quinta-feira, 12 de abril de 2012

Aspectos éticos da sexualidade


Do ponto de vista estritamente biológico, as relações sexuais objetivam a inseminação que dá início ao processo reprodutivo. A reprodução beneficia a espécie, não o indivíduo. Entre os animais ditos inferiores na escala zoológica, as fêmeas apresentam periodicamente estímulos visuais e olfativos que incitam o macho ao coito. Fazendo-os incidir no momento mais propício para a fecundação, a Natureza determina a ocasião do acasalamento. E assim controla o processo reprodutivo. Na espécie humana não. As mulheres não têm cio. A iniciativa do coito fica a depender de manifestações sedutoras culturalmente definidas, inseridas num clima afetivo peculiar do encontro íntimo entre um homem e uma mulher. A intimidade sexual só se enquadra na moral natural, integrando-se no ciclo da fecundidade que garante a perpetuação das espécies. Mas, sendo os homens os únicos animais que, fugindo ao controle natural, estão predispostos a fazer sexo todo tempo, e não o fazem sempre com o intuito de procriar, o parâmetro ético da fecundidade não lhe é aplicável... e o controle da reprodução entre os humanos não resultará de um determinismo biológico, mas da decisão consciente assumida pelo casal de gerar ou não um filho. Decisão que o par humano deverá encarar responsavelmente, tendo em vista garantir ao descendente a satisfação das suas necessidades básicas e formação psicossocial.  As condições moralmente exigidas para a decisão de procriar devem garantir a sobrevivência do recém-nascido, e assegurar-lhe, depois, o aprendizado de hábitos cidadãos inclusive habilidades profissionais. Estas preocupações fazem parte da paternidade responsável.  
Por conta de suas peculiaridades, a atividade sexual humana tem sido regulamentada desde os primórdios da civilização. Esta regulamentação se impõe pelo caráter aliciante da prática sexual, e em razão da probabilidade de uma gravidez com repercussões inevitáveis no equilíbrio demográfico e socioeconômico. Tendo em vista a organização da vida em grupo definem-se, então, direitos e deveres mediante costumes e leis que delimitam a legitimidade, e responsabilidades inerentes à prática sexual. Mas o caráter prazeroso desta atividade constitui-se numa motivação tão poderosa que de quando em quando a expectativa de prazer se sobrepõe às interdições culturais, atropelando a prática dos valores éticos vigentes.  Por isso mesmo, a sexualidade é a área mais sujeita a interdições dentre todas as atividades humanas.  Rigorosamente, só é bem acolhida pela consciência moral, a intimidade sexual que não fere os princípios éticos sociais e religiosos já definidos culturalmente. Embora seja mais ou menos permissiva, a sociedade impõe sanções aos infratores dos preceitos éticos estabelecidos para disciplinar a função reprodutiva humana.
Idealmente, numa perspectiva humanística integral o encontro sexual seria o arremate de um profundo conhecimento do par humano como pessoas entre as quais o respeito recíproco está embutido no amor que deve presidir o desejo da união carnal. Mais frequentemente, porém, o amor que deveria aproximar os parceiros sexuais é substituído pela urgência da libido, característica do erotismo expresso na intimidade lasciva, a exemplo dos que “ficam”, movidos irresponsavelmente pela empolgação sensual do momento... cada um cede o corpo para o prazer do outro, interessado, porém, na própria satisfação. Na prática sexual que não tem a chancela cartorial distinguem-se ainda: os pares que se encontram mediante consentimento mútuo esclarecido, movidos por sentimentos nobres, e convivem na informalidade projetando a legalização da união em futuro próximo... imbuídos do respeito mútuo, estão cônscios da responsabilidade diante de uma eventual gravidez não programada; e, no outro extremo, os que fazem do sexo uma barganha na qual um dos parceiros vira objeto de prazer do outro em troca de propina, numa relação prostituída. Em todas as situações mencionadas caracterizam-se condutas de conteúdo ético peculiar, ou nenhum. Aliás, as mesmas situações podem ser vividas sob o manto da lei com roupagens que escondem o vazio existencial do casal. A simples ratificação legal não garante, pois, a natureza ética essencial do encontro sexual. Atualmente, a erotização da cultura se acompanha de uma frouxidão dos costumes que aumenta a permissividade da sociedade em relação à prática sexual, banalizando-a. Independentemente dos princípios que definem a legitimidade da relação sexual, uma vez que a maioria dos coitos se dá na ausência da intenção de procriar, impõe-se o controle da natalidade mediante medidas preventivas artificiais ou naturais. Isto faz parte dos deveres do par humano que se dispõe à prática sexual.
