terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Solidariedade


Amai-vos uns aos outros, pregava Cristo aos do seu tempo. Amai-vos uns aos outros, repete a Igreja de Cristo há mais de dos mil anos. Um apelo à determinação voluntária do homem à prática da solidariedade. A proposta cristã resume um humanismo que se concretiza na igualdade de oportunidades para todos os homens, fundamentada na organização social, política e econômica da coletividade humana... ideal democrático de  convivência, antídoto para a ameaça real à sobrevivência do homem absorvido pelo imediatismo de ambições menores que o impedem de fomentar com seus pares uma verdadeira comunidade.
Para melhor compreender a essência do grande mandamento, é fundamental discernir o que nele se entende por “amor”. O que caracteriza, afinal, o encontro (caridoso[1]) preconizado por Cristo e sua Igreja? Dadas as tendências atávicas, egóicas, que jazem indormidas no fundo da condição humana, este amor é um milagre... pois, consiste na experiência de dar e receber atenções e cuidados, gratuitamente... numa relação intersubjetiva, baseada no respeito mútuo traduzido em atos justos, coerentes com o exercício da solidariedade... conduta  que bate de frente com as tendências atávicas primárias. No nível deste amor as relações humanas excluem a submissão, a dominação e a posse.
A transição da animalidade pura para a humanidade instala-se, lentamente, com o despertar da consciência[2] reflexiva. A natureza íntima da consciência permanece um mistério para a ciência. Mas, dadas as características integrativas que detém, a prática consciente deveria unir as pessoas numa trama solidária. É lastimável que os equívocos gerados pelo uso incompetente do livre arbítrio tenham distorcido o processo da humanização tida como resultado do exercício responsável da consciência no vir a ser pessoal. A transição qualitativa assinalada (a emergência da consciência) é um salto tão extraordinário na história da evolução da vida, que a metodologia científica é pobre para abordá-la, e explicá-la, objetivamente. O que não escapa à observação é que essa transição rompe a intimidade instintiva do homem com a natureza... com isso alteram-se as relações dos indivíduos entre si, e destes com o mundo. Esta intimidade instintiva perdida para sempre deverá ser substituída por vínculos psicodinâmicos complexos, “improváveis”, cuja consumação está na dependência de um dom, o “amor-caridade”. Nesse contexto, cremos razoável admitir que, no plano natural, a compreensão é a abertura psicológica que se oferece ao homem para inserir-se no ciclo do “amor”. A compreensão exige do homem um esforço intelectual cuja motivação principal é a necessidade pessoal de transcender o isolamento da consciência solitária... esforço vinculado ao compromisso de o ser consciente incorporar-se à realidade, com a responsabilidade de administrá-la em prol do bom uso dos recursos naturais do planeta, sem desperdícios, com preservação do equilíbrio ecológico, numa mobilização de forças intelectuais e morais para harmonizar as relações entre o homem e a Natureza, e dos homens entre si. Isto implica em certa cumplicidade do Criador e sua criatura (homem) confiante na coerência e infalibilidade das Leis eternas da Criação. Quiçá, mantendo este estado de espírito, amparado pela ausência de contradição no exercício pleno da consciência, o homem será, afinal, empolgado pelo amor magnânimo e misericordioso do próprio Criador... No roteiro dessa experiência se amplia a superfície de contato espiritual entre os homens, recordando sua intimidade original com o mundo e com os seus semelhantes, agora num patamar consciente e não mais instintivo.
O homem não pode impor-se o dom da fé, mas está ao seu alcance motivar-se (encontrar razões) mediante recursos especulativos inerentes à sua própria realidade, no sentido de tentar compreender o “outro” nas suas justas demandas... mais do que isso, o homem precisa efetuar o esforço adicional de   comungar com ele a beleza, a harmonia do universo... Tudo são reflexos da generosidade do Espírito Incriado no qual estamos todos imersos, e do qual todos dependemos. Tendo em vista que nenhum dos seres criados tem a “força da subsistência”, para existir, cada criatura deverá ser sustentada, momento a momento, pelo Criador. Em função da consciência reflexiva o homem O reconhece na própria subjetividade, numa vivência privilegiada... todos podem beneficiar-se deste contato íntimo, intuitivo, com o “absoluto”. Embora esta experiência dependa da coincidência de fatores pessoais e circunstanciais, representa, potencialmente, a possibilidade de um momento de integração suprema de todos os homens. A unidade do amor infinito do Criador é o fundamento do “Amai-vos uns aos outros”. Se o Dinamismo Criativo Absoluto (Deus) está presente em cada criatura, todos, juntos realizamos n´Ele uma comunidade perfeita... Esta especulação laica pode ser supérflua para o homem de fé que não precisa de uma intermediação racional para chegar a Deus... Mas para os que se ressentem da fragilidade deste dom (a fé), estas considerações são preciosas.
O “Amai-vos uns aos outros” equivale à prática do amor fraterno. Reporta a uma situação em que duas pessoas, diferentes em seus caracteres físicos, condicionamentos psicológicos e culturais, se identificam pelo núcleo humano profundo (divino), participando ambas do Amor Universal.  Cada uma está ciosa da sua individualidade estruturada numa experiência ímpar, mas ambas se reconhecem irmanadas pela condição humana. Os homens se necessitam reciprocamente para sobreviver como espécie.
Nesta perspectiva, o amai-vos uns aos outros já não nos parece uma utopia inventada pela ousadia teológica de missionários fanáticos; nem tão pouco, uma fórmula oca pendente de humanismos ingênuos. O maior dos preceitos cristãos denota a solidariedade como um princípio imanente e transcendente, indispensável à completa realização da humanidade. Sem esse princípio vitalizador não pode haver harmonia entre os homens, não há como defender a própria dignidade humana, nem a sobrevivência da espécie.
            O “Amai-vos uns aos outros” bíblico, não é uma simples inclinação para o objeto amado, modulada pela afetividade, não é uma paixão, não é um estado acrítico de receptividade às demandas do outro, nem muito menos um sentimento de posse. O mandamento sinaliza, sobretudo, o respeito mútuo entre os homens. Trocado em miúdo significa admitir a originalidade do outro, compreender-lhe as motivações, sem subtrair-lhe a responsabilidade sobre seus atos perante a comunidade dos homens. Significa solidarizar-se com o outro no reto proceder, negar-lhe apoio ao erro comportamental e, finalmente, perdoá-lo mediante seu sincero arrependimento, e retomada do compromisso com a solidariedade comunitária.

