segunda-feira, 12 de março de 2012

A sabedoria do idoso


Diz-se com certo charme que “ser velho” é um estado de espírito!!! Sob este ângulo, haveria “velhos velhos” e “velhos jovens”. Enquanto os “velhos velhos” estariam empenhados, estoicamente, em assimilar uma realidade ostensiva, problemática, indesejada mas obrigatória... os velhos moços viveriam uma fantasia otimista que não é, necessariamente, ingênua... mas, não sendo ingênua envolve certa melancolia.
É óbvio que para ser vivida sem ressentimentos ou saudade dos anos idos, a anosidade exige um bom preparo psicológico. Perder a força física e os encantos de um corpo jovem implica na reconciliação com um perfil físico “diferente”, concomitante com o redimensionamento do horizonte temporal. Aprendizado que não se alcança sem empenho, autoconhecimento e disciplina emocional. Encerrar a vida profissional, assistir à debandada dos filhos, são lances que demandam alterações de hábitos arraigados de trabalho e de convivência. Isso exige uma reformulação de rotinas longamente praticadas... Conviver com o sentimento de ser descartável, situação cujos desdobramentos variam de acordo com a condição econômica e intelectual do idoso/a, é sempre embaraçoso para os que já viveram mais de dois terços do seu ciclo biológico. Toda esta transição pode ensejar sentimentos de menos valia, ansiedade e até mesmo depressão... mas não inevitavelmente. Em tendo vivido responsável e diligentemente as etapas anteriores da vida, o idoso retém uma reserva moral que lhe garante o respeito dos seus pares e dos demais membros da coletividade. As conquistas intelectuais e afetivas alcançadas no passado dão suporte ao equilíbrio existencial. Assim, é possível viver em plenitude todas as fases do biociclo, inclusive a “velhice”. Lamentavelmente, depois de malversar as possibilidades inerentes a cada estágio da existência, muitos chegam despreparados à assim chamada terceira idade. É evidente que esta malversação não depende exclusivamente da falta de iniciativa individual, mas, também, da ineficácia organizacional da sociedade dispersa em querelas mesquinhas, egoísticas. Porém mesmo os que viveram diligente e criativamente as idades precedentes não estão imunes aos percalços impostos pelo peso dos anos.
Voltando ao enfrentamento da velhice, é admissível que a alienação ingênua das pessoas simples anule ou abrande o desconforto da auto-avaliação física desfavorável depois da quinta década de vida. Mas a lucidez crítica não tem como enfeitar a velhice, a não ser com a sabedoria dos que souberem tirar lições das experiências vividas. É muito subjetivo e duvidoso o critério utilizado pelos que dão à velhice a designação de  “melhor idade”! Não obstante, é forçoso reconhecer que sempre se pode valorizar a existência, no contexto de cada etapa da vida. Mas para evitar qualquer desassossego, é preciso assimilar o amoroso desapego à vida, e aprender a “virar cada página” da existência... conquistas difíceis que demandam equilíbrio emocional e determinação. Quando começamos a sentir a ameaça do pessimismo em relação ao futuro que míngua cada ano transcorrido, é tempo de reavaliar a própria existência e, se necessário, redirecioná-la usando toda clarividência e criatividade.
Afinal nem tudo são perdas! Ser velho implica ter vivido bastante, e superado os obstáculos inerentes às etapas anteriores da caminhada humana neste mundo. Tendo resistido aos sacrifícios e aborrecimentos, medos e insatisfações da juventude e da adultícia, o velho sente-se desobrigado de provar seja o que for a quem quer que seja. Sabe-se que esta confiança é menor quando as etapas anteriores da existência não foram vividas em plenitude. Mas é sempre possível reelaborar, com engenho e arte, sobretudo com bom senso, o luto do não vivido. Há casos em que a Psicanálise seria de inestimável ajuda... É inevitável a saudade dos bons momentos desfrutados no viço da juventude. Mas a memória destes momentos, lembrados sem a pretensão infantil de reproduzi-los, pode representar, apenas, um recreio relaxante... Enfim, cotejando a saudade da vida, com a vantagem de haver superado os percalços da juventude e da adultidade, há um “empate técnico”. Nesta perspectiva, portanto, sem preconceitos, não há como justificar uma preferência... a exaltação otimista da juventude, ou as limitações e virtudes  dos últimos quiquênios da vida... Todavia, mantida a lucidez crítica, convenhamos em que ser velho implica, sempre, ter que lidar com limites físicos sobretudo, uma sentença irrecorrível. Pior quando o velho lúcido não consegue livrar-se da revolta de haver perdido a juventude. Pode-se até associar esta rebelião à imaturidade psíquica afetiva que martiriza muitos idosos! De fato, a incapacidade de aceitar a realidade, objetivamente, é uma deficiência do caráter, mas isto não nega a dificuldade real implícita em viver a transição para a velhice, torna-a, até, mais evidente...
