domingo, 20 de fevereiro de 2011

Monologando


Viver o rigor comportamental que me imponho, por formação, é uma chatice! Não me dou sequer uma “toleranciazinha”! Tenho que levar tudo a sério... tomando como premissa irrevogável que a verdade, este ideal fugidio, está acima de tudo. Isso num mundo em que os mentirosos pintam e bordam, tirando vantagem das inverdades que tramam com mestria... Com esse timbre pessoal carrego o fardo de abominar as cavilações e imposturas sem poder desmascará-las todas como desejara. E o pior é que muitas vezes elas não passam de estratégias de sobrevivência, ingenuamente, pérfidas!... É isso mesmo... o equivalente à perfídia praticada por crianças psicologicamente desamparadas, como um mecanismo de defesa... E, ao perceber a mentira ardilosa, depois do primeiro impacto, o sentimento que seus protagonistas me despertam é de compaixão. Resultado... de frustração em frustração fui me fechando em mim mesmo. Convencido de que não posso consertar o mundo, não reneguei, todavia, a minha responsabilidade no processo cultural em que estou envolvido. Para justificar as exigências comportamentais que me imponho passei a defender a tese que o exemplo de seriedade e probidade contribui, didaticamente, para a salvação da humanidade! Todavia, esta tese, politicamente correta, soa ingênua porque conta com a adesão espontânea das pessoas ao esforço comum para assimilar o bom exemplo contra as tendências atávicas egóicas... Enfim, agarrei-me à idéia de levar adiante a missão que me impus, dando testemunho da minha visão de mundo e do lugar que nela ocupo. Inicialmente, tomei como ponto de partida a diferença específica do homem, a condição de um ser consciente. E passei a filosofar sobre as conseqüências que dimanam do, e são inerentes ao exercício da consciência. Enquanto especulava sobre a existência[1] mergulhei em cogitações místicas. Visitei muitas fontes científicas e filosóficas do saber... Encontrei respaldo especulativo e científico (indiretamente) para um posicionamento místico... Até que, outro dia, um amigo de muitas décadas que se diz agnóstico, me falou, literalmente, com a intimidade que a longa amizade nos permite, ser o meu “misticismo chué originário do medo da morte”. Resolvi então investigar, tirar essa estória a limpo para meu próprio conhecimento. Fiel ao princípio de verdade que tomei como paradigma existencial, preciso ser transparente para mim mesmo! Pensei... Será que a minha espiritualidade é uma farsa? Essa possibilidade começou a incomodar-me. Concordo em ser o medo motivação para boa parte das nossas atitudes e ações. E também é verdade que a parca me assusta, isso eu não posso negar; mas quem no gozo perfeito das suas faculdades mentais a quer por perto? Depois, deixei de prestar atenção a este medo porque compreendi que quando chegar a “hora” tudo se arranjará da melhor forma possível, e nunca ninguém vai sofrer mais do que lhe permite sua resistência física e moral! E, curiosamente, quando deixei de prestar atenção ao medo da morte, ele perdeu a sua força! Mesmo assim, ficou-me o desejo de permanecer no “ser”, presente na expectativa da possibilidade de uma vida além da morte... Ficou claro para mim que o ganho mais palpável da crença na imortalidade da alma é, principalmente, o espaço que se abre para a esperança de experimentar a felicidade, num mundo “hipotético”, mais justo e mais belo, idéia na qual estou apostando todas as fichas. Este seria o aspecto prático, imediato, do mergulho de ponta cabeça na crença da imortalidade da alma pessoal. Obviamente, esta esperança alivia a tensão da expectativa de um aniquilamento total com a morte física...  Mas não é este lenitivo que valoriza a crença... certamente não valeria a pena sobreviver para uma repetição enfadonha, por toda eternidade, das incertezas, sacrifícios, sobressaltos já experimentados, sempre renovados.  Mas há um custo existencial para usufruir os benefícios dessa crença... não basta aceitar, intelectualmente, a cosmovisão espiritualista correspondente, ou agir como se... É necessário consumar uma relação absoluta com o absoluto (abstração superlativa inefável) que caracteriza a experiência mística; e para tanto é preciso mais, muito mais do que, apenas, admitir, intelectualmente, a alternativa espiritualista. É necessário “viver” as virtudes teologais[2] cuja incorporação pelo crente exige dedicada determinação, humildade e autodisciplina... é  preciso senti-las como emanação do próprio “ser”... É abismal a profundidade existencial dessas virtudes! Para falar só de uma, a caridade (amor), que engloba todas as demais, só vislumbrei sua grandiosidade quando li a segunda carta de Paulo aos Coríntios[3]. Confesso que fico tonto só de pensar a altitude existencial a que preciso alçar-me para viver caridosamente!... Equivoca-se o beato que pratica o ritual místico, formalmente, sem realizar a experiência numinosa[4] implícita na relação absoluta com o absoluto. Dessa forma, fica bastante claro que o misticismo não é uma panacéia para curar o medo de morrer. O exorcismo deste temor é o resultado de uma experiência profunda que tem mais a ver com o amor do que com o medo. Por outro lado, focalizando a questão de um ângulo genealógico, a proposta de uma vida além túmulo, de alguma forma está vinculada  à lógica interna da vida consciente... Senão vejamos. A análise fenomenológica do existir autêntico[5] põe em evidência a capacidade de transcender inerente à própria consciência. Capacidade que independe do medo que se tenha de morrer, e que, processualmente, por sua dinâmica aponta para uma realidade que não se confina aos limites temporais. A necessidade de transcender implica numa atividade que exige após cada conquista, novo esforço de ultrapassagem, até o infinito. Eis a enrascada em que nos meteu a consciência!!!

