domingo, 24 de agosto de 2014

O neto curioso

As crianças brincavam no Parque sob o olhar atento dos pais e cuidadores. O corre-corre alegre da meninada contrastava com a disciplina dos adultos que caminhavam ou corriam para manter boa forma física e mental. Um homem idoso de aspecto saudável sentado num banco à margem da “pista de Cooper” interrompera por um instante a leitura que fazia. Tinha sobre a perna cruzada um livro entreaberto com o dedo indicador de uma das mãos marcando a última página lida. Olhando as árvores do Parque agora crescidas e frondosas que ele vira plantar há muitos anos, acudiram-lhe outras recordações. Absorto, entretinha-se com antigas lembranças quando um neto que fazia sua corrida habitual deteve-se beijou o avô na careca, cumprimentando-o, e sentou-se ao seu lado. Encorajado pela intimidade respeitosa característica da relação entre os dois, o jovem perguntou.
- Vô, sempre que o vejo nessa postura meditativa fico pensando nos assuntos que alimentam suas reflexões. Conhecendo-o como conheço não consigo imaginá-lo vazio de pensamentos nesses instantes de aparente alheamento.
-Meu neto. Fico feliz por despertar sua atenção.  Agradeço a Deus   haver-me conservado a lucidez necessária para satisfazer sua curiosidade e falar da minha experiência pessoal. Em verdade, avesso a lamentações eu prefiro viver minha precariedade existencial sem enganações. E para entender cada vez mais profundamente minha realidade mais íntima,  medito a natureza espiritual da consciência reflexiva, a liberdade e a responsabilidade que caracterizam a condição humana. Temas inesgotáveis de implicações fascinantes que esbarram nos limites da nossa temporalidade.
-Vô, você não acha doloroso insistir em refletir acerca da  angústia inerente à consciência da finitude? Não seria preferível fugir um pouco dessa ansiedade embaraçosa?
-Meu querido neto. Você tem razão, em parte. É bom que uma vez ou outra a gente se dê a oportunidade de um recreio espiritual. Mas o distanciamento da fonte principal de nossa ansiedade não ajuda a responder aos questionamentos impostos pela condição humana; embora essa distração tenha seu momento, a  intervalos, como um merecido repouso da mente cansada de pensar o mistério do mundo e da consciência.
            -Vô. Nessa perspectiva como você sente a velhice?
-Sinto-a como um declínio progressivo da possibilidade de experimentar os prazeres da juventude. Acho impossível adocicar o envelhecimento. A aceitação é a única forma de vivê-lo sem mistificações. Mas aceitar as próprias limitações com naturalidade e criatividade não é algo que a gente possa impor-se. Demanda mais do que autoconhecimento, disciplina emocional e uma leitura filosófica da realidade. Exige humildade para lidar com as perdas que acumulamos durante os anos vividos. A ruína do vigor físico e a redução ou supressão dos prazeres da cama e da mesa são alguns dos sinais indeléveis do declínio biológico. Todavia avalio esse processo na sua justa medida como um conjunto de eventos regressivos inevitáveis. Reconheço-os, dimensiono-os e os enfrento com os recursos interiores de que disponho. Imponho-me assistir ao meu próprio envelhecimento sem me deixar abater pelas  limitações da idade, e sem negá-las tão pouco. Procuro encarar cada novo dia como o primeiro dos que ainda  hei de viver, e não como o último dos que já vivi.  Mas não posso deixar de sentir a  melancolia de um fim de festa; preciso ficar alerta para não deixar este sentimento minar minha disposição de ir além.
-Vô. Vejo que envelhecer é um processo que exige compreensão profunda da realidade humana e grande determinação! Você faz muito esforço para levar adiante sua proposta?
-Meu neto. Não é fácil encarar com naturalidade a expectativa do fim previsível da jornada histórica pessoal. É desoladora a dificuldade de preencher o vazio de emoções e interesses absorventes que se amplia com a idade. A consciência da precariedade  temporal do ser biológico tem início muito cedo, torna-se cada vez mais desafiadora com o passar dos anos, e depois da oitava década de vida, por motivos óbvios, faz-se ameaçadora. A vivência acompanhante da expectativa de um futuro cujo limite está cada vez mais próximo é incômoda. As cogitações metafísicas que teorizam um destino transcendental para o homem amenizam a inquietação provocada pelo sentimento de finitude que constrange a existência, mas não suprime a angústia. Todavia, essa transcendência cogitada (necessariamente unificadora) é o desfecho mais compatível com o Universo totalmente integrado no qual tudo tem a ver com tudo e a morte é a transição da vida para a “vida”, uma vez que a criatura e o Criador são inseparáveis[1]. Comparo o tempo histórico em que as criaturas se movem a uma bolha no seio da eternidade que finalmente a absorve.
-Vô. Foi bom ouvi-lo tratar a questão por esse ângulo. O que você acaba de me dizer implica em admitir um absoluto. Diante desta implicação certamente a fé religiosa é o recurso mais poderoso para apaziguar a angústia da finitude vivenciada. Mas percebo em alguns textos postados no seu blog que para você as especulações metafísicas têm sido um suporte eficaz na construção de sua visão mística do mundo e da consciência!
-Correto. Todavia devo confessar que a experiência mística do amor à verdade que  abraça sem questionar o absoluto em cuja unidade (Deus) se desfazem todas as contradições é o melhor caminho para viver a esperança de vida plena. A pura especulação metafísica conquanto dê suporte a uma expectativa animadora não integra emocionalmente o pensador num todo significativo. Contando apenas com a abordagem filosófica algum esforço pessoal é sempre necessário para sobreviver com dignidade às perdas inerentes à idade, e à consciência da finitude. Seguramente, a “fé  ingênua”[2] é o que mais ajuda no combate à angústia existencial decorrente da vivência de ser perecível. Mas nas horas de crise, muitos dos que não possuímos a robustez da fé ingênua nos apoiamos em especulações metafísicas para dar suporte a aspirações transcendentais (fé crítica).
           
