terça-feira, 3 de abril de 2012

Ninguém pode ter certeza...


          Numa perspectiva evolucionária o Universo toma conhecimento de si mesmo através do homem. Neste mesmo ato cognitivo assoma o pressuposto de uma consciência ordenadora do universo, que por seu caráter transcendental não é acessível à razão humana. Mas a ordem resultante pode ser pensada e sentida objetivamente em seu trajeto da matéria primitiva à vida consciente. A razão e a afetividade são as duas pontes que unem o ser consciente e o mundo. O intelecto progride relacionando noções em proposições[1], coordenando silogismos[2], preservando a estrutura sintática do discurso racional que visa descrever a realidade. Paralelamente o sentimento dá um colorido afetivo ao conhecimento, associando-o a uma vivência agradável ou desagradável. O conhecimento e o sentimento abordam os objetos para os quais convergem por caminhos diferentes, numa experiência existencial que sintetiza a razão e a afetividade.
A terceira dimensão psíquica humana é a vontade impulsora do ser consciente à escolha que preside a decisão do ato responsável, sob a influência preponderante, ora da razão ora do sentimento. Assim, no intervalo entre a consciência e o mundo constrói-se uma interface virtual que tem caráter cultural. A cultura é, pois, o cenário da dialética psicossocial, no qual a vontade compatibiliza o intelecto, a sensibilidade afetiva e a intuição do ser pessoal, com o ambiente físico e social em que o sujeito consciente está contextualizado. Nesse processo dinâmico se desenvolve o drama humano entre o amor à Verdade universal que reflete o divino, e a paixão que é ofuscação deste amor, por uma frágil representação humana, contingente, sob a forma de escravização do ego aos sentidos.
O pressuposto de uma consciência universal ordenadora implica numa cosmogênese monista espiritualista, condicionada à crença em que o Espírito Eterno é a matriz do cosmo e da consciência. Obviamente como substrato da consciência o espírito sobreviverá à morte biológica do homem, embora este não saiba o que virá depois da sua existência temporal. Contudo, é legítimo admitir que liberto dos sentidos, o espírito que vivenciou uma experiência histórica terá neste depois uma visão tão mais rica de verdade e de beleza, quanto mais o sujeito existencial tenha sido capaz de “amar”, de reconhecer a verdade e a beleza.
Ao longo da peregrinação do homem pelo mundo, na melhor hipótese, o fecho da vida pessoal inspirada numa cosmogonia espiritualista, deverá conduzir ao “amoroso desapego à vida” ou, pelo menos, a uma “aceitação compassiva da realidade”. A esperança de um depois, implícita nessa perspectiva minimiza a repercussão dolorosa do sentimento de finitude que fustiga o ser consciente. Mas a participação integral na Verdade Absoluta excede qualquer expectativa temporal.  Na individuação[3] bem sucedida, o estágio final de integração bio-psico-social do indivíduo assegura-lhe apenas a isenção da ira e do ressentimento, abrindo espaço para o perdão e a obediência à voz da consciência, comparável ao eco da Consciência Universal no ser pessoal.
          Deitando o olhar sobre o caminho percorrido pela humanidade, identificamos os tropeços que nos conduziram até o ponto em que estamos hoje, com a sobrevivência ameaçada pelas conseqüências dos nossos próprios desmandos. O homem teve e tem nas mãos a possibilidade de fazer da Terra um paraíso. Tragicamente, porém, alienado de uma visão global da sua realidade imanente / transcendente, foi cedendo às falácias do ego ambicioso, imediatista e dissimulado, perdendo a perspectiva comunitária em que o “eu” encontra sua plena realização no relacionamento com o “tu” do qual é indissociável no processo de individuação. E assim os equívocos na prática do livre arbítrio abriram espaço para a desordem, o sofrimento e a morte prematura.