 A sabedoria alcançada pelo idoso pode conferir-lhe certa tranquilidade em razão do domínio da “arte de conviver”[1]. Este conhecimento assegura-lhe autoconfiança, mas, obviamente, não suprime os problemas inerentes à superação das diferenças interpessoais, mais arraigadas entre idosos.
Não obstante todas as restrições, quando lúcido e bem resolvido o ancião esclarecido constitui-se ainda num esteio para a sociedade. Ele já tem mais controle sobre a tirania dos sentidos e das emoções e, assim, tem mais condições de fazer escolhas e de tomar decisões equânimes. Ele sabe quanto é difícil cortar o fio intangível que o mantém atado à escravidão dissimulada dos sentidos conquanto, nesta quadra da vida já estejam perdendo a acuidade... Numa leitura objetiva evolucionária depreende-se que a realização plena da condição humana vincula-se à “espiritualização” progressiva dos sentidos e não à anulação da experiência senciente. Não se trata de sufocar os sentidos como se fossem a parte “podre” da interação do indivíduo com o mundo e com os outros. Esta questão já foi ventilada no texto anterior.[2] No contexto de uma cosmogonia espiritualista, a sensualidade é um desdobramento do Dinamismo Absoluto eternamente criativo, penhor da dignidade humana, da nobreza do autorrespeito que se prolonga no respeito ao outro e à Natureza... uma linha comportamental na qual se desenvolve a solidariedade comunitária pela qual se revela o amor doação. Sob sua inspiração tudo se ilumina nas relações interpessoais, não restam desvãos escuros onde a maledicência e os equívocos encontrem guarida. Tudo acontece espontaneamente, sem premeditação, reproduzindo o equilíbrio dinâmico universal. O estado de graça que todos almejamos não é mais do que a vivência deste amor despojado, de quem não pensa apenas em si, e se ocupa com o bem estar do outro. Este amor caridade é o ápice da maturidade humana, a manifestação mais conspícua da presença no homem de uma dimensão transcendental, dado que não há como atribuir o amor caridade a uma função biológica. No embalo desse ideal, é possível em qualquer idade buscar o equilíbrio pessoal nas relações intra e intersubjetivas. A sabedoria almejada está na profundeza do ser consciente. Assim a jornada em busca da realização da “imensa aspiração de ser divino”[3] corresponde a uma introspecção inteligente e humilde.
No âmbito da cosmogonia espiritualista, um Dinamismo Absoluto Eternamente Criativo (Deus) está presente em cada uma das suas criaturas desde o início e para todo o sempre... incapazes de subsistir por si mesmas é o seu próprio Criador que as sustenta, e é a Ele que retornarão... no caso do homem, depois de dar o testemunho histórico da Sua grandeza ao experimentar o “supremo prazer de ser humano.”[4]
Até mesmo quando desestabilizado pela luxúria e pela insegurança existencial, o homem não perde o foco do objetivo maior de integrar uma totalidade absoluta. Não consegue imaginar sequer a grandiosidade desta plenitude, mas não desiste dela, mesmo quando rasteja nos equívocos que dela o afastam... vislumbra-A como uma visão beatífica da comunidade de todas as consciências na unidade absoluta de Deus. Humilde, mas sequioso de integração no absoluto, despedir-se-á, honrosamente, desta vida, repetindo as últimas palavras de Cristo no madeiro: “Senhor, tudo está consumado, em Tuas mãos entrego a minha alma.”
Everaldo Lopes


[1] Ver texto com este título, já  postado neste blog.
[2] Sublimação da libido
[3] Ver a citação de Raul de Leoni no final do texto anterior.