                                                           Everaldo Lopes



[1] Caridade-  No vocabulário cristão, o amor que move a vontade à busca efetiva do bem de outrem e procura identificar-se com o amor de Deus; ágape, amor-caridade.
[2] A consciência é uma atividade complexa que se caracteriza por dinamismo, totalidade, subjetividade, intencionalidade e prospecção, tendo como funções destacadas, a atenção e a memória.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Nada acontece por acaso


Presumindo profunda sabedoria e até com certo colorido de mistério, as pessoas dizem: “- Nada acontece por acaso”. Embora ignorem o seu alcance filosófico, esta afirmação não é desprovida de sentido. Na verdade ela denuncia a complexidade fenomenológica de causas e efeitos recíprocos de todos os fatos e acontecimentos, subentendida uma integração absoluta da realidade. Isto quer dizer que, extrapolando o determinismo linear imediato perceptível, cada evento resulta da inter-relação de todos os demais, de forma que cada um carrega a influência dos outros. No contexto unitário da realidade toda, esta influência recíproca pode ser tão sutil que seria impossível representá-la, o que não a suprime, todavia. Então, se tudo tem a ver com tudo, não é despropositado dizer que “nada acontece por acaso” (porque tudo se relaciona), embora não percebamos o determinismo complexo que está por trás de cada evento. Nesta corrente ininterrupta de influências se insere o livre arbítrio inerente à intervenção humana, como um elemento que pode fazer a diferença na ordenação dos acontecimentos.
Sem atentar para a intimidade dinâmica do acontecer no mundo, a afirmação contida na frase que serve de título a este texto abre espaço para dar um significado extraordinário ao fato inexplicável no universo restrito da lógica linear, que, por isso mesmo, enseja a sua associação a uma intervenção transcendental, misteriosa. Aliás, as relações complexas de causa e efeito que não são óbvias, mesmo que venham a ser compreendidas, não excluem esta intervenção.  Por suposto, um “dinamismo absoluto eternamente criativo” utilizar-se-ia exatamente desta complexidade para realizar o fato “extraordinário” e “misterioso”. Mesmo que seja possível uma análise semântica, multifatorial, da gênese do acontecimento inusitado, e que fique demonstrado estar o mesmo inserido numa corrente de causas e efeitos cuja complexidade engloba a seqüência linear da realidade conhecida, o fato inabitual continua extraordinário e misterioso na perspectiva em que se coloca o homem comum diante da realidade visível. A impossibilidade de abarcar com o pensamento todos os ângulos de um todo tridimensional complexo [uma gestalt[1] inexcedível (absoluta)], obriga-nos a absorver essa experiência como uma vivência e não um conhecimento. O conhecimento desta complexidade de causas e efeitos simultâneos e recíprocos não está ao alcance dos nossos recursos gnosiológicos limitados. E então, configura-se uma situação em que o fato inegável e, ao mesmo tempo, inexplicável poderá ser atribuído a uma “Divindade”. Evidentemente, esta atribuição é da ordem da fé e não do conhecimento racional. Embora a lógica da complexidade possa jogar alguma luz sobre a questão, não anula a atribuição conferida pela fé à influência transcendental sobre o determinismo do evento incomum favorável ou desfavorável. Todavia, alguém poderia, nas mesmas circunstâncias, atribuir o fato inusitado a uma conjunção de fatores, determinada por coincidências convergentes. Mas, para aceitar, estatisticamente, a confluência de coincidências felizes na evolução da matéria e dos fatos num sentido determinado seria necessário admitir o (anti)acaso!!! Como se vê, qualquer dos casos [transcendência, ou (anti)acaso] não tem o apoio de um conhecimento formal. Atribuir o fato surpreendente a uma intervenção transcendental ou jogá-lo no rol de simples coincidência de fatores que a Ciência ainda não consegue rastrear, pode ser uma opção de risco, consciente... Diante desta alternativa o gênio de Blaise Pascal “apostou” na intervenção transcendental (Deus).  Experiência que se enquadra numa visão holística[2] da realidade de natureza relativística quântica, na qual não se consegue facilmente estabelecer limites nítidos entre a física e a metafísica.
