terça-feira, 5 de fevereiro de 2019


Desvio da maturidade pessoal
O comportamento de quem não reconhece os próprios limites é inconsequente e ridículo, ao mesmo tempo. A farsa se revela quando o protagonista desta incoerência supervaloriza-se, minimizando o compromisso de solidariedade necessária ao convívio ético da coletividade humana. Uma pessoa com essa característica acaba malversando suas potencialidades sociais através de  manifestações que não retratam a simplicidade dos sentimentos autênticos de fraternidade e liberdade dignificantes do ser humano. Embalada pela ambição de “ser mais”, ela tenta esconder as próprias  limitações, e recorre à manipulação de seus pares para obter deles a aprovação. Seu objetivo maior  é passar uma autoimagem valorizada mais sólida e virtuosa do que na realidade é. Tal pessoa pode até não ter consciência da própria má fé, sendo seu procedimento autopromocional resultado de uma visão infantil das relações sociais; por isso mesmo quando falha na sua realização pessoal ela se queixa da falta de colaboração dos circunstantes; frequentemente arrepende-se das próprias escolhas, e  lamenta-se por não haver sido orientada em tempo hábil para agir no sentido de obter o sucesso desejado; está, sempre, a explicar-se ou a justificar-se, deslocando para longe de si a responsabilidade pelo insucesso.
Nunca se sabe o que tal pessoa  pretende com seu discurso: transmitir o que  diz, explicitamente,  ou escamotear algo inaceitável que tenta esconder. Ela se inclui entre as que não suportam a própria carência e insistem em confundir fantasia e realidade nos seus projetos de vida, esperando que os outros aceitem naturalmente seu descompromisso com a realidade.
Este perfil além de risível e patético  é profundamente desagradável para os circunstantes, colegas ou familiares que desejem levar a sério uma relação intersubjetiva sincera. O convívio prolongado com esta pessoa pode se tornar um desafio para os mais próximos empenhados na construção de uma intimidade confiável, porque se lhes exigirá, a todo instante, desconsiderar o equívoco proposto pelo outro. Submeter os circunstantes a esse constrangimento é já um desrespeito à sua integridade intelectual e moral.  Pior é que a tentativa de desmascarar a farsa, certamente daria início a uma discussão interminável da qual o farsante subtrai a objetividade de um julgamento honesto para encobrir o próprio erro. Faz-se necessária muita disciplina interior para não denunciar o logro da pessoa dissimulada, e não repudiá-la de pronto, jogando fora suas virtudes juntamente com as cavilações. Ela é uma mistura esquisita  de carência ousada na prática de manipulações improvisadas em arrebatamentos românticos que se desfazem, no convívio subsequente ao primeiro encontro efusivo. Esta mescla de tendências mal articuladas condiciona contrastes inevitáveis. A incoerência é a marca registrada desse comportamento. Não é raro, por exemplo, ver a pessoa dissimulada humilhar um subalterno ou mesmo um “igual” depois  de participar (?), piamente, de um ritual comunitário na Igreja que frequenta; propalar ideal elevado, mas fracassar em realizá-lo, atribuindo o insucesso, tal qual uma criança,   à falta de colaboração dos circunstantes, nunca a si mesma. É possível que sofra ao tomar consciência da própria incoerência. Mesmo assim não nos deixa ajudá-la porque a sua vaidade não lhe permite abandonar os próprios enganos, preferindo pousar de rebelde a confirmá-los publicamente. Mas, tão pouco,   se pode odiá-la porque, eventualmente, tem gestos de doação que por vezes refletem um cuidado genuíno com o próximo; embora, torne-se invasiva da autonomia do outro pela insistência autoritária no gesto de ofertar algo a alguém, a título de ajuda. Resistente à aceitação dos seus limites, essa pessoa  não consegue dosar nas suas manifestações  os