sábado, 20 de agosto de 2011

Devaneio especulativo III


A autenticidade existencial e o vínculo comunitário.

Do ponto de vista evolutivo é admissível que os símbolos[1] presentes no “inconsciente coletivo”[2]  sejam a linguagem cifrada da passagem crítica da atividade neuronal cerebral integrada, para o estado de consciência reflexiva que marca a emergência do homem, ou seja, de um ser consciente, livre e responsável.
Estes símbolos representam a intimidade da condição humana com os estágios primários da psique animal. Sobre eles se estratifica a consciência individual que evolui através do processo da “individuação”[3]. Assim, o modo de ser peculiar do homem (a “existência”) fundamenta-se no exercício da consciência individual livre e responsável.
Neste nível, a concordância entre a formalidade do comportamento e sua consistência intelectual, afetiva, e volitiva é o sinete da autenticidade. O gesto amoroso, apenas, sem o background existencial, não basta... não realiza o milagre do amor genuíno - sentimento complexo e arrebatador que é a senha para acesso à plenitude existencial das interações humanas.
A maturidade intelectual e afetiva da relação intersubjetiva se constrói ao longo do processo da individuação. Processo no qual se cruzam e integram a espiritualidade e a dinâmica psicológica. A espiritualidade é o elo entre a história que escrevemos com nossa “existência temporal” e a extensão transcendental da “existência”, centrada na eternidade do Espírito (“Consciência Universal”)... Está vinculada ao processo de humanização implícito na descoberta progressiva e assimilação vivencial dos “valores existenciais”[4] que sintetizam as dimensões objetivas e espirituais do homem, comprometendo-o por inteiro, razão, sentimento e vontade, no exercício da consciência responsável. Na sequência dos estádios evolutivos da “individuação”, a resposta pessoal às necessidades do “outro” evoluirão, idealmente, da indiferença à solidariedade. Desta forma, na melhor hipótese, a individuação sedimentará os estágios progressivos dos elementos intelectuais e afetivos das relações humanas, tornando o indivíduo mais flexível, tolerante e compreensivo. O amor reúne todas estas potencialidades virtuosas, sintetizando-as num sentimento sutil de integração. Porém o amor, tal como a fé, não é algo que se imponha ou ensine a alguém. O amor e as demais virtudes teologais (fé e esperança) são dons. Obviamente, todos os homens carregam a predisposição para exercitá-los como dotes que precisam ser cultivados, diligentemente, desde as suas manifestações mais incipientes. Estas manifestações são estimuladas na infância através do convívio familiar amoroso e “verdadeiro”... e desenvolvidas na idade adulta mediante o esforço assimilativo do respeito à pessoa do outro”. O cultivo das práticas virtuosas requer empenho criativo e compromisso que demandam do indivíduo a determinação necessária. Quando falta o entusiasmo inerente ao exercício deste compromisso existencial, abre-se espaço para o comportamento ético baseado no dever, ou seja, na prática obrigatória dos valores que honram a dignidade do ser consciente. Mas o dever não gera amor, embora mantenha a ordem social.
No processo de individuação, todavia, recorre-se frequentemente à prática valorativa de preceitos normativos impostos pelo medo da punição, ou pelo “suborno”, mediante a promessa de vantagens materiais, e até da salvação eterna. Este recurso leva a um comportamento ético, ou religioso, estruturado no dever... Diferente da conduta ontologicamente estruturada no amor.
