domingo, 13 de outubro de 2013

A originalidade do modo de ser próprio do homem



O desenvolvimento humano coincide com a possibilidade de cada um expressar sua originalidade. Isso implica em escolhas e decisões criativas que são pessoais. Nos primórdios da humanidade a capacidade inventiva foi muito útil para satisfazer as necessidades fundamentais de sobrevivência, entre outras, a de defesa contra os riscos constantes à própria integridade física. Na vida selvagem a fragilidade humana diante de outros mamíferos poderosos despertou no Homo Sapiens a necessidade de ultrapassar o instinto gregário. Evoluiu, então, para formas elaboradas cada vez mais complexas de organização coletiva. Paralelamente, transcendendo as forças instintuais o homem desenvolveu, na convivência social, uma sensibilidade moral apoiada na responsabilidade pessoal dos indivíduos organizados em grupos. Esta responsabilidade evoluiria para o sentimento de solidariedade que aos poucos, historicamente, ainda está se consolidando. Então, na esteira da hominização criaram-se comportamentos políticos e econômicos complicados para atender os problemas emergentes cujas soluções precisam ser éticas e solidárias, para garantir-lhes a sustentabilidade. A inventividade construtiva do homem se distingue pela adoção das diretrizes morais necessárias à manutenção das conquistas realizadas. Normas associadas a valores éticos assumidos responsavelmente. Motivo porque, no cenário político-econômico e social a corrupção não resulta em obras sustentáveis.
Além da premência de satisfazer as necessidades primárias, no homem o esforço criativo atende à necessidade intelectual do pensador curioso de ampliar sua cosmovisão. No processo criativo é fundamental que o homem perceba perspectivas inéditas do real, reveladoras de detalhes antes ignorados. Podemos dizer que o novo está contido no antigo, obnubilado pela visão rotineira da realidade. A percepção perspicaz e audaz do observador curioso enseja uma nova compreensão do homem e de suas relações com o mundo. O valor cultural da novidade está na sua riqueza hermenêutica como ferramenta para o aprofundamento do saber teórico e prático já conquistado.
Teoricamente, para satisfazer a dimensão moral do homem todo esforço inovador deverá convergir para o bem comum. Nesse processo, descobrir no “antigo” uma nuance inédita é um primeiro passo. Contextualizar esta nuance num todo significativo, ampliando os contornos compreensíveis da realidade é o segundo passo do processo criativo. Dessa forma amplia-se a visão de mundo descortinada pelo indivíduo, alargando ainda mais suas possibilidades criativas. Imaginar a novidade e estrutura-la numa nova ordem significativa que inclua e magnifique a anterior melhorando as condições existenciais é a curtição do ser consciente inteligente e criativo. Através do exercício do poder criativo, necessariamente livre, se configura a originalidade do ser humano. A condução ética do poder criativo do homem incide no esforço de impedir que a novidade desestabilize os valores universais (verdade, justiça, solidariedade) fundamentos da realização da humanidade plena. Esta disposição instalada no cerne da própria Evolução garante-lhe a continuidade através do homem. O comportamento aético distorce o roteiro da Evolução quando esta é redirecionada do plano puramente biológico, para o psicossocial.