-Vô, você não imagina como sua postura diante da vida me inspira e tranquiliza. Ela me dá a certeza de que por pior que seja envelhecer ainda pode ser uma experiência excitante. Confirma que a existência é uma luta heroica que avalia a inteligência, a criatividade e o valor moral de cada um de nós.
            -Fico feliz de poder contribuir para que você pense assim. No processo de envelhecimento é preciso assumir atitudes muito firmes para superar as dificuldades que sobrevêm com a idade. No vir a ser do idoso restringem-se progressivamente a independência e a produtividade o que o expõe a crises existenciais que podem evoluir para a depressão psíquica ao lhe faltar a capacidade de aceitar as mudanças restritivas. Sem flexibilidade intelectual e afetiva para assumir os percalços do envelhecimento, o idoso percebe a realidade deficitária da velhice como uma tristeza rebelde que faz contraponto com reminiscências românticas perdidas no passado, e revolta-se. Falta-lhe a humildade necessária para assimilar sem constrangimento a dependência progressiva a que leva o envelhecimento, enquanto continua aceso o desejo de viver. É compreensível que o velho não deseje a morte, mas a verdade é que ela se torna cada vez menos mortal para os seus sonhos que estão fenecendo, ou já morreram. Obviamente, viver mais é um anseio espontâneo, o tempo todo ameaçado pela finitude biológica geneticamente programada.
            -Vô. Entendo que sua visão da velhice não oferece alternativa concreta de plenitude existencial aqui na Terra, mas não é pessimista. É uma postura comedida que associa o bom senso ao enfrentamento objetivo da realidade inerente ao “envelhecer”!
-Você é perspicaz meu rapaz. Não preciso enfatizar que para o idoso tudo se torna mais complicado. O equilíbrio biológico é mais delicado e a sensação de estar sadio nunca é completa; o equilíbrio psicológico diante dessa fragilidade é um desafio. Mas o Criador não nos propõe problemas que não possamos resolver, senão com ações, pelo menos com atitudes. Resumindo: o idoso lúcido que conserva intactas as funções psíquicas superiores sente que no plano biológico a vida útil tem um prazo de validade, e constata que o seu já expirou, mas não perde a esperança de aproveitar as virtudes e os talentos remanescentes para arrematar sua existência com dignidade.
    Everaldo Lopes




[1] A criatura não tem a força da subsistência; para existir precisa manter-se unida ao absoluto criador.
[2] De quem nega, preliminarmente, qualquer dúvida quanto à existência de um Absoluto criador; diferente da “fé crítica” de  quem analisa a dúvida inerente à crença no objeto de fé e encontra na realidade evolutiva do mundo e do homem argumentos racionais para refutá-la (a dúvida).

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Reflexão sobre a condição humana

Do 12º andar no edifício residencial onde moro olho o entorno. em baixo a cidade se espalha exibindo o contraste entre as casas antigas com telhados marcados pelo tempo, e os arranha-céus que se elevam salpicando o desenho das ruas com as marcas da modernidade. Na via  pública movimentada,  destaca-se o colorido dos veículos que cruzam céleres em todas as direções. Vagueando o olhar sobre a paisagem familiar meu espírito flutua sem propósito definido; enquanto no fundo da mente inquisitiva carente de certezas oculta-se o desejo de mergulhar no mistério do mundo e dos homens. Ao pôr do Sol as janelas das casas e dos edifícios multiplicam-se em  pontos de luz. Ponho-me a pensar... dentro, milhares de seres como eu sentem a vida fluindo através das suas existências singulares... Para onde? Cada um tem um perfil próprio, mas os objetos de suas preocupações são os mesmos: a sobrevivência, o sexo, o poder, a necessidade de comunicação, tudo isso associado ao anseio de dar sentido à “existência” pessoal e ser feliz. Para a maioria das pessoas esse anelo está embutido e se cumpre numa rotina cultural monótona repetitiva, mas para muitas outras está inserido e se resolve numa missão plena de entusiasmo e envolvimento criativo. Cada uma demonstra humor peculiar de acordo com a tendência individual para a alegria, a esperança, a tristeza, ou o pessimismo. Assim vamos todos caminhando em busca da realização pessoal.
Existir por existir é um destino pobre demais para o esforço da Evolução que em bilhões de anos perseguiu a organização complexa da matéria primitiva, e a partir do caos original desembocou na vida, tornando possível afinal a manifestação da consciência reflexiva e do livre arbítrio. A ordem que permeia o movimento evolucionário sugere que nesse processo se contém um propósito transcendental que vai muito além  do devir aleatório. Não foi à toa que a consciência reflexiva e a liberdade desabrocharam na condição humana. A Evolução atingira a máxima complexidade biológica do indivíduo e teria agora que voltar-se para a perfeição da convivência social entre os homens. Tarefa que caberia a estes realizar contribuindo para a própria Evolução. Entre os animais que povoam a Terra há outras espécies sociais cuja organização depende de um determinismo instintivo. Mas entre os homens esta organização  teria de ser conquistada de forma livre e criativa mediante a prática de um esquema político e econômico capaz de dar sustentabilidade à vida social, salvaguardando a liberdade dos indivíduos. A organização da coletividade humana composta de seres racionais, livres, autocentrados, emocionais e voluntariosos implica necessariamente numa interação dialogal. A integração social resultante se fará portanto não mais em função de comportamentos instintivos, porém através de escolhas inerentes a decisões livres e responsáveis.  Isso envolve toda uma elaboração comportamental calcada em valores éticos, indispensável à preservação da espécie. A humanidade não terá futuro em longo prazo sem a livre determinação de todos os homens de cooperar e partilhar entre si as riquezas naturais e as resultantes do trabalho coletivo. Nesse sentido cada homem terá de vencer o próprio egoísmo para alcançar o destino grandioso representado pela participação na comunidade humana alicerçada nas relações solidárias autênticas com seus semelhantes. Esse projeto aparentemente utópico está implícito na  ordem surpreendente do  processo evolutivo desde a matéria primitiva caótica até a vida consciente, que sugere uma intenção misteriosa transcendental presente na realidade temporal. Na experiência mística[1] que se apoia na fé incondicional o homem assume existencialmente o reconhecimento desta presença. De qualquer forma reconhecendo-a  ou não terá que subjugar o egoísmo ao poder criativo do amor para garantir a harmonia comunitária.  Todavia, a fé e o amor são dons que não se deixam manipular mediante uma pedagogia convencional. Quando estas virtudes não se manifestam espontaneamente, praticá-las exige uma ascese espiritual prolongada e difícil. Fundamentalmente, o exercício prático que  leva à efetiva realização da virtude moral implica o esforço pessoal no sentido da libertação do atavismo animal cujo ranço impregna de egoísmo o comportamento humano. É preciso sair do casulo do egoísmo para poder realizar integralmente o ideal humanístico. Com essa visão da condição humana contemplo minha realidade psicossocial  e a dos coirmãos, todos nós desafiados a cumprir importante missão na Evolução. E descortino os equívocos da família humana caracterizados pelo imediatismo absorvente. Fascinados pela posse de bens materiais e domínio do poder político os homens se iludem, deixando-se envolver numa aura de esperteza ingênua.
Não contamos com certezas absolutas!!! Todos os homens acabam defrontando o mistério da consciência e do mundo. A razão por si só não nos dá as respostas de que carecemos.  Para alcança-las de alguma forma precisamos ser susceptíveis a um movimento interior que envolve e ultrapassa a razão, o sentimento, a vontade e encontra sua maior expressão na experiência mística. Nesta experiência o homem vivencia a unidade do Dinamismo absoluto eternamente criativo (Deus), e tem acesso a toda verdade, beleza, paz e felicidade a que pode aspirar. Os que realizaram plenamente essa vivência[2] alcançaram o alvo supremo da Evolução, que o Poeta declama na originalidade dos seus versos lembrando aos homens  “Que o sentido da vida e o seu arcano / É a imensa aspiração de ser divino, /  No supremo prazer de ser humano”. [3]
Everaldo Lopes


