sábado, 10 de setembro de 2011

Diálogo existencial


      Nas suas andanças pelos caminhos da existência, o homem conversa consigo mesmo. Monologando, dialoga com seu alter ego, instância muito íntima do seu psiquismo.

Alter ego – Sabes bem o que estás fazendo neste planeta perdido na imensidão do universo?
           
Ego (Pensativo) – Boa pergunta. Afinal, ou a “existência”[1]tem sentido no contexto evolutivo da realidade universal, ou é uma grande piada. Para mim o seu sentido está definido pela própria condição humana. Atuar neste mundo, consciente e responsavelmente é o meu papel.
No fenômeno humano, a Evolução transcende o nível biológico, centrando-se no desenvolvimento psíquico e social. Dependerá, então, não mais de um aperfeiçoamento anatômico e fisiológico, mas do desenvolvimento psicossocial que possibilite o diálogo verdadeiro e a prática da justiça social. Numa perspectiva evolutiva, o homem assume a responsabilidade de promover a comunidade humana.  Compromisso que mobiliza as potências intelectuais, afetivas e volitivas que lhe são inerentes (ao homem), no sentido da prática solidária. O processo evolutivo será conduzido, agora, pelas escolhas políticas e econômicas conscientes, e não mais por determinismos físico-químicos, ou feedbacks biológicos. Desta forma, a realização plena do Homo Sapiens sapiens passa a depender das suas escolhas solidárias, sem as quais, aliás, a espécie não sobreviverá.   Essas escolhas implicam, necessariamente, na prática do livre arbítrio, função até então inédita na Natureza, que dará continuidade à Evolução mediante decisões do ser consciente, o que nos torna artífices da comunidade humana.  Cabe-nos, portanto,  sintonizar o psíquico e o social, no processo de individuação, para alcançar a plenitude “pessoal” conduzidos pela solidariedade.
 Mas este lance evolutivo não é tão simples. Na verdade não temos domínio absoluto sobre nós mesmos e sobre a nossa circunstância. Existimos com os outros no mundo, e para conviver nos impomos limites. Temos liberdade? Sim. Mas a liberdade de passarinhos engaiolados; o que, todavia, não nos exime de responsabilidade perante os outros e diante de nós mesmos. No espaço coletivo, a solidariedade está intimamente relacionada com a estima e o respeito que os indivíduos aprendem a praticar entre si o que resulta em grande parte de um aprendizado. Mas as decisões dependem de muitos fatores, ora vinculados à circunstância, ora, simplesmente, ligados à vontade e determinação pessoais. No frigir dos ovos chega-se à conclusão de que as limitações são reais e não fazemos, sempre, o melhor que desejáramos em cada situação do vir a ser existencial. Nesta caminhada, muitas vezes tropeçamos por falta de criatividade, ou porque deparamos limites intransponíveis, principalmente no que tange à cooperação entre as pessoas.           
As dificuldades não faltam nunca. Mas agrada-me pensar que se estiver na direção certa, cada passo a caminho do objetivo maior da “existência” neste mundo é, já, uma meta vitoriosa... e, valorizando-a reforço a confiança em poder cumprir a  missão que me toca no processo evolutivo universal. É muita audácia esperar a realização de uma sociedade perfeita, mas precisamos caminhar, sempre, nesta direção, confiantes na ajuda de “imponderáveis”[2].

            Alter ego –Lamentavelmente, numa relação social, o “outro” se constitui muitas vezes num estorvo para a convivência pacífica, e construtiva. Isso me faz lembrar a afirmação de Sartre: “O inferno da gente é o outro.”...

            Ego (Prontamente acrescentou) – Verdade.  Que pena! Todavia esta sentença não está completa, pois omite a outra face da realidade... é que nas relações sociais, o “outro” poderia ser, também,  a condição para o bem estar e alegria de todos e de cada um de quantos participamos do banquete da vida! Tudo se resume no relacionamento interpessoal que formos capazes de estabelecer no convívio social, e isso não depende só de um, mas de todos os interlocutores que interagem no espaço coletivo.  Enfim, a intersubjetividade é uma “passarela” de mão dupla. Mas o “outro” não é, necessariamente, o inferno dos seus pares, pode também ser o seu céu.

