segunda-feira, 26 de março de 2012

Estratégias de sobrevivência


Das respostas automáticas ao exercício da solidariedade.
 Na natureza virgem, os animais herbívoros comem plantas, estes servem de alimento para os carnívoros, e os onívoros alimentam-se de plantas e de outros animais menores. No fim, quando todos eles morrerem seus átomos hão de misturar-se no húmus que fertiliza o solo para fazer medrar as sementes e alimentar os brotos renovando a flora.  Assim se perpetua a vida, valendo-se da velha e conhecida cadeia alimentar.
Todos os animais possuem a inteligência do instinto, e os tropismos denunciam a reciprocidade entre as plantas e o meio em que vegetam. As reações instintivas e os tropismos são formas de relacionamento entre os seres vivos e a Natureza, baseadas em respostas automáticas. Com o advento da consciência reflexiva, evidencia-se no homem a capacidade de pensar, raciocinar, de criar, de escolher, e de tomar decisões pessoais na interação com sua circunstância. O pensamento racional, a criatividade, a reflexão representam modos específicos da ação recíproca entre o homem (consciência) e o mundo. Nesta interação, juntamente com  a consciência reflexiva introduz-se o livre arbítrio, ensejando comportamento mais complexo e maleável do que os reflexos instintivos e os tropismos. Como participante da cadeia alimentar o homem é livre para escolher o que comer e quando.  Entre os homens e a Natureza cria-se, assim, uma interface cultural que humaniza o Mundo estabelecendo normas que disciplinam as forças instintuais e priorizam o respeito à vida. O refinamento cultural mediante o qual o homem aprimora suas virtudes específicas é um processo longo inerente a adaptações psicossociais complexas... Estamos a caminho, e o homem ainda age muitas vezes como um predador... Mas sobre este resquício atávico há de construir a humanidade. É notória a crueldade praticada nos criatórios industrializados, e nos matadouros de rezes, aves e peixes. Impõe-se ao homem desenvolver uma conduta respeitosa em relação ao abate destes animais. Cabe-lhe a obrigação de sistematizar procedimentos indolores para minorar o sofrimento no abate necessário. Parece exagero?! Não! Admitir que o respeito aos animais seja um exagero apenas comprovaria que somos insensíveis às dores da Natureza, induzidas por nossa agressividade gratuita. Hoje existe legislação específica para proteção dos seres vivos e da Natureza. Mas não basta a obediência à letra da lei, a hominização implica no comprometimento sustentado e responsável do indivíduo com a proteção à Natureza e a exaltação da vida... um sentimento que humaniza o mundo. É razoável admitir que a insensibilidade à dor e ao sofrimento dos nossos semelhantes seja um prolongamento do desrespeito que praticamos rotineiramente contra a Natureza e a vida... leviandade que acaba conduzindo à desvalorização do próprio ser humano. A indiferença e a crueldade praticadas quando o homem se coloca no topo da cadeia alimentar com poder de vida e de morte sobre as plantas e os animais inferiores acabam extrapolando para as relações humanas.
 Nas nossas existências, e no próprio contexto universal, tudo tem a ver com tudo. Sem entrar em maiores detalhes especulativos, podemos afirmar que se esta unidade estrutural não é ostensiva, é porque não percebemos todos os componentes e todos os links que amarram a estrutura da realidade universal. Por isso não vinculamos uns aos outros fatos aparentemente separados pelo tempo e pelo espaço. Portanto, ao desnaturalizar a cadeia alimentar o homem precisa expandir e refinar cada vez mais a interface cultural, para não romper o equilíbrio do ecossistema planetário e da própria humanização. O desrespeito à vida tomada como um valor em si produz deformações psicodinâmicas e sociais, respectivamente, nos processos de humanização e de socialização que ocorrem paralelamente. Esses desmandos têm um efeito bumerangue que reverte, maleficamente, sobre a própria humanidade. Comprova-o a crescente escalada do crime registrada nos repetidos anúncios de violência com que a mídia satura sua audiência. Assassinatos passionais, latrocínio, estupro, maus tratos contra a mulher, crianças e idosos, além dos crimes de colarinho branco que, afinal, redundam em violência... Sobressai ainda o consórcio de organizações criminosas com os poderes político e econômico, que acaba sendo desnaturante da própria estrutura social. Todos esses delitos são reflexos ostensivos do mau uso que o homem tem feito de sua liberdade, são consequências de escolhas viciadas feitas no passado, por falta de solidariedade...
