segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O diálogo possível


É notório ser o diálogo um caminho para o convívio solidário. Todavia, é desconcertante o despreparo humano para dialogar. A prática corrente (equivocada) da liberdade destrói o respeito mútuo sem o que não há diálogo. Neste clima, prevalece a inobjetividade entre os atores sociais interessados em fazer valer seu próprio benefício. Assim posicionados, sobram críticas recíprocas, com prejuízo da comunicação. O desencontro é a regra... sem acordo, as questões discutidas permanecem abertas e os indivíduos isolados em suas “opiniões”... cada um preocupado  em justificar a própria excelência.
Um bom começo para mudar esse quadro será assumir racional e emocionalmente que somos todos, em potencial, “farinha do mesmo saco”. Reconhecimento que não significa condescendência, ou relaxamento ético, mas vacina contra a presunção de alguém ser melhor do que o outro, numa conjuntura definida, porque conseguiu “segurar a barra” e não caiu na tentação. Ninguém é melhor do que ninguém; todos somos capazes de praticar virtudes e de escravizar-nos a vícios... Depende de um esforço concentrado agir de acordo com padrões aceitáveis... postura ética que está sempre por um fio, e depende muitas vezes de circunstâncias. Nesta perspectiva, as pessoas que não se acertam, estão focadas em determinar quem tem a culpa do que. Orientação diversa do tom solidário e compassivo da relação comunitária.
Desde que somos todos carentes, o mais inteligente é nos tornarmos parceiros de uma mesma causa, a da solidariedade comunitária. Será muito mais favorável a todos um comportamento cooperativo, com base na partilha de obrigações e benefícios. Mas a linearidade dessa conclusão racional não encontra respaldo no sentimento. O egoísmo primário do homem nas relações inter-humanas o arrasta mais para a ambição do que para a equanimidade. Por isso, predomina a competição que, no plano econômico leva à concentração dos bens em poucas mãos. Comportamento culturalmente institucionalizado na prática do capitalismo global.
Numa perspectiva de culpa e castigo, as pessoas, que estão interessadas em se livrarem de suposta culpa antecipam-se, agressivas, muitas vezes, projetando no outro seus próprios erros... E desta forma estão mais próximas de se excluírem, reciprocamente, do que de se engajarem numa política de inclusão.
A visão crítica da questão mostra que a coisa mais sábia a fazer para preservar o diálogo é deslocar a atenção dos indivíduos interagentes, do plano ético para o plano ontológico[1]. Neste plano o fundamental não é apontar deslizes éticos, mas buscar compreender o outro nas suas fraquezas... não para desculpá-lo, mas para oferecer-lhe a oportunidade de redimir-se mediante iniciativa pessoal de mobilização das próprias forças morais para corrigir eventuais deslizes. Com este objetivo, cada um terá de ampliar o auto-conhecimento e a auto-disciplina... e, arrimado na autonomia pessoal e na liberdade responsável abre espaço para o diálogo. Nesse campo de negociação as pessoas se encontram para descobrir a verdade objetiva e não para tentar impingir opiniões viciadas por interesses pessoais, consciente ou inconscientemente. A ascese exigida de cada homem para realizar o que poderíamos chamar uma “revolução copernicana”[2] é a prova de fogo em que a humanidade tropeça na sua caminhada heroica.
Cada um poderá reconhecer em si mesmo as condições para a relação dialogal, interrogando-se: 1) Sou capaz de ouvir o que o outro tem a dizer, contrariando-me, disposto a revisar posicionamentos anteriores? 2) Sou capaz de manifestar meu entendimento contrário ao do outro, sem ser agressivo, ao contradizê-lo?  3)Sou capaz de adiar uma discussão que me pareça estéril, face à inflexibilidade do outro, propondo a interrupção da conversa iniciada, sem guardar ressentimentos, e esperar um momento mais oportuno para retomá-la? 4) Sou capaz de manter certa distância entre o meu eu mais profundo e os problemas suscitados na interação com o outro, sem  me identificar com os sentimentos hostis que a discussão me possa induzir? Se a resposta a todos esses itens for afirmativa, com certeza será possível dialogar. Esses pré-requisitos são necessários para que prevaleça, no diálogo, o compromisso com a verdade... Porém eles não são espontâneos, demandam, como vimos, um esforço dirigido no sentido do auto-conhecimento e da auto-disciplina.
Na operação dialogal é essencial não confundir o eu sujeito com a mente[3], sendo esta a expressão do falso eu. Tomarei emprestado de Eckhart Tolle uma imagem que poderá tornar mais claro o que estou querendo dizer. Comparemos a psique humana total com um grande lago de águas profundas. Na superfície podem ocorrer ondulações, certa agitação provocada pelos ventos, mas na profundidade as águas permanecem tranquilas. Tomemos a superfície da massa líquida como sendo a mente construída à base de preconceitos traduzidos em normas, crenças e valores culturais. Enquanto isso, o fundo do lago representa o eu transcendental, a consciência pura, anterior à absorção dos conteúdos volúveis da mente consciente. Nessa profundeza deverá prevalecer a paz interior de cada um de nós, a alegria de ser.
Ao atrelar a nossa auto-estima aos preconceitos, crenças e valores culturais ficamos vulneráveis às suas influências.  Essa “identificação da pessoa com sua mente” equivale, na imagem utilizada, permitir que as marolas da superfície do lago consigam agitar suas águas profundas. O que seria um desastre ecológico total. Não obstante, provocamos em nós mesmos este desastre quando permitimos que nossas idéias, preconceitos, sentimentos tomem conta de nós e comandem nossas relações com os outros. É a isto que os místicos chamam “identificação com a mente”, situação em que perdemos a perspectiva de uma auto-avaliação honesta, e mergulhamos na inobjetividade... Dessa forma anulamos a chance do diálogo.
Na busca da paz e serenidade, a maior luta é a que travamos conosco mesmos no sentido de ser fiel à verdade, à justiça e à bondade de que formos capazes, sem o que também não há diálogo possível.
           