[4] Idem

domingo, 4 de março de 2012

Sublimação da libido


 
As manifestações do amor humano envolvem peculiaridades culturais relacionadas aos grupos etários, ao nível de maturidade das pessoas envolvidas e suas idiossincrasias. O envelhecimento não anula o desejo, mas o seu deleite é inversamente proporcional às limitações físicas e funcionais que se vão instalando aos poucos com o passar dos anos.  A avaliação pessimista que os idosos fazem sobre a própria performance enseja certa ansiedade. É de esperar que o registro de expectativa desfavorável implique em prejuízo da autoestima dos que assimilam mal os sinetes da idade... e estes são uma maioria expressiva.  Não se pode minimizar este aspecto psicológico quando da auto reeducação do idoso no processo do seu amadurecimento pessoal. Na verdade, para superar as dificuldades inerentes ao envelhecimento o idoso terá que enfrentar a realidade de forma objetiva e inteligente. E isto requer autoconhecimento, flexibilidade afetiva e criatividade, além de muita determinação. Importa muito neste processo, o ambiente social no qual o indivíduo interage.
A experiência do homem maduro, crítico, adverte-o da fugacidade do prazer, e torna-o consciente do vazio existencial inerente ao período refratário[1] do ciclo sexual. Em função disso o homem adulto cioso de suas características psicobiológicas torna-se mais exigente na escolha da/o parceira/o libidinal. Consciente de que a sensualidade despertada pelo objeto do desejo esgota-se na intimidade física, sabe que para manter vivo o interesse pela/o parceira/o, a participação afetiva e terna é essencial. Compreende que para a satisfação plena da libido é imperiosa a coexistência de um sentimento mais profundo do que o de posse, relacionado ao desejo primário. O primarismo atávico alimenta a libido, e a interferência do sentimento terno purifica-o, contribuindo para a sublimação[2] da pulsão sensual. Aliás, as pessoas ciosas da dignidade humana sentem-se incompletas ao participar de uma experiência erótica sem a extensão afetiva indispensável aos contornos do amor humano. Não obstante esta perspectiva, o “nu” anônimo continua a despertar o desejo e as fantasias de intimidades eróticas entre pessoas supostamente amadurecidas. O que demonstra a força da libido originária, difícil de disciplinar, que alimenta a curiosidade erótica, e sugere a luta que cada um empreende na intimidade subjetiva para mantê-la submissa aos cânones culturais vigentes.  
O convite recíproco dos amantes, espontâneo, livre, que inclui potencialidades espirituais caracteriza a relação erótica adulta, amadurecida. Neste contexto a sensualidade é uma força construtiva da dignidade humana quando aplicada nos limites do auto-respeito que se prolonga no respeito ao outro e à Natureza. A libido é o nutriente afetivo arquetípico da espiritualidade encarnada do ser humano. A sensualidade e a espiritualidade não são excludentes. Na prática existencial equilibrada, a primeira é a energia que sustenta a segunda, e esta é o crisol no qual a sensualidade se purifica. Mas na medida em que os anos passam nada é tão fácil, nesta área. A maturidade psíquica e afetiva autoconfiante do homem está sempre aquém do ideal.  Daí porque a auto avaliação estética desfavorável do idoso cria-lhe um estorvo subjetivo ao encontro erótico ainda possível... Ao vivenciar sua incapacidade de seduzir com a própria imagem desfigurada, prudentemente resiste em expor-se ao risco de ser rejeitado numa abordagem eventual... Imaturidade? Incapacidade de assimilar naturalmente o perfil idoso?  Na verdade isso não é fácil para ninguém... é difícil imaginar um padrão estético para o contato sensual de corpos senis.  Tudo se passa como se do ponto de vista estético, o desejo sensual e seu objeto fossem sempre jovens. Na linguagem erótica, a atração entre corpos juvenis e belos é que é natural e promissora... já a aproximação de corpos envelhecidos não deixa margem a uma expectativa exuberante.O/a idoso/a lúcido/a, (vaidoso/a?) identifica no seu desfiguramento físico um obstáculo ao estímulo erótico da/o parceira/o. Todavia, cremos ser possível uma experiência satisfatória entre idosos... mas com uma condição: num contexto em que o envelhecimento do casal, excepcionalmente, decorresse numa convivência amorosa e cúmplice ao longo de muitos anos. Não seria desprezível, portanto, entre os amantes que, unidos emocionalmente, envelheceram juntos. Mas, fora deste detalhe favorável, o desejo erótico que irrompe na alma do/a idoso/a torna-se torturante. Por que