sábado, 16 de julho de 2011

Devaneio especulativo II

As contradições da existência, a razão e a fé, o presente eterno.

O ser consciente existe como uma organização biológica altamente diferenciada, porém perecível, mas aspira a conservar a vida indefinidamente... Esta aspiração impossível para um ser temporal envolve a “noção de eternidade”, contraponto do tempo que se exaure no mundo visível e, obviamente, na vida biológica... obrigando-se, o homem, coerentemente, a elaborar a aceitação da própria finitude.
A noção de “eternidade” não nos chega pelos sentidos. Não é uma realidade definível. Semanticamente, poder-se-ia concebê-la como um conceito indefinido (não tempo)... De qualquer forma “eternidade” corresponde á idéia de algo abstrato, comum ao espírito, que não tem começo nem fim, que transcende o mundo aparente.
Jamais se poderá estabelecer na intimidade biopsíquica o limite entre o espírito e a matéria... da mesma forma que, analogicamente, a onda energética e a partícula se alternam de maneira imprevisível sem que haja separação essencial entre ambas. Poeticamente já se disse: “Alma, estado divino da matéria!”[1]... Invertendo a ordem dos fatores, diríamos (centrados numa cosmogonia espiritual monística) que a matéria é o estado temporal de Deus (Espírito Absoluto). Na verdade, ao admitir a hipótese criacionista, não há como pensar a unidade imanência / transcendência... Mas a presença e coerência evolutiva do Universo aponta para uma “continuidade” misteriosa do Criador, à criatura, na descontinuidade essencial entre ambos... Essa unidade inacessível à compreensão humana é o mistério do qual somos uma legenda ilegível. Este modo de pensar contraditório é o que mais se aproxima de uma descrição da realidade que vivemos como seres conscientes racionais... Realidade que não se pode descrever de forma clara. Quando queremos falar dela (uma contingência capaz de transcender-se!) transitamos, epistemologicamente, entre o enunciado de uma problemática real e a elaboração de uma idéia fantástica que só se torna real quando vivenciada pela fé, na experiência da integração comunitária de todos os homens...
Todos reconhecemos no homem, aptidões sutis (intuição criadora, inteligência linguístico matemática...) que não se explicam, linearmente, pelas funções biológicas... Todavia, não é reconhecível a intimidade  essencial entre o Espírito e a realidade biológica... Por isso a história do pensamento filosófico registrou, em certo momento, a adesão à tese de dois Princípios antitéticos (um espiritual, outro material), compatível com um maniqueísmo primário. Exclui-se este maniqueísmo ao afirmar-se que o “espírito” e o corpo físico não são entidades diferentes, mas uma alternância criadora na qual o Espírito eterno ora projeta, virtualmente, a imagem corporal no tempo, ora a recolhe no Seu seio onde se realiza a comunidade de todas as consciências... Esta ideia soa irracional ou fantasiosa até o momento em que a Física Quântica nos anuncia que a realidade não passa de miríade de possibilidades dentre as quais algumas se atualizam ao cruzar com a “consciência localizada”. Nesta perspectiva faria sentido dizer que o espaço e o tempo são projeções virtuais do Espírito eterno... A morte física representaria, então, a supressão da imagem virtual (o corpo físico), recolhida ao Espírito, Consciência Cósmica, Berço do Universo. O Espírito (eterno) já está presente aqui e agora neste corpo, o meu, o seu, e o dos entes que povoam o mundo. É-lhes imanente e transcendente... e, no homem esta diferença pode ser vivida como uma unidade, sem que desta experiência se tenha uma explicação racional. Eis o mistério que a Teologia[2] estuda num conjunto de conhecimentos fundamentados no ato de fé. Assimilado este “devaneio metafísico”, para o homem, a morte seria a porta que comunica o mundo “virtual” (visível, aparente), e o mundo Espiritual, o universo real das essências que se fundem num só ser absoluto (recapitulando a intuição platônica)!
Como vimos no texto anterior, a operacionalidade da vida temporal para o homem está no “agora”, o momento que reúne lembranças e expectativas imediatas, separadas pelo “presente” -  janela da eternidade no tempo. O homem tem dificuldade em deixar-se absorver no “presente”, vivendo-o integralmente, porque este é uma brecha no tempo, ausência (colapso) que não é apreensível como realidade temporal. A plenitude deste “presente” sem passado nem futuro é a própria eternidade. O homem só o vive, enquanto existência temporal, numa experiência mística na qual o tempo não conta. Em resumo, vivemos na eternidade ao experimentar o tempo no polimorfismo da contingência fugaz! O ponto crítico da “existência” não se define, pois, pelo objetivo escolhido que se pode alcançar com trabalho, tempo e talento, e se resolve na posse de um objeto do desejo motivo da felicidade do “eu” agente. Embora tudo isso tenha seu lugar na realização pessoal, histórica (presença no mundo), o que é mais importante na existência é a “posse” do que não podemos manipular, o “presente” sempre mascarado pelo agora[3], entendido como uma extensão da própria eternidade. O presente é, pois, como um “colapso do tempo” que vivenciamos, numa experiência singular, e assim nos tornamos o pulsar da eternidade, marcando o tempo! No nível existencial, histórico, nesta brecha cada um atualiza, criativamente, com maior ou menor brilho, uma das infinitas possibilidades de “ser” preexistentes no Absoluto eterno e único. A ação, em sua emergência é temporalmente imensurável; quando ela é identificada, o ato gerador do “novo” já é passado. Assim, na esfera pessoal cada gesto ou ação corresponde a uma projeção virtual da eternidade, desfocada pela finitude da contingência na qual se revela o Espírito criador. Esta visão espiritualista está presente no pensamento hinduísta que introduziu o conceito “maia” - aparência ilusória da diversidade do mundo que oculta a verdadeira unidade universal... e resvala na intuição platônica do mundo das ideias, eterno e imutável, modelo das coisas sensíveis, objeto de contemplação pelo pensamento.
Continua no próximo texto.
Everaldo Lopes


