sábado, 25 de dezembro de 2010

Virar a página


O tempo é inexorável. Segundo após segundo, dia após dia, tudo se transforma. Na verdade, o tempo não passa. Determinante do vir a ser físico e biológico, o tempo é uma dimensão da realidade cósmica evolutiva. As mudanças vão deixando seu rastro, no mundo e em nós mesmos. A consciência reflexiva registra estas mudanças e distingue nelas uma sequência, extraindo desta experiência a falsa impressão de que o tempo passa. Todavia, nós é que passamos, individualmente, como seres temporais, ao nos identificarmos com a própria finitude. Inquietos, nos damos conta de que nos exaurimos nos determinismos físico-biológicos. Os processos físico-químicos, cada vez mais complexos, que resultaram na vida são eternos, a existência individual do ser biológico é que é finita. E nesse vir a ser finito caracterizam-se, num movimento temporal, as mudanças centradas no presente. Tomando-o como referência, o presente que flui separa o já vivido, e o que está por vir. Portanto, o presente, numa perspectiva linear, é um corte do tempo, vivenciado na “existência”[1], ao separar o passado e o futuro. Um átimo tão fugaz que, psicologicamente, é difícil identificá-lo. Todavia, o real, em ato, só ocorre no presente. Portanto, o culto do ontem e o fascínio do amanhã podem obstruir a única chance que temos de agir livremente em cada momento das nossas vidas. Perdemos, assim, a única oportunidade de trabalhar o hoje, preparando um futuro auspicioso. Porque o passado congelado no presente não deixa espaço para a ação livre. E a plenitude do amanhã depende das diligências efetivas no hoje.
            Guardemos, pois, as lembranças agradáveis no seu arquivo próprio, evocando-as quando forem úteis ao presente criativo. A experiência acumulada ajuda, mas é a inspiração atual que cria o “novo” no presente que flui. Projetemos grandes feitos, e ajamos, agora, coerentes com os propósitos definidos na elaboração dos nossos projetos. Mas não nos escravizemos nem às lembranças que entulham o presente, nem às expectativas projetadas, pois, a todo o momento é possível inovar. Deixemos espaço no presente para agir livremente, porque só no “agora” podemos criar e amar. Ninguém ama ou cria no passado ou no futuro, mas no aqui e agora... “criando” e “amando” vivemos os momentos áureos da “existência”...  
            Façamos uma analogia entre a “existência”, e a leitura de um livro. A “existência” se desdobra num vir a ser pontuado por ontens, hojes e amanhãs. Mas as ações são sempre realizadas no hoje. O livro, por sua vez, é um condensado de idéias que se desenvolvem em torno de um eixo temático, e são expostas ao longo das páginas impressas. Ao ler o livro é absolutamente necessário que façamos esta leitura página por página até a última. Podemos memorizar lances já lidos do texto, e alimentar a curiosidade pelo desfecho da estória desenvolvida no livro, mas é na leitura de cada página que estamos concentrados, vivenciando as emoções do enredo, ou vislumbrando a mensagem do texto.
Contudo, se ao lermos a primeira página ficarmos a contemplar a verdade e beleza que dela emanam, sem vira-la, as seguintes nunca serão conhecidas. Dessa forma, “aborta” no nascedouro a possibilidade de conhecer a obra, e o leitor deixará de apreciar o desenvolvimento do tema em questão. Analogicamente seremos “abortos” existenciais se não formos capazes de virar as páginas da nossa própria “existência”, uma por uma, cada uma a seu tempo.
            Com essa analogia queremos enfatizar a necessidade de não nos deixarmos paralisar, hipnotizados pelos encantos do passado que foi bom enquanto durou, mas sendo apenas memória, não é real e não deve obstruir a oportunidade de agir, agora, concretamente. Isso implica num esforço concentrado da vontade dirigida, objetivamente,  contra o enleio fantasista no deleite da lembrança de um momento que não se repetirá jamais.
            Ao virar a página do livro, ou da existência poderemos deparar, respectivamente, com um lance emocionante do enredo, ou com uma experiência existencial nova e enriquecedora...


