terça-feira, 24 de setembro de 2013

Caráter missionário da Medicina



A assistência aos enfermos fazia parte da ação caridosa dos monges nos mosteiros da Idade Média. Laicizou-se depois para acompanhar a evolução científica e tecnológica. À medida que a Ciência médica evoluía, já não bastava a solidariedade dos religiosos, exigiam-se conhecimentos e habilidades especiais para assistir com eficiência as pessoas enfermas. Essa qualificação específica dos cuidadores dos enfermos ficou cada vez mais complexa e cara. Ao mesmo tempo, em função do avanço tecnológico, fizeram-se indispensáveis equipamentos especiais dispendiosos, para a execução de procedimentos diagnósticos e terapêuticos. Evidentemente, o custo para a formação do médico, construção, instalação e manutenção de ambulatórios e hospitais excede as possibilidades de simples doações caridosas. Como se sabe, os mosteiros e conventos se mantêm de doações e do trabalho artesanal dos monges que vivem em comunidade. Nenhum membro da coletividade monástica é remunerado, todo ganho do trabalho coletivo reverte para a manutenção da instituição monacal. A assistência prestada aos doentes pelos religiosos não visava qualquer remuneração pessoal, resultava, sim, da solidariedade, de um compromisso missionário fruto do amor ao próximo.
 Na conjuntura moderna, os cuidados médicos deveriam, então, ser assumidos pelo Estado. A este caberia remunerar os membros da coletividade que se propusessem executar a atividade médica. Ao desvincular a relação médico/paciente de qualquer tipo de lucro material imediato contornar-se-ia a comercialização eticamente inaceitável do ato médico. A dignidade humana exige que os serviços médicos jamais sejam negociados como um bem de troca. E como extensão desta exigência, evidencia-se a natureza eminentemente missionária da medicina. Afinal, essencialmente, o cuidado médico não é negociável posto que se propõe salvaguardar a vida humana que não tem preço. É necessário que na hora do atendimento o médico se atenha exclusivamente à cura e ao bem estar do paciente, sem visar qualquer ganho material atrelado ao ato médico. A esta realidade vincula-se o princípio Constitucional que determina ser a saúde um “direito do homem e um dever do Estado”. Lamentavelmente, o Estado descumpre seu dever, e os médicos se distanciam da vocação missionária. Como profissionais liberais eles se sentem à vontade para vender seus serviços. Porém são arbitrários ao cobrar pelo atendimento; não há como estabelecer critérios para estimar o valor de troca deste serviço. É fácil calcular o valor dos bens de consumo e dos serviços que geram riqueza material, pela quantidade de trabalho necessário para produzir estes bens e serviços. Mas este critério de avaliação não serve para aferir o valor do ato médico cujo produto é o bem estar físico, mental e espiritual de um ser humano. Esses bens pessoais inerentes ao modo de ser próprio do homem são inegociáveis. A eficácia do trabalho médico é indissociável da abordagem singular, de cada caso. Até porque cada ser humano é uma originalidade inconfundível. Se cada caso demanda atenções específicas, e a avaliação do trabalho médico transcende o critério quantitativo, não há como aferir quanto vale um ato médico. Dentro desta lógica, cada homem carrega o peso de toda humanidade. Qualquer procedimento médico encerra uma responsabilidade ímpar. Uma simples injeção intramuscular e uma cirurgia complexa podem igualmente levar à cura ou à morte. Não obstante os riscos inerentes, as decisões terapêuticas devem ser tomadas oportunamente e, muitas vezes, sob pressão; tudo depende da ação pronta e competente do médico diante de uma chance de cura que não se repete; não há tempo a perder.  Por tudo que ficou dito, a atividade médica precisa ter o caráter de uma resposta incondicional, competente e criativa forjada pela sensibilidade e responsabilidade despertadas pelo pedido ostensivo ou silencioso de ajuda, do enfermo. E diante desse apelo, para atender sua dimensão ética existencial, o médico precisa ser dotado de caráter exemplar, competência, e profundo sentimento de solidariedade para com o seu próximo. A verdade é que, pondo a assistência médica no nível de uma relação profissional entendida como atividade que gera riqueza material, o paciente seria para o seu médico, ao mesmo tempo, um ser humano carente de cuidados e uma possibilidade de ganho material. Ambigüidade que torna impossível separar, na relação “profissional” médico-paciente, a ganância e a solidariedade. Por isso, ao engajar-se num esquema de produção, o médico aliena-se do seu sacerdócio. No contexto de uma economia competitiva, a prática missionária da Medicina se torna um desafio para o Estado e para o Médico. Idealmente o Estado teria que satisfazer fartamente as necessidades pessoais e familiares do médico a fim de evitar que ele seja obrigado a tirar de uma relação de serviço diretamente remunerado pelo paciente o recurso financeiro de que precisaria para viver digna e confortavelmente com sua família. O médico, por sua vez terá que ser suficientemente competente, responsável e solidário. Não obstante, a questão não se restringe a uma opção simples. Vivendo numa sociedade economicamente competitiva, muito precocemente os indivíduos são absorvidos pelo modo de existência prevalente e passam a viver de acordo com os valores do sistema econômico vigente sem questioná-lo. Erich Fromm nos adverte que os dados empíricos, antropológicos e psicanalíticos tendem a demonstrar que "ter" e "ser" são dois modos fundamentais de existência cujas características determinam diferenças no comportamento social. É fácil associar o modelo profissional e o missionário, respectivamente, às experiências de "ter" e de "ser.