Entre a curiosidade ingênua da criança que vê o mundo pela primeira vez, e a certeza adulta de jamais conhecer tudo sobre o Universo, o homem desenvolve esforço heroico no sentido de fazer um rascunho inteligível da realidade visível. Quanto mais profundo for esse conhecimento, mais o homem se dará conta do problema metafísico inerente à curiosidade de compreender a misteriosa unidade da matéria e do espírito. Racionalmente, a ideia abstrata do “Espírito absoluto eternamente criativo” surge nas especulações filosóficas como uma necessidade lógica a partir da impossibilidade de explicar a matéria por ela mesma. Nesse ponto, assumimos, pessoalmente, a tese criacionista monista espiritualista na qual o Espírito (absoluto, eterno) preside o mundo e se revela ostensivamente nas funções psíquicas superiores do homem (consciência reflexiva, pensamento intuitivo) para as quais não se encontra uma explicação biológica. A dificuldade de entender objetivamente a unidade matéria / espírito abre espaço subjetivo no sujeito cognoscente para a polarização entre o que é necessariamente extenso e temporal apreensível através dos sentidos humanos, e o absoluto inerente a uma mundividência plena, significativa, apenas intuída que abrange um pressuposto “espiritual” inextenso e intemporal. Dada a restrição da sua capacidade de observação direta das profundezas insondáveis da realidade o homem faz uso da capacidade filosofante; para atender ao anseio de plenitude, alimenta a disposição de conhecer mais mediante especulações que complementem a apreensão, pelos sentidos, da realidade objetiva. Dessa forma o homem mantém vivo o entusiasmo em busca de novas conquistas existenciais. Percebe que mesmo distante da realização do ideal impossível de uma compreensão objetiva da unidade das dimensões espiritual e física da realidade, as experiências acumuladas nas andanças especulativas guardam a nostalgia de um elo espiritual que não se pode objetivar e não se descreve na especulação racional pura, mas ganha força de verdade numa vivência mística. Assim o homem constrói sua existência, reconhecendo, mais do que isso, subscrevendo valores que demarcam seu vir-a-ser consciente livre e responsável. Suas especulações metafísicas tangenciam a intuição do todo significativo absoluto no qual está contextualizado, e do qual se sente nostálgico mesmo sem compreendê-Lo. A tese espiritualista monista que assumimos está amarrada a estas especulações. Nela está embutido um absoluto, absurdo irredutível às leis da razão que é objeto de fé, e não comporta explicação. Seres racionais que somos, aceitamos mais naturalmente o que podemos alcançar com os sentidos e resistimos em acolher como verdade indiscutível o que escapa do limite da percepção sensorial. Todavia há muita coisa na relação do homem consigo mesmo e com sua circunstância psicossocial e ambiental que não se enquadra nos limites da percepção sensorial. A incorporação existencial desta parcela da realidade que escapa do controle objetivo racional demandará um ato de fé. Todavia a assimilação das verdades de fé não é inteiramente alheia à razão. Como vimos, anteriormente, a partir de verdades racionais podemos elaborar especulações que apontam para as verdades ditas de fé[1], embora, obviamente, não lhes sirvam de comprovação objetiva. A partir desta constatação torna-se inteligível a célebre definição de Miguel de Unamuno. “Ter fé não é crer no que não se vê, mas criar o que não se vê.” Dessa forma ter fé não se restringe a um ato passivo, é um processo de envolvimento psíquico intelectual, emocional e volitivo, necessário à experiência de integração do indivíduo num todo significativo. O ato de  fé acaba sendo portanto um ato criativo que marca a originalidade do homem.    
 Everaldo Lopes


[1] Vide os textos Devaneio especulativos I,II,III, editados neste blog.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Confraternização



O discurso democrático inspira-se no ideal de uma sociedade justa e igualitária. Seguramente, esta é a proposta política que mais se aproxima da convivência comunitária. Todavia a comunidade supera qualquer organização política porque esta precisa impor regras para assegurar a ordem social, enquanto na comunidade a excelência das relações humanas decorre do amor esclarecido que une as pessoas solidárias em torno de objetivos humanitários.