            Alter ego – Concordo. Mas é inquietante reconhecer a dificuldade muito presente de harmonizar as características pessoais e os interesses diversos que estão sempre em jogo nas relações sociais.

            Ego (Falou como se há muito viesse meditando sobre o assunto) – Sem dúvida, incomoda esta ameaça permanente. O ponto crítico é a necessidade de sermos suficientemente humildes verazes e transparentes, condições indispensáveis para o diálogo solidário. Então,  poderíamos realizar o melhor de nós mesmos, seríamos capazes de reconhecer  nossas virtudes e limites, abrindo mão, sem ressentimentos, do supérfluo e de toda vaidade. Finalmente, precisaríamos todos, ser suficientemente inteligentes, autônomos e generosos, para compreender com clareza e fazer o melhor que podermos em cada situação, preservando a harmonia coletiva, e compatibilizando o ideal comunitário com as demandas pessoais. Precisamos alimentar esta disposição mediante a prática disciplinada dos valores humanos universais cujo exercício requer autoconhecimento, vontade ética e determinação. Pra começar, tentemos ver o lado bom das pessoas, esforçando-nos para disciplinar-nos, tentando compreender e respeitar o outro no envolvimento social comum a todos. Assim suscitaremos o respeito que merecemos. Trata-se de um procedimento heroico, decisivo: a mobilização de todo potencial humano para realizar o ideal comunitário.

            Alter ego – Queres dizer inteligência, estima e vontade polarizadas pelo ideal de verdade e justiça social!...

            Ego (objetivo, mas titubeante) – Sim. Entendo, ou pelo menos alimento a esperança de que a prática virtuosa deste potencial por alguns membros da coletividade humana acabe sensibilizando os “outros” para um esforço comum no sentido de fomentar parcerias harmoniosas. Acredito que o bom exemplo pode induzir o comportamento adequado, vencendo a Insensibilidade de muitos. Quando isso não acontece, todavia, a relação interindividual frustrada representa, sempre, uma situação desconfortável.

Alter ego – E como reages a esta situação?

Ego (Pensativo) – Difícil encontrar uma resposta que não inclua o desgosto (quiçá revolta) de oferecer ao “outro” a oportunidade de mudar, sem obter (dele) qualquer retorno. Nestes momentos ajuda-nos participar de uma visão holística do mundo, respaldando a vivência mística de que a nossa indigência existencial não empobrece a harmonia final do Todo absoluto (no qual estamos incluídos) que resume a perfeição eterna, incompreensível para nossa  contingência temporal.

Alter ego – Esta maneira de encarar a interlocução existencial supõe confiança, monitorada pela fé, na Providência de um Poder absoluto que dá sentido à marcha heroica da existência pessoal, mediante uma experiência mística que transcende o puro conhecimento.

Ego (Fugindo de qualquer dramaticidade) – Exatamente. Digamos que esta espiritualidade nos sustenta quando o “outro” não atende ao apelo de solidariedade. Todavia, ninguém está isento de culpa no movimento histórico que conduz a humanidade através dos séculos. Isso nos leva a ser mais generosos com o outro. As situações que nos  enredam são consequências de nossas escolhas no passado, mas a complexidade social nos torna a todos interdependentes. Por isso, embora possa parecer contundente, podemos dizer que no fim, direta ou indiretamente, todos somos responsáveis  pelo vir a ser da própria humanidade.

Alter ego – Parece evidente que para assegurar o lugar do homem no Universo, é preciso dar uma resposta cabal ao desafio existencial da prática solidária. Negada a possibilidade de uma resposta satisfatória para o questionamento existencial[3], o fenômeno humano seria uma aberração genética letal.

Ego (Estranhamente calmo) – Os devaneios especulativos chegam a levantar  razões convincentes para apoiar a expectativa de um desfecho grandioso da consciência no mundo. Muitas vezes é-nos difícil reunir as condições para realizar a parte que nos toca. Mesmo assim, é preciso que todos saibam que sua fala ainda que improvisada é importante para a harmonia final garantida pela perfeição do Todo.

            Alter ego – À falta de certezas, o comportamento mais sensato do ser consciente será apostar nas escolhas feitas, responsavelmente, disposto a arcar com as consequências das ações assumidas conscientemente.
           
