terça-feira, 22 de outubro de 2013

Dramas da vida consciente



A consciência reflexiva coloca o homem no centro da incerteza. A existência, modo de ser consciente e responsável peculiar do homem envolve escolhas e decisões. Elaboradas a partir do confronto de cada indivíduo com sua circunstância, elas devem atender aos desejos pessoais, respeitando os valores éticos assumidos por seus atores. Este processo disciplinar não é pacífico; o comportamento moral encerra interdição de anseios, ambições e apetites que contrariam os valores eleitos. Assim se define o vir a ser pessoal que implica em contínua vigilância.  Mas nem sempre temos o conhecimento exato dos elementos da escolha que fazemos. As dúvidas são frequentes. E em função da sensibilidade moral de cada um diante de suas opções, a autoavaliação comportamental resulta em vivências de paz interior, ou de culpa e arrependimento. Nesse contexto se desenvolve a responsabilidade existencial.
Paralelamente aos conflitos éticos, o homem sabe que o seu equilíbrio biológico é instável, e está permanentemente ameaçado pela probabilidade maior ou menor de doenças e acidentes. A insegurança resultante da consciência desse fato é fonte de temores e angústias. Diante das incertezas existenciais e da precariedade biológica, é latente no subjetivismo humano a aspiração a poder amenizar a consciência aflitiva das dúvidas diante das alternativas existenciais conflitantes, e a suavizar o impacto provocado pela noção da fragilidade biológica.  O homem aspira à vivência do momento libertador de aceitação tranquila de todos os percalços derivados da sua vulnerabilidade como ser contingente, inclusive a própria finitude. Ao mesmo tempo se impõe a pergunta inquietante: seria isso possível?
            Pela consciência de sua temporalidade, o ser humano  está condenado  a viver o drama da insegurança diante da possibilidade de riscos imprevisíveis, inclusive o de morrer sem qualquer aviso prévio. Seguramente, no vir a ser incerto há uma margem variável de controle sempre limitada.  Porém, mesmo quando as dificuldades desse devir sem garantia são superadas durante toda uma vida, o homem sofre,  inevitavelmente, como qualquer ser perecível, os efeitos da corrosão do tempo. A idade  lhe vai roubando, uma após outra, as probabilidades de desfrutar as alegrias do viver apaixonado. Até mesmo os que ultrapassam a década dos oitenta com vitalidade para apaixonar-se e atuar socialmente são vistos por muitos como exemplares raros que provocam nos circunstantes, no mínimo, a emoção de quem se depara com um fenômeno incomum. É difícil evitar a comoção disfarçada do observador mais jovem ante o interlocutor envelhecido! Suficientemente crítico dos seus limites biológicos e culturais, o próprio idoso se retrai, para não se expor a paixões consideradas extemporâneas. Por outro lado é melancólico o espetáculo do longevo ingênuo que estimulado por uma observação admirativa exibe sua vitalidade decadente. Ainda ontem, numa loja de produtos naturais, presenciei o comportamento ingênuo de um homem negro idoso. A balconista certamente para ser agradável declarou sua avaliação favorável à “juventude” do cliente que, ato contínuo, anunciou vaidoso estar nos seus “85 janeiros”. Lia-se na sua afirmação o desejo de causar admiração; e de repente fez uns dois agachamentos rápidos para justificar o acerto do julgamento de que fora alvo. Era um homem do povo cujo grau de instrução não pude avaliar bem, mas seguramente não era analfabeto e, por sua indumentária me pareceu ter condição financeira para viver decentemente. Ingênuo ou crítico em relação às próprias limitações indeclináveis o homem vai elaborando como pode as incertezas e inseguranças,  de acordo com sua personalidade e seu nível intelectual.
