quarta-feira, 16 de maio de 2012

Cogitações sobre o tempo


Recebi uma mensagem por e-mail mostrando fotos de Brigitte Bardot nas várias fases da sua vida. As fotografias denunciam a ação do tempo sobre o seu perfil corporal. No texto do e-mail ao qual estava anexada a mensagem, um questionamento da minha filha:
- “O tempo é justo?”
- “Fisicamente, definitivamente, acho que não”.
Projetei nesta apreciação a minha própria relutância em aceitar a faina devastadora do tempo... Fiquei matutando um pouco... A mente vagou, displicentemente, sobre o envelhecimento. Lembrei-me das táticas de autoajuda que a título de compensação tentam realçar as conquistas da idade avançada tais como o conhecimento, a experiência de vida, a disciplina emocional, que coincidem com o aparecimento das rugas e de outros sinais de decadência física... associação que não me parece tão constante...  E concentrei a atenção na diferença essencial entre o tempo cósmico descontínuo (mensurável em unidades) e o tempo subjetivo, contínuo, (in)delimitável... respectivamente, o tempo do corpo (sujeito às leis da matéria) e o “tempo” (sem tempo) da alma, sutil,  vivido na intimidade subjetiva. São dois momentos diferentes no todo existencial que tudo engloba. No tempo interior o “eu” escolhe e decide, exerce o livre arbítrio, imprimindo colorido estético e ético nas escolhas pessoais. As virtudes decantadas do idoso são ecos espirituais desta experiência. Atentando para a (in)dissociabilidade destes dois momentos não se pode deixar de reconhecer a intersecção da imanência cósmica e da transcendência absoluta na intimidade subjetiva de cada homem. Por conta disso o sujeito consciente reflexivo assiste do seu presente eterno (atemporal em relação ao fluxo do tempo cósmico) ao envelhecimento do servomecanismo biológico. O pensamento místico associa este referencial imóvel à presença misteriosa do Espírito incriado (objeto de fé) que habita todas as criaturas. Mas ao negar a perspectiva da atemporalidade, ou ignorando-a, o ser humano reduz-se ao servomecanismo através do qual se manifesta a consciência... e se descobre inexoravelmente tragado pela voragem do tempo físico, esmagado pela finitude intransponível! Então, assim massacrado pela fragilidade do corpo naturalmente sujeito ao envelhecimento e à morte, o homem diz que o tempo é injusto. Tem uma intuição confusa da eternidade do espírito... e, participando existencialmente das dimensões espiritual e cósmica sente dificuldade de contornar a tirania da contingência muito mais dolorosa sem a ligação com seu fundamento transcendental. É necessário um esforço especulativo para distinguir, na “própria carne” as duas dimensões. O espírito não envelhece com a matéria evanescente na qual se manifesta. Por isso o homem pode observar o caminhar do tempo cósmico no próprio corpo. O grande desafio da condição humana é a elaboração da antinomia: finitude x desejo de permanecer no ser, que coloca o indivíduo diante da aparente contradição entre a eternidade e o tempo. Contradição aparente porque `só a eternidade é real, o tempo e tudo que dele depende são ilusões´. Esta visão cosmogônica monista espiritualista, absurda para o Agnóstico, foi a grande intuição da espiritualidade hinduísta, sete séculos antes de Cristo. Nesta perspectiva a matéria é uma projeção virtual do Espírito eterno... Ideia que não passa de pura fantasia, do ponto de vista materialista. Por outro lado, tomando por base este mesmo ponto de vista materialista que nega qualquer transcendência não se pode dar uma explicação racional para a origem do universo e para a ordem implícita, progressiva, no micro e no macrocosmo. A Física Quântica oferece um respaldo teórico à tese da cosmogonia monista espiritualista ao afirmar que os “seres” são possibilidades tornadas realidades por escolha da “consciência não localizada”, admitindo desta forma uma causalidade descendente que, a partir de um Todo absoluto induz a complexificação da matéria, ressuscitando o velho conceito da consciência universal, correspondente ao Deus Criador. Impulsionado por uma curiosidade insistente, absorto nestas cogitações, comecei pensar nas duas formas de encarar o tempo e na impertinência de julgar justo ou injusto o tempo que marca a idade do corpo. Na verdade, o tempo cósmico é um fenômeno que em si mesmo nada tem de justo ou injusto, é um acontecimento natural. No tempo interno da experiência subjetiva é que se manifesta a consciência pessoal reflexiva que permite ao “eu” pensante fazer atribuições pessoais assumindo a responsabilidade inerente. Então a existência ingênua se permite achar que o tempo é injusto. Todavia esta atribuição não resiste a uma análise fenomenológica transcendental. A justiça e a injustiça são produtos do julgamento humano sob a forma de atribuições inspiradas por afetos gratuitos. Na verdade, o tempo cósmico não é réu de julgamento, ele não tem autonomia decisiva, é apenas o caminho de uma sequência de fenômenos que obedecem a uma ordem sobre a qual não tem controle. Como tal não pode ser considerado justo ou injusto.
A destruição da beleza de Brigite ao longo dos anos é inerente à sua contingência material. Não foi o tempo que a envelheceu, mas a fugacidade da própria realidade biológica da qual o “tempo cósmico” e o “espaço” são os fundamentos fenomenológicos.
Everaldo Lopes