Em verdade, o comportamento humano autêntico fundamenta-se no sentimento amoroso indissociável da solidariedade entre os homens. Neste contexto, a conduta ética flui como uma decorrência linear da natureza humana. Mas uma vez que não se pode ensinar a amar, o catecismo humanista deverá enfatizar a “compreensão” dos limites da condição humana, e a constatação  de que a solidariedade comunitária é indispensável para a mais completa realização pessoal. Entendendo profundamente o papel da condição humana no processo evolutivo, as pessoas se darão conta da necessidade de estabelecer relações intersubjetivas verdadeiras em que o “eu” e o “tu” se integram na complementaridade recíproca do “nós” que os une no mesmo destino histórico. Se forem convencidas de que a solidariedade é condição sine qua non para a sobrevivência da espécie humana, as pessoas reconhecerão que sem os “outros” não sobrevivem, e serão induzidas a abrir mão do egoísmo suicida, em prol da convivência comunitária.
Quando existe amor, o gesto generoso é espontâneo e existencialmente rico. Inspirado pelo dever, o mesmo gesto nobre é válido de imediato pelas consequências sociais positivas que produz... mas só a longo prazo, a repetição do comportamento generoso, torna o doador uma pessoa melhor, envolvendo-o em interações humanas peculiares, estimulantes da fraternidade. Desta forma, é provável que o comportamento ético acabe produzindo ressonâncias pessoais naqueles que insistem, por “obrigação”, na pratica de comportamentos magnânimos.
Tendo em vista o egoísmo natural do homem, é necessário o direcionamento da vontade no sentido da prática “solidária” em relação às necessidades do outro. A compreensão de que todos somos capazes das melhores e das piores coisas nos torna menos pretensiosos e une mais as pessoas. Cônscios da fragilidade existencial, e da necessidade racional de adesão a uma ética inclusiva, mesmo que nos faltem as virtudes essenciais vale a pena insistir na prática da verdade e da justiça. Compreendendo a história e as fraquezas do outro podemos repudiar os seus equívocos comportamentais, sem, contudo, amaldiçoá-lo, negando-lhe o perdão. Não faríamos jus à dignidade que nos confere a condição de seres conscientes e responsáveis, se não respeitássemos a dignidade pessoal do outro e sua capacidade de recuperação. Todavia, a postura correta demanda elaboração pessoal, não emana sem esforço. Portanto, o empenho em compreender o outro e tratá-lo tão generosamente quanto possível torna-se, no mínimo, uma obrigação para o ser consciente e responsável. Seguindo este caminho o homem pode finalmente assumir o comportamento solidário, comunitário, indispensável à sobrevivência da humanidade, mesmo que não esteja empolgado pelo amor que redime.
Assim, à falta da solidariedade amorosa, a abordagem intelectual especulativa centrada na verdade e na justiça social constitui-se em base sólida para uma prática ética racionalmente concebida, que podemos considerar uma forma incipiente de amar.
O primeiro passo, como vimos, é o reconhecimento da pobreza existencial, comum a todos os homens. Uma vez conscientes da precariedade da condição humana é de esperar que percamos as carapaças egóicas durante o percurso da jornada existencial, purificando o sentimento de fraternidade no convívio responsável com os outros no mundo.
Define-se assim um fundamento racional para as relações interpessoais solidárias que sedimentam os vínculos comunitários[5]. Na trilha da “compreensão” que se pode considerar como um marco elementar da convivência amorosa, precisamos estar de bem com nossa própria fragilidade, sem ódios ou ressentimentos, para acolher o próximo, compreensiva e empaticamente. Numa perspectiva espiritualista diria: Afinal somos todos “Um” na unidade comunitária de todas as consciências... Ideia que resume a presença de um “dinamismo absoluto eternamente criativo” (Deus), misteriosamente, imanente e transcendente no próprio homem e no mundo... verdade de fé que a razão, todavia, pode tangenciar amparada em especulações coerentes.   
Everaldo Lopes