Se analisarmos as possibilidades de sustentação da sociedade com plena realização da condição humana[1] evidenciaremos que os paradigmas a serem cultivados recaem, necessariamente, sobre a cooperação e a partilha. Mas, na contra mão desta orientação, a prática difundida, hoje em dia, da competição aética e do acúmulo de bens materiais está levando a humanidade e o Planeta a uma derrocada. Os Economistas, sobretudo os Humanistas cristãos não se cansam de fazer este alerta dramático, mas é preciso repeti-lo à exaustão objetivando cooptar os homens de boa vontade para assumirem a empreitada heroica de salvação da Humanidade.
A cooperação e a partilha são procedimentos eminentemente comunitários que fazem parte da prática solidária. Esta prática preenche a responsabilidade do homem no encaminhamento da evolução da vida antes comandada pelos determinismos que presidem as reações instintivas e os tropismos, e agora demarcada pelo exercício da liberdade criativa... Nesta nova etapa da Evolução se inserem as ações solidárias, conscientes, livres e responsáveis. Este passo gigantesco na história da Evolução propicia a exteriorização de disposições subjetivas virtuosas que se sobrepõem às tendências naturais... Nestes termos a solidariedade suaviza os conflitos sociais e une os homens, fortalecendo-os contra as antinomias da existência e resguardando o futuro da espécie. É com esta compreensão que estamos autorizados a afirmar coerentemente que, se no mundo selvagem o algoritmo da cadeia alimentar representa uma estratégia de sobrevivência, no mundo humano psicossocial e espiritual a garantia de sobrevivência repousa no exercício amplo e irrestrito da solidariedade. A esta conclusão já chegara Jesus, o Mestre dos mestres, há mais de dois mil anos, ao pregar o amor ao próximo. Quando Ele dizia “Amai-vos uns aos outros” estava alertando os homens para uma nova ordem, o algoritmo da solidariedade, garantia de sobrevivência da humanidade. É simples assim... Mas, é longa e tumultuada a caminhada para assimilar a nova ordem! É indispensável ter fé[2] no futuro do homem, para que não se rompa a corrente da Evolução.                   
Everaldo Lopes


[1] Potencialidade para o exercício da consciência e da responsabilidade
[2]“ Ter fé, não é crer no que não se vê, mas criar o que não se vê.” (M. de Unamuno)

segunda-feira, 12 de março de 2012

A sabedoria do idoso


Diz-se com certo charme que “ser velho” é um estado de espírito!!! Sob este ângulo, haveria “velhos velhos” e “velhos jovens”. Enquanto os “velhos velhos” estariam empenhados, estoicamente, em assimilar uma realidade ostensiva, problemática, indesejada mas obrigatória... os velhos moços viveriam uma fantasia otimista que não é, necessariamente, ingênua... mas, não sendo ingênua envolve certa melancolia.