[1] Vida consciente

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Corrida de revezamento



O idoso é mais sensível ao tratamento que recebe dentro da própria família, como profissional, ou membro da coletividade. É óbvio que esta sensibilidade exaltada tem a ver com a idéia que o idoso faz de si mesmo. Aliás, isso acontece em qualquer idade. Nossas reações são subordinadas à autoavaliação que fazemos... quanto mais elevada a autoestima, mais ponderadas são nossas respostas nas situações existenciais em que nos envolvemos. O agravante, no caso do idoso é que, dadas as circunstâncias do envelhecimento, cresce a necessidade de atenção especial sem a qual ele se sente abandonado... pior ainda quando pressupõe ser credor desse cuidado como prêmio por seu desempenho nos anos idos. Embora uma visão crítica deste pressuposto mostre ser injustificada a idéia de os filhos obrigarem-se a dar assistência integral ao idoso pelo que ele fez no passado. Injustificada porque os feitos apresentados como o motivo de tal presunção fizeram parte, à época, da postura politicamente correta exigida pela conjuntura familiar. Portanto, nada é devido a quem quer que seja por ter agido da única forma decente que a ocasião exigia. O que não anula o respeito mútuo, e a solidariedade entre filhos e pais idosos, alicerçada em sentimentos espontâneos. A gratuidade do envolvimento sincero de idosos e jovens confere uma aura de nobreza ao relacionamento entre ambos. Mas esses laços de solidariedade são construídos numa longa convivência equânime, justa e generosa. Consolidá-los custa uma vida de pequenas renúncias, muita paciência e  disponibilidade para doação.
São tantas as perdas sofridas, que o sentimento de menos valia do idoso é muito frequente. Ele percebe que está ficando para trás, natural e inevitavelmente. É a realidade. O trem da história está em movimento permanente, e dele temos de saltar na hora certa para ceder lugar aos que vão chegando. Essa retirada para os bastidores da “existência” é sempre dolorosa, mas não precisa ser trágica. É salutar a analogia com uma corrida de revezamento. Indispensável se torna passar aos mais jovens a missão histórica que nos coube, depois de cumprirmos a nossa parte. Da mesma forma que não há desdouro em entregar o bastão ao atleta descansado, na competição esportiva que tomamos como paradigma.
Os mais jovens, ciosos de ocuparem os espaços que pleiteiam e que merecem, deslocam os mais velhos das posições que ocuparam quando no pleno uso das suas capacidades. Na vida social algo semelhante acontece. Os papos habituais dos moços giram em torno de acontecimentos acadêmicos, esportes, encontros lúdicos, festas, e namoricos... Por mais atualizado, participante, e aberto às novidades que seja, o idoso não consegue acompanhar a vida trepidante dos mais moços; assim como são raros os jovens que estão dispostos a sorver a sabedoria dos mais velhos numa conversa interessante.
Todo homem sabe de sua própria fragilidade e finitude. Mas ao passar dos anos choca-se com a realidade. Poucos estão realmente preparados para enfrentar as perdas da velhice com estoicismo, bom senso e ânimo para continuar produtivo, de alguma forma.
Entre os idosos existencialmente centrados, a humildade e a sabedoria andam sempre juntas. Surpreendentemente, há indivíduos iletrados que se tornam sábios, não obstante serem ignorantes. Isto confirma que o equilíbrio das potências da alma no culto à verdade e no compromisso com a justiça é latente na dinâmica da consciência reflexiva. Portanto, ninguém está excluído da possibilidade de desenvolver a humildade com a própria experiência de vida... mas isso demanda sempre um esforço consciente dirigido, a longo prazo. Pelo que o número de anos vividos não garante a sabedoria, irmã gêmea da humildade...
Para muitos a saudade incontrolável dos verdes anos obstrui a serenidade no ocaso da vida. Mas chega sempre o momento em que a realidade vence a fantasia dos saudosistas e a própria Natureza ensina como fazer o revezamento necessário e inevitável, nesta corrida histórica na qual fomos inscritos compulsoriamente.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Enigma do feminino


