reescrevo, portanto, e amplio as anotações resgatadas, supondo que a metalinguagem utilizada na tentativa de anular as contradições da “proposta extravagante” facilite o entendimento do texto precedente neste blog - a essência do homem.
A experiência sugere, e o uso consagrou a ideia de ser a cabeça o lugar do pensamento, e o coração o do sentimento. Por definição, o “pensamento é metódico, objetivo, busca responder dialeticamente aos questionamentos do ser consciente, e seu desempenho impõe fidelidade a um algoritmo lógico na avaliação da realidade; enquanto o “sentimento” é caprichoso, responde aos estímulos percebidos com flutuações do humor, que se acompanham de repercussões corporais agradáveis ou desagradáveis. Usando uma linguagem literária, dir-se-ia que o “pensamento” é mais ordenado, espiritual, estável, e o “sentimento” é mais dispersivo, visceral, inconstante. A verdade do pensamento é lógica, apoia-se numa realidade metodológica, portanto virtual; a verdade do sentimento é ontológica apoia-se  em si mesma, é uma expressão imediata, livre, do “ser em si”.
Nas relações do homem com os “outros” e com o mundo, nem sempre o “cérebro” e o “coração” estão de acordo, porém não são, obrigatoriamente, polos de uma contradição irreconciliável. Em verdade, o “pensamento” e o “sentimento” se misturam e se refletem simultaneamente no comportamento pessoal; ambos são indispensáveis à construção da existência. Admitido esse pressuposto, a proposta de “pensar com o coração e amar com a cabeça” satisfaz, simbolicamente à aspiração de harmonizar o sentimento e a razão, fazendo-os fecundarem-se mutuamente na construção de uma unidade existencial.
No momento atual, assumimos que a Evolução[1] caminha no sentido de harmonizar as funções do “cérebro” e do “coração” nas relações intersubjetivas e objetais do homem com os outros e com o mundo. Na verdade, não há pensamento que não esteja associado a um sentimento; nem sentimento que não possa ser pensado, ou analisado racionalmente. O produto da síntese da razão e do sentimento, sob o império da coerência lógica e da disciplina emocional, respectivamente, deverá corresponder a uma decisão responsável, coerente e transparente. Na prática, porém, respeitando o compromisso ético do vir a ser pessoal e a liberdade existencial, esta decisão guarda uma intimidade maior, ora com a razão, ora com o sentimento; e quando prevalece o sentimento rebelde, ocorrem conflitos existenciais difíceis de resolver.
As lentes da afetividade e da racionalidade revelam nuances diferentes de uma mesma realidade, acentuando e ampliando, ora o colorido emocional, ora a transparência racional das relações interpessoais e objetivas de que o homem é capaz. No primeiro caso, o paradigma é o poeta, levado a exprimir o encantamento diante do mundo, manipulando o signo verbal na construção de analogias e metáforas sugestivas da realidade conceitualmente indescritível que o inspira. Utilizando a linguagem simbólica ele tenta desvelar a intuição de uma face da realidade oculta aos olhos da razão, apenas pressentida pela sensibilidade exaltada do artista que a descreve alegoricamente através de uma criação original. No segundo caso, o racionalista curioso de compreender o mundo ensaia a análise da realidade objeto de sua atenção, e a coerência lógica deste ensaio fundamenta a verdade assegurada pela precisão do exame crítico e pela clareza das conclusões alcançadas.
De acordo com o senso comum, pensar com a cabeça e amar com o coração é o que todo mundo faz espontaneamente, o coração e o cérebro atuando simultaneamente na elaboração da conduta humana. Uma análise mesmo superficial do comportamento pessoal revela que nenhuma resposta à realidade que se apresenta a cada um dispensa a participação simultânea da razão e da emoção.  De certo modo, na coerência da intelecção conceitual já existe uma beleza que produz alguma emoção; assim como no comprometimento emocional do sujeito consciente com a realidade, a razão discerne um conhecimento implícito cuja extensão e clareza a emoção despertada amplia ou restringe. Analisadas, fenomenologicamente, estas situações se implicam numa complexidade dinâmica surpreendente. Nesta perspectiva, amar com a cabeça seria mergulhar de forma tão profunda na realidade fragmentada pela análise que, no limite da razão, o pensamento se ultrapassa numa vivência intuitiva que consegue amalgamar na mesma experiência um todo unitário significativo, recuperando a realidade fragmentada pela análise racional. Diante da impossibilidade de o pensamento atingir a essência das coisas, amplia-se o compromisso entre a razão e o sentimento, mediante a intuição que recompõe a realidade pulverizada pela análise num todo cuja beleza significativa deslumbra o coração. Por outro lado, pensar com o coração, seria amar tão profundamente que o sentimento, numa tentativa desesperada de fixar o momento do êxtase estético implode a racionalidade, cobrando do pensamento uma descrição do momento inspirador, para fixar no tempo a experiência ímpar; e esta cobrança acaba criando uma  aura de encantamento estético. O “coração”, sensibilizando o pensamento e sendo por ele sensibilizado inspira uma descrição simbólica estética do objeto arrebatador, e a beleza da descrição acaba emocionando, na prosa poética, num poema, numa tela, numa escultura. Assim, o intelecto atende ao apelo do coração participando da intuição artística para construir um nicho que abrigue a verdade apaixonante que irradie uma beleza divinal. 
Dessa forma, a cabeça e o coração se associam na construção da verdade existencial, embora a “cabeça” fique sempre devendo ao “coração” a generosidade da beleza que não consegue representar integralmente numa linguagem simbólica aliciante que tenta  descrever com fidelidade a verdade do coração.   É evidente que as duas formas de abordar a verdade, amando-a, e pensando-a coexistem em proporções variáveis no mesmo indivíduo com predominância em cada experiência, ora da razão, ora do sentimento. E a criação artística é a expressão potencializada desta coexistência inextrincável. Fala-nos disso, com muito talento poético, o segundo terceto do soneto de Raul de Leoni intitulado “Sabedoria”: “Vê que a vida afinal, - sombras, vaidades - / É bela, é louca e bela, e que a Beleza / É a mais generosa das verdades...”
As operações psíquicas inerentes à interação entre o sentimento e o pensamento, convergindo ambos para uma síntese transcendental além dos limites funcionais do “coração” e da “cabeça” apontam para o caráter metafísico da essência do homem.     
                       
            Everaldo Lopes


[1] Segundo Spencer (1820-1903) e Bergson (1859- 1941), processo de desenvolvimento natural, biológico e espiritual em que toda a natureza, com seus seres vivos ou inanimados, se aperfeiçoa progressivamente (Dic.de Houaiss)