[1] Raul de Leoni no poema “De um fantasma”.
[2] Ciência ou estudo que se ocupa de Deus, de sua natureza e seus atributos e de suas relações com o homem e com o universo (Houaiss3)

[3] O momento vivido como expectativas e lembranças imediatas que se misturam numa busca criativa. Nesta perspectiva, quando o “novo” é percebido, já não é mais presente, porém passado

domingo, 10 de julho de 2011

Devaneio especulativo I

A intemporalidade do presente; o livre arbítrio, transcendência e imanência da “existência”.

É impossível delimitar o “presente” fugaz, mas nele se formaliza a escolha pela ação emergente. Neste transe o homem tem a liberdade de fazer sua opção. Embora esta liberdade esteja limitada por condicionamentos culturais e pela circunstância que envolve o ser humano, o indivíduo não está inteiramente privado de assumir uma postura existencial peculiar, de falar, e de agir de acordo com decisões pessoais. O “livre arbítrio” está vinculado a esta liberdade restrita. Neste contexto, a escolha feita no presente evanescente se eterniza pela atualização[1]! Em milésimos de segundo, define-se irrevogavelmente uma situação de fato. O gesto esboçado, a palavra dita, a ação praticada são imodificáveis, tornam-se eternos. O “presente” é a janela através da qual o ser consciente pinça e atualiza uma das infinitas possibilidades do “ser”. Isto constitui a base dinâmica da existência pessoal.
Embora não possa ter certeza absoluta sobre o acerto das suas escolhas, o homem precisa fazê-las para existir. E o faz, não obstante as limitações que o constrangem, vivenciando uma centelha de esperança no fundo da consciência de sua própria fragilidade. Não tem certeza de nada, mas espera superar dificuldades e realizar projetos que lhe são caros... É exatamente neste momento subjetivo da existência (saber-se frágil e carente de certezas) que, humildemente, o homem fica sensível à idéia mística de uma intervenção sobrenatural... Porém, coerentemente sabe que esta intervenção demanda uma intimidade essencial entre a criatura e o Criador[2]... Absurdo lógico[3] cuja aceitação cabal é a essência da fé[4]. Todavia, quando a fé já não se tenha manifestado, plenamente, como graça divina, não há uma metodologia eficaz para o seu ensino aprendizagem. Não basta um simples ato de vontade para crer. A fé envolve adesão e anuência a uma realidade transcendental absoluta inacessível à crítica racional. O intelecto pode colaborar, até certo ponto, oferecendo algum suporte para superar a contradição “existencial”[5] entre a contingência e a transcendência.
O existente deverá contextualizar-se num todo significativo que o transcenda, para que o discurso existencial seja assertivo, realista, criativo, esperançoso. Isto implica num envolvimento místico no qual o existente encontra o melhor remédio para o seu desamparo de criatura consciente. Na indigência de “ser” contingente o homem espera ouvir do Poder Supremo a promessa de que nunca será abandonado à sua sorte, e nada lhe será cobrado que não possa pagar... experiência subjetiva que exige condições psíquicas afetivas especiais presentes, igualmente, na ingenuidade da criança e na sabedoria do santo. Em ambos os casos a contingência e a transcendência se misturam numa vivência intuitiva de fé. Sem a “crença confiante” na transcendência que lhe é inerente, o ser consciente fica preso numa armadilha. Pela análise introspectiva da própria realidade subjetiva sabe que se transcende no ato da reflexão, mas não pode explicá-lo, objetivamente... sabe-se contingente, e não consegue realizar-se, integralmente, nesta condição... mas não concebe como harmonizar na sua unidade pessoal a transcendência e a imanência inerentes à condição humana. A “fé” intermedeia a imanência e a transcendência mediante uma intuição comovida –  chave do enigma pessoal e intransferível do ser consciente. A “entrega mística”, feita a uma “transcendência absoluta” vai além da pura reflexão, exige a submissão pessoal a um “absurdo lógico” assimilável, pela fé.