componentes  racional e emocional. Isto não a ajuda a construir uma cosmovisão dentro da qual se realizem, por excelência, todas as potencialidades humanas. A personalidade inconsequente luta  para edificar uma existência significativa, mas falha por conta do seu comportamento incongruente. Para ser autêntico alguém precisa viver o sentido que dá à própria vida na convergência de todas as virtualidades da alma (racional, sentimental, estética e ética), uma elaboração difícil para quem cede à ilusão de ser mais do que realmente é. Na esteira desta trajetória ela não  consegue largar pelo caminho desejos interditos pelo exercício coerente da consciência reflexiva e vai caminhando entre o ser e o  nada, subestimando a própria malevolência, com  os olhos postos em objetivos inalcançáveis. Nesta caminhada cada passo pretende ser uma conquista, mas a cada instante um escorrego revela a farsa encenada. Escapar desse risco custa uma ascese laboriosa que depende, fundamentalmente, da coragem de ser, no caso, mascarada pelo desejo incontrolável de autovalorização e prestígio pessoal.
É óbvio que para o ser humano, a consciência dos limites pessoais é dolorosa e exige saber praticar a liberdade, responsavelmente, assumindo  o risco de errar no encaminhamento do próprio vir a ser; demanda o reconhecimento do erro eventualmente praticado          voltando atrás para corrigi-lo se possível. Eis o sinete da existência autêntica. Entende-se desta forma o porquê algumas pessoas se escondem em estereótipos culturais ou transferem para outrem a responsabilidade dos seus insucessos. Esse comportamento reflete o medo de ser livre que também sepulta a própria originalidade. Então, para compensar, criam-se fantasias gratas à vaidade de exibir uma imagem valorizada, embora falsa, marcada pela inautenticidade. Diante do desejo imenso de sucesso um recurso frequente para suprir a própria incompetência é o apelo infantil aos poderes mágicos de rituais obsessivos.      Obviamente, este recurso não se confunde com a vivência da unidade mística do absoluto intangível, única abertura salutar para a solução das antinomias existenciais que a  razão não pode resolver sozinha. Nesta perspectiva, a unidade mística do absoluto repousa na lógica complexa que rege a integração de tudo que existe, na qual se anulam todas as diferenças, e torna-se transparente que tudo tem a ver com tudo. Este vislumbre racional abre as portas para a fé no criador e na providência divina.
 Na plenitude da maturidade pessoal  a verdadeira atitude mística não se propõe a pedir favores, consiste, sim, na doação de cada um à realização do plano de Deus, atitude em que se afirma a transcendentalidade do todo absoluto. Processualmente, essa entrega se confunde com  o apelo dos simples ou dos sábios para o encontro definitivo do homem com seu alter ego, com o seu Deus inconsciente. A fé que esse processo exige implica em cultivar uma ingenuidade adulta,  com a seriedade de um crítico realista. Ela (a fé) é necessária para transcender o absurdo lógico de um absoluto inexplicável pela razão prática, para escapar do absurdo existencial (desnaturante) de ser para a morte ou para nada. A fé repousa na ingenuidade necessária para deixar-nos invadir pela vivência numinosa do absoluto cifrado no UNIVERSO. Perseguindo o mesmo objetivo, as Religiões se esforçam para concentrar todo esforço catequético na promoção do encontro do homem consigo mesmo sob o signo do sagrado. E isso faz sentido, demonstrando que  a solução do problema humano se resume numa experiência mística. Quem não tem a humildade necessária para prolongar os próprios limites históricos numa realidade transtemporal inexplicável pela razão, malversa cada vez mais a capacidade de construir um arremate existencial definitivo por um ato de fé que cria aquilo em que se crê, mesmo sem entender.