É difícil enquadrar o filho decorrente de uma gravidez não programada no contexto da parceria sexual privada de um vínculo ético forte. A conduta ética nesta conjuntura exigiria decisões heroicas que o casal habitualmente se recusa a assumir. De qualquer forma, sem uma estrutura adequada ao seu acolhimento, o recém-nato ficaria entregue literalmente ao acaso dos acontecimentos... com raras exceções, desde o momento em que nasce, este ser humano já depara um futuro sombrio. Mal podemos imaginar o leque das consequências desastrosas ao longo do tempo, sobre a formação do caráter de uma criança que não tenha recebido os cuidados exigidos na primeira infância, nem a orientação adequada nos anos que se seguem e na adolescência! O descompasso pedagógico neste período da formação dos cidadãos é a causa de muitos males que corroem a malha social.
Antes de concluir, vale a pena meditar sobre duas questões. A primeira indaga se é moralmente justificável uma relação sexual na qual os parceiros não têm a intenção de procriar. A resposta parece óbvia. Do ponto de vista da moral natural (fundamentada na fecundidade), rigorosamente, não... pois tudo que a natureza investe para propiciar a intimidade genital fecundante o faz visando exclusivamente a perpetuação das espécies. Porém, dado que o homem faz sexo todo tempo, e não obedece aos controles naturais que nas espécies inferiores promovem o equilíbrio populacional, o cumprimento rigoroso da moral natural centrada na fecundidade levaria aos problemas inerentes à superpopulação[1]. Se toda relação sexual humana fosse premiada com uma gravidez a superfície da Terra em pouco tempo não comportaria tamanha densidade demográfica. Além da função procriadora o homem faz da intimidade sexual uma forma de satisfazer sentimentos egóicos e de aliviar tensões... Nada nobre, mas havendo contato genital haverá sempre a possibilidade de gravidez. Nestas circunstâncias, cabe ao par humano a responsabilidade de disciplinar sua capacidade genésica para manter uma população compatível com os recursos ambientais e com a organização de uma coletividade solidária. Esta disciplina implica em duas alternativas: ou o homem se abstém radicalmente de satisfazer sua libido sexual depois de procriar um número de filhos que assegure a estabilidade demográfica estimada como ideal, ou se obriga a fazer contracepção eficiente a fim de continuar satisfazendo sua libido sexual, sem o risco de reproduzir-se desordenadamente. Obviamente, a primeira alternativa é inviável dado que o desejo de intimidade física do par humano é difícil de controlar... A segunda opção se apresenta então como a mais inteligente!
Em face do exposto, impõe-se uma segunda questão, conceitual. Se em relação ao homem o ideal ético soberano da moral sexual natural (a reprodução) não pode ser levado até as últimas consequências, quais os parâmetros adequados para legitimar a atividade sexual humana? A resposta a esta indagação nos remete à visão humanística evolutiva. Nesta perspectiva a inteligência, a sensibilidade e a vontade humanas buscam, responsavelmente, promover a solidariedade comunitária[2], contribuição do homem ao processo evolucionário.  Isto lhe confere uma dignidade ímpar, a de colaborar conscientemente para o sucesso da própria Evolução. A experiência comunitária implica necessariamente no respeito mútuo entre as pessoas. No prolongamento desta realidade desenha-se a legitimação da libido quando a fecundidade não é o critério ético soberano. Sumariamente, podemos dizer que o uso do corpo como instrumento de prazer sem preocupação com a dignidade pessoal é, no mínimo inconsequente e leviano... por outro lado, a ausência de manifestações de estima e ternura entre os pares sexuais fere, igualmente, a dignidade humana e, portanto ambas as situações referidas são eticamente condenáveis. Em conclusão, sendo o homem um ser de cultura obedece a uma ética construída que transcende a moral natural, apoiada na intersubjetividade dos parceiros sexuais, compatível com uma relação existencialmente autêntica, respeitosa, e socialmente responsável.
Everaldo Lopes


[1] É impossível promover uma convivência civilizada quando a população excede as possibilidades de moradia e produção de víveres num espaço territorial inextensível.
[2] Condição sine qua non para a sobrevivência da espécie.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Ninguém pode ter certeza...