[1] Vivência  de união perfeita com Deus (o absoluto), que não raro se acompanha de manifestações psíquicas.
[2] Os místicos que experimentaram a” noite dos sentidos” descrita por São João da Cruz, e muitos outros dos quais existe registro histórico.
[3] Raul de Leoni em “Ode a um Poeta morto”.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

O vir a ser consciente e a fé

         O vir a ser consciente implica na responsabilidade de fazer escolhas éticas. Por sua contingência o homem é refém de incertezas e no momento de agir é frequentemente assediado por dúvidas inquietantes. Daí a importância de dispor de critérios confiáveis para as decisões pessoais. A necessidade de ser coerente no exercício da “condição humana”[1] leva o indivíduo a filosofar sobre o que é a verdade, sobre a consciência reflexiva e a liberdade, sobre os valores éticos e a justiça. Assim espera conhecer-se melhor, bem como a sua circunstância para proceder de forma esclarecida, objetivando uma existência rica de sentido.  Contudo o conhecimento, apenas, não o liberta da perplexidade, para vencer a ansiedade decorrente das dúvidas  de um devir incerto precisa estar empolgado por uma experiência emocional profunda de total credibilidade no seu critério de  escolha. Nesse ponto é oportuno lembrar o pensamento de Kierkegaard. Vivendo o drama da angústia humana ele propôs a evolução existencial do nível ético para o nível ético-religioso que demanda, pela fé, a presença no homem do “absoluto transcendental” sob a forma de um alter ego que garanta  definitivamente o marco  ético da escolha pessoal.
Para moldar o comportamento por um valor assumido responsavelmente é fundamental que o indivíduo possua autoconhecimento  e controle emocional. Intelectual e emocionalmente preparado, o homem torna-se mais apto a construir uma sociedade solidária, lutando na sua intimidade psíquica afetiva e no convívio social contra as imposturas que ameaçam a edificação do projeto comunitário. Projeto que é o objetivo central da maturidade humana, identificando-se com a solidariedade coletiva. Nesta luta o grande problema do homem é a sua própria educação e a das pessoas ao seu redor, no sentido de evitar os desacertos que perturbam a harmonia da vida em sociedade. Nem sempre as pessoas estão conscientes do mal que podem promover contra a organização e estabilidade da comunidade humana! Em muitos casos os deslizes comportamentais são estratégias de sobrevivência ingenuamente construídas, ou condicionamentos culturais que moldam o comportamento humano sem pedir licença. A intervenção corretiva dos comportamentos ingênuos inadequados e das condutas falazes culturalmente condicionadas  pressupõe a crença na capacidade das pessoas implicadas, em reconhecer e corrigir as falhas comportamentais em que incorrem. Não existe uma pedagogia totalmente eficaz para induzir as pessoas às mudanças de conduta que se fazem necessárias. Dessa forma, a intervenção corretiva dos comportamentos distorcidos não garante sempre os resultados desejados. Todavia não se deve perder a oportunidade de insinuar mediante o exemplo e um discurso coerente a responsabilidade existencial de todos os homens no processo evolutivo do qual fazem parte. Pode-se tentar sempre induzir as pessoas a examinarem suas vidas e compreender o papel que lhes toca diante dos percalços do convívio coletivo.  Aliás, esse é um ponto chave deste processo evolutivo. Junto com a alfabetização já se deve fazer um esforço pedagógico para incutir na criança o sentimento de ser parte de um todo coletivo maior do que seu mundinho individual, inserindo-a numa visão integrada da sociedade em que vive. Afinal, o futuro da humanidade depende do sucesso na educação das crianças. Educar não é apenas ensinar a ler e escrever, mas, principalmente despertar nos educandos a responsabilidade que lhes toca de contribuir inteligente e responsavelmente para a construção de um mundo em que prevaleça a verdade e a justiça, suprimindo as desigualdades injustas. Tudo isso vem junto com o amor que deve prevalecer entre as pessoas no lar, na escola, no trabalho e na sociedade. Mas, sendo o amor um dom, não se pode impô-lo; pode-se estimular, porém, o convívio coletivo ético responsável, o que já é meio caminho andado.