[1] Aquilo que, por sua forma ou sua natureza evoca, representa ou substitui, num determinado contexto, algo abstrato ou ausente:
[2]  Parte do inconsciente individual que procede da experiência ancestral e transparece em certos símbolos encontrados nas lendas e mitologias antigas, constituindo os arquétipos. (Aurélio sec.XXI)
[3] Processo por meio do qual uma pessoa se torna consciente de sua individualidade, de acordo com C.G. Jung (1875-1961) (Houaiss, dic.)

[4] Consciência, liberdade, responsabilidade, veracidade.
[5] Agrupamento que se caracteriza por forte coesão baseada no consenso espontâneo dos indivíduos.  Houaiss.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Um esclarecimento oportuno.

          
            Imagino que o comentário de Ruth sobre “devaneio Especulativo II” deu voz a muitos leitores desejosos de uma compreensão mais objetiva do assunto em pauta. Seu depoimento me mostrou ser necessário um adendo explicativo do objetivo do texto em referência e da metodologia utilizada.
Todas as dificuldades da leitura em questão giram em torno da impossibilidade lógica de unir, funcionalmente, conceitos antitéticos como transcendência e imanência, eternidade e tempo. O “senso comum”[1] separa radicalmente estes opostos. De fato, a compreensão unitária destes termos contrapostos é inacessível à razão humana.  Esta impossibilidade lógica é, certamente o motivo, por exemplo, da crença num Deus Criador (transcendência absoluta) “separado da sua criação”, reinando sobre as criaturas (imanência) como uma entidade distante!... Crença que varou os séculos e continua viva no espírito dos homens!... A contradição semântica, implícita nesta crença é ignorada pelo senso comum que não questiona a ilogicidade da existência de um Deus (transcendência absoluta), dialogando com suas criaturas (imanência), como realidades distintas. Nesta perspectiva, a convicção religiosa subentende, sem analisar, que a imanência, uma vez criada assume o “caráter de ser por si mesma” o que faria dela um absoluto... e isto é, logicamente, inaceitável porque não pode haver dois “absolutos”, um transcendental (espiritual – criador) e outro imanente (material - criado)... Por definição, o absoluto é inclusivo e nada deixa de fora... desta forma configura-se e pratica-se a incoerência de separar o Criador, da sua obra.
Do ponto de vista racional, o problema começa com o reconhecimento da impossibilidade lógica de explicar o Universo por ele mesmo. Como explicá-lo, então? Nestas circunstâncias desponta a necessidade lógica especulativa de um Dinamismo Criativo Absoluto (DCA) que existe em si e por si, responsável pela criação do Universo (imanência) e, logicamente, por sua subsistência... pois, entregue à sua própria sorte depois de criada, a imanência  não subsistiria como tal. Então, teoricamente, o Absoluto Criativo original deve incluir a imanência como sua extensão... A criação é, pois, necessariamente, um processo contínuo original e eterno...
A admissão da inseparabilidade da transcendência e da imanência no Dinamismo Absoluto Eternamente Criativo leva a devanear sobre a “continuidade misteriosa do Criador na criatura, não obstante a descontinuidade essencial entre ambos!” Situação contraditória, misteriosa, que se espelha em expressões poéticas como: “Alma, estado divino da matéria!...”[2] ou, invertendo os termos deste verso: Matéria, estado temporal de Deus!
Na impossibilidade de explicar a unidade das antíteses, inerente à realidade humana (espírito e matéria centrados pela consciência do eu) valemo-nos do artifício de justificá-la como uma situação ilógica (absurda) embutida em outra de cuja lógica formal não se pode duvidar, qual seja a impossibilidade de dois absolutos... Nesta perspectiva se alinham outras afirmações assimiláveis a abstrações de abstrações como as que se seguem: “O `espírito´ e o corpo físico não são entidades diferentes, mas uma alternância criadora na qual o Espírito eterno ora projeta, virtualmente, uma imagem corporal no tempo, ora a recolhe no Seu seio onde se realiza a unidade de tudo quanto existe...” ... “O Espírito (eterno) já está presente aqui e agora neste corpo, o meu, o seu, e o dos entes que povoam o mundo. É-lhes imanente e transcendente... e esta diferença formal pode ser experienciada pelo homem, como uma unidade ao identificar-se como um “eu”, sem que se tenha uma explicação racional da alquimia psíquica desta vivência. Eis o mistério que a Teologia[3] enfeixa num conjunto de conhecimentos fundamentados no ato de fé.” ...“Para o homem, a morte seria a porta que comunica o mundo `virtual´ (visível, aparente), e o mundo Espiritual, o universo real das essências das quais o mundo visível é apenas uma projeção (recapitulando a intuição platônica)![4] Por outro lado, considerando a impossibilidade de traduzir conceitos abstratos em linguagem objetiva, recorro nos “devaneios especulativos” ao recurso de analogias, contradições, palavras e expressões em sentido figurado, metáforas, representando realidades complexas que não comportam definições perfeitas... A intenção não é transmitir um “conhecimento, mas despertar no espírito do leitor a emergência de símbolos que levem à intuição sugestiva de uma realidade indescritível”. Nesta perspectiva, permitimo-nos pensar o espaço e o tempo como Projeções virtuais do Espírito Eterno. Numa leitura linear, este linguajar é inconsistente para uma lógica dualista, enquanto tributário de um monismo espiritual... Mas, deixando solta a verve imaginativa, pode-se esperar, no sujeito pensante, a eclosão de uma intuição ou vivência de integração cuja raiz simbólica é a “unidade” Criador/criação, Consciência/mundo. Consideramos estas experiências equivalentes à da unidade Criador/criatura (integração mística num todo significativo) e a da auto-referência do “eu”. Na primeira não se pode estabelecer o limite entre a transcendência e a imanência; na segunda é igualmente impossível estabelecer o limite entre o ser biológico e o “espírito” que o transcende, reflexionando, para a identificação do “eu” pessoal.