É óbvio que para ser vivida sem ressentimentos ou saudade dos anos idos, a anosidade exige um bom preparo psicológico. Perder a força física e os encantos de um corpo jovem implica na reconciliação com um perfil físico “diferente”, concomitante com o redimensionamento do horizonte temporal. Aprendizado que não se alcança sem empenho, autoconhecimento e disciplina emocional. Encerrar a vida profissional, assistir à debandada dos filhos, são lances que demandam alterações de hábitos arraigados de trabalho e de convivência. Isso exige uma reformulação de rotinas longamente praticadas... Conviver com o sentimento de ser descartável, situação cujos desdobramentos variam de acordo com a condição econômica e intelectual do idoso/a, é sempre embaraçoso para os que já viveram mais de dois terços do seu ciclo biológico. Toda esta transição pode ensejar sentimentos de menos valia, ansiedade e até mesmo depressão... mas não inevitavelmente. Em tendo vivido responsável e diligentemente as etapas anteriores da vida, o idoso retém uma reserva moral que lhe garante o respeito dos seus pares e dos demais membros da coletividade. As conquistas intelectuais e afetivas alcançadas no passado dão suporte ao equilíbrio existencial. Assim, é possível viver em plenitude todas as fases do biociclo, inclusive a “velhice”. Lamentavelmente, depois de malversar as possibilidades inerentes a cada estágio da existência, muitos chegam despreparados à assim chamada terceira idade. É evidente que esta malversação não depende exclusivamente da falta de iniciativa individual, mas, também, da ineficácia organizacional da sociedade dispersa em querelas mesquinhas, egoísticas. Porém mesmo os que viveram diligente e criativamente as idades precedentes não estão imunes aos percalços impostos pelo peso dos anos.
Voltando ao enfrentamento da velhice, é admissível que a alienação ingênua das pessoas simples anule ou abrande o desconforto da auto-avaliação física desfavorável depois da quinta década de vida. Mas a lucidez crítica não tem como enfeitar a velhice, a não ser com a sabedoria dos que souberem tirar lições das experiências vividas. É muito subjetivo e duvidoso o critério utilizado pelos que dão à velhice a designação de  “melhor idade”! Não obstante, é forçoso reconhecer que sempre se pode valorizar a existência, no contexto de cada etapa da vida. Mas para evitar qualquer desassossego, é preciso assimilar o amoroso desapego à vida, e aprender a “virar cada página” da existência... conquistas difíceis que demandam equilíbrio emocional e determinação. Quando começamos a sentir a ameaça do pessimismo em relação ao futuro que míngua cada ano transcorrido, é tempo de reavaliar a própria existência e, se necessário, redirecioná-la usando toda clarividência e criatividade.
Afinal nem tudo são perdas! Ser velho implica ter vivido bastante, e superado os obstáculos inerentes às etapas anteriores da caminhada humana neste mundo. Tendo resistido aos sacrifícios e aborrecimentos, medos e insatisfações da juventude e da adultícia, o velho sente-se desobrigado de provar seja o que for a quem quer que seja. Sabe-se que esta confiança é menor quando as etapas anteriores da existência não foram vividas em plenitude. Mas é sempre possível reelaborar, com engenho e arte, sobretudo com bom senso, o luto do não vivido. Há casos em que a Psicanálise seria de inestimável ajuda... É inevitável a saudade dos bons momentos desfrutados no viço da juventude. Mas a memória destes momentos, lembrados sem a pretensão infantil de reproduzi-los, pode representar, apenas, um recreio relaxante... Enfim, cotejando a saudade da vida, com a vantagem de haver superado os percalços da juventude e da adultidade, há um “empate técnico”. Nesta perspectiva, portanto, sem preconceitos, não há como justificar uma preferência... a exaltação otimista da juventude, ou as limitações e virtudes  dos últimos quiquênios da vida... Todavia, mantida a lucidez crítica, convenhamos em que ser velho implica, sempre, ter que lidar com limites físicos sobretudo, uma sentença irrecorrível. Pior quando o velho lúcido não consegue livrar-se da revolta de haver perdido a juventude. Pode-se até associar esta rebelião à imaturidade psíquica afetiva que martiriza muitos idosos! De fato, a incapacidade de aceitar a realidade, objetivamente, é uma deficiência do caráter, mas isto não nega a dificuldade real implícita em viver a transição para a velhice, torna-a, até, mais evidente...