Os efeitos catastróficos que ameaçam a humanidade, hoje, é o resultado das más escolhas que o homem vem fazendo ao longo dos tempos, ora preso à alienação ingênua análoga à de Chapeuzinho Vermelho que, sorrindo e cantarolando, vai parar na “barriga do lobo”; ora estimulado pela má fé articulada, maliciosamente, contra a Verdade.  Em ambos os casos o homem malversa os seus dons, ignorando-os ou usando-os destrutivamente. Não se lhe pode negar a participação no processo que levou a humanidade à derrocada a que assistimos... Mas também não se lhe pode ocultar o potencial resolutivo das contradições nas quais se embarafustou. Potencial eminentemente pessoal que se manifesta na criatividade construtiva. Portanto nem tudo está perdido, podemos apostar nos dons criativos do homem, contra a tentação dos descaminhos destrutivos. Considerando tudo isso, seria oportuno indagar: diante do Tribunal da consciência reta, o homem seria julgado culpado ou inocente? Eu diria sem medo de errar: responsável, sempre, mas, culpado? Não consigo afirmá-lo com tanta certeza. A verdade é que, alienada e ingenuamente, ou por má fé, o homem imperfeito, mas perfectível fez um joguinho de interesses mesquinhos e acabou sofrendo as conseqüências dos seus próprios despautérios. Neste “joguinho” entram inúmeras variáveis, algumas incompletamente conhecidas ou, momentaneamente fora de controle, sem contar com a possibilidade de outras totalmente ignoradas. Essa inconsistência sobre a qual se constrói a existência tem levado muita gente a afirmar: “O homem é um animal que não se deve levar a sério.” Mas esta afirmação revela uma forma equivocada de avaliação do homem, embora sedutora por sua irônica descontração. A questão básica é que não podemos jogar fora ou ignorar o dom da liberdade. Estamos condenados a ser livres, dizia Sartre.  Não há como fugir da responsabilidade de escolher. Não levar o homem a sério seria ignorar a dignidade de que ele se reveste ao exercitar o livre arbítrio. E isso seria, no mínimo, uma maneira leviana de tratar o fenômeno humano. Por outro lado o veredito condenatório será sempre arbitrário por mais justo que pareça, porque nenhum julgamento é capaz de esgotar o exame de todas as variáveis que levaram à prática de um delito. É inevitável um resíduo de incerteza. E por isso mesmo, para não interromper a dinâmica do vir a ser existencial, em toda decisão é indispensável assumir corajosamente a incerteza irredutível, passando por cima da dúvida implícita nos desdobramentos da realidade em que os problemas são indecidíveis.
Tudo começa com o exercício do livre arbítrio na atualização da condição humana. Para escolher é preciso ter critérios e estes não são dados pela Natureza, são, sim, construídos pelo próprio homem. É o homem que define o ponto de corte das suas possibilidades. É o homem que cria as regras do jogo, isto é, do seu comportamento, traçando um perfil pessoal. Porém, se a estrutura psíquica e biológica é uma manifestação do próprio Espírito ordenador, não seria uma afirmação vazia dizer-se que existe um conhecimento inato do bem e do mal ( a voz da consciência) que pode levar-nos pela mão ao porto seguro. Mas somos livres para atender ou não este apelo. Assim o homem é duplamente responsável... responsabilidade inerente à sua condição de “ser livre”, que se reafirma na de honrar as regras do jogo criadas pelo próprio homem.
 Esta visão da realidade humana permite afirmar: A existência é um processo de risco que se desenrola através de escolhas pessoais intransferíveis. O homem jamais pode ter certeza absoluta sobre o acerto da escolha a que está obrigado, mas é preciso que a faça e viva sua opção até as últimas consequências, transformando-a em decisão e no ato pertinente. Não há outra maneira de conhecer a verdade existencial que nos propomos senão experimentando as nossas escolhas. E, então, no momento da decisão que antecede a ação, o homem corre o risco total, sem garantias de sucesso e sem retorno. No fim, encontrará a plenitude ou o desespero. No fundo, tudo se resume em exercitar a liberdade, na autodeterminação do ser pessoal. E isto envolve, necessariamente, a coragem de ser. Um adendo se faz necessário. Quem escolhe e decide à luz da consciência reta jamais desespera. Mas o único refúgio totalmente seguro para todas as incertezas do homem é a confiança na Providência Divina, obviamente, para os que creem.
                              Everaldo Lopes Ferreira