[1] Relação empática, inter-subjetiva, pessoal, baseada no respeito e não no dever.
[2] Analogia com o resultado da colaboração de Copérnico, autor da teoria Heliocêntrica, contrapondo-se à concepção clássica, então, de ser a Terra o centro do Sistema Planetário.
[3] Mente no sentido do conjunto de condicionamentos culturais que ensejam respostas egóicas ou reações estereotipadas.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Construção do texto



  O “artesanato da palavra” é uma atividade criativa de aperfeiçoamento do texto. Trabalho em que a imaginação o vai moldando a partir de uma primeira redação, mediante revisões repetidas.  O objetivo é encontrar as palavras mais adequadas ao rigor da exposição de uma idéia, atendendo o propósito estético do escritor. A linguagem escrita, ao tempo em que veicula informações também toca a sensibilidade. Nisso ela se supera, fixando com engenho e arte as cintilações do espírito humano...
A intenção de quem escreve é a de transmitir uma idéia, mas, também, produzir uma emoção estética. No curso desta atividade o escritor tateia os recôncavos da memória e adeja os altiplanos da imaginação, em busca de palavras, imagens, símbolos que melhor traduzam a idéia que quer transmitir. Esforço construtivo em que a memória e a fantasia vão trabalhando resíduos de experiências vividas, coadjuvando a intenção atual de dar forma a uma mensagem. Nesse movimento subjetivo vão se arrumando no papel frases, períodos de um texto com o qual se pretende não apenas apresentar o pensamento com clareza, mas também dar-lhe beleza plástica.
Cada escritor tem um jeito próprio de fazê-lo. Uma estratégia é descrever, num primeiro momento, o conteúdo espontâneo do espírito despertado por inspiração momentânea. Então, traduzem-se em palavras, sem muito esmero, sentimentos, vivências, e pensamentos que ocorrem ao escritor. Provavelmente, desta primeira tentativa resultam períodos longos, adjetivação excessiva, uso abusivo de advérbios, e de substantivos que apenas se aproximam do conceito que se tem em mente. Num segundo momento, a releitura revela as falhas que obrigam aos acréscimos cabíveis, ou à supressão de redundâncias cansativas e supérfluas. A operação se repete uma, duas, três, tantas vezes quantas necessárias. O texto vai assim ganhando corpo e o instantâneo inicialmente revelado ao espírito vai se desenhando na escrita, com traços cada vez mais fortes e precisos. Pela substituição de um termo por outro mais exato, ou após correções eventuais de deslizes gramaticais emerge uma noção mais completa da realidade representada!...
Com as palavras arrumando-se na ordenação lógica das frases encadeadas em períodos coerentes entre si, o pensamento por vezes adquire vida própria. De repente, com o acréscimo de uma palavra, complementar, mas indispensável à ordenação lógica de uma oração, amplia-se a compreensão da realidade descrita... ou, a reordenação dos elementos da mesma oração deixa o texto mais leve... Isso justifica dizer que escrever com propriedade ajuda a melhor compreender o pensamento expresso. Mesmo no linguajar corrente é surpreendente como se ilumina o pensamento com o encaixe significativo de um substantivo mais adequado, ou com uma adjetivação que o transcendentalize. Desse processo criativo resulta um prazer estético dos mais puros.
No vídeo da imaginação do escritor as palavras vão-se acomodando na topografia da oração, adequando-se e harmonizando-se no conjunto. Momento glorioso em que a forma e o conteúdo da prosa se misturam clarificando a mensagem e criando efeitos estéticos.  Instante mágico em que o espírito se compraz não apenas com a retidão da estrutura lógica, mas também com a sonoridade e a harmonia plástica da expressão literária.
Há palavras que reproduzem a idéia que temos no espírito, com precisão milimétrica e dão colorido agradável ao rigor do sentido. Assim como existem outras cuja musicalidade deslumbra a sensibilidade de quem escreve ou lê, murmurando detalhes nas entrelinhas do texto logicamente concatenado. Cabe ao escriba evitar os deslizes de uma modelagem afetada.
No fim, saciado, ou, pelo menos apaziguado na sua busca de verdade e de beleza, o espírito repousa na alegria da criação.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Amor e ética