“Todos reconhecemos no homem, aptidões sutis (intuição criadora, inteligência linguístico matemática...) que não se explicam, linearmente, pelas funções biológicas...” De que forma, estas aptidões sutis (espirituais), se manifestam funcionalmente através do Sistema Nervoso Central com participação decisiva do córtex cerebral (servomecanismo biológico)?... Jamais se entenderá, como se processa a transdução[5] da energia bioquímica do Sistema Nervoso, operando na intimidade do neurônio, em atividades psíquicas específicas como o pensamento, a intuição criadora e a vontade. Neste sentido pode-se afirmar que “Jamais se poderá estabelecer na intimidade biopsíquica o limite entre o espírito e a matéria...”
A Física Quântica afirma que os objetos não são coisas determinadas; os objetos são certas possibilidades escolhidas pela “consciência” dentre as inúmeras que fluem na onda permanente e infinita de possibilidades. Esta visão dá suporte a uma compreensão da realidade que dispensa o dualismo, porque ao escolher, sendo o cérebro escolha da consciência, estaria escolhendo as possibilidades da própria consciência. O que corresponderia dizer, numa linguagem mística: DEUS É CONSCIÊNCIA.[6]
Quando falo do presente como uma brecha no tempo refiro-me a um ponto móvel que separa no “agora”, as lembranças (passado), das expectativas (futuro)... O “agora” passa a ser o presente “temporal” no qual a gente vive (experimenta o tempo). O “presente”, aquele ponto móvel no “agora”, que não se esgota nunca... este “presente” é a própria escolha, não o fisgamos jamais porque não é mensurável temporalmente... Como uma manifestação espiritual é percebido sob a forma de uma vivência da disponibilidade total permanente de liberdade de escolha dentro do “agora” em que está contextualizado... “liberdade” e “consciência” se confundem na escolha. Não podemos descrever este lance fundamental da existência, uma vez que não tem expressão temporal, mas podemos rastreá-lo pela ação transformadora da “existência” (consciência responsável – reflexo da consciência cósmica) que vai deixando uma trilha de atos concretos alinhados, memorizados como passado. Ora, o que é intemporal é eterno! Logo, a eternidade permeia o “agora” no “presente”.
Nestes “Devaneios Especulativos”, não pretendemos alcançar um conhecimento objetivo (impossível, no caso), mas tão somente sensibilizar a criatividade intuitiva e vivencial do leitor. E para esta sensibilização usamos uma linguagem simbólica que busca arrimo na lógica especulativa, sem o apoio de evidência sólida. Creio que esta especulação sobre as verdades de fé foi uma forma que encontrei de domar a minha índole racionalista, sensibilizando-me a mim mesmo para o exercício da fé num Dinamismo Absoluto Eternamente Criativo que cuide da Sua “criatura”. Crença difícil de cultivar quando a gente perde a ingenuidade infantil. Na verdade, as especulações metafísicas não substituem a ingenuidade, porém ajudam a mostrar a necessidade de ser humilde para participar da convicção íntima de um absurdo lógico... esta é a verdadeira essência da fé: crer num Absoluto (Princípio constitutivo e explicativo de toda realidade) que, obviamente, não se enquadra nas categorias racionais.
Mas não basta numa primeira etapa reconhecer, intelectualmente, a existência de “Deus” mediante a ajuda de lucubrações especulativas... algumas fundamentadas em dados científicos tirados da pesquisa quântica. É preciso senti-Lo como guia e protetor na peregrinação existencial que cada um de nós faz ao longo do ciclo biológico. Esta segunda etapa da evolução espiritual envolve sentimentos que a razão não controla... demanda disposição psíquica afetiva peculiar que não se ensina... resulta de experiências pessoais intransferíveis. Amparado pela lógica discursiva vivi a primeira etapa da caminhada mística, existencial, com certa facilidade. Porém, marcado por experiências emocionais arcaicas, vividas nos primórdios do meu ciclo biológico, que inscreveram as pautas comportamentais do meu caráter, sinto dificuldade de superar a segunda etapa, para colher os frutos de uma verdadeira fé. Preso às tendências inscritas na minha psique, simplesmente, não consigo sentir-me cuidado e protegido por um poder maior (senão pontualmente, em momentos especiais), mas gostaria de experimentar esta proteção... Embarafustado nos meus medos, incertezas e angústias, esforço-me, consciente e voluntariamente, para me tornar receptivo à proteção transcendental que, inconscientemente, não me permito ter... É assim que funciona o inconsciente influindo dissimuladamente no vir a ser consciente. Nada me garante que alcançarei realizar a entrega mística, mas continuarei tentando até o fim... não há outra solução para o problema humano!
Everaldo
[1]  Conjunto de opiniões e modos de sentir que, por serem impostos pela tradição aos indivíduos de uma determinada época, local ou grupo social, são ger. aceitos de modo acrítico como verdades e comportamentos próprios da natureza humana.  (Aurélio sec.XXI)
[2] Raul de Leoni no poema, “De um Fantasma”.
[3] Ciência ou estudo que se ocupa de Deus, de sua natureza e seus atributos e de suas relações com o homem e com o universo (Houaiss3)