É chocante e desolador constatar na prática histórica o contraste entre a proposta democrática verbalizada e a falta de cidadania representada pelo egoísmo de políticos postulantes a cargos eletivos, e pelo fisiologismo dos eleitores. A explicação básica desta distorção recai na resistência do exclusivismo individualista humano às exigências do vínculo solidário. Mas não exclui uma crise de sensibilidade moral das pessoas aos valores éticos inerentes à solidariedade. Tendemos a aderir aos empreendimentos que satisfazem as ambições individuais imediatas, e nos descuidamos em investir nas nossas potencialidades morais mediante ações que a todos contemplem indistintamente. Todos desejamos sentir a alegria de satisfazer carências pessoais, ambicionamos experimentar algo prazeroso, mas a satisfação indisciplinada (aética) desses desejos e ambições, em longo prazo, se torna letal para o bem estar coletivo sem desigualdades. Isso evidencia que para o indivíduo viver em sociedade precisa impor-se limites, disciplinando as demandas egoicas; o que tem um preço cobrado antecipadamente sob a forma do aprendizado que objetiva o autoconhecimento, a disciplina emocional, a tolerância e a prática da justiça social. Nessa perspectiva, a harmonia social é sempre o resultado de uma realização coletiva que supõe esforço convergente de cada um dos membros do grupo no sentido de salvaguardar o bem comum. A fraternidade baseada na adesão à verdade e na prática da Justiça é o cerne da caminhada humanitarista. O pensamento ilumina os caminhos que conduzem a estes valores (verdade e justiça), mas é o sentimento de realização psicossocial coerente que dá conteúdo à existência (modo de ser peculiar do homem), conferindo um sentido à vida. Sentimento que se evidencia no exercício da solidariedade. Não há como induzir ativamente as pessoas a se tornarem solidárias. Podemos apenas dar o exemplo. Cada um precisa, portanto, por determinação pessoal resgatar em si mesmo as potencialidades comunitárias soterradas pelo exclusivismo egoico, tarefa que exige disciplina e persistência durante toda uma vida. Nesta linha de conduta, a sabedoria se manifesta no vir a ser existencial pela coparticipação da razão, da imaginação criativa, do compromisso de ser solidário e da vontade esclarecida, no momento das escolhas e decisões pessoais que de uma forma ou de outra afetem os demais membros do grupo. Pelo menos é preciso estar imbuído da convicção de que nunca se alcançará a realização pessoal, negando o respeito ao “outro”.
Certamente, pensando na permanente necessidade de lembrar ao homem sua responsabilidade na cruzada comunitária, o Papa Paulo VI criou em 1967 o Dia da Fraternidade Universal, comemorado a 1º de Janeiro. A intenção ecumênica do Sumo Pontífice foi consagrar um dia  no ano ao culto da vocação comunitária da humanidade, independente de credo, etnia, posição social ou econômica.
Lamentavelmente, a competição é a forma de relacionamento mais difundida. A solidariedade e a cooperação não são os paradigmas prevalentes na nossa cultura capitalista, agora, globalizada. O desafio maior à difusão da prática solidária e cooperativa é a dificuldade pedagógica de educar o caráter das pessoas para o exercício da verdade e da justiça num relacionamento social fraterno de toda coletividade. Ensinamento e aprendizado que se tornam mais difíceis pelo desnível social e econômico entre as pessoas, resultante de séculos de comportamentos equivocados que agruparam os indivíduos em classes sociais desiguais, na sociedade “organizada”. Estamos convencidos de que para o melhor ou para o pior, o ponto mais vulnerável na dinâmica das relações entre os homens, e destes com a Natureza é a sensibilidade moral dos indivíduos. E esta depende de fatores que não são inteiramente administráveis, intervenientes no processo de humanização através de experiências marcantes no desenvolvimento de cada indivíduo. É ingênuo tentar construir uma comunidade perfeita, seguindo rigorosamente um programa preestabelecido. A unidade comunitária, na prática, se atualiza, instante a instante, em decorrência da soma de ações pessoais, criativas, livres, isoladas no tempo e no espaço, que deverão integrar-se evolutivamente num grande movimento de humanização no horizonte de uma visão holística da realidade. Tudo dependerá em última instância da decisão comportamental solidária, livre, coerente e inteligente de cada um.
Hoje se propala amplamente a ameaça de um desastre ecológico. E o risco implícito de ficar inviabilizada a vida no Planeta exige ações preventivas eficazes. Tudo tem a ver com a responsabilidade existencial de cada indivíduo. Para virar o jogo da História nas próximas gerações é necessário promover, agora, ações sociais educativas e saneadoras que beneficiem milhões de crianças e adolescentes no mundo inteiro, educando-as para a prática da colaboração e da partilha. O trabalho mais eficaz na construção da comunidade humana deve incidir na infância e adolescência, preparando-as para a convivência solidária. Entre adultos depois que os indivíduos já adquiriram maus hábitos de convivência o ensinamento é mais difícil e menos produtivo.  A dimensão deste empreendimento demonstra, contundentemente, a impotência do indivíduo isolado para promover a confraternização universal. Ele contribui com sua parte, mas ressente-se de limitações invencíveis para induzir a coletividade ao ideal comunitário. Para construirmos a comunidade humana faz-se necessária uma resposta grupal[1] ao desafio que nos faz a própria Evolução.  Só se pode esperar algum progresso nesse sentido contando com o esforço cooperativo de todos, através de relações intersubjetivas coerentes, justas, verdadeiras e inteligentes. Para que a espécie Homo sapiens sapiens  não se torne uma “variante genética inviável”[2] é indispensável que exercitemos, todos, a solidariedade comunitária, mediante a prática da cooperação e da partilha equitativa. Por isso, nunca é demais insistir na necessidade de agir solidariamente.