 A sabedoria alcançada pelo idoso pode conferir-lhe certa tranquilidade em razão do domínio da “arte de conviver”[1]. Este conhecimento assegura-lhe autoconfiança, mas, obviamente, não suprime os problemas inerentes à superação das diferenças interpessoais, mais arraigadas entre idosos.
Não obstante todas as restrições, quando lúcido e bem resolvido o ancião esclarecido constitui-se ainda num esteio para a sociedade. Ele já tem mais controle sobre a tirania dos sentidos e das emoções e, assim, tem mais condições de fazer escolhas e de tomar decisões equânimes. Ele sabe quanto é difícil cortar o fio intangível que o mantém atado à escravidão dissimulada dos sentidos conquanto, nesta quadra da vida já estejam perdendo a acuidade... Numa leitura objetiva evolucionária depreende-se que a realização plena da condição humana vincula-se à “espiritualização” progressiva dos sentidos e não à anulação da experiência senciente. Não se trata de sufocar os sentidos como se fossem a parte “podre” da interação do indivíduo com o mundo e com os outros. Esta questão já foi ventilada no texto anterior.[2] No contexto de uma cosmogonia espiritualista, a sensualidade é um desdobramento do Dinamismo Absoluto eternamente criativo, penhor da dignidade humana, da nobreza do autorrespeito que se prolonga no respeito ao outro e à Natureza... uma linha comportamental na qual se desenvolve a solidariedade comunitária pela qual se revela o amor doação. Sob sua inspiração tudo se ilumina nas relações interpessoais, não restam desvãos escuros onde a maledicência e os equívocos encontrem guarida. Tudo acontece espontaneamente, sem premeditação, reproduzindo o equilíbrio dinâmico universal. O estado de graça que todos almejamos não é mais do que a vivência deste amor despojado, de quem não pensa apenas em si, e se ocupa com o bem estar do outro. Este amor caridade é o ápice da maturidade humana, a manifestação mais conspícua da presença no homem de uma dimensão transcendental, dado que não há como atribuir o amor caridade a uma função biológica. No embalo desse ideal, é possível em qualquer idade buscar o equilíbrio pessoal nas relações intra e intersubjetivas. A sabedoria almejada está na profundeza do ser consciente. Assim a jornada em busca da realização da “imensa aspiração de ser divino”[3] corresponde a uma introspecção inteligente e humilde.
No âmbito da cosmogonia espiritualista, um Dinamismo Absoluto Eternamente Criativo (Deus) está presente em cada uma das suas criaturas desde o início e para todo o sempre... incapazes de subsistir por si mesmas é o seu próprio Criador que as sustenta, e é a Ele que retornarão... no caso do homem, depois de dar o testemunho histórico da Sua grandeza ao experimentar o “supremo prazer de ser humano.”[4]
Até mesmo quando desestabilizado pela luxúria e pela insegurança existencial, o homem não perde o foco do objetivo maior de integrar uma totalidade absoluta. Não consegue imaginar sequer a grandiosidade desta plenitude, mas não desiste dela, mesmo quando rasteja nos equívocos que dela o afastam... vislumbra-A como uma visão beatífica da comunidade de todas as consciências na unidade absoluta de Deus. Humilde, mas sequioso de integração no absoluto, despedir-se-á, honrosamente, desta vida, repetindo as últimas palavras de Cristo no madeiro: “Senhor, tudo está consumado, em Tuas mãos entrego a minha alma.”
Everaldo Lopes


[1] Ver texto com este título, já  postado neste blog.
[2] Sublimação da libido
[3] Ver a citação de Raul de Leoni no final do texto anterior.