segunda-feira, 7 de maio de 2012

A espiritualidade do ateu

Especulações baseadas no conhecimento acumulado sobre a evolução do mundo físico e da vida dão suporte a uma cosmovisão espiritualista criacionista. A causa primeira de tudo continua impermeável à razão humana, suscitando cogitações metafísicas que abrem espaço para um Absoluto criador, objeto de fé. Todavia, é evidente a “complexificação” crescente da matéria desde o “Big-bang”[1]. A matéria primitiva desorganizada evoluiu até a complicada estrutura do Sistema Nervoso Central, culminando no córtex cerebral do homem que ensejou o advento da consciência reflexiva. Avaliado o tempo decorrido desde o “Big-bang”, se esta sequência evolutiva tal como ocorreu se devesse apenas a coincidências felizes, a esmo, não teria sido possível estatisticamente alcançar o estádio atual da Evolução... a matéria jogada ao acaso levaria um tempo infinitamente maior.  Portanto, para justificar a ordem crescente no cosmo e na vida até o patamar que se constata hoje, ter-se-ia que recorrer a um “anti acaso” que, então, teria o mesmo peso epistemológico de um Deus criador.  Na verdade há mais razões para crer do que para descrer em Deus, Dinamismo absoluto eternamente criativo.
A condição humana[2] passa a ser um divisor de águas no curso do processo evolutivo. A partir do homem a Evolução foi redirecionada, do aperfeiçoamento biológico do indivíduo para o da organização consciente e voluntária da sociedade na qual ele está contextualizado. Nesta perspectiva o livre arbítrio tornou mais flexíveis as mudanças evolucionárias, agora, orientadas por escolhas que visam a ordem política e econômica da comunidade humana. Saber-se parte de um todo integrado, permite ao homem criar critérios de comportamento no vir a ser pessoal, tendo em vista sua relação com o todo em que está situado. Nesta perspectiva a consciência já não pode mais ser considerada um epifenômeno da matéria, porém o cerne de uma realidade autônoma, livre, criativa capaz de influir nos rumos da própria Evolução... o que torna o homem um colaborador do “Dinamismo Absoluto Eternamente Criativo”[3].
Para atender à coerência inerente ao exercício da “condição humana”[4] a organização social deverá garantir a salvaguarda da verdade e da justiça. Estes valores pautam as responsabilidades humanísticas, sejam elas entendidas numa perspectiva espiritualista que além de buscar o bem estar social aposta na comunhão transcendental de todos os homens na unidade absoluta de Deus, sejam elas inspiradas na lógica temporal da convivência justa e confortável a que aspira o Agnóstico.  Uma vez preservadas as características da “condição humana” o resultado prático imediato da postura socializante é o mesmo em ambos os casos. Mas o compromisso social do Agnóstico resulta sempre num comportamento apenas ético, enquanto o do Místico o envolve com seus pares num comprometimento intersubjetivo amoroso. O Agnóstico põe em prática os esquemas culturais que regem seu comportamento social, pragmaticamente, com base em razões objetivas. O Místico transcende o imediatismo pragmático do comportamento social, prolongando seu ideal humanístico para além do horizonte temporal. Assim, a integridade da postura humanística tranquiliza em ambos os casos a consciência ética mediante comportamentos satisfatórios que diferem apenas nos seus fundamentos. Mas esta distinção pesa muito na solução da angústia existencial comum a uns e a outros. A desvantagem do ateu é que lhe falta o amparo da fé em um Poder transcendental providente no qual se resolvam todas as contradições inerentes à realidade temporal, e com o qual possa manter uma relação pessoal. Em contrapartida, para que o Místico se beneficie é necessário que esteja possuído por uma fé inabalável! Diante deste confronto entre Espiritualistas e Materialistas críticos, fica evidente que os primeiros atendem mais cabalmente ao anseio de transcendência inerente à própria consciência. Escudando-se em especulações coerentes eles concebem e creem numa cosmogonia espiritualista, criacionista que promete uma perfeição trans temporal. Enquanto os agnósticos, materialistas, simplesmente se negam a aceitar a mesma mundividência porque não creem num Absoluto criador... Embora não saibam explicar o origem da ordem que a própria Ciência constata na realidade cósmica e biológica. Este comportamento pode ser assimilável a um ato voluntarioso. Lembro aqui o relato que me foi feito por um amigo já falecido, da conversa que tivera na sua juventude com um frade professor de Teologia. Falando de Felix Le Dantec (1869 – 1917), Biólogo francês, materialista, o monge contara-lhe que este grande homem de Ciência dizia rilhando os dentes como se consumasse sua autoafirmação num ato de rebeldia: “- Sou ateu porque quero!”. Com isto o mentor espiritual do meu amigo quisera realçar a humildade necessária para exercitar o dom da fé. Todavia, por trás desta rebeldia está, não raro, uma pessoa intimidada pela consciência da própria contingência, hipercrítica, racionalista, carente de uma experiência existencial amorosa, suspicaz, resistente à entrega de si mesma às incertezas de um vir a ser imprevisível.
Aliás, rigorosamente, a negação da transcendência absoluta é também um testemunho de fé. Pois, do ponto de vista estritamente racional não se pode “afirmar” ou “negar” o “Absoluto”. Portanto, ao negar Deus os incrédulos o fazem mercê de uma crença! Por outro lado, o Ateu coerente com o exercício da condição humana, pratica uma ética humanística, nutre sentimentos de solidariedade e o desejo de ser veraz e autêntico, superando de algum modo a angústia existencial. Livre de quaisquer imposições dogmáticas está predisposto a desenvolver maior tolerância nos seus contatos sociais. Nesta perspectiva se desenvolve a espiritualidade do Ateu! Embora uma espiritualidade sufocada pelo tempo.
Everaldo Lopes