          Numa perspectiva evolucionária o Universo toma conhecimento de si mesmo através do homem. Neste mesmo ato cognitivo assoma o pressuposto de uma consciência ordenadora do universo, que por seu caráter transcendental não é acessível à razão humana. Mas a ordem resultante pode ser pensada e sentida objetivamente em seu trajeto da matéria primitiva à vida consciente. A razão e a afetividade são as duas pontes que unem o ser consciente e o mundo. O intelecto progride relacionando noções em proposições[1], coordenando silogismos[2], preservando a estrutura sintática do discurso racional que visa descrever a realidade. Paralelamente o sentimento dá um colorido afetivo ao conhecimento, associando-o a uma vivência agradável ou desagradável. O conhecimento e o sentimento abordam os objetos para os quais convergem por caminhos diferentes, numa experiência existencial que sintetiza a razão e a afetividade.
A terceira dimensão psíquica humana é a vontade impulsora do ser consciente à escolha que preside a decisão do ato responsável, sob a influência preponderante, ora da razão ora do sentimento. Assim, no intervalo entre a consciência e o mundo constrói-se uma interface virtual que tem caráter cultural. A cultura é, pois, o cenário da dialética psicossocial, no qual a vontade compatibiliza o intelecto, a sensibilidade afetiva e a intuição do ser pessoal, com o ambiente físico e social em que o sujeito consciente está contextualizado. Nesse processo dinâmico se desenvolve o drama humano entre o amor à Verdade universal que reflete o divino, e a paixão que é ofuscação deste amor, por uma frágil representação humana, contingente, sob a forma de escravização do ego aos sentidos.
O pressuposto de uma consciência universal ordenadora implica numa cosmogênese monista espiritualista, condicionada à crença em que o Espírito Eterno é a matriz do cosmo e da consciência. Obviamente como substrato da consciência o espírito sobreviverá à morte biológica do homem, embora este não saiba o que virá depois da sua existência temporal. Contudo, é legítimo admitir que liberto dos sentidos, o espírito que vivenciou uma experiência histórica terá neste depois uma visão tão mais rica de verdade e de beleza, quanto mais o sujeito existencial tenha sido capaz de “amar”, de reconhecer a verdade e a beleza.
Ao longo da peregrinação do homem pelo mundo, na melhor hipótese, o fecho da vida pessoal inspirada numa cosmogonia espiritualista, deverá conduzir ao “amoroso desapego à vida” ou, pelo menos, a uma “aceitação compassiva da realidade”. A esperança de um depois, implícita nessa perspectiva minimiza a repercussão dolorosa do sentimento de finitude que fustiga o ser consciente. Mas a participação integral na Verdade Absoluta excede qualquer expectativa temporal.  Na individuação[3] bem sucedida, o estágio final de integração bio-psico-social do indivíduo assegura-lhe apenas a isenção da ira e do ressentimento, abrindo espaço para o perdão e a obediência à voz da consciência, comparável ao eco da Consciência Universal no ser pessoal.
          Deitando o olhar sobre o caminho percorrido pela humanidade, identificamos os tropeços que nos conduziram até o ponto em que estamos hoje, com a sobrevivência ameaçada pelas conseqüências dos nossos próprios desmandos. O homem teve e tem nas mãos a possibilidade de fazer da Terra um paraíso. Tragicamente, porém, alienado de uma visão global da sua realidade imanente / transcendente, foi cedendo às falácias do ego ambicioso, imediatista e dissimulado, perdendo a perspectiva comunitária em que o “eu” encontra sua plena realização no relacionamento com o “tu” do qual é indissociável no processo de individuação. E assim os equívocos na prática do livre arbítrio abriram espaço para a desordem, o sofrimento e a morte prematura.