Alguém já disse que a dimensão telúrica da mulher fundamenta--se na sua relação com Natureza. A mulher está “no mundo” (dentro), e não “com o mundo” (fora), como acontece com o homem. São duas maneiras de o “ser consciente” relacionar-se com sua circunstância. A mulher sente o mundo, enquanto o homem precisa analisá-lo para compreendê-lo. A intuição feminina assentaria nessa intimidade com a Natureza, consubstanciada na identidade do inconsciente feminino com as forças vivas da criação. Por tudo isso o encantamento que o feminino evoca repercute a magia de um enigma.
Não se pode definir com precisão o “feminino”, e, todavia, é nele que está o poder de sedução pelo qual a mulher se torna provocante e “poderosa”. O mistério que a envolve, é o “leitmotiv” do sonho romântico e da poesia, em oposição à obviedade masculina. O homem se revela por inteiro, expondo-se, desarmado, ao olhar do “outro”. Por isso, sai do sério quando se descobre, quase indefeso, sem chão para uma pretensa superioridade, culturalmente, construída...
A mulher é amável por todas as manifestações legítimas do gênero feminino. As que tocam os sentidos externos encantam e seduzem pela beleza estética fonte do estímulo que induz o frisson sensual; as que tocam os sentidos internos comovem pela modulação afetiva delicada e sutil. O máximo fascínio está no “feminino exemplar”, o modelo que reúne todas as virtudes representativas do gênero. Embora só exista como idéia pura, o mistério que o envolve está presente em todas as mulheres. Assim, a mulher seduz por sua presença física, mas cativa por suas virtudes menos óbvias como a cordura, a receptividade, a disponibilidade confiante e sensata, a segurança, a fidelidade crítica e delicada a si mesma, e a coerência dos próprios sentimentos.
Nas relações de gênero, a cupidez do homem diante da plástica harmoniosa feminina evolui, insensivelmente, para a sensualidade que busca o contato pele a pele, e, ainda assim, num lampejo de espiritualidade diviniza a imagem da mulher amada. A atração implícita nestas relações se exerce, de início, através do encanto, da sedução, e da expectativa do prazer sensual. Mas o climax do encontro é a relação inter-subjetiva, consubstanciada no “nós” existencial. Contudo, este é, também, um modelo ideal. O homem nunca desiste de realizar o encontro perfeito, mas raramente o consegue e, na maioria das vezes, contenta-se com relacionamentos menos exemplares sem os quais, porém, sua vida seria mais vazia. Lamentavelmente, a maioria dos pares humanos vive sob o império da sensualidade e muitos não percebem a pobreza existencial desse nível de ligação
Em quaisquer circunstâncias, o enigma do “feminino” confere à mulher um poder sobre o homem que só o poeta sabe exaltar em cantos e versos. É pena que algumas não saibam utilizar este potencial inato, desperdiçando-o ...
            No seu significado mais transcendental, o enigma do feminino se reporta à origem do Universo. Nesta perspectiva é oportuno lembrar o pensamento oriental ao afirmar que o encontro, em plenitude, do feminino (Yin) e do masculino (Yang) reflete a união dos Princípios eternos, opostos e indissociáveis que constituem a unidade do absoluto (Tao). No plano histórico, o masculino e o feminino obedecem à “lógica fatal das coisas, lei eterna da criação”[1] como diz o Poeta inspirado no mistério da existência humana que elege como ideal “...a imensa aspiração de ser divino no supremo prazer de ser humano”[2].


[1] Raul de Leoni em “Instinto”
[2] Raul de Leoni em “Ode a um Poeta morto”.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O diálogo possível