Por outro lado, vivemos integrados num Universo de incertezas no qual, excluída uma intervenção transcendental, o (anti)acaso se torna elemento importante para a compreensão do mundo conhecido, reeditando, porém o sentido de uma interferência que ultrapassa os limites da experiência, por seu poder determinante obscuro na trama da realidade.
No seio da perplexidade filosófica sobre a origem do próprio “ser” representa-se o mundo físico como projeção virtual de uma realidade metafísica cuja luminosidade nos cegaria se a ela nos expuséssemos diretamente. Não foi esta a visão de Platão no Mito da caverna? Não estamos trazendo, pois, novidade alguma. A adesão a estas idéias, porém, marca o fim de uma postura agnóstica e a abertura para uma experiência mística. Não se tem o controle psíquico efetivo desta experiência. O Deus que se anuncia pela especulação metafísica está, porém, muito distante do encontro místico... é um deus filosófico que só parcialmente atende a angústia existencial... A paz mística só acontece quando o ser consciente urde no seu subjetivismo a relação imediata, confiante, com um poder absoluto que se constitui no seu Alter Ego... esta é a tessitura psicológica da fé.  
Na verdade, a fé e a razão são complementares... a compreensão da complexa realidade evolutiva reforça a própria fé que é um dom, e esta serve de base para as construções racionais. Se a razão não alcança a essência das coisas, a metodologia científica só pode conduzir a uma aproximação cada vez maior da verdade que, todavia, por mais apurada que seja, racionalmente, será ainda uma atribuição que não se pode isolar inteiramente de um componente de fé.         
Mas a pergunta crucial que se esconde por trás da afirmação emblemática que estamos analisando é se no determinismo complexo que vimos de abordar há uma intenção absoluta de beneficiar ou punir o sujeito consciente da História. Penso que, ao fim e ao cabo, admitir uma ou outra destas proposições é ainda uma atribuição, intimamente, relacionada com o grau de integração pessoal, holística, do sujeito consciente no todo universal. A vontade absoluta regulatória garante a manutenção das leis universais sob as quais o mundo e o homem se tornam possíveis. O mundo (a Natureza) obedece-as cegamente; o homem, porém, com seu livre arbítrio tem o poder de manipulá-las para o seu próprio bem... A visão equivocada deste “bem” é que dá origem ao mal. Na intimidade, pois, de cada um define-se a resposta à pergunta crucial, na medida em que o ator consciente da História assume responsabilidade sobre seus atos em relação à harmonia do Todo. No fundo, tudo se resume na capacidade de o homem integrar-se na ordem universal que o transcende, contribuindo, criativamente para mantê-la ... então, ele viverá esta verdade com a humildade de um gigante: “Nada acontece por acaso”. [3]


[1] Teoria que considera os fenômenos psicológicos como totalidades organizadas, indivisíveis, articuladas, isto é, como configurações,

[2] Abordagem, no campo das ciências humanas e naturais, que prioriza o entendimento integral dos fenômenos, em oposição ao procedimento analítico em que seus componentes são tomados isoladamente [Por ex., a abordagem sociológica que parte da sociedade global e não do indivíduo.]