Os efeitos catastróficos que ameaçam a humanidade, hoje, é o resultado das más escolhas que o homem vem fazendo ao longo dos tempos, ora preso à alienação ingênua análoga à de Chapeuzinho Vermelho que, sorrindo e cantarolando, vai parar na “barriga do lobo”; ora estimulado pela má fé articulada, maliciosamente, contra a Verdade.  Em ambos os casos o homem malversa os seus dons, ignorando-os ou usando-os destrutivamente. Não se lhe pode negar a participação no processo que levou a humanidade à derrocada a que assistimos... Mas também não se lhe pode ocultar o potencial resolutivo das contradições nas quais se embarafustou. Potencial eminentemente pessoal que se manifesta na criatividade construtiva. Portanto nem tudo está perdido, podemos apostar nos dons criativos do homem, contra a tentação dos descaminhos destrutivos. Considerando tudo isso, seria oportuno indagar: diante do Tribunal da consciência reta, o homem seria julgado culpado ou inocente? Eu diria sem medo de errar: responsável, sempre, mas, culpado? Não consigo afirmá-lo com tanta certeza. A verdade é que, alienada e ingenuamente, ou por má fé, o homem imperfeito, mas perfectível fez um joguinho de interesses mesquinhos e acabou sofrendo as conseqüências dos seus próprios despautérios. Neste “joguinho” entram inúmeras variáveis, algumas incompletamente conhecidas ou, momentaneamente fora de controle, sem contar com a possibilidade de outras totalmente ignoradas. Essa inconsistência sobre a qual se constrói a existência tem levado muita gente a afirmar: “O homem é um animal que não se deve levar a sério.” Mas esta afirmação revela uma forma equivocada de avaliação do homem, embora sedutora por sua irônica descontração. A questão básica é que não podemos jogar fora ou ignorar o dom da liberdade. Estamos condenados a ser livres, dizia Sartre.  Não há como fugir da responsabilidade de escolher. Não levar o homem a sério seria ignorar a dignidade de que ele se reveste ao exercitar o livre arbítrio. E isso seria, no mínimo, uma maneira leviana de tratar o fenômeno humano. Por outro lado o veredito condenatório será sempre arbitrário por mais justo que pareça, porque nenhum julgamento é capaz de esgotar o exame de todas as variáveis que levaram à prática de um delito. É inevitável um resíduo de incerteza. E por isso mesmo, para não interromper a dinâmica do vir a ser existencial, em toda decisão é indispensável assumir corajosamente a incerteza irredutível, passando por cima da dúvida implícita nos desdobramentos da realidade em que os problemas são indecidíveis.
Tudo começa com o exercício do livre arbítrio na atualização da condição humana. Para escolher é preciso ter critérios e estes não são dados pela Natureza, são, sim, construídos pelo próprio homem. É o homem que define o ponto de corte das suas possibilidades. É o homem que cria as regras do jogo, isto é, do seu comportamento, traçando um perfil pessoal. Porém, se a estrutura psíquica e biológica é uma manifestação do próprio Espírito ordenador, não seria uma afirmação vazia dizer-se que existe um conhecimento inato do bem e do mal ( a voz da consciência) que pode levar-nos pela mão ao porto seguro. Mas somos livres para atender ou não este apelo. Assim o homem é duplamente responsável... responsabilidade inerente à sua condição de “ser livre”, que se reafirma na de honrar as regras do jogo criadas pelo próprio homem.
 Esta visão da realidade humana permite afirmar: A existência é um processo de risco que se desenrola através de escolhas pessoais intransferíveis. O homem jamais pode ter certeza absoluta sobre o acerto da escolha a que está obrigado, mas é preciso que a faça e viva sua opção até as últimas consequências, transformando-a em decisão e no ato pertinente. Não há outra maneira de conhecer a verdade existencial que nos propomos senão experimentando as nossas escolhas. E, então, no momento da decisão que antecede a ação, o homem corre o risco total, sem garantias de sucesso e sem retorno. No fim, encontrará a plenitude ou o desespero. No fundo, tudo se resume em exercitar a liberdade, na autodeterminação do ser pessoal. E isto envolve, necessariamente, a coragem de ser. Um adendo se faz necessário. Quem escolhe e decide à luz da consciência reta jamais desespera. Mas o único refúgio totalmente seguro para todas as incertezas do homem é a confiança na Providência Divina, obviamente, para os que creem.
                              Everaldo Lopes Ferreira


