sábado, 15 de outubro de 2011

A minha crença


Do Espírito podemos apenas formular um conceito indefinido, representando o oposto das coisas materiais que são palpáveis e descritíveis. Entre as realidades “espirituais”, invisíveis, apenas reconhecidas por suas manifestações, destaca-se a subjetividade do pensamento, referencial do sujeito consciente. Ao dizer “eu” cada um de nós revela o caráter autoconsciente e intencional do Princípio Espiritual, substrato da realidade psíquica, emocional e cognitiva do ser humano. Um Dinamismo eternamente criativo[1] que também é fonte de tudo quanto existe, presente até na mais ínfima partícula do Universo como razão e finalidade. Conforme a crença em que vivo, o Espírito está “cifrado”[2] na matéria, integrando-a como padrão de formatação[3] que se atualiza no ente[4]. Este, pois, é um modelo de organização, objetivado pela consciência local (do observador), dentre as infinitas possibilidades preexistentes na Consciência Universal. Dessa forma, o Espírito Eterno guarda o esquema abstrato (essencial) de todos os seres e, na estrutura psicobiológica do homem, atualiza as “possibilidades” que Lhe permitem refletir-Se, manifestando-Se na consciência reflexiva. Ou seja, o Universo tomando consciência de si mesmo. A consciência reflexiva pressupõe a coparticipação do finito (contingência) e do infinito (transcendência), no ato de “existir”. No  “vir a ser consciente” o sujeito do conhecimento transcende-se numa abstração, avalia a realidade consciência / mundo e acrescenta-lhe algo “novo” (mudança) mediante escolha criativa entre as possibilidades evolutivas visualizadas pelo sujeito cognoscitivo. Nesse ato se revela no ser consciente um apelo incessante de ultrapassagem da atualidade existencial. A existência será definida, então, como incompletude que se supera instante a instante e só se satisfaz com o absoluto - realização inexcedível. Portanto, o Espírito personificado na Perfeição Absoluta pode ser considerado uma “exigência” existencial, mas, ao mesmo tempo, é um absurdo racional. não se pode discuti-lo no nível do raciocínio lógico, mas não se pode descartá-lo, tampouco, sem deixar de fora a consciência e o mundo, realidades irrecusáveis das quais damos testemunho com nossa presença. Na subjetividade humana esta “exigência” se inscreve como o desejo de “ser mais”, que move o devir pessoal. “Desejo” que, num primeiro momento de sua manifestação, persegue o prazer sensual cuja fugacidade deixa, todavia, insatisfeito o anseio de eternidade. Então, o anelo existencial se prolonga na busca de um sentido que visa algo além do aqui e agora, um “valor” que contextualize o prazer de ser num universo significativo. A satisfação sensual consciente, peculiar ao homem, traduz o registro reflexivo do momento físico senciente da experiência humana atual, numa resposta biopsíquica marcada pelo prazer estético. Mas o “desejo” de transcender que não se esgota no prazer estético induz no ser consciente a necessidade de uma justificativa moral, substrato do sentido que o indivíduo precisa dar a sua “existência”, enriquecendo o prazer estético com a coerência ética. E, finalmente, num último esforço de transcendência o valor ético é ungido com o aval absoluto de Deus, transformando-se num valor éticoreligioso. No texto “Patamares existenciais”, publicado neste blog, já discutimos esta evolução axiológica que tem suas raizes na obra de Kierkegaard[5].
Como essência do ser consciente, o Espírito se entremostra na indelimitação do presente vivencial que permanece como referencial imóvel (eterno – o presente nunca passa), centrado no “agora”[6]. Na dinâmica existencial este presente indemarcável é vagamente pressentido pela consciência, constituindo na subjetividade humana um ponto fixo, referencial indispensável à aferição do tempo cósmico que flui ao ritmo das transformações da corporeidade do mundo aparente, inclusive do ser psicobiológico do homem. Nesse contexto, a corporeidade biofísica do ser humano se esgotará com a morte biológica ao modo de uma imagem holográfica que se desfaz, permanecendo intacta no programa que a projetou, e a retém na comunidade de todas as consciências, inscrita no Espírito Eterno.