[3] Sei que neste texto ficaram abertas algumas questões sobre as quais voltarei em postagens futuras. Os leitores me ajudariam se assinalassem os segmentos do texto que lhes suscitaram dúvidas.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Conjuntura político social

Diante do momento político ultrajante que vivemos, experimento um sentimento de “impotência”... uma   perspectiva de “inutilidade” que induziria ao niilismo, não fora a determinação responsável de persistir na luta pelos ideais democráticos. E neste sentido se impõe a grande questão: “Que fazer para sanear as Instituições e promover o desenvolvimento humano neste Brasil de tantas possibilidades?” Esta pergunta que os brasileiros esclarecidos se fazem é ignorada pelos que detêm o poder. É notório que os falsos políticos não estão interessados em resgatar da desinformação e da miséria uma grande maioria dos brasileiros. Esta condição facilita as manobras eleitoreiras. Por outro lado, o cidadão consciente dos seus deveres cívicos, resolvido a não deixar-se abater, sente-se marginalizado num país em que as eleições são decididas por maioria desinformada... revolta-se com a desfaçatez dos políticos desonestos e manipuladores... desencanta-se com um   Judiciário frágil, incapaz  de defender os direitos democráticos do cidadão comum.
Para varrer a podridão político-administrativa do cenário nacional é preciso eliminar a corrupção expressa no fisiologismo eleitoreiro, nos atos explícitos de improbidade e no comércio espúrio de influência, que desvirtuam o processo democrático. Sanear a prática político-administrativa implica numa mudança radical de mentalidade. Jornada heróica, uma vez que subentende a conversão de cada indivíduo... uma mudança de atitude, algo mais do que o simples reconhecimento teórico dos cânones éticos... requer a disposição voluntária e a determinação pessoal de exercitar a cidadania, responsavelmente.  Ninguém assume uma postura solidária, compatível com o bem comum, sem um esforço pessoal contra a tendência inata egoística, ambiciosa, auto-condescendente. Esta mobilização de forças interiores é o cerne da evolução desde a emergência evolutiva da condição humana caracterizada pelo exercício da consciência responsável. Para dar este salto de qualidade cada um terá que superar sua própria facticidade[1]. Mas o tamanho do desafio não justifica o abstencionismo cômodo. O laisser-faire aplicado ao devir pessoal, ou à organização político-social e econômica é uma deserção da responsabilidade de ser homem.
Na longa caminhada saneadora político social não se deve insistir, ingenuamente, apenas, em combater ideologias como se elas fossem  representações do real. Este tipo de engajamento acaba se consumindo em polêmicas teóricas. O real está nas relações sociais entre os seres humanos... e elas têm um caráter existencial, são de natureza econômica e política, singularizadas por interações psicodinâmicas  pessoais complexas.
Sociólogos modernos trabalhando em parceria com psicanalistas advogam que a verdadeira luta se trava na mobilização de forças conscientes e inconscientes para a construção do subjetivismo moldado nos valores que inspiram a solidariedade e a cooperação, visando o bem comum. É o desejo de justiça que se vivencia na profunda indignação diante do sofrimento dos pobres e oprimidos, que move a consciência esclarecida e sensível a cultivar e liderar as ações comunitárias... é o desejo de que não haja mais exploração nem dominação, que motiva à ação solidária. Nada se conseguirá de forma efetiva sem mexer nos desejos pessoais. E isso ultrapassa o simples esforço intelectual, é uma opção de vida que envolve também o sentimento e a vontade. Implica em mudança de comportamento, um novo modo de ser.
  Em tese, o exercício responsável da consciência deve levar a relações interpessoais autênticas que sirvam de base à construção da comunidade humana, promovendo consenso na disposição de fazer do bem comum o alvo de todas as atenções do grupo. Isto posto, assoma um problema prático. Estamos indignados com as injustiças sociais... sabemos qual é o remédio eficaz para tratar essa chaga, mas a eficácia terapêutica depende da livre adesão  de cada indivíduo ao tratamento... e, lamentavelmente, o homem está mergulhado em equívocos que o tornam refratário, preso a enganos, embalsamado na inércia cultural, resistente às mudanças necessárias. O impacto desta constatação poderia ser fatal para os nossos ideais democráticos, se nos faltasse a “esperança”.
Enfim, é preciso mexer com a subjetividade das pessoas para reelaborar os paradigmas vigentes em prol de uma nova ordem. E é óbvio que esta mudança não acontecerá por um passe de mágica! É preciso insistir em fazer o que achamos politicamente correto, malgrado os contratempos e dissabores. Em termos gerais a proposta consiste em que todos os que forem tocados pelos ideais magnos de verdade, justiça e solidariedade, alinhados pela coerência do ideal democrático insistam na ação destemida em prol da construção da comunidade humana. É preciso acreditar em que, seguindo esta trilha somar-se-ão nossas ações singulares, inspiradas pelo mesmo ideal, na promoção da solidariedade entre os homens. Este é o projeto que embala o nosso sonho democrático. E sonhar pode resultar em mais do que perder-se em propostas românticas... É oportuno lembrar aqui o que escreveu Eduardo Giannetti em um dos seus livros: “Quando a criação do novo está em jogo, resignar-se ao provável e ao exequível é condenar-se ao passado e à repetição. No universo das relações humanas, o futuro responde à força e à ousadia do nosso querer. A capacidade de sonhar fecunda o real, (re)embaralha as cartas  do provável e subverte as fronteiras do possível. Os sonhos secretam o futuro”.
A vontade reforça o desejável e prioriza a realização do que sonhamos construir, tornando-o mais provável!!! Nesta perspectiva nos colocamos como agentes políticos, fazendo o que está ao nosso alcance, e confiando na arregimentação dos que acreditam na causa da humanidade para encorpar o movimento redentor.