na dinâmica deste desejo o alvo mais visado é sempre um corpo jovem, como tal, desejável, porém inalcançável pelo/a idoso/a. Pode parecer exagero, mas no fundo a realidade é esta. É difícil imaginar como um corpo senil possa satisfazer o componente estético do desejo erótico... a não ser, como dissemos antes, que uma relação intersubjetiva profunda construída ao longo de muitos anos de convivência feliz intervenha na dinâmica sensual. Situação que corresponde aos casos excepcionais de almas gêmeas. Fora deste contexto, não é natural que se espere estímulo libidinoso da visão de um corpo marcado pelo tempo. Poder-se-ia até, senso lato, considerar uma violência a imposição a um/a jovem do contato de um corpo idoso em busca de satisfazer a própria libido. Por tudo isso, melhor seria que o desejo envelhecesse também. Sem drama, seria menos problemático envelhecer! Mas é temível que a supressão da libido acabe por arrastar na sua derrocada o próprio desejo de viver, tornando a anosidade uma excrescência existencial insuportável. Quiçá, induzindo a precipitação da morte da criatividade, reduzindo o/a idoso/a, analogicamente, à condição de uma nau à deriva, de velas arriadas, em completa escuridão. Matar a libido no idoso por motivos estéticos e éticos seria como “jogar fora a criança junto com a água do banho”. Portanto é preciso não negar a libido, porém sublimá-la. Encarando-a no seu sentido mais amplo, ela é o substrato atávico do “instinto de vida”, suporte da sublimação e até da própria espiritualidade necessária para dar sustentação à experiência mística. Sublimar no sentido psicanalítico é a solução mais sábia... equivale a redirecionar a energia da libido para os valores humanísticos espirituais, inspirando a criação artística, e a solidariedade traduzida em gestos e obras comunitárias... finalmente, transcendendo-se na vivência mística consubstanciada na apoteose de todas as consciências integradas na unidade absoluta de Deus. Nisto afinal se resumiria a sublimação total da libido, justificando Raul de Leoni em “Ode a um Poeta Morto”, quando diz, falando ao homem: “Que o sentido da vida e o seu arcano / é a imensa aspiração de ser divino, / no supremo prazer de ser humano!” 
Everaldo Lopes


[1] Período que sucede o orgasmo, de total ausência de resposta sexual a qualquer estímulo físico.
[2] Processo inconsciente que consiste em desviar a energia da libido (q. v.) para novos objetos, de caráter útil. 

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Dependência


Na medida em que progride a inversão da pirâmide etária, mais evidentes se tornam os problemas inerentes à convivência entre as gerações. Dividindo o mesmo espaço geográfico e social, as novas gerações convivem com um número cada vez maior de idosos. Estes esperam dos filhos e netos um tratamento atencioso, e seus descendentes dispõem de cada vez menos tempo para um convívio mais íntimo... As mudanças aceleradas de hábitos e saberes impostos pela revolução tecnológica os distanciam mais rapidamente do que no passado. Enquanto os jovens absorvem as novidades com rapidez, os idosos resistem... Paralelamente se instala uma frente de conflito caracterizada de um lado pelo desejo dos idosos de aproximação maior com os descendentes, e do outro, pelos interesses destes que os levam em outra direção, embora dediquem afeto aos vovôs. Os anciões argumentam que são credores do cuidado que dispensaram aos seus descendentes enquanto recém-nascidos, crianças e adolescentes. Os que participam desta reivindicação, aparentemente justa não se dão conta de um detalhe.  Tratando-se de crianças e jovens, pais e educadores prevêem conquistas e têm expectativas alvissareiras para o seu investimento e envolvimento atuais... Ao contrário, os cuidadores de idosos carentes convivem, inevitavelmente, com perdas dolorosas e com o espectro da morte do ente querido. Deles exige-se, portanto, um esforço adicional de elaboração da própria fragilidade diante do destino comum.
Os problemas suscitados pela relação entre as gerações merecem um olhar crítico, pois facilmente assumem um caráter piegas ou dramático. Envolvem interesses e necessidades das partes envolvidas, que precisam ser analisados com isenção emocional... Devem ser avaliados objetivamente a fim de evitar atitudes passionais. Os conflitos inerentes envolvem problemas afetivos, econômicos, sociais e educacionais, e seu enfrentamento depende do nível de auto-confiança e maturidade  das pessoas envolvidas. Uma abordagem superficial ensejaria erros grosseiros de avaliação...  