O Espírito cifrado no ser consciente ultrapassa em todos os sentidos os limites históricos do homem ao qual dá forma e vida próprias. O Espírito é unitário, absolutamente consistente em si mesmo e livre, senhor de todas as possibilidades. Escapa a qualquer definição, mas cada um pode ter d´Ele um vislumbre vivencial na experiência singular de unidade com um todo inexcedível. Disto a experiência mística é o paradigma exemplar. Extrapolando o sentido estritamente religioso convencional, esta experiência se reproduz no êxtase fugaz que nos assalta, ao ouvir uma harmonia inspirada, ou viver os encontros existenciais que realizam um “nós” maiúsculo. Nestes momentos embarcamos no túnel da atemporalidade e vivemos a eternidade no tempo, como eco da experiência vivencial de unidade com o Universo. Enfim, em sua essência, “imagem e semelhança” do Espírito eterno, o homem conserva o Dinamismo Criativo, no elã de transcender ao exercitar a consciência reflexiva individual, diferençando-se de todos os demais entes da Natureza. Esta singularidade encontra sua plena realização quando o Espírito “cifrado” no ser psicofísico do homem rompe a barreira do tempo (morte física), libertando-se da limitação imposta pela entidade biológica contingente que O manifesta.
Assim, depois de mortos, todos nos encontraremos na intimidade do Espírito Eterno no qual se homogeneízam todas as experiências acumuladas durante nossa vida temporal, pessoal e coletiva.  Não perdemos a identidade, após a morte biológica, mas a viveremos, integrada numa comunidade perfeita, transfigurada pela interdependência e reciprocidade instantâneas de todas as consciências pessoais, integradas numa só realidade – o Espírito Eterno – Deus. Obviamente, esta expectativa pressupõe que a humanidade como de resto todo o Universo é uma centelha divina.
Entendo agora...  O “amoroso desapego à vida” que um dia imaginei como objetivo do crescimento existencial é um mergulho profundo na compreensão da precariedade do prazer dos sentidos, enquanto cresce a expectativa de alcançar a plenitude da comunhão universal, na unidade e liberdade absolutas da perfeição do “ser em si”. Este entendimento ainda não tranquiliza, porém, o ser consciente instalado no tempo, vítima da angústia ante o vir a ser histórico incerto, e o fim biológico inevitável. Para a total pacificação do homem na sua peregrinação temporal é necessário vivenciar a “intimidade” do Espírito Eterno com o “ser de existência”, vivida como um diálogo no qual a criatura, livre de determinismos, tem consciência, clara ou nebulosa de que não subsistirá sem a concordância com a vontade divina identificada como a “voz da consciência”. Neste intervalo existencial se insere a prática ritual simbólica apaziguadora própria das religiões convencionais. os ritos religiosos tranquilizam, embora muitas vezes estejam associados a uma espiritualidade primária.
A coerência absoluta da Consciência Universal está presente no Universo, intimamente e eternamente, conduzindo o processo criativo.  Esta afirmação não é passível de confirmação científica; não obstante arrima-se numa especulação coerente. Considerando a ordem presente na Evolução desde a matéria primitiva até a vida consciente seria no mínimo inconsistente descartar uma intenção Suprema inerente à Consciência Universal.
Confiante no arremate apoteótico da existência, o ser consciente deverá fazer escolhas e tomar decisões compatíveis com a perfeição do Dinamismo Absoluto Eternamente Criativo indistinguível da Consciência Universal. Diante da precariedade do vir a ser temporal, nem sempre a consciência individual responsável alcançará resultados imediatos satisfatórios compatíveis com o esforço perfectivo realizado, porém é preciso que insista em ultrapassar-se, criativamente, na busca da perfeição. A postura subjetiva mais sábia resulta numa atitude de entrega humilde à vontade do Criador, confiante em que tudo tem sentido na Unidade da perfeição absoluta.