O fato que acabo de relatar comprova que há uma tendência cultural a sustentar a autoestima alimentando a fantasia de prolongar a juventude que do ponto de vista biológico é impossível conservar indefinidamente. Essa disposição, só pode levar, mais cedo ou mais tarde a uma decepção dolorosa. Antes que as limitações físicas e intelectuais que  acometem a maioria dos que vivem muitos anos os incapacitem, algumas fantasias transitórias ainda inflam o ego de muitos dos maiores de sessenta, e os compensam, momentaneamente, do sentimento de envelhecimento irreversível. Porém uma forma mais efetiva de driblar a saudade da juventude é a projeção do idoso nos seus descendentes ou, na falta destes, nos seus discípulos. E, melhor ainda será, havendo condições, que o longevo mantenha uma atividade criativa, seja de ordem prática, intelectual ou artística. Obviamente, todo esforço empreendido, com dignidade, no sentido de elaborar a vivência depressiva induzida pela ação corrosiva do tempo representa um conjunto de atitudes e ações que convergem, contribuindo para manter elevada a autoestima. Esta convergência, idealmente, alinha as potencialidades intelectivas, intuitivas, emocionais e volitivas no sentido de alimentar o sentimento de integração pessoal num todo significativo. Afinal a existência se constrói em torno de valores, e apoiar neles o sentido de sua vida é a missão de todo homem. O fracasso desta empreitada heroica é aflitivo; de tão devastador, arrisco-me a dizer que o fato de não conseguir dar um sentido para a própria vida é uma das principais razões porque alguns homens se matam. Sentido que corresponde a um ideal transcendental, não cabe num objetivo temporal. Pelo que se sabe não há registro cientificamente comprovado da evidência de que o animal irracional ponha fim aos seus dias de vida, deliberadamente. O homem é o único animal que comete suicídio; e também o único ao qual é conferido o poder de dar um sentido à própria vida. Por isso, seja qual for sua explicação, o suicídio nunca será uma resposta ética no roteiro da Evolução da vida.
Ao homem cabe alimentar a aspiração ao ideal do perfeito equilíbrio da razão, do sentimento e da vontade, necessário à aceitação criativa dos percalços da existência. O coroamento desta aceitação é o sentimento de amoroso desapego à vida, do qual santos e heróis nos deixaram testemunhos inolvidáveis. Conquista laboriosa que tangencia a  experiência mística e se constitui numa resposta definitiva às dificuldades existenciais. Um apoio racional para esse apelo à fé numa transcendência é a especulação metafísica sobre a “ordem” impressa na evolução da matéria desde o big-bang. A constatação dessa ordem leva à conclusão da necessidade racional de admitir a preexistência de uma intenção (não há ordem sem intenção) que por sua vez demanda necessariamente a consciência universal (não há intenção sem consciência) de um plano perfeito, que se define como entidade eminentemente espiritual. Neste Blog já falamos, detalhadamente, sobre o que pensamos  a esse respeito, nos três textos  nomeados  “Devaneios  especulativos I, II e III”. A alternativa materialista seria a atitude estoica de viver os limites inevitáveis da vida, corajosa e desamparadamente, respeitando os valores universais numa postura nobre, porém muito solitária e triste.
Racionalmente, é fácil conceber a necessidade lógica de um “dinamismo absoluto eternamente criativo” que, pela perfeição do projeto em execução é uma garantia de que nada existe em vão e de que os males do mundo são intervalos entre um bem menor e outro maior. Mas para que o homem absorva, emocionalmente, uma postura de entrega à perfeição desse “dinamismo” é preciso que ocorram no seu subjetivismo mudanças psicodinâmicas profundas representadas pela integração das potências psíquicas. A dificuldade maior do homem para mergulhar numa experiência mística é sua incapacidade de se auto induzir os eflúvios de um envolvimento afetivo que preencha os espaços da relação confiante com uma transcendência absoluta vivenciada como seu Alter Ego.  Íntimo e misericordioso este Alter Ego tem a mesma natureza da Transcendência indispensável à subsistência da própria experiência temporal do ser consciente.  A essência espiritual é comum à consciência reflexiva e ao Alter Ego. Ou seja, a própria experiência temporal só é possível pela presença dessa transcendência absoluta. Ela garante a subsistência da contingência psicodinâmica, denunciando-se no “presente eterno” temporalmente indefinível, comparável a um corte no tempo que se intui como um referencial  abstrato, imóvel, a dividir a duração cósmica entre o passado e o futuro. Sendo atemporal, este corte é percebido, indiretamente no “agora”, o nosso presente psicológico, representado em cada momento pela vivência do passado e do futuro imediatos.