                                               Everaldo Lopes (1)


sábado, 10 de março de 2018

A ética e o amor no comportamento humano



 A ética e o amor no comportamento humano.
Por definição o homem é um ser consciente e responsável. A coerência desse modo de ser elevada à última  potência deverá conduzir a um comportamento  ético. Na prática, os procedimentos inerentes  acabam elegendo normas  cujo cumprimento cerceia as manifestações de egoísmo das pessoas no convívio social. As regras eleitas passam a ser, então, a base de uma pedagogia manipulável mediante gratificações e punições oferecidas e impostas, respectivamente, no sentido de estimular condutas desejáveis e coibir as indesejáveis, em benefício de uma convivência pacífica. Mas quando o homem vive na plenitude de sua capacidade racional, de sua sensibilidade emocional e da própria vontade é levado a agir solidariamente; fazendo empatia com seus pares  e vivendo visceralmente um “nós comunitário” vai além da simples obediência aos cânones éticos direcionados primacialmente à obrigação de respeitar o bem do outro. Uma alma evoluída ama o seu próximo como a si mesma, e dessa forma se capacita a elaborar suas próprias leis. Nesse sentido alinha-se  à afirmação  de Santo Agostinho quando disse: “Ama e faze o que quiseres”. Essa orientação está relacionada à prática do amor-caridade que implica necessariamente na realização do bem estar do outro, ou seja, na prática de ações espontâneas resultantes do exercício da empatia, comum na vida de muitos santos, e que representa a mais elevada forma de darmos testemunho de nossa própria humanidade. Em face de o comportamento empático não ser frequente como tendência natural determinante, verifica-se a necessidade de disciplinar a conduta  das pessoas o que torna indispensável a imposição do exercício de normas éticas cujo descumprimento expõe o infrator a punições determinadas pelo Estado de direito chamado a policiar as relações interindividuais numa sociedade organizada. Ou seja, quando não prevalece o comportamento empático amoroso impõe-se a intervenção de uma autoridade externa mediante aplicação de códigos legais para controlar a ação dos indivíduos no convívio social. Ai está a diferença entre a visão ética e a leitura existencial empática da conduta solidária dos que integram o grupo social humano. A visão ética é policialesca, enquanto a amorosa (empática) emana do sentimento de identidade entre as pessoas que compõem a coletividade. Não é certo, porém, que a imposição da prática do dever moral possa levar por si só à realização pessoal do amor ao  próximo, todavia, somente a vivência deste amor solidário é capaz de transformar os indivíduos.  Quando isso acontece é por virtude de um salto de qualidade na evolução do homem, o que caracteriza uma verdadeira conversão. O comportamento normativo (ético) é voluntaria e formalmente virtuoso, porém não necessariamente empático (amoroso); nele impera o respeito ao outro pela submissão a uma coleção de leis, e não pelo amor, embora, convenhamos, o respeito venha a ser o primeiro passo na direção do amor. A diferença fundamental é que na conduta amorosa propriamente dita há um envolvimento cognitivo afetivo harmonioso, absorvente, entre as pessoas; ao passo que na conduta apenas ética existe em perspectiva a espera de um ganho, ou o temor de uma privação que alimentam o esforço comportamental para uma convivência harmoniosa. No primeiro caso (conduta amorosa) o homem é livre, não há amor sem liberdade; no segundo, os pares estão sob a tutela (submissão) de códigos legais que protegem a harmonia social. A disponibilidade de cada um para a doação de si mesmo inerente à  prática do amor-caridade é que liberta o homem do medo, inclusive de sua própria morte. Daí porque dizemos que só amando o bem do outro o homem é verdadeiramente livre.
Tomando a prática do amor caridade como o ápice da perfeição humana evidencia-se que o homem nasce com a capacidade de amar, porém deverá desenvolver esse talento mediante disciplina pessoal envolvendo o domínio das tendências egoicas que se insinuam espontânea e insistentemente. No caráter evolutivo do homem está implícita sua própria perfectibilidade, capacidade que envolve a administração competente de todas as funções psíquicas superiores do ser consciente (consciência reflexiva, sentimento e vontade) exigidas na prática do amor-caridade.
Todas as mazelas que afetam a humanidade decorrem de tropeços na dinâmica psicossocial  que obstruem de forma pessoal  e estrutural a prática do amor-caridade.