A interrupção da vida, contra o desejo fantasioso de permanência que se insinua na subjetividade humana, torna urgente a superação da antinomia “vida e morte”... Nisto ajuda a certeza de que ao fim da existência temporal, o momento da “transição” se esgotará em uma fração do segundo, e, transposto o portal do tempo haverá vida plena na eternidade do Espírito. Esta é a minha crença.
Em termos especulativos, todavia, as alternativas possíveis do depois são o Esquecimento eterno, ou a plenitude. Abraçando a segunda, confiante na perfeição do Espírito Eterno, encontro a paz que me assistirá no último alento, antes do mergulho no desconhecido. Aposto na participação pessoal na vida eterna (um Absoluto) por ser esta alternativa mais compatível com uma visão de mundo consequente. Para sustentá-la apoio-me em especulações coerentes com a realidade... pois, do ponto de vista estritamente racional nada se pode afirmar ou negar de uma transcendência absoluta. Admito, porém, que, arriscar conscientemente nesta “aposta” (como dizia Pascal), não é a única forma de manter a dignidade ao pular sobre o “abismo” diante do qual a temporalidade coloca os seres conscientes da própria finitude. Pode-se deixar de lado a questão do “depois”, assumindo uma postura estoica diante do fim inevitável, mitigada pelo sentimento vago de ajuda anônima e gratuita da Natureza, ao encerrar-se o calendário da existência de cada um. “A Natureza sabe como resolver seus problemas”, dizia Montaigne[7] em um dos seus ensaios... Atitude confiante que apraz a quem aguarda, simplesmente, o esvaziamento da ampulheta do tempo, sofreando, estoicamente, o tumulto e a agitação inerentes à expectativa da morte. Nisto consiste o estoicismo de quem aposta em que tudo acaba com a morte biológica. “Aposta” que é, também, uma opção, porque não há como provar que a morte biológica é o fim definitivo do homem...
Vivo a crença em um Deus pessoal, opondo  ao elemento de dúvida que toda crença comporta, os argumentos especulativos que a justificam como probabilidade eleita. Não tenho certeza de coisa alguma, mas assumo o risco, acreditando, ajudado pela fé na perfeição da Consciência Universal, garantia de que tudo tem sentido no Dinamismo Absoluto Eternamente Criativo. Eis a minha crença!
Everaldo Lopes    



[1] A Teologia cristã apresenta este dinamismo na doutrina da Santíssima Trindade; três pessoas em um só Deus... A interação dinâmica do Pai, do Filho e do Espírito Santo é a essência do próprio dinamismo divino.
[2] Escrito em código
[3] Não é isto que está implícito na linguagem quântica quando afirma que o Universo é feito de “possibilidades” e o real concreto é o resultado do “congelamento” das possibilidades escolhidas pela “consciência local”? Esta “consciência local” determinaria a ordenação (formatação) de algumas possibilidades em cada campo do Universo; ordenação já inscrita
(codificada) na “Consciência Cósmica” - Espírito Eterno - que harmoniza todas as possibilidades.
[4] Cada um dos múltiplos seres existentes e concretos da realidade circundante (os seres humanos, os seres vivos, os objetos do pensamento e da natureza etc.) que não se confundem com o ser em si, o Ser ou a realidade absoluta. Houaiss3

[5] Kierkegaard, Sören Aabye - Filósofo dinamarquês existencialista (1812 – 1855).
[6] Contextualização, na linha do tempo, do passado e do futuro imediatos, separados por um corte (o presente) indelimitável (eterno) e sempre o mesmo.
[7] Montaigne, Michel Eyquem – Ensaista francês (1533 – 1592)

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Patamares existenciais


O homem engajado no exercício da consciência responsável aspira a realizar-se como pessoa no convívio com os outros no mundo. Nunca é demais lembrar que do ponto de vista evolutivo o ideal desta aspiração é a prática da solidariedade comunitária. Mas, no processo histórico, este desejo heroico se perde, frequentemente, em esforços equivocados.