Ao adentrar pela idade da razão nos perguntamos com certa sofreguidão: de onde viemos e para onde vamos? Questionamentos que, se levados às últimas conseqüências nos remetem ao absoluto misterioso (absurdo lógico) no qual estamos imersos. Este absoluto que, por definição, encerra o mistério do primeiro princípio e do último fim remata uma cosmovisão consistente, coerente, que propicia o lastro (apoio) para valores confiáveis em torno dos quais se constrói uma existência plena de sentido. Os valores contingentes são sempre discutíveis, mesmo quando são absolutizados pelo homem! Então, do ponto de vista lógico, especulativo, é preciso admitir a premissa de um absoluto infalível (absurdo para a razão) a fim de respaldar valores totalmente confiáveis. Para dar à existência este respaldo, contudo, impõe-se um ato de fé. Eis o impasse... não controlamos a fé! Todavia, precisamos dela para fechar a gestalt do vir a ser consciente com um absoluto que é um absurdo lógico, mas, indispensável para banir o absurdo existencial representado pela vivência de contradições insolúveis. Na verdade pode-se conviver com o absurdo lógico (absoluto), mas o absurdo vivencial que implica viver a própria contingência, conscientemente, dilacerado pelas dicotomias da existência[6] é desagregador da própria existência. Para aceitar o absurdo lógico e fechar a gestalt da existência será, então, indispensável adotar uma atitude humilde de fé numa transcendência absoluta. Enfim, um princípio ético intemporal é fundamental para estruturar uma ética, com valores válidos universalmente. Dostoievski (1821 – 1881) disse em “Os Irmãos Karamazov”, “se Deus não existe tudo é permitido”! Evidentemente, a frouxidão ética, a que se permitiria o homem na ausência de Deus (absoluto), subentendida na afirmação do grande romancista russo não implica, necessariamente, na não existência de qualquer esquema ético. Mas neste patamar seria preciso estabelecer um valor temporal que, absolutizado, representaria o referencial decisório. Este é o caminho insidioso do estóico materialista que insiste corajosa e temerariamente em assumir a “dignidade” de ser a medida de todas as coisas. Que equívoco! Continuei monologando... Lembrei então... É exatamente neste ponto que Kierkegaard (1813 – 1855) propôs na sua filosofia existencial, a passagem de um nível ético para o nível ético-religioso de existência que inclui , pela fé, a “presença do absoluto” necessário para dar um suporte (garantia) transcendental às escolhas éticas do homem... Disposto a esgotar as minhas dúvidas, continuei questionando... Ora, ao crer neste absoluto, não é o próprio homem que O está criando? Teoricamente, sim... Mesmo acatando o testemunho de uma “revelação” é sua opção de fé que cria o absoluto!... Entendi, então, o motivo da afirmação de  Miguel de Unamuno (1864 – 1936): “Ter fé não é crer no que não se vê, mas criar o que não se vê”. Continuei na minha caminhada investigativa... Conjecturei... da mesma forma que o amor por sua amada impregna toda subjetividade do amante, não lhe deixando dúvidas  sobre a existência do seu sentimento; não temos como negar a autenticidade, no transe místico, da vivência empolgante, absorvente, de uma presença inefável.... Nela o místico se deixa absorver sem reservas! A afirmação de São Paulo resume esta vivência: “Já não sou eu que vivo, mas Cristo que vive em mim”.(Gl. 2,20)

Afinal, fiz a minha opção. Trata-se de uma opção, sim, porque não há como provar, racionalmente, qualquer das duas teses (materialista e espiritualista) e, dessa forma, do ponto de vista estritamente racional, é tão absurdo afirmar como negar a existência de um Absoluto. Assumo, pois, a responsabilidade da escolha, uma reedição da velha aposta pascaliana. Escolho Deus (Absoluto) e a alternativa cosmogônica espiritualista. Talvez a inquietação mais profunda escondida por trás desta opção esteja resumida no estado de espírito tão bem descrito por Fernando Pessoa (sob o pseudônimo de Bernardo Soares) no “Livro do Desassossego”: “E de repente, tudo parece tão absurdo... Eu, o mundo e o mistério de nós ambos”. Para não soçobrar no absurdo vivencial, estou me confiando, conscientemente, ao mistério do ser (assumindo-o sem discuti-lo) como o caminho para  alcançar a vida plena! Estou convencido de que no transe místico o mistério se desfaz. Mas sei que todo esforço consciente, voluntário, feito nesse sentido se esboroa na tentativa vã de expandir a existência numa relação absoluta com o absoluto, por mero esforço da vontade... A experiência de fé é uma dádiva, não se pode ensiná-la ou aprendê-la. Mas, em nome de uma expectativa confiante podemos comprometer todo nosso potencial intelectivo, afetivo e volitivo, predispostos a realizar um ideal de unidade, harmonia e perfeição, oculto aos olhos do tempo indiferente.  Enfim, a investigação que conduzimos até aqui deixa-nos à vontade para dizer que a crença na imortalidade da alma não resulta do medo de morrer... Admiti-lo equivaleria a acreditar que o medo do anonimato é motivação e causa eficiente da inspiração do artista... quando sabemos que a experiência mística e a criação da obra de arte são o apanágio de espíritos sensíveis agraciados por dons excepcionais.



[1] Resultado do exercício da consciência
[2] Fé, Esperança e Caridade (Amor).
[3] Entre outras afirmações destaco esta: “E ainda que eu distribuísse todos os meus bens entre os pobres e ainda que eu entregasse meu próprio corpo à cremação, se não tivesse caridade nada disso me aproveitaria.
[4] Segundo Rudolf Otto (1869-1927), teólogo e filósofo alemão, o sentimento único vivido na experiência religiosa, a experiência do sagrado, em que se confundem a fascinação, o terror e o aniquilamento.Dic.Aurélio Sec.XXI
[5] Modo de ser do homem consciente e responsavelmente
[6] Nascer sem pedir e saber que vai  morrer sem querer; aspirar a tudo poder e saber que reterá apenas uma pequena parcela de poder; desejar  tudo conhecer e saber que terá acesso a um conhecimento limitado.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A vez da Ética Democrática