Celebremos, pois, a confiança na possibilidade da confraternização universal, confirmando o compromisso pessoal de disciplinar o egoísmo atávico adverso à solidariedade e à cooperação, nas nossas ações sociais, econômicas e políticas. Esta celebração deverá refletir-se na prática do ideal democrático apregoado, ou o exercício da democracia não passará de um faz de conta hipócrita. É preciso estar atento para que a resiliência do nosso comportamento espontaneamente egoísta, ambicioso, não nos faça esquecer rapidamente as interdições que nos impomos para alcançar o ideal humanitário, e acabemos validando a hipocrisia, na prática democrática, como uma forma aceitável de lidar com a responsabilidade de ser com os outros no mundo. Sem a disposição firme de todos os membros da coletividade humana de agir consciente e responsavelmente, o discurso democrático se reduz a uma loquacidade astuciosa, ingênua ou hipócrita que transforma a prática democrática num fingimento ridículo.
                                   Everaldo Lopes
                                                            


[1] Caracterizada por: visão de mundo monista espiritualista, decisão política humanista integral, cultivo permanente da solidariedade universal.
[2] Temor anunciado por Noan Schomsky (Nascido em 07/12/1028) Linguista e Filósofo, professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT)

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Caráter missionário da Medicina



A assistência aos enfermos fazia parte da ação caridosa dos monges nos mosteiros da Idade Média. Laicizou-se depois para acompanhar a evolução científica e tecnológica. À medida que a Ciência médica evoluía, já não bastava a solidariedade dos religiosos, exigiam-se conhecimentos e habilidades especiais para assistir com eficiência as pessoas enfermas. Essa qualificação específica dos cuidadores dos enfermos ficou cada vez mais complexa e cara. Ao mesmo tempo, em função do avanço tecnológico, fizeram-se indispensáveis equipamentos especiais dispendiosos, para a execução de procedimentos diagnósticos e terapêuticos. Evidentemente, o custo para a formação do médico, construção, instalação e manutenção de ambulatórios e hospitais excede as possibilidades de simples doações caridosas. Como se sabe, os mosteiros e conventos se mantêm de doações e do trabalho artesanal dos monges que vivem em comunidade. Nenhum membro da coletividade monástica é remunerado, todo ganho do trabalho coletivo reverte para a manutenção da instituição monacal. A assistência prestada aos doentes pelos religiosos não visava qualquer remuneração pessoal, resultava, sim, da solidariedade, de um compromisso missionário fruto do amor ao próximo.