[1] Entendido como a grande explosão que deu início ao tempo e ao espaço cósmicos inerentes à matéria.
[2] Consciência  reflexiva  livre e responsável; capacidade de escolha e decisão.
[3] Deus
[4] Caracterizada pela prática  da Consciência reflexiva, da Liberdade e da Responsabilidade.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Uma razão para viver...


Viver por viver, ou viver os prazeres que a sensualidade proporciona, sem a participação do sujeito consciente centrado em valores morais é um desperdício das potencialidades humanas. Alguém já disse do homem que a verdadeira coragem de ser é caminhar para a morte, lutando pela vida. Concordo com esta afirmação, mas numa perspectiva de vida apaixonada pela conquista de um ideal que atenda aos anseios legítimos do ser humano, empós de soluções criativas para as contradições da existência[1]. A partir desta visão convenhamos, para que sua vida tenha sentido e valha a pena é essencial que o homem alimente a esperança da construção de uma existência coerente em relação ao ideal comunitário universal.  Todavia, ao eleger a “paixão” de suas vidas muitas pessoas se perdem em projetos equivocados. Deparamos um cenário no mínimo curioso ao olhar retrospectivamente os antecedentes pessoais dos que sentem a proximidade do fim, e buscam socorro nas emergências médicas. Com a esperança de vencer a parca impiedosa, os intensivistas prestam socorro médico valiosíssimo aos enfermos ameaçados de morte iminente. A ideia predominante destes enfermos é viver, viver mais. O desejo de viver não desanima sequer diante da impossibilidade de vencer a morte, finalmente, inevitável. Arrisca-se tudo para retardar a “partida”. Não há nada condenável no desejo de prolongar a vida, ao contrário é normal e desejável que assim seja. Todavia chama atenção a imprevidência reinante, pois excluídas as emergências decorrentes estritamente da violência urbana e das más condições sanitárias ambientais, a história pregressa dos pacientes graves que enchem as UTIs revela que eles são vítimas dos próprios excessos. As doenças (dis)metabólicas e degenerativas longamente precedidas por maus hábitos alimentares, sedentarismo e distúrbios psicossomáticos crônicos são as que matam mais. As vítimas desses males desgastaram-se por longo tempo com alimentação desregrada, pouca ou nenhuma atividade física, bebidas alcoólicas, drogas ansiolíticas, antidepressivas e até euforizantes. Estressaram-se na busca de alvos levianos, meteram-se em aventuras ousadas desafiando riscos quase suicidas. E agora padecem as consequências dos seus desmandos. Sob ameaça de morte, apavorados, buscam adiar o desfecho a todo custo. Continuam sedentos de mais vida. Porém, comumente, salvos do risco imediato voltam para suas rotinas morbígenas, sem jamais alcançarem a almejada felicidade fátua projetada no prazer sensível, no fascínio do poder e na “adrenalina” de uma aventura emocionante, mas inconsequente. Muitos desses pacientes não saberão o que fazer das suas vidas depois da alta hospitalar, senão dar seguimento à rotina de uma existência pautada pelos padrões culturais vigentes sem qualquer originalidade. Todos aspiram a viver mais, embora ignorem como dar vida aos anos conquistados.