A capacidade de pensar logicamente permitiu ao homem um domínio cada vez mais amplo sobre a Natureza. Esta aptidão tem sido a Pedra Filosofal para as adaptações indispensáveis à sobrevivência humana, desde os primórdios pré-históricos. O pensamento afoito está sempre a ampliar o horizonte da vida inteligente na Terra... Assim caminha o Projeto Humano. Neste caminhar ocorreram muitas mudanças sociais, políticas e religiosas. No fluxo desses acontecimentos alguns registros históricos denunciam a origem da atual crise de valores[1].
 É sabido que o homem constrói sua existência em torno de valores. A prática desses valores define a cultura[2] de uma sociedade.  Na Idade Média, os valores eram canônicos, impostos como dogmas de fé contextualizados numa sociedade teocêntrica. No século XVIII o Racionalismo colocou o homem no centro do processo histórico, lançando o fundamento de uma sociedade antropocêntrica. Com o advento do Cientificismo[3], o conhecimento conquistado através do método científico ganhou prestígio. Os dogmas de fé (valores canônicos[4]) foram perdendo espaço, enquanto crescia a esperança de fundamentar os valores da sociedade emergente na razão e no consenso. Através das Ciências que prometiam resolver todos os problemas humanos, esperava-se que fosse possível criar uma ética democrática apoiada na prática da consciência responsável.  Seria o apogeu do Iluminismo, enterrando, definitivamente, a tradição fundamentalista[6].
Ao mesmo tempo, sem qualquer planejamento prévio, a fortuna, em dinheiro, acumulada pelos burgueses (comerciantes florescentes) e as invenções e descobertas devidas a mentes privilegiadas, forjaram as condições para transformar a economia feudal numa economia industrial. O capital dos burgueses emergentes financiou a construção das máquinas projetadas pela criatividade de homens inventivos. Utilizando o trabalho das máquinas, o comerciante virou empresário experto na habilidade de agregar valor econômico às matérias primas extraídas da Natureza, e de administrar o custo de fabricação dos produtos industrializados. A produção industrial em série ensejou lucro maior do que o auferido com a comercialização de produtos artesanais. Daí por diante, o comércio assumiu o caráter de mercado livre sob o império da lei da oferta e da procura. Nascia assim o capitalismo com novas propostas para as relações entre o dinheiro e o trabalho, desenhando um outro perfil para a relação “senhor” e “escravo” vigente no período medieval. 
A Aristocracia empobrecida por guerras religiosas e ideológicas, corroída por privilégios desnaturantes, já não tinha condição de sobreviver como sistema político, pois, era incapaz de satisfazer as necessidades de indivíduos cada vez mais exigentes de liberdade. Urgia nova forma de Governo que atendesse à aspiração de uma sociedade mais flexível, ávida de progresso, desejosa de conduzir o próprio destino. O ideal libertário propunha que o poder de ungir a autoridade governamental caberia ao Povo.  De conquista em conquista, o poder político, até então conferido por Deus, diretamente, ao Rei passou a ser exercido por representantes da sociedade eleitos pelos membros do grupo. Agora, a escolha da autoridade política administrativa se faria através do voto livre, sendo eleitos aqueles que merecessem a confiança da maioria absoluta dos votantes. Velhos conceitos democráticos foram redesenhados e codificados para ensejar uma forma de governo consentânea com a sociedade moderna, marcada pela liberdade individual. Assim renasceu, historicamente, a Democracia que, nos nossos dias, é reconhecida como modelo de organização social e política.
Mas não obstante o imenso progresso tecnológico, as promessas da Ciência todo poderosa não se cumpriram. A razão definiu os “itens” fundamentais da sociedade democrática, mas para transformá-los em valores efetivos seria necessário o consenso dos indivíduos envolvidos, e isto a razão (o pensamento) não podia fazer sozinha. O consenso depende de variáveis como o sentimento de aceitação, e a disposição (vontade) do indivíduo de aderir aos princípios que devem reger sua conduta. Só a convergência destas variáveis polarizariam a organização social democrática e solidária mediante a participação de todos... sendo a solidariedade[7] o estofo existencial da Democracia. Idealmente, portanto, a adesão aos valores democráticos de igualdade, fraternidade e liberdade teria que ser um gesto espontâneo de indivíduos predispostos a se organizarem em comunidade... A prática dos valores, antes imposta mediante a ameaça da “condenação eterna”, agora deveria ser o resultado de um compromisso consciente do sujeito social com a consagração do “Bem comum”.  A ambição humana sempre foi um obstáculo a esse gesto magnânimo. Por isso, não obstante a intenção do autor de “A Riqueza das Nações”(teórico do capitalismo), de promover o bem estar de todos,  na prática, o sistema da economia de mercado baseada na competição sem compromisso com a práxis solidária tornou-se um instrumento de exploração. Ora, a ordem social está intimamente ligada às relações econômicas, e estas podem induzir influências decisivas na prática do regime político. Na briga entre a hegemonia do capital ou do trabalho venceu o primeiro, promovendo o acúmulo cada vez maior de bens materiais nas mãos dos donos dos recursos monetários exigidos para a construção e manutenção da indústria nascente. Disso resultou finalmente um número crescente de excluídos da riqueza circulante. Acentuou-se a distância entre ricos e pobres, (re)configurando-se o contorno do relacionamento entre “senhores” e “escravos”, representados, agora, pelos “capitalistas” e “operários”, respectivamente.
            Certamente, a crueldade que se imputa, hoje, ao sistema capitalista teria sido evitada se a prática do regime tivesse sido guiada pelo “respeito à dignidade da pessoa do outro”...   Dessa forma, as relações entre patrões e empregados seriam mais justas quer no plano econômico, quer no nível dos direitos políticos. Mas na ausência dessa orientação, a competição econômica se tornou selvagem. Para baratear o custo da produção, a remuneração do trabalho operário foi sub dimensionada, acumulando-se injustiças que deram lugar a diferenças marcantes do poder aquisitivo das pessoas e, também, do nível de bem estar  e de informação.  
Os desmandos humanos nas relações sociais e o desrespeito ao ambiente acabaram afetando a sobrevivência no planeta. Tudo em função do “lucro”. Isto é, exatamente, o que está acontecendo hoje. O modo cobiçoso de lidar com os bens materiais (economia) comprometeu as relações políticas, deformando, na prática, a própria Democracia. Lucrar, levar vantagem a qualquer preço passou a ser um traço cultural (nunca declarado como um preceito, mas presente nas atitudes e ações), deslocando a competição leal em função da competência, e aviltando o processo democrático numa verdadeira subversão de valores. Fica entalada na garganta a indignação dos que percebem as porcas manobras eleitoreiras, a mixórdia das “composições” que campeiam nas Casas Legislativas, e o tráfico de influências, em detrimento da coletividade. Sem unidade ideológica, desinformada e carente de instrumentos eficazes de combate às distorções criminosas, a grande massa de contribuintes, sem saber como reagir, alimenta com os impostos que paga a incompetência e a corrupção dos detentores do Poder, que dilapidam os recursos financeiros públicos.
            Resumindo, os valores canônicos foram varridos, liberando o homem, do temor da condenação eterna como castigo pela negligência ética. Esta situação abriu caminho para as distorções do comportamento humano, inspiradas pela cobiça. Na ausência dos “valores sagrados”, uma ética do consenso seria o caminho mais salutar, desde que fosse praticada por cada homem no contexto de uma convivência solidaria. Contudo, esta bandeira soa ingênua, considerando a cupidez do comportamento humano, demonstrada através dos séculos... Em razão dessa tendência ambiciosa, a aplicação do sistema de Livre Mercado introduziu enormes deformações na distribuição de rendas... O capital sedento de lucro não teve pejo de agredir o direito do “outro”, e a própria Natureza... desvirtuando as relações humanas e pondo em risco o Planeta.
Dentro desta análise despretensiosa fica patente que a crise do mundo atual é, sobretudo, resultante da ausência de uma prática ética humanística compatível com os ideais comunitários que, em benefício do próprio homem, preservasse o equilíbrio das relações sociais, e o meio ambiente. Mas para alcançar este objetivo, democraticamente, seria indispensável a colaboração solidária de todos mediante um compromisso ao qual resiste o hiper-individualismo da pós-modernidade.
 O desprestígio da Ética Teocêntrica, e o fracasso, ou demora na construção e assimilação de uma ética laica baseada na razão e no consenso, está afundando a sociedade num comportamento permissivo, incompatível com o  respeito aos Direitos Humanos declarados pela ONU desde 1948.
A experiência de alguns povos nos últimos 30 anos demonstrou que o caminho para o Desenvolvimento Humano é a Educação intelectual e moral da criança e do adulto. Nos termos de nossa realidade atual, para colher os frutos de uma educação integral é preciso que prevaleça a decisão política do Estado, de investir maciçamente na Educação Continuada de qualidade. No rastro desse esforço, vislumbramos a consolidação e execução das determinações da Carta Magna da Humanidade, não apenas como um dever imposto, mas como extensão do sentimento de solidariedade latente na condição humana. Este seria o fundamento de um estado cultural evolutivo  improvável a curto e médio prazos, mas indispensável para a realização da humanidade plena.
A tecnologia tornou possíveis feitos inimagináveis no passado não muito distante. A informatização dos meios de comunicação pode ser considerada uma verdadeira revolução, mas não reflete uma mudança social. O futuro da Humanidade, o sonho democrático, está nas mãos do próprio homem. O poder de penetração da internet, e a rapidez na difusão das informações podem ser trunfos valiosos na luta por uma humanidade solidária. Mas este poder é apenas um instrumento de comunicação ainda restrito a um pequeno número de usuários.  Antes de tudo é necessário que o conteúdo da informação, e seus interlocutores estejam afinados pelo mesmo diapasão da solidariedade humana, cuja prática requer de cada um de nós o esforço consciente e responsável no sentido de disciplinar o egoísmo ambicioso!...