[4] Idem

domingo, 4 de março de 2012

Sublimação da libido


 
As manifestações do amor humano envolvem peculiaridades culturais relacionadas aos grupos etários, ao nível de maturidade das pessoas envolvidas e suas idiossincrasias. O envelhecimento não anula o desejo, mas o seu deleite é inversamente proporcional às limitações físicas e funcionais que se vão instalando aos poucos com o passar dos anos.  A avaliação pessimista que os idosos fazem sobre a própria performance enseja certa ansiedade. É de esperar que o registro de expectativa desfavorável implique em prejuízo da autoestima dos que assimilam mal os sinetes da idade... e estes são uma maioria expressiva.  Não se pode minimizar este aspecto psicológico quando da auto reeducação do idoso no processo do seu amadurecimento pessoal. Na verdade, para superar as dificuldades inerentes ao envelhecimento o idoso terá que enfrentar a realidade de forma objetiva e inteligente. E isto requer autoconhecimento, flexibilidade afetiva e criatividade, além de muita determinação. Importa muito neste processo, o ambiente social no qual o indivíduo interage.
A experiência do homem maduro, crítico, adverte-o da fugacidade do prazer, e torna-o consciente do vazio existencial inerente ao período refratário[1] do ciclo sexual. Em função disso o homem adulto cioso de suas características psicobiológicas torna-se mais exigente na escolha da/o parceira/o libidinal. Consciente de que a sensualidade despertada pelo objeto do desejo esgota-se na intimidade física, sabe que para manter vivo o interesse pela/o parceira/o, a participação afetiva e terna é essencial. Compreende que para a satisfação plena da libido é imperiosa a coexistência de um sentimento mais profundo do que o de posse, relacionado ao desejo primário. O primarismo atávico alimenta a libido, e a interferência do sentimento terno purifica-o, contribuindo para a sublimação[2] da pulsão sensual. Aliás, as pessoas ciosas da dignidade humana sentem-se incompletas ao participar de uma experiência erótica sem a extensão afetiva indispensável aos contornos do amor humano. Não obstante esta perspectiva, o “nu” anônimo continua a despertar o desejo e as fantasias de intimidades eróticas entre pessoas supostamente amadurecidas. O que demonstra a força da libido originária, difícil de disciplinar, que alimenta a curiosidade erótica, e sugere a luta que cada um empreende na intimidade subjetiva para mantê-la submissa aos cânones culturais vigentes.  
O convite recíproco dos amantes, espontâneo, livre, que inclui potencialidades espirituais caracteriza a relação erótica adulta, amadurecida. Neste contexto a sensualidade é uma força construtiva da dignidade humana quando aplicada nos limites do auto-respeito que se prolonga no respeito ao outro e à Natureza. A libido é o nutriente afetivo arquetípico da espiritualidade encarnada do ser humano. A sensualidade e a espiritualidade não são excludentes. Na prática existencial equilibrada, a primeira é a energia que sustenta a segunda, e esta é o crisol no qual a sensualidade se purifica. Mas na medida em que os anos passam nada é tão fácil, nesta área. A maturidade psíquica e afetiva autoconfiante do homem está sempre aquém do ideal.  Daí porque a auto avaliação estética desfavorável do idoso cria-lhe um estorvo subjetivo ao encontro erótico ainda possível... Ao vivenciar sua incapacidade de seduzir com a própria imagem desfigurada, prudentemente resiste em expor-se ao risco de ser rejeitado numa abordagem eventual... Imaturidade? Incapacidade de assimilar naturalmente o perfil idoso?  Na verdade isso não é fácil para ninguém... é difícil imaginar um padrão estético para o contato sensual de corpos senis.  