 Na conjuntura moderna, os cuidados médicos deveriam, então, ser assumidos pelo Estado. A este caberia remunerar os membros da coletividade que se propusessem executar a atividade médica. Ao desvincular a relação médico/paciente de qualquer tipo de lucro material imediato contornar-se-ia a comercialização eticamente inaceitável do ato médico. A dignidade humana exige que os serviços médicos jamais sejam negociados como um bem de troca. E como extensão desta exigência, evidencia-se a natureza eminentemente missionária da medicina. Afinal, essencialmente, o cuidado médico não é negociável posto que se propõe salvaguardar a vida humana que não tem preço. É necessário que na hora do atendimento o médico se atenha exclusivamente à cura e ao bem estar do paciente, sem visar qualquer ganho material atrelado ao ato médico. A esta realidade vincula-se o princípio Constitucional que determina ser a saúde um “direito do homem e um dever do Estado”. Lamentavelmente, o Estado descumpre seu dever, e os médicos se distanciam da vocação missionária. Como profissionais liberais eles se sentem à vontade para vender seus serviços. Porém são arbitrários ao cobrar pelo atendimento; não há como estabelecer critérios para estimar o valor de troca deste serviço. É fácil calcular o valor dos bens de consumo e dos serviços que geram riqueza material, pela quantidade de trabalho necessário para produzir estes bens e serviços. Mas este critério de avaliação não serve para aferir o valor do ato médico cujo produto é o bem estar físico, mental e espiritual de um ser humano. Esses bens pessoais inerentes ao modo de ser próprio do homem são inegociáveis. A eficácia do trabalho médico é indissociável da abordagem singular, de cada caso. Até porque cada ser humano é uma originalidade inconfundível. Se cada caso demanda atenções específicas, e a avaliação do trabalho médico transcende o critério quantitativo, não há como aferir quanto vale um ato médico. Dentro desta lógica, cada homem carrega o peso de toda humanidade. Qualquer procedimento médico encerra uma responsabilidade ímpar. Uma simples injeção intramuscular e uma cirurgia complexa podem igualmente levar à cura ou à morte. Não obstante os riscos inerentes, as decisões terapêuticas devem ser tomadas oportunamente e, muitas vezes, sob pressão; tudo depende da ação pronta e competente do médico diante de uma chance de cura que não se repete; não há tempo a perder.  Por tudo que ficou dito, a atividade médica precisa ter o caráter de uma resposta incondicional, competente e criativa forjada pela sensibilidade e responsabilidade despertadas pelo pedido ostensivo ou silencioso de ajuda, do enfermo. E diante desse apelo, para atender sua dimensão ética existencial, o médico precisa ser dotado de caráter exemplar, competência, e profundo sentimento de solidariedade para com o seu próximo. A verdade é que, pondo a assistência médica no nível de uma relação profissional entendida como atividade que gera riqueza material, o paciente seria para o seu médico, ao mesmo tempo, um ser humano carente de cuidados e uma possibilidade de ganho material. Ambigüidade que torna impossível separar, na relação “profissional” médico-paciente, a ganância e a solidariedade. Por isso, ao engajar-se num esquema de produção, o médico aliena-se do seu sacerdócio. No contexto de uma economia competitiva, a prática missionária da Medicina se torna um desafio para o Estado e para o Médico. Idealmente o Estado teria que satisfazer fartamente as necessidades pessoais e familiares do médico a fim de evitar que ele seja obrigado a tirar de uma relação de serviço diretamente remunerado pelo paciente o recurso financeiro de que precisaria para viver digna e confortavelmente com sua família. O médico, por sua vez terá que ser suficientemente competente, responsável e solidário. Não obstante, a questão não se restringe a uma opção simples. Vivendo numa sociedade economicamente competitiva, muito precocemente os indivíduos são absorvidos pelo modo de existência prevalente e passam a viver de acordo com os valores do sistema econômico vigente sem questioná-lo. Erich Fromm nos adverte que os dados empíricos, antropológicos e psicanalíticos tendem a demonstrar que "ter" e "ser" são dois modos fundamentais de existência cujas características determinam diferenças no comportamento social. É fácil associar o modelo profissional e o missionário, respectivamente, às experiências de "ter" e de "ser.