            Amor e ética
            As exteriorizações comportamentais amorosas e éticas apresentam fortes semelhanças, embora seja muito diferente o conteúdo existencial em cada caso. A indistinção formal dos gestos e das ações que são comuns aos relacionamentos ético  e amoroso oculta a diferença entre os fundamentos da ética e do amor. O psicodinamismo do amor inclui a compreensão e o perdão; o determinismo ético é tributário da culpa e do castigo.  Compreender e perdoar são atividades subjetivas que envolvem liberdade, generosidade e criatividade. O jogo da culpa e do castigo, implícito nas relações éticas, estabelece preceitos a cumprir e punição para os infratores, reduzindo a relação ética a um mercado de benefícios. Na relação amorosa a liberdade criadora é a fonte de ações inéditas, na busca de sínteses existenciais cada vez mais perfeitas. Na relação ética, a submissão à lei, e o medo da punição reduzem a liberdade à prática de condutas policiadas, que inibem a criatividade e a generosidade, refletindo, apenas, obediência à rigidez do estatuto legal. Na relação amorosa, a ação livre ganha luminosidade, emergindo colorida e emocionante.  Na relação ética, a ação estipulada por um cânon inflexível perde a originalidade, manifestando-se esquálida, ensombrecida pela melancolia de renúncias dolorosas.
Palmilhando os caminhos interiores em busca de autenticidade, cada um de nós se depara, ao longo da existência, com a necessidade de distinguir o que faz por amor, do que faz por obrigação moral.  Para a prática moral a grande virtude é o dever vinculado à disciplina da vontade. Ao passo que o amor é imprevisível e irredutível ao comando da vontade... O amor distingue-se por seu caráter de doação... Ora, doar é ofertar, gratuitamente, afeto, e bens que traduzam materialmente o desejo de servir.  Mas, qual o limite que se pode estabelecer na intimidade psíquica entre doar como uma manifestação amorosa, e fazê-lo para cumprir, simplesmente, uma obrigação ética?... É difícil identificar este limite, mas a questão é relevante. Sabe-se que o amor verdadeiro é sempre ético, mas nem toda relação ética é amorosa.
Na evolução histórica da humanidade foi necessário estabelecer a ordem no grupo social mediante o respeito a uma autoridade externa. Era preciso adotar um recurso prático, para o gerenciamento das relações coletivas. O controle ético foi o expediente utilizado, pela facilidade de administrá-lo, gerenciando a aplicação de leis e a punição dos rebeldes... já que a vontade, virtude básica na prática ética, pode ser disciplinada, e é disciplinadora, também.  Porém é notório que uma verdadeira comunidade só se constrói com amor... esse algo mais  sem o qual a prática das virtudes éticas fica empobrecida.
O homem tem a potencialidade de amar e ser amado, mas precisará vencer muitas resistências para tornar realidade seu potencial amoroso. Considerando a conjuntura inerente aos comportamentos ético e amoroso, por mais que um suposto amante se esmerasse em administrar sua conduta segundo regras morais, não conseguiria, por esse caminho, viver o amor, nem fomentá-lo em suas relações interpessoais...
Sendo o amor um dom, que fazer, então, para construir relações amorosas, quando o amor não se faz sentir espontaneamente com o seu brilho peculiar? Uma questão importante porque enquanto não vivemos o amor não alcançamos a felicidade a que todos aspiramos...
A maneira mais adequada de enfrentar esta situação é tentar compreender o outro, com determinação. Não podemos impor-nos amar.  Mas podemos diligenciar compreender o outro mediante os recursos intelectuais que possuímos e pelo aprendizado da compaixão através do esforço de avaliar com justa imparcialidade o sofrimento do próximo, sabendo-nos expostos às mesmas dores... Este é o caminho que nos sensibiliza para a solidariedade com o nosso semelhante, nas alegrias e desventuras. Compreendendo-o a partir do reconhecimento de nossa própria fragilidade, será mais fácil perdoá-lo, se for o caso, e com ele confraternizar. Neste esforço compreensivo perceberemos como o outro, tal como nós mesmos, está perdido nos seus caminhos interiores, e como ele sofre diante da sua própria miséria afetiva. Daí à compaixão é um passo. E se nos libertarmos dos equívocos culturais preconceituosos, acabaremos por sentir a força da solidariedade. Identificar-nos-emos de forma efetiva e simpática com o outro em sua fraqueza que é nossa, também, participantes que somos todos da mesma condição humana... E quase, insensivelmente, começaremos a amá-lo.
Dir-se-ia que enquanto nos queremos mutuamente felizes, e assumimos responsavelmente nossa participação no processo social, somos “um” com os outros, somando o prazer dos sentidos e a aspiração à perfeição humana, na convivência comunitária. A existência plena se consuma nas relações interpessoais vazadas no amor à liberdade e no respeito à dignidade do outro.