[1] Expressão linguística de uma operação mental (o juízo), composta de sujeito, verbo (sempre redutível ao verbo ser) e atributo, e passível de ser verdadeira ou falsa.( Houaiss3)

[2] Raciocínio dedutivo estruturado formalmente a partir de duas proposições (premissas), das quais se obtém por inferência uma terceira (conclusão) [p.ex.: "todos os homens são mortais; os gregos são homens; logo, os gregos são mortais"](Houaiss3)

[3] Processo por meio do qual uma pessoa se torna consciente de sua individualidade, de acordo com C.G. Jung (1875-1961)

segunda-feira, 26 de março de 2012

Estratégias de sobrevivência


Das respostas automáticas ao exercício da solidariedade.
 Na natureza virgem, os animais herbívoros comem plantas, estes servem de alimento para os carnívoros, e os onívoros alimentam-se de plantas e de outros animais menores. No fim, quando todos eles morrerem seus átomos hão de misturar-se no húmus que fertiliza o solo para fazer medrar as sementes e alimentar os brotos renovando a flora.  Assim se perpetua a vida, valendo-se da velha e conhecida cadeia alimentar.
Todos os animais possuem a inteligência do instinto, e os tropismos denunciam a reciprocidade entre as plantas e o meio em que vegetam. As reações instintivas e os tropismos são formas de relacionamento entre os seres vivos e a Natureza, baseadas em respostas automáticas. Com o advento da consciência reflexiva, evidencia-se no homem a capacidade de pensar, raciocinar, de criar, de escolher, e de tomar decisões pessoais na interação com sua circunstância. O pensamento racional, a criatividade, a reflexão representam modos específicos da ação recíproca entre o homem (consciência) e o mundo. Nesta interação, juntamente com  a consciência reflexiva introduz-se o livre arbítrio, ensejando comportamento mais complexo e maleável do que os reflexos instintivos e os tropismos. Como participante da cadeia alimentar o homem é livre para escolher o que comer e quando.  Entre os homens e a Natureza cria-se, assim, uma interface cultural que humaniza o Mundo estabelecendo normas que disciplinam as forças instintuais e priorizam o respeito à vida. O refinamento cultural mediante o qual o homem aprimora suas virtudes específicas é um processo longo inerente a adaptações psicossociais complexas... Estamos a caminho, e o homem ainda age muitas vezes como um predador... Mas sobre este resquício atávico há de construir a humanidade. É notória a crueldade praticada nos criatórios industrializados, e nos matadouros de rezes, aves e peixes. Impõe-se ao homem desenvolver uma conduta respeitosa em relação ao abate destes animais. Cabe-lhe a obrigação de sistematizar procedimentos indolores para minorar o sofrimento no abate necessário. Parece exagero?! Não! Admitir que o respeito aos animais seja um exagero apenas comprovaria que somos insensíveis às dores da Natureza, induzidas por nossa agressividade gratuita. Hoje existe legislação específica para proteção dos seres vivos e da Natureza. Mas não basta a obediência à letra da lei, a hominização implica no comprometimento sustentado e responsável do indivíduo com a proteção à Natureza e a exaltação da vida... um sentimento que humaniza o mundo. É razoável admitir que a insensibilidade à dor e ao sofrimento dos nossos semelhantes seja um prolongamento do desrespeito que praticamos rotineiramente contra a Natureza e a vida... leviandade que acaba conduzindo à desvalorização do próprio ser humano. A indiferença e a crueldade praticadas quando o homem se coloca no topo da cadeia alimentar com poder de vida e de morte sobre as plantas e os animais inferiores acabam extrapolando para as relações humanas.