O pensamento, o sentimento e a vontade são os recursos de que o homem dispõe para consumar seu projeto existencial. Todavia, a essência do pensamento e da capacidade criativa associada é inacessível ao entendimento racional.  O pensamento ágil relaciona uma ideia a outra, confrontando noções, construindo proposições e elaborando silogismos através dos quais se pratica a racionalidade no vir a ser consciente. Esta prática realiza-se através do exercício da lógica formal, instrumento eficaz para a articulação das relações objetivas do eu com sua circunstância. Seguindo outros caminhos, a intuição gera um conhecimento imediato, mediante “iluminação” interior, fundamental no processo criativo.
A representação racional do mundo é uma conquista especificamente humana, constituindo-se numa forma de hierarquizar a realidade. Embora esta abordagem detenha-se no nível do fenômeno, incapaz de desvelar a essência do real. A linguagem como descrição fenomênica não define, pois, a natureza das coisas. Associada a esta visão racional, desenvolve-se uma conotação afetiva, feita de sentimentos e emoções que obedecem a uma lógica diferente que Pascal dizia, poeticamente, ser vinculada às razões do coração. A experiência subjetiva do homem, seja racional, ou afetiva, se dá a conhecer numa declaração auto referente do eu sujeito desta experiência. No âmbito do racional é possível aferir o conteúdo declarado. Mas tratando-se de sentimentos, a revelação do declarante é o único arrimo da sua própria experiência subjetiva. A aceitação desse testemunho demanda, portanto, a credibilidade de quem o atesta, e a sua autenticidade é a única garantia.
A razão e o coração nem sempre estão de acordo. Em face do conflito entre o sentimento e a razão, torna-se necessário criar, culturalmente, normas disciplinares de comportamento para proteger a harmonia social. A participação efetiva da vontade obriga o indivíduo à prática das normas estabelecidas para as condutas sociais. o que implica num aprendizado laborioso desenvolvido no processo de socialização.
O engajamento do homem na sua circunstância social e ambiental evolui através de diferentes patamares. Inicialmente, domina o cenário das relações humanas a alegria do prazer estético matizado pela sensualidade que se associa frequentemente a objetivos egoístas. Na sua acepção mais ampla este prazer é uma demanda libidinosa que energiza os sentidos. Está presente na satisfação de experimentar o sabor de um petisco delicioso, na ebriedade de um aroma agradável, no êxtase induzido por acordes harmoniosos, no prazer do toque suave que desperta a sexualidade.
De todas as manifestações da sensualidade, o prazer sexual é reconhecido como a mais explosiva e poderosa motivação, numa relação de gênero que envolva ternura e erotismo. O homem e a mulher sensibilizados, respectivamente, pela suavidade do feminino, e pelo toque masculino determinado e protetor humanizam a libido. Eles (o casal humano) se inspiram, mutuamente, sentimentos delicados de aproximação, refinando as manifestações eróticas. Mas neste patamar estético da existência a experiência gratificante é fugaz, redundando no apelo insistente à repetição.
A vida coletiva ultrapassa os limites da sensualidade em benefício da dimensão social. Por isso, na sequência evolutiva cria-se uma ordem cultural mais ampla, baseada em valores universais que garantam o equilíbrio da vida coletiva.  Elabora-se, então, uma ética que caracteriza o segundo patamar da existência. O comportamento ético se estrutura a partir de normas aceitas tacitamente, fundamentadas nos direitos e deveres estabelecidos pela razão e pelo bom senso. Desta sorte, o ser consciente disciplina as relações consigo mesmo e com sua circunstância, tirando delas satisfações, e decepções também.