            Ego (encorajando-se) – Perfeitamente. A expectativa é que todos façamos escolhas realistas, objetivas e responsáveis ao projetar o porvir. Na verdade, não há certezas, mas prevalece a vívida esperança de um desfecho magnífico da aventura cósmica que culminou com o desabrochar da consciência[4], ao escolher, projetar e agir, responsavelmente. È mais gratificante para o homem justo, esperar, confiante, o fechamento da “existência” numa apoteose universal.

Everaldo Lopes


[1] Modo de ser peculiar do homem, consciente e responsável, portanto dotado de livre arbítrio.
[2]  Elemento ou circunstância indefinível que influi em determinada matéria ou assunto.
[3] Qual o papel da consciência livre e responsável no contexto evolucionário do Universo?
[4] Contrariando pensadores materialistas que apostam no destino entrópico da matéria, ou seja, um estado de desordem total silenciosa e imóvel do Universo

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Homenagem póstuma




Minha irmã, muito querida, Tia Maléa, assim a chamam até hoje todos os meus filhos, já não está entre nós, mas dela guardamos a presença inconfundível, numa imensa saudade.
Na sua dedicação à soberania da mensagem cristã, deixou inúmeros manuscritos nos quais comenta os Evangelhos. Suas sobrinhas Ruth e Maria Ângela tomaram para si a incumbência de digitá-los e enviá-los a mim, aos seus irmãos e amigos comuns.
Esta semana recebi o texto que vai abaixo transcrito.

(MATEUS 7, 7-11) – SABER DISCERNIR – CONFIANÇA NO PAI

Jesus nos aconselha o discernimento ao semear a sua palavra, para que seja valorizada e não usada levianamente. Suscita também em nós a confiança no Pai que ouve  e sabe dos nossos pedidos e necessidades, nunca deixando sem resposta.

Vejamos:
Saber discernir
 “Não dêem  aos  cães  o que  é santo, nem  atirem pérolas aos porcos; eles poderiam pisá-las com os pés e, virando-se, despedaçar vocês”
Confiança no Pai
“Peçam e lhes será dado! Procurem e encontrarão! Batam e abrirão a porta para vocês! Pois todo aquele que pede, recebe; quem procura acha; e a quem bate, a porta será aberta. Quem de vocês dá ao filho uma pedra, quando ele pede  um  Pão? Ou lhe dá uma cobra, quando ele pede um peixe? Se vocês que são maus, sabem dar as coisas boas a seus filhos, quanto mais o Pai  de  vocês que está no Céu dará coisas boas aos que lhe pedirem.”
------- o ------
Jesus nos orienta e aconselha a termos intimidade com Deus procurando-o, pedindo-lhe  e  batendo  a sua porta. Enfim, confiando-lhe os nossos desejos, necessidades, aflições e dúvidas, assim como um filho pede ao pai, da terra, certo de que  ele  fará  o melhor. De  forma muito mais eficaz e plena o Pai do Céu nos escutará e atenderá aos nossos pedidos.
------- o ------
Senhor Jesus!
            Entendemos a tua mensagem. Tu nos estimulas a chegar até o Pai, através da oração, do diálogo aberto com o nosso criador. Sabemos que não é necessidade do Pai, e sim necessidade do filho em sentir a mão protetora do Pai, consolo, paz e confirmação do seu amor gratuito e misericordioso. Essa intimidade confiante com o nosso Deus absoluto, e  Pai nos dá Paz interior, e a certeza de que sempre teremos um espaço reservado no seu sagrado coração de Pai.
            Senhor Jesus, deduzimos que é preciso também escutá-lo e sentir os seus sinais, as suas respostas, pois nem sempre elas estão naquilo que pedimos, e sim, no que sentimos, nos acontecimentos muitas vezes, ou quase sempre não entendidos, não compreendidos pela lógica ou desejo humanos. É preciso que saibamos confiar integralmente, pois o Pai nos dará sempre o melhor, estará sempre atento às nossas necessidades, e nos quer alegres e felizes.
Senhor Jesus, como é bom ouvir a tua palavra que nos orienta, nos ensina, aumenta a nossa fé  pequena e vacilante. Ela norteia a nossa vida e certamente através de tua Santa Palavra chegaremos ao Pai.
Meus irmãos, Façamos a nossa  oração na certeza de que o pai nos escuta e nos dará o melhor. Não procuremos entender a lógica de Deus. Não determinemos o que é melhor para nós, para o nosso irmão, para essa ou aquela situação. Nem sempre acertamos o que é melhor para os nossos filhos, como poderemos ter a pretensão de ter certeza do que é melhor para nós.
Senhor Jesus! Ninguém como tu tiveste tanta intimidade com o Pai. Ajuda-nos a orar com toda a nossa alma, todo o nosso ser. Amém.
           
