terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Desafios da Terceira Idade


O ideal seria a aceitação tranquila das marcas que o tempo vai deixando no corpo com o passar dos anos. Todavia, embora muitos o neguem, é universal a rejeição psicológica primária destes sinais impressos no perfil estético e funcional do idoso. Sem drama, são raros os exemplos de indivíduos que absorvem sem relutância seu envelhecimento... estes teriam vencido, realmente, os desafios da terceira idade. É forçoso admitir que a maioria apenas convive com a idade avançada sem maldizer a própria sorte, esforçando-se para tirar proveito das conquistas alcançadas. O que já é uma resposta realista, madura, às vicissitudes que acompanham a marcha do tempo. Na verdade, o sentimento de perdas sucessivas que afetam a auto imagem é uma carga muito pesada e o dano resultante nunca é aceito sem alguma resistência. Será necessário algum domínio sobre os conflitos inerentes ao envelhecer, para fruir a alegria possível da vida em declínio. E certamente isto depende de muita criatividade e disciplina. Dessa forma, as respostas aos desafios da terceira idade são moduladas pela sensibilidade estética, pelo nível cultural, pelo QI e pelo equilíbrio emocional do idoso. Não há fórmulas feitas. Cada um terá que descobrir o seu caminho.
As probabilidades alternativas de convivência do idoso estão diretamente vinculadas a dois fatores determinantes do comportamento pessoal. O primeiro é inerente ao próprio idoso exposto à vida em grupo. Paralelamente às restrições psicofisiológicas que acompanham o envelhecimento, o idoso que conserva a capacidade crítica pode ver a si mesmo, ora através de um rigor auto depreciativo que o aflige; ora através de uma avaliação ingênua favorável a ele mesmo, mas em descompasso com a sua realidade; equívoco que quando percebido o faz sentir-se ridículo. Enfim, em geral, e particularmente na terceira idade, o modo como o indivíduo se vê influi decisivamente, no seu comportamento.  O segundo fator está ligado ao comportamento dos circunstantes com os quais o idoso se relaciona. No entardecer da vida as pessoas ficam expostas a um tratamento discriminado como alguém que merece cuidados especiais, o que afeta o brio dos que sentem dificuldade em aceitar as limitações da idade. Assim, as respostas suscitadas no idoso em suas relações sociais também são moldadas pelo juízo que os outros fazem dele.
Habitualmente, o passar dos anos torna as pessoas cada vez menos flexíveis na sua conduta, definindo-se, paulatinamente, os campos humanos sociais específicos que contextualizam grupos etários diferentes. Isto é perfeitamente natural e compreensível. Mesmo assim, moços e idosos custam a aprender a discrição e a disciplina necessárias para não invadir os espaços culturalmente definidos de uns e de outros, ensejando, então, o conflito entre as gerações. A não invasão recíproca dos redutos culturais do jovem e do idoso evita disputas infrutíferas. Todavia, muitas vezes o conflito bem administrado é necessário e pedagogicamente útil, ao criar condições de crescimento para as partes envolvidas.
Algumas situações são emblemáticas no curso do envelhecimento. Entre elas a aposentadoria.  Sendo esta um marco divisório entre a vida ativa e a inatividade profissional, é um galardão que tem o caráter de recompensa e não reflete uma mudança promocional de status. A aposentadoria nada acrescenta ao brio do aposentado, todavia é festejada por muitos jubilados na meia idade como o momento de libertação de obrigações rotineiras e uma oportunidade de melhorar a renda com nova atividade lucrativa. Uma chance, também, de fazer mudanças compatíveis com os próprios recursos materiais e espirituais. Quem começa a trabalhar cedo adquire o direito à aposentadoria muito antes de atingir a idade em que a lei a determina compulsoriamente. Nestes casos, um bom critério para dirimir dúvidas quanto ao momento de aposentar-se é a consciência de estar-se questionando sobre a ocasião oportuna de jubilar-se, pelo menos da rotina praticada até então. Quando isso acontece é que chegou a hora.  Considerando que as conquistas médicas e sanitárias ampliaram, e muito, a vida média do homem, abre-se uma estrada longa a percorrer pelo aposentado. Então, o corte ab-rupto da lide profissional, o ócio inerente, e a marginalização decorrente da participação decrescente nas atividades coletivas, tudo será motivo de luto para o aposentado que não for capaz de redirecionar sua rotina de vida.
A terceira idade é realmente uma fase de grandes mudanças e adaptações difíceis. Contraditória e até perturbadora é a sobrevivência da libido sexual não obstante os sinais evidentes do desfiguramento estético e as disfunções comuns nesta faixa etária.  Na “terceira idade” tardia é sempre dolorosa a consciência crítica do/a idoso/a de que perdeu a capacidade de seduzir com a própria imagem, e de preencher plenamente todos os requisitos de virilidade ou feminilidade, em cada caso. Esta experiência subjetiva é uma barreira contra a manifestação do desejo que a libido eventualmente acende no idoso/a. O pudor de tornar-se ridículo é o fator de interdição mais eficaz para a manifestação ostensiva da libido “extemporânea”. Obviamente há procedimentos psíquicos compensatórios, mas, salvo nos casos de sublimação mística, nenhum deles devolve plenamente a autoestima vivenciada até então. É preciso reconstruí-la sobre os valores pessoais que sobrevivem ao desgaste imposto pelo tempo.
Estas declarações feitas sem vexame denotam apenas que se envelhecer é o desejo de quem não quer morrer jovem, quando os anos passam descobre-se que é muito alto o preço a ser pago por haver tido satisfeito este desejo. Mas, não há outro jeito, a vitória sobre a morte, alcançada com júbilo nos anos da juventude implica necessariamente em envelhecer...  
Uma vez que o homem perdeu os vínculos profundos com a Natureza, a solução dos conflitos existenciais deverá ser elaborada culturalmente, inclusive os inerentes à terceira idade. Com empenho e criatividade ainda é possível preencher significativamente a existência no ocaso da vida, respaldando a autoestima e a dignidade nos valores que caracterizam a condição humana,  através do pleno exercício da consciência responsável.
Everaldo Lopes