                                   Everaldo Lopes

domingo, 13 de outubro de 2013

A originalidade do modo de ser próprio do homem



O desenvolvimento humano coincide com a possibilidade de cada um expressar sua originalidade. Isso implica em escolhas e decisões criativas que são pessoais. Nos primórdios da humanidade a capacidade inventiva foi muito útil para satisfazer as necessidades fundamentais de sobrevivência, entre outras, a de defesa contra os riscos constantes à própria integridade física. Na vida selvagem a fragilidade humana diante de outros mamíferos poderosos despertou no Homo Sapiens a necessidade de ultrapassar o instinto gregário. Evoluiu, então, para formas elaboradas cada vez mais complexas de organização coletiva. Paralelamente, transcendendo as forças instintuais o homem desenvolveu, na convivência social, uma sensibilidade moral apoiada na responsabilidade pessoal dos indivíduos organizados em grupos. Esta responsabilidade evoluiria para o sentimento de solidariedade que aos poucos, historicamente, ainda está se consolidando. Então, na esteira da hominização criaram-se comportamentos políticos e econômicos complicados para atender os problemas emergentes cujas soluções precisam ser éticas e solidárias, para garantir-lhes a sustentabilidade. A inventividade construtiva do homem se distingue pela adoção das diretrizes morais necessárias à manutenção das conquistas realizadas. Normas associadas a valores éticos assumidos responsavelmente. Motivo porque, no cenário político-econômico e social a corrupção não resulta em obras sustentáveis.
Além da premência de satisfazer as necessidades primárias, no homem o esforço criativo atende à necessidade intelectual do pensador curioso de ampliar sua cosmovisão. No processo criativo é fundamental que o homem perceba perspectivas inéditas do real, reveladoras de detalhes antes ignorados. Podemos dizer que o novo está contido no antigo, obnubilado pela visão rotineira da realidade. A percepção perspicaz e audaz do observador curioso enseja uma nova compreensão do homem e de suas relações com o mundo. O valor cultural da novidade está na sua riqueza hermenêutica como ferramenta para o aprofundamento do saber teórico e prático já conquistado.
Teoricamente, para satisfazer a dimensão moral do homem todo esforço inovador deverá convergir para o bem comum. Nesse processo, descobrir no “antigo” uma nuance inédita é um primeiro passo. Contextualizar esta nuance num todo significativo, ampliando os contornos compreensíveis da realidade é o segundo passo do processo criativo. Dessa forma amplia-se a visão de mundo descortinada pelo indivíduo, alargando ainda mais suas possibilidades criativas. Imaginar a novidade e estrutura-la numa nova ordem significativa que inclua e magnifique a anterior melhorando as condições existenciais é a curtição do ser consciente inteligente e criativo. Através do exercício do poder criativo, necessariamente livre, se configura a originalidade do ser humano. A condução ética do poder criativo do homem incide no esforço de impedir que a novidade desestabilize os valores universais (verdade, justiça, solidariedade) fundamentos da realização da humanidade plena. Esta disposição instalada no cerne da própria Evolução garante-lhe a continuidade através do homem. O comportamento aético distorce o roteiro da Evolução quando esta é redirecionada do plano puramente biológico, para o psicossocial.