             Não se pode materializar a origem do Universo e a essência da consciência reflexiva, da razão, da afetividade e da vontade. De como tudo começou, e da substância dos atributos psicossociais altamente desenvolvidas no homem não podemos ter certeza racional. A análise  profunda da polaridade consciência-mundo desemboca sempre em especulações que escapam a qualquer tentativa de objetivação. Em verdade, através de uma abordagem estritamente racional não se pode afirmar ou negar  com certeza a intervenção de um absoluto criador. Embora se possa aventar a hipótese de um Dinamismo Absoluto Eternamente Criativo para justificar a existência do mundo e de nós mesmos. Essa ideia tem respaldo em especulações sobre a evolução da matéria desde o big bang até a vida consciente. Afinal, a ordem impressa nesse processo evolutivo pressupõe uma intenção e só há intenção na esfera da consciência. O que faz supor uma consciência universal. Estas especulações implicam numa integração misteriosa da transcendência e da contingência no universo, que se manifesta na consciência reflexiva sinalizando uma realidade transtemporal cuja afirmação implica num ato de fé.  Na experiência mística esta realidade identifica-se com a vivência do amor divino que arrebata o ser consciente por um sentimento de paz infinita. Mas para usufruir plenamente os benefícios desta experiência não basta aceitar intelectualmente uma cosmovisão espiritualista. É necessário vivenciar uma relação absoluta com o absoluto (abstração inefável) que realiza subjetivamente a intimidade do homem com Deus. E para tanto é preciso incorporar existencialmente as virtudes teologais[2] que excedem a mera determinação ética, e a humildade talhada numa formalidade ritual disciplinada. É preciso sentir estas virtudes como emanação do “ser pessoal”. É abismal a experiência psicossocial implícita na prática destas virtudes! Tomando o amor caridade como paradigma, para vislumbrar sua grandiosidade basta ler a segunda carta de Paulo aos Coríntios[3]. Confesso que fico tonto só de pensar a altitude existencial a que preciso alçar-me para viver caridosamente! Equivoca-se o beato que pratica o ritual místico, apenas formalmente, sem realizar a “experiência numinosa”[4] implícita na relação absoluta com o absoluto. O comportamento místico não é uma panaceia à qual se recorre para espantar o medo de morrer. Requer uma profissão de fé. A “firme opinião de que algo é verdade, sem qualquer tipo de prova ou critério objetivo de verificação”  resulta de uma experiência psíquica afetiva profunda que tem mais a ver com o amor e a coragem de ser do que com o medo!  E só esta experiência anula a angústia da “existência”. De outra forma a consciência reflexiva arrisca-se afundar no dilaceramento das contradições existenciais. Resumindo, a plenitude existencial exige a fé em um  Deus criador e misericordioso, absoluto que ultrapassa os limites do conhecimento estritamente racional como um absurdo lógico (conceitual) necessário, porém, para fechar a gestalt da existência ou vir a ser consciente. Na verdade pode-se conviver com o absurdo lógico, mas o absurdo existencial representado pela vivência de contradições insolúveis é desagregador da unidade pessoal porque implica em vivenciar a própria consciência irremediavelmente dilacerada pelas dicotomias[5] da “existência”. Tendo em vista banir o absurdo existencial é preciso assimilar pela fé o absurdo lógico para fechar a gestalt da existência pessoal. Todavia não controlamos a vivência de fé inabalável que não deixa espaço para a dúvida e nos coloca no seio de uma transcendência absoluta. Eis o impasse que é preciso superar para salvar a integridade existencial.  Sem o respaldo de um referencial absoluto os valores éticos não passam de atribuições humanas falíveis. Mesmo ao testemunhar a “palavra revelada”, sem a experiência mística (de fé) o homem continua sendo o sustentáculo da verdade absoluta, o que é um contrassenso porque limitado pela contingência histórica não poderia ser um referencial absoluto para suas afirmações. Por isso  Miguel de Unamuno afirmava: “Ter fé não é crer no que não se vê, mas criar o que não se vê”.  E como toda criação original, a fé tem raízes numa intuição ou revelação significativa veiculada pelos símbolos que transitam no pré-consciente. O que nos remete à  religiosidade inconsciente do homem, estudada por Viktor Frankl como reflexo da divindade na intimidade subjetiva.
 Everaldo Lopes               