[1] Conjunto de princípios ou normas que, por corporificar um ideal de perfeição ou plenitude moral, deve ser buscado pelos seres humanos. Dic. de Houaiss

[2]Conjunto de padrões de comportamento, crenças, conhecimentos, costumes etc. que distinguem um grupo social     forma ou etapa evolutiva das tradições e valores intelectuais, morais, espirituais (de um lugar ou período específico); civilização. Dic. de Houaiss

[3]  Atitude segundo a qual os métodos científicos devem ser estendidos sem exceção a todos os domínios da vida humana.
[4] De acordo com os cânones, com as regras eclesiásticas, os dogmas da Igreja.

[6] Observância rigorosa à ortodoxia de doutrinas religiosas antigas. Dic. Aurélio Sec.XXI
[7]  Relação de responsabilidade entre pessoas unidas por interesses comuns, de maneira que cada elemento do grupo se sinta na obrigação moral de apoiar o(s) outro(s): solidariedade de classe. Dic. Aurélio sec.XXI

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Lembretes valiosos


No íntimo de cada homem agita-se o pensamento curioso. Sob essa agitação há um tropel de emoções e de sentimentos! Neste contexto, a vontade teimosa se insinua, sustentando valores, e implementando desejos. Orientado pelo pensamento e pelos sentimentos, auxiliado pela vontade, o sujeito consciente realiza suas possibilidades, mediante escolhas e ações pertinentes. Para escapar de ser-para-nada, o homem se agarra a uma âncora, seja uma crença, uma expectativa amorosa, um “projeto” empresarial... a intensidade com que  mergulha num desses empreendimentos é que confere consistência à sua “existência”.
            Na ausência da empolgação de um ideal sedutor, exceto aqueles momentos em que se está amando ou criando, a existência se resolve em incerteza, dor, sofrimento e prazeres equivocados... O controle consciente através da intervenção pessoal sobre o devir é apenas uma variável no meio de muitas outras independentes. Com este perfil o homem está sujeito a situações imprevisíveis... Afinal, ele será, sempre, uma gestalt aberta à influência de especulações inacabadas... Mas a vida lhe cobra uma definição, exige-lhe uma postura definida. Nesta conjuntura, sábio é aquele que, contra todas as incertezas, aposta na possibilidade de vida plena para fechar sua gestalt... e avança resoluto para um final almejado. A qualquer momento poderá ser suprimido da existência, mas, então, na plenitude do “ser”, como o pássaro abatido em pleno voo.
Cada momento é completo em si mesmo... A consciência do “presente” é que forja a realidade atual. Quem se detém, preocupado com a expectativa do próprio fim, torna-se objeto da observação de si mesmo, imobilizado diante da sua característica básica, a simples possibilidade de ser... e dessa forma desperdiça a oportunidade de atualizar-se criando algo original e pessoal... É o esforço criativo que constrói a realidade existencial, esculpindo uma personalidade...  A determinação consciente de atualizar-se, responsavelmente, leva a condição humana à ação criativa aqui e agora... nada acontece no passado ou no futuro, mas no “presente”... e como é óbvio, fazendo hoje o que precisa ser feito constrói-se o alicerce do amanhã. Pleiteando, mesmo com risco, um objetivo valioso, o ser consciente ganha tranqüilidade na esperança de ser-para-algo-significativo... então será feliz, vivendo no limite das suas potencialidades. Mas para isso é preciso crer... acreditar na força pessoal de realização... talvez contextualizando-se, consciente dos próprios limites, na perspectiva de um ordenador absoluto, sábio e misericordioso... alimentando, com fé, o otimismo quase infantil da expectativa de um final feliz. Fantasia? Talvez! Mas o que é a realidade senão possibilidade atualizada? E o que são as possibilidades antes de atualizadas, senão “fantasias”? Entre a possibilidade de ser e a realização pessoal o homem vive a ansiedade da incerteza... e se esforça para neutralizá-la de alguma forma. Esta visão faz parte do imaginário coletivo, e é legível em manifestações que enriquecem a cultura popular. Neste contexto serve de exemplo a versão pitoresca do modo de ser light que antagoniza a angústia existencial, descrito na “letra” do xote criado por Acyoli Neto, “Natureza das coisas”, divulgado pelo cantor Flávio José.

            “Ô chá lá,lá,lá,lá (bis )
           
            Se avexe não...
            Amanhã pode acontecer tudo,
           Inclusive nada.
           
Se avexe não...
            A lagarta rasteja
           Até o dia em que cria asas.

            Se avexe não...
            Que a burrinha da felicidade
           Nunca se atrasa.   
Amanhã ela para
Na porta da sua casa.

            Se avexe não...
            Toda caminhada começa
No primeiro passo,
            A natureza não tem pressa
Segue seu compasso,
            Inexoravelmente chega lá...

            Se avexe não !
            Observe quem vai
Subindo a ladeira
            Seja princesa ou seja lavadeira...
            Pra ir mais alto vai ter que suar.

            Ô coisa boa é namorar,
            Ô coisa boa é namorar.

O caráter fundamental da condição humana é transcender... o que expõe o sujeito consciente aos percalços da perplexidade e da angústia.  A toada popular mencionada, de uma forma ingênua, encerra exortações que prometem, sem compromisso, desfazer a ansiedade e o estresse, acenando com um porvir baseado na esperança e na aceitação da realidade... “Viajando” nelas, por um momento, nos predispomos à experiência do fatalismo inocente e otimista que fundamenta a sabedoria popular.
A competição selvagem que permeia a vida social, fez do estresse a doença do século. É ingênuo aconselhar: não se estresse! Ninguém tem o poder de evitar, sempre, as dificuldades que atropelam a “existência”... as situações estressantes fazem parte das nossas vidas... enquanto cada alma vai costurando suas defesas, seu modo de enfrentar a estrição. Nesta situação dir-se-ia: “Se avexe não”... não seja radical!! “Se avexe não”... “A burrinha da felicidade nunca se atrasa, amanhã ela para na porta da sua casa”... admita esta possibilidade se não puder crer! “Se avexe não”... forçando a barra você pode perder a razão. “Se avexe não”... a história não tem pressa segue o seu compasso e inexoravelmente o futuro chegará! “Se avexe não”. Confie em si mesmo (iniciativa e realização) que na hora própria, se merecer, você receberá a recompensa... O “Se avexe não” é uma recomendação que se praticada sabiamente pode anular o impacto do estresse. Na verdade ninguém escapa do estresse neste mundo contaminado pela mentira e pela ambição. O que se pode fazer é administrá-lo, inteligentemente. Alguns lembretes ajudam neste gerenciamento.
1: Lembrar a todo instante que tudo é provisório, nada é definitivo.
2: Lembrar o óbvio que teimamos em esquecer:
a) Revoltar-se, quedando-se a imaginar que o fato estressante nunca deveria ter acontecido, é tão insensato como querer inverter a seta do tempo.
b) Querer mudar, de repente, as pessoas que o estressam equivale a querer remodelar, com as mãos nuas, uma escultura talhada num bloco de rocha magmática. 
 c) Reagir às provocações, propositais ou não, inseridas no comportamento das pessoas que o estressam é uma forma de escravidão. Se não puder evitá-las ignore-as quando o/a provocarem.
d) Só há estresse quando se está emocionalmente envolvido. Se não puder evitar a situação estressante recolha-se e descreva-a, para você mesmo/a... Ao derramar no papel a sua exposição minuciosa, sem qualquer julgamento ou crítica, reduz-se o nível da tensão emocional, aliviando o estresse.
e) Ao manter viva a consciência de que o estresse exalta a imaginação, se esforce para podar os exageros dramáticos do seu medo ansioso, e assim imunizar-se contra o desespero.
f) Quando se esgotarem todos os recursos defensivos ante uma situação estressante entregue-se sem reservas à lei geral que rege todas as coisas e ganhará, paradoxalmente, alguma tranqüilidade... o consentimento embutido nesta atitude é algo emocionalmente equivalente ao que acontece quando se é agraciado pela fé na providência e misericórdia do Criador ao dizer: “Seja feita a Vossa Vontade”.
Com estes lembretes não queremos editar um texto de autoajuda[1], mas oferecer ao leitor uma visão dinâmica das posturas mais inteligentes diante das situações estressantes da vida.