   

domingo, 5 de dezembro de 2010

Desmistificando a morte


O medo da morte é o arquétipo de todos os medos. Para poupar-se do desgosto de saber-se mortal, o homem anseia a impassibilidade. Esta indiferença em face do fim inevitável é rara. Mas, tranquiliza-nos saber que a sabedoria da Natureza nos ampara nesse transe. Confirmando-a, diz  Montaigne em seus ensaios. “A Natureza nos ensina sair do mundo como nele entramos. Nascemos sem que fosse por força da nossa vontade e sem temores; esperemos conduzir-nos da mesma maneira ao passar da vida à morte.” Certo. A Natureza é pródiga. Virgem de influências estranhas às suas próprias leis, ela não se propõe problemas que não possa resolver, e não nos faltará com seu apoio. É o próprio Ensaísta que adverte:  “Ao conduzir-nos pela mão, devagar, por entre o medo e a expectativa desagradável da morte, a Natureza nos familiariza com essa fatalidade.” Ademais, “a morte súbita não nos dá tempo para temê-la... e a doença terminal que antecede, demoradamente, a morte, nos prepara para a aceitação tranquila.”
Mais adiante, o Filósofo francês assinala que “O salto da mocidade à velhice, conquanto marcado por perdas irrecuperáveis, é menos impressionante do que o que separa uma vida miserável do seu fim.” E acrescenta: “A morte liberta o homem de todos os sofrimentos e sortilégios... por que, ainda assim a repudiamos e tememos perder uma coisa (a vida) que uma vez perdida já não podemos lamentar?” Estes comentários põem em evidência quanto é irracional o medo da morte... Todavia, usando as palavras do mesmo autor, “a morte é parte integrante de nós mesmos; durante a vida estamos moribundos.”  Portanto, é  mais sensato absorver a idéia de que a vida e a morte são duas faces de uma mesma moeda (realidade), e  encarar com naturalidade a perfeição do ciclo biológico do qual a morte participa o tempo todo.  
Na mesma obra o Ensaísta nos brinda com jóias de bom senso: “Podemos sair da vida saciados e dir-nos-emos satisfeitos. Mas se a nossa vida foi inútil, que importa perdê-la? E se ela continuasse, em que a empregaríamos? Para que prolongar dias de que não se saberá tirar melhor  proveito do que no passado?”.  “Não será tolice condenar uma coisa que não conheceis, nem pessoalmente, nem através de outrem?” Contrastando o anseio humano de imortalidade, o Filósofo  declara: “Considerando as limitações da contingência humana não seria a imortalidade mais penosa?”. E reforçando esta dúvida, ressuscita uma passagem mitológica: “Quiron, filho de Saturno recusou a imortalidade...” ou melhor... cansou  de viver!!!
O Filósofo sabe que é libertador pensar a morte, de todos os ângulos, familiarizar-se com ela até o ponto de compreender-lhe a natureza, e seu significado no ciclo da vida. Esta prática é algo parecido com uma dessensibilização progressiva que acaba por reduzir o medo a níveis toleráveis. Por fim, o filósofo não reconhece a morte como um mal, mas como um evento necessário à organização biológica complexa, e à sustentabilidade da cadeia de eventos que integram a biosfera. Por isso Cícero dizia que filosofar é aprender a morrer.
Vamos pensar um pouco sobre a morte...
Mal damos partida nesta investigação deparamos com um fato aparentemente contraditório: para viver é preciso morrer. Ao existir morremos o tempo em que estamos vivendo... Morremos para viver este tempo. Todavia não nos damos conta de estar morrendo enquanto vivemos, até o momento em que se desfizer o determinismo morte / vida. Então, deixaremos de morrer aos poucos e, conseqüentemente, de viver, também... Morrer minuto a minuto é a condição para viver. A morte é indispensável para podermos fruir a vida que levamos. Todavia, enquanto a vida rouba a cena, cria-se a ilusão da vida plena. A vida parece, então, independente e autônoma, ficando a morte reduzida à condição de um evento futuro, que o homem espera esteja tão distante quanto possível. Conhecendo quanto lhe custa o tempo de viver, o homem percebe a necessidade de vivê-lo, criativamente, buscando coerência no seu vir a ser, voltado para a construção de uma existência significativa. Nesta perspectiva se coloca a ética existencial, cerne da dignidade pessoal, idealmente, centrada na verdade, na beleza e na justiça... E se revela a necessidade que o homem tem de dar um sentido à sua existência. Empreendimento heroico cuja realização está sujeita a um cronograma inflexível. Na esteira desta empresa ele pode brindar a vida, bem utilizando seus talentos, colhendo as alegrias de que for capaz, e (des)dramatizando as tristezas inevitáveis.
  O desejo de sentido sugere que a realidade humana não se esgota no servomecanismo biológico... Aliás, aprofundando a análise da condição humana, destacam-se características que transcendem o fenômeno biológico: o pensamento, a criatividade, a consciência reflexiva, o senso de valor... Estas características transcendentais e a vocação humana para ser feliz sugerem que “algo mais” está misteriosamente “cifrado” na realidade biológica do homem. Eclode, então, a idéia de que este “algo mais” sobreviverá à exaustão física! Uma vez que o Universo e o homem não se explicam por si mesmos, haveria, então, outro nível de existência !?!?... Ganha fôlego assim, o discurso espiritualista centrado na crença da imortalidade da alma. O que atenua, para alguns, a consciência trágica de ser para a morte como o fim definitivo  do “existir”. Suponho que é disso que fala o Poeta inspirado quando diz “Vai ver até que esta vida é morte / E a morte é / A vida que a gente quer![1]...” . Um questionamento que desborda o tema título  desse texto cujo objetivo é, apenas, despir o medo arquetípico do seu aspecto trágico, mostrando como a morte se integra no ciclo da vida.