Certamente, ganhar a plenitude a que aspiramos é obra nossa... Portanto, é oportuno o conselho do Poeta, “Interpreta a existência com a medida / do teu Ser! (a verdade é uma obra tua!) / porque em cada alma o Mundo se insinua, / como uma nova Ilusão desconhecida.”[2] Obviamente, para pôr em prática este sábio conselho é preciso acreditar num ideal de plenitude vinculado à atualização da proposta existencial de um vir a ser autêntico, liberto da tirania dos condicionamentos culturais. É preciso confiar na força criativa subjacente à existência, que permite ao homem ousar o improvável e tentar, sempre, a realização de uma existência significativa. Dada a sua fragilidade contingente, para superar os obstáculos existenciais o homem precisa exercitar a coragem que arrisca tudo a fim de forjar no agora um comportamento que não amesquinhe sua existência.
Exercitar o equilíbrio existencial nas relações humanas e na interação com o mundo custa muita disciplina, paciência, e persistência quase missionária. Este é o preço pago para injetar mais vida nos dias em que vamos.
 Pode parecer até estranho insistir em viver mais, quando falta entusiasmo por um ideal, e a angústia, a ansiedade, o medo dispersam as potencialidades infinitas do ser humano. Porém é trágico malversar estas potencialidades em busca do prazer sensual que se esgota em si mesmo, do poder fugaz, e de uma segurança ilusória. A cura da angústia humana, dor muda que fustiga as entranhas da existência se encontra na sublimação da libido em realizações criativas, amoráveis e solidárias. Esta elaboração consiste no projeto heroico do ser consciente voltado para o equacionamento das antinomias existenciais perturbadoras, que se prolonga na organização solidária da sociedade.
Contra a opressão depressiva é necessário opor o “sustento íntimo” que ampara o homem nas suas fraquezas, com a força da esperança. Na perspectiva humanística evolutiva, esta força interior é fundamental para alimentar o “sonho” de construir uma comunidade solidária, onde os problemas existenciais partilhados se resolveriam já, aqui mesmo na Terra, numa epopeia de paz e serenidade. São muitos os obstáculos à prática da solidariedade, mas esta é a única saída para a espécie (Homo Sapiens sapiens)!... Pode-se imaginar que num clima coletivo solidário, as virtualidades humanas se expandirão sem atrito, e florescerão, ensejando a atualização de projetos existenciais plenos de sentido. Só assim acrescenta-se valor à vida, e prolongá-la será uma verdadeira conquista.
Everaldo Lopes


[1] Aspiração à vida x a certeza da morte; desejo de poder ilimitado  x a impotência de criatura finita; ambição de conhecer tudo x as limitações inerentes ao saber humano.
[2] Raul de Leoni no soneto “ Egocentrismo”

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Aspectos éticos da sexualidade