 Nas nossas existências, e no próprio contexto universal, tudo tem a ver com tudo. Sem entrar em maiores detalhes especulativos, podemos afirmar que se esta unidade estrutural não é ostensiva, é porque não percebemos todos os componentes e todos os links que amarram a estrutura da realidade universal. Por isso não vinculamos uns aos outros fatos aparentemente separados pelo tempo e pelo espaço. Portanto, ao desnaturalizar a cadeia alimentar o homem precisa expandir e refinar cada vez mais a interface cultural, para não romper o equilíbrio do ecossistema planetário e da própria humanização. O desrespeito à vida tomada como um valor em si produz deformações psicodinâmicas e sociais, respectivamente, nos processos de humanização e de socialização que ocorrem paralelamente. Esses desmandos têm um efeito bumerangue que reverte, maleficamente, sobre a própria humanidade. Comprova-o a crescente escalada do crime registrada nos repetidos anúncios de violência com que a mídia satura sua audiência. Assassinatos passionais, latrocínio, estupro, maus tratos contra a mulher, crianças e idosos, além dos crimes de colarinho branco que, afinal, redundam em violência... Sobressai ainda o consórcio de organizações criminosas com os poderes político e econômico, que acaba sendo desnaturante da própria estrutura social. Todos esses delitos são reflexos ostensivos do mau uso que o homem tem feito de sua liberdade, são consequências de escolhas viciadas feitas no passado, por falta de solidariedade...
Se analisarmos as possibilidades de sustentação da sociedade com plena realização da condição humana[1] evidenciaremos que os paradigmas a serem cultivados recaem, necessariamente, sobre a cooperação e a partilha. Mas, na contra mão desta orientação, a prática difundida, hoje em dia, da competição aética e do acúmulo de bens materiais está levando a humanidade e o Planeta a uma derrocada. Os Economistas, sobretudo os Humanistas cristãos não se cansam de fazer este alerta dramático, mas é preciso repeti-lo à exaustão objetivando cooptar os homens de boa vontade para assumirem a empreitada heroica de salvação da Humanidade.
A cooperação e a partilha são procedimentos eminentemente comunitários que fazem parte da prática solidária. Esta prática preenche a responsabilidade do homem no encaminhamento da evolução da vida antes comandada pelos determinismos que presidem as reações instintivas e os tropismos, e agora demarcada pelo exercício da liberdade criativa... Nesta nova etapa da Evolução se inserem as ações solidárias, conscientes, livres e responsáveis. Este passo gigantesco na história da Evolução propicia a exteriorização de disposições subjetivas virtuosas que se sobrepõem às tendências naturais... Nestes termos a solidariedade suaviza os conflitos sociais e une os homens, fortalecendo-os contra as antinomias da existência e resguardando o futuro da espécie. É com esta compreensão que estamos autorizados a afirmar coerentemente que, se no mundo selvagem o algoritmo da cadeia alimentar representa uma estratégia de sobrevivência, no mundo humano psicossocial e espiritual a garantia de sobrevivência repousa no exercício amplo e irrestrito da solidariedade. A esta conclusão já chegara Jesus, o Mestre dos mestres, há mais de dois mil anos, ao pregar o amor ao próximo. Quando Ele dizia “Amai-vos uns aos outros” estava alertando os homens para uma nova ordem, o algoritmo da solidariedade, garantia de sobrevivência da humanidade. É simples assim... Mas, é longa e tumultuada a caminhada para assimilar a nova ordem! É indispensável ter fé[2] no futuro do homem, para que não se rompa a corrente da Evolução.                   
Everaldo Lopes