No sistema econômico baseado na propriedade privada dos meios de produção, visando o lucro, alguns procedimentos assistenciais propedêuticos e terapêuticos têm alto custo adicional o que coloca o médico numa situação incômoda no modo “ter” de existir. Ao mesmo tempo em que se amplia seu poder de curar, subtrai-se a liberdade do médico de agir de acordo com sua consciência missionária. Por motivos óbvios, o elevado custo adicional destes procedimentos impede que o médico faça uso deles na atenção dispensada a todos os seus pacientes; criando-se, inevitavelmente, diferença cruel entre o atendimento dos pobres e dos ricos. Não há solução fácil para questões de tal complexidade. Para converter as pessoas e instituições ao modo “ser” de existir compatível com a atividade missionária seria preciso mudar radicalmente os determinismos socioeconômicos que condicionam o modo “ter” de existir. O meio termo para sair do impasse sem modificar a prática econômico-social implícita no modo de existência prevalente, hoje, o que se pode fazer, efetivamente, será socializar a assistência médica mediante controle total desse setor, pelo Estado. Na vigência do sistema capitalista são óbvias as dificuldades técnicas e administrativas para o resgate efetivo das obrigações do Estado com a saúde das pessoas. Tendo em vista contornar as distorções inevitáveis no modo “ter” de existir, como dissemos anteriormente, o “profissional” da saúde deverá ser subvencionado pelo Estado para poder viver confortavelmente com sua família, inclusive com oportunidades de estudar e aperfeiçoar-se nas habilidades que lhe são exigidas. Nestas circunstâncias não se avaliaria o custo do ato médico, mas quanto se deveria investir para oferecer ao médico e sua família as melhores condições de vida, liberando-o para prestar seu trabalho a quem dele precisasse sem qualquer retribuição material imediata do enfermo. Ao mesmo tempo, é fundamental que o Governo promova as condições de trabalho necessárias para que o médico possa oferecer o melhor atendimento, indistintamente, a todos os enfermos que demandem seus cuidados. Outrossim, impõe-se que o Estado ponha em prática um extenso projeto de educação sanitária, e de saneamento básico como parte de um amplo programa de saúde coletiva. Tudo isso parece um sonho muito distante, mas não há outro caminho. Seria estulto admitir que numa sociedade capitalista todas as pessoas, indistintamente, possam pagar assistência médica de alto padrão.
A socialização da prática médica no bojo de uma superestrutura socioeconômica de livre mercado seria uma excrescência utópica! Diriam muitos. Todavia, cremos ser possível criar um bolsão socialista para a assistência universal à saúde da população numa economia de mercado, mediante forte investimento público, e elevado compromisso moral dos Governos e dos médicos. Todavia, convenhamos, esta proposta excede muito as expectativas sinalizadas pelos indicadores que revelam o estágio atual do desenvolvimento humano[1]. Um olhar crítico para a realidade percebe sem dificuldade que o grande obstáculo é a adesão universal dos homens ao exercício ético da existência; ou seja, a prática da condição humana representada pela consciência pessoal e responsabilidade social. Todavia presumimos com grande margem de probabilidade que o investimento maciço do Governo e o compromisso moral de governantes e governados tornariam sustentável a assistência médica ampla e gratuita à saúde, no sistema capitalista. O modo “ser” de existir poderia prevalecer num setor da economia vinculada ao modo “ter” de existir, disciplinando as relações de trabalho no setor considerado.
A humanidade está distante de organizar-se em comunidade. Esperamos, todavia, que os homens venham a perceber, coletivamente, que sua completa realização será o fruto maduro da orientação que preside a experiência de "ser", e não da que perfaz a experiência de "ter”. As ações pertinentes ao modo "ser" de existir são a única maneira de impedir a destruição da espécie, seja a instantânea, anunciada pelo “cogumelo” resultante da explosão atômica, seja a que se prenuncia estampada nos corpos desnutridos, famintos, doentes, nos grandes bolsões de pobreza espalhados nos países ao sul do equador, e até no seio das nações desenvolvidas.      
 Everaldo Lopes


[1] “O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é uma medida resumida do progresso a longo prazo em três dimensões básicas do desenvolvimento humano: renda, educação e saúde. O objetivo da criação do IDH foi o de oferecer um contraponto a outro indicador muito utilizado, o Produto Interno Bruto (PIB) per capita, que considera apenas a dimensão econômica do desenvolvimento.”