Do ponto de vista estritamente biológico, as relações sexuais objetivam a inseminação que dá início ao processo reprodutivo. A reprodução beneficia a espécie, não o indivíduo. Entre os animais ditos inferiores na escala zoológica, as fêmeas apresentam periodicamente estímulos visuais e olfativos que incitam o macho ao coito. Fazendo-os incidir no momento mais propício para a fecundação, a Natureza determina a ocasião do acasalamento. E assim controla o processo reprodutivo. Na espécie humana não. As mulheres não têm cio. A iniciativa do coito fica a depender de manifestações sedutoras culturalmente definidas, inseridas num clima afetivo peculiar do encontro íntimo entre um homem e uma mulher. A intimidade sexual só se enquadra na moral natural, integrando-se no ciclo da fecundidade que garante a perpetuação das espécies. Mas, sendo os homens os únicos animais que, fugindo ao controle natural, estão predispostos a fazer sexo todo tempo, e não o fazem sempre com o intuito de procriar, o parâmetro ético da fecundidade não lhe é aplicável... e o controle da reprodução entre os humanos não resultará de um determinismo biológico, mas da decisão consciente assumida pelo casal de gerar ou não um filho. Decisão que o par humano deverá encarar responsavelmente, tendo em vista garantir ao descendente a satisfação das suas necessidades básicas e formação psicossocial.  As condições moralmente exigidas para a decisão de procriar devem garantir a sobrevivência do recém-nascido, e assegurar-lhe, depois, o aprendizado de hábitos cidadãos inclusive habilidades profissionais. Estas preocupações fazem parte da paternidade responsável.  
Por conta de suas peculiaridades, a atividade sexual humana tem sido regulamentada desde os primórdios da civilização. Esta regulamentação se impõe pelo caráter aliciante da prática sexual, e em razão da probabilidade de uma gravidez com repercussões inevitáveis no equilíbrio demográfico e socioeconômico. Tendo em vista a organização da vida em grupo definem-se, então, direitos e deveres mediante costumes e leis que delimitam a legitimidade, e responsabilidades inerentes à prática sexual. Mas o caráter prazeroso desta atividade constitui-se numa motivação tão poderosa que de quando em quando a expectativa de prazer se sobrepõe às interdições culturais, atropelando a prática dos valores éticos vigentes.  Por isso mesmo, a sexualidade é a área mais sujeita a interdições dentre todas as atividades humanas.  Rigorosamente, só é bem acolhida pela consciência moral, a intimidade sexual que não fere os princípios éticos sociais e religiosos já definidos culturalmente. Embora seja mais ou menos permissiva, a sociedade impõe sanções aos infratores dos preceitos éticos estabelecidos para disciplinar a função reprodutiva humana.
Idealmente, numa perspectiva humanística integral o encontro sexual seria o arremate de um profundo conhecimento do par humano como pessoas entre as quais o respeito recíproco está embutido no amor que deve presidir o desejo da união carnal. Mais frequentemente, porém, o amor que deveria aproximar os parceiros sexuais é substituído pela urgência da libido, característica do erotismo expresso na intimidade lasciva, a exemplo dos que “ficam”, movidos irresponsavelmente pela empolgação sensual do momento... cada um cede o corpo para o prazer do outro, interessado, porém, na própria satisfação. Na prática sexual que não tem a chancela cartorial distinguem-se ainda: os pares que se encontram mediante consentimento mútuo esclarecido, movidos por sentimentos nobres, e convivem na informalidade projetando a legalização da união em futuro próximo... imbuídos do respeito mútuo, estão cônscios da responsabilidade diante de uma eventual gravidez não programada; e, no outro extremo, os que fazem do sexo uma barganha na qual um dos parceiros vira objeto de prazer do outro em troca de propina, numa relação prostituída. Em todas as situações mencionadas caracterizam-se condutas de conteúdo ético peculiar, ou nenhum. Aliás, as mesmas situações podem ser vividas sob o manto da lei com roupagens que escondem o vazio existencial do casal. A simples ratificação legal não garante, pois, a natureza ética essencial do encontro sexual. Atualmente, a erotização da cultura se acompanha de uma frouxidão dos costumes que aumenta a permissividade da sociedade em relação à prática sexual, banalizando-a. Independentemente dos princípios que definem a legitimidade da relação sexual, uma vez que a maioria dos coitos se dá na ausência da intenção de procriar, impõe-se o controle da natalidade mediante medidas preventivas artificiais ou naturais. Isto faz parte dos deveres do par humano que se dispõe à prática sexual.