[1] Potencialidade para o exercício da consciência e da responsabilidade
[2]“ Ter fé, não é crer no que não se vê, mas criar o que não se vê.” (M. de Unamuno)

segunda-feira, 12 de março de 2012

A sabedoria do idoso


Diz-se com certo charme que “ser velho” é um estado de espírito!!! Sob este ângulo, haveria “velhos velhos” e “velhos jovens”. Enquanto os “velhos velhos” estariam empenhados, estoicamente, em assimilar uma realidade ostensiva, problemática, indesejada mas obrigatória... os velhos moços viveriam uma fantasia otimista que não é, necessariamente, ingênua... mas, não sendo ingênua envolve certa melancolia.
É óbvio que para ser vivida sem ressentimentos ou saudade dos anos idos, a anosidade exige um bom preparo psicológico. Perder a força física e os encantos de um corpo jovem implica na reconciliação com um perfil físico “diferente”, concomitante com o redimensionamento do horizonte temporal. Aprendizado que não se alcança sem empenho, autoconhecimento e disciplina emocional. Encerrar a vida profissional, assistir à debandada dos filhos, são lances que demandam alterações de hábitos arraigados de trabalho e de convivência. Isso exige uma reformulação de rotinas longamente praticadas... Conviver com o sentimento de ser descartável, situação cujos desdobramentos variam de acordo com a condição econômica e intelectual do idoso/a, é sempre embaraçoso para os que já viveram mais de dois terços do seu ciclo biológico. Toda esta transição pode ensejar sentimentos de menos valia, ansiedade e até mesmo depressão... mas não inevitavelmente. Em tendo vivido responsável e diligentemente as etapas anteriores da vida, o idoso retém uma reserva moral que lhe garante o respeito dos seus pares e dos demais membros da coletividade. As conquistas intelectuais e afetivas alcançadas no passado dão suporte ao equilíbrio existencial. Assim, é possível viver em plenitude todas as fases do biociclo, inclusive a “velhice”. Lamentavelmente, depois de malversar as possibilidades inerentes a cada estágio da existência, muitos chegam despreparados à assim chamada terceira idade. É evidente que esta malversação não depende exclusivamente da falta de iniciativa individual, mas, também, da ineficácia organizacional da sociedade dispersa em querelas mesquinhas, egoísticas. Porém mesmo os que viveram diligente e criativamente as idades precedentes não estão imunes aos percalços impostos pelo peso dos anos.
Voltando ao enfrentamento da velhice, é admissível que a alienação ingênua das pessoas simples anule ou abrande o desconforto da auto-avaliação física desfavorável depois da quinta década de vida. Mas a lucidez crítica não tem como enfeitar a velhice, a não ser com a sabedoria dos que souberem tirar lições das experiências vividas. É muito subjetivo e duvidoso o critério utilizado pelos que dão à velhice a designação de  “melhor idade”! Não obstante, é forçoso reconhecer que sempre se pode valorizar a existência, no contexto de cada etapa da vida. Mas para evitar qualquer desassossego, é preciso assimilar o amoroso desapego à vida, e aprender a “virar cada página” da existência... conquistas difíceis que demandam equilíbrio emocional e determinação. Quando começamos a sentir a ameaça do pessimismo em relação ao futuro que míngua cada ano transcorrido, é tempo de reavaliar a própria existência e, se necessário, redirecioná-la usando toda clarividência e criatividade.
Afinal nem tudo são perdas! Ser velho implica ter vivido bastante, e superado os obstáculos inerentes às etapas anteriores da caminhada humana neste mundo. Tendo resistido aos sacrifícios e aborrecimentos, medos e insatisfações da juventude e da adultícia, o velho sente-se desobrigado de provar seja o que for a quem quer que seja. Sabe-se que esta confiança é menor quando as etapas anteriores da existência não foram vividas em plenitude. Mas é sempre possível reelaborar, com engenho e arte, sobretudo com bom senso, o luto do não vivido. Há casos em que a Psicanálise seria de inestimável ajuda... É inevitável a saudade dos bons momentos desfrutados no viço da juventude. Mas a memória destes momentos, lembrados sem a pretensão infantil de reproduzi-los, pode representar, apenas, um recreio relaxante... Enfim, cotejando a