Tudo se passa como se do ponto de vista estético, o desejo sensual e seu objeto fossem sempre jovens. Na linguagem erótica, a atração entre corpos juvenis e belos é que é natural e promissora... já a aproximação de corpos envelhecidos não deixa margem a uma expectativa exuberante.O/a idoso/a lúcido/a, (vaidoso/a?) identifica no seu desfiguramento físico um obstáculo ao estímulo erótico da/o parceira/o. Todavia, cremos ser possível uma experiência satisfatória entre idosos... mas com uma condição: num contexto em que o envelhecimento do casal, excepcionalmente, decorresse numa convivência amorosa e cúmplice ao longo de muitos anos. Não seria desprezível, portanto, entre os amantes que, unidos emocionalmente, envelheceram juntos. Mas, fora deste detalhe favorável, o desejo erótico que irrompe na alma do/a idoso/a torna-se torturante. Por que na dinâmica deste desejo o alvo mais visado é sempre um corpo jovem, como tal, desejável, porém inalcançável pelo/a idoso/a. Pode parecer exagero, mas no fundo a realidade é esta. É difícil imaginar como um corpo senil possa satisfazer o componente estético do desejo erótico... a não ser, como dissemos antes, que uma relação intersubjetiva profunda construída ao longo de muitos anos de convivência feliz intervenha na dinâmica sensual. Situação que corresponde aos casos excepcionais de almas gêmeas. Fora deste contexto, não é natural que se espere estímulo libidinoso da visão de um corpo marcado pelo tempo. Poder-se-ia até, senso lato, considerar uma violência a imposição a um/a jovem do contato de um corpo idoso em busca de satisfazer a própria libido. Por tudo isso, melhor seria que o desejo envelhecesse também. Sem drama, seria menos problemático envelhecer! Mas é temível que a supressão da libido acabe por arrastar na sua derrocada o próprio desejo de viver, tornando a anosidade uma excrescência existencial insuportável. Quiçá, induzindo a precipitação da morte da criatividade, reduzindo o/a idoso/a, analogicamente, à condição de uma nau à deriva, de velas arriadas, em completa escuridão. Matar a libido no idoso por motivos estéticos e éticos seria como “jogar fora a criança junto com a água do banho”. Portanto é preciso não negar a libido, porém sublimá-la. Encarando-a no seu sentido mais amplo, ela é o substrato atávico do “instinto de vida”, suporte da sublimação e até da própria espiritualidade necessária para dar sustentação à experiência mística. Sublimar no sentido psicanalítico é a solução mais sábia... equivale a redirecionar a energia da libido para os valores humanísticos espirituais, inspirando a criação artística, e a solidariedade traduzida em gestos e obras comunitárias... finalmente, transcendendo-se na vivência mística consubstanciada na apoteose de todas as consciências integradas na unidade absoluta de Deus. Nisto afinal se resumiria a sublimação total da libido, justificando Raul de Leoni em “Ode a um Poeta Morto”, quando diz, falando ao homem: “Que o sentido da vida e o seu arcano / é a imensa aspiração de ser divino, / no supremo prazer de ser humano!” 
Everaldo Lopes


[1] Período que sucede o orgasmo, de total ausência de resposta sexual a qualquer estímulo físico.
[2] Processo inconsciente que consiste em desviar a energia da libido (q. v.) para novos objetos, de caráter útil. 

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Dependência


Na medida em que progride a inversão da pirâmide etária, mais evidentes se tornam os problemas inerentes à convivência entre as gerações. Dividindo o mesmo espaço geográfico e social, as novas gerações convivem com um número cada vez maior de idosos. Estes esperam dos filhos e netos um tratamento atencioso, e seus descendentes dispõem de cada vez menos tempo para um convívio mais íntimo... As mudanças aceleradas de hábitos e saberes impostos pela revolução tecnológica os distanciam mais rapidamente do que no passado. Enquanto os jovens absorvem as novidades com rapidez, os idosos resistem... Paralelamente se instala uma frente de conflito caracterizada de um lado pelo desejo dos idosos de aproximação maior com os descendentes, e do outro, pelos interesses destes que os levam em outra direção, embora dediquem afeto aos vovôs. Os anciões argumentam que são credores do cuidado que dispensaram aos seus descendentes enquanto recém-nascidos, crianças e adolescentes. Os que participam desta reivindicação, aparentemente justa não se dão conta de um detalhe.  Tratando-se de crianças e jovens, pais e educadores prevêem conquistas e têm expectativas alvissareiras para o seu investimento e envolvimento atuais... Ao contrário, os cuidadores de idosos carentes convivem, inevitavelmente, com perdas dolorosas e com o espectro da morte do ente querido. Deles exige-se, portanto, um esforço adicional de elaboração da própria fragilidade diante do destino comum.