Entre a curiosidade ingênua da criança que vê o mundo pela primeira vez, e a certeza adulta de jamais conhecer tudo sobre o Universo, o homem desenvolve esforço heroico no sentido de fazer um rascunho inteligível da realidade visível. Quanto mais profundo for esse conhecimento, mais o homem se dará conta do problema metafísico inerente à curiosidade de compreender a misteriosa unidade da matéria e do espírito. Racionalmente, a ideia abstrata do “Espírito absoluto eternamente criativo” surge nas especulações filosóficas como uma necessidade lógica a partir da impossibilidade de explicar a matéria por ela mesma. Nesse ponto, assumimos, pessoalmente, a tese criacionista monista espiritualista na qual o Espírito (absoluto, eterno) preside o mundo e se revela ostensivamente nas funções psíquicas superiores do homem (consciência reflexiva, pensamento intuitivo) para as quais não se encontra uma explicação biológica. A dificuldade de entender objetivamente a unidade matéria / espírito abre espaço subjetivo no sujeito cognoscente para a polarização entre o que é necessariamente extenso e temporal apreensível através dos sentidos humanos, e o absoluto inerente a uma mundividência plena, significativa, apenas intuída que abrange um pressuposto “espiritual” inextenso e intemporal. Dada a restrição da sua capacidade de observação direta das profundezas insondáveis da realidade o homem faz uso da capacidade filosofante; para atender ao anseio de plenitude, alimenta a disposição de conhecer mais mediante especulações que complementem a apreensão, pelos sentidos, da realidade objetiva. Dessa forma o homem mantém vivo o entusiasmo em busca de novas conquistas existenciais. Percebe que mesmo distante da realização do ideal impossível de uma compreensão objetiva da unidade das dimensões espiritual e física da realidade, as experiências acumuladas nas andanças especulativas guardam a nostalgia de um elo espiritual que não se pode objetivar e não se descreve na especulação racional pura, mas ganha força de verdade numa vivência mística. Assim o homem constrói sua existência, reconhecendo, mais do que isso, subscrevendo valores que demarcam seu vir-a-ser consciente livre e responsável. Suas especulações metafísicas tangenciam a intuição do todo significativo absoluto no qual está contextualizado, e do qual se sente nostálgico mesmo sem compreendê-Lo. A tese espiritualista monista que assumimos está amarrada a estas especulações. Nela está embutido um absoluto, absurdo irredutível às leis da razão que é objeto de fé, e não comporta explicação. Seres racionais que somos, aceitamos mais naturalmente o que podemos alcançar com os sentidos e resistimos em acolher como verdade indiscutível o que escapa do limite da percepção sensorial. Todavia há muita coisa na relação do homem consigo mesmo e com sua circunstância psicossocial e ambiental que não se enquadra nos limites da percepção sensorial. A incorporação existencial desta parcela da realidade que escapa do controle objetivo racional demandará um ato de fé. Todavia a assimilação das verdades de fé não é inteiramente alheia à razão. Como vimos, anteriormente, a partir de verdades racionais podemos elaborar especulações que apontam para as verdades ditas de fé[1], embora, obviamente, não lhes sirvam de comprovação objetiva. A partir desta constatação torna-se inteligível a célebre definição de Miguel de Unamuno. “Ter fé não é crer no que não se vê, mas criar o que não se vê.” Dessa forma ter fé não se restringe a um ato passivo, é um processo de envolvimento psíquico intelectual, emocional e volitivo, necessário à experiência de integração do indivíduo num todo significativo. O ato de  fé acaba sendo portanto um ato criativo que marca a originalidade do homem.    
 Everaldo Lopes


[1] Vide os textos Devaneio especulativos I,II,III, editados neste blog.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Confraternização



O discurso democrático inspira-se no ideal de uma sociedade justa e igualitária. Seguramente, esta é a proposta política que mais se aproxima da convivência comunitária. Todavia a comunidade supera qualquer organização política porque esta precisa impor regras para assegurar a ordem social, enquanto na comunidade a excelência das relações humanas decorre do amor esclarecido que une as pessoas solidárias em torno de objetivos humanitários.