Admirando a sabedoria da minha irmã, imaginei uma forma de homenageá-la, subscrevendo a interpretação amorosa que ela faz da “Boa Nova” anunciada pelo Evangelista, com minha pobre análise racional, especulativa, concordante com a sua visão mística, porém desprovida do calor humano que Maléa transmite nos seus comentários e orações. Minha intervenção é apenas um testemunho de como te entendo minha irmã!
Fiquei imaginando como se processa na intimidade existencial, a responsabilidade pessoal da criatura humana feita à imagem e semelhança de Deus...
            O Evangelista sabe que no ser consciente a presença de Deus se torna existencial pela inserção pessoal do homem no dinamismo comunitário da Santíssima Trindade - o Deus uno em três pessoas distintas: o Deus Pai, o Deus Filho e o Deus Espírito Santo.
O Genesis descreve a criação do homem “à imagem, e conforme a semelhança de Deus”; portanto, ele conserva a Sua natureza comunitária. Diante do mistério impenetrável, o intelecto tenta uma abordagem racional pobre do simbolismo que une a razão e o coração, destacando a analogia, apenas plausível, da dinâmica existencial humana com a da Santíssima Trindade.
Nesta perspectiva, o ser consciente, reflexivo, identifica-se (ego), e dialoga consigo mesmo (alter ego), numa conversa trabalhada pela criatividade (obra do Espírito) em busca de níveis cada vez mais elevados de integração dos homens entre si, e da consciência individual com a Consciência Cósmica.
Na jornada existencial, o ego e o alter-ego dialogam como  o Filho e o Pai respectivamente, em busca de solução para os problemas pessoais emergentes... neste diálogo, intermediado pela capacidade criativa (Espírito Santo), a integridade pessoal do Filho (ego) consolida-se, no contexto existencial, assimilando a comunidade humana à comunidade divina. Caminhada subjetiva em que a inspiração que move à ação responsável, justa e verdadeira revela o Espírito que une o Pai e o Filho, participando, ontologicamente, de ambos.
Quando Cristo ensina: “Pedi e vos será dado; procurai e encontrareis; batei e a porta se vos abrirá” está convidando o homem a interiorizar-se para encontrar as respostas de que precisa para alcançar a vida plena, reforçando a disposição de pô-las em prática. Então, pedir ao Pai é solicitar de si mesmo a melhor performance na solução dos problemas que afligem o Filho (o ser humano que pede), contando com a eficácia dos seus próprios recursos intelectuais, afetivos, volitivos e criativos, viabilizados pelo Espírito (Santo) para que o Filho realize a vontade do Pai.
Cristo levou à perfeição, na sua existência, a dinâmica da Santíssima Trindade. Sendo homem, como Filho realizou a proeza inexcedível de viver integralmente a vontade do Pai, confiante na assistência infalível do Espírito Santo. E assim deu testemunho autêntico dos Valores Universais do homem, convidando-nos a todos nós a segui-Lo como irmãos, incluindo a Humanidade inteira, a partir desta fraternidade, na unidade absoluta de Deus. A confiança depositada na palavra do Pai é que nos leva a exigir de cada um de nós mesmos o máximo de eficiência para a realização da Sua vontade numa verdadeira parceria. Para tanto, utilizamos os recursos humanos conhecidos e os poderes ainda desconhecidos que hão de se tornar realidades pela fé (confiança absoluta na interveniência imponderável do parceiro divino) no que dizemos e fazemos, integrados em relações intersubjetivas (comunitárias) autênticas. Nessa linha de pensamento entende-se Miguel de Unamuno, grande pensador espanhol, quando afirma que “crer não é acreditar no que não se vê, mas, criar o que não se vê”. A observação empírica da força do pensamento coletivo é uma evidência do poder da fé... sem esquecer que, vivenciada intensamente por um ou mais membros da coletividade a fé é contagiante.
Quando Jesus adverte: “Não dêem aos cães o que é santo, nem atirem pérolas aos porcos; eles poderiam pisá-las com os pés e, virando-se, despedaçar vocês”... é que na sua imensa sabedoria Ele conhece as imperfeições humanas a serem trabalhadas contra os percalços do ego, no processo de humanização. Esta advertência é apenas um lembrete pedagógico: é preciso adubar a terra para depois lançar a semente... a solidariedade fraterna não deve esquecer que é um risco certo propor idéias e condutas para as quais o outro não esteja motivado. Embora saibamos que o verdadeiro filho não se nega à vontade do Pai, mesmo que, aparentemente, ela pareça estar em detrimento da vida do próprio filho. Dando um exemplo emblemático de aceitação incondicional da Vontade suprema do Pai, Cristo se deixou crucificar.
Sobre esta visão humanista, e também mística da relação criatura / Criador cada um de nós dá testemunho da presença de Deus no seu ser temporal, transcendendo-se pela esperança de realização plena intemporal. Apoiados em especulações convincentes projetamos, assim, nossa esperança num ato de fé que nos realiza na unidade absoluta de Deus, cifrado na nossa própria existência. Maléa diz tudo isso e muito mais, nas suas ponderações simples e profundas.
Não obstante toda coerência especulativa que eu pudesse desenvolver, posso afirmar, estribado em minha experiência existencial, que, para além do rigor intelectual argumentativo, o que realmente dá segurança ao homem e suaviza a angústia do vir a ser incerto é um elemento sutil que pelo ato de fé torna efetiva a confiança (entrega) da criatura no Criador... é neste intervalo de confiança que o “dom” da fé ultrapassa ao infinito o conhecimento racional. A verdade é que ninguém consegue fechar a gestalt humana, sem o concurso da fé que redime o homem de sua contingência fatal.
Tua lição de vida minha irmã há de sempre iluminar os nossos caminhos!
Everaldo Lopes