[1] Capacidade de ser consciente reflexivo, racional, afetivo e volitivo.
[2] Fé, Esperança e Caridade (Amor).
[3] Entre outras afirmações destaco esta: “E ainda que eu distribuísse todos os meus bens entre os pobres, e ainda que eu entregasse meu próprio corpo à cremação se não tivesse caridade nada disso me aproveitaria.”
[4] Segundo Rudolf Otto (1869-1927)  teólogo e filósofo alemão, o sentimento único vivido na experiência religiosa, “a experiência do sagrado, em que se confundem a fascinação, o terror e o aniquilamento. Dic. Aurélio Sec. XXI
[5] Nascer sem pedir e saber que vai  morrer sem querer; aspirar a tudo poder e saber que reterá apenas uma pequena parcela de poder; desejar  tudo conhecer e saber que terá acesso a um conhecimento limitado.

domingo, 29 de junho de 2014

Congruência pessoal e comportamento democrático

Nos dois textos antecedentes discorremos sobre a frustração do ideal democrático e a cidadania ameaçada. Em ambos evidenciam-se comportamentos pessoais e institucionais que deformam o exercício da democracia. Mas o elemento dinâmico desta deformação é sempre o indivíduo, mediante atitudes e ações prejudiciais à convivência social harmoniosa e respeitosa. É inquestionável que a sabedoria das escolhas individuais depende do nível de coerência de cada um ao operacionalizar a razão, a afetividade e a vontade à luz  da consciência reflexiva e dos valores éticos inspirados na Verdade e na Justiça. Essa performance pessoal espelha o exercício virtuoso dos atributos da condição humana[1] no convívio social. A integridade moral dos  cidadãos é que assegura o caráter ético dos desdobramentos econômicos e políticos das  relações sociais.
Idealmente, a construção da comunidade humana fundamenta-se no envolvimento interpessoal centrado no respeito mútuo, solidário, entre todos os homens. Essa unanimidade não é a norma, porém em virtude da perfectibilidade humana a solidariedade vai se difundindo mediante o apelo do princípio ético universal implícito no exercício responsável da consciência reflexiva.  
A democracia é a doutrina política mais compatível com a realização plena da comunidade humana. A prática democrática torna possível a convivência harmoniosa livre e solidária de todos os cidadãos, respeitada a facticidade[2] de cada um. Essas considerações levam naturalmente à conclusão de que a prática  política democrática exige do candidato à função pública o compromisso de respeitar a Verdade e a Justiça ao exercer o poder que lhe é conferido pelo povo. E a credibilidade do candidato é delimitada pela autenticidade e competência de sua proposta de crescimento econômico compatível com o desenvolvimento humano. Lamentavelmente a profissionalização do político  e o fisiologismo partidário deturpam a prática do ideal democrático, envergonhando o eleitor e desdenhando da sua capacidade crítica.
É fundamental para a construção de uma democracia participativa a harmonia interior dos cidadãos na prática solidária do respeito ao outro que por sua vez é consequência do autorrespeito dos indivíduos interagentes. Esse fundamento depende mais do esforço pessoal na elaboração de comportamentos fiéis aos valores éticos universais  do que da forma oficial de governo. São as pessoas que assumem a doutrina  política, e não o contrário. Numa democracia o estado de direito assegura a disciplina das manifestações individuais e oferece condições para o comportamento solidário. Mas é pela conduta livre exemplar dos indivíduos que se constrói uma verdadeira democracia.
É oportuno lembrar que a crítica aos comportamentos individualistas ambiciosos que distorcem as relações sociais, econômicas e políticas não sinaliza necessariamente a má fé dos infratores, mas tão pouco a excluí. Em sendo estes  comportamentos o resultado de um condicionamento desenvolvido desde a mais tenra idade, a conduta individualista ambiciosa se instala muito antes de o indivíduo ser capaz de decidir livre e criteriosamente pelo comportamento ético solidário.  Depois de sedimentada, essa distorção comportamental ganha vida própria e passa a dominar mental e emocionalmente os indivíduos nas suas relações sociais. Daí a dificuldade de uma mudança de conduta que contrarie a orientação cultural vigente. Impõe-se  então a sensibilização das pessoas a novos valores, associada à determinação de cada uma no sentido da assimilação de uma ordem social e  econômica mais justa e solidária. Essa superação implica numa profunda transformação da maneira de entender o papel da consciência no mundo, que resulta na valorização do “ser” em vez do “ter”.   
Uma análise objetiva, desapaixonada, revela que o indivíduo envolvido na distorção capitalista (valorização do ter) alimenta a crença de que o comportamento alternativo da conduta exclusivista vigente representa um risco para a sociedade organizada. Bloqueado por esta crença infundada, para o homem comum influenciado pela cultura capitalista a solidariedade extensiva a todos os homens é incompatível com uma realidade social e econômica sustentável; e no âmbito dessa visão estreita do problema humano social, na prática, as ações solidárias assumem o caráter de uma esmola, sem repercussão estrutural na sociedade. Aí emperra o processo evolutivo. Só a partir de uma verdadeira libertação da conduta individualista ambiciosa é possível construir o comportamento democrático autêntico, solidário, mediante o exercício livre e responsável da consciência reflexiva. Quanto mais estruturados são os condicionamentos geradores do comportamento exclusivista  maior é o obstáculo oposto à substituição da “competição selvagem” e do “acúmulo de bens materiais”, respectivamente, pela “cooperação” e pela “partilha”.  Todavia, liberto do condicionamento ambicioso o individuo será capaz de exercer coerentemente os atributos da condição  humana capacitando-se a fazer escolhas e tomar decisões livres, corretas, compatíveis com o comportamento comunitário.  É necessário apostar na capacidade de o homem libertar-se da inclinação congênita e dos condicionamentos culturais individualistas ambiciosos. De outro modo fica comprometida a sobrevivência da espécie humana. Dito assim essa afirmação parece despropositada, mas ela encontra apoio numa análise profunda da realidade evolutiva do homem.
Concluindo, é evidente a importância da congruência pessoal no desenvolvimento da Democracia plena. Ao mesmo tempo sabemos todos que as mudanças interiores necessárias para o exercício coerente da condição humana não se impõem pela força, mas pelo convencimento. A História dá testemunho do fracasso das tentativas violentas de mudança do paradigma comportamental que se nutre da ambição humana e fomenta a exploração econômica no seio da sociedade. A revolução que redime o homem do equívoco individualista ambicioso se dá no íntimo de cada um e é indispensável na realização do ideal comunitário, esperança de salvação da humanidade. Em verdade, estamos todos no mesmo barco; ou nos salvamos todos ou não se salva ninguém. Para alcançar o ideal comunitário a prática democrática conta com a liberdade individual e a determinação de respeitar os limites da cidadania comum a todos os homens, o que pressupõe a congruência pessoal inerente ao exercício responsável da consciência reflexiva.    Everaldo Lopes           


[1] Capacidade de exercitar consciente e responsavelmente a razão, a afetividade e a vontade.
[2] Facticidade- Caráter próprio da condição humana pelo qual cada homem se encontra sempre já comprometido com uma situação não escolhida.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Cidadania ameaçada