[1] Expressão linguística de uma operação mental (o juízo), composta de sujeito, verbo (sempre redutível ao verbo ser) e atributo, e passível de ser verdadeira ou falsa.( Houaiss3)

[2] Raciocínio dedutivo estruturado formalmente a partir de duas proposições (premissas), das quais se obtém por inferência uma terceira (conclusão) [p.ex.: "todos os homens são mortais; os gregos são homens; logo, os gregos são mortais"](Houaiss3)

[3] Processo por meio do qual uma pessoa se torna consciente de sua individualidade, de acordo com C.G. Jung (1875-1961)

segunda-feira, 26 de março de 2012

Estratégias de sobrevivência


Das respostas automáticas ao exercício da solidariedade.
 Na natureza virgem, os animais herbívoros comem plantas, estes servem de alimento para os carnívoros, e os onívoros alimentam-se de plantas e de outros animais menores. No fim, quando todos eles morrerem seus átomos hão de misturar-se no húmus que fertiliza o solo para fazer medrar as sementes e alimentar os brotos renovando a flora.  Assim se perpetua a vida, valendo-se da velha e conhecida cadeia alimentar.
Todos os animais possuem a inteligência do instinto, e os tropismos denunciam a reciprocidade entre as plantas e o meio em que vegetam. As reações instintivas e os tropismos são formas de relacionamento entre os seres vivos e a Natureza, baseadas em respostas automáticas. Com o advento da consciência reflexiva, evidencia-se no homem a capacidade de pensar, raciocinar, de criar, de escolher, e de tomar decisões pessoais na interação com sua circunstância. O pensamento racional, a criatividade, a reflexão representam modos específicos da ação recíproca entre o homem (consciência) e o mundo. Nesta interação, juntamente com  a consciência reflexiva introduz-se o livre arbítrio, ensejando comportamento mais complexo e maleável do que os reflexos instintivos e os tropismos. Como participante da cadeia alimentar o homem é livre para escolher o que comer e quando.  Entre os homens e a Natureza cria-se, assim, uma interface cultural que humaniza o Mundo estabelecendo normas que disciplinam as forças instintuais e priorizam o respeito à vida. O refinamento cultural mediante o qual o homem aprimora suas virtudes específicas é um processo longo inerente a adaptações psicossociais complexas... Estamos a caminho, e o homem ainda age muitas vezes como um predador... Mas sobre este resquício atávico há de construir a humanidade. É notória a crueldade praticada nos criatórios industrializados, e nos matadouros de rezes, aves e peixes. Impõe-se ao homem desenvolver uma conduta respeitosa em relação ao abate destes animais. Cabe-lhe a obrigação de sistematizar procedimentos indolores para minorar o sofrimento no abate necessário. Parece exagero?! Não! Admitir que o respeito aos animais seja um exagero apenas comprovaria que somos insensíveis às dores da Natureza, induzidas por nossa agressividade gratuita. Hoje existe legislação específica para proteção dos seres vivos e da Natureza. Mas não basta a obediência à letra da lei, a hominização implica no comprometimento sustentado e responsável do indivíduo com a proteção à Natureza e a exaltação da vida... um sentimento que humaniza o mundo. É razoável admitir que a insensibilidade à dor e ao sofrimento dos nossos semelhantes seja um prolongamento do desrespeito que praticamos rotineiramente contra a Natureza e a vida... leviandade que acaba conduzindo à desvalorização do próprio ser humano. A indiferença e a crueldade praticadas quando o homem se coloca no topo da cadeia alimentar com poder de vida e de morte sobre as plantas e os animais inferiores acabam extrapolando para as relações humanas.