sábado, 27 de agosto de 2011

Construindo uma visão de mundo coerente


A observação dos dados conhecidos sobre a história do mundo mostra a coerência do processo evolutivo desde a matéria primitiva, objetivando a vida consciente. Este fato demonstrável constitui-se em base sólida para a construção de uma visão de mundo convincente.  Teilhard de Chardin[1] chamou a atenção, repetidamente, para a complexidade crescente da matéria em organizações cada vez mais complicadas, deste o “big bang”. Evolução que se comprova pelo estudo da trajetória evolutiva do cosmo até a emergência da vida e, finalmente, a eclosão da consciência.
Impõe-se, então a pergunta: como tudo isso começou? Os pensadores se dividem entre  o acaso e  a intervenção de um ordenador supremo – o Criador? Contra a primeira proposta explicativa levanta-se uma limitação de tempo.   Segundo estimativas estatísticas descritas por Lecomte du Nouy[2],  a Evolução do cosmo teria chegado, hoje, no máximo, à produção de uma molécula proteica das mais simples. Daí porque, tendo em vista o estádio evolutivo da matéria alcançado em nossos dias, aceitar que  tudo resultou da sucessão de acasos felizes altamente improváveis levaria a admitir a necessidade de um “anti acaso”[3] que, epistemologicamente, assumiria as características do Criador.  Diante disto, a lógica racional ratifica a hipótese criacionista. Embora a ideia de um Criador, necessariamente cifrado na própria criação [4] seja, aparentemente, tão fantástica quanto a geração casual do Universo ou a eternidade da matéria. Todavia a complexidade crescente da matéria revela, necessariamente, uma intenção implícita comandando o processo evolutivo que, de outra forma não teria caminhado bilhões de anos fiel ao projeto de uma consciência reflexiva. Como uma extensão desse raciocínio, sendo a “intenção” um fenômeno da esfera da consciência, a ordem crescente à qual obedeceu a organização da matéria pressupõe uma Consciência Absoluta (Deus), berço do Universo. Assim, a tese espiritualista, criacionista ganha corpo e a ela nos filiamos,  por coerência especulativa, embora não se possa prová-la, objetivamente.
Dado este primeiro passo surge outra questão. A afirmação de um Criador implica a necessidade de definir a Sua relação com a criatura consciente, o homem, e o lugar deste no plano da Criação.  A emergência da consciência conata da liberdade individual é o ponto crítico da Evolução. Não se pode entender liberdade sem consciência e vice-versa. No roteiro evolutivo, este ponto crítico se caracteriza pelo desvio processual, da linearidade determinista das reações físico-químicas e feedbacks biológicos indispensáveis, para a tomada de decisões livres e conscientes inerentes a uma complexidade que torna imprevisível o comportamento humano. O homem (ser consciente e responsável[5]) passou a ser o divisor de águas da Evolução, agora voltada para a organização social, política e econômica da sociedade. O papel do homem no contexto da Evolução é o de promover a comunidade humana, ou seja, a convivência comunitária alicerçada na solidariedade que é fundamental para a sobrevivência da espécie Homo Sapiens sapiens. Mas, consciência livre e responsável implica no livre arbítrio. Em razão disto o homem tornou-se um ser problemático, de vez que pode desgarrar-se “momentaneamente” do plano do Criador. Para evitá-lo ele se impõe o dever de escolher o caminho do equilíbrio existencial, integrando-se, harmoniosamente, na consciência universal. Nesse