É difícil enquadrar o filho decorrente de uma gravidez não programada no contexto da parceria sexual privada de um vínculo ético forte. A conduta ética nesta conjuntura exigiria decisões heroicas que o casal habitualmente se recusa a assumir. De qualquer forma, sem uma estrutura adequada ao seu acolhimento, o recém-nato ficaria entregue literalmente ao acaso dos acontecimentos... com raras exceções, desde o momento em que nasce, este ser humano já depara um futuro sombrio. Mal podemos imaginar o leque das consequências desastrosas ao longo do tempo, sobre a formação do caráter de uma criança que não tenha recebido os cuidados exigidos na primeira infância, nem a orientação adequada nos anos que se seguem e na adolescência! O descompasso pedagógico neste período da formação dos cidadãos é a causa de muitos males que corroem a malha social.
Antes de concluir, vale a pena meditar sobre duas questões. A primeira indaga se é moralmente justificável uma relação sexual na qual os parceiros não têm a intenção de procriar. A resposta parece óbvia. Do ponto de vista da moral natural (fundamentada na fecundidade), rigorosamente, não... pois tudo que a natureza investe para propiciar a intimidade genital fecundante o faz visando exclusivamente a perpetuação das espécies. Porém, dado que o homem faz sexo todo tempo, e não obedece aos controles naturais que nas espécies inferiores promovem o equilíbrio populacional, o cumprimento rigoroso da moral natural centrada na fecundidade levaria aos problemas inerentes à superpopulação[1]. Se toda relação sexual humana fosse premiada com uma gravidez a superfície da Terra em pouco tempo não comportaria tamanha densidade demográfica. Além da função procriadora o homem faz da intimidade sexual uma forma de satisfazer sentimentos egóicos e de aliviar tensões... Nada nobre, mas havendo contato genital haverá sempre a possibilidade de gravidez. Nestas circunstâncias, cabe ao par humano a responsabilidade de disciplinar sua capacidade genésica para manter uma população compatível com os recursos ambientais e com a organização de uma coletividade solidária. Esta disciplina implica em duas alternativas: ou o homem se abstém radicalmente de satisfazer sua libido sexual depois de procriar um número de filhos que assegure a estabilidade demográfica estimada como ideal, ou se obriga a fazer contracepção eficiente a fim de continuar satisfazendo sua libido sexual, sem o risco de reproduzir-se desordenadamente. Obviamente, a primeira alternativa é inviável dado que o desejo de intimidade física do par humano é difícil de controlar... A segunda opção se apresenta então como a mais inteligente!
Em face do exposto, impõe-se uma segunda questão, conceitual. Se em relação ao homem o ideal ético soberano da moral sexual natural (a reprodução) não pode ser levado até as últimas consequências, quais os parâmetros adequados para legitimar a atividade sexual humana? A resposta a esta indagação nos remete à visão humanística evolutiva. Nesta perspectiva a inteligência, a sensibilidade e a vontade humanas buscam, responsavelmente, promover a solidariedade comunitária[2], contribuição do homem ao processo evolucionário.  Isto lhe confere uma dignidade ímpar, a de colaborar conscientemente para o sucesso da própria Evolução. A experiência comunitária implica necessariamente no respeito mútuo entre as pessoas. No prolongamento desta realidade desenha-se a legitimação da libido quando a fecundidade não é o critério ético soberano. Sumariamente, podemos dizer que o uso do corpo como instrumento de prazer sem preocupação com a dignidade pessoal é, no mínimo inconsequente e leviano... por outro lado, a ausência de manifestações de estima e ternura entre os pares sexuais fere, igualmente, a dignidade humana e, portanto ambas as situações referidas são eticamente condenáveis. Em conclusão, sendo o homem um ser de cultura obedece a uma ética construída que transcende a moral natural, apoiada na intersubjetividade dos parceiros sexuais, compatível com uma relação existencialmente autêntica, respeitosa, e socialmente responsável.
Everaldo Lopes