[1]  Caráter próprio da condição humana pelo qual cada homem se encontra sempre já comprometido com uma situação não escolhida. 

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

O valor dos papeis sociais

O valor dos papéis sociais.
No dia a dia todos encenamos papeis essenciais à dinâmica social. A prática de esquemas comportamentais apropriados disciplina as relações sociais e funcionais entre os membros da coletividade, seja o exercício de protocolos que garantam a harmonia no convívio humano, sejam atividades profissionais que preencham funções importantes para o bem estar da coletividade. Por exemplo, diante das doenças que afligem o homem, médicos, enfermeiras e atendentes desempenham os papéis que o paciente, seus familiares e a sociedade esperam deles. O mesmo se diga dos papéis atribuídos ao pai, à mãe, aos irmãos, em relação às expectativas comportamentais no seio da família. É longa a relação dos papeis interpretados no cotidiano por líderes ou liderados nas diversas atividades humanas.
Mas é preciso lembrar sempre, que por trás de cada representação há uma pessoa cujos dotes definem a performance do papel que lhe é atribuído... Rigorosamente, é sua originalidade que molda o desempenho do papel, e não o contrário.   O melhor desempenho ocorre quando a pessoa investida de um papel específico está disposta a doar-se ao representa-lo. Quando o eu agente não se doa, apenas encena um conjunto de ações vazias de compromisso efetivo com o bem-estar do outro e, deste modo, pode até servi-lo, mas, alienado e empobrecido interiormente...  É possível que nem se dê conta da alienação em que incorre... e se o percebe é complacente consigo mesmo, numa tentativa infantil de valorizar a auto imagem.
Os papeis culturalmente codificados são uma garantia da estabilidade social e ajudam a transpor o fosso existencial que separa um indivíduo do outro, quando não flui mútua simpatia.
Ao identificarem a dinâmica psíquica que preside a distinção do comportamento formal e da conduta existencialmente consistente, as pessoas aprendem a ser mais tolerantes. Compreendendo a fragilidade do comportamento imaturo dos que se atêm à formalidade, (des)dramatizam conflitos existenciais, latentes, com seus interlocutores... tentam passar-lhes uma mensagem de maturidade (geralmente sem sucesso), e deixam-nos viver a própria escolha... a vida os ensinará... lamentavelmente, da forma mais dolorosa. E nos momentos em que falta inspiração para inovar, ou para lutar contra situações adversas, os mais conscientes dos próprios limites sabem usar os papéis que lhes cabem, com eficiência... nesta entrega encontram o sentido existencial do seu momento, e desta forma ficam imunes à perplexidade ou ao marasmo. Porém sempre alertas, para não se deixarem fixar na mediocridade dos lugares comuns.
Poder-se-á sempre agir de maneira crítica, desde que se representem os papeis assumidos sem perder de vista que a verdade pessoal está contida no self[1], instância profunda da psique, e não no ego[2], mais superficial, que absorve os papeis a serem representados... Cria-se assim uma distância virtual, subjetiva, que permite ao “eu agente” analisar a situação e flexibilizar o comportamento, evitando conflitar com os obstáculos ao bem comum, sem perder o foco do ideal perseguido... sabendo ser o papel desempenhado naquele momento apenas uma janela de comunicação, talvez a única em determinada conjuntura. Assim fazendo, o indivíduo preserva a sua verdade singular sem prejudicar a ordem coletiva.
Por tudo isso, importa reconhecer que representar papéis na vida real, é fundamental para a manutenção da ordem social... Mas é preciso ter consciência de que é a pessoa que define o valor do papel desempenhado, e não o contrário. O conhecido aforismo “O hábito faz o monge”, só é válido formalmente... na verdade é o comportamento autêntico do monge que dignifica e reforça o simbolismo do hábito.
Everaldo Lopes