 Nas nossas existências, e no próprio contexto universal, tudo tem a ver com tudo. Sem entrar em maiores detalhes especulativos, podemos afirmar que se esta unidade estrutural não é ostensiva, é porque não percebemos todos os componentes e todos os links que amarram a estrutura da realidade universal. Por isso não vinculamos uns aos outros fatos aparentemente separados pelo tempo e pelo espaço. Portanto, ao desnaturalizar a cadeia alimentar o homem precisa expandir e refinar cada vez mais a interface cultural, para não romper o equilíbrio do ecossistema planetário e da própria humanização. O desrespeito à vida tomada como um valor em si produz deformações psicodinâmicas e sociais, respectivamente, nos processos de humanização e de socialização que ocorrem paralelamente. Esses desmandos têm um efeito bumerangue que reverte, maleficamente, sobre a própria humanidade. Comprova-o a crescente escalada do crime registrada nos repetidos anúncios de violência com que a mídia satura sua audiência. Assassinatos passionais, latrocínio, estupro, maus tratos contra a mulher, crianças e idosos, além dos crimes de colarinho branco que, afinal, redundam em violência... Sobressai ainda o consórcio de organizações criminosas com os poderes político e econômico, que acaba sendo desnaturante da própria estrutura social. Todos esses delitos são reflexos ostensivos do mau uso que o homem tem feito de sua liberdade, são consequências de escolhas viciadas feitas no passado, por falta de solidariedade...
Se analisarmos as possibilidades de sustentação da sociedade com plena realização da condição humana[1] evidenciaremos que os paradigmas a serem cultivados recaem, necessariamente, sobre a cooperação e a partilha. Mas, na contra mão desta orientação, a prática difundida, hoje em dia, da competição aética e do acúmulo de bens materiais está levando a humanidade e o Planeta a uma derrocada. Os Economistas, sobretudo os Humanistas cristãos não se cansam de fazer este alerta dramático, mas é preciso repeti-lo à exaustão objetivando cooptar os homens de boa vontade para assumirem a empreitada heroica de salvação da Humanidade.
A cooperação e a partilha são procedimentos eminentemente comunitários que fazem parte da prática solidária. Esta prática preenche a responsabilidade do homem no encaminhamento da evolução da vida antes comandada pelos determinismos que presidem as reações instintivas e os tropismos, e agora demarcada pelo exercício da liberdade criativa... Nesta nova etapa da Evolução se inserem as ações solidárias, conscientes, livres e responsáveis. Este passo gigantesco na história da Evolução propicia a exteriorização de disposições subjetivas virtuosas que se sobrepõem às tendências naturais... Nestes termos a solidariedade suaviza os conflitos sociais e une os homens, fortalecendo-os contra as antinomias da existência e resguardando o futuro da espécie. É com esta compreensão que estamos autorizados a afirmar coerentemente que, se no mundo selvagem o algoritmo da cadeia alimentar representa uma estratégia de sobrevivência, no mundo humano psicossocial e espiritual a garantia de sobrevivência repousa no exercício amplo e irrestrito da solidariedade. A esta conclusão já chegara Jesus, o Mestre dos mestres, há mais de dois mil anos, ao pregar o amor ao próximo. Quando Ele dizia “Amai-vos uns aos outros” estava alertando os homens para uma nova ordem, o algoritmo da solidariedade, garantia de sobrevivência da humanidade. É simples assim... Mas, é longa e tumultuada a caminhada para assimilar a nova ordem! É indispensável ter fé[2] no futuro do homem, para que não se rompa a corrente da Evolução.                   
Everaldo Lopes