Ao som do Hino Nacional milhões de brasileiros sentem um arrepio de patriótica emoção. Eles amam o seu torrão natal e se entusiasmam com as conquistas da pátria amada. Otimistas, trabalham com afinco para garantir o sustento seu e da sua família. São pacíficos, mas lamentam a dificuldade para matricular o filho na Escola Pública,  e revoltam-se ao ouvir a queixa da esposa de haver esperado horas na fila do SUS para um atendimento especializado. Ganham pouco, mas, apesar de tudo isso, não abandonam os seus princípios  de honradez e solidariedade. Esses brasileiros fiéis são exemplos de paciência cívica na tentativa persistente de praticar a cidadania apesar das dificuldades circunstanciais. Periodicamente votam nos candidatos que lhes parecem mais honestos e competentes. Na verdade, tudo que sabem sobre eles é o que a mídia deixa passar, pró ou contra os postulantes aos cargos eletivos. E, lamentavelmente, a malha desse filtro de informações é determinada mais por interesses corporativos do que pelo compromisso com a verdade. A propaganda eleitoral assessorada por marqueteiros regiamente pagos apresenta os candidatos como exemplos de competência e espírito público. Depois os eleitores constatam que estes candidatos após a vitória nas urnas esquecem as promessas de campanha. Uma vez eleitos e empossados eles protagonizam comportamentos autopromocionais na expectativa de se reelegerem no próximo pleito. Esses falsos homens públicos subestimam a inteligência do eleitor e confiam na memória curta da massa votante. Não raro acertam, e quatro anos depois tudo se repete do mesmo jeito: as promessas de palanque, o esquecimento dos compromissos de campanha, e a decepção do eleitor, logo esquecida, mais uma vez. Estes brasileiros fiéis que teimam em esperar por melhores dias voltam às urnas com renovada esperança, malgrado os maus tratos a que os sujeitaram as administrações incompetentes e perdulárias dos mesmos candidatos que ajudaram a eleger no passado e se apresentam agora para novo mandato. Embora fiel ao protocolo democrático esse comportamento do eleitor revela certa ingenuidade, mas também a falta de garra ou de meios para fiscalizar e exigir conduta exemplar dos gestores públicos.  Aliás, atualmente a prática democrática em nosso país está sendo desmoralizada pelo próprio governo  através da compra escamoteada de votos mediante a concessão de “bolsas” distribuídas entre as pessoas economicamente marginalizadas. Procedimento legítimo que perde seu poder transformador quando não exige nem fiscaliza a contrapartida necessária para assegurar a eficácia do benefício na promoção do desenvolvimento humano do beneficiário. Essas bolsas passam, então, a atender fins puramente eleitoreiros. Não educam, apenas ajudam a reeleger os que reivindicam a paternidade dessa pequena ajuda financeira. Momentaneamente, a injeção na economia de bilhões de reais através da concessão das “bolsas” dá lugar à falsa impressão de crescimento econômico, pela ampliação do mercado consumidor. Mas esse aumento de consumo não representa real crescimento econômico. O Governo não consegue segurar por muito tempo a grande mentira, enquanto a incompetência de sua gestão envolvida em escândalos de corrupção o distancia mais ainda dos interesses do povo.  De repente, esguicham por todos os canais de comunicação de massa, notícias lamentáveis de toda espécie de irregularidades dentro e fora do governo. Atônitos, os brasileiros bem intencionados que sonham com um Brasil  desenvolvido são sacudidos por avalanche de notícias deploráveis sobre a real situação do país, muito aquém da que o governo anuncia. Já não é possível esconder a corrupção que se alastra, sorrateira ou explicitamente, em todos os escalões dos poderes constituídos. A mesma corrupção denunciada em campanha eleitoral pelos que fazem o Governo atual, e que não estancou depois da investidura no poder dos supostos arautos de uma “nova ordem.” Ao invés da renovação anunciada, as instituições ditas democráticas continuam se deteriorando, corroídas pelas mentiras embutidas em manobras escusas envolvendo executivos e legisladores. Aqueles brasileiros esclarecidos que não se deixam comprar com benesses ficam perplexos ante o dever cívico de escolher nas urnas homens públicos responsáveis. É evidente a inconsistência ideológica dos partidos e a falta de líderes autênticos identificados com um projeto nacional de desenvolvimento. Esse panorama não dá lugar à expectativa de mudanças salutares do quadro político atual. E é preocupante vislumbrar o caos ao qual o país está sendo levado pelos vivaldinos de plantão que são muitos, despudorados e cheios de ardis. Impõe-se dar corpo ao protesto do povo usurpado em seus direitos, mediante uma campanha nacional que acelere o amadurecimento político da nação brasileira. Porém todos sabemos que esta maturação não acontece de repente, depende da conjugação de muitos fatores. É um processo longo que demanda educação continuada desde a família, passando pela escola com o respaldo da sociedade organizada. Faz parte deste processo o expurgo efetivo dos candidatos de ficha suja, vedando o registro dos seus nomes para a concorrência eleitoral, além da punição severa pelos atos de corrupção já praticados. Paralelamente, os brasileiros esclarecidos imbuídos do ideal democrático deverão sair da sombra do anonimato, expondo-se à ocupação dos espaços que se abrirem na administração pública. Isso exige conhecimento, coragem e determinação dos democratas autênticos. Os obstáculos são enormes. A corrupção a varejo que infelicita os países pobres é sucursal da corrupção por atacado, capitaneada pelo crime contra a humanidade embutido na exploração dos países ricos sobre os povos subdesenvolvidos. Além das dificuldades internas, as nações subdesenvolvidas estão expostas às manobras de exploração das grandes corporações econômicas multinacionais, e  à dominação política internacional dos países ricos. É cruel a flagelação a que se expõem populações inteiras privadas de alimentação, abrigo, saúde, educação e emprego, enquanto crescem os privilégios desfrutados por  uma minoria! As nações pobres, economicamente manipuladas na negociação de uma dívida externa impagável são induzidas a sacrificar investimentos básicos que lhe são essenciais. Todavia, obrigam-se a fazer uma reserva financeira a fim de garantir o pagamento dos juros de uma dívida fabulosa escravizante.  
Olhando o cenário internacional cada vez mais sobressai a certeza de que a persistir a política econômica vigente, inspirada na competição aética, o agravamento da má distribuição de renda e de condições de vida, levará a  humanidade a um caos social vizinho da barbárie. O que representa em longo prazo uma ameaça à sobrevivência da espécie humana. Oxalá as nações ricas e pobres se compenetrem de que a política econômica global inspirada nos paradigmas capitalistas é suicida. É necessário deter a ganância desavergonhada dos donos do capital. Se a fúria do ágio não for contida,  os excluídos famintos e ignorantes hão de desenvolver reação irracional que porá em perigo tudo que a humanidade construiu até o momento. Por menos exequível que pareça reverter o processo socioeconômico que está sufocando a humanidade, é preciso dizer “não” à competição aética substituindo-a pela cooperação inteligente; é preciso dizer “não” ao acúmulo injusto de riqueza nas mãos de poucos, em prol da partilha equânime dos bens da Terra entre todos os homens. É possível conter a agressividade do ágio sem prejudicar o progresso científico e tecnológico. Também nessa área a cooperação é mais enriquecedora do que a competição exclusivista.
Toda turbulência econômica, social, política e existencial reflete a dificuldade humana de ser cooperativo e veraz por escolha e decisão pessoais no exercício da consciência livre e responsável.
 Na medida em que somos todos responsáveis no processo de humanização, a grande revolução cultural em favor da justiça social e da solidariedade indispensáveis à sobrevivência da espécie demanda a participação inteligente, efetiva e ética de cada um de nós, consolidando o comportamento cidadão.           