Em resumo o amor-caridade é necessariamente ético, mas a moralidade das relações humanas não é necessariamente amorosa.
Everaldo Lopes

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Como vejo o mundo



Numa perspectiva criacionista, monista espiritualista, a realidade visível é fundamentalmente espiritual.  Poder-se-ia compará-la com a produção de uma bolha temporal no seio da eternidade, resultante da coordenação das dimensões espacial e temporal em cada um dos seres criados. O Espírito  Eterno representado pela inteligência e consciência universais personificadas num absoluto criador preexiste, pois, ao big bang (primeira manifestação do tempo e do espaço) e permanecerá após o fim dos tempos. Nesse contexto o ser humano se identifica subjetivamente por um eu histórico que se evidencia a cada indivíduo como ressonância do Espírito Eterno.
A consciência universal é, portanto, uma transcendência que ultrapassa os limites da razão humana  predisposta a lidar exclusivamente com grandezas temporais e espaciais.
Pegando carona no conceito básico da Física quântica pode-se conceber a realidade aparente expressa no processo histórico como o encontro das infinitas possibilidades da transcendência (consciência universal) com a consciência localizada implícita no equilíbrio dinâmico de cada uma das criaturas; finalmente, tudo converge para a harmonia global entre os diferentes níveis de complexidade que integram a unidade absoluta. No ser humano esse equilíbrio se torna pessoal, consciente, reflexivo, manifestado em cada indivíduo através da complementaridade das funções superiores do Sistema Nervoso Central (razão, sentimento e vontade).
A consciência localizada filtra misteriosamente os projetos contidos na consciência universal, reproduzindo estruturas de complexidade crescente; e o que é recapturado pela consciência pessoal resulta na realidade objetiva reconhecida como reflexo do mundo visível captado subjetivamente por cada um dos homens. Assim, a tese criacionista monista espiritualista  fundamenta a  realidade aparente no encontro indescritível da transcendência absoluta com a imanência limitada representada pelos diferentes níveis de complexidade que totalizam o absoluto unitário. Nessa interdependência misteriosa a consciência pessoal se plenifica em cada homem integrando-se na consciência universal (absoluta) e nela encontrando o seu sentido mediante uma experiência mística.
O grande problema existencial é que a dimensão temporal do homem implica em perdas pessoais inerentes ao tempo vivido, que o indivíduo confronta com a intuição da sua dimensão atemporal latente na expectativa de vida eterna. Com esta visão intuitiva, vivendo no tempo, o homem, para não deprimir, precisa superar o sentimento trágico implícito na consciência do determinismo de sua finitude temporal manifestada no envelhecimento e na morte. Dessa forma cada um precisa conservar a força moral necessária para viver as perdas temporais, conservando a autoestima através do aproveitamento inteligente das habilidades remanescentes, entre estas a de participação na unidade absoluta.
Os argumentos articulados pelo exercício da razão, por mais consistentes que sejam, jamais serão capazes de  anular a ansiedade do ser consciente  diante do próprio vir a ser incerto. Qualquer esforço intelectual para urdir teses filosóficas e metafísicas tendo em vista apaziguar a angústia inspirada pela ideia da proximidade da morte resulta geralmente em fracasso. Por sua inevitabilidade a morte é na vida de cada um uma presença virtual desagradável que só é superada mediante uma atitude mística.
            Encontramos na melhor hipótese alguma serenidade ao conseguirmos aconchegar-nos sob o manto protetor da misericórdia divina, invadidos por uma onda de cálido agradecimento ao Deus que nos criou e nos sustenta compassivamente, juntamente com todo o Universo. Nessa vivência mística experimentamos a maior proximidade com o próprio Criador.
 Sendo o espírito uma entidade que transcende a matéria não o experimentamos plenamente enquanto não vencemos literalmente a barreira do tempo; antes disso apenas lhe atribuímos um caráter indescritível no âmbito do nosso vir a ser histórico.
            Para aliviar a percepção do estresse de vivenciar a finitude, e mitigar a angústia existencial decorrente desta percepção, nos valemos de comportamentos que nos projetam numa realidade sempre maior e mais abrangente- até a mais alta aspiração estética, intelectual afetiva ou de ordem prática, corporificada numa coletividade universal solidária por exemplo. Nesse sentido esperamos realizar-nos até mesmo num ponto fora da curva do tempo. Na esteira deste esforço buscamos apreender algo mais de nós mesmos, que ultrapasse as dimensões espacial e temporal, o que nos remete a uma experiência mística. O esforço de transcender estimula o hipocampo que é a área cerebral da criatividade e da memória. Mantê-lo (o hipocampo) estimulado  com atividades criativas diminui o estresse da vivência de finitude, embora não o anule. Podemos ainda buscar uma ajuda natural mediante alimentação sadia, sono reparador e uma perspectiva otimista da existência, tomando consciência do quanto de pressão psíquica é autogerada por nossos cacoetes psíquicos afetivos. No combate prático à ansiedade não se pode esquecer uma rotina de  exercícios físicos que reduzem o estresse, pela produção das endorfinas antálgicas e euforizantes.
 A capacidade humana de fixar novos hábitos nos permite esperar que possamos um dia  habituar-nos à prática salutar da solidariedade como uma extensão do nosso vir a ser existencial, projetando o centro do interesse pessoal para além do próprio umbigo. Dessa forma, deixando-nos absorver no interesse de um todo universal, desviamos a atenção para além de nós mesmos, anulando,  momentaneamente, a consciência da ameaça permanente de saber-nos finitos.
           