[1] Potencialidade para o exercício da consciência e da responsabilidade
[2]“ Ter fé, não é crer no que não se vê, mas criar o que não se vê.” (M. de Unamuno)

segunda-feira, 12 de março de 2012

A sabedoria do idoso


Diz-se com certo charme que “ser velho” é um estado de espírito!!! Sob este ângulo, haveria “velhos velhos” e “velhos jovens”. Enquanto os “velhos velhos” estariam empenhados, estoicamente, em assimilar uma realidade ostensiva, problemática, indesejada mas obrigatória... os velhos moços viveriam uma fantasia otimista que não é, necessariamente, ingênua... mas, não sendo ingênua envolve certa melancolia.
É óbvio que para ser vivida sem ressentimentos ou saudade dos anos idos, a anosidade exige um bom preparo psicológico. Perder a força física e os encantos de um corpo jovem implica na reconciliação com um perfil físico “diferente”, concomitante com o redimensionamento do horizonte temporal. Aprendizado que não se alcança sem empenho, autoconhecimento e disciplina emocional. Encerrar a vida profissional, assistir à debandada dos filhos, são lances que demandam alterações de hábitos arraigados de trabalho e de convivência. Isso exige uma reformulação de rotinas longamente praticadas... Conviver com o sentimento de ser descartável, situação cujos desdobramentos variam de acordo com a condição econômica e intelectual do idoso/a, é sempre embaraçoso para os que já viveram mais de dois terços do seu ciclo biológico. Toda esta transição pode ensejar sentimentos de menos valia, ansiedade e até mesmo depressão... mas não inevitavelmente. Em tendo vivido responsável e diligentemente as etapas anteriores da vida, o idoso retém uma reserva moral que lhe garante o respeito dos seus pares e dos demais membros da coletividade. As conquistas intelectuais e afetivas alcançadas no passado dão suporte ao equilíbrio existencial. Assim, é possível viver em plenitude todas as fases do biociclo, inclusive a “velhice”. Lamentavelmente, depois de malversar as possibilidades inerentes a cada estágio da existência, muitos chegam despreparados à assim chamada terceira idade. É evidente que esta malversação não depende exclusivamente da falta de iniciativa individual, mas, também, da ineficácia organizacional da sociedade dispersa em querelas mesquinhas, egoísticas. Porém mesmo os que viveram diligente e criativamente as idades precedentes não estão imunes aos percalços impostos pelo peso dos anos.
Voltando ao enfrentamento da velhice, é admissível que a alienação ingênua das pessoas simples anule ou abrande o desconforto da auto-avaliação física desfavorável depois da quinta década de vida. Mas a lucidez crítica não tem como enfeitar a velhice, a não ser com a sabedoria dos que souberem tirar lições das experiências vividas. É muito subjetivo e duvidoso o critério utilizado pelos que dão à velhice a designação de  “melhor idade”! Não obstante, é forçoso reconhecer que sempre se pode valorizar a existência, no contexto de cada etapa da vida. Mas para evitar qualquer desassossego, é preciso assimilar o amoroso desapego à vida, e aprender a “virar cada página” da existência... conquistas difíceis que demandam equilíbrio emocional e determinação. Quando começamos a sentir a ameaça do pessimismo em relação ao futuro que míngua cada ano transcorrido, é tempo de reavaliar a própria existência e, se necessário, redirecioná-la usando toda clarividência e criatividade.
Afinal nem tudo são perdas! Ser velho implica ter vivido bastante, e superado os obstáculos inerentes às etapas anteriores da caminhada humana neste mundo. Tendo resistido aos sacrifícios e aborrecimentos, medos e insatisfações da juventude e da adultícia, o velho sente-se desobrigado de provar seja o que for a quem quer que seja. Sabe-se que esta confiança é menor quando as etapas anteriores da existência não foram vividas em plenitude. Mas é sempre possível reelaborar, com engenho e arte, sobretudo com bom senso, o luto do não vivido. Há casos em que a Psicanálise seria de inestimável ajuda... É inevitável a saudade dos bons momentos desfrutados no viço da juventude. Mas a memória destes momentos, lembrados sem a pretensão infantil de reproduzi-los, pode representar, apenas, um recreio relaxante... Enfim, cotejando a saudade da vida, com a vantagem de haver superado os percalços da juventude e