É notório ser o diálogo um caminho para o convívio solidário. Todavia, é desconcertante o despreparo humano para dialogar. A prática corrente (equivocada) da liberdade destrói o respeito mútuo sem o que não há diálogo. Neste clima, prevalece a inobjetividade entre os atores sociais interessados em fazer valer seu próprio benefício. Assim posicionados, sobram críticas recíprocas, com prejuízo da comunicação. O desencontro é a regra... sem acordo, as questões discutidas permanecem abertas e os indivíduos isolados em suas “opiniões”... cada um preocupado  em justificar a própria excelência.
Um bom começo para mudar esse quadro será assumir racional e emocionalmente que somos todos, em potencial, “farinha do mesmo saco”. Reconhecimento que não significa condescendência, ou relaxamento ético, mas vacina contra a presunção de alguém ser melhor do que o outro, numa conjuntura definida, porque conseguiu “segurar a barra” e não caiu na tentação. Ninguém é melhor do que ninguém; todos somos capazes de praticar virtudes e de escravizar-nos a vícios... Depende de um esforço concentrado agir de acordo com padrões aceitáveis... postura ética que está sempre por um fio, e depende muitas vezes de circunstâncias. Nesta perspectiva, as pessoas que não se acertam, estão focadas em determinar quem tem a culpa do que. Orientação diversa do tom solidário e compassivo da relação comunitária.
Desde que somos todos carentes, o mais inteligente é nos tornarmos parceiros de uma mesma causa, a da solidariedade comunitária. Será muito mais favorável a todos um comportamento cooperativo, com base na partilha de obrigações e benefícios. Mas a linearidade dessa conclusão racional não encontra respaldo no sentimento. O egoísmo primário do homem nas relações inter-humanas o arrasta mais para a ambição do que para a equanimidade. Por isso, predomina a competição que, no plano econômico leva à concentração dos bens em poucas mãos. Comportamento culturalmente institucionalizado na prática do capitalismo global.
Numa perspectiva de culpa e castigo, as pessoas, que estão interessadas em se livrarem de suposta culpa antecipam-se, agressivas, muitas vezes, projetando no outro seus próprios erros... E desta forma estão mais próximas de se excluírem, reciprocamente, do que de se engajarem numa política de inclusão.
A visão crítica da questão mostra que a coisa mais sábia a fazer para preservar o diálogo é deslocar a atenção dos indivíduos interagentes, do plano ético para o plano ontológico[1]. Neste plano o fundamental não é apontar deslizes éticos, mas buscar compreender o outro nas suas fraquezas... não para desculpá-lo, mas para oferecer-lhe a oportunidade de redimir-se mediante iniciativa pessoal de mobilização das próprias forças morais para corrigir eventuais deslizes. Com este objetivo, cada um terá de ampliar o auto-conhecimento e a auto-disciplina... e, arrimado na autonomia pessoal e na liberdade responsável abre espaço para o diálogo. Nesse campo de negociação as pessoas se encontram para descobrir a verdade objetiva e não para tentar impingir opiniões viciadas por interesses pessoais, consciente ou inconscientemente. A ascese exigida de cada homem para realizar o que poderíamos chamar uma “revolução copernicana”[2] é a prova de fogo em que a humanidade tropeça na sua caminhada heroica.