É chocante e desolador constatar na prática histórica o contraste entre a proposta democrática verbalizada e a falta de cidadania representada pelo egoísmo de políticos postulantes a cargos eletivos, e pelo fisiologismo dos eleitores. A explicação básica desta distorção recai na resistência do exclusivismo individualista humano às exigências do vínculo solidário. Mas não exclui uma crise de sensibilidade moral das pessoas aos valores éticos inerentes à solidariedade. Tendemos a aderir aos empreendimentos que satisfazem as ambições individuais imediatas, e nos descuidamos em investir nas nossas potencialidades morais mediante ações que a todos contemplem indistintamente. Todos desejamos sentir a alegria de satisfazer carências pessoais, ambicionamos experimentar algo prazeroso, mas a satisfação indisciplinada (aética) desses desejos e ambições, em longo prazo, se torna letal para o bem estar coletivo sem desigualdades. Isso evidencia que para o indivíduo viver em sociedade precisa impor-se limites, disciplinando as demandas egoicas; o que tem um preço cobrado antecipadamente sob a forma do aprendizado que objetiva o autoconhecimento, a disciplina emocional, a tolerância e a prática da justiça social. Nessa perspectiva, a harmonia social é sempre o resultado de uma realização coletiva que supõe esforço convergente de cada um dos membros do grupo no sentido de salvaguardar o bem comum. A fraternidade baseada na adesão à verdade e na prática da Justiça é o cerne da caminhada humanitarista. O pensamento ilumina os caminhos que conduzem a estes valores (verdade e justiça), mas é o sentimento de realização psicossocial coerente que dá conteúdo à existência (modo de ser peculiar do homem), conferindo um sentido à vida. Sentimento que se evidencia no exercício da solidariedade. Não há como induzir ativamente as pessoas a se tornarem solidárias. Podemos apenas dar o exemplo. Cada um precisa, portanto, por determinação pessoal resgatar em si mesmo as potencialidades comunitárias soterradas pelo exclusivismo egoico, tarefa que exige disciplina e persistência durante toda uma vida. Nesta linha de conduta, a sabedoria se manifesta no vir a ser existencial pela coparticipação da razão, da imaginação criativa, do compromisso de ser solidário e da vontade esclarecida, no momento das escolhas e decisões pessoais que de uma forma ou de outra afetem os demais membros do grupo. Pelo menos é preciso estar imbuído da convicção de que nunca se alcançará a realização pessoal, negando o respeito ao “outro”.
Certamente, pensando na permanente necessidade de lembrar ao homem sua responsabilidade na cruzada comunitária, o Papa Paulo VI criou em 1967 o Dia da Fraternidade Universal, comemorado a 1º de Janeiro. A intenção ecumênica do Sumo Pontífice foi consagrar um dia  no ano ao culto da vocação comunitária da humanidade, independente de credo, etnia, posição social ou econômica.
Lamentavelmente, a competição é a forma de relacionamento mais difundida. A solidariedade e a cooperação não são os paradigmas prevalentes na nossa cultura capitalista, agora, globalizada. O desafio maior à difusão da prática solidária e cooperativa é a dificuldade pedagógica de educar o caráter das pessoas para o exercício da verdade e da justiça num relacionamento social fraterno de toda coletividade. Ensinamento e aprendizado que se tornam mais difíceis pelo desnível social e econômico entre as pessoas, resultante de séculos de comportamentos equivocados que agruparam os indivíduos em classes sociais desiguais, na sociedade “organizada”. Estamos convencidos de que para o melhor ou para o pior, o ponto mais vulnerável na dinâmica das relações entre os homens, e destes com a Natureza é a sensibilidade moral dos indivíduos. E esta depende de fatores que não são inteiramente administráveis, intervenientes no processo de humanização através de experiências marcantes no desenvolvimento de cada indivíduo. É ingênuo tentar construir uma comunidade perfeita, seguindo rigorosamente um programa preestabelecido. A unidade comunitária, na prática, se atualiza, instante a instante, em decorrência da soma de ações pessoais, criativas, livres, isoladas no tempo e no espaço, que deverão integrar-se evolutivamente num grande movimento de humanização no horizonte de uma visão holística da realidade. Tudo dependerá em última instância da decisão comportamental solidária, livre, coerente e inteligente de cada um.