[1] É impossível promover uma convivência civilizada quando a população excede as possibilidades de moradia e produção de víveres num espaço territorial inextensível.
[2] Condição sine qua non para a sobrevivência da espécie.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Ninguém pode ter certeza...


          Numa perspectiva evolucionária o Universo toma conhecimento de si mesmo através do homem. Neste mesmo ato cognitivo assoma o pressuposto de uma consciência ordenadora do universo, que por seu caráter transcendental não é acessível à razão humana. Mas a ordem resultante pode ser pensada e sentida objetivamente em seu trajeto da matéria primitiva à vida consciente. A razão e a afetividade são as duas pontes que unem o ser consciente e o mundo. O intelecto progride relacionando noções em proposições[1], coordenando silogismos[2], preservando a estrutura sintática do discurso racional que visa descrever a realidade. Paralelamente o sentimento dá um colorido afetivo ao conhecimento, associando-o a uma vivência agradável ou desagradável. O conhecimento e o sentimento abordam os objetos para os quais convergem por caminhos diferentes, numa experiência existencial que sintetiza a razão e a afetividade.
A terceira dimensão psíquica humana é a vontade impulsora do ser consciente à escolha que preside a decisão do ato responsável, sob a influência preponderante, ora da razão ora do sentimento. Assim, no intervalo entre a consciência e o mundo constrói-se uma interface virtual que tem caráter cultural. A cultura é, pois, o cenário da dialética psicossocial, no qual a vontade compatibiliza o intelecto, a sensibilidade afetiva e a intuição do ser pessoal, com o ambiente físico e social em que o sujeito consciente está contextualizado. Nesse processo dinâmico se desenvolve o drama humano entre o amor à Verdade universal que reflete o divino, e a paixão que é ofuscação deste amor, por uma frágil representação humana, contingente, sob a forma de escravização do ego aos sentidos.
O pressuposto de uma consciência universal ordenadora implica numa cosmogênese monista espiritualista, condicionada à crença em que o Espírito Eterno é a matriz do cosmo e da consciência. Obviamente como substrato da consciência o espírito sobreviverá à morte biológica do homem, embora este não saiba o que virá depois da sua existência temporal. Contudo, é legítimo admitir que liberto dos sentidos, o espírito que vivenciou uma experiência histórica terá neste depois uma visão tão mais rica de verdade e de beleza, quanto mais o sujeito existencial tenha sido capaz de “amar”, de reconhecer a verdade e a beleza.
Ao longo da peregrinação do homem pelo mundo, na melhor hipótese, o fecho da vida pessoal inspirada numa cosmogonia espiritualista, deverá conduzir ao “amoroso desapego à vida” ou, pelo menos, a uma “aceitação compassiva da realidade”. A esperança de um depois, implícita nessa perspectiva minimiza a repercussão dolorosa do sentimento de finitude que fustiga o ser consciente. Mas a participação integral na Verdade Absoluta excede qualquer expectativa temporal.  Na individuação[3] bem sucedida, o estágio final de integração bio-psico-social do indivíduo assegura-lhe apenas a isenção da ira e do ressentimento, abrindo espaço para o perdão e a obediência à voz da consciência, comparável ao eco da Consciência Universal no ser pessoal.
          Deitando o olhar sobre o caminho percorrido pela humanidade, identificamos os tropeços que nos conduziram até o ponto em que estamos hoje, com a sobrevivência ameaçada pelas conseqüências dos nossos próprios desmandos. O homem teve e tem nas mãos a possibilidade de fazer da Terra um paraíso. Tragicamente, porém, alienado de uma visão global da sua realidade imanente / transcendente, foi cedendo às falácias do ego ambicioso, imediatista e dissimulado, perdendo a perspectiva comunitária em que o “eu” encontra sua plena realização no relacionamento com o “tu” do qual é indissociável no processo de individuação. E assim os equívocos na prática do livre arbítrio abriram espaço para a desordem, o sofrimento e a morte prematura.