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Ciência e Fé


Para construir sua existência o homem necessita dispor de valores[1] que não são dados pela Natureza. Eles são elaborados culturalmente, e se nutrem com o assentimento das pessoas. Numa sociedade antropocêntrica a legitimidade destes valores pode ser aferida pela utilização construtiva dos mesmos no vir a ser de todos os homens. Com este fundamento os valores humanos prescindem de um suporte metafísico. Eles nascem com a tese inscrita no ideal humanístico que objetiva a construção da comunidade humana universal.  O que não invalida os valores canônicos, até porque muitos destes preceitos de Direito Eclesiástico coincidem com a proposta humanística integral[2]. Mas a base laica da sociedade humana é a ética racional... enquanto num contexto religioso o que consagra a legitimidade do “valor” ético é uma autoridade incontestável, transcendental - Deus... um absoluto fora do alcance da razão temporal e, portanto, objeto de fé. De uma forma ou de outra, porém, é o indivíduo que assume inteira responsabilidade ao conferir poder determinante sobre seu comportamento, aos valores que adota como paradigmas éticos.
As regras de conduta se constituem, portanto, numa elaboração cultural de caráter laico ou religioso, inerente ao exercício da consciência responsável. Estas regras se estruturam sobre uma base racional ou a partir de uma crença; distinção que faz toda diferença entre a ética humanística e a ética religiosa ou canônica. É oportuno lembrar a dificuldade de conciliar a verdade racional e a verdade de fé. Sendo a verdade de fé tutelada por um absoluto sobre o qual nada se pode afirmar ou negar do ponto de vista estritamente racional, é comum certa resistência racionalista à assimilação de uma proposta mística. Ocorre que a fé é um dom que não se impõe, podendo o homem apenas cultivá-lo uma vez que todos somos dotados de predisposição à crença.  E quando a fé não é profunda, e a Ciência é incipiente incomoda a distância assinalada entre o fundamento laico e o fundamento místico do valor que dá suporte às regras de comportamento. No fundo, inclino-me a pensar que a razão e a fé são complementares na abordagem gnosiológica da realidade “toda”... alguém já as comparou aos dois olhos da alma[3].
A outorga pelo homem a si mesmo do poder de legislar em causa própria seria pretensiosa, se não fosse a autoridade que lhe é conferida pela condição humana entendida como consciência livre e responsável. Senão vejamos. A consciência reflexiva implica num distanciamento subjetivo entre a percepção da realidade e a resposta aos seus estímulos. Neste espaço virtual, tendo em vista a integridade existencial, a consciência reflexiva responsável impõe-se analisar racionalmente as respostas possíveis, e escolhe uma que contemple a construção da comunidade humana universal, salvaguardando a harmonia social. Em defesa desta harmonia, por coerência, o ser consciente obriga-se moralmente a fazer sua escolha recair numa resposta construtiva aplicável a todos os homens. Neste contexto, os valores humanos desenham-se como um imperativo moral com características absolutas, dentro dos limites da condição humana. O que implica na adesão à VERDADE como representação fiel das partes constitutivas da realidade, e no respeito à COERÊNCIA LÓGICA das relações implícitas das diferentes partes da totalidade (a realidade toda) que por sua vez é determinante da integração das mesmas[4].  Obedecendo a esses critérios, o homem identifica-se com os valores fundados racionalmente e confirma-os mediante o compromisso com uma prática coerente, definindo no seu comportamento uma ética legítima na linha humanística laica. Todavia, a razão imanente não anula (nem poderia) uma transcendência absoluta que dê suporte definitivo aos valores existenciais, num nível ético-religioso. Mas esta transcendência não é indispensável para justificar os valores éticos que emergem do exercício da consciência livre e responsável do homem.