perfil comportamental, para fazer suas escolhas o homem define uma estrutura de orientação ligada a uma visão de mundo correspondente à tese espiritualista criacionista. Nessa perspectiva a matéria não resume toda realidade, e a consciência não é apenas um epifenômeno dela dependente, mas uma manifestação do Espírito Eterno (criador) que manipula a matéria com propósitos que a transcendem e vão além do próprio homem. A relação entre a liberdade absoluta (do Criador) e a liberdade contingente (da criatura) é um dos capítulos mais árduos da Teologia e não tenho fôlego para mergulhar tão fundo,   embora reconheça que ambas se encontram no exercício da consciência responsável. Na trilha desse encontro se revela a ética da solidariedade  que garante a sobrevivência da espécie Homo Sapiens sapiens.   Todo esforço normativo implícito na obediência a esse valor visa, em última análise, ajudar a resolver a problemática do ser consciente ao exercitar sua própria liberdade sem ferir a do “outro”, e sem sucumbir às incertezas do vir a ser, fonte da angústia existencial.
Impõe-se, portanto, indagar como consolidar a paz e a tranquilidade do homem (indivíduo) face à consciência da própria finitude e da inevitabilidade da morte. Seria  possível ao ser consciente conviver sem sobressaltos com sua condição de ser para a morte? A experiência milenar da humanidade demonstra que a consciência da finitude e o desejo de permanecer no “ser” são os polos de uma contradição inerente à condição humana. Como tal ela (a contradição) pode ser elaborada, mas nunca resolvida com naturalidade. Na busca de uma explicação que permitisse uma abordagem resolutiva para a problemática humana  criaram-se os mitos, as religiões e desenvolveu-se o pensamento filosófico metafísico. Mas só a experiência mística pode dar ao homem a verdadeira dimensão de suas  possibilidades existenciais, e uma resposta cabal aos seus anseios transcendentais.
Na maior parte do tempo temos de conviver com a consciência da precariedade da existência. Certamente, nesta perspectiva o estado de espírito acompanhante é influenciado pela ideia que fazemos da morte. Um sono eterno, sem sonhos(?), ou a possibilidade da vivência plena  da verdade, da beleza e da bondade com que sonhamos a vida inteira e sempre nos escaparam? São duas visões diferentes correspondentes, respectivamente, à mundividência materialista, e à espiritualista que fazem eco no “ser” consciente. De um lado, é comovente o desamparo do materialista ateu diante da aceitação tácita do fim inevitável. Para os espiritualistas criacionistas tudo depende do tipo de relação vivida na subjetividade individual, entre a criatura e o Criador. Neste grupo me incluo, participando da crença na “cosmogonia criacionista, espiritualista, monista” . Na verdade, não me parece compatível com a concepção de um Deus único, qualquer tipo de maniqueísmo, portanto, tudo deverá culminar, necessariamente, numa apocatástase[6] consistente na salvação final de todos os homens, ou seja, “...na restauração final de todas as coisas na unidade absoluta de Deus”. Tese proposta por Orígenes e condenada pelo Santo Ofício, como heresia, no século III da era cristã.