[4] Vide “O Mito da Caverna, de Platão, descrito por Marilena Chaui no seu livro Convite à Filosofia... Ler o anexo ao fim do texto.


[5] Processo pelo qual uma energia se transforma em outra de natureza diferente.

[6] Vide  ao “Ativista Quântico” de Amit Goswami


O mito da caverna.
“Imaginemos uma caverna separada do mundo externo por um alto muro, cuja entrada permite a passagem da luz exterior. Desde seu nascimento, geração após geração, seres humanos ali vivem acorrentados, sem poder mover a cabeça para a entrada, nem locomover-se, forçados a olhar apenas a parede do fundo, e sem nunca terem visto o mundo exterior nem a luz do Sol. Acima do muro, uma réstia de luz exterior ilumina o espaço habitado pelos prisioneiros, fazendo com que as coisas que se passam no mundo exterior sejam projetadas como sombras na parede do fundo da caverna. Por trás do muro, pessoas passam conversando e carregando nos ombros figuras de homens, mulheres, animais cujas sombras são projetadas na parede da caverna. Os prisioneiros julgam que essas sombras são as próprias coisas externas, e que os artefatos projetados são os seres vivos que se movem e falam atrás do muro. Um dos prisioneiros, tomado pela curiosidade, decide fugir da caverna. Fabrica um instrumento com o qual quebra os grilhões e escala o muro. Sai da caverna, e no primeiro instante fica totalmente cego pela luminosidade do Sol, com a qual seus olhos não estão acostumados; pouco a pouco, habitua-se à luz e começa ver o mundo. Encanta-se, deslumbra-se, tem a felicidade de, finalmente, ver as próprias coisas, descobrindo que, em sua prisão, vira apenas sombras. Deseja ficar longe da caverna e só voltará a ela se for obrigado, para contar o que viu e libertar os demais. Assim como a subida foi penosa, porque o caminho era íngreme e a luz ofuscante, também o retorno será penoso, pois será preciso habituar-se novamente às trevas, o que é muito mais difícil do que habituar-se à luz. De volta à caverna, o prisioneiro será desajeitado, não saberá mover-se nem falar de modo compreensível para os outros, não será acreditado por eles e correrá o risco de ser morto pelos que jamais abandonaram a caverna.
A caverna, diz Platão, é o mundo sensível onde vivemos. A réstia de luz que projeta as sombras na parede é um reflexo da luz verdadeira (as ideias) sobre o mundo sensível. Somos os prisioneiros. As sombras são as coisas sensíveis que tomamos pelas verdadeiras. Os grilhões são nossos preconceitos, nossa confiança em nossos sentidos e opiniões. O instrumento que quebra os grilhões e faz a escalada do muro é a dialética. O prisioneiro curioso que escapa é o filósofo. A luz que ele vê é a luz plena do Ser, isto é, o Bem, que ilumina o mundo inteligível como o Sol ilumina o mundo sensível. O retorno à caverna é o diálogo filosófico. Os anos despendidos na criação do instrumento para sair da caverna são o esforço da alma, descrito na Carta Sétima, para produzir a “faísca” do conhecimento verdadeiro pela “fricção” dos modos de conhecimento. Conhecer é um ato de libertação e de iluminação.
O Mito da Caverna apresenta a dialética como movimento ascendente de libertação do nosso olhar que nos libera da cegueira para vermos a luz das ideias. Mas descreve também o retorno do prisioneiro para ensinar aos que permaneceram na caverna como sair dela. Há, assim, dois movimentos: o de ascensão (a dialética ascendente), que vai da imagem à crença ou opinião, desta para a matemática e desta para a intuição intelectual e à ciência; e o de descensão (a dialética descendente), que consiste em praticar com outros o trabalho para subir até a essência e a ideia. Aquele que contemplou as ideias no mundo inteligível desce aos que ainda não as contemplaram para ensinar-lhes o caminho. Por isso, desde o “Menon”, Platão dissera que não é possível ensinar o que são as coisas, mas apenas ensinar a procurá-las.
Os olhos foram feitos para ver; a alma, para conhecer. Os primeiros estão destinados à luz solar; a segunda, à fulguração da ideia. A dialética é a técnica liberadora dos olhos do espírito.
O relato da subida e da descida expõe a paideia como dupla violência necessária: a ascensão é difícil, dolorosa, quase insuportável; o retorno à caverna, uma imposição terrível à alma libertada, agora forçada a abandonar a luz e a felicidade. A dialética, como toda a técnica, é uma atividade exercida contra uma passividade, um esforço (pónos) para concretizar seu fim forçando um ser a realizar sua própria natureza. No mito, a dialética faz a alma ver sua própria essência (eidos) – conhecer – vendo as essências (ideia) – o objeto do conhecimento –, descobrindo seu parentesco com elas. A violência é libertadora porque desliga a alma do corpo, forçando-a a abandonar o sensível pelo inteligível.”


sábado, 16 de julho de 2011

Devaneio especulativo II

As contradições da existência, a razão e a fé, o presente eterno.