[1] No texto anterior (Alquimia psíquica) já assinalamos a inoperância dos livros de autoajuda..

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Alquimia psíquica


Alquimia Psíquica[1]
Os livros de auto-ajuda não produzem o efeito que dele espera o leitor ávido de trabalhar a própria subjetividade em busca de maior coerência interna, e comportamental. Eles apenas propõem regras de vida, mencionam virtudes existenciais, e anunciam os comportamentos adequados... oferecem conselhos sábios... mas não dizem como se chega lá, ou seja como assimilar existencialmente as propostas recomendadas. Discutem as questões inerentes à ajuda anunciada, no nível intelectual, apenas. Ora, ter noção do que é certo é somente um passo na elaboração das respostas emocionalmente bem comportadas e das condutas éticas respeitosas que propiciam bem estar pessoal e harmonia social no desdobramento das relações humanas. Respostas e condutas que refletem mente esclarecida e coração generoso.  Para vivê-las é preciso mais do que defini-las... é necessário estar decidido a consolidar a auto-estima, atuando com equilíbrio e dignidade nas relações inter-pessoais[2]... ou seja, estar apaixonado pela verdade, e pela sabedoria comportamental, tomando-as como metas prioritárias que direcionam a vontade para a prática das virtudes apregoadas. O simples relato destas virtudes não tem, portanto, poder transformante... Assim, os livros de auto-ajuda permanecem mero rol de conselhos bem intencionados. Aliás, não se aprende em livros como catalisar a metamorfose interior que caracteriza a metanóia[3], daí porque os compêndios de autoajuda cumprem apenas uma parte do processo: o discernimento da conduta correta, ética e existencialmente. A “ajuda” só seria completa se tais compêndios propiciassem ao leitor uma pedagogia capaz de promover a metamorfose interior, essência da verdadeira conversão. Mas, não há fórmulas mágicas para realizar a alquimia psíquica consistente na transformação das propostas comportamentais em módulos de vida integrados no esquema existencial.  Este processo é caprichoso e misterioso... por vezes instantâneo e dramático como foi para São Paulo às portas de Damasco[4], outras vezes lento e laborioso como aconteceu com Santo Agostinho... para citar apenas dois exemplos emblemáticos. 
A prática dos valores que presidem as relações do homem consigo mesmo e com os outros resulta de uma luta sem quartel entre o “Anjo” e o “Demônio” que se debatem na subjetividade. O que faz o homem é a capacidade de promover a síntese das suas tendências contraditórias. Isto ele consegue mediante a determinação de disciplinar suas respostas emocionais, e de tomar decisões judiciosas... ambas expressas em ações coerentes, no contexto de um projeto humanístico calcado na solidariedade entre todos os homens. Faz falta uma pedagogia para conduzir a transformação interior do homem, analogicamente,  comparável à fórmula que os “alquimistas” da Idade Média buscavam para transformar os metais pobres em ouro.
A catequese tradicional já experimentou os métodos mais radicais... da auto-flagelação aos retiros e jejuns prolongados; dos esforços racionais sofisticados, à meditação intuitiva em oposição à racional, como no Zen Budismo. Tudo em prol da conquista da predisposição ao agir equânime indispensável à harmonia existencial e social do contexto comunitário.
No prolongamento da investigação profunda dos processos mentais, a Psicanálise descobriu o Inconsciente, instância onde se dá a intimidade entre o biológico e o psíquico... o momento da irrupção das forças da natureza na psique, que resulta na transformação dos instintos em necessidades poderosas, mas controláveis pela vontade. O instinto de conservação preservado no desejo de viver, associado aos mecanismos de defesa conscientes e inconscientes; o instinto sexual codificado na libido domesticável, embora teimosa, garantindo a perpetuação da espécie.
Abordando o inconsciente mediante técnicas elaboradas, a Psicanálise se propõe ajudar o analisando a reformular seus esquemas de conduta. Mas na verdade apenas consegue anular o obstáculo inconsciente, ao exercício da liberdade. Liberdade necessária para as ações criativas do homem como artífice de si mesmo e agente do processo evolucionário... Nesta linha evolutiva a individuação passa necessariamente pela socialização[5]... constituindo-se na busca do equilíbrio psicossocial, objetivo inarredável do exercício da consciência responsável.
A compreensão da “anatomia” da psique não garante a manipulação eficaz das forças psíquicas.  A transformação psíquica alquímica da qual falamos antes demanda uma construção baseada no autoconhecimento e na disciplina emocional. Não há uma pedagogia que conduza, seguramente, à metamorfose psíquica que culmina com a conquista do “self”.  O homem terá que enfrentar esta caminhada, sozinho, num processo laborioso de individuação, na busca do “si mesmo” equilibrado, autônomo, sábio, livre e criativo. Por suposto, este ideal é alcançado pelo exercício pleno da consciência. Há relato de homens que comprovaram esta tese em suas vidas modelares. Os grandes líderes espirituais da humanidade são exemplos marcantes de que o homem pode alcançar um desfecho de sua “individuação” compatível com a construção de uma humanidade solidária... sendo esta finalização, por motivos óbvios, o objetivo da própria Evolução. Pois, se esta meta não for alcançada, a humanidade não sobreviverá...
A ausência de uma pedagogia específica para ensinar a ser “homem” pela superação vivencial das contradições da condição humana não implica na impossibilidade de realização da humanidade plena. Se houvesse um algoritmo infalível para alcançar esse objetivo não sobraria lugar para o exercício do livre arbítrio. E é exatamente neste espaço de liberdade que o homem se “cria” a si mesmo, na melhor hipótese em função de uma meta universal... e estabelece vínculos sociais sólidos. Por isso se diz que o homem é um ser de cultura, não há um modelo natural do homem, ele é sua própria construção... ao nascer carrega apenas, na condição humana, a ferramenta para esculpir-se a si mesmo. Neste labor criativo é razoável admitir que o primeiro passo é o compromisso com a autenticidade da construção,  o segundo será o conhecimento da dinâmica da própria “existência”... o terceiro é o domínio da disciplina emocional... e o quarto passo é a consumação de uma atitude compassiva. A solução da problemática humana está implícita na convergência dos quatro passos assinalados. Todavia é impossível conduzir esta convergência obedecendo a uma metodologia sistemática.
Em face das considerações feitas concluímos que a verdadeira autoajuda se confunde com a auto-análise conduzida com inteligência e disciplina no processo de individuação[6].
Everaldo Lopes
           