da adultidade, há um “empate técnico”. Nesta perspectiva, portanto, sem preconceitos, não há como justificar uma preferência... a exaltação otimista da juventude, ou as limitações e virtudes  dos últimos quiquênios da vida... Todavia, mantida a lucidez crítica, convenhamos em que ser velho implica, sempre, ter que lidar com limites físicos sobretudo, uma sentença irrecorrível. Pior quando o velho lúcido não consegue livrar-se da revolta de haver perdido a juventude. Pode-se até associar esta rebelião à imaturidade psíquica afetiva que martiriza muitos idosos! De fato, a incapacidade de aceitar a realidade, objetivamente, é uma deficiência do caráter, mas isto não nega a dificuldade real implícita em viver a transição para a velhice, torna-a, até, mais evidente...
 A sabedoria alcançada pelo idoso pode conferir-lhe certa tranquilidade em razão do domínio da “arte de conviver”[1]. Este conhecimento assegura-lhe autoconfiança, mas, obviamente, não suprime os problemas inerentes à superação das diferenças interpessoais, mais arraigadas entre idosos.
Não obstante todas as restrições, quando lúcido e bem resolvido o ancião esclarecido constitui-se ainda num esteio para a sociedade. Ele já tem mais controle sobre a tirania dos sentidos e das emoções e, assim, tem mais condições de fazer escolhas e de tomar decisões equânimes. Ele sabe quanto é difícil cortar o fio intangível que o mantém atado à escravidão dissimulada dos sentidos conquanto, nesta quadra da vida já estejam perdendo a acuidade... Numa leitura objetiva evolucionária depreende-se que a realização plena da condição humana vincula-se à “espiritualização” progressiva dos sentidos e não à anulação da experiência senciente. Não se trata de sufocar os sentidos como se fossem a parte “podre” da interação do indivíduo com o mundo e com os outros. Esta questão já foi ventilada no texto anterior.[2] No contexto de uma cosmogonia espiritualista, a sensualidade é um desdobramento do Dinamismo Absoluto eternamente criativo, penhor da dignidade humana, da nobreza do autorrespeito que se prolonga no respeito ao outro e à Natureza... uma linha comportamental na qual se desenvolve a solidariedade comunitária pela qual se revela o amor doação. Sob sua inspiração tudo se ilumina nas relações interpessoais, não restam desvãos escuros onde a maledicência e os equívocos encontrem guarida. Tudo acontece espontaneamente, sem premeditação, reproduzindo o equilíbrio dinâmico universal. O estado de graça que todos almejamos não é mais do que a vivência deste amor despojado, de quem não pensa apenas em si, e se ocupa com o bem estar do outro. Este amor caridade é o ápice da maturidade humana, a manifestação mais conspícua da presença no homem de uma dimensão transcendental, dado que não há como atribuir o amor caridade a uma função biológica. No embalo desse ideal, é possível em qualquer idade buscar o equilíbrio pessoal nas relações intra e intersubjetivas. A sabedoria almejada está na profundeza do ser consciente. Assim a jornada em busca da realização da “imensa aspiração de ser divino”[3] corresponde a uma introspecção inteligente e humilde.
No âmbito da cosmogonia espiritualista, um Dinamismo Absoluto Eternamente Criativo (Deus) está presente em cada uma das suas criaturas desde o início e para todo o sempre... incapazes de subsistir por si mesmas é o seu próprio Criador que as sustenta, e é a Ele que retornarão... no caso do homem, depois de dar o testemunho histórico da Sua grandeza ao experimentar o “supremo prazer de ser humano.”[4]
Até mesmo quando desestabilizado pela luxúria e pela insegurança existencial, o homem não perde o foco do objetivo maior de integrar uma totalidade absoluta. Não consegue imaginar sequer a grandiosidade desta plenitude, mas não desiste dela, mesmo quando rasteja nos equívocos que dela o afastam... vislumbra-A como uma visão beatífica da comunidade de todas as consciências na unidade absoluta de Deus. Humilde, mas sequioso de integração no absoluto, despedir-se-á, honrosamente, desta vida, repetindo as últimas palavras de Cristo no madeiro: “Senhor, tudo está consumado, em Tuas mãos entrego a minha alma.”
Everaldo Lopes


[1] Ver texto com este título, já  postado neste blog.
[2] Sublimação da libido
[3] Ver a citação de Raul de Leoni no final do texto anterior.
[4] Idem