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Convivência com as diferenças



            Este enunciado pressupõe o encontro de pessoas que guardam entre si diferenças expressivas de personalidade, projeto de vida, posses, idade, conhecimento e classe social. Isso implica no confronto de comportamentos regidos por códigos e padrões culturais dessemelhantes, o que dificulta a convivência. Ao lidar com as diferenças  antes especificadas, as pessoas envolvidas conduzem as situações conflitantes de acordo com os dons, o caráter e o controle ou maturidade emocional de cada uma. Nesta dissertação entendemos como controle emocional a capacidade de o homem lidar com relações sociais conflituosas, mantendo o equilíbrio comportamental. Na esteira dessa postura de auto domínio, mobilizam-se as potencialidades racional e volitiva dos indivíduos inter agentes tendo em vista a elaboração e prática de atitudes inteligentes e equilibradas diante de situações litigiosas. Este comportamento inerente à maturidade pessoal se confunde com a sabedoria definida pelo ajuste harmônico da razão, do sentimento e da vontade nas escolhas e decisões problemáticas. Os diferentes níveis de controle emocional e sabedoria de cada um dos atores de um encontro assimétrico delineiam comportamentos diversos. Obviamente, nestas relações ninguém alcança a perfeição, é sempre possível ser um pouco melhor.  Quanto mais amadurecidos como pessoas, maior é a capacidade de os indivíduos lidarem com as “diferenças” que os afastam uns dos outros. No relacionamento assimétrico o mais sábio se distingue por ser mais disciplinado e criativo ao lidar com a diversidade. E na elaboração da resposta final, isso implica ser capaz de atender, ao mesmo tempo, a uma visão ampla do conflito contextualizado no seu universo, à intenção firme e imparcial de fazer valer a verdade, e à determinação de agir construtivamente sem ferir os brios do outro. No diálogo que envolve diferenças, o comportamento inseguro e tendencioso do interlocutor imaturo é o maior desafio à prática do bom senso. Em geral, num conflito de ideias e comportamentos entre indivíduos maduros, cada um firmado em razões que considera válidas tenta argumentar com o máximo de isenção emocional possível, fundamentando seu raciocínio em bases lógicas sólidas. Isso faz toda diferença em relação ao comportamento do imaturo que está sempre emocionalmente comprometido, e cujos argumentos se distanciam da objetividade racional exigida. Em geral, o imaturo prejudica a transparência e eficácia dos seus argumentos deixando que o raciocínio seja influenciado pela emoção; e dessa forma perde-se em considerações prolixas, precipitadas e desconexas. O problema é mais complicado quando os atores do conflito são pessoas do mesmo grupo familiar, ou que trabalham no mesmo ambiente, forçadas a uma proximidade inevitável. O imaturo geralmente apoiado em sentimentos confusos, predominantemente contestatórios, é levado a insistir em falsos argumentos tentando dar coerência racional a uma conduta cujo fundamento é emocional. O pior é que no desdobramento do seu comportamento dissimulado, o imaturo ambicioso e inconformado com sua própria carência lança mão de teses equivocadas e tenta passar uma falsa imagem pessoal de veracidade, e independência impregnada de agressividade mal contida. Para vencer a disputa desigual o imaturo, na sua pior caracterização, esquece os escrúpulos. Para ele o mais importante é vencer o debate a qualquer custo, numa tentativa de auto afirmar-se. Daí porque a autenticidade que o imaturo se atribui não passa de autopropaganda enganosa, para ocultar sua própria incapacidade nem sempre por ele mesmo entendida inteiramente. Guardadas as devidas proporções, pode-se comparar a relação assimétrica entre adultos, com a relação do adulto com uma criança. O adulto educador natural, contrariando o desejo da criança desperta nela uma reação que pode escorregar para a agressividade se as mentirinhas forjadas pela ingenuidade infantil não forem suficientes para garantir a satisfação do desejo contrariado. Revoltada com a vulnerabilidade e dependência próprias da idade, a criança chora e sente-se desamparada. Mutatis mutandis, guardadas as devidas proporções, o adulto imaturo enredado em seus problemas reconhece, mas não confessa a própria inabilidade e despreparo diante da vida. Conflita intimamente na comparação da própria carência com a objetividade e capacidade resolutiva de outro, adulto capacitado, e sofre duplamente, tentando superar a dificuldade de elaborar condutas eficazes, e de conseguir impor-se diante de quantos não reconhecem sua autoridade mal definida em posturas inseguras, mas presunçosas. Os