saudade da vida, com a vantagem de haver superado os percalços da juventude e da adultidade, há um “empate técnico”. Nesta perspectiva, portanto, sem preconceitos, não há como justificar uma preferência... a exaltação otimista da juventude, ou as limitações e virtudes  dos últimos quiquênios da vida... Todavia, mantida a lucidez crítica, convenhamos em que ser velho implica, sempre, ter que lidar com limites físicos sobretudo, uma sentença irrecorrível. Pior quando o velho lúcido não consegue livrar-se da revolta de haver perdido a juventude. Pode-se até associar esta rebelião à imaturidade psíquica afetiva que martiriza muitos idosos! De fato, a incapacidade de aceitar a realidade, objetivamente, é uma deficiência do caráter, mas isto não nega a dificuldade real implícita em viver a transição para a velhice, torna-a, até, mais evidente...
 A sabedoria alcançada pelo idoso pode conferir-lhe certa tranquilidade em razão do domínio da “arte de conviver”[1]. Este conhecimento assegura-lhe autoconfiança, mas, obviamente, não suprime os problemas inerentes à superação das diferenças interpessoais, mais arraigadas entre idosos.
Não obstante todas as restrições, quando lúcido e bem resolvido o ancião esclarecido constitui-se ainda num esteio para a sociedade. Ele já tem mais controle sobre a tirania dos sentidos e das emoções e, assim, tem mais condições de fazer escolhas e de tomar decisões equânimes. Ele sabe quanto é difícil cortar o fio intangível que o mantém atado à escravidão dissimulada dos sentidos conquanto, nesta quadra da vida já estejam perdendo a acuidade... Numa leitura objetiva evolucionária depreende-se que a realização plena da condição humana vincula-se à “espiritualização” progressiva dos sentidos e não à anulação da experiência senciente. Não se trata de sufocar os sentidos como se fossem a parte “podre” da interação do indivíduo com o mundo e com os outros. Esta questão já foi ventilada no texto anterior.[2] No contexto de uma cosmogonia espiritualista, a sensualidade é um desdobramento do Dinamismo Absoluto eternamente criativo, penhor da dignidade humana, da nobreza do autorrespeito que se prolonga no respeito ao outro e à Natureza... uma linha comportamental na qual se desenvolve a solidariedade comunitária pela qual se revela o amor doação. Sob sua inspiração tudo se ilumina nas relações interpessoais, não restam desvãos escuros onde a maledicência e os equívocos encontrem guarida. Tudo acontece espontaneamente, sem premeditação, reproduzindo o equilíbrio dinâmico universal. O estado de graça que todos almejamos não é mais do que a vivência deste amor despojado, de quem não pensa apenas em si, e se ocupa com o bem estar do outro. Este amor caridade é o ápice da maturidade humana, a manifestação mais conspícua da presença no homem de uma dimensão transcendental, dado que não há como atribuir o amor caridade a uma função biológica. No embalo desse ideal, é possível em qualquer idade buscar o equilíbrio pessoal nas relações intra e intersubjetivas. A sabedoria almejada está na profundeza do ser consciente. Assim a jornada em busca da realização da “imensa aspiração de ser divino”[3] corresponde a uma introspecção inteligente e humilde.
No âmbito da cosmogonia espiritualista, um Dinamismo Absoluto Eternamente Criativo (Deus) está presente em cada uma das suas criaturas desde o início e para todo o sempre... incapazes de subsistir por si mesmas é o seu próprio Criador que as sustenta, e é a Ele que retornarão... no caso do homem, depois de dar o testemunho histórico da Sua grandeza ao experimentar o “supremo prazer de ser humano.”[4]
Até mesmo quando desestabilizado pela luxúria e pela insegurança existencial, o homem não perde o foco do objetivo maior de integrar uma totalidade absoluta. Não consegue imaginar sequer a grandiosidade desta plenitude, mas não desiste dela, mesmo quando rasteja nos equívocos que dela o afastam... vislumbra-A como uma visão beatífica da comunidade de todas as consciências na unidade absoluta de Deus. Humilde, mas sequioso de integração no absoluto, despedir-se-á, honrosamente, desta vida, repetindo as últimas palavras de Cristo no madeiro: “Senhor, tudo está consumado, em Tuas mãos entrego a minha alma.”
Everaldo Lopes