Hoje se propala amplamente a ameaça de um desastre ecológico. E o risco implícito de ficar inviabilizada a vida no Planeta exige ações preventivas eficazes. Tudo tem a ver com a responsabilidade existencial de cada indivíduo. Para virar o jogo da História nas próximas gerações é necessário promover, agora, ações sociais educativas e saneadoras que beneficiem milhões de crianças e adolescentes no mundo inteiro, educando-as para a prática da colaboração e da partilha. O trabalho mais eficaz na construção da comunidade humana deve incidir na infância e adolescência, preparando-as para a convivência solidária. Entre adultos depois que os indivíduos já adquiriram maus hábitos de convivência o ensinamento é mais difícil e menos produtivo.  A dimensão deste empreendimento demonstra, contundentemente, a impotência do indivíduo isolado para promover a confraternização universal. Ele contribui com sua parte, mas ressente-se de limitações invencíveis para induzir a coletividade ao ideal comunitário. Para construirmos a comunidade humana faz-se necessária uma resposta grupal[1] ao desafio que nos faz a própria Evolução.  Só se pode esperar algum progresso nesse sentido contando com o esforço cooperativo de todos, através de relações intersubjetivas coerentes, justas, verdadeiras e inteligentes. Para que a espécie Homo sapiens sapiens  não se torne uma “variante genética inviável”[2] é indispensável que exercitemos, todos, a solidariedade comunitária, mediante a prática da cooperação e da partilha equitativa. Por isso, nunca é demais insistir na necessidade de agir solidariamente.
Celebremos, pois, a confiança na possibilidade da confraternização universal, confirmando o compromisso pessoal de disciplinar o egoísmo atávico adverso à solidariedade e à cooperação, nas nossas ações sociais, econômicas e políticas. Esta celebração deverá refletir-se na prática do ideal democrático apregoado, ou o exercício da democracia não passará de um faz de conta hipócrita. É preciso estar atento para que a resiliência do nosso comportamento espontaneamente egoísta, ambicioso, não nos faça esquecer rapidamente as interdições que nos impomos para alcançar o ideal humanitário, e acabemos validando a hipocrisia, na prática democrática, como uma forma aceitável de lidar com a responsabilidade de ser com os outros no mundo. Sem a disposição firme de todos os membros da coletividade humana de agir consciente e responsavelmente, o discurso democrático se reduz a uma loquacidade astuciosa, ingênua ou hipócrita que transforma a prática democrática num fingimento ridículo.
                                   Everaldo Lopes
                                                            


[1] Caracterizada por: visão de mundo monista espiritualista, decisão política humanista integral, cultivo permanente da solidariedade universal.
[2] Temor anunciado por Noan Schomsky (Nascido em 07/12/1028) Linguista e Filósofo, professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT)

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Caráter missionário da Medicina



A assistência aos enfermos fazia parte da ação caridosa dos monges nos mosteiros da Idade Média. Laicizou-se depois para acompanhar a evolução científica e tecnológica. À medida que a Ciência médica evoluía, já não bastava a solidariedade dos religiosos, exigiam-se conhecimentos e habilidades especiais para assistir com eficiência as pessoas enfermas. Essa qualificação específica dos cuidadores dos enfermos ficou cada vez mais complexa e cara. Ao mesmo tempo, em função do avanço tecnológico, fizeram-se indispensáveis equipamentos especiais dispendiosos, para a execução de procedimentos diagnósticos e terapêuticos. Evidentemente, o custo para a formação do médico, construção, instalação e manutenção de ambulatórios e hospitais excede as possibilidades de simples doações caridosas. Como se sabe, os mosteiros e conventos se mantêm de doações e do trabalho artesanal dos monges que vivem em comunidade. Nenhum membro da coletividade monástica é remunerado, todo ganho do trabalho coletivo reverte para a manutenção da instituição monacal. A assistência prestada aos doentes pelos religiosos não visava qualquer remuneração pessoal, resultava, sim, da solidariedade, de um compromisso missionário fruto do amor ao próximo.