É angustiante perceber, racionalmente, que a solução do problema humano é mística, e não estar aquecido pela fé, o único caminho de acesso a uma transcendência que a razão não alcança. Para os que vivem esta dificuldade, todavia, a especulação coerente sobre o cosmo e a vida, a partir da ordem crescente que se constata no Universo constitui um ponto de partida para vencer as restrições impostas pelo “racionalismo materialista”. Esta especulação permite ilações que extrapolam o conhecimento positivo, abrindo espaço para a elaboração de uma mundividência espiritualista. Por exemplo, é razoável o argumento que se segue... Se há uma ordem na construção do mundo e da vida, se toda ordem pressupõe uma intenção, se não há intenção fora da esfera da consciência, é forçoso que haja uma Consciência Universal! Portanto, a lógica especulativa nos conduz a uma realidade abstrata que a própria razão não consegue entender e descrever objetivamente. Mas isto ainda não basta. A elaboração intelectual precisa transformar-se numa forte convicção, consolidada no sentimento de comunhão profunda com a “transcendência absoluta”, patenteada numa vivência da unidade criatura / Criador. Nisto reside a essência da experiência mística estruturada pela fé. O ser consciente só consegue superar cabalmente a angústia existencial diante da precariedade congênita de sua contingência, sob os auspícios da fé. Confiante no amparo transcendental, ele realiza o seu destino, imprimindo um sentido definitivo na sua existência ao participar da unidade comunitária de todas as consciências (em Deus[6]). Somente vivendo a presença inefável de Deus mediante o sentimento solidário de integração comunitária, o ser consciente ganha significado definitivo, integrando-se num “Todo” absoluto.
A mobilização intelectual, centrada na observação crítica da intemporalidade do “presente existencial” evidencia um contraponto - a eternidade... Vejamos. O passado e o futuro se configuram sempre em relação ao “presente”. Passado e futuro são definíveis, respectivamente, como “memória congelada” e “expectativa” a ser confirmada, separadas no “agora” pelo presente fugidio.  Especulativamente, poderemos considerar o “presente” como  um “ponto de acumulação”[7] que se move constantemente no “agora” sem que se possa fisgá-lo. Sabemos que no presente se atualizam a ação, o gesto, a atitude, só confirmados e manifestados subjetiva e objetivamente, ao tempo em que se tornam “lembranças” (passado); enquanto as expectativas permanecem como projetos, meros movimentos subjetivos que podem ou não consumar-se... quimeras que apontam para um futuro possível, mas não real, ainda. O “presente”, conquanto essencial, existencialmente, não tem expressão temporal definível como o “agora”. Ora o que é atemporal é eterno! O “presente”, então, só pode ser entendido como um corte no tempo que separa o passado e o futuro. Seria como a janela da eternidade no tempo. Nesta perspectiva, o pensamento tangencia a transcendência absoluta que escapa totalmente ao conhecimento racional. Na prática é o “agora” que o homem assume como seu presente. Na verdade, o presente real não seria um intervalo[8], mas uma fenda no tempo, preenchida pela eternidade. Assim essa análise especulativa do “agora” sugere à consciência crítica uma ligação entre a “existência” precária (temporal) e a “eternidade”, reino do Espírito que reúne todas as possibilidades. Desta forma, um raciocínio linear nos coloca de saída no âmago do caráter transcendental da existência. A abordagem racional da realidade não substitui a fé, mas abre uma janela para além do mundo visível, aparente, predispondo o descrente para as verdades de fé... Mesmo sem vivenciar a experiência mística, o existente abre a mente para a transcendência absoluta sumariamente negada pela abordagem materialista da realidade.
Continua no próximo texto.
Everaldo Lopes