Do ponto de vista prático, não se discutem os cuidados básicos (alimentação, abrigo e proteção) com o recém nato e com as crianças... Estas atenções são inquestionáveis. Com variações mínimas, culturas diferentes nos quatro quadrantes da Terra colocam a responsabilidade desses cuidados sobre os ombros dos pais biológicos. O que à primeira vista parece razoável, uma vez que o filho foi gerado por iniciativa do casal, e a própria condição biológica da procriação gera laços fortes entre pais e filhos. Este contato inicial se prolonga num contexto educacional, durante a adolescência e a profissionalização, até que os jovens tenham condições de assumir as próprias vidas. Compete aos pais e ao Estado o apoio moral e material proporcionado aos jovens até sua plena maturidade psicossocial e preparo para o exercício de uma profissão. Com o passar dos anos aumenta a autonomia do filho e decresce a influência parental. Desta forma, a longo prazo, os pais podem se tornar dependentes intelectual e financeiramente dos filhos... Mas esta relação de dependência tem aspectos emocionais, sociais e existenciais específicos. O idoso desperta sentimento de aproximação diferente do que é suscitado por uma criança. A carência é a mesma, porém o contexto é diferente. Quando o idoso precisa de cuidados especiais dos filhos estes já estão sobrecarregados, comprometidos moral e materialmente com mulher e filhos, sua nova família. Este novo compromisso corresponde a obrigações inadiáveis do casal, reduzindo o tempo e recursos que gostariam de dedicar aos pais. Dificuldade que passou a configurar-se de forma ostensiva depois da transformação da família extensa (sucedânea da patriarcal), na família nuclear (dita departamental). A grande família que reunia duas e até três gerações ficou reduzida ao casal e seus filhos. No primeiro caso os idosos e as crianças faziam parte de um complexo no qual todos se ajudavam mutuamente, dividindo o mesmo espaço físico e a renda familiar. No segundo caso separaram-se os casais com seus filhos que passaram a ocupar espaços diferentes, assumindo os grupos nucleares, isoladamente, suas próprias responsabilidades. Em face desta nova configuração familiar surgiu o problema do suporte assistencial para os idosos que perderam a autonomia econômica e social de suas próprias existências e já não se enquadram funcionalmente em qualquer dos grupos desmembrados. As soluções praticadas comumente se resumem à “adoção” do idoso por um dos filhos ou a sua manutenção em casa ou apartamento só a ele destinado, sob a guarda de um cuidador remunerado.  Dependendo do status econômico, as despesas com duas “casas” podem criar ônus financeiro insuportável... Na maioria das vezes este é o caso... E a insolvabilidade financeira cria situações dramáticas para o filho que não dispõe dos recursos exigidos e para o idoso incapaz de administrar sua própria vida. Configuram-se, então, situações cruéis para os idosos que se sentem um fardo para os descendentes, e para estes que passam a ser tidos, eventualmente, como faltosos em relação ao cuidado com seus pais... Todos conhecemos os efeitos dissolventes deste conflito que se prolonga em dilemas inquietantes.