 Na conjuntura moderna, os cuidados médicos deveriam, então, ser assumidos pelo Estado. A este caberia remunerar os membros da coletividade que se propusessem executar a atividade médica. Ao desvincular a relação médico/paciente de qualquer tipo de lucro material imediato contornar-se-ia a comercialização eticamente inaceitável do ato médico. A dignidade humana exige que os serviços médicos jamais sejam negociados como um bem de troca. E como extensão desta exigência, evidencia-se a natureza eminentemente missionária da medicina. Afinal, essencialmente, o cuidado médico não é negociável posto que se propõe salvaguardar a vida humana que não tem preço. É necessário que na hora do atendimento o médico se atenha exclusivamente à cura e ao bem estar do paciente, sem visar qualquer ganho material atrelado ao ato médico. A esta realidade vincula-se o princípio Constitucional que determina ser a saúde um “direito do homem e um dever do Estado”. Lamentavelmente, o Estado descumpre seu dever, e os médicos se distanciam da vocação missionária. Como profissionais liberais eles se sentem à vontade para vender seus serviços. Porém são arbitrários ao cobrar pelo atendimento; não há como estabelecer critérios para estimar o valor de troca deste serviço. É fácil calcular o valor dos bens de consumo e dos serviços que geram riqueza material, pela quantidade de trabalho necessário para produzir estes bens e serviços. Mas este critério de avaliação não serve para aferir o valor do ato médico cujo produto é o bem estar físico, mental e espiritual de um ser humano. Esses bens pessoais inerentes ao modo de ser próprio do homem são inegociáveis. A eficácia do trabalho médico é indissociável da abordagem singular, de cada caso. Até porque cada ser humano é uma originalidade inconfundível. Se cada caso demanda atenções específicas, e a avaliação do trabalho médico transcende o critério quantitativo, não há como aferir quanto vale um ato médico. Dentro desta lógica, cada homem carrega o peso de toda humanidade. Qualquer procedimento médico encerra uma responsabilidade ímpar. Uma simples injeção intramuscular e uma cirurgia complexa podem igualmente levar à cura ou à morte. Não obstante os riscos inerentes, as decisões terapêuticas devem ser tomadas oportunamente e, muitas vezes, sob pressão; tudo depende da ação pronta e competente do médico diante de uma chance de cura que não se repete; não há tempo a perder.  Por tudo que ficou dito, a atividade médica precisa ter o caráter de uma resposta incondicional, competente e criativa forjada pela sensibilidade e responsabilidade despertadas pelo pedido ostensivo ou silencioso de ajuda, do enfermo. E diante desse apelo, para atender sua dimensão ética existencial, o médico precisa ser dotado de caráter exemplar, competência, e profundo sentimento de solidariedade para com o seu próximo. A verdade é que, pondo a assistência médica no nível de uma relação profissional entendida como atividade que gera riqueza material, o paciente seria para o seu médico, ao mesmo tempo, um ser humano carente de cuidados e uma possibilidade de ganho material. Ambigüidade que torna impossível separar, na relação “profissional” médico-paciente, a ganância e a solidariedade. Por isso, ao engajar-se num esquema de produção, o médico aliena-se do seu sacerdócio. No contexto de uma economia competitiva, a prática missionária da Medicina se torna um desafio para o Estado e para o Médico. Idealmente o Estado teria que satisfazer fartamente as necessidades pessoais e familiares do médico a fim de evitar que ele seja obrigado a tirar de uma relação de serviço diretamente remunerado pelo paciente o recurso financeiro de que precisaria para viver digna e confortavelmente com sua família. O médico, por sua vez terá que ser suficientemente competente, responsável e solidário. Não obstante, a questão não se restringe a uma opção simples. Vivendo numa sociedade economicamente competitiva, muito precocemente os indivíduos são absorvidos pelo modo de existência prevalente e passam a viver de acordo com os valores do sistema econômico vigente sem questioná-lo. Erich Fromm nos adverte que os dados empíricos, antropológicos e psicanalíticos tendem a demonstrar que "ter" e "ser" são dois modos fundamentais de existência cujas características determinam diferenças no comportamento social. É fácil associar o modelo profissional e o missionário, respectivamente, às experiências de "ter" e de "ser.