O ser consciente existe como uma organização biológica altamente diferenciada, porém perecível, mas aspira a conservar a vida indefinidamente... Esta aspiração impossível para um ser temporal envolve a “noção de eternidade”, contraponto do tempo que se exaure no mundo visível e, obviamente, na vida biológica... obrigando-se, o homem, coerentemente, a elaborar a aceitação da própria finitude.
A noção de “eternidade” não nos chega pelos sentidos. Não é uma realidade definível. Semanticamente, poder-se-ia concebê-la como um conceito indefinido (não tempo)... De qualquer forma “eternidade” corresponde á idéia de algo abstrato, comum ao espírito, que não tem começo nem fim, que transcende o mundo aparente.
Jamais se poderá estabelecer na intimidade biopsíquica o limite entre o espírito e a matéria... da mesma forma que, analogicamente, a onda energética e a partícula se alternam de maneira imprevisível sem que haja separação essencial entre ambas. Poeticamente já se disse: “Alma, estado divino da matéria!”[1]... Invertendo a ordem dos fatores, diríamos (centrados numa cosmogonia espiritual monística) que a matéria é o estado temporal de Deus (Espírito Absoluto). Na verdade, ao admitir a hipótese criacionista, não há como pensar a unidade imanência / transcendência... Mas a presença e coerência evolutiva do Universo aponta para uma “continuidade” misteriosa do Criador, à criatura, na descontinuidade essencial entre ambos... Essa unidade inacessível à compreensão humana é o mistério do qual somos uma legenda ilegível. Este modo de pensar contraditório é o que mais se aproxima de uma descrição da realidade que vivemos como seres conscientes racionais... Realidade que não se pode descrever de forma clara. Quando queremos falar dela (uma contingência capaz de transcender-se!) transitamos, epistemologicamente, entre o enunciado de uma problemática real e a elaboração de uma idéia fantástica que só se torna real quando vivenciada pela fé, na experiência da integração comunitária de todos os homens...
Todos reconhecemos no homem, aptidões sutis (intuição criadora, inteligência linguístico matemática...) que não se explicam, linearmente, pelas funções biológicas... Todavia, não é reconhecível a intimidade  essencial entre o Espírito e a realidade biológica... Por isso a história do pensamento filosófico registrou, em certo momento, a adesão à tese de dois Princípios antitéticos (um espiritual, outro material), compatível com um maniqueísmo primário. Exclui-se este maniqueísmo ao afirmar-se que o “espírito” e o corpo físico não são entidades diferentes, mas uma alternância criadora na qual o Espírito eterno ora projeta, virtualmente, a imagem corporal no tempo, ora a recolhe no Seu seio onde se realiza a comunidade de todas as consciências... Esta ideia soa irracional ou fantasiosa até o momento em que a Física Quântica nos anuncia que a realidade não passa de miríade de possibilidades dentre as quais algumas se atualizam ao cruzar com a “consciência localizada”. Nesta perspectiva faria sentido dizer que o espaço e o tempo são projeções virtuais do Espírito eterno... A morte física representaria, então, a supressão da imagem virtual (o corpo físico), recolhida ao Espírito, Consciência Cósmica, Berço do Universo. O Espírito (eterno) já está presente aqui e agora neste corpo, o meu, o seu, e o dos entes que povoam o mundo. É-lhes imanente e transcendente... e, no homem esta diferença pode ser vivida como uma unidade, sem que desta experiência se tenha uma explicação racional. Eis o mistério que a Teologia[2] estuda num conjunto de conhecimentos fundamentados no ato de fé. Assimilado este “devaneio metafísico”, para o homem, a morte seria a porta que comunica o mundo “virtual” (visível, aparente), e o mundo Espiritual, o universo real das essências que se fundem num só ser absoluto (recapitulando a intuição platônica)!
Como vimos no texto anterior, a operacionalidade da vida temporal para o homem está no “agora”, o momento que reúne lembranças e expectativas imediatas, separadas pelo “presente” -  janela da eternidade no tempo. O homem tem dificuldade em deixar-se absorver no “presente”, vivendo-o integralmente, porque este é uma brecha no tempo, ausência (colapso) que não é apreensível como realidade temporal. A plenitude deste “presente” sem passado nem futuro é a própria eternidade. O homem só o vive, enquanto existência temporal, numa experiência mística na qual o tempo não conta. Em resumo, vivemos na eternidade ao experimentar o tempo no polimorfismo da contingência fugaz! O ponto crítico da “existência” não se define, pois, pelo objetivo escolhido que se pode alcançar com trabalho, tempo e talento, e se resolve na posse de um objeto do desejo motivo da felicidade do “eu” agente. Embora tudo isso tenha seu lugar na realização pessoal, histórica (presença no mundo), o que é mais importante na existência é a “posse” do que não podemos manipular, o “presente” sempre mascarado pelo agora[3], entendido como uma extensão da própria eternidade. O presente é, pois, como um “colapso do tempo” que vivenciamos, numa experiência singular, e assim nos tornamos o pulsar da eternidade, marcando o tempo! No nível existencial, histórico, nesta brecha cada um atualiza, criativamente, com maior ou menor brilho, uma das infinitas possibilidades de “ser” preexistentes no Absoluto eterno e único. A ação, em sua emergência é temporalmente imensurável; quando ela é identificada, o ato gerador do “novo” já é passado. Assim, na esfera pessoal cada gesto ou ação corresponde a uma projeção virtual da eternidade, desfocada pela finitude da contingência na qual se revela o Espírito criador. Esta visão espiritualista está presente no pensamento hinduísta que introduziu o conceito “maia” - aparência ilusória da diversidade do mundo que oculta a verdadeira unidade universal... e resvala na intuição platônica do mundo das ideias, eterno e imutável, modelo das coisas sensíveis, objeto de contemplação pelo pensamento.
Continua no próximo texto.
Everaldo Lopes