Cada um poderá reconhecer em si mesmo as condições para a relação dialogal, interrogando-se: 1) Sou capaz de ouvir o que o outro tem a dizer, contrariando-me, disposto a revisar posicionamentos anteriores? 2) Sou capaz de manifestar meu entendimento contrário ao do outro, sem ser agressivo, ao contradizê-lo?  3)Sou capaz de adiar uma discussão que me pareça estéril, face à inflexibilidade do outro, propondo a interrupção da conversa iniciada, sem guardar ressentimentos, e esperar um momento mais oportuno para retomá-la? 4) Sou capaz de manter certa distância entre o meu eu mais profundo e os problemas suscitados na interação com o outro, sem  me identificar com os sentimentos hostis que a discussão me possa induzir? Se a resposta a todos esses itens for afirmativa, com certeza será possível dialogar. Esses pré-requisitos são necessários para que prevaleça, no diálogo, o compromisso com a verdade... Porém eles não são espontâneos, demandam, como vimos, um esforço dirigido no sentido do auto-conhecimento e da auto-disciplina.
Na operação dialogal é essencial não confundir o eu sujeito com a mente[3], sendo esta a expressão do falso eu. Tomarei emprestado de Eckhart Tolle uma imagem que poderá tornar mais claro o que estou querendo dizer. Comparemos a psique humana total com um grande lago de águas profundas. Na superfície podem ocorrer ondulações, certa agitação provocada pelos ventos, mas na profundidade as águas permanecem tranquilas. Tomemos a superfície da massa líquida como sendo a mente construída à base de preconceitos traduzidos em normas, crenças e valores culturais. Enquanto isso, o fundo do lago representa o eu transcendental, a consciência pura, anterior à absorção dos conteúdos volúveis da mente consciente. Nessa profundeza deverá prevalecer a paz interior de cada um de nós, a alegria de ser.
Ao atrelar a nossa auto-estima aos preconceitos, crenças e valores culturais ficamos vulneráveis às suas influências.  Essa “identificação da pessoa com sua mente” equivale, na imagem utilizada, permitir que as marolas da superfície do lago consigam agitar suas águas profundas. O que seria um desastre ecológico total. Não obstante, provocamos em nós mesmos este desastre quando permitimos que nossas idéias, preconceitos, sentimentos tomem conta de nós e comandem nossas relações com os outros. É a isto que os místicos chamam “identificação com a mente”, situação em que perdemos a perspectiva de uma auto-avaliação honesta, e mergulhamos na inobjetividade... Dessa forma anulamos a chance do diálogo.
Na busca da paz e serenidade, a maior luta é a que travamos conosco mesmos no sentido de ser fiel à verdade, à justiça e à bondade de que formos capazes, sem o que também não há diálogo possível.
           