            A invasão do espírito por ansiedade e medos incômodos pode ser controlada antes que estas elaborações psíquicas se alinhem num comportamento neurótico. Reagindo com abordagens racionais ao mergulho na insanidade, podemos alcançar um mínimo de conforto psicológico compatível com uma conduta construtiva, otimista. Mas a eficiência desta intervenção racional fica a depender de sua assimilação emocional.
            Afinal, no fundo, o medo e a ansiedade são despertados pelo confronto subjetivo com probabilidades ameaçadoras que se exacerbam à medida em que estamos mais centrados em nós mesmos. Ora, o que se teme e gera ansiedade enquanto vivemos pode acontecer ou não em determinado momento; aliás, na verdade raramente acontece enquanto não chega o instante fatal. Mas quando estamos preocupados com o próprio destino ficamos à mercê dos maus presságios. E até distanciar-se  de vez  das possibilidades alternativas temidas instante a instante, o protagonista das fantasias em questão  já terá sofrido muito, desnecessariamente. Esta realidade deve estar bem presente  no espírito de quem vive em permanente introspecção. O ansioso pode reduzir sua tensão intrapsíquica ao perceber o pseudoproblema implícito na expectativa criada pelo medo ilusório de possibilidades que só acontecerão na hora própria, se vierem a tornar-se realidade. Dessa forma o ansioso crônico pode tirar proveito de seus próprios recursos intelectuais ao reavaliar objetivamente o problema cuja vivência é responsável por estados psíquicos desagradáveis. Assim, deixamos de ser movidos pelo medo ilusório e passamos a conviver de forma objetiva com as probabilidades do acontecer indesejado, como o da velhice e da própria morte.

            Fundamentalmente, gostaríamos de ser senhores do tempo, todavia,  faz parte da nossa condição de criaturas finitas permanecermos sujeitos aos percalços da impermanência implícitos em mudanças que não são  totalmente controláveis no curso do tempo. Nada se pode fazer para evitar que fiquemos cada dia mais velhos e vulneráveis aos azares da idade, mais próximos do fim reservado ao  ser biológico.  Não adianta bater o pé contra a caminhada inexorável do ser temporal no qual vida e morte estão de braços dados. Como seres biológicos, para viver é preciso morrer os instantes em que vivemos, portanto é ridículo assumir postura existencial contrária  à inexorabilidade do tempo. Podemos, sim, aproveitar cada segundo para consumar uma postura a mais confortável possível diante de um desfecho indesejável, mas inevitável. Nesse sentido é indispensável que aprendamos a não confundir probabilidades com possibilidades, deixando-nos envolver cada vez mais por interesses comunitários e pela expectativa de um desfecho apoteótico da existência.
            Surpreendo-me preocupado ao imaginar o que me pode acontecer no momento seguinte; chego mesmo a ficar intimidado por acontecimentos que só existem na minha imaginação. Os traços remanescentes do caráter obsessivo da personalidade torna essa tendência mais problemática. Momentaneamente, uma onda de pessimismo pode atropelar a expectativa de saúde, paz e vida longa. No meio dessas cogitações o angustiado se dá conta de que está sadio, vivenciando no presente uma realidade diferente dos presságios que lhe afligem a imaginação descontrolada. E percebendo o disparate sente uma fisgada no seu amor próprio por ceder aos temores fantasiosos e aos medos infantis nos quais se sente envolvido. O termômetro para medir o que lhe resta de sanidade mental é a capacidade de contrapor os recursos racionais disponíveis ao turbilhão de expectativas fantasiosas, e em analisando-as, desmistificá-las, confinando-as aos limites do real concreto; dessa forma é possível reduzir o impacto de devaneios desastrosos construídos na subjetividade impregnada de pessimismo. Com esse objetivo tenho desenvolvido ao longo dos anos, com relativo sucesso, a análise racional das minhas preocupações e temores. Mesmo assim, os traços obsessivos do caráter de cada um são uma pedra no caminho desta análise, limitando o resultado  otimista a ser conquistado pela pacificação do espírito ansioso.