[1] Raul de Leoni no poema “De um fantasma”.
[2] Ciência ou estudo que se ocupa de Deus, de sua natureza e seus atributos e de suas relações com o homem e com o universo (Houaiss3)

[3] O momento vivido como expectativas e lembranças imediatas que se misturam numa busca criativa. Nesta perspectiva, quando o “novo” é percebido, já não é mais presente, porém passado

domingo, 10 de julho de 2011

Devaneio especulativo I

A intemporalidade do presente; o livre arbítrio, transcendência e imanência da “existência”.

É impossível delimitar o “presente” fugaz, mas nele se formaliza a escolha pela ação emergente. Neste transe o homem tem a liberdade de fazer sua opção. Embora esta liberdade esteja limitada por condicionamentos culturais e pela circunstância que envolve o ser humano, o indivíduo não está inteiramente privado de assumir uma postura existencial peculiar, de falar, e de agir de acordo com decisões pessoais. O “livre arbítrio” está vinculado a esta liberdade restrita. Neste contexto, a escolha feita no presente evanescente se eterniza pela atualização[1]! Em milésimos de segundo, define-se irrevogavelmente uma situação de fato. O gesto esboçado, a palavra dita, a ação praticada são imodificáveis, tornam-se eternos. O “presente” é a janela através da qual o ser consciente pinça e atualiza uma das infinitas possibilidades do “ser”. Isto constitui a base dinâmica da existência pessoal.
Embora não possa ter certeza absoluta sobre o acerto das suas escolhas, o homem precisa fazê-las para existir. E o faz, não obstante as limitações que o constrangem, vivenciando uma centelha de esperança no fundo da consciência de sua própria fragilidade. Não tem certeza de nada, mas espera superar dificuldades e realizar projetos que lhe são caros... É exatamente neste momento subjetivo da existência (saber-se frágil e carente de certezas) que, humildemente, o homem fica sensível à idéia mística de uma intervenção sobrenatural... Porém, coerentemente sabe que esta intervenção demanda uma intimidade essencial entre a criatura e o Criador[2]... Absurdo lógico[3] cuja aceitação cabal é a essência da fé[4]. Todavia, quando a fé já não se tenha manifestado, plenamente, como graça divina, não há uma metodologia eficaz para o seu ensino aprendizagem. Não basta um simples ato de vontade para crer. A fé envolve adesão e anuência a uma realidade transcendental absoluta inacessível à crítica racional. O intelecto pode colaborar, até certo ponto, oferecendo algum suporte para superar a contradição “existencial”[5] entre a contingência e a transcendência.
O existente deverá contextualizar-se num todo significativo que o transcenda, para que o discurso existencial seja assertivo, realista, criativo, esperançoso. Isto implica num envolvimento místico no qual o existente encontra o melhor remédio para o seu desamparo de criatura consciente. Na indigência de “ser” contingente o homem espera ouvir do Poder Supremo a promessa de que nunca será abandonado à sua sorte, e nada lhe será cobrado que não possa pagar... experiência subjetiva que exige condições psíquicas afetivas especiais presentes, igualmente, na ingenuidade da criança e na sabedoria do santo. Em ambos os casos a contingência e a transcendência se misturam numa vivência intuitiva de fé. Sem a “crença confiante” na transcendência que lhe é inerente, o ser consciente fica preso numa armadilha. Pela análise introspectiva da própria realidade subjetiva sabe que se transcende no ato da reflexão, mas não pode explicá-lo, objetivamente... sabe-se contingente, e não consegue realizar-se, integralmente, nesta condição... mas não concebe como harmonizar na sua unidade pessoal a transcendência e a imanência inerentes à condição humana. A “fé” intermedeia a imanência e a transcendência mediante uma intuição comovida –  chave do enigma pessoal e intransferível do ser consciente. A “entrega mística”, feita a uma “transcendência absoluta” vai além da pura reflexão, exige a submissão pessoal a um “absurdo lógico” assimilável, pela fé.