[1] Relação empática, inter-subjetiva, pessoal, baseada no respeito e não no dever.
[2] Analogia com o resultado da colaboração de Copérnico, autor da teoria Heliocêntrica, contrapondo-se à concepção clássica, então, de ser a Terra o centro do Sistema Planetário.
[3] Mente no sentido do conjunto de condicionamentos culturais que ensejam respostas egóicas ou reações estereotipadas.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Construção do texto



  O “artesanato da palavra” é uma atividade criativa de aperfeiçoamento do texto. Trabalho em que a imaginação o vai moldando a partir de uma primeira redação, mediante revisões repetidas.  O objetivo é encontrar as palavras mais adequadas ao rigor da exposição de uma idéia, atendendo o propósito estético do escritor. A linguagem escrita, ao tempo em que veicula informações também toca a sensibilidade. Nisso ela se supera, fixando com engenho e arte as cintilações do espírito humano...
A intenção de quem escreve é a de transmitir uma idéia, mas, também, produzir uma emoção estética. No curso desta atividade o escritor tateia os recôncavos da memória e adeja os altiplanos da imaginação, em busca de palavras, imagens, símbolos que melhor traduzam a idéia que quer transmitir. Esforço construtivo em que a memória e a fantasia vão trabalhando resíduos de experiências vividas, coadjuvando a intenção atual de dar forma a uma mensagem. Nesse movimento subjetivo vão se arrumando no papel frases, períodos de um texto com o qual se pretende não apenas apresentar o pensamento com clareza, mas também dar-lhe beleza plástica.
Cada escritor tem um jeito próprio de fazê-lo. Uma estratégia é descrever, num primeiro momento, o conteúdo espontâneo do espírito despertado por inspiração momentânea. Então, traduzem-se em palavras, sem muito esmero, sentimentos, vivências, e pensamentos que ocorrem ao escritor. Provavelmente, desta primeira tentativa resultam períodos longos, adjetivação excessiva, uso abusivo de advérbios, e de substantivos que apenas se aproximam do conceito que se tem em mente. Num segundo momento, a releitura revela as falhas que obrigam aos acréscimos cabíveis, ou à supressão de redundâncias cansativas e supérfluas. A operação se repete uma, duas, três, tantas vezes quantas necessárias. O texto vai assim ganhando corpo e o instantâneo inicialmente revelado ao espírito vai se desenhando na escrita, com traços cada vez mais fortes e precisos. Pela substituição de um termo por outro mais exato, ou após correções eventuais de deslizes gramaticais emerge uma noção mais completa da realidade representada!...
Com as palavras arrumando-se na ordenação lógica das frases encadeadas em períodos coerentes entre si, o pensamento por vezes adquire vida própria. De repente, com o acréscimo de uma palavra, complementar, mas indispensável à ordenação lógica de uma oração, amplia-se a compreensão da realidade descrita... ou, a reordenação dos elementos da mesma oração deixa o texto mais leve... Isso justifica dizer que escrever com propriedade ajuda a melhor compreender o pensamento expresso. Mesmo no linguajar corrente é surpreendente como se ilumina o pensamento com o encaixe significativo de um substantivo mais adequado, ou com uma adjetivação que o transcendentalize. Desse processo criativo resulta um prazer estético dos mais puros.
No vídeo da imaginação do escritor as palavras vão-se acomodando na topografia da oração, adequando-se e harmonizando-se no conjunto. Momento glorioso em que a forma e o conteúdo da prosa se misturam clarificando a mensagem e criando efeitos estéticos.  Instante mágico em que o espírito se compraz não apenas com a retidão da estrutura lógica, mas também com a sonoridade e a harmonia plástica da expressão literária.
Há palavras que reproduzem a idéia que temos no espírito, com precisão milimétrica e dão colorido agradável ao rigor do sentido. Assim como existem outras cuja musicalidade deslumbra a sensibilidade de quem escreve ou lê, murmurando detalhes nas entrelinhas do texto logicamente concatenado. Cabe ao escriba evitar os deslizes de uma modelagem afetada.
No fim, saciado, ou, pelo menos apaziguado na sua busca de verdade e de beleza, o espírito repousa na alegria da criação.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Amor e ética