[1] Não apenas  a  transformação  da  energia  física  em  energia  mental,  mas, também  do  conceito  (pura     elaboração intelectual) em vivência (experiência prática afetiva ).
[2] Pessoa - cada ser humano considerado como individualidade física e espiritual, e dotado de atributos como racionalidade, autoconsciência, linguagem, moralidade e capacidade para agir

[3] Transformação fundamental de pensamentos ou do caráter. Conversão espiritual.
[4] Não vou aqui considerar a sugestão de alguns estudiosos que classificam esta experiência vivida pelo Apóstolo como uma aura epiléptica... Sem descer a detalhes, é oportuno lembrar a coerência e profundidade da pregação do Santo responsável pela divulgação do Cristianismo no Ocidente.
[5] Desenvolvimento do sentimento coletivo, da solidariedade social e do espírito de cooperação nos indivíduos associados. Aurélio Sec.XXI.
[6] Processo por meio do qual uma pessoa se torna consciente de sua individualidade, de acordo com C.G. Jung (1875-1961)

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Solidariedade


Amai-vos uns aos outros, pregava Cristo aos do seu tempo. Amai-vos uns aos outros, repete a Igreja de Cristo há mais de dos mil anos. Um apelo à determinação voluntária do homem à prática da solidariedade. A proposta cristã resume um humanismo que se concretiza na igualdade de oportunidades para todos os homens, fundamentada na organização social, política e econômica da coletividade humana... ideal democrático de  convivência, antídoto para a ameaça real à sobrevivência do homem absorvido pelo imediatismo de ambições menores que o impedem de fomentar com seus pares uma verdadeira comunidade.
Para melhor compreender a essência do grande mandamento, é fundamental discernir o que nele se entende por “amor”. O que caracteriza, afinal, o encontro (caridoso[1]) preconizado por Cristo e sua Igreja? Dadas as tendências atávicas, egóicas, que jazem indormidas no fundo da condição humana, este amor é um milagre... pois, consiste na experiência de dar e receber atenções e cuidados, gratuitamente... numa relação intersubjetiva, baseada no respeito mútuo traduzido em atos justos, coerentes com o exercício da solidariedade... conduta  que bate de frente com as tendências atávicas primárias. No nível deste amor as relações humanas excluem a submissão, a dominação e a posse.
A transição da animalidade pura para a humanidade instala-se, lentamente, com o despertar da consciência[2] reflexiva. A natureza íntima da consciência permanece um mistério para a ciência. Mas, dadas as características integrativas que detém, a prática consciente deveria unir as pessoas numa trama solidária. É lastimável que os equívocos gerados pelo uso incompetente do livre arbítrio tenham distorcido o processo da humanização tida como resultado do exercício responsável da consciência no vir a ser pessoal. A transição qualitativa assinalada (a emergência da consciência) é um salto tão extraordinário na história da evolução da vida, que a metodologia científica é pobre para abordá-la, e explicá-la, objetivamente. O que não escapa à observação é que essa transição rompe a intimidade instintiva do homem com a natureza... com isso alteram-se as relações dos indivíduos entre si, e destes com o mundo. Esta intimidade instintiva perdida para sempre deverá ser substituída por vínculos psicodinâmicos complexos, “improváveis”, cuja consumação está na dependência de um dom, o “amor-caridade”. Nesse contexto, cremos razoável admitir que, no plano natural, a compreensão é a abertura psicológica que se oferece ao homem para inserir-se no ciclo do “amor”. A compreensão exige do homem um esforço intelectual cuja motivação principal é a necessidade pessoal de transcender o isolamento da consciência solitária... esforço vinculado ao compromisso de o ser consciente incorporar-se à realidade, com a responsabilidade de administrá-la em prol do bom uso dos recursos naturais do planeta, sem desperdícios, com preservação do equilíbrio ecológico, numa mobilização de forças intelectuais e morais para harmonizar as relações entre o homem e a Natureza, e dos homens entre si. Isto implica em certa cumplicidade do Criador e sua criatura (homem) confiante na coerência e infalibilidade das Leis eternas da Criação. Quiçá, mantendo este estado de espírito, amparado pela ausência de contradição no exercício pleno da consciência, o homem será, afinal, empolgado pelo amor magnânimo e misericordioso do próprio Criador... No roteiro dessa experiência se amplia a superfície de contato espiritual entre os homens, recordando sua intimidade original com o mundo e com os seus semelhantes, agora num patamar consciente e não mais instintivo.
O homem não pode impor-se o dom da fé, mas está ao seu alcance motivar-se (encontrar razões) mediante recursos especulativos inerentes à sua própria realidade, no sentido de tentar compreender o “outro” nas suas justas demandas... mais do que isso, o homem precisa efetuar o esforço adicional de   comungar com ele a beleza, a harmonia do universo... Tudo são reflexos da generosidade do Espírito Incriado no qual estamos todos imersos, e do qual todos dependemos. Tendo em vista que nenhum dos seres criados tem a “força da subsistência”, para existir, cada criatura deverá ser sustentada, momento a momento, pelo Criador. Em função da consciência reflexiva o homem O reconhece na própria subjetividade, numa vivência privilegiada... todos podem beneficiar-se deste contato íntimo, intuitivo, com o “absoluto”. Embora esta experiência dependa da coincidência de fatores pessoais e circunstanciais, representa, potencialmente, a possibilidade de um momento de integração suprema de todos os homens. A unidade do amor infinito do Criador é o fundamento do “Amai-vos uns aos outros”. Se o Dinamismo Criativo Absoluto (Deus) está presente em cada criatura, todos, juntos realizamos n´Ele uma comunidade perfeita... Esta especulação laica pode ser supérflua para o homem de fé que não precisa de uma intermediação racional para chegar a Deus... Mas para os que se ressentem da fragilidade deste dom (a fé), estas considerações são preciosas.
O “Amai-vos uns aos outros” equivale à prática do amor fraterno. Reporta a uma situação em que duas pessoas, diferentes em seus caracteres físicos, condicionamentos psicológicos e culturais, se identificam pelo núcleo humano profundo (divino), participando ambas do Amor Universal.  Cada uma está ciosa da sua individualidade estruturada numa experiência ímpar, mas ambas se reconhecem irmanadas pela condição humana. Os homens se necessitam reciprocamente para sobreviver como espécie.
Nesta perspectiva, o amai-vos uns aos outros já não nos parece uma utopia inventada pela ousadia teológica de missionários fanáticos; nem tão pouco, uma fórmula oca pendente de humanismos ingênuos. O maior dos preceitos cristãos denota a solidariedade como um princípio imanente e transcendente, indispensável à completa realização da humanidade. Sem esse princípio vitalizador não pode haver harmonia entre os homens, não há como defender a própria dignidade humana, nem a sobrevivência da espécie.
            O “Amai-vos uns aos outros” bíblico, não é uma simples inclinação para o objeto amado, modulada pela afetividade, não é uma paixão, não é um estado acrítico de receptividade às demandas do outro, nem muito menos um sentimento de posse. O mandamento sinaliza, sobretudo, o respeito mútuo entre os homens. Trocado em miúdo significa admitir a originalidade do outro, compreender-lhe as motivações, sem subtrair-lhe a responsabilidade sobre seus atos perante a comunidade dos homens. Significa solidarizar-se com o outro no reto proceder, negar-lhe apoio ao erro comportamental e, finalmente, perdoá-lo mediante seu sincero arrependimento, e retomada do compromisso com a solidariedade comunitária.