[1] Do poema “Um refém da solidão de Paulo Cesar Pinheiro

domingo, 28 de novembro de 2010

A caminhada heroica


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Do nascimento à morte o homem vive a saga de ser o artífice de si mesmo. E neste caminhar constroi-se, passo a passo, mediante o exercício responsável da consciência.  Assim, é imprescindível que detenha o conhecimento imediato da sua finitude, e sinta a responsabilidade em relação à prática de modelos comportamentais que honrem a atualização da condição humana.  O tempo urge e é preciso caminhar.
A vulnerabilidade da performance humana baseada no exercício da consciência livre e responsável, reside na ausência de certezas definitivas. As escolhas são sempre empreendimentos de risco, fundamentadas em valores criados pelo próprio homem... pois mesmo os valores “revelados” passam pelo crivo da “existência”, o modo de ser peculiar do homem.  
A vida põe os homens diante de situações diferentes, mas o respeito aos valores inerentes a uma visão de mundo coerente garante a correção das escolhas de cada um no seu vir a ser. E o somatório destas escolhas define o rumo da História. No fundo, a lógica dessas escolhas tem como base um “valor” que vale o quanto de sentimento e determinação criativa o homem investe no ideal que fundamenta este valor... Dessa forma, transforma-se em “valor” um ideal humano absolutizado que passa a constituir referencial inquestionável, um critério de julgamento nas opções inevitáveis.
A formalização e a institucionalização dos valores se traduzem em cânones culturais que delimitam as regras do comportamento social. A cultura, guardiã da unidade social propõe comportamentos que podem não coincidir com o desejo dos indivíduos que os encenam em obediência à norma. Em atenção à ordem social, freqüentemente, o indivíduo se vê na contingência de sacrificar interesses particulares em favor do bem estar de todos. Neste ponto começam os conflitos psicossociais.
No processo de socialização cabe ao indivíduo disciplinar suas demandas egoístas mediante um esforço corretivo dirigido contra as tendências atávicas egocêntricas, o que exige auto-conhecimento e auto-controle... Amiúde, estas tendências são mais fortes do que o amor à verdade, à justiça, e o sentimento de solidariedade. E quando o “demônio” que habita o interior do homem, vence o “ anjo” que o rivaliza, abre-seno processo cultural uma porta para a mentira, a pirataria, o assassinato e as guerras  que transtornam o bem-estar social .
  Diante da batalha intestina, que o homem trava ao “existir”, o “eu” operante assume posturas diferentes. Sob a mira da crítica social, ou o homem adota uma atitude pragmática e cínica, à sombra do manto da cumplicidade coletiva culturalmente dissimulada; ou perde-se em equívocos que escondem tendências e propósitos inconfessos; ou, ainda, ingenuamente, vive a norma como se fosse uma ode à perfeição... Os que são criticamente conscientes dos equívocos culturais, mas não têm coragem para fazer-lhes oposição efetiva, vivem uma ambivalência incômoda que termina na omissão... Poucos são os que se sentem visceralmente comprometidos com o exercício da consciência responsável e vão à luta em prol da coerência do processo sócio-cultural, inspirados em princípios humanísticos. Este é o espaço dos conflitos existenciais cuja resolução revela a estatura moral das pessoas envolvidas.