[1] No aristotelismo, movimento pelo qual uma realidade se atualiza, se efetiva, adquire sua forma final; passagem da potência ao ato.;
[2] Numa visão criacionista, monista  o Criador e a criatura estão indissoluvelmente unidos. Fora disso ter-se-ia que admitir dois princípios  absolutos, tese conceitualmente  inaceitável uma vez que o absoluto tudo inclui, nada lhe  fica de fora.
[3] Diferente do absurdo existencial!
[4] A primeira virtude teologal: adesão e anuência pessoal a Deus, seus desígnios e manifestações.
[5]  Modo de ser próprio do homem.
[6]  Princípio supremo de explicação da existência, da ordem e da razão universais, e garantia dos valores morais. (Aurélio Sec.XXI)
[7]  Ponto em cuja vizinhança arbitrária  existe sempre pelo menos um ponto de um conjunto; ponto-limite.
[8] Lapso de tempo que medeia entre dois momentos.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Generosidade


O egoísmo é tão arraigado no ser humano que custa crer na verdadeira generosidade. Mas, convenhamos, no dia a dia se confirma o sacrifício que muitos fazem para atender às necessidades de terceiros. Todavia, analisando caso a caso há sempre um ganho secundário implícito na doação que se supõe generosa. Embora este ganho não seja considerado prioritário na motivação do benfeitor. Seja o reconhecimento da nobreza do gesto, que massageia o ego do doador... seja um retorno merecido, nesta vida... seja a recompensa esperada num outro nível de existência... seja o sentimento camuflado de “poder”, ao proporcionar ajuda. O ego posto a nu é, por suas características psicodinâmicas, um poço de interesses. Esta observação exclui qualquer crítica desabonadora... a constatação implícita faz parte da condição humana. Então, fundamentados numa introspecção honesta, poderíamos descartar, inteiramente, um interesse egóico escondido no comportamento generoso? Por exemplo, a intenção de prevenir críticas desairosas, ou de saldar uma dívida moral, livrando-se do sentimento de culpa previsível face à eventual omissão da ajuda ao “outro”... É difícil deixar de lado a idéia que a generosidade totalmente indiferente a qualquer retribuição é exclusiva da magnanimidade de Deus!!!... Talvez o que mais se aproxime de um gesto puro de generosidade humana resulte da empatia diante da carência do “outro”... E mesmo assim, com o gesto empático o benfeitor está, indiretamente, servindo a si mesmo. Esta constatação suscita cogitações sobre o comportamento dos santos que chegaram a doar a própria vida para dar testemunho da sua fé. A conduta dos mártires sugere a reconsideração da tese que vínhamos desenvolvendo. Todavia, caberia ainda perguntar: deixar-se-iam martirizar até a morte se não tivessem a certeza (pela fé) de merecer, depois, as primícias da presença de Deus?  Dever-se-á admitir que a ação caridosa dos justos resulta apenas do envolvimento no desejo de estarem contribuindo, direta ou indiretamente, para o bem-estar da comunidade humana? Sem dúvida, a generosidade assim configurada só poderia ser qualificada como divina. Para aceitar esta magnanimidade sem reservas, será preciso admitir a transfiguração do homem por intervenção de uma força mística que qualifique e potencialize a “vontade de sentido”[1] centrada em servir ao outro, contra a tendência do egoísmo enraizado. Nesta leitura mística da “doação total”, a verdadeira generosidade só se tornaria possível em função do estado de graça que corresponde à absorção da própria criatura no Criador. Experiência de rara ocorrência. Cita-se a afirmação de São Paulo, depois da conversão: “Já não sou eu que vivo, mas Cristo que vive em mim”.
É óbvio que no exercício da consciência responsável o homem é induzido a assumir um comportamento ético solidário em relação aos seus semelhantes.  Mas o esforço voluntário sustentado para atualização deste potencial ético, habitualmente, tem limites e exige sacrifícios. A superação de todos estes limites vai além do “dever”, projetando no homem a própria essência do “amor[2]”... sugerindo  uma intervenção supranatural.
Não estamos querendo minimizar a grandeza das pessoas verdadeiras, justas e caridosas que se sacrificam no cumprimento do seu ideal. Apenas queremos mostrar que a ação solidária não é espontânea, demanda uma elaboração, supomos, mesmo para os que têm vocação religiosa.