O exame desapaixonado da questão mostra a íntima relação dessas dificuldades com a organização social e por consequência com o modo como o Estado burocrático encara o problema. Afinal, do ponto de vista evolutivo a procriação objetiva a sobrevivência da espécie. O amor dos pais aos filhos e vice-versa é uma intercorrência virtuosa e desejável, porém, por mais amor que os pais dediquem ao seu rebento, este está predestinado a servir à sociedade e à espécie. Portanto, teoricamente o Estado responsável pela harmonia da vida coletiva deveria assumir a maior cota de responsabilidade nos cuidados com as frações inativas da sociedade. Utopicamente, os Poderes constituídos deveriam chamar a si a responsabilidade financeira e pedagógica em relação aos cuidados com os recém nascidos, crianças e adolescentes até a completa formação intelectual e profissional... Da mesma forma que o Estado deveria dar cobertura assistencial aos idosos que já não podem mais arcar materialmente com a própria manutenção, mas, contribuíram durante toda vida para a sustentação do aparelho administrativo da sociedade. A assistência aos idosos não pode se restringir a ações pontuais generosas de pessoas físicas (familiares ou filantropos), ou instituições (ONGs e iniciativas paroquiais). Obviamente, a ação do Estado não suprime o zelo dos familiares expresso em gestos solidários e carinhosos, mas deve ser suficiente para evitar o desamparo de infantes, adolescentes e de idosos carentes. Esta orientação pressupõe, num Estado democrático, atuação inteligente, íntegra e efetiva do Legislativo, do Executivo e do Judiciário. O problema se agrava pela prática democrática cínica, lamentavelmente, instalada no âmbito de uma economia de mercado que privilegia a competição (não raro aética), e o acúmulo de bens materiais nas mãos de uns poucos privilegiados, exploradores, direta ou indiretamente, de uma grande massa de excluídos envolvendo até crianças e adolescentes. Por conta da corrupção e da falta do rigor vigilante sobre a execução de programas educacionais e previdenciais específicos, malversam-se os recursos alocados para financiar uma política efetiva educacional, e de amparo aos idosos. Dessa forma, muitos “excluídos” (crianças, adolescentes e idosos) passam a depender da cooperação solidária dos espíritos sensíveis movidos por sentimentos caridosos. Estas considerações levam à necessidade de reavaliar o sistema econômico vigente, e fomentar uma conversão das pessoas aos comportamentos cidadãos que representam, em nível social, a concretização da cooperação e da partilha como fundamento das relações produtivas comerciais e industriais.
Considerando a amplitude da problemática exposta, já não se pode enquadrá-la como uma questão ética restrita à família. Abrange, necessariamente, a sociedade como um todo, capitaneada pela máquina burocrática do Estado. A solução destas questões demanda não apenas ajustes formais do comportamento das pessoas, porém uma conversão íntima dos homens à prática responsável da verdade e da solidariedade em todas as suas atividades coletivas, como a única forma de salvar a humanidade de uma derrocada que se anuncia, já, através de muitos sinais perceptíveis.
No momento histórico que vivemos a corrupção na máquina utilizada por políticos inescrupulosos em benefício próprio, e o grande número de excluídos da riqueza das Nações enseja situações em que se revela o desamparo ostensivo de infantes, adolescentes e idosos que não contam com a assistência dos familiares também carentes de recursos financeiros. Situações muitas vezes caracterizadas por dramas familiares incontornáveis.
O comportamento solidário identifica-se com a cidadania... Já não é apenas uma virtude opcional, mas condição “sine qua non” de sobrevivência da própria humanidade.
Everaldo Lopes

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Desafios da Terceira Idade


O ideal seria a aceitação tranquila das marcas que o tempo vai deixando no corpo com o passar dos anos. Todavia, embora muitos o neguem, é universal a rejeição psicológica primária destes sinais impressos no perfil estético e funcional do idoso. Sem drama, são raros os exemplos de indivíduos que absorvem sem relutância seu envelhecimento... estes teriam vencido, realmente, os desafios da terceira idade. É forçoso admitir que a maioria apenas convive com a idade avançada sem maldizer a própria sorte, esforçando-se para tirar proveito das conquistas alcançadas. O que já é uma resposta realista, madura, às vicissitudes que acompanham a marcha do tempo. Na verdade, o sentimento de perdas sucessivas que afetam a auto imagem é uma carga muito pesada e o dano resultante nunca é aceito sem alguma resistência. Será necessário algum domínio sobre os conflitos inerentes ao envelhecer, para fruir a alegria possível da vida em declínio. E certamente isto depende de muita criatividade e disciplina. Dessa forma, as respostas aos desafios da terceira idade são moduladas pela sensibilidade estética, pelo nível cultural, pelo QI e pelo equilíbrio emocional do idoso. Não há fórmulas feitas. Cada um terá que descobrir o seu caminho.
As probabilidades alternativas de convivência do idoso estão diretamente vinculadas a dois fatores determinantes do comportamento pessoal. O primeiro é inerente ao próprio idoso exposto à vida em grupo. Paralelamente às restrições psicofisiológicas que acompanham o envelhecimento, o idoso que conserva a capacidade crítica pode ver a si mesmo, ora através de um rigor auto depreciativo que o aflige; ora através de uma avaliação ingênua favorável a ele mesmo, mas em descompasso com a sua realidade; equívoco que quando percebido o faz sentir-se ridículo. Enfim, em geral, e particularmente na terceira idade, o modo como o indivíduo se vê influi decisivamente, no seu comportamento.  O segundo fator está ligado ao comportamento dos circunstantes com os quais o idoso se relaciona. No entardecer da vida as pessoas ficam expostas a um tratamento discriminado como alguém que merece cuidados especiais, o que afeta o brio dos que sentem dificuldade em aceitar as limitações da idade. Assim, as respostas suscitadas no idoso em suas relações sociais também são moldadas pelo juízo que os outros fazem dele.