[1] “Eu” que centraliza a consciência ampliada – o si mesmo.
[2] Extrato superficial da personalidade, centro na consciência clara.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Divagações sobre as possibilidades do homem

No 12º andar do residencial onde moro, olhando o entorno, quedo-me pensativo... Lá em baixo a cidade se espalha nas silhuetas irregulares das casas com telhados marcados pelo tempo, entremeando arranha-céus imponentes que se elevam espaçados. Na via pública movimentada, destaca-se o colorido dos veículos que cruzam céleres, em todas as direções. O olhar perdido na paisagem familiar, meu espírito vagueia... sonho projetos impossíveis... Enquanto a sombra do mistério permanece no fundo da mente inquisitiva, carente de certezas.
Olho o desenho da cidade lá em baixo. O Sol se pôs e se multiplicaram em pontos de luz, as janelas das casas e apartamentos. Pensei... Lá dentro, milhares de seres como eu sentem a vida fluindo através das suas existências singulares... Para onde? Cada um tem um perfil peculiar, mas as preocupações são as mesmas: a sobrevivência, o sexo, o poder, a necessidade de comunicação, sobretudo, o sentido da “existência”. Empolgadas por essa demanda, as pessoas demonstram humor variado de acordo com o caráter de cada uma... são alegres, esperançosas, tristes, revoltadas, entediadas ou perdidas, desesperadas. Cada uma agarrada a um autoengano[1] necessário para estruturar a própria existência, nele investindo inteligência, sentimento e vontade. Nesse vir a ser pendulam entre o certo e o errado, entre o belo e o feio, entre o agradável e o desagradável... Assim vamos todos flutuando entre os extremos, na experiência de ser com os outros no mundo. E quantas vezes nos perdemos em equívocos que nos arrastam vida a baixo, e nos fazem sofrer...
A curiosidade sobre o significado do homem no contexto universal tem sido o motivo de muita especulação. Em torno desta questão desenvolveram-se teses filosóficas e doutrinas religiosas, em busca de respostas para a necessidade humana de “sentido”...  
Existir só por existir é um destino pobre demais para o esforço da Evolução que em milhões de anos perseguiu a complexidade, e desembocou  na consciência reflexiva. Diante da Evolução um raciocínio linear sugere que seu propósito transcende os “sem roteiros tristes périplos[2]” de um devir repetitivo e enfadonho. Mas para superar este horizonte mesquinho há que aplicar talento... uma aptidão natural ou habilidade adquirida. Na esteira desse empenho subjetivo o homem espera alcançar um destino grandioso, seja no plano histórico, seja numa outra dimensão, misteriosamente, oculta na sua própria realidade temporal. Mas é preciso ter fé, acreditar na força do sonho.... Todavia, a fé, assim como o amor, são dons que não se deixam manipular. Resta, pois, aos que não foram agraciados com essas dádivas, render-se, humildemente, ao imediatismo e transitoriedade dos projetos temporais, numa perspectiva de ser para a morte.
Com esta visão da existência contemplo os coirmãos equivocados da família humana que, envoltos numa aura de esperteza ingênua chegam a ser petulantes em suas convicções empíricas. Adultos na cronologia dos anos vividos conservam mentalidade imatura, sentem-se diligentes donos da verdade, embora inobjetivos e faltos de bom senso... O observador imparcial que percebe a falácia das propostas equivocadas os vê instalados numa ilusão de segurança... todavia, eles caminham, confiantes, através da vida... O imediatismo os absorve, inteiramente. Embriagam-se com a posse de bens materiais, com o poder político, ostentando prestígio e cultura intelectual, inebriados pelo sucesso, afogados na vaidade. Do outro lado estão os que investem, conscientemente, num autoengano que fundamenta valores transcendentais, algo que dê um sentido à existência, no qual apostam todas as fichas.
Afinal, para os seres contingentes, finitos, não há certezas absolutas!!! Ingênuos alienados, ou críticos perspicazes todos acabam defrontando o mistério da consciência e do mundo. A diferença é a falta de um suporte existencial autêntico entre os parvos, servos dos próprios equívocos, contrastando com o ideal de verdade e solidariedade universais dos que encaram consciente e responsavelmente o desafio da existência. Todavia não há indicadores objetivos para comprovar esta diferença. Formalmente, os dois grupos por vezes se confundem.
Do fundo da sua existência precária, o homem sonha, aspira à paz e à tranqüilidade. Deseja, ardentemente, penetrar a essência das coisas, que escapa à percepção dos sentidos. Sonha com a justiça sem jaça, com a aceitação da realidade que não se pode mudar, e com a criatividade para mudá-la quando for possível e necessário; anseia pela capacidade de valorizar o minuto fatal com lucidez... E para realizar tudo isso é necessário que esteja polarizado por um ideal transcendental só acessível, e existencialmente funcional, através da lente da fé. Tudo isso se passa no foro íntimo de cada homem e só o próprio conhece a verdade de sua realidade interior... Daí a sabedoria bíblica que recomenda “não julgueis!.”
Enfim, o homem é um ser problemático... Considerando os limites inextensíveis da razão, ouso dizer que só na experiência dos místicos que viveram a noite dos sentidos, o ser consciente encontra a plenitude inaudita da verdade, beleza, paz e felicidade a que pode aspirar. É na experiência mística que o homem alcança o alvo supremo da Evolução e consegue viver a “imensa aspiração de ser divino, no supremo prazer de ser humano”[3].