[1] Ver texto com este título, já  postado neste blog.
[2] Sublimação da libido
[3] Ver a citação de Raul de Leoni no final do texto anterior.
[4] Idem

domingo, 4 de março de 2012

Sublimação da libido


 
As manifestações do amor humano envolvem peculiaridades culturais relacionadas aos grupos etários, ao nível de maturidade das pessoas envolvidas e suas idiossincrasias. O envelhecimento não anula o desejo, mas o seu deleite é inversamente proporcional às limitações físicas e funcionais que se vão instalando aos poucos com o passar dos anos.  A avaliação pessimista que os idosos fazem sobre a própria performance enseja certa ansiedade. É de esperar que o registro de expectativa desfavorável implique em prejuízo da autoestima dos que assimilam mal os sinetes da idade... e estes são uma maioria expressiva.  Não se pode minimizar este aspecto psicológico quando da auto reeducação do idoso no processo do seu amadurecimento pessoal. Na verdade, para superar as dificuldades inerentes ao envelhecimento o idoso terá que enfrentar a realidade de forma objetiva e inteligente. E isto requer autoconhecimento, flexibilidade afetiva e criatividade, além de muita determinação. Importa muito neste processo, o ambiente social no qual o indivíduo interage.
A experiência do homem maduro, crítico, adverte-o da fugacidade do prazer, e torna-o consciente do vazio existencial inerente ao período refratário[1] do ciclo sexual. Em função disso o homem adulto cioso de suas características psicobiológicas torna-se mais exigente na escolha da/o parceira/o libidinal. Consciente de que a sensualidade despertada pelo objeto do desejo esgota-se na intimidade física, sabe que para manter vivo o interesse pela/o parceira/o, a participação afetiva e terna é essencial. Compreende que para a satisfação plena da libido é imperiosa a coexistência de um sentimento mais profundo do que o de posse, relacionado ao desejo primário. O primarismo atávico alimenta a libido, e a interferência do sentimento terno purifica-o, contribuindo para a sublimação[2] da pulsão sensual. Aliás, as pessoas ciosas da dignidade humana sentem-se incompletas ao participar de uma experiência erótica sem a extensão afetiva indispensável aos contornos do amor humano. Não obstante esta perspectiva, o “nu” anônimo continua a despertar o desejo e as fantasias de intimidades eróticas entre pessoas supostamente amadurecidas. O que demonstra a força da libido originária, difícil de disciplinar, que alimenta a curiosidade erótica, e sugere a luta que cada um empreende na intimidade subjetiva para mantê-la submissa aos cânones culturais vigentes.  
O convite recíproco dos amantes, espontâneo, livre, que inclui potencialidades espirituais caracteriza a relação erótica adulta, amadurecida. Neste contexto a sensualidade é uma força construtiva da dignidade humana quando aplicada nos limites do auto-respeito que se prolonga no respeito ao outro e à Natureza. A libido é o nutriente afetivo arquetípico da espiritualidade encarnada do ser humano. A sensualidade e a espiritualidade não são excludentes. Na prática existencial equilibrada, a primeira é a energia que sustenta a segunda, e esta é o crisol no qual a sensualidade se purifica. Mas na medida em que os anos passam nada é tão fácil, nesta área. A maturidade psíquica e afetiva autoconfiante do homem está sempre aquém do ideal.  Daí porque a auto avaliação estética desfavorável do idoso cria-lhe um estorvo subjetivo ao encontro erótico ainda possível... Ao vivenciar sua incapacidade de seduzir com a própria imagem desfigurada, prudentemente resiste em expor-se ao risco de ser rejeitado numa abordagem eventual... Imaturidade? Incapacidade de assimilar naturalmente o perfil idoso?  