No sistema econômico baseado na propriedade privada dos meios de produção, visando o lucro, alguns procedimentos assistenciais propedêuticos e terapêuticos têm alto custo adicional o que coloca o médico numa situação incômoda no modo “ter” de existir. Ao mesmo tempo em que se amplia seu poder de curar, subtrai-se a liberdade do médico de agir de acordo com sua consciência missionária. Por motivos óbvios, o elevado custo adicional destes procedimentos impede que o médico faça uso deles na atenção dispensada a todos os seus pacientes; criando-se, inevitavelmente, diferença cruel entre o atendimento dos pobres e dos ricos. Não há solução fácil para questões de tal complexidade. Para converter as pessoas e instituições ao modo “ser” de existir compatível com a atividade missionária seria preciso mudar radicalmente os determinismos socioeconômicos que condicionam o modo “ter” de existir. O meio termo para sair do impasse sem modificar a prática econômico-social implícita no modo de existência prevalente, hoje, o que se pode fazer, efetivamente, será socializar a assistência médica mediante controle total desse setor, pelo Estado. Na vigência do sistema capitalista são óbvias as dificuldades técnicas e administrativas para o resgate efetivo das obrigações do Estado com a saúde das pessoas. Tendo em vista contornar as distorções inevitáveis no modo “ter” de existir, como dissemos anteriormente, o “profissional” da saúde deverá ser subvencionado pelo Estado para poder viver confortavelmente com sua família, inclusive com oportunidades de estudar e aperfeiçoar-se nas habilidades que lhe são exigidas. Nestas circunstâncias não se avaliaria o custo do ato médico, mas quanto se deveria investir para oferecer ao médico e sua família as melhores condições de vida, liberando-o para prestar seu trabalho a quem dele precisasse sem qualquer retribuição material imediata do enfermo. Ao mesmo tempo, é fundamental que o Governo promova as condições de trabalho necessárias para que o médico possa oferecer o melhor atendimento, indistintamente, a todos os enfermos que demandem seus cuidados. Outrossim, impõe-se que o Estado ponha em prática um extenso projeto de educação sanitária, e de saneamento básico como parte de um amplo programa de saúde coletiva. Tudo isso parece um sonho muito distante, mas não há outro caminho. Seria estulto admitir que numa sociedade capitalista todas as pessoas, indistintamente, possam pagar assistência médica de alto padrão.
A socialização da prática médica no bojo de uma superestrutura socioeconômica de livre mercado seria uma excrescência utópica! Diriam muitos. Todavia, cremos ser possível criar um bolsão socialista para a assistência universal à saúde da população numa economia de mercado, mediante forte investimento público, e elevado compromisso moral dos Governos e dos médicos. Todavia, convenhamos, esta proposta excede muito as expectativas sinalizadas pelos indicadores que revelam o estágio atual do desenvolvimento humano[1]. Um olhar crítico para a realidade percebe sem dificuldade que o grande obstáculo é a adesão universal dos homens ao exercício ético da existência; ou seja, a prática da condição humana representada pela consciência pessoal e responsabilidade social. Todavia presumimos com grande margem de probabilidade que o investimento maciço do Governo e o compromisso moral de governantes e governados tornariam sustentável a assistência médica ampla e gratuita à saúde, no sistema capitalista. O modo “ser” de existir poderia prevalecer num setor da economia vinculada ao modo “ter” de existir, disciplinando as relações de trabalho no setor considerado.
A humanidade está distante de organizar-se em comunidade. Esperamos, todavia, que os homens venham a perceber, coletivamente, que sua completa realização será o fruto maduro da orientação que preside a experiência de "ser", e não da que perfaz a experiência de "ter”. As ações pertinentes ao modo "ser" de existir são a única maneira de impedir a destruição da espécie, seja a instantânea, anunciada pelo “cogumelo” resultante da explosão atômica, seja a que se prenuncia estampada nos corpos desnutridos, famintos, doentes, nos grandes bolsões de pobreza espalhados nos países ao sul do equador, e até no seio das nações desenvolvidas.      
 Everaldo Lopes