                                                           Everaldo Lopes



[1] Caridade-  No vocabulário cristão, o amor que move a vontade à busca efetiva do bem de outrem e procura identificar-se com o amor de Deus; ágape, amor-caridade.
[2] A consciência é uma atividade complexa que se caracteriza por dinamismo, totalidade, subjetividade, intencionalidade e prospecção, tendo como funções destacadas, a atenção e a memória.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Nada acontece por acaso


Presumindo profunda sabedoria e até com certo colorido de mistério, as pessoas dizem: “- Nada acontece por acaso”. Embora ignorem o seu alcance filosófico, esta afirmação não é desprovida de sentido. Na verdade ela denuncia a complexidade fenomenológica de causas e efeitos recíprocos de todos os fatos e acontecimentos, subentendida uma integração absoluta da realidade. Isto quer dizer que, extrapolando o determinismo linear imediato perceptível, cada evento resulta da inter-relação de todos os demais, de forma que cada um carrega a influência dos outros. No contexto unitário da realidade toda, esta influência recíproca pode ser tão sutil que seria impossível representá-la, o que não a suprime, todavia. Então, se tudo tem a ver com tudo, não é despropositado dizer que “nada acontece por acaso” (porque tudo se relaciona), embora não percebamos o determinismo complexo que está por trás de cada evento. Nesta corrente ininterrupta de influências se insere o livre arbítrio inerente à intervenção humana, como um elemento que pode fazer a diferença na ordenação dos acontecimentos.
Sem atentar para a intimidade dinâmica do acontecer no mundo, a afirmação contida na frase que serve de título a este texto abre espaço para dar um significado extraordinário ao fato inexplicável no universo restrito da lógica linear, que, por isso mesmo, enseja a sua associação a uma intervenção transcendental, misteriosa. Aliás, as relações complexas de causa e efeito que não são óbvias, mesmo que venham a ser compreendidas, não excluem esta intervenção.  Por suposto, um “dinamismo absoluto eternamente criativo” utilizar-se-ia exatamente desta complexidade para realizar o fato “extraordinário” e “misterioso”. Mesmo que seja possível uma análise semântica, multifatorial, da gênese do acontecimento inusitado, e que fique demonstrado estar o mesmo inserido numa corrente de causas e efeitos cuja complexidade engloba a seqüência linear da realidade conhecida, o fato inabitual continua extraordinário e misterioso na perspectiva em que se coloca o homem comum diante da realidade visível. A impossibilidade de abarcar com o pensamento todos os ângulos de um todo tridimensional complexo [uma gestalt[1] inexcedível (absoluta)], obriga-nos a absorver essa experiência como uma vivência e não um conhecimento. O conhecimento desta complexidade de causas e efeitos simultâneos e recíprocos não está ao alcance dos nossos recursos gnosiológicos limitados. E então, configura-se uma situação em que o fato inegável e, ao mesmo tempo, inexplicável poderá ser atribuído a uma “Divindade”. Evidentemente, esta atribuição é da ordem da fé e não do conhecimento racional. Embora a lógica da complexidade possa jogar alguma luz sobre a questão, não anula a atribuição conferida pela fé à influência transcendental sobre o determinismo do evento incomum favorável ou desfavorável. Todavia, alguém poderia, nas mesmas circunstâncias, atribuir o fato inusitado a uma conjunção de fatores, determinada por coincidências convergentes. Mas, para aceitar, estatisticamente, a confluência de coincidências felizes na evolução da matéria e dos fatos num sentido determinado seria necessário admitir o (anti)acaso!!! Como se vê, qualquer dos casos [transcendência, ou (anti)acaso] não tem o apoio de um conhecimento formal. Atribuir o fato surpreendente a uma intervenção transcendental ou jogá-lo no rol de simples coincidência de fatores que a Ciência ainda não consegue rastrear, pode ser uma opção de risco, consciente... Diante desta alternativa o gênio de Blaise Pascal “apostou” na intervenção transcendental (Deus).  Experiência que se enquadra numa visão holística[2] da realidade de natureza relativística quântica, na qual não se consegue facilmente estabelecer limites nítidos entre a física e a metafísica.
Por outro lado, vivemos integrados num Universo de incertezas no qual, excluída uma intervenção transcendental, o (anti)acaso se torna elemento importante para a compreensão do mundo conhecido, reeditando, porém o sentido de uma interferência que ultrapassa os limites da experiência, por seu poder determinante obscuro na trama da realidade.
No seio da perplexidade filosófica sobre a origem do próprio “ser” representa-se o mundo físico como projeção virtual de uma realidade metafísica cuja luminosidade nos cegaria se a ela nos expuséssemos diretamente. Não foi esta a visão de Platão no Mito da caverna? Não estamos trazendo, pois, novidade alguma. A adesão a estas idéias, porém, marca o fim de uma postura agnóstica e a abertura para uma experiência mística. Não se tem o controle psíquico efetivo desta experiência. O Deus que se anuncia pela especulação metafísica está, porém, muito distante do encontro místico... é um deus filosófico que só parcialmente atende a angústia existencial... A paz mística só acontece quando o ser consciente urde no seu subjetivismo a relação imediata, confiante, com um poder absoluto que se constitui no seu Alter Ego... esta é a tessitura psicológica da fé.  
Na verdade, a fé e a razão são complementares... a compreensão da complexa realidade evolutiva reforça a própria fé que é um dom, e esta serve de base para as construções racionais. Se a razão não alcança a essência das coisas, a metodologia científica só pode conduzir a uma aproximação cada vez maior da verdade que, todavia, por mais apurada que seja, racionalmente, será ainda uma atribuição que não se pode isolar inteiramente de um componente de fé.         
Mas a pergunta crucial que se esconde por trás da afirmação emblemática que estamos analisando é se no determinismo complexo que vimos de abordar há uma intenção absoluta de beneficiar ou punir o sujeito consciente da História. Penso que, ao fim e ao cabo, admitir uma ou outra destas proposições é ainda uma atribuição, intimamente, relacionada com o grau de integração pessoal, holística, do sujeito consciente no todo universal. A vontade absoluta regulatória garante a manutenção das leis universais sob as quais o mundo e o homem se tornam possíveis. O mundo (a Natureza) obedece-as cegamente; o homem, porém, com seu livre arbítrio tem o poder de manipulá-las para o seu próprio bem... A visão equivocada deste “bem” é que dá origem ao mal. Na intimidade, pois, de cada um define-se a resposta à pergunta crucial, na medida em que o ator consciente da História assume responsabilidade sobre seus atos em relação à harmonia do Todo. No fundo, tudo se resume na capacidade de o homem integrar-se na ordem universal que o transcende, contribuindo, criativamente para mantê-la ... então, ele viverá esta verdade com a humildade de um gigante: “Nada acontece por acaso”. [3]