Everaldo Lopes

quinta-feira, 20 de julho de 2017

A inconformidade com a finitude - nossa fragilidade



O poeta inspirado pela beleza da Natureza ou da mulher amada escreve um soneto apaixonado, sente a ventura da criatividade e desfruta a paz da harmonia interior, num momento privilegiado da existência. O mesmo poeta, num outro instante de lucidez existencial, descobre-se, sobrenadando o vazio do seu vir a ser quando não está amando nem criando. Certamente, a paixão episódica e o arroubo criativo isolado não se confundem com o amor sem fronteiras que integra o ser consciente no contexto do todo perfeito da unidade divina. E a experiência deste amor é fundamental para resgatar o homem de sua inconformidade com a própria finitude.
            A limitação temporal é sempre objeto de preocupação do homem; pois a consciência de a qualquer momento ser tragado pelo não ser é a expressão de uma realidade incontornável. O sofrimento moral correspondente é para muitos um incômodo que tolda a alegria de viver. Por isso a aceitação emocional deste desfecho será sempre um desafio para o ser consciente. O medo de morrer está na raiz do próprio instinto de conservação, manifestação normal em todo ser vivo, que se agrava dramaticamente no homem por sua capacidade de imaginar, com antecedência, o próprio fim. Teoricamente só o presente é real, mas, não raro nos surpreendemos ocupados com boas ou más lembranças do passado e preocupados com as incertezas que nos aguardam no futuro, realidades virtuais que deslocam a atenção sobre o presente real.
A inconformidade com a finitude é uma “loucura” peculiar da condição humana. Porque no homem a autoconsciência do ser biológico o expõe inevitavelmente à vivência de sua temporalidade constitutiva e, consequentemente, à previsão do envelhecimento e da própria morte.   Na dialética existencial vive-se morrendo, de tal modo que processualmente vida e morte estão sempre entrelaçadas, ou seja, é preciso morrer este minuto que passa agora, para poder vivê-lo. Todavia, sempre pensamos a morte em termos absolutos como o fim definitivo da vida. Daí a ansiedade da espera sem data prevista do desfecho fatal.
É insensato tentar escapar da provisoriedade da vida biológica e, no entanto, é notório o medo de morrer considerado por muitos estudiosos como o maior de todos os medos que afligem o homem. Por isso, na vida íntima de cada um, torna-se evidente a necessidade de encontrar uma forma de superar a angústia do ser humano de saber-se mortal. Analisando a questão em todos os seus aspectos, na tentativa de amenizar a angústia existencial a proposta mais razoável será contextualizar a existência numa dimensão mística, projetando-a para além do tempo.
O medo inerente ao sentimento de finitude é exacerbado pela saudade da vida, tão mais forte quanto maior o número de décadas vividas. É confortante para o homem, pois, a força aquietadora da esperança de transcender a vida biológica, vivência que encontra um amparo efetivo na crença em uma realização transtemporal da essência espiritual do eu histórico. Esta expectativa remete necessariamente a uma experiência mística contextualizada na fé em um absoluto transcendental que tudo envolve na sua perfeição. 
Assim, a existência[1] implica numa contradição vivida subjetivamente entre o desejo de viver e o medo de morrer. Oposição cuja única forma de contornar sem estresse é a doação pessoal do ser consciente a um absoluto transcendental que o inclua. O que corresponde a uma experiência mística embalada por fé ingênua (sem questionamentos). Embora possamos afirmar a existência de Deus mediante especulação filosófica a partir do conhecimento profundo do Universo e do processo evolutivo, a relação que podemos estabelecer com o Criador é puramente intuitiva e emocional. Dessa experiência a razão participa apenas remotamente; uma vez que o fundamento da fé unificadora da consciência com o mundo é essencialmente místico. Para que a fé produza seu efeito redentor não há que buscar razões para crer. Quem crê realmente em Deus afirma: creio porque creio, e me entrego cegamente à vontade absoluta do supremo Criador plenamente confiante no imenso amor que me faz existir como beneficiário de Sua infinita misericórdia. Daí ser fundamental uma crença ingênua para viver em plenitude a experiência mística, animado pela certeza de experimentar a eternidade na presença majestosa de Deus.