Na verdade, com o advento da consciência reflexiva e da liberdade que lhe é inerente, a Evolução abre espaço para a emergência de um ser problemático (o homem). Na circularidade lógica da sua realidade complexa (“consciência / mundo”) a condição humana justifica-se no processo evolucionário pelo exercício da consciência reflexiva[5] que torna possível a organização social humana por livre escolha e não por um determinismo instintivo. A consciência reflexiva (responsável), diferença específica do “Homo Sapiens sapiens” é o lance mais ousado desse processo evolutivo. Mas o conhecimento puro não basta para fazer a escolha correta, tendo em vista um valor assumido. Esta escolha demanda a participação integrada da inteligência, da vontade e da intuição potencializadas pela adesão a um princípio comunitário soberano. Portanto constitui-se numa operação subjetiva complexa que demanda elevado grau de socialização (isenção de sentimentos egóicos), o que permite imaginar que o próximo passo evolutivo seria a emergência do “Homo Sapiens Eticus”. Esta nova espécie do gênero humano seria capaz de desenvolver a capacidade de priorizar as escolhas solidárias que cimentam a comunidade humana, garantindo o desiderato da própria Evolução. Aliás, a História da humanidade demonstra que esses mutantes já existem e faz alguns milênios que alguns deles vêm promovendo revoluções culturais importantes.
Voltando à questão da resistência à proposta mística, atualmente, as conquistas da Física Quântica e o conhecimento mais profundo da realidade cósmica na qual estamos contextualizados abrem espaço para a aceitação tácita de uma transcendência absoluta. Assim, as aquisições da Física Quântica[6] dão suporte especulativo a uma espiritualidade esclarecida que enriquece a abordagem convencional das religiões baseadas em revelações codificadas num contexto eclesial catequético. Enquanto o cientificismo míope pode levar, equivocadamente, à oposição entre a razão e a fé, um conhecimento mais profundo ajuda a superar o impasse. Em “O Ativista Quântico” o Físico e Pensador Amit Goswami chega a ser convincente “ao explicar de forma acessível os fundamentos da Física Quântica (que associam a realidade física) e o potencial ilimitado da consciência”. Estes avanços científicos não conferem fé ao incrédulo, nem apazigua o homem inquieto... mas abre uma porta para maior intimidade intelectual entre a realidade física e a metafísica, oferecendo algum respaldo teórico para “criar o que não se vê”... é assim que Unamuno define o ato de fé.
De qualquer forma é irrefutável a afirmação que não é preciso ter fé num absoluto transcendental para arrimar o comportamento ético e a dignidade humana. Mas não há unanimidade em relação a esta afirmação. Tomamos como exemplo emblemático dessa discordância várias falas de Ivan, um dos personagens de “Os Irmãos Karamazov”, obra prima da literatura mundial escrito por Dostoiévski em 1879. Em momentos diferentes, Ivan descreve seu ponto de vista cujo conteúdo se resume em uma frase muito repetida: “Se Deus não existe tudo é permitido”. Renovo aqui a contestação que fiz há mais de 20 anos numa edição limitada do livro que intitulei: “Ser Homem, um desafio”. Não. O comportamento ético não se fundamenta na crença em Deus, mas na dignidade inerente à condição humana. O que não afeta, absolutamente, a soberania do Criador, ao contrário O glorifica com o testemunho nobre do comportamento ético de sua criatura.    
  Everaldo Lopes.               