[1] Teoria que considera os fenômenos psicológicos como totalidades organizadas, indivisíveis, articuladas, isto é, como configurações,

[2] Abordagem, no campo das ciências humanas e naturais, que prioriza o entendimento integral dos fenômenos, em oposição ao procedimento analítico em que seus componentes são tomados isoladamente [Por ex., a abordagem sociológica que parte da sociedade global e não do indivíduo.]

[3] Sei que neste texto ficaram abertas algumas questões sobre as quais voltarei em postagens futuras. Os leitores me ajudariam se assinalassem os segmentos do texto que lhes suscitaram dúvidas.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Conjuntura político social

Diante do momento político ultrajante que vivemos, experimento um sentimento de “impotência”... uma   perspectiva de “inutilidade” que induziria ao niilismo, não fora a determinação responsável de persistir na luta pelos ideais democráticos. E neste sentido se impõe a grande questão: “Que fazer para sanear as Instituições e promover o desenvolvimento humano neste Brasil de tantas possibilidades?” Esta pergunta que os brasileiros esclarecidos se fazem é ignorada pelos que detêm o poder. É notório que os falsos políticos não estão interessados em resgatar da desinformação e da miséria uma grande maioria dos brasileiros. Esta condição facilita as manobras eleitoreiras. Por outro lado, o cidadão consciente dos seus deveres cívicos, resolvido a não deixar-se abater, sente-se marginalizado num país em que as eleições são decididas por maioria desinformada... revolta-se com a desfaçatez dos políticos desonestos e manipuladores... desencanta-se com um   Judiciário frágil, incapaz  de defender os direitos democráticos do cidadão comum.
Para varrer a podridão político-administrativa do cenário nacional é preciso eliminar a corrupção expressa no fisiologismo eleitoreiro, nos atos explícitos de improbidade e no comércio espúrio de influência, que desvirtuam o processo democrático. Sanear a prática político-administrativa implica numa mudança radical de mentalidade. Jornada heróica, uma vez que subentende a conversão de cada indivíduo... uma mudança de atitude, algo mais do que o simples reconhecimento teórico dos cânones éticos... requer a disposição voluntária e a determinação pessoal de exercitar a cidadania, responsavelmente.  Ninguém assume uma postura solidária, compatível com o bem comum, sem um esforço pessoal contra a tendência inata egoística, ambiciosa, auto-condescendente. Esta mobilização de forças interiores é o cerne da evolução desde a emergência evolutiva da condição humana caracterizada pelo exercício da consciência responsável. Para dar este salto de qualidade cada um terá que superar sua própria facticidade[1]. Mas o tamanho do desafio não justifica o abstencionismo cômodo. O laisser-faire aplicado ao devir pessoal, ou à organização político-social e econômica é uma deserção da responsabilidade de ser homem.
Na longa caminhada saneadora político social não se deve insistir, ingenuamente, apenas, em combater ideologias como se elas fossem  representações do real. Este tipo de engajamento acaba se consumindo em polêmicas teóricas. O real está nas relações sociais entre os seres humanos... e elas têm um caráter existencial, são de natureza econômica e política, singularizadas por interações psicodinâmicas  pessoais complexas.
Sociólogos modernos trabalhando em parceria com psicanalistas advogam que a verdadeira luta se trava na mobilização de forças conscientes e inconscientes para a construção do subjetivismo moldado nos valores que inspiram a solidariedade e a cooperação, visando o bem comum. É o desejo de justiça que se vivencia na profunda indignação diante do sofrimento dos pobres e oprimidos, que move a consciência esclarecida e sensível a cultivar e liderar as ações comunitárias... é o desejo de que não haja mais exploração nem dominação, que motiva à ação solidária. Nada se conseguirá de forma efetiva sem mexer nos desejos pessoais. E isso ultrapassa o simples esforço intelectual, é uma opção de vida que envolve também o sentimento e a vontade. Implica em mudança de comportamento, um novo modo de ser.
  Em tese, o exercício responsável da consciência deve levar a relações interpessoais autênticas que sirvam de base à construção da comunidade humana, promovendo consenso na disposição de fazer do bem comum o alvo de todas as atenções do grupo. Isto posto, assoma um problema prático. Estamos indignados com as injustiças sociais... sabemos qual é o remédio eficaz para tratar essa chaga, mas a eficácia terapêutica depende da livre adesão  de cada indivíduo ao tratamento... e, lamentavelmente, o homem está mergulhado em equívocos que o tornam refratário, preso a enganos, embalsamado na inércia cultural, resistente às mudanças necessárias. O impacto desta constatação poderia ser fatal para os nossos ideais democráticos, se nos faltasse a “esperança”.
Enfim, é preciso mexer com a subjetividade das pessoas para reelaborar os paradigmas vigentes em prol de uma nova ordem. E é óbvio que esta mudança não acontecerá por um passe de mágica! É preciso insistir em fazer o que achamos politicamente correto, malgrado os contratempos e dissabores. Em termos gerais a proposta consiste em que todos os que forem tocados pelos ideais magnos de verdade, justiça e solidariedade, alinhados pela coerência do ideal democrático insistam na ação destemida em prol da construção da comunidade humana. É preciso acreditar em que, seguindo esta trilha somar-se-ão nossas ações singulares, inspiradas pelo mesmo ideal, na promoção da solidariedade entre os homens. Este é o projeto que embala o nosso sonho democrático. E sonhar pode resultar em mais do que perder-se em propostas românticas... É oportuno lembrar aqui o que escreveu Eduardo Giannetti em um dos seus livros: “Quando a criação do novo está em jogo, resignar-se ao provável e ao exequível é condenar-se ao passado e à repetição. No universo das relações humanas, o futuro responde à força e à ousadia do nosso querer. A capacidade de sonhar fecunda o real, (re)embaralha as cartas  do provável e subverte as fronteiras do possível. Os sonhos secretam o futuro”.
A vontade reforça o desejável e prioriza a realização do que sonhamos construir, tornando-o mais provável!!! Nesta perspectiva nos colocamos como agentes políticos, fazendo o que está ao nosso alcance, e confiando na arregimentação dos que acreditam na causa da humanidade para encorpar o movimento redentor.


[1]  Caráter próprio da condição humana pelo qual cada homem se encontra sempre já comprometido com uma situação não escolhida.