 A propósito dos problemas inerentes à análise e julgamento do comportamento generoso na prática cotidiana consideremos uma situação emblemática. Nela estão presentes os elementos psicológicos contraditórios implícitos nas ações formalmente generosas, e a demonstração da dificuldade de avaliar com certeza a natureza efetiva do comportamento generoso formalizado (politicamente correto).
São inúmeros os idosos inválidos que vivem sob os cuidados dos filhos... sós com uma cuidadora assalariada, num apartamento alugado.
Os filhos se vêem na contingência de subvencionar as despesas dos pais alquebrados pela idade, porque a pensão que eles recebem não dá para cobrir as despesas com aluguel, cuidadores, alimentação, plano de saúde, medicamentos etc. Por alguma razão, peculiar a cada um, muitas vezes os filhos não querem abrigar os velhos “problemáticos” nas próprias casas. Porém, mesmo quando possuidores de recursos limitados e obrigações inadiáveis com a própria família (mulher e filhos) os descendentes, escrupulosos, têm pudor ou sentem ferida a vaidade diante da alternativa de colocar o ascendente num abrigo... E optam por brindá-lo com um “conforto” que não têm condição de bancar... O resultado é que todos, pelo menos teoricamente, se sacrificam financeiramente. O comportamento dos genitores (agora idosos e dependentes), durante a formação da prole deixou marcas diferentes, nem sempre positivas, em cada filho, refletidas, hoje, no tipo das relações filiais espontâneas.  Só Deus sabe o que se passa no íntimo de cada um... Afeto, gratidão, revolta, sentimento de culpa, e raiva contida... Impregnados desta mistura de sentimentos, impõem-se a obrigação de atender as necessidades básicas dos seus idosos, “sentindo”, intimamente, a sobrecarga econômica implícita, e o trabalho adicional a que se obrigam. A condição financeira precária dos descendentes gera dissensão entre eles. Sob pressão de cobranças mútuas, não conseguem unanimidade na divisão das responsabilidades assistenciais. Os velhos, por sua vez têm uma visão ingênua da situação de dependência em que vivem... Supervalorizam a aposentadoria que recebem e o que se convencionou chamar direitos paternos... avaliam, ressentidos, a ausência dos filhos, mas não conseguem inspirar-lhes admiração, nem liderá-los, tão pouco. Esta situação se arrasta, entremeada por crises polarizadas pelo aprofundamento das dificuldades materiais já mencionadas. E o custeio das necessidades do idoso no apartamento alugado torna-se pomo de discórdia entre os familiares que não conseguem uma distribuição equitativa de obrigações em relação à sua manutenção. Nesta conjuntura, pode-se imaginar a possibilidade de um conflito ético de certa forma monstruoso, mas compatível com a fragilidade da condição humana. Conscientemente, todos desejam a vida e felicidade do antepassado idoso; mas poder-se-ia afirmar com segurança que os descendentes mantenedores sacrificados financeiramente em virtude dos custos assistenciais assumidos estejam imbuídos só de pensamentos e sentimentos positivos de amor e carinho? Afinal sem o ônus a que os gerontes os obrigam estariam livres de um monte de problemas... Certamente os mantenedores não querem admitir, sequer, que tenham levantado, intimamente, esta questão e sofrem até com a possibilidade de haverem, num relance, vislumbrado em si mesmos a sombra de uma postura cruel... Mas... tudo é possível!
Voltemos ao questionamento original sobre a generosidade x egoísmo. No exemplo que acabamos de examinar, os velhos inválidos, ou quase, estão recebendo a melhor assistência que a família lhes pode oferecer. Todavia, haveria generosidade[3] pura no gesto dos descendentes que financiam as despesas do idoso? Ou o gesto generoso estaria condicionado ao cumprimento do “dever”, profilático do sentimento de culpa pela omissão? Ou estaria vinculado ao receio da crítica social?          De qualquer forma, o que é preciso valorizar é o ânimo dos descendentes em sacrificando-se para oferecer proteção ao idoso... mesmo que tenham de controlar a revolta, amansar a hostilidade, valorizando a alegria de servi-lo, e o desejo sincero de vê-lo feliz!
Everaldo Lopes