Face às interdições cerceadoras inevitáveis inerentes ao comportamento ético, o sentimento do dever cumprido nem sempre basta para apaziguar o anseio humano de bem estar e plenitude. Daí o apelo a um poder transcendental que garanta sem deixar dúvidas a soberania dos valores consagrados, e uma compensação para os sacrifícios que o homem faz a fim de atender às exigências éticas da sua proposta humanística. Neste patamar “ético-religioso”, Kierkegaard situa o terceiro nível da existência[1]. Estádio da humanização em que se elimina qualquer dúvida quanto à validade das normas estabelecidas,  satisfazendo a necessidade do homem de confirmar a soberania dos valores que exigem a privação de experiências prazerosas interditadas pela ética vigente. O homem precisa convencer-se de que não está jogando fora suas oportunidades de saciar a libido (no sentido mais amplo do termo), para salvaguardar um valor duvidoso. Mediante um ato de fé, ele confia, então, o seu vir a ser à suprema perfeição de um Todo ordenador absoluto (Deus) que lhe garante a idoneidade do valor comportamental assumido. Nem sempre a criatura compreende os propósitos do Criador, mas, crendo, sabe que mesmo quando a contrariam, estes desígnios emanam da perfeição divina em cuja totalidade tudo tem sentido. Cabe à criatura inteligente, comprometida com sua missão evolutiva entender a linguagem cifrada do Criador, e interpretá-la, criativamente, no contexto pessoal. Quando fragilizado por falta desta visão holística, o homem mergulha na penumbra medíocre do hedonismo ou do isolamento. A disponibilidade de viver experiências integradoras nem sempre é suficiente para harmonizar as possibilidades individuais com um todo significativo. O ambiente hostil pode anular o impulso criativo conciliador. Daí a insatisfação crônica que ameaça sufocar o homem no seu vir a ser problemático, quando lhe falta o amparo de uma transcendência absoluta subjacente ao ideal de perfeição.  O auxílio transcendental ajuda o homem a vencer a herança genética (e cultural) que o arrasta para o egoísmo atávico, retardando a socialização inerente ao processo de humanização. Desassistido desse alento imponderável, espiritualista, ao assumir a postura estoica, o homem não encontra em si mesmo a força necessária para empolgar a existência. Gostaria de sentir pulsar a vida, a sua vida, mas fica perdido numa solidão desértica. E ao cair em depressão tudo ao seu redor se transforma em planuras a perder de vista, brancura hostil, intensa, onde não sobressai qualquer estímulo. Prevalece apenas o silêncio pesado como se nada mais houvesse a dizer. Tudo se confunde na penumbra de uma vigília sonolenta, lucidez pessimista, doentia, de ser para nada. Já não há como sentir-se pleno alguém carente da alegria de amar, expectativa que arrefece na ausência do objeto próprio do amor universal latente em toda criatura, desenhando-se uma pobreza existencial que sobrenada tesouros interiores inexplorados.
No extremo desse vir a ser incolor, a morte é um mergulho no esquecimento que apenas prolonga a insipidez da incapacidade atual de desfrutar a vida. Este estado d´alma foi poeticamente  descrito por Drummond de Andrade em “ A máquina do Mundo”. Deste poema, considerado pela crítica literária como o melhor de sua obra, destaco:
“Abriu-se (a máquina do mundo) majestosa e circunspecta, / sem emitir um só som que fosse impuro, / nem um clarão maior que o tolerável / pelas pupilas gastas na inspeção / contínua e dolorosa do deserto, / e pela mente exausta de mentar / toda uma realidade que transcende / a própria imagem sua debuxada / no rosto do mistério, nos abismos. / Abriu-se em calma pura e convidando / quantos sentidos e intuições restavam / a quem de os ter usado os já  perdera / e nem desejaria recobrá-los, / se em vão e para sempre repetimos / os mesmos sem roteiros tristes périplos, / convidando-os a todos em coorte, / a se aplicarem sobre o pasto inédito / da natureza mítica das coisas.”