  Everaldo Lopes 

sábado, 31 de maio de 2014

Frustração do ideal democrático

A prática democrática sem o apoio da cidadania plena leva ao poder pessoas sem espírito público, incompetentes e inescrupulosas. Generalizando, podemos dizer serem poucos os políticos profissionais que escapam, no mínimo, ao rótulo de burocratas muito bem pagos pela república, que no exercício dos mandatos fazem mais política eleitoreira do que trabalham para o Estado e, consequentemente, para o povo. Lamentavelmente a maioria deles deixa em segundo plano os interesses da coletividade e, pior, alguns se envolvem em escândalos de corrupção. No fim o povo continua sem saúde, sem educação, sem segurança, sem transporte coletivo além de empobrecido, enquanto os vivaldinos enchem os bolsos com proventos, jetons polpudos e outras vantagens pecuniárias oficiais e extraoficiais. Esse quadro já é por demais conhecido, e suscita uma discussão sobre a possibilidade e o valor do voto consciente e responsável. Os eleitores despreparados, que são maioria, não avaliam o candidato aos cargos eletivos do governo por seu quilate moral e amor à causa pública. Por outro lado a falta de candidatos ilibados (utopia?) não oferece alternativa ao eleitor esclarecido que acaba votando dentre os que disputam a preferência nas urnas os supostamente melhores, embora saiba que eles não preenchem os requisitos de um servidor público exemplar.  Assim, os  eleitos com o voto popular nem sempre reúnem as condições morais e técnicas desejáveis!  Um agravante é que  o eleitor consciente se ressente da falta de credibilidade das informações sobre a vida e personalidade dos que pleiteiam cargos eletivos. Os debates públicos televisionados podem revelar o conhecimento dos candidatos em relação aos problemas que afligem a coletividade, mas não medem a capacidade de resolvê-los, nem a disposição de fazer coincidir depois da posse a prática administrativa com o discurso pré-eleitoral. O resultado da eleição se torna ainda menos seletivo em consequência da corrupção envolvendo a compra de votos. Tudo isso arranha o ideal democrático porque todos os votos nivelados por baixo têm o mesmo peso. Assim, numa democracia todos contribuem voluntária ou involuntariamente para as distorções que maculam o regime. E o resultado desastroso também atinge todos. A má escolha contribui para os desmandos administrativos, privando o povo das melhorias que seriam possíveis contando com  os recursos orçamentários existentes. Não obstante, convenhamos, a Democracia ainda continua sendo o melhor dentre os regimes políticos conhecidos. Por isso apesar das dificuldades é imperioso que nos empenhemos em defesa do rigor das práticas democráticas. É perceptível a deformação produzida pelo Capitalismo corrompido por comportamentos aéticos. Pode-se mesmo dizer que os problemas cruciais da sociedade humana, hoje, decorrem do fato de estarmos vivendo num mundo dominado por uma economia caracterizada pela competição desenfreada e pelo acúmulo de riqueza nas mãos de uma minoria. Essa realidade que não se esconde à análise socioeconômica mais elementar gera uma herança perversa que ameaça as expectativas menos pessimistas para a humanidade, neste começo de milênio. As nações estão divididas entre as ricas, as pobres e muito pobres. As primeiras explorando desumanamente estas últimas, mas todas elas ricas e pobres deformadas pela ambição individual e de corporações privadas. Essa orientação direciona mal a elaboração e execução dos precários orçamentos dos países pobres e impede o investimento nas ações desenvolvimentistas de que carecem. Suas populações, salvo um reduzido número de privilegiados da fortuna são mal alimentadas, sem educação e sem assistência à saúde.  Um clima perfeito para as distorções do processo democrático responsáveis pela manutenção no poder dos profissionais da política mais interessados em engordar as próprias contas bancárias do que em promover políticas públicas benéficas para o povo. Estas distorções  perpetuam um ciclo vicioso de miséria física e moral. A má distribuição do bem comum nos contextos nacional e internacional resulta em boa parte das mazelas da economia capitalista comandada pelo livre mercado frequentemente aético. E reflete-se nos desníveis econômicos caracterizados por classes sociais de alta renda e de baixa ou nenhuma renda (os miseráveis). As consequências político sociais extremas dessa ordem econômica perversa influem de modo importante no desencadeamento da  violência urbana e do terrorismo internacional. Quando os oprimidos chegam ao limite de sua resistência perdem os controles conscientes e apelam para as soluções irracionais. O cidadão esclarecido vê tudo isso e pouco, ou quase nada pode fazer individualmente para reverter o processo cuja inércia só poderá ser contida por uma força social capaz de induzir os líderes mundiais e locais a reavaliar a política econômica nos níveis internacional e nacional, de tal forma que todos os povos de grandes e pequenas nações possam eliminar a pobreza e promover o desenvolvimento humano. A expectativa dessa reviravolta para melhor inclui, obviamente, a reordenação construtiva das iniciativas responsáveis dos países ricos e pobres, tendo em vista prioritariamente o desenvolvimento humano paralelo à organização de uma sociedade solidária, e não apenas o crescimento econômico. Essa reavaliação seria a base de um esforço gigantesco para a edificação da comunidade humana. Pode-se imaginar a grandiosidade dessa revolução socioeconômica. Mas, embora possa parecer bombástica a afirmação que se segue, sem esta revolução a humanidade estará ameaçada de retornar à barbárie. O desalento do observador atento vem com a constatação de que são bem mais numerosos os descomprometidos com o processo de construção da comunidade humana, por alienação ou falta de caráter. Mergulhado nessa realidade hostil o verdadeiro humanista sente-se um inocente útil aviltado pelas tramoias políticas, sociais e econômicas, carente do poder de fogo para combatê-las.
Sem dramatizar, é preciso reconhecer a dificuldade de alcançar resultados mais consistentes e mais rápidos na construção da comunidade humana através dos meios democráticos sordidamente viciados pelos exploradores da massa ignara. Nas circunstâncias atuais, a intolerância, a mentira e as cavilações são largamente praticadas nos meios sociais, político e econômico, obstruindo os canais da organização democrática da sociedade. Os cidadãos íntegros ciosos da responsabilidade social são boicotados nas suas iniciativas pelo embuste dos políticos e empresários corrompidos, e pela ignorância alienante de uma grande maioria dos que fazem a sociedade dita “organizada”.   As denuncias contra a incompetência, a politicagem e o descompromisso com a coisa pública são sepultadas pela avalanche de mentiras com que os militantes espertalhões ludibriam o povão. Todavia sei que não são poucos os que, sem condições de implementar ações socialmente construtivas fazem uma militância de atitude para manter aceso o ideal de competência, verdade e justiça no trato da coisa pública. Por isso alimento a certeza de que ainda contamos com boa reserva moral entre os cidadãos do mundo inteiro à espera, quiçá, de uma liderança política que os aglutine e de uma oportunidade efetiva de intervenção no processo social e econômico. Confio em que as mentiras, os acordos cavilosos, a corrupção um dia se envenenarão com a própria peçonha. Então, a verdade há de prevalecer, libertando a consciência responsável para exercer o seu papel na construção de um mundo novo e melhor. Quando? Não sei. Mas é preciso que cultivemos o amor à verdade e à justiça, enquanto  os vândalos da ética sócio-política e econômica estão à solta espalhando imposturas. Corro o risco de parecer ingênuo, mas alimento a expectativa de que se  não for possível mudar, já, esse processo político e socioeconômico despudorado que nos sufoca hoje, os que se mantiveram fiéis aos ideais de verdade e de justiça hão de multiplicarem-se para constituir um grupo numeroso capaz de garantir a vitória da verdade sobre a mentira, do bem sobre o mal.