[1] “O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é uma medida resumida do progresso a longo prazo em três dimensões básicas do desenvolvimento humano: renda, educação e saúde. O objetivo da criação do IDH foi o de oferecer um contraponto a outro indicador muito utilizado, o Produto Interno Bruto (PIB) per capita, que considera apenas a dimensão econômica do desenvolvimento.”

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Convivência com as diferenças



            Este enunciado pressupõe o encontro de pessoas que guardam entre si diferenças expressivas de personalidade, projeto de vida, posses, idade, conhecimento e classe social. Isso implica no confronto de comportamentos regidos por códigos e padrões culturais dessemelhantes, o que dificulta a convivência. Ao lidar com as diferenças  antes especificadas, as pessoas envolvidas conduzem as situações conflitantes de acordo com os dons, o caráter e o controle ou maturidade emocional de cada uma. Nesta dissertação entendemos como controle emocional a capacidade de o homem lidar com relações sociais conflituosas, mantendo o equilíbrio comportamental. Na esteira dessa postura de auto domínio, mobilizam-se as potencialidades racional e volitiva dos indivíduos inter agentes tendo em vista a elaboração e prática de atitudes inteligentes e equilibradas diante de situações litigiosas. Este comportamento inerente à maturidade pessoal se confunde com a sabedoria definida pelo ajuste harmônico da razão, do sentimento e da vontade nas escolhas e decisões problemáticas. Os diferentes níveis de controle emocional e sabedoria de cada um dos atores de um encontro assimétrico delineiam comportamentos diversos. Obviamente, nestas relações ninguém alcança a perfeição, é sempre possível ser um pouco melhor.  Quanto mais amadurecidos como pessoas, maior é a capacidade de os indivíduos lidarem com as “diferenças” que os afastam uns dos outros. No relacionamento assimétrico o mais sábio se distingue por ser mais disciplinado e criativo ao lidar com a diversidade. E na elaboração da resposta final, isso implica ser capaz de atender, ao mesmo tempo, a uma visão ampla do conflito contextualizado no seu universo, à intenção firme e imparcial de fazer valer a verdade, e à determinação de agir construtivamente sem ferir os brios do outro. No diálogo que envolve diferenças, o comportamento inseguro e tendencioso do interlocutor imaturo é o maior desafio à prática do bom senso. Em geral, num conflito de ideias e comportamentos entre indivíduos maduros, cada um firmado em razões que considera válidas tenta argumentar com o máximo de isenção emocional possível, fundamentando seu raciocínio em bases lógicas sólidas. Isso faz toda diferença em relação ao comportamento do imaturo que está sempre emocionalmente comprometido, e cujos argumentos se distanciam da objetividade racional exigida. Em geral, o imaturo prejudica a transparência e eficácia dos seus argumentos deixando que o raciocínio seja influenciado pela emoção; e dessa forma perde-se em considerações prolixas, precipitadas e desconexas. O problema é mais complicado quando os atores do conflito são pessoas do mesmo grupo familiar, ou que trabalham no mesmo ambiente, forçadas a uma proximidade inevitável. O imaturo geralmente apoiado em sentimentos confusos, predominantemente contestatórios, é levado a insistir em falsos argumentos tentando dar coerência racional a uma conduta cujo fundamento é emocional. O pior é que no desdobramento do seu comportamento dissimulado, o imaturo ambicioso e inconformado com sua própria carência lança mão de teses equivocadas e tenta passar uma falsa imagem pessoal de veracidade, e independência impregnada de agressividade mal contida. Para vencer a disputa desigual o imaturo, na sua pior caracterização, esquece os escrúpulos. Para ele o mais importante é vencer o debate a qualquer custo, numa tentativa de auto afirmar-se. Daí porque a autenticidade que o imaturo se atribui não passa de autopropaganda enganosa, para ocultar sua própria incapacidade nem sempre por ele mesmo entendida inteiramente. Guardadas as devidas proporções, pode-se comparar a relação assimétrica entre adultos, com a relação do adulto com uma criança. O adulto educador natural, contrariando o desejo da criança desperta nela uma reação que pode escorregar para a agressividade se as mentirinhas forjadas pela ingenuidade infantil não forem suficientes para garantir a satisfação do desejo contrariado. Revoltada com a vulnerabilidade e dependência próprias da idade, a criança chora e sente-se desamparada. Mutatis mutandis, guardadas as devidas proporções, o adulto imaturo enredado em seus problemas reconhece, mas não confessa a própria inabilidade e despreparo diante da vida. Conflita intimamente na comparação da própria carência com a objetividade e capacidade resolutiva de outro, adulto capacitado, e sofre