Não obstante o fundamento ontológico da espiritualidade assim concebida, não se está impedido de construir uma estrutura de orientação prática para o comportamento humano. Tomando a Evolução como um dos fundaments da realidade conhecida pode-se construir uma ética racional que garanta a sustentabilidade da Evolução. Mas o comportamento puramente ético apenas atende os requerimentos sociais, não satisfaz, plenamente, o desejo humano de transcendência absoluta que caracteriza o ser consciente. Por isso, a elaboração da angústia existencial  difere entre materialistas e espiritualistas. O materialista esbarra na postura estoica, convencido de que nada mais há depois da morte, enquanto o espiritualista alimenta a esperança de desfrutar a plenitude inexcedível do “ser”, depois da morte, mercê da misericórdia do Criador, necessariamente, fonte inesgotável de amor. 
Para a nossa visão espiritualista, não eclesiástica, a opção mais coerente do ser consciente é manter-se totalmente submisso à vontade do Criador impressa nas leis da Natureza, fiel à consciência da verdade e da justiça que devem presidir as relações humanas. Uma postura ética racional compatível com a responsabilidade do homem de cumprir o seu papel no processo evolucionário. Na sua precariedade contingente a criatura não tem como ganhar merecimento para cobrar do criador uma intervenção pessoal nas dificuldades inevitáveis que lhe sobrevêm durante a vida. Teoricamente, esta é a perspectiva da relação criatura / Criador no  catecismo humanista racional; tudo que a criatura recebe é por pura misericórdia divina, contrastando com a proposta eclesial que antropomorfiza Deus, e garante ao crente ganhar a interseção divina mediante suas  orações e pedidos. Não obstante, as Religiões ocupam lugar de destaque na história do homem. A opção por uma das posturas espiritualistas passa a depender da sensibilidade de cada um. Cabe aqui lembrar, a bem da verdade, a repercussão psicológica benéfica dos rituais religiosos na atitude psíquica afetiva do homem, e nas suas relações sociais (intersubjetivas). Há grandes experimentos coletivos que demonstram ser a convergência de muitas mentes no sentido de um objetivo colimado, determinante da sua concretização. Para os verdadeiros místicos, porém, é marcante a intimidade subjetiva, pacífica e enriquecedora com o Criador, sem intermediários, e através dele a comunhão com o Universo inteiro. Orar seria conversar com Deus. A forma como se desenvolve a relação criatura / Criador depende, então, do temperamento do crente, do seu quociente intelectual e emocional, bem como de fatores indeterminados que arrolamos como imponderáveis. No conjunto, estas atitudes subjetivas e as circunstâncias em que vivem as pessoas, delimitam sua espiritualidade. Há inclusive as que necessitam da caracterização simbólica da transcendência, a fim de exercitar sua espiritualidade mediante rituais institucionalizados. O papel das religiões convencionais é, exatamente, traduzir em sinais palpáveis, criados pela fé, o símbolo abstrato de um Poder superior incompreensível à luz da razão, mas vivenciado como presença sutil no mais íntimo da subjetividade.
Everaldo Lopes


[1] Pe. Jesuita, Teólogo, Filósofo e Paleontólogo francês.
[2] Biofísico francês e Filósofo.
[3] Artur Edington – Astrofísico inglês
[4] Sem o suporte de um “Dinamismo absoluto eternamente criativo” a matéria (contingência)não teria condições de subsistência.
[5] Esta é, a meu ver, a definição antropológica mais fiel à realidade.
[6] Retorno de todos os seres à sua condição original de ausência de culpa, esp., nas tradições judaico-cristãs, pela graça da redenção divina (Houauss 3)


[7] Que inspira “fascinação”, “terror” e “aniquilamento”... Sentimento numinoso, termo cunhado por Rudolph Otto Teólogo Alemão.