Racionalmente Deus não pode ser confundido com uma realidade objetiva, mas à luz de uma especulação metafísica O reconhecemos necessária[2] e misteriosamente presente no universo palpável e em nossa própria realidade pessoal na qual se dá a conhecer, obscuramente, pela manifestação das funções psíquicas superiores[3], só possível depois da supercomplexificação da matéria no Sistema Nervoso Central no homem.
            As pessoas sofrem mais ao confrontar seu limite temporal, quando são pessimistas, não aprenderam a amar, não praticam a generosidade, ou não se sentem amadas. É compreensível que, em luta contra seus medos e incertezas elas se perguntem: - Como reverter esta situação? A resposta é óbvia: Optando pelo otimismo na prática existencial; aprendendo a respeitar e cuidar do outro, dando assim um passo largo em direção ao amor; praticando a generosidade que começa quando fazemos empatia com o outro e descobrimos em nós mesmos as suas fraquezas, assumindo que somos capazes de amar ou, pelo menos, respeitar o outro. Evidentemente, todos esses movimentos interiores só produzem os efeitos esperados quando vividos emocionalmente e não apenas como uma formalidade.
O amor a uma causa ou a um ideal significativo é o grande antídoto para o medo da morte. E não há causa mais elevada do que a da autoafirmação de cada um de nós, como pessoa, sob a égide da verdade e da justiça, no esforço de buscar, constantemente, o bem honesto. Tarefa heroica que exige autoconhecimento, humildade, disciplina emocional, objetividade, e, tal é sua grandeza, que não dispensa a ajuda da misericórdia divina. Sem a contrapartida de uma personalidade criativa ancorada na perfeição absoluta de Deus, o golpe desfechado pelo sentimento de que tudo é provisório nesta vida tem um poder devastador. Ouso dizer que sem uma visão mística da própria existência, será impossível a realização cabal do ideal humano de serenidade, e se tornará muito deprimente o confronto de cada um com a condição de simples mortal. Fora de um contexto místico, a convivência com os nossos limites resultará sempre na vivência de um todo inacabado, geratriz de expectativa inquieta; e no nível puramente racional a vitória sobre o mal-estar induzido pelo sentimento da finitude será sempre uma “vitória de Pirro”, em que o vencedor amarga enormes perdas com o próprio sucesso.
            A autoafirmação pessoal começa com o reconhecimento de que somos perecíveis, mas temos uma missão a cumprir neste mundo; de que somos contraditórios, mas é-nos possível elaborar, com simplicidade, as antinomias da existência; finalmente, de que somos capazes de acolher com respeito o irmão, sem cultivar mágoas ou ressentimentos.
            Ao meditar sobre essas questões, advirto-me de que no desvario infantilmente crédulo da nossa perspectiva existencial, surpreendemo-nos buscando segurança em fantasias românticas, ancorados em arrimos discutíveis que desejáramos transformar em fortalezas inexpugnáveis. Esgotando nossa expectativa em metas temporais agiríamos como quem se imaginasse seguro porque dispõe de poupança expressiva. Na verdade esta pessoa não está a salvo de nada além da carência financeira imediata. Situação equivalente à do homem que cuida com esmero da alimentação sadia e do seu condicionamento físico para assegurar-se a salvo das doenças que acometem os glutões e os sedentários. A proteção conferida pelos