Lamentavelmente o esforço cívico dos cidadãos de bem nem sempre é recompensado, prevalecendo  a proposta marota dos vivaldinos.  Os cidadãos de bem clamam, em desespero, a justiça divina. Ecoa entre eles o questionamento bíblico referente ao sofrimento dos justos e à vitória dos maus... Por que? A santa indignação, todavia, é injusta com o próprio Deus...
            A humanização se confunde com a gestão responsável da existência. Isso impõe compromisso assumido consciente e livremente pelo homem com os valores coletivos. Ao conceder ao homem a capacidade de escolher, o Criador colocou sobre seus ombros a missão de construir uma humanidade solidária. A responsabilidade é a contrapartida do privilégio de reter os dons da consciência e  da liberdade,  inéditos na natureza. Quando falta ao beneficiário destes dons a grandeza de espírito necessária para exercitá-los com integridade, prevalece o comportamento covarde, caviloso ou dissimulado, germe dos males que afligem o homem. Nunca a humanidade esteve tão exposta às conseqüências  da realização de interesses individuais e corporativos espúrios que minam as possibilidades reais do desenvolvimento humano.
É forçoso reconhecer que é o homem e não Deus quem deve ser  responsabilizado pelos erros que enodoam o curso da História...  Se Deus interviesse, tolheria a liberdade humana, subtraindo o fulcro da dignidade que conferira, gratuitamente, a sua criatura. No entanto fica de pé o convencimento de que para vencer os obstáculos ao exercício responsável da consciência é preciso contar com a ajuda de imponderáveis, reflexos de um poder transcendental que vela por nós. Ninguém vence esta batalha sozinho... E a Transcendência protetora (misericordiosa) está sempre no mais íntimo de nós mesmos, no “tu” infinito que nos constitui, cada um de nós, num “eu”, e que, lamentavelmente, o “outro” (o “tu” da convivência social) não consegue representar condignamente.
Mas só sobrevivemos até aqui porque há sempre um saldo positivo nos altos e baixos do convívio social... Creio em que a poupança gerada por estes saldos acumulados renderá o juro necessário para “financiar” o custo em bom senso, criatividade e determinação necessários à construção da comunidade humana.
Muitos conhecem a verdade complexa da realidade pessoal atrelada à História, e a responsabilidade implícita... Mas poucos são suficientemente corajosos para levar às últimas consequências, nas suas vidas, a prática da consciência livre e responsável. Todavia, a estes está destinada a tarefa ingente de sobreporem-se às circunstâncias em busca de soluções comunitárias para o convívio humano... soluções baseadas na verdade, na justiça e na solidariedade universal. A esses mutantes, precursores evolutivos do “Homo Sapiens éticus” caberá salvar o homem e a Terra do desastre que se anuncia, provocado pela insensatez do Homo sapiens sapiens.
                                              








quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Conquistando a felicidade



Todo mundo quer ser feliz... Mas a felicidade não existe como um sentimento centrado em si mesmo. A felicidade adulta, daqueles que já perderam a ingenuidade, e atingiram a idade crítica é uma conquista. E como toda conquista, supõe um esforço dirigido, não com o objetivo de ser feliz, mas de criar algo original no próprio quefazer, no campo das Ciências, das Artes, e do enriquecimento das relações interpessoais. A felicidade é consequência. Alcançá-la tem um custo. As moedas fortes no mercado da felicidade madura são: o autoconhecimento, a autocrítica imparcial e a criatividade.
A modéstia e a humildade levam o ser humano maduro a reconhecer a precariedade da condição humana e o justo valor do talento pessoal... Qualquer tentativa de sobrevalorizar a própria aptidão resulta num tombo desnecessário. Quem se arrisca a caminhar na corda bamba da mentira, mais cedo ou mais tarde desequilibra-se e cai. Não adiantam cavilações que são meias verdades, evocadas para empanar a mentira nelas embutida. Ninguém pode enganar todo mundo todo tempo. O respeito à verdade é o padrão ouro da auto-estima, condição sine qua non para ser feliz. Por isso,  a conquista fraudulenta em qualquer área das atividades humanas não produz a verdadeira felicidade.A firmeza do justo reside na adesão à verdade que lhe garante o equilíbrio diante do infortúnio e das perdas inevitáveis. 
Dirão os que me lêem: É fácil teorizar sobre o comportamento correto das pessoas; o difícil é praticar com sabedoria as virtudes necessárias!
Realmente, esta é a mais pura verdade! Só a sabedoria abriga as virtudes essenciais... e a conquista da verdadeira sabedoria é uma caminhada difícil, longa e pontilhada de obstáculos.   Não basta conhecer o roteiro até o altar da glória. É preciso ter a coragem e disposição necessárias para percorrer o itinerário até a maturidade sábia. Nesta jornada, além da ousadia e da determinação, o caminhante precisa contar com a influência de imponderáveis, propícios ou adversos, sobre os quais não tem controle.
O pensamento ilumina, mas é o sentimento que amarra e dá sentido à existência. A razão dá suporte ao pensamento, mas são as “razões do coração” -os sentimentos- que comandam a vida. Todavia, é preciso discipliná-los... Eles nunca se manifestam em estado de pureza. Estão sempre, furtivamente associados ao seu contrário, porque a presença de um pressupõe o seu oposto, momentaneamente, reprimido. O amor rechaça o ódio, a verdade rebate a mentira, a ordem faz retroceder o caos, a justiça resiste à  injustiça, e assim por diante.  O sentimento positivo e seu oposto variam linearmente... na medida em que um cresce o outro diminui, e vive-versa.
Só poderá aspirar à felicidade quem for capaz de equilibrar no seu interior os sentimentos opostos...  vaidade e humildade,  fantasia e objetividade, egoísmo e solidariedade, amor e ódio  etc.etc. Se não for assim sobrevirá a insatisfação mal humorada, quiçá pedante, manifesta no sofrimento por não poder acrisolar os sentimentos nobres, em busca de uma pureza utópica..
Dirão finalmente: Isso é compreensível, mas como realizar esta alquimia que reúne o pensamento e o sentimento para produzir um estado de espírito equilibrado, conservando em alta os sentimentos positivos, ricos de significado?
A dificuldade é a mesma implícita no sonho dos alquimistas medievais. Não existe uma metodologia capaz de promover a mudança desejada. O bom termo da façanha existencial resulta do trabalho de toda uma vida. Envolve ao mesmo tempo amor à verdade, inteligência, vontade disciplinada, honestidade, e, sobretudo, perseverança. Mesmo assim o epílogo desse esforço será sempre uma aproximação do ideal acalentado, nunca uma obra perfeita...
A primeira providência nesta caminhada é o reconhecimento e aceitação da precariedade da “existência” e da presença do contraditório no cerne da contingência humana. A partir daí o indivíduo construirá, passo a passo, a sua história, priorizando, coerentemente, os valores que dão sentido à existência, administrando os próprios talentos com sabedoria. É oportuno lembrar que este trabalho de lapidação interior não será solitário... nunca se alcançará a felicidade dispensando a dimensão social que fundamenta a realização pessoal.
                                  