Na verdade isso não é fácil para ninguém... é difícil imaginar um padrão estético para o contato sensual de corpos senis.  Tudo se passa como se do ponto de vista estético, o desejo sensual e seu objeto fossem sempre jovens. Na linguagem erótica, a atração entre corpos juvenis e belos é que é natural e promissora... já a aproximação de corpos envelhecidos não deixa margem a uma expectativa exuberante.O/a idoso/a lúcido/a, (vaidoso/a?) identifica no seu desfiguramento físico um obstáculo ao estímulo erótico da/o parceira/o. Todavia, cremos ser possível uma experiência satisfatória entre idosos... mas com uma condição: num contexto em que o envelhecimento do casal, excepcionalmente, decorresse numa convivência amorosa e cúmplice ao longo de muitos anos. Não seria desprezível, portanto, entre os amantes que, unidos emocionalmente, envelheceram juntos. Mas, fora deste detalhe favorável, o desejo erótico que irrompe na alma do/a idoso/a torna-se torturante. Por que na dinâmica deste desejo o alvo mais visado é sempre um corpo jovem, como tal, desejável, porém inalcançável pelo/a idoso/a. Pode parecer exagero, mas no fundo a realidade é esta. É difícil imaginar como um corpo senil possa satisfazer o componente estético do desejo erótico... a não ser, como dissemos antes, que uma relação intersubjetiva profunda construída ao longo de muitos anos de convivência feliz intervenha na dinâmica sensual. Situação que corresponde aos casos excepcionais de almas gêmeas. Fora deste contexto, não é natural que se espere estímulo libidinoso da visão de um corpo marcado pelo tempo. Poder-se-ia até, senso lato, considerar uma violência a imposição a um/a jovem do contato de um corpo idoso em busca de satisfazer a própria libido. Por tudo isso, melhor seria que o desejo envelhecesse também. Sem drama, seria menos problemático envelhecer! Mas é temível que a supressão da libido acabe por arrastar na sua derrocada o próprio desejo de viver, tornando a anosidade uma excrescência existencial insuportável. Quiçá, induzindo a precipitação da morte da criatividade, reduzindo o/a idoso/a, analogicamente, à condição de uma nau à deriva, de velas arriadas, em completa escuridão. Matar a libido no idoso por motivos estéticos e éticos seria como “jogar fora a criança junto com a água do banho”. Portanto é preciso não negar a libido, porém sublimá-la. Encarando-a no seu sentido mais amplo, ela é o substrato atávico do “instinto de vida”, suporte da sublimação e até da própria espiritualidade necessária para dar sustentação à experiência mística. Sublimar no sentido psicanalítico é a solução mais sábia... equivale a redirecionar a energia da libido para os valores humanísticos espirituais, inspirando a criação artística, e a solidariedade traduzida em gestos e obras comunitárias... finalmente, transcendendo-se na vivência mística consubstanciada na apoteose de todas as consciências integradas na unidade absoluta de Deus. Nisto afinal se resumiria a sublimação total da libido, justificando Raul de Leoni em “Ode a um Poeta Morto”, quando diz, falando ao homem: “Que o sentido da vida e o seu arcano / é a imensa aspiração de ser divino, / no supremo prazer de ser humano!” 
Everaldo Lopes


[1] Período que sucede o orgasmo, de total ausência de resposta sexual a qualquer estímulo físico.
[2] Processo inconsciente que consiste em desviar a energia da libido (q. v.) para novos objetos, de caráter útil.