duplamente, tentando superar a dificuldade de elaborar condutas eficazes, e de conseguir impor-se diante de quantos não reconhecem sua autoridade mal definida em posturas inseguras, mas presunçosas. Os adultos bem formados conscientes do próprio potencial podem até conseguir conter o revide ante a agressividade e frivolidade argumentativa do imaturo, mas isso lhe custa uma vivência desagradável de desamparo ao ser desafiado pela desinformação do outro incapaz de um diálogo razoável. Diante da falta de objetividade e arrogância do imaturo, o adulto racional, disciplinado, sente algo parecido (com todo respeito) com a ira que um mosquito insistente é capaz de provocar na sua vítima eventual, mediante o zumbido desagradável e a picada imprevisível; além do fato de escapar, sempre, às tentativas de suprimi-lo (o mosquito) levadas a efeito pelo infeliz cujo sangue é objeto de “desejo” do inseto impertinente. O melhor que se pode fazer para eliminar o estresse em ambos os momentos dessa analogia é ignorar o mosquito e o imaturo confuso, perdido em sua própria turbulência interior. Esta postura exige grande controle emocional. Mas, enquanto no caso do mosquito o fator estressante é a impotência constrangedora para eliminar um agressor tão insignificante, mas esquivo; no caso da relação humana assimétrica o que estressa é a necessidade imposta pelo  dever de respeitar no “agressor” a dignidade humana de um semelhante despreparado, embora este não saiba corresponder ao respeito que lhe é conferido. Dificilmente, alguém está tão bem resolvido do ponto de vista psíquico afetivo que passe incólume pela experiência social de lidar com a imaturidade arrogante do outro ao qual falta a flexibilidade para aceitar as próprias limitações; pior ainda quando, identificando-as ele busca esconde-las, tentando impingir uma fraude da qual não é inteiramente  consciente. Em face das dificuldades inerentes a cada caso, no primeiro o melhor a fazer é aguardar com paciência o momento oportuno de eliminar o mosquito; e no segundo, por um imperativo ético, a conduta mais sábia é praticar a tolerância esclarecida, encarando o teste de resistência contra a teimosia inconsequente do imaturo, sem abrir mão da  verdade que o outro não quer aceitar. Lamentavelmente todos somos imperfeitos e o exercício do comportamento construtivo por ocasião de um conflito do tipo que estamos focalizando exige grande esforço dirigido que é no mínimo cansativo e ansiogênico. E nem sempre se tira todo proveito deste esforço, porque a mobilização de energia pessoal exigida excede por vezes as reservas de paciência e indulgência de quem se propõe interagir com o imaturo de forma prática e criativa. A única esperança de uma relação construtiva é que o imaturo evolua e alcance o nível desejável de madureza. Mas isso depende exclusivamente dele. A mudança de comportamento deve acontecer por  iniciativa e esforço pessoais do próprio. Mas quando ele se fecha nas suas limitações não se tem como induzi-lo a mudar seus hábitos comportamentais. Obviamente, se a diferença interindividual for irredutível, a relação assimétrica se resolverá num distanciamento psíquico afetivo marcado por pesado silêncio; ou resvalará para o mero assistencialismo em relação ao imaturo, em certo sentido semelhante ao cuidado benevolente de alguém para com um portador de deficiência cognitiva e emocional. Isto representa uma sobrecarga incalculável para o interlocutor mais sensato que, todavia, busca parceria apesar dos  predicados negativos pessoais do outro. Obviamente, a prática assistencial neste nível aborta qualquer tentativa de desenvolver um companheirismo saudável. Quando a desesperança ensombrece o relacionamento assimétrico sem expectativas, os seus participantes desmotivados fenecem. Suas existências ficam truncadas, privadas de fruir plenamente as possibilidades excelsas da condição humana. Os adultos amadurecidos que têm o infortúnio de viver a experiência de um relacionamento assimétrico sabem quanto é pequena a probabilidade de o interlocutor imaturo autodeterminar-se a mobilizar suas potencialidades intelectivas e volitivas no sentido de corrigir as deficiências pessoais, abrindo espaço para um encontro existencialmente rico. E esse detalhe é mais estressante ainda se por algum motivo, geralmente de ordem ética ou religiosa, a relação é mantida sem esperança  de uma interação adulta satisfatória.
            É fundamental para o futuro da própria humanidade, que o homem aprenda a lidar com as diferenças dado que elas são universais.  Embora muitas não cheguem a ser problemáticas vale a pena lembrar que elas constituem sempre um obstáculo maior ou menor a ser vencido em todas as relações interpessoais. Precisamos, pois, encará-las todas, responsável e sabiamente, para garantir o êxito final da história humana, centrado na solidariedade.                    
Everaldo Lopes