Analisando o efetivo engajamento existencial e político do homem em prol dos ideais comunitários, torna-se evidente o papel importante da criatividade que promove soluções inéditas para os problemas emergentes no vir a ser humano. Por outro lado, igualmente importante é a confiança (fé) num Dinamismo Absoluto Eternamente Criativo que dá sentido à caminhada existencial, ensejando recursos imponderáveis capazes de “... (re)embaralhar as cartas do provável e subverter as fronteiras do possível.”[2]. A evolução do fenômeno humano transita, portanto, por patamares existenciais que culminam com uma experiência ético-religiosa, mística, na qual o exercício da consciência livre e responsável é comparável a uma projeção vivencial da essência espiritual do ser humano.
                                   Everaldo Lopes


[1] Níveis de existência descritos por Kierkegaard: estético, ético e ético-religioso
[2] Eduardo Gianetti

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Vamos pensar um pouco


No processo de humanização, o ser consciente se transcende amando a Verdade, a Beleza e a Justiça. Embora saiba que é problemático o dimensionamento da verdade, é simbolicamente sutil a caracterização da beleza, e muito complexa a dinâmica da justiça possível. Comprometido com a realização pessoal, o homem conduz seu vir a ser valendo-se de referenciais racionais, emocionais e intuitivos, representadas por valores lógicos, estéticos e ético-religiosos em torno dos quais constrói a existência[1]. A caminhada é longa, penosa, e não raro o indivíduo se perde em atalhos enganosos, tomando-os,equivocadamente, como objetivos finais. Uma dessas armadilhas é a prática acrítica de módulos culturais que o arrastam nas correntezas do “mundo errante e vário”; outra esparrela é a ilusão de felicidade montada sobre o prazer sensual.
Heroica é a busca da convergência da sensualidade e da espiritualidade, na qual (convergência) se empenha o homem sedento de verdade, beleza e justiça. Palmilhando sendas estreitas e íngremes, ele busca incansavelmente esta convergência, consubstanciada no equilíbrio existencial consistente entre o anelo do espírito reto e a demanda licenciosa dos sentidos. E se for bem sucedido vivenciará uma plenitude que tangencia o êxtase místico.
As forças biológicas instintuais estão sempre em confronto com as forças espirituais, transcendentes. A sombra animal é mais forte antes da maturidade biopsíquica, situação em que o homem, nas suas relações de gênero, lembra, mesmo, um fauno com veleidades éticas. Mas no caminho da maturidade, vão de sedimentando as interdições que forjam o caráter, e cresce a necessidade de compreender a dinâmica pessoal, comunitária, induzindo o respeito ao outro, humanizando as relações entre indivíduos de sexos opostos. Em outras palavras, num primeiro momento da individuação, com a personalidade ainda mal definida, o jovem é um amontoado de vivências desconexas, soterrando o desejo inespecífico, irrealizado, de existir para algo apaixonadamente significativo. Desejo incômodo enquanto não encontra o seu objeto em circunstâncias muitas vezes hostis. Na maturidade, ainda insatisfeito, o homem busca seu ponto de equilíbrio para fechar um projeto existencial, enfrentando dificuldades que se ampliam para os que ousam traçar seu próprio caminho nem sempre alinhado com as normas estabelecidas. Até que por força do seu arbítrio diz para si mesmo, sem outro apoio ou incentivo além de uma necessidade insólita de auto definição e coerência, peculiares à consciência reflexiva: - Basta! Esta é a minha verdade, o meu padrão de beleza, a minha forma de fazer justiça!  Assim o faz por necessidade, para não soçobrar num caos existencial. Mas, fica sempre por um triz a consumação da paz, da tranquilidade, da resolução das antinomias da existência.