domingo, 21 de novembro de 2010

Coragem de ser. O medo e a covardia.Uma visão pessoal



            No jogo das possibilidades não se sabe o que acontecerá no momento seguinte. De olho nos indicadores disponíveis, pode-se fazer uma avaliação aproximada do que está por vir. Mas nessa projeção, tudo são probabilidades apenas... nada se sabe com certeza. O risco de acontecer o pior é inerente à contingência da vida.  Nesta perspectiva, a “coragem de ser” é vital para a existência ou seja, a prática da consciência responsável. Ela é que dá suporte à disposição para escolher, tornando realidade o que fora tão somente uma possibilidade.
Em toda escolha há sempre um risco implícito. Nunca se está inteiramente certo de fazer a melhor opção. Todavia não se pode ficar preso nas malhas da perplexidade. É preciso ter a coragem de assumir riscos... e para isso é fundamental superar o medo.
A coragem é o impulso que vencendo o medo mobiliza o homem para escolher e decidir. Suprimindo-a, a condição humana é uma semente que não medra, é vida congelada, é frustração do ser, um não à própria criação. Ter coragem é ser capaz de sobrepujar o medo com responsabilidade... portanto, a coragem é do tamanho do medo que é preciso vencer para tomar decisões necessárias, mas que podem afetar o equilíbrio instável da existência.
A falta de ousadia diante de uma escolha responsável que envolve risco é a realidade que o covarde tenta esconder, cavilosamente. Ele dissimula a fraqueza que o leva à omissão, e não confessa a vergonha do seu jeito equivocado, caviloso, de conviver com a própria debilidade. 
   Desconfio das pessoas que dizem não ter medo... O medo é uma reação inerente ao ser humano. Não ter medo é ser insensível à própria sorte, o que pode confundir-se com uma postura suicida, inconscientemente, estruturada... O medo real é necessário à manutenção da vida diante de perigos concretos que exigem ações corajosas salvadoras. Se não há medo as situações perigosas não alarmam, e não mobilizam reações defensivas... Na verdade, a coragem não é uma emoção primária; é, antes, um movimento psíquico de superação do medo. O medo, este sim, é uma emoção elementar.
Tendo em vista que a coragem é a superação do medo, se não há medo, também não há como demonstrar coragem... daí porque o intimorato nunca poderá provar o seu valor!  Com este entendimento impõe-se uma digressão à margem do verbete dicionarizado... Lê-se no Aurélio Século XXI: Coragem - Bravura em face do perigo. Intrepidez, ousadia. Franqueza, desembaraço. Perseverança, constância, firmeza.   Cremos útil distinguir dois aspectos implícitos no conceito de coragem... o da sua natureza íntima, psicológica, e o da leitura por terceiros do comportamento considerado corajoso. O verbete dicionarizado parece esgotar-se nesta leitura. Do ponto de vista psicodinâmico, reconhecidamente, existencial, entende-se a coragem como uma reação íntima contra o medo, que envolve elaboração e um esforço consciente dos quais só o próprio sujeito da experiência pode dar testemunho. E na perspectiva do observador a coragem é reconhecida por uma sequência de gestos, simbolicamente, representativos da superação que leva ao ato corajoso.
Como realidade comportamental sem o depoimento honesto do autor, excluídas as situações em que a supremacia do medo não deixa dúvidas, as mesmas ações formalmente intrépidas podem corresponder a uma manifestação de covardia ou de coragem... Um exemplo emblemático seria a fuga tresloucada de alguém, sob o domínio de um medo incontrolável... Nestas circunstâncias, sob o império de reações primárias de sobrevivência, poderia alguém realizar façanhas das quais não se julgara capaz. Coragem? Houve superação do medo? Neste domínio como em tantos outros, nem tudo que parece ser é o que parece. A máscara do medo é inconfundível, mas a da coragem só é evidente para quem a vive no seu subjetivismo inacessível ao olhar curioso; para o observador a coragem será matéria de interpretação dos comportamentos observados.
            O mesmo dicionário registra como  verbete do vocábulo “covardia” a falta de coragem, timidez, pusilanimidade, mas também, deslealdade e traição... Para mim, porém, são os dois últimos significados que melhor caracterizam a covardia. Estou convencido de que a simples incapacidade momentânea de superar o medo é uma contingência circunstancial e não se pode confundir com a fraqueza da covardia... A negação cavilosa do medo, que não raro se associa à mentira, à deslealdade e à traição, esta sim, caracteriza uma mistificação covarde .