Os problemas suscitados pela relação entre as gerações merecem um olhar crítico, pois facilmente assumem um caráter piegas ou dramático. Envolvem interesses e necessidades das partes envolvidas, que precisam ser analisados com isenção emocional... Devem ser avaliados objetivamente a fim de evitar atitudes passionais. Os conflitos inerentes envolvem problemas afetivos, econômicos, sociais e educacionais, e seu enfrentamento depende do nível de auto-confiança e maturidade  das pessoas envolvidas. Uma abordagem superficial ensejaria erros grosseiros de avaliação...  
Do ponto de vista prático, não se discutem os cuidados básicos (alimentação, abrigo e proteção) com o recém nato e com as crianças... Estas atenções são inquestionáveis. Com variações mínimas, culturas diferentes nos quatro quadrantes da Terra colocam a responsabilidade desses cuidados sobre os ombros dos pais biológicos. O que à primeira vista parece razoável, uma vez que o filho foi gerado por iniciativa do casal, e a própria condição biológica da procriação gera laços fortes entre pais e filhos. Este contato inicial se prolonga num contexto educacional, durante a adolescência e a profissionalização, até que os jovens tenham condições de assumir as próprias vidas. Compete aos pais e ao Estado o apoio moral e material proporcionado aos jovens até sua plena maturidade psicossocial e preparo para o exercício de uma profissão. Com o passar dos anos aumenta a autonomia do filho e decresce a influência parental. Desta forma, a longo prazo, os pais podem se tornar dependentes intelectual e financeiramente dos filhos... Mas esta relação de dependência tem aspectos emocionais, sociais e existenciais específicos. O idoso desperta sentimento de aproximação diferente do que é suscitado por uma criança. A carência é a mesma, porém o contexto é diferente. Quando o idoso precisa de cuidados especiais dos filhos estes já estão sobrecarregados, comprometidos moral e materialmente com mulher e filhos, sua nova família. Este novo compromisso corresponde a obrigações inadiáveis do casal, reduzindo o tempo e recursos que gostariam de dedicar aos pais. Dificuldade que passou a configurar-se de forma ostensiva depois da transformação da família extensa (sucedânea da patriarcal), na família nuclear (dita departamental). A grande família que reunia duas e até três gerações ficou reduzida ao casal e seus filhos. No primeiro caso os idosos e as crianças faziam parte de um complexo no qual todos se ajudavam mutuamente, dividindo o mesmo espaço físico e a renda familiar. No segundo caso separaram-se os casais com seus filhos que passaram a ocupar espaços diferentes, assumindo os grupos nucleares, isoladamente, suas próprias responsabilidades. Em face desta nova configuração familiar surgiu o problema do suporte assistencial para os idosos que perderam a autonomia econômica e social de suas próprias existências e já não se enquadram funcionalmente em qualquer dos grupos desmembrados. As soluções praticadas comumente se resumem à “adoção” do idoso por um dos filhos ou a sua manutenção em casa ou apartamento só a ele destinado, sob a guarda de um cuidador remunerado.  Dependendo do status econômico, as despesas com duas “casas” podem criar ônus financeiro insuportável... Na maioria das vezes este é o caso... E a insolvabilidade financeira cria situações dramáticas para o filho que não dispõe dos recursos exigidos e para o idoso incapaz de administrar sua própria vida. Configuram-se, então, situações cruéis para os idosos que se sentem um fardo para os descendentes, e para estes que passam a ser tidos, eventualmente, como faltosos em relação ao cuidado com seus pais... Todos conhecemos os efeitos dissolventes deste conflito que se prolonga em dilemas inquietantes.