Os efeitos catastróficos que ameaçam a humanidade, hoje, é o resultado das más escolhas que o homem vem fazendo ao longo dos tempos, ora preso à alienação ingênua análoga à de Chapeuzinho Vermelho que, sorrindo e cantarolando, vai parar na “barriga do lobo”; ora estimulado pela má fé articulada, maliciosamente, contra a Verdade.  Em ambos os casos o homem malversa os seus dons, ignorando-os ou usando-os destrutivamente. Não se lhe pode negar a participação no processo que levou a humanidade à derrocada a que assistimos... Mas também não se lhe pode ocultar o potencial resolutivo das contradições nas quais se embarafustou. Potencial eminentemente pessoal que se manifesta na criatividade construtiva. Portanto nem tudo está perdido, podemos apostar nos dons criativos do homem, contra a tentação dos descaminhos destrutivos. Considerando tudo isso, seria oportuno indagar: diante do Tribunal da consciência reta, o homem seria julgado culpado ou inocente? Eu diria sem medo de errar: responsável, sempre, mas, culpado? Não consigo afirmá-lo com tanta certeza. A verdade é que, alienada e ingenuamente, ou por má fé, o homem imperfeito, mas perfectível fez um joguinho de interesses mesquinhos e acabou sofrendo as conseqüências dos seus próprios despautérios. Neste “joguinho” entram inúmeras variáveis, algumas incompletamente conhecidas ou, momentaneamente fora de controle, sem contar com a possibilidade de outras totalmente ignoradas. Essa inconsistência sobre a qual se constrói a existência tem levado muita gente a afirmar: “O homem é um animal que não se deve levar a sério.” Mas esta afirmação revela uma forma equivocada de avaliação do homem, embora sedutora por sua irônica descontração. A questão básica é que não podemos jogar fora ou ignorar o dom da liberdade. Estamos condenados a ser livres, dizia Sartre.  Não há como fugir da responsabilidade de escolher. Não levar o homem a sério seria ignorar a dignidade de que ele se reveste ao exercitar o livre arbítrio. E isso seria, no mínimo, uma maneira leviana de tratar o fenômeno humano. Por outro lado o veredito condenatório será sempre arbitrário por mais justo que pareça, porque nenhum julgamento é capaz de esgotar o exame de todas as variáveis que levaram à prática de um delito. É inevitável um resíduo de incerteza. E por isso mesmo, para não interromper a dinâmica do vir a ser existencial, em toda decisão é indispensável assumir corajosamente a incerteza irredutível, passando por cima da dúvida implícita nos desdobramentos da realidade em que os problemas são indecidíveis.
Tudo começa com o exercício do livre arbítrio na atualização da condição humana. Para escolher é preciso ter critérios e estes não são dados pela Natureza, são, sim, construídos pelo próprio homem. É o homem que define o ponto de corte das suas possibilidades. É o homem que cria as regras do jogo, isto é, do seu comportamento, traçando um perfil pessoal. Porém, se a estrutura psíquica e biológica é uma manifestação do próprio Espírito ordenador, não seria uma afirmação vazia dizer-se que existe um conhecimento inato do bem e do mal ( a voz da consciência) que pode levar-nos pela mão ao porto seguro. Mas somos livres para atender ou não este apelo. Assim o homem é duplamente responsável... responsabilidade inerente à sua condição de “ser livre”, que se reafirma na de honrar as regras do jogo criadas pelo próprio homem.
 Esta visão da realidade humana permite afirmar: A existência é um processo de risco que se desenrola através de escolhas pessoais intransferíveis. O homem jamais pode ter certeza absoluta sobre o acerto da escolha a que está obrigado, mas é preciso que a faça e viva sua opção até as últimas consequências, transformando-a em decisão e no ato pertinente. Não há outra maneira de conhecer a verdade existencial que nos propomos senão experimentando as nossas escolhas. E, então, no momento da decisão que antecede a ação, o homem corre o risco total, sem garantias de sucesso e sem retorno. No fim, encontrará a plenitude ou o desespero. No fundo, tudo se resume em exercitar a liberdade, na autodeterminação do ser pessoal. E isto envolve, necessariamente, a coragem de ser. Um adendo se faz necessário. Quem escolhe e decide à luz da consciência reta jamais desespera. Mas o único refúgio totalmente seguro para todas as incertezas do homem é a confiança na Providência Divina, obviamente, para os que creem.
                              Everaldo Lopes Ferreira


[1] Expressão linguística de uma operação mental (o juízo), composta de sujeito, verbo (sempre redutível ao verbo ser) e atributo, e passível de ser verdadeira ou falsa.( Houaiss3)

[2] Raciocínio dedutivo estruturado formalmente a partir de duas proposições (premissas), das quais se obtém por inferência uma terceira (conclusão) [p.ex.: "todos os homens são mortais; os gregos são homens; logo, os gregos são mortais"](Houaiss3)

[3] Processo por meio do qual uma pessoa se torna consciente de sua individualidade, de acordo com C.G. Jung (1875-1961)