sábado, 31 de agosto de 2013

Sensualidade e espiritualidade



                                 “Dignificaste  a espécie, na nobreza
                        Das grandes  sensações  de Harmonia e Beleza
                        Disseste a glória de viver, e, agora,
                        O teu eco a cantar pelos tempos em fora,
                        Dirá aos homens que o melhor destino,
Que o sentido da vida e o seu arcano
                        É a imensa aspiração de ser divino,
                        No supremo prazer de ser humano!”[1]
           
            Ao nascer trazemos ao mundo a “condição humana”[2]. Exercitando-a, enquanto vivemos buscamos alcançar a plenitude da “existência” definida, culturalmente, por escolhas e decisões vinculadas aos valores morais assumidos.  Para atingir sua plena realização a consciência livre e responsável pode trilhar muitos caminhos. Mas sob a influência da cultura vigente a maioria dos homens respeita as normas éticas habitualmente estabelecidas.
O homem é uma construção que só se define depois de  colocado o último tijolinho da sua existência. O que é dado pela natureza,  basicamente, é a “condição humana”; o homem não é um ser natural. Como Natureza a Evolução parou na infraestrutura biopsíquica capaz de sediar reflexões, escolhas e decisões. Desde então o processo evolutivo se mantém numa dimensão predominantemente cultural através do desenvolvimento psicossocial do homem, idealmente, tendo em vista a edificação de uma comunidade. Nesta caminhada o homem constrói sua “existência”, o modo de ser que lhe é próprio.
Permanece impenetrável o mistério de como emergiram na infraestrutura biológica, manifestações noéticas eminentemente espirituais como a consciência reflexiva, o pensamento abstrato e a intuição criativa! Enfim, continua de pé a questão: o homem é a espiritualização da sua ancestralidade animal, ou uma experiência humana do Espírito? A segunda alternativa é a mais coerente com a tese monista espiritualista na qual se propõe que a matéria e sua evolução acabam sendo o resultado da ordem impressa pelo Espírito absoluto.
Não sendo um ser natural, o homem assume alguns modelos culturais que são módulos valiosos enquanto construções trabalhadas pela responsabilidade pessoal. Distinguem-se, entre outros, os modelos estoico, espiritualista religioso ou filosófico, o materialista, o naturalista, etc. Esses modelos resumem formas diferentes de interpretação da realidade, que inspiram princípios fundamentais de normas e costumes disciplinares da conduta.  Fenomenologicamente, da interação das tensões desse confronto entre a Natureza e os Valores éticos resulta a humanização. Os valores éticos assumidos e as tendências naturais agem como forças psíquicas que representam no interior do homem, respectivamente, o “poeta” e o “selvagem" que existem em cada um de nós. Mas, se a luta entre estes polos dinâmicos for radicalizada no sentido da vitória absoluta de um deles, o resultado já não será o homem. Porque este se caracteriza, exatamente, pela tensão permanente nas tentativas de integração dessas forças contrárias, mediante um equilíbrio instável, que resulta na constante criação do “humano”.