[1] Crença que afirma o que não é óbvio
[2] Drummond de Andrade em “A máquina do mundo”
[3] Raul de Leoni em “Ode a um Poeta morto”

sábado, 25 de dezembro de 2010

Virar a página


O tempo é inexorável. Segundo após segundo, dia após dia, tudo se transforma. Na verdade, o tempo não passa. Determinante do vir a ser físico e biológico, o tempo é uma dimensão da realidade cósmica evolutiva. As mudanças vão deixando seu rastro, no mundo e em nós mesmos. A consciência reflexiva registra estas mudanças e distingue nelas uma sequência, extraindo desta experiência a falsa impressão de que o tempo passa. Todavia, nós é que passamos, individualmente, como seres temporais, ao nos identificarmos com a própria finitude. Inquietos, nos damos conta de que nos exaurimos nos determinismos físico-biológicos. Os processos físico-químicos, cada vez mais complexos, que resultaram na vida são eternos, a existência individual do ser biológico é que é finita. E nesse vir a ser finito caracterizam-se, num movimento temporal, as mudanças centradas no presente. Tomando-o como referência, o presente que flui separa o já vivido, e o que está por vir. Portanto, o presente, numa perspectiva linear, é um corte do tempo, vivenciado na “existência”[1], ao separar o passado e o futuro. Um átimo tão fugaz que, psicologicamente, é difícil identificá-lo. Todavia, o real, em ato, só ocorre no presente. Portanto, o culto do ontem e o fascínio do amanhã podem obstruir a única chance que temos de agir livremente em cada momento das nossas vidas. Perdemos, assim, a única oportunidade de trabalhar o hoje, preparando um futuro auspicioso. Porque o passado congelado no presente não deixa espaço para a ação livre. E a plenitude do amanhã depende das diligências efetivas no hoje.
            Guardemos, pois, as lembranças agradáveis no seu arquivo próprio, evocando-as quando forem úteis ao presente criativo. A experiência acumulada ajuda, mas é a inspiração atual que cria o “novo” no presente que flui. Projetemos grandes feitos, e ajamos, agora, coerentes com os propósitos definidos na elaboração dos nossos projetos. Mas não nos escravizemos nem às lembranças que entulham o presente, nem às expectativas projetadas, pois, a todo o momento é possível inovar. Deixemos espaço no presente para agir livremente, porque só no “agora” podemos criar e amar. Ninguém ama ou cria no passado ou no futuro, mas no aqui e agora... “criando” e “amando” vivemos os momentos áureos da “existência”...  
            Façamos uma analogia entre a “existência”, e a leitura de um livro. A “existência” se desdobra num vir a ser pontuado por ontens, hojes e amanhãs. Mas as ações são sempre realizadas no hoje. O livro, por sua vez, é um condensado de idéias que se desenvolvem em torno de um eixo temático, e são expostas ao longo das páginas impressas. Ao ler o livro é absolutamente necessário que façamos esta leitura página por página até a última. Podemos memorizar lances já lidos do texto, e alimentar a curiosidade pelo desfecho da estória desenvolvida no livro, mas é na leitura de cada página que estamos concentrados, vivenciando as emoções do enredo, ou vislumbrando a mensagem do texto.
Contudo, se ao lermos a primeira página ficarmos a contemplar a verdade e beleza que dela emanam, sem vira-la, as seguintes nunca serão conhecidas. Dessa forma, “aborta” no nascedouro a possibilidade de conhecer a obra, e o leitor deixará de apreciar o desenvolvimento do tema em questão. Analogicamente seremos “abortos” existenciais se não formos capazes de virar as páginas da nossa própria “existência”, uma por uma, cada uma a seu tempo.
            Com essa analogia queremos enfatizar a necessidade de não nos deixarmos paralisar, hipnotizados pelos encantos do passado que foi bom enquanto durou, mas sendo apenas memória, não é real e não deve obstruir a oportunidade de agir, agora, concretamente. Isso implica num esforço concentrado da vontade dirigida, objetivamente,  contra o enleio fantasista no deleite da lembrança de um momento que não se repetirá jamais.
            Ao virar a página do livro, ou da existência poderemos deparar, respectivamente, com um lance emocionante do enredo, ou com uma experiência existencial nova e enriquecedora...