[1] Conceito central da Logoterapia – A força que move a psique nas relações consciência-mundo.
[2] Caridade – disposição espontânea favorável em relação a alguém em situação de inferioridade (física, moral, social etc.); compaixão, benevolência, piedade (Houaiss3)

[3] Caráter e sentimentos nobres, magnanimidade, liberalidade; disposição de dar com largueza, em quantidade maior do que o usual e o necessário.

domingo, 12 de junho de 2011

O mundo físico e o metafísico


As funções psíquicas superiores (consciência reflexiva, intuição criativa, entre outras) induzem à afirmação especulativa de um núcleo transcendental no homem - a alma humana. O estudo do  servomecanismo biopsíquico (Sistema Nervoso Central) ao qual as funções psíquicas superiores são referidas ainda não permite entender como se dá o reconhecimento reflexivo imediato dos fenômenos subjetivos. Além do mais ficaria por explicar como a energia físico-química inerente à atividade neuronal se transforma em pensamento, intuição, vivências... Não cabendo na dimensão espaço-temporal da realidade, a “alma humana” não pode ser objeto de estudo das Ciências exatas... esta conclusão entremostra o mistério da consciência no mundo. Então, admitir a alma humana como realidade transcendental passa a ser um ato de fé.
Curiosa, a razão mergulha na realidade, numa busca vã do conhecimento de como se estrutura a subjetividade do ser pensante... Insatisfeito com a própria limitação epistemológica, o homem tenta contextualizar-se no mundo. Ora assumindo uma atitude materialista, considerando a metodologia científica como a única via legítima de abordagem da realidade e negando qualquer transcendência[1]; ora cedendo espaço para a fé num “Princípio dinâmico absoluto[2]” Criador do Universo, regente dos imponderáveis que marcaram a Evolução, desde a matéria primitiva até a vida consciente... Fé que se contextualiza em doutrina formalizada numa mundividência espiritualista. Esta visão de mundo transporta o homem para além dos confins da racionalidade, levando-o a cogitações abstratas que o conduzem à crença no espírito[3]. Desta forma se configura na subjetividade humana a polarização conceitual da matéria (percebida pelos sentidos), e do espírito inefável, objeto de especulações abstratas, metafísicas, que prescindem dos sentidos fisiológicos.
Os sentidos captam os estímulos da realidade objetiva através de sensações que são interpretadas pelo córtex cerebral como percepções. Portanto, em última instância, para o homem, a realidade concreta é percebida como resultado da interação entre a sensibilidade específica  dos sentidos e os estímulos que lhes correspondem.  Não havendo alteração dos parâmetros atuais desta relação, o mundo visível até então conhecido permanecerá como algo definido e concreto[4]. Mas fica de pé a tese que fazendo variar o limiar dos sentidos, a percepção desta concretude variará, também.  Poder-se-iam, então, imaginar nuances da realidade (mundo) como possibilidades viáveis, alternativas da realidade que hoje se nos apresenta como única e definitiva. É oportuno lembrar que muitas destas possíveis mudanças do limiar de sensibilidade poderiam tornar insuportável o contato do homem com o mundo... Seria intolerável, por exemplo, conviver com um limiar de sensibilidade ao som que captasse vibrações produzidas num entorno bastante extenso; o tumulto sonoro perturbaria a nitidez das sensações auditivas! O mesmo se pode dizer em relação à exaltação do limiar de sensibilidade dos demais sentidos. Por isso a “Evolução” fixou, sabiamente, limiares sensitivos que se harmonizam num sistema estruturado pela integração de todos os sentidos, de forma confortável para as necessidades vitais e sociais do homem. Este é um detalhe evolutivo que envolve a “lógica da complexidade” implícita nos sistemas biológicos, reforçando a idéia que na estruturação do organismo vivo todas as funções interagem simultaneamente e desta interação decorre a funcionalidade de cada órgão. O organismo vivo, como unidade biológica integra diferentes funções, condicionando a estrutura anatômica e histológica dos vários órgãos incorporados em aparelhos e sistemas. Entre estes, o Sistema Nervoso Central (SNC) que no homem alcançou seu mais alto grau de complexidade e ao qual estão vinculados os sentidos externos que regem a interação do homem com o meio ambiente... por isso também chamado “sistema nervoso da vida de relação”.