No sistema econômico baseado na propriedade privada dos meios de produção, visando o lucro, alguns procedimentos assistenciais propedêuticos e terapêuticos têm alto custo adicional o que coloca o médico numa situação incômoda no modo “ter” de existir. Ao mesmo tempo em que se amplia seu poder de curar, subtrai-se a liberdade do médico de agir de acordo com sua consciência missionária. Por motivos óbvios, o elevado custo adicional destes procedimentos impede que o médico faça uso deles na atenção dispensada a todos os seus pacientes; criando-se, inevitavelmente, diferença cruel entre o atendimento dos pobres e dos ricos. Não há solução fácil para questões de tal complexidade. Para converter as pessoas e instituições ao modo “ser” de existir compatível com a atividade missionária seria preciso mudar radicalmente os determinismos socioeconômicos que condicionam o modo “ter” de existir. O meio termo para sair do impasse sem modificar a prática econômico-social implícita no modo de existência prevalente, hoje, o que se pode fazer, efetivamente, será socializar a assistência médica mediante controle total desse setor, pelo Estado. Na vigência do sistema capitalista são óbvias as dificuldades técnicas e administrativas para o resgate efetivo das obrigações do Estado com a saúde das pessoas. Tendo em vista contornar as distorções inevitáveis no modo “ter” de existir, como dissemos anteriormente, o “profissional” da saúde deverá ser subvencionado pelo Estado para poder viver confortavelmente com sua família, inclusive com oportunidades de estudar e aperfeiçoar-se nas habilidades que lhe são exigidas. Nestas circunstâncias não se avaliaria o custo do ato médico, mas quanto se deveria investir para oferecer ao médico e sua família as melhores condições de vida, liberando-o para prestar seu trabalho a quem dele precisasse sem qualquer retribuição material imediata do enfermo. Ao mesmo tempo, é fundamental que o Governo promova as condições de trabalho necessárias para que o médico possa oferecer o melhor atendimento, indistintamente, a todos os enfermos que demandem seus cuidados. Outrossim, impõe-se que o Estado ponha em prática um extenso projeto de educação sanitária, e de saneamento básico como parte de um amplo programa de saúde coletiva. Tudo isso parece um sonho muito distante, mas não há outro caminho. Seria estulto admitir que numa sociedade capitalista todas as pessoas, indistintamente, possam pagar assistência médica de alto padrão.
A socialização da prática médica no bojo de uma superestrutura socioeconômica de livre mercado seria uma excrescência utópica! Diriam muitos. Todavia, cremos ser possível criar um bolsão socialista para a assistência universal à saúde da população numa economia de mercado, mediante forte investimento público, e elevado compromisso moral dos Governos e dos médicos. Todavia, convenhamos, esta proposta excede muito as expectativas sinalizadas pelos indicadores que revelam o estágio atual do desenvolvimento humano[1]. Um olhar crítico para a realidade percebe sem dificuldade que o grande obstáculo é a adesão universal dos homens ao exercício ético da existência; ou seja, a prática da condição humana representada pela consciência pessoal e responsabilidade social. Todavia presumimos com grande margem de probabilidade que o investimento maciço do Governo e o compromisso moral de governantes e governados tornariam sustentável a assistência médica ampla e gratuita à saúde, no sistema capitalista. O modo “ser” de existir poderia prevalecer num setor da economia vinculada ao modo “ter” de existir, disciplinando as relações de trabalho no setor considerado.
A humanidade está distante de organizar-se em comunidade. Esperamos, todavia, que os homens venham a perceber, coletivamente, que sua completa realização será o fruto maduro da orientação que preside a experiência de "ser", e não da que perfaz a experiência de "ter”. As ações pertinentes ao modo "ser" de existir são a única maneira de impedir a destruição da espécie, seja a instantânea, anunciada pelo “cogumelo” resultante da explosão atômica, seja a que se prenuncia estampada nos corpos desnutridos, famintos, doentes, nos grandes bolsões de pobreza espalhados nos países ao sul do equador, e até no seio das nações desenvolvidas.      
 Everaldo Lopes


[1] “O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é uma medida resumida do progresso a longo prazo em três dimensões básicas do desenvolvimento humano: renda, educação e saúde. O objetivo da criação do IDH foi o de oferecer um contraponto a outro indicador muito utilizado, o Produto Interno Bruto (PIB) per capita, que considera apenas a dimensão econômica do desenvolvimento.”