            Amor e ética
            As exteriorizações comportamentais amorosas e éticas apresentam fortes semelhanças, embora seja muito diferente o conteúdo existencial em cada caso. A indistinção formal dos gestos e das ações que são comuns aos relacionamentos ético  e amoroso oculta a diferença entre os fundamentos da ética e do amor. O psicodinamismo do amor inclui a compreensão e o perdão; o determinismo ético é tributário da culpa e do castigo.  Compreender e perdoar são atividades subjetivas que envolvem liberdade, generosidade e criatividade. O jogo da culpa e do castigo, implícito nas relações éticas, estabelece preceitos a cumprir e punição para os infratores, reduzindo a relação ética a um mercado de benefícios. Na relação amorosa a liberdade criadora é a fonte de ações inéditas, na busca de sínteses existenciais cada vez mais perfeitas. Na relação ética, a submissão à lei, e o medo da punição reduzem a liberdade à prática de condutas policiadas, que inibem a criatividade e a generosidade, refletindo, apenas, obediência à rigidez do estatuto legal. Na relação amorosa, a ação livre ganha luminosidade, emergindo colorida e emocionante.  Na relação ética, a ação estipulada por um cânon inflexível perde a originalidade, manifestando-se esquálida, ensombrecida pela melancolia de renúncias dolorosas.
Palmilhando os caminhos interiores em busca de autenticidade, cada um de nós se depara, ao longo da existência, com a necessidade de distinguir o que faz por amor, do que faz por obrigação moral.  Para a prática moral a grande virtude é o dever vinculado à disciplina da vontade. Ao passo que o amor é imprevisível e irredutível ao comando da vontade... O amor distingue-se por seu caráter de doação... Ora, doar é ofertar, gratuitamente, afeto, e bens que traduzam materialmente o desejo de servir.  Mas, qual o limite que se pode estabelecer na intimidade psíquica entre doar como uma manifestação amorosa, e fazê-lo para cumprir, simplesmente, uma obrigação ética?... É difícil identificar este limite, mas a questão é relevante. Sabe-se que o amor verdadeiro é sempre ético, mas nem toda relação ética é amorosa.
Na evolução histórica da humanidade foi necessário estabelecer a ordem no grupo social mediante o respeito a uma autoridade externa. Era preciso adotar um recurso prático, para o gerenciamento das relações coletivas. O controle ético foi o expediente utilizado, pela facilidade de administrá-lo, gerenciando a aplicação de leis e a punição dos rebeldes... já que a vontade, virtude básica na prática ética, pode ser disciplinada, e é disciplinadora, também.  Porém é notório que uma verdadeira comunidade só se constrói com amor... esse algo mais  sem o qual a prática das virtudes éticas fica empobrecida.
O homem tem a potencialidade de amar e ser amado, mas precisará vencer muitas resistências para tornar realidade seu potencial amoroso. Considerando a conjuntura inerente aos comportamentos ético e amoroso, por mais que um suposto amante se esmerasse em administrar sua conduta segundo regras morais, não conseguiria, por esse caminho, viver o amor, nem fomentá-lo em suas relações interpessoais...
Sendo o amor um dom, que fazer, então, para construir relações amorosas, quando o amor não se faz sentir espontaneamente com o seu brilho peculiar? Uma questão importante porque enquanto não vivemos o amor não alcançamos a felicidade a que todos aspiramos...
A maneira mais adequada de enfrentar esta situação é tentar compreender o outro, com determinação. Não podemos impor-nos amar.  Mas podemos diligenciar compreender o outro mediante os recursos intelectuais que possuímos e pelo aprendizado da compaixão através do esforço de avaliar com justa imparcialidade o sofrimento do próximo, sabendo-nos expostos às mesmas dores... Este é o caminho que nos sensibiliza para a solidariedade com o nosso semelhante, nas alegrias e desventuras. Compreendendo-o a partir do reconhecimento de nossa própria fragilidade, será mais fácil perdoá-lo, se for o caso, e com ele confraternizar. Neste esforço compreensivo perceberemos como o outro, tal como nós mesmos, está perdido nos seus caminhos interiores, e como ele sofre diante da sua própria miséria afetiva. Daí à compaixão é um passo. E se nos libertarmos dos equívocos culturais preconceituosos, acabaremos por sentir a força da solidariedade. Identificar-nos-emos de forma efetiva e simpática com o outro em sua fraqueza que é nossa, também, participantes que somos todos da mesma condição humana... E quase, insensivelmente, começaremos a amá-lo.
Dir-se-ia que enquanto nos queremos mutuamente felizes, e assumimos responsavelmente nossa participação no processo social, somos “um” com os outros, somando o prazer dos sentidos e a aspiração à perfeição humana, na convivência comunitária. A existência plena se consuma nas relações interpessoais vazadas no amor à liberdade e no respeito à dignidade do outro.