Everaldo Lopes

terça-feira, 13 de maio de 2014

Da revolta à aceitação

            O ser humano é problemático. A razão e o sentimento nem  sempre estão de braços dados.  Quando há conflito, as demandas afetivas confrontam as normas éticas estabelecidas. E este confronto é fonte de inquietação. A recusa do sujeito consciente a uma proposta afetiva é opção difícil, por vezes sofrida. De  um lado ele sente que satisfazendo o coração aliviaria o fardo da sua existência; do outro sabe que o desrespeito aos valores éticos assumidos compromete a dignidade pessoal. A resposta existencial harmoniosa que atenda ao sentimento sem romper com as normas éticas depende da sensibilidade e criatividade pessoais para flexibilizar o comportamento de forma a satisfazer o sentimento com dignidade.  O caráter do indivíduo é decisivo na escolha da forma de realizar o desejo imediato de ser feliz comum a todos os homens. A escolha fundamentada em princípios puramente éticos, nem sempre corresponde a uma vivência de felicidade. A prática ética sem amor é insípida. O prêmio de consolação do comportamento ético condicionado à simples determinação da vontade é o sentimento do dever cumprido que  não  preenche todos os anseios existenciais. Todavia, agir responsavelmente sob a égide de princípios morais culturalmente sedimentados é o que se espera de todos os homens. Sem a prática responsável dos indivíduos não haveria civilização. Felizmente “.... a virtude não precisa ser triste.[1]” O amor essencialmente responsável excede a ética convencional e é fonte de alegria inesgotável; sua prática representa o mais alto nível de realização humana. Entendido como sentimento que predispõe alguém a desejar o bem de outrem fundamenta a grande máxima ética de Santo Agostinho: “Ama e faze o que quiseres”. O amor reforça os laços universais de solidariedade entre os homens, mesmo quando fere hábitos e costumes já estabelecidos. Na verdade o amor constitui um salto evolutivo revolucionário confiado ao exercício da liberdade inerente à condição humana.
A ordem universal que assegura o processo evolutivo, e a  emergência da liberdade no homem sugerem  um absoluto  que se manifesta pela comunhão incorruptível (amor) entre o ser consciente e seu alter ego transcendental (Intuição divina). Nesse contexto, Deus não seria um ser supremo isolado do mundo, mas um Dinamismo Absoluto Eternamente Criativo que perpassa todo Universo e se revela ostensivamente no vir a ser humano. O assentimento a este dinamismo transcendental que dá suporte e estrutura à própria existência traz como resultado o reconhecimento do nível ético religioso de existência[2].  Concordância que confere uma base filosófica para a postura mística consentânea com a dimensão transcendental do homem. Todas essas considerações nos remetem ao todo absoluto no qual estamos contextualizados.
O envelhecimento a doença e a morte são eventos naturais do ciclo da vida, mas constituem um desafio para o equilíbrio existencial[3]. O ser consciente transcende o puramente biológico e pensa nesses eventos antecipadamente como um risco iminente. Isso incomoda, e é preciso uma ascese bem sucedida para que o eu pensante possa imaginar esses desdobramentos da vida pessoal sem medo ou constrangimento. É ingênuo lamentar as restrições pessoais e circunstanciais que fazem parte da vida. Para o ser consciente objetivamente centrado na realidade é fundamental aceitar a inevitabilidade do envelhecimento, da doença e da morte. Para consumar, porém, esta aceitação pressupõe-se um fenômeno biopsíquico complexo difícil de definir para o qual contribuímos  conscientemente apenas com a determinação de não interrompê-lo por medo de enfrentar a realidade. A verdade é que no cadinho da subjetividade vão-se misturando experiências, conceitos, emoções e sentimentos variados inclusive a relutância em abraçar a finitude. De repente como resultado de um processo que não está sob o controle da consciência, a vivência de revolta cede lugar à disposição para aceitação mais tranquila dos limites biológicos. O beneficiário desse processo percebe, então, o despertar de uma vivência de serenidade na sua existência desamparada. Talvez haja flutuações dessa vivência daí por diante, como costuma acontecer com os fenômenos psicodinâmicos. Mas, então, já é possível lidar com o pior sem desabar. Depreende-se de tudo isso que a verdade última é uma verdade de fé, porém é mais razoável do que qualquer argumento apresentado pela razão. Levantar a questão dos limites existenciais e discuti-la sem reservas é o primeiro passo a caminho da maturidade intelectual e afetiva. O que se segue é uma transformação interior cuja paternidade não se pode ter a veleidade de assumir como iniciativa individual consciente independente de uma intervenção determinante que escapa à observação. Por isso muitos pensam dever-se esta transformação a uma graça divina que entremostra de forma obscura a unidade do Universo e da consciência na intimidade dinâmica da lógica complexa da realidade!
Racionalmente, viver confrontando a finitude é uma insensatez. Sem abraçar a transitoriedade da vida a existência vira um lixo. É estulto esperar com ansiedade o que vai acontecer se nada se pode fazer para evita-lo!  Todavia é difícil anular a angústia existencial do homem diante da fugacidade dos seus dias, antes que ocorra a transformação interior já mencionada. A persistência do desejo infantil de ser invulnerável explica porque o indivíduo se amofina ao vivenciar sua realidade finita. A superação desse conflito deve evoluir na medida em que as pessoas vão realizando de forma positiva seu movimento subjetivo de amadurecimento. Da revolta contra os limites da existência, à aceitação da finitude cada um tem sua forma peculiar de lidar com os próprios dons na conquista de uma vivência de serenidade!
Everaldo Lopes.



[1] Raul de Leoni . Último verso do segundo terceto do soneto intitulado “Cristianismo”.
[2] Kierkegaard propôs como  níveis de existência –o  estético, o ético e o ético religioso.
[3] Existência: Modo de ser peculiar do homem consciente,,reflexivo, livre e responsável.