[1] Vida consciente

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Corrida de revezamento



O idoso é mais sensível ao tratamento que recebe dentro da própria família, como profissional, ou membro da coletividade. É óbvio que esta sensibilidade exaltada tem a ver com a idéia que o idoso faz de si mesmo. Aliás, isso acontece em qualquer idade. Nossas reações são subordinadas à autoavaliação que fazemos... quanto mais elevada a autoestima, mais ponderadas são nossas respostas nas situações existenciais em que nos envolvemos. O agravante, no caso do idoso é que, dadas as circunstâncias do envelhecimento, cresce a necessidade de atenção especial sem a qual ele se sente abandonado... pior ainda quando pressupõe ser credor desse cuidado como prêmio por seu desempenho nos anos idos. Embora uma visão crítica deste pressuposto mostre ser injustificada a idéia de os filhos obrigarem-se a dar assistência integral ao idoso pelo que ele fez no passado. Injustificada porque os feitos apresentados como o motivo de tal presunção fizeram parte, à época, da postura politicamente correta exigida pela conjuntura familiar. Portanto, nada é devido a quem quer que seja por ter agido da única forma decente que a ocasião exigia. O que não anula o respeito mútuo, e a solidariedade entre filhos e pais idosos, alicerçada em sentimentos espontâneos. A gratuidade do envolvimento sincero de idosos e jovens confere uma aura de nobreza ao relacionamento entre ambos. Mas esses laços de solidariedade são construídos numa longa convivência equânime, justa e generosa. Consolidá-los custa uma vida de pequenas renúncias, muita paciência e  disponibilidade para doação.
São tantas as perdas sofridas, que o sentimento de menos valia do idoso é muito frequente. Ele percebe que está ficando para trás, natural e inevitavelmente. É a realidade. O trem da história está em movimento permanente, e dele temos de saltar na hora certa para ceder lugar aos que vão chegando. Essa retirada para os bastidores da “existência” é sempre dolorosa, mas não precisa ser trágica. É salutar a analogia com uma corrida de revezamento. Indispensável se torna passar aos mais jovens a missão histórica que nos coube, depois de cumprirmos a nossa parte. Da mesma forma que não há desdouro em entregar o bastão ao atleta descansado, na competição esportiva que tomamos como paradigma.
Os mais jovens, ciosos de ocuparem os espaços que pleiteiam e que merecem, deslocam os mais velhos das posições que ocuparam quando no pleno uso das suas capacidades. Na vida social algo semelhante acontece. Os papos habituais dos moços giram em torno de acontecimentos acadêmicos, esportes, encontros lúdicos, festas, e namoricos... Por mais atualizado, participante, e aberto às novidades que seja, o idoso não consegue acompanhar a vida trepidante dos mais moços; assim como são raros os jovens que estão dispostos a sorver a sabedoria dos mais velhos numa conversa interessante.
Todo homem sabe de sua própria fragilidade e finitude. Mas ao passar dos anos choca-se com a realidade. Poucos estão realmente preparados para enfrentar as perdas da velhice com estoicismo, bom senso e ânimo para continuar produtivo, de alguma forma.
Entre os idosos existencialmente centrados, a humildade e a sabedoria andam sempre juntas. Surpreendentemente, há indivíduos iletrados que se tornam sábios, não obstante serem ignorantes. Isto confirma que o equilíbrio das potências da alma no culto à verdade e no compromisso com a justiça é latente na dinâmica da consciência reflexiva. Portanto, ninguém está excluído da possibilidade de desenvolver a humildade com a própria experiência de vida... mas isso demanda sempre um esforço consciente dirigido, a longo prazo. Pelo que o número de anos vividos não garante a sabedoria, irmã gêmea da humildade...
Para muitos a saudade incontrolável dos verdes anos obstrui a serenidade no ocaso da vida. Mas chega sempre o momento em que a realidade vence a fantasia dos saudosistas e a própria Natureza ensina como fazer o revezamento necessário e inevitável, nesta corrida histórica na qual fomos inscritos compulsoriamente.