É angustiante perceber, racionalmente, que a solução do problema humano é mística, e não estar aquecido pela fé, o único caminho de acesso a uma transcendência que a razão não alcança. Para os que vivem esta dificuldade, todavia, a especulação coerente sobre o cosmo e a vida, a partir da ordem crescente que se constata no Universo constitui um ponto de partida para vencer as restrições impostas pelo “racionalismo materialista”. Esta especulação permite ilações que extrapolam o conhecimento positivo, abrindo espaço para a elaboração de uma mundividência espiritualista. Por exemplo, é razoável o argumento que se segue... Se há uma ordem na construção do mundo e da vida, se toda ordem pressupõe uma intenção, se não há intenção fora da esfera da consciência, é forçoso que haja uma Consciência Universal! Portanto, a lógica especulativa nos conduz a uma realidade abstrata que a própria razão não consegue entender e descrever objetivamente. Mas isto ainda não basta. A elaboração intelectual precisa transformar-se numa forte convicção, consolidada no sentimento de comunhão profunda com a “transcendência absoluta”, patenteada numa vivência da unidade criatura / Criador. Nisto reside a essência da experiência mística estruturada pela fé. O ser consciente só consegue superar cabalmente a angústia existencial diante da precariedade congênita de sua contingência, sob os auspícios da fé. Confiante no amparo transcendental, ele realiza o seu destino, imprimindo um sentido definitivo na sua existência ao participar da unidade comunitária de todas as consciências (em Deus[6]). Somente vivendo a presença inefável de Deus mediante o sentimento solidário de integração comunitária, o ser consciente ganha significado definitivo, integrando-se num “Todo” absoluto.
A mobilização intelectual, centrada na observação crítica da intemporalidade do “presente existencial” evidencia um contraponto - a eternidade... Vejamos. O passado e o futuro se configuram sempre em relação ao “presente”. Passado e futuro são definíveis, respectivamente, como “memória congelada” e “expectativa” a ser confirmada, separadas no “agora” pelo presente fugidio.  Especulativamente, poderemos considerar o “presente” como  um “ponto de acumulação”[7] que se move constantemente no “agora” sem que se possa fisgá-lo. Sabemos que no presente se atualizam a ação, o gesto, a atitude, só confirmados e manifestados subjetiva e objetivamente, ao tempo em que se tornam “lembranças” (passado); enquanto as expectativas permanecem como projetos, meros movimentos subjetivos que podem ou não consumar-se... quimeras que apontam para um futuro possível, mas não real, ainda. O “presente”, conquanto essencial, existencialmente, não tem expressão temporal definível como o “agora”. Ora o que é atemporal é eterno! O “presente”, então, só pode ser entendido como um corte no tempo que separa o passado e o futuro. Seria como a janela da eternidade no tempo. Nesta perspectiva, o pensamento tangencia a transcendência absoluta que escapa totalmente ao conhecimento racional. Na prática é o “agora” que o homem assume como seu presente. Na verdade, o presente real não seria um intervalo[8], mas uma fenda no tempo, preenchida pela eternidade. Assim essa análise especulativa do “agora” sugere à consciência crítica uma ligação entre a “existência” precária (temporal) e a “eternidade”, reino do Espírito que reúne todas as possibilidades. Desta forma, um raciocínio linear nos coloca de saída no âmago do caráter transcendental da existência. A abordagem racional da realidade não substitui a fé, mas abre uma janela para além do mundo visível, aparente, predispondo o descrente para as verdades de fé... Mesmo sem vivenciar a experiência mística, o existente abre a mente para a transcendência absoluta sumariamente negada pela abordagem materialista da realidade.
Continua no próximo texto.
Everaldo Lopes


[1] No aristotelismo, movimento pelo qual uma realidade se atualiza, se efetiva, adquire sua forma final; passagem da potência ao ato.;
[2] Numa visão criacionista, monista  o Criador e a criatura estão indissoluvelmente unidos. Fora disso ter-se-ia que admitir dois princípios  absolutos, tese conceitualmente  inaceitável uma vez que o absoluto tudo inclui, nada lhe  fica de fora.
[3] Diferente do absurdo existencial!
[4] A primeira virtude teologal: adesão e anuência pessoal a Deus, seus desígnios e manifestações.
[5]  Modo de ser próprio do homem.
[6]  Princípio supremo de explicação da existência, da ordem e da razão universais, e garantia dos valores morais. (Aurélio Sec.XXI)
[7]  Ponto em cuja vizinhança arbitrária  existe sempre pelo menos um ponto de um conjunto; ponto-limite.
[8] Lapso de tempo que medeia entre dois momentos.