Como vimos, teoricamente, a percepção do mundo depende do limiar dos sentidos, reduzindo-se esta percepção a uma “função” da acuidade sensorial humana... desta forma se estabelece uma ponte estrutural, evidenciando-se a interação permanente consciência - mundo. A perspectiva da possibilidade de haver tantos mundos quantos fossem os pontos de corte do limiar de sensibilidade sensorial gera a necessidade de um controle. Por isto no processo evolutivo a validação da realidade é aferida à possibilidade integrativa dos elementos constitutivos desta realidade num “todo” harmônico, significativo, assimilável pela consciência. A integração das partes neste “todo” é o fator de correção que impede as aberrações evolutivas. Desta forma o “Princípio[5] dinâmico criativo, absoluto” (organizador) presente no cosmo garante a organicidade do mundo em que vivemos, e se revela no homem como consciência inteligente, racional... é, também, responsável tanto pela harmonia do sistema sensorial (manifestação cósmica) como pelas funções psíquicas superiores cuja natureza não se confunde simplesmente com a materialidade cósmica do Sistema Nervoso Central (SNC)... Igualmente, uma vez que o Universo conhecido não tem a força da subsistência, para existir precisa ter o suporte permanente do “Princípio Criador”, um absoluto[6] que se enquadra na categoria do “absurdo[7]” conquanto seja indispensável para justificar o estado evolutivo a que chegou o universo conhecido. O absurdo consiste exatamente nisto: o mundo imanente exige uma transcendência simultânea que lhe seja “inerente”[8], para sustentar a própria  contingência... sem este suporte, o mundo deixaria de existir.
Diante da inextrincabilidade essencial dos mundos físico (temporal) e metafísico (atemporal), e da impossibilidade lógica linear de reuni-los num só “ser”, embora incompreensível para a lógica racional, é legítimo admitir que a diferença entre ambos (os mundos) é puramente epistemológica[9]. Na prática, a superação desta diferença só se realiza na experiência mística na qual o “ser consciente” transcende a limitação temporal individual sem abandonar a contingência espacial, numa vivência cuja contextualização existencial transcende a separação entre a consciência e o mundo, dispensando a interface racional entre ambos.
Como do ponto de vista estritamente racional nada se pode afirmar ou negar do absoluto implícito num “Princípio Universal Criador”, o homem está livre para fazer a sua escolha, incorporando-O na sua existência, mediante um ato de fé (espiritualismo); ou negando-O (materialismo). Posicionamentos cujo background psicodinâmico esconde desejos e expectativas inconscientes que distinguem o espiritualista e o materialista. A consciência dos antecedentes empíricos e especulativos que dão suporte aos argumentos implícitos em cada uma destas orientações caracteriza a “Espiritualidade Transparente” que abordei em texto anterior. Devo confessar que estou convencido da maior consistência do posicionamento espiritualista.       
            Everaldo Lopes


[1] O que está além de qualquer catagorização racional possível.
[2] Diz-se de ou a realidade plena, ilimitada, essencial, que não depende senão de si mesma para existir (Houaiss)

  [3] No hegelianismo, princípio dinâmico, infinito, impessoal e imaterial que conduz a
    história da humanidade, e que se manifesta no ser humano como plena razão e
   liberdade (Houaiss)

[4]  Diz-se de coisa ou de representação que se apresenta de modo completo, tal como lhe é próprio apresentar-se na sua realidade existencial. Houaiss)
[5] No texto anterior (Espiritualidade transparente) este Princípio está implícito na idéia de “Consciência Cósmica”.
[6]  Diz-se, propriamente, do que existe em si e/ou por si
[7]  Que escapa a regras ou a condições determinadas;  pensamento inconsistente de um ponto de vista lógico
[8] Que existe como um constitutivo ou uma característica essencial de alguém ou de algo.(Houaiss3)
[9] Referente à sistematização de relações conceituais.