Habitualmente, o passar dos anos torna as pessoas cada vez menos flexíveis na sua conduta, definindo-se, paulatinamente, os campos humanos sociais específicos que contextualizam grupos etários diferentes. Isto é perfeitamente natural e compreensível. Mesmo assim, moços e idosos custam a aprender a discrição e a disciplina necessárias para não invadir os espaços culturalmente definidos de uns e de outros, ensejando, então, o conflito entre as gerações. A não invasão recíproca dos redutos culturais do jovem e do idoso evita disputas infrutíferas. Todavia, muitas vezes o conflito bem administrado é necessário e pedagogicamente útil, ao criar condições de crescimento para as partes envolvidas.
Algumas situações são emblemáticas no curso do envelhecimento. Entre elas a aposentadoria.  Sendo esta um marco divisório entre a vida ativa e a inatividade profissional, é um galardão que tem o caráter de recompensa e não reflete uma mudança promocional de status. A aposentadoria nada acrescenta ao brio do aposentado, todavia é festejada por muitos jubilados na meia idade como o momento de libertação de obrigações rotineiras e uma oportunidade de melhorar a renda com nova atividade lucrativa. Uma chance, também, de fazer mudanças compatíveis com os próprios recursos materiais e espirituais. Quem começa a trabalhar cedo adquire o direito à aposentadoria muito antes de atingir a idade em que a lei a determina compulsoriamente. Nestes casos, um bom critério para dirimir dúvidas quanto ao momento de aposentar-se é a consciência de estar-se questionando sobre a ocasião oportuna de jubilar-se, pelo menos da rotina praticada até então. Quando isso acontece é que chegou a hora.  Considerando que as conquistas médicas e sanitárias ampliaram, e muito, a vida média do homem, abre-se uma estrada longa a percorrer pelo aposentado. Então, o corte ab-rupto da lide profissional, o ócio inerente, e a marginalização decorrente da participação decrescente nas atividades coletivas, tudo será motivo de luto para o aposentado que não for capaz de redirecionar sua rotina de vida.
A terceira idade é realmente uma fase de grandes mudanças e adaptações difíceis. Contraditória e até perturbadora é a sobrevivência da libido sexual não obstante os sinais evidentes do desfiguramento estético e as disfunções comuns nesta faixa etária.  Na “terceira idade” tardia é sempre dolorosa a consciência crítica do/a idoso/a de que perdeu a capacidade de seduzir com a própria imagem, e de preencher plenamente todos os requisitos de virilidade ou feminilidade, em cada caso. Esta experiência subjetiva é uma barreira contra a manifestação do desejo que a libido eventualmente acende no idoso/a. O pudor de tornar-se ridículo é o fator de interdição mais eficaz para a manifestação ostensiva da libido “extemporânea”. Obviamente há procedimentos psíquicos compensatórios, mas, salvo nos casos de sublimação mística, nenhum deles devolve plenamente a autoestima vivenciada até então. É preciso reconstruí-la sobre os valores pessoais que sobrevivem ao desgaste imposto pelo tempo.
Estas declarações feitas sem vexame denotam apenas que se envelhecer é o desejo de quem não quer morrer jovem, quando os anos passam descobre-se que é muito alto o preço a ser pago por haver tido satisfeito este desejo. Mas, não há outro jeito, a vitória sobre a morte, alcançada com júbilo nos anos da juventude implica necessariamente em envelhecer...  
Uma vez que o homem perdeu os vínculos profundos com a Natureza, a solução dos conflitos existenciais deverá ser elaborada culturalmente, inclusive os inerentes à terceira idade. Com empenho e criatividade ainda é possível preencher significativamente a existência no ocaso da vida, respaldando a autoestima e a dignidade nos valores que caracterizam a condição humana,  através do pleno exercício da consciência responsável.
Everaldo Lopes