O exame desapaixonado da questão mostra a íntima relação dessas dificuldades com a organização social e por consequência com o modo como o Estado burocrático encara o problema. Afinal, do ponto de vista evolutivo a procriação objetiva a sobrevivência da espécie. O amor dos pais aos filhos e vice-versa é uma intercorrência virtuosa e desejável, porém, por mais amor que os pais dediquem ao seu rebento, este está predestinado a servir à sociedade e à espécie. Portanto, teoricamente o Estado responsável pela harmonia da vida coletiva deveria assumir a maior cota de responsabilidade nos cuidados com as frações inativas da sociedade. Utopicamente, os Poderes constituídos deveriam chamar a si a responsabilidade financeira e pedagógica em relação aos cuidados com os recém nascidos, crianças e adolescentes até a completa formação intelectual e profissional... Da mesma forma que o Estado deveria dar cobertura assistencial aos idosos que já não podem mais arcar materialmente com a própria manutenção, mas, contribuíram durante toda vida para a sustentação do aparelho administrativo da sociedade. A assistência aos idosos não pode se restringir a ações pontuais generosas de pessoas físicas (familiares ou filantropos), ou instituições (ONGs e iniciativas paroquiais). Obviamente, a ação do Estado não suprime o zelo dos familiares expresso em gestos solidários e carinhosos, mas deve ser suficiente para evitar o desamparo de infantes, adolescentes e de idosos carentes. Esta orientação pressupõe, num Estado democrático, atuação inteligente, íntegra e efetiva do Legislativo, do Executivo e do Judiciário. O problema se agrava pela prática democrática cínica, lamentavelmente, instalada no âmbito de uma economia de mercado que privilegia a competição (não raro aética), e o acúmulo de bens materiais nas mãos de uns poucos privilegiados, exploradores, direta ou indiretamente, de uma grande massa de excluídos envolvendo até crianças e adolescentes. Por conta da corrupção e da falta do rigor vigilante sobre a execução de programas educacionais e previdenciais específicos, malversam-se os recursos alocados para financiar uma política efetiva educacional, e de amparo aos idosos. Dessa forma, muitos “excluídos” (crianças, adolescentes e idosos) passam a depender da cooperação solidária dos espíritos sensíveis movidos por sentimentos caridosos. Estas considerações levam à necessidade de reavaliar o sistema econômico vigente, e fomentar uma conversão das pessoas aos comportamentos cidadãos que representam, em nível social, a concretização da cooperação e da partilha como fundamento das relações produtivas comerciais e industriais.
Considerando a amplitude da problemática exposta, já não se pode enquadrá-la como uma questão ética restrita à família. Abrange, necessariamente, a sociedade como um todo, capitaneada pela máquina burocrática do Estado. A solução destas questões demanda não apenas ajustes formais do comportamento das pessoas, porém uma conversão íntima dos homens à prática responsável da verdade e da solidariedade em todas as suas atividades coletivas, como a única forma de salvar a humanidade de uma derrocada que se anuncia, já, através de muitos sinais perceptíveis.
No momento histórico que vivemos a corrupção na máquina utilizada por políticos inescrupulosos em benefício próprio, e o grande número de excluídos da riqueza das Nações enseja situações em que se revela o desamparo ostensivo de infantes, adolescentes e idosos que não contam com a assistência dos familiares também carentes de recursos financeiros. Situações muitas vezes caracterizadas por dramas familiares incontornáveis.
O comportamento solidário identifica-se com a cidadania... Já não é apenas uma virtude opcional, mas condição “sine qua non” de sobrevivência da própria humanidade.
Everaldo Lopes