adultos bem formados conscientes do próprio potencial podem até conseguir conter o revide ante a agressividade e frivolidade argumentativa do imaturo, mas isso lhe custa uma vivência desagradável de desamparo ao ser desafiado pela desinformação do outro incapaz de um diálogo razoável. Diante da falta de objetividade e arrogância do imaturo, o adulto racional, disciplinado, sente algo parecido (com todo respeito) com a ira que um mosquito insistente é capaz de provocar na sua vítima eventual, mediante o zumbido desagradável e a picada imprevisível; além do fato de escapar, sempre, às tentativas de suprimi-lo (o mosquito) levadas a efeito pelo infeliz cujo sangue é objeto de “desejo” do inseto impertinente. O melhor que se pode fazer para eliminar o estresse em ambos os momentos dessa analogia é ignorar o mosquito e o imaturo confuso, perdido em sua própria turbulência interior. Esta postura exige grande controle emocional. Mas, enquanto no caso do mosquito o fator estressante é a impotência constrangedora para eliminar um agressor tão insignificante, mas esquivo; no caso da relação humana assimétrica o que estressa é a necessidade imposta pelo  dever de respeitar no “agressor” a dignidade humana de um semelhante despreparado, embora este não saiba corresponder ao respeito que lhe é conferido. Dificilmente, alguém está tão bem resolvido do ponto de vista psíquico afetivo que passe incólume pela experiência social de lidar com a imaturidade arrogante do outro ao qual falta a flexibilidade para aceitar as próprias limitações; pior ainda quando, identificando-as ele busca esconde-las, tentando impingir uma fraude da qual não é inteiramente  consciente. Em face das dificuldades inerentes a cada caso, no primeiro o melhor a fazer é aguardar com paciência o momento oportuno de eliminar o mosquito; e no segundo, por um imperativo ético, a conduta mais sábia é praticar a tolerância esclarecida, encarando o teste de resistência contra a teimosia inconsequente do imaturo, sem abrir mão da  verdade que o outro não quer aceitar. Lamentavelmente todos somos imperfeitos e o exercício do comportamento construtivo por ocasião de um conflito do tipo que estamos focalizando exige grande esforço dirigido que é no mínimo cansativo e ansiogênico. E nem sempre se tira todo proveito deste esforço, porque a mobilização de energia pessoal exigida excede por vezes as reservas de paciência e indulgência de quem se propõe interagir com o imaturo de forma prática e criativa. A única esperança de uma relação construtiva é que o imaturo evolua e alcance o nível desejável de madureza. Mas isso depende exclusivamente dele. A mudança de comportamento deve acontecer por  iniciativa e esforço pessoais do próprio. Mas quando ele se fecha nas suas limitações não se tem como induzi-lo a mudar seus hábitos comportamentais. Obviamente, se a diferença interindividual for irredutível, a relação assimétrica se resolverá num distanciamento psíquico afetivo marcado por pesado silêncio; ou resvalará para o mero assistencialismo em relação ao imaturo, em certo sentido semelhante ao cuidado benevolente de alguém para com um portador de deficiência cognitiva e emocional. Isto representa uma sobrecarga incalculável para o interlocutor mais sensato que, todavia, busca parceria apesar dos  predicados negativos pessoais do outro. Obviamente, a prática assistencial neste nível aborta qualquer tentativa de desenvolver um companheirismo saudável. Quando a desesperança ensombrece o relacionamento assimétrico sem expectativas, os seus participantes desmotivados fenecem. Suas existências ficam truncadas, privadas de fruir plenamente as possibilidades excelsas da condição humana. Os adultos amadurecidos que têm o infortúnio de viver a experiência de um relacionamento assimétrico sabem quanto é pequena a probabilidade de o interlocutor imaturo autodeterminar-se a mobilizar suas potencialidades intelectivas e volitivas no sentido de corrigir as deficiências pessoais, abrindo espaço para um encontro existencialmente rico. E esse detalhe é mais estressante ainda se por algum motivo, geralmente de ordem ética ou religiosa, a relação é mantida sem esperança  de uma interação adulta satisfatória.
            É fundamental para o futuro da própria humanidade, que o homem aprenda a lidar com as diferenças dado que elas são universais.  Embora muitas não cheguem a ser problemáticas vale a pena lembrar que elas constituem sempre um obstáculo maior ou menor a ser vencido em todas as relações interpessoais. Precisamos, pois, encará-las todas, responsável e sabiamente, para garantir o êxito final da história humana, centrado na solidariedade.                    
Everaldo Lopes