cuidados preventivos realmente existe, mas é limitada, porque há fatores genéticos cujo determinismo o exercício físico e a dieta retardam, mas não anulam totalmente. Todos os cuidados são recomendáveis, mas na avaliação dos resultados não se pode confundir a menor probabilidade de ocorrência de um mal, com a segurança de estar definitivamente livre dele. É bom sentirmo-nos confiantes, com a reserva vital que nos garante um bom condicionamento físico. Porém, mais sábio do que fiar-se em defesas vulneráveis é vivenciar que a maior segurança consiste na aceitação da insegurança total, confiante, porém, no amparo de uma força superior, e num destino transtemporal. Isto equivale a investir num arrimo interior que excede nossa capacidade de entendimento, o sustento íntimo necessário para continuar de pé quando tudo ao redor está ruindo. E amparado neste arrimo interior, ao aceitar com serenidade a insegurança total nada mais sobra para ameaçar a integridade pessoal.
            A consciência reflexiva depende, operacionalmente, do mecanismo de controle automático biopsíquico desenvolvido no homem através da supercomplexificação da matéria na construção do Sistema Nervoso Central. Neste processo singular, na história da vida, há um pseudo-hiato entre a infraestrutura biológica e a superestrutura cultural do pensamento logicamente articulado, do sentimento disciplinado e da vontade determinante. Considerando o todo consciência mundo, esse hiato virtual representa a dobra[4] entre a bioquímica neuronal cerebral e o pensamento, entre o biológico e o espiritual, entre a ciência fenomênica imanente e a metafísica do ser que se transcende pela consciência. É neste pseudo hiato que se insere a experiência mística embasada na fé, desde a prática contemplativa ao êxtase vivenciado por São João da Cruz[5]. Este é o momento em que o espírito onipresente, mas imperceptível, se entremostra da maneira mais ostensiva. Exatamente por isso a complexidade humana não se exaure no fenômeno biopsicológico e exige o arremate místico para consumar-se. No pseudo-hiato entre o biológico e o espiritual se evidencia o Deus inconsciente de que fala Victor Frankel, onipresente, vivenciado no subjetivismo do ser consciente como um Alter Ego que, recursivamente, acaba espelhando o próprio ego individual. É aí que o Absoluto se revela à nossa contingência e conversa conosco na mais total intimidade, embora escutemos apenas a nossa própria voz e vejamos tão só a nós mesmos. É aí que se dá a conhecer o mistério tremendo da parceria entre a imanência e a transcendência, entre o homem e Deus.
            Se a solução do problema humano não é racional, filosófica, porém mística, a oração será o instrumento adequado para proteger o homem contra a devastação da angústia existencial e do medo da morte. Despindo-me do racionalismo frio, retomo a postura ingênua para evocar numa Oração (conversa com Deus) as condições para o momento existencial perfeito.
                                                           Oração

Deus, permite-me a graça de vivenciar a unidade consciência / mundo na intersecção das dimensões imanente e transcendente do meu eu mais profundo. Que sob o mistério da reciprocidade na relação criatura / Criador, encontre em Ti a força necessária para cumprir a missão que me reservaste neste mundo, e a esperança de alcançar a paz interior, acolhendo com respeito meu irmão, sem cultivar mágoas ou ressentimentos, reconhecendo, voluntariamente, na comunhão fraterna a paternidade amorosa de Deus.   
 Everaldo Lopes


[1] Modo de ser peculiar do homem.
[2] O Criador não pode afastar-se de sua criatura porque esta não tem a força da subsistência e sem Ele deixaria de existir.
[3] Consciência reflexiva, pensamento, sentimento e vontade.
[4] Conceito epistemológico definido por Deleuse; a passagem contínua e imperceptível entre duas realidades.  
[5] Grande místico católico.