   

domingo, 5 de dezembro de 2010

Desmistificando a morte


O medo da morte é o arquétipo de todos os medos. Para poupar-se do desgosto de saber-se mortal, o homem anseia a impassibilidade. Esta indiferença em face do fim inevitável é rara. Mas, tranquiliza-nos saber que a sabedoria da Natureza nos ampara nesse transe. Confirmando-a, diz  Montaigne em seus ensaios. “A Natureza nos ensina sair do mundo como nele entramos. Nascemos sem que fosse por força da nossa vontade e sem temores; esperemos conduzir-nos da mesma maneira ao passar da vida à morte.” Certo. A Natureza é pródiga. Virgem de influências estranhas às suas próprias leis, ela não se propõe problemas que não possa resolver, e não nos faltará com seu apoio. É o próprio Ensaísta que adverte:  “Ao conduzir-nos pela mão, devagar, por entre o medo e a expectativa desagradável da morte, a Natureza nos familiariza com essa fatalidade.” Ademais, “a morte súbita não nos dá tempo para temê-la... e a doença terminal que antecede, demoradamente, a morte, nos prepara para a aceitação tranquila.”
Mais adiante, o Filósofo francês assinala que “O salto da mocidade à velhice, conquanto marcado por perdas irrecuperáveis, é menos impressionante do que o que separa uma vida miserável do seu fim.” E acrescenta: “A morte liberta o homem de todos os sofrimentos e sortilégios... por que, ainda assim a repudiamos e tememos perder uma coisa (a vida) que uma vez perdida já não podemos lamentar?” Estes comentários põem em evidência quanto é irracional o medo da morte... Todavia, usando as palavras do mesmo autor, “a morte é parte integrante de nós mesmos; durante a vida estamos moribundos.”  Portanto, é  mais sensato absorver a idéia de que a vida e a morte são duas faces de uma mesma moeda (realidade), e  encarar com naturalidade a perfeição do ciclo biológico do qual a morte participa o tempo todo.  
Na mesma obra o Ensaísta nos brinda com jóias de bom senso: “Podemos sair da vida saciados e dir-nos-emos satisfeitos. Mas se a nossa vida foi inútil, que importa perdê-la? E se ela continuasse, em que a empregaríamos? Para que prolongar dias de que não se saberá tirar melhor  proveito do que no passado?”.  “Não será tolice condenar uma coisa que não conheceis, nem pessoalmente, nem através de outrem?” Contrastando o anseio humano de imortalidade, o Filósofo  declara: “Considerando as limitações da contingência humana não seria a imortalidade mais penosa?”. E reforçando esta dúvida, ressuscita uma passagem mitológica: “Quiron, filho de Saturno recusou a imortalidade...” ou melhor... cansou  de viver!!!
O Filósofo sabe que é libertador pensar a morte, de todos os ângulos, familiarizar-se com ela até o ponto de compreender-lhe a natureza, e seu significado no ciclo da vida. Esta prática é algo parecido com uma dessensibilização progressiva que acaba por reduzir o medo a níveis toleráveis. Por fim, o filósofo não reconhece a morte como um mal, mas como um evento necessário à organização biológica complexa, e à sustentabilidade da cadeia de eventos que integram a biosfera. Por isso Cícero dizia que filosofar é aprender a morrer.
Vamos pensar um pouco sobre a morte...
Mal damos partida nesta investigação deparamos com um fato aparentemente contraditório: para viver é preciso morrer. Ao existir morremos o tempo em que estamos vivendo... Morremos para viver este tempo. Todavia não nos damos conta de estar morrendo enquanto vivemos, até o momento em que se desfizer o determinismo morte / vida. Então, deixaremos de morrer aos poucos e, conseqüentemente, de viver, também... Morrer minuto a minuto é a condição para viver. A morte é indispensável para podermos fruir a vida que levamos. Todavia, enquanto a vida rouba a cena, cria-se a ilusão da vida plena. A vida parece, então, independente e autônoma, ficando a morte reduzida à condição de um evento futuro, que o homem espera esteja tão distante quanto possível. Conhecendo quanto lhe custa o tempo de viver, o homem percebe a necessidade de vivê-lo, criativamente, buscando coerência no seu vir a ser, voltado para a construção de uma existência significativa. Nesta perspectiva se coloca a ética existencial, cerne da dignidade pessoal, idealmente, centrada na verdade, na beleza e na justiça... E se revela a necessidade que o homem tem de dar um sentido à sua existência. Empreendimento heroico cuja realização está sujeita a um cronograma inflexível. Na esteira desta empresa ele pode brindar a vida, bem utilizando seus talentos, colhendo as alegrias de que for capaz, e (des)dramatizando as tristezas inevitáveis.
  O desejo de sentido sugere que a realidade humana não se esgota no servomecanismo biológico... Aliás, aprofundando a análise da condição humana, destacam-se características que transcendem o fenômeno biológico: o pensamento, a criatividade, a consciência reflexiva, o senso de valor... Estas características transcendentais e a vocação humana para ser feliz sugerem que “algo mais” está misteriosamente “cifrado” na realidade biológica do homem. Eclode, então, a idéia de que este “algo mais” sobreviverá à exaustão física! Uma vez que o Universo e o homem não se explicam por si mesmos, haveria, então, outro nível de existência !?!?... Ganha fôlego assim, o discurso espiritualista centrado na crença da imortalidade da alma. O que atenua, para alguns, a consciência trágica de ser para a morte como o fim definitivo  do “existir”. Suponho que é disso que fala o Poeta inspirado quando diz “Vai ver até que esta vida é morte / E a morte é / A vida que a gente quer![1]...” . Um questionamento que desborda o tema título  desse texto cujo objetivo é, apenas, despir o medo arquetípico do seu aspecto trágico, mostrando como a morte se integra no ciclo da vida.


[1] Do poema “Um refém da solidão de Paulo Cesar Pinheiro