“A imensa aspiração de ser divino” e o “supremo prazer de ser humano” se integram no desejo de transcender a dicotomia inerente à polarização existencial entre a “espiritualidade” e a “sensualidade”. Na busca de uma integração destas qualidades cria-se uma expectativa que de algum modo ilumina criativamente os caminhos da “existência” na direção do ser pessoal cada vez mais consciente, livre e responsável. A tentativa do Poeta de unificar a existência Implica em apostar na harmonia essencial entre a inspiração divinatória (espiritualidade), e a sombra da ancestralidade animal (sensualidade). Esta última disciplinada mediante o comportamento ético alcançado inicialmente pela interdição dos instintos primitivos, e depois pela prática solidária inspirada no amor, manifestação do Espírito, que norteia o processo evolutivo desde o começo e se torna explícito no homem através das funções psíquicas superiores.
Historicamente a Filosofia clássica, fiel a uma epistemologia racional não conseguiu anular as oposições existenciais.  Ficou oscilando num movimento pendular do pensamento especulativo, aproximando-se mais, ora do espírito, ora da matéria. Superando esta metodologia do conhecimento baseada em contrastes, o pensamento filosófico existencialista libertou a “existência” das oposições internas, mediante uma visão intuitiva e dinâmica da realidade visível e invisível, unificada na vivência totalizante que se sobrepõe ao entendimento puramente racional objetivo. A experiência existencial vinculada à visão holística[3] da realidade transcende a percepção reduzida a conceitos estanques. A intuição criativa vislumbra a unidade estrutural da realidade universal, e predispõe à experiência de fé[4]. Nesta perspectiva abre-se espaço subjetivo para a aceitação da unidade transtemporal da Natureza e do homem. Então já não nos parecerá infantil ou aparentemente estranho o diálogo de São Francisco de Assis com o “irmão Sol” e com a “irmã Lua”.
Numa perspectiva ética naturalista como dizia Montaigne “Devo o que posso”. Mas a espiritualidade se torna evidente na perspectiva de dependência existencial recíproca e responsável das relações humanas interpessoais, nas quais o homem busca a perfeição comunitária, procurando aproximar-se dela cada vez mais mesmo sabendo-a  inatingível.
Numa tentativa de absorção dos polos existenciais na unidade do Todo universal, diríamos que o êxtase místico é o “orgasmo” espiritual de uma comunicação íntima do homem com o Absoluto criador, enquanto o orgasmo sensual é a confirmação física de um verdadeiro encontro  do par humano. Ambos, o orgasmo espiritual e o sensual, reunidos numa mesma vivência sinalizam a perfeita unidade do Espírito na sua experiência humana. Assim, de alguma forma podemos imaginar que “a imensa aspiração de ser divino” inclui “o supremo prazer de ser humano”. Esta é a minha versão da provocação que o Poeta faz nos três últimos versos da estrofe derradeira de “Ode a um Poeta morto”. O desdobramento das especulações sobre a convergência do “amor divino” e do “prazer humano” pode levar o pensamento a descobertas sutis, surpreendentes, no sentido de aproximar sem conflitos os opostos inerentes à construção do modo de ser peculiar do homem - a “existência”. Desmitificando a espiritualidade da relação pessoal com o absoluto criador, e espiritualizando a sensualidade da relação do par humano ter-se-á o êxtase total numa vivência definitiva de ser pleno. Esta experiência inexcedível arremataria, afinal, o esforço existencial de integração do sujeito consciente na unidade absoluta que se projeta além do tempo.
Everaldo Lopes.