[1] Valor – Princípio  ou norma que, por corporificar um ideal de perfeição ou plenitude moral, deve ser buscado pelos seres humanos. Dic. Houaiss3

[2] Vide «Humanismo Integral » de Jacques Maritain
[3] Guerra Junqueiro em a Velhice do Padre Eterno
[4] Construção holística
[5] Em postagens anteriores já mostramos a substituição no processo evolucionário, dos determinismos físico-químicos e biológicos pelas escolhas da consciência livre no sentido da organização social comunitária... Obviamente, tais escolhas só se concretizarão com a participação da vontade.
[6] Vide postagem anterior intitulada “ Devaneio especulativo I”.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Tributo a Raul de Leoni V


TRIBUTO A RAUL DE LEONI V
 Em nenhum momento surpreendemos em Luz Mediterrânea, o ranço da  indiferença diante das coisas e dos homens. Podemos ler nos versos de Leoni, algum pessimismo, sinais de uma postura estóica diante dos limites humanos, pudor ante a fraqueza congênita do homem, lirismo romântico e esperançoso, e até certa melancolia, quando proclama em rimas sonoras:

“Poente!
Estas horas que estão passando surdamente,
Nunca mais voltarão no tempo imaginário:
No jardim solitário.
Estão-se desfolhando, ingloriamente,
Tantas rosas divinas a sonhar;
Rosas que poderiam debruar
Leitos de fadas, em guirlandas luminosas,
Emoldurar cabeças de poetas
E que jamais florescerão ante os meus olhos...
Por que então,
Deixá-las numa morte inútil e secreta
Esfolharem-se assim, anônimas e virgens,
Na sombra do jardim
Sobre a tarde serena?
Ah! Se eu fosse colhê-las para mim...

Não vale a pena!

Poente!
Estas horas que estão passando surdamente
Nunca mais voltarão no tempo imaginário!
Na sombra do meu ser profundo e solitário
Tantas idéias límpidas, bailando,
Estão dizendo cousas infinitas...
Idéias que seriam minha história,
Minha imortalidade, minha glória,
E que por certo eu nunca mais encontrarei...
Por que, então,
Vê-las morrer, assim, sem voz, sem serem ditas?!...
Ah! Se eu as animasse em palavras eternas,
De uma vida magnífica e  serena ...

Não vale a pena!”[1]

Todavia, nunca o poeta resvalou para a indiferença insegura. Ele avalia e decide - “Não vale a pena”-, sem perder a esperança de “rosas divinas a sonhar”... “que poderiam debruar leitos de fadas”. A indiferença terá sido, para ele, talvez, uma vivência passageira, intermediária entre o desespero e a aceitação da realidade. Indiferença que só viceja em quem não tem criatividade ou força interior suficiente para sobrepujar a perplexidade diante dos desafios da existência. Quando falta esta força, mergulhado no estranho marasmo da indiferença, o homem passa a nivelar opiniões, decisões, comportamentos por um relativismo sem entranhas. Faltam-lhe critérios pessoais. Um olhar crítico percebe que neste clima, tudo parece pequeno, destituído de sentido, ridículo até. Diante do (des)valor de tudo, torna-se hilária a ação reivindicante do ser humano, pois o postulante não tem sequer em que ancorar sua proposta existencial.
  A vivência nadificante que assola o espírito indiferente, deixa à mostra a falta do vetor da existência, ou seja, a ausência de um valor, singular, original, ou até mesmo a adesão responsável às normas culturalmente sedimentadas. A segunda opção é mais cômoda, porém a primeira é mais estável e tem um sabor gostoso de conquista. De qualquer forma essa âncora ética não é uma emergência natural. Ela se constrói com disciplina, e se consolida pela autenticidade do ser pessoal na busca insistente de um elo comunitário. O homem reconhece a força da solidariedade, mas na sua volubilidade afetiva nem sempre consegue fazer dela o leitmotiv de sua existência. Ora por falta de renovação dos sentimentos de aproximação, ora em função de circunstâncias desfavoráveis. Esvaziadas dos sentimentos solidários, as relações humanas se contaminam com a vivência de pura canseira incômoda. Esse é o momento em que o desespero pode irromper, destruindo qualquer possibilidade de existência plena.
  Enquanto nega seus conflitos existenciais, ou se revolta contra eles, ou tenta barganhar uma solução, ou busca afirmar um ideal, o homem ainda que sofrendo vive suas emoções; tem contra o que, ou porque lutar, e isto antecipa, sempre, a expectativa de uma nova possibilidade de ser. Mas quando fica literalmente solto no espaço-tempo ilimitado da indiferença, sem apoio, o ser consciente cai na antecâmara do não ser. Neste ponto, um passo dado em falso mergulha-o no desespero ou na depressão. É necessário um suporte interior para anular este risco... a mesma força que mantém a unidade pessoal subjetiva, sendo ela um corolário do dinamismo eterno da Criação. No curso da elaboração natural de uma situação limite, na melhor hipótese, o homem vence o desespero estóica ou misticamente para conviver com uma realidade precária, finita, incontornável. Em sua poesia Raul de Leoni omite, também, a fase intermediária do processo, entre a barganha e a aceitação dos limites contingenciais da existência.  Seguramente porque as sombras do desespero não conseguem resistir ao seu espírito luminoso.
Nem desespero nem indiferença cabiam no seu jeito poético de ver o mundo. Raul de Leoni registra as verdades mais dolorosas sem enfatizar os aspectos trágicos da realidade, e pinta os sentimentos mais profundos, reconhecendo-lhes os matizes obscuros sem negar-lhes os reflexos luminosos. Interessa-o, sobretudo, a integridade do fenômeno humano enquanto síntese surpreendente, entre a razão e o sentimento, entre os impulsos, as paixões e a ordem racional que preside o Universo. A sua busca poética apoteótica, explode numa alegoria de beleza sutil em que o  poeta ático, como o chamava Agripino Grieco, todo sentimento, descreve o encontro com a amada (a Grécia), berço da razão, plena de culta sabedoria.

“Nascemos um para o outro, dessa argila
De que são feitas as criaturas raras,
Tens legendas pagãs nas carnes claras
E eu tenho a alma dos faunos na pupila.

Às belezas heróicas te comparas
E, em mim, a luz olímpica cintila.
Gritam em nós todas as grandes taras
Daquela Grécia esplêndida e tranqüila.

É tanta a glória que nos encaminha
Em nosso amor de seleção, profundo,
Que, ao longe, eu ouço o oráculo de Eleusis.

Se um dia eu fosse teu e fosses minha,
O nosso amor conceberia um mundo
E, do teu ventre, nasceriam deuses...”[2]

  Mas nós sabemos, o poeta intui que transcendendo a síntese magnífica da consciência e do mundo, cintila uma realidade prodigiosa que sustenta ambos, desfazendo, na unidade, os contrastes e todas as diferenças. Todavia, na sua plástica finita, as palavras reduzem as intuições profundas do mistério do ser às formas leves e efêmeras de sombras passageiras. Elas não conseguem mais do que encobrir a inquietação frente à  incompreensão racional do ser...

“Como são lindos os teus grandes versos!
Que colorido humano que profundo
Sentido e que harmonia generosa
Encerram os seus símbolos diversos!...

- Sim, mas para fazê-los fui ao fundo
Das cousas, nessa Via-Dolorosa
Do pensamento, que no fim é sempre triste.
Sofri muito entre os seres infelizes...
Tu não sabes de nada... tu não viste..
.
- Não, nunca imaginei o que me dizes...
Mas teus versos me fazem tanto bem
São tão belos, de formas tão luxuosas!...

É isso mesmo... É a beleza irônica que vem
Da amargura invisível das raízes,
Para dar a vaidade efêmera das rosas...”[3]

Sempre que despertamos para a realidade plástica, visível do mundo está à mão a beleza das formas, dos ritmos, das cores, do encanto da juventude. Mas a Verdade, “essa total explicação da vida,/ esse nexo primeiro e singular,/ que nem concebes mais, pois tão esquivo / se revelou ante a pesquisa ardente em que te consumiste...”[4], esta Verdade se entremostra, raramente, na  sua vestimenta luminosa:

“Ao menos uma vez em toda a vida
A verdade passou pela alma de cada homem...
Passou muito alta, muito vaga, muito longe,
Como os fantasmas que mal chegam somem,
Passou em sombra, num reflexo fugidio.
Foi a sombra de um vôo refletida
No espelho da água trêmula de um rio...
Sombra de um vôo na água trêmula: Verdade!

Passou uma só vez em toda a vida 
E sempre dessa vez a alma dos homens
Estava distraída,
E não reconheceu na sombra desse vôo
A ave ideal que planava no alto azul...
Quando volveu os olhos para a altura
Ela já ia desaparecendo...

Dela nada ficou no olhar triste dos homens,
Nem a lembrança do seu vulto incerto...
Passou uma só vez em toda a vida!
Sombra de um vôo na água trêmula: Verdade!
E esse vôo,
Que nunca mais voltou no mesmo céu deserto,
Nem ao menos deixou a sombra dentro d’água...”[5]

  Todavia, o sabê-la tão distante e arredia, não anula o amor que nos inspira essa Verdade. Cuidemos, pois, que ela nos conduza, mesmo sem penetrar no mistério da natureza íntima do ser. Basta amá-la para preservar a substância da alma ameaçada pela vertigem do nada...

“Alma, no teu delirante desalinho,
Crês que te moves espontaneamente,
Quando és na vida um simples redemoinho
Formado dos encontros da torrente!

Move-te porque ficas no caminho
Por onde as cousas passam, diariamente:
Não é o Moinho que anda, é a água corrente
Que faz, passando, circular o Moinho...

Por isso, deves sempre conservar-te
Nas confluências do Mundo errante e vário,
Entre forças que vêm de toda parte,

Do contrário serás, no isolamento,
A espiral cujo giro imaginário
É apenas a ilusão do Movimento!...”[6]
 
  Nossa existência é uma jornada infinita “ Não tem fim, não teve fundo, / É a lenda da humanidade, / É a própria história do mundo”.[7] O ser consciente se recolhe  na  eterna  transcendência, ao apoiar sua existência na mobilidade absoluta  do ser total (unidade dinâmica instantânea de tudo que já foi, é, e será), no qual se expande, recursivamente, o fluxo infinito do tempo que esconde a própria eternidade. Por isso, cada dia, cada instante, mudam as aparências que flutuam na superfície leviana da História, mas no íntimo guardamos, para sempre, o caráter singular do mesmo ser.
Vou interromper com este texto, momentaneamente, a homenagem merecida a um poeta morto faz mais de oitenta anos cujo valor não foi ainda suficientemente reconhecido. Pretendo voltar a festejá-lo em outra oportunidade, contribuindo de alguma forma para difundir o trabalho de um Poeta que se imortalizou com a edição de um único livro: LUZ MEDITERRÂNEA.
Everaldo Lopes

Bibliografia

LEONI, Raul de – Luz Mediterrânea, 1ª Edição, Livraria Martins
     Editora. São Paulo.
CRUZ, Luiz Santa – Raul de Leoni, Trechos Escolhidos, in Nossos
Clássicos, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Corrêa e Jorge de Sena: Livraria AGIR Editora, Rio de Janeiro, 1961,
LUZ MEDITERRÂNEA E OUTROS POEMAS –Organização. Introdução
e Notas de Pedro Lyra. TOPBOOKS EDITORA E DISTRIBUIDORA DE LIVROS LTDA – 2000


[1] Raul de Leoni – “Melancolia”, in Luz Mediterrânea
[2] Raul de Leoni – “Eugenia”, in LUZ MEDITERRÂNEA. E OUTROS POEMAS – Organização, Introdução e Notas de Pedro Lyra
[3] Raul de Leoni – “Diálogo Final”, in Luz Mediterrânea
[4] Drummod de Andrade – “A máquina do mundo”, in Obras Completas 
[5] Raul de Leoni – “Ao menos uma vez em toda a vida”, in Luz Mediterrânea
[6] Raul de Leoni – “ A Vertigem”, in Luz Mediterrânea
[7]  Raul de Leoni – “Do meu Evangelho”, in  Luz Mediterrânea