O “basta” que o homem se diz não tem outra sustentação além do afã de dar coerência e consistência ao comportamento escolhido, firmado na capacidade decisória que, em última instância, tira sua força de um ato de fé. Entrementes, ele cultiva a esperança de que ao fim de sua jornada existencial, o fechamento dos ideais assumidos há de ratificar o acerto das escolhas feitas, garantindo a participação na harmonia universal. Agora entendo o poeta quando diz: “E a nossa alma é a expressão fugitiva das coisas. E a vida somos nós, que sempre somos outros. Se as coisas têm espírito, nós somos esse espírito efêmero das coisas, volúvel e diverso, variando, instante a instante, intimamente e, eternamente, dentro da indiferença do Universo”[2].
Uma intuição profética insinua-se na consciência vigilante, mas insegura, levando-a à convicção de que os contrastes se desvanecem e tudo tem sentido na unidade absoluta do “ser” total!
Existir é doloroso. O guru mais sábio pode até mostrar metas valiosas, contudo, cada um de nós terá de construir, penosamente, o seu caminho. Mas como? Uma vez mais, valho-me do Poeta Filósofo que aconselha: “Pratica teus sentidos nobremente, na sensação das coisas belas e harmoniosas, e assim educarás uma alma linda, parecida com tudo que sentires.”... [3] Seguramente, um apelo inerente ao “nível estético” da existência. Todavia, o mesmo Poeta, em outro soneto complementa o dito anteriormente, afirmando: “A beleza é a mais generosa das verdades”[4]... irmanando neste verso genial, a ética, a estética e a razão. Ampliam-se, assim, os horizontes existenciais das relações humanas, com implicação nas relações que envolvem atividade sexual.
É sabido que a sensualidade sem ternura vira erotismo grotesco. Daí a recomendação - “nobremente” - no primeiro verso da estrofe citada que exalta a prática dos sentidos; pois é indispensável acrisolar a sensibilidade estética (do belo e harmonioso), espiritualizando-a pela integração da experiência temporal numa transcendência absoluta (unidade universal).
Não obstante, a alma do Fauno embutida no homem insiste, complicando a vivência de incompletude que o inquieta . Acrescentarei, portanto: - Enquanto não vos libertardes do desejo fauniano exigente devereis fixar os limites extremos do modelo ético existencial que vos propondes, preservando a liberdade pessoal e o respeito à dignidade do outro. A isto se reduz, essencialmente, a dimensão espiritual de uma relação entre um homem e uma mulher, que ainda não está embasada no amor maduro. Esta perspectiva proporcionará maior flexibilidade à avaliação moral das decisões responsáveis, abrindo-se um intervalo existencial no qual a criatividade há de construir tudo o mais. Respeitados estes limites, as nossas escolhas e decisões estarão sempre inscritas na pauta de um humanismo consistente, imantado pelo ideal superior de construir a comunidade humana.
Criatividade é a palavra de ordem, a única via de superação da inércia existencial de caminhar para o nada. O grande problema é que somos todos chamados a definir um “para que” no âmbito das nossas existências. Assim motivados, traçamos o vir a ser pessoal, moralmente dispostos a construir nosso caminho, praticando o livre arbítrio sem ferir a dignidade do “outro”. Teleologicamente, neste contexto, seria razoável dizer: existir para fruir o prazer, seja o dos sentidos praticados nobremente, seja o intelectual e/ou o estético, vertentes destinadas á convergência final numa experiência pessoal significativa.  Existir para exercitar a liderança que nos couber inerente ao poder que nos confere o conhecimento e a força moral para construir a humanidade, conscientes de que o nosso modo de existir dará sentido à Evolução e ao mundo. O “para que” está inserido neste ideal, conferindo-lhe o dinamismo necessário. Foi Nietzsche quem disse, e a experiência pessoal confirma: “Quem tem um ‘para que’, pode suportar qualquer ‘como’.” Sem este suporte, a existência e o mundo parecerão absurdos.
                        Everaldo Lopes


[1] Exercício responsável da consciência.
[2] Raul de Leoni - em A alma das coisas somos nós.
[3] Idem – em  O meu Evangelho.
[4] Raul de Leoni – em Sabedoria.