[1] A última estrofe da “Ode a um poeta morto” de Raul de Leoni, dedicado à memória de  Olavo Bilac.
[2] Ser consciente, livre e responsável.
[3] Referente  à tendência que se supõe ser própria do Universo de sintetizar unidades em totalidades organizadas.(Aurélio)
[4] Miguel de Unamuno- “Ter fé não é crer no que não vimos, mas criar o que não vemos.”

sábado, 17 de agosto de 2013

Todos somos responsáveis



Considerando apenas a relação linear entre dois eventos subsequentes imediatos, pode-se imaginar com alguma verossimilhança a conexão entre causa e efeito no processo em questão. Porém, quando se considera a influência das ocorrências colaterais e pregressas, multiplicam-se as variáveis que compõem a rede de causas entremeadas, suprimindo-se a certeza do encadeamento entre causa e efeito no fenômeno observado. Isso acontece na complexidade do nosso universo humano. Face à impossibilidade de integrar todas as variáveis causais de um evento, não o podemos prever com certeza. Numa complexidade[1] a relação de causa e efeito fica diluída. Então, dado que tudo tem a ver com tudo, a imprevisibilidade do desdobramento do vir a ser contingente se torna evidente. Sob uma visão complexa da realidade, é problemática qualquer avaliação antecipada do resultado da integração de todos os fatores influentes possíveis na emergência de cada evento. Com o advento da consciência e da liberdade abre-se uma janela para a criatividade humana que introduz elementos novos na evolução dos acontecimentos. Por isso cresce a imprevisibilidade do vir a ser histórico. No universo das relações humanas, o exercício da liberdade sobreleva-se aos determinismos cósmicos, ampliando as fronteiras do possível até então. Só para exemplificar. De um homem amadurecido espera-se um comportamento equilibrado. Todavia, não obedecendo rigorosamente aos determinismos biológicos psicossociais, ele pode reagir violentamente, de forma inesperada, a uma palavra perturbadora (para ele) no desenrolar de uma conversa aparentemente inocente. Visando sua reação, isoladamente, tudo acontece de forma inusitada, inexplicável porque a simples sucessão de dois momentos subsequentes inerentes à situação em foco é insuficiente para a compreensão da realidade complexa. Contudo, contextualizando a turbulência do comportamento insólito daquele homem, habitualmente calmo, na complexidade da rede infinita de influências envolvendo suas experiências pregressas e colaterais, poder-se-ia descobrir a razão verdadeira do seu comportamento inusitado. As experiências vividas deixaram marcas influentes na maneira de aquele homem experiente, ponderado, interpretar o estímulo provocador do seu comportamento atual diferente do habitual. Estas influências esquecidas no inconsciente o teriam predisposto a maior sensibilidade diante de estímulos evocadores das emoções suscitadas por uma experiência anterior marcante, induzindo comportamentos inesperados. Os estímulos capazes de despertar variações incomuns da conduta podem estar relacionados com o conteúdo do evento em curso ou com a maneira de proceder dos interlocutores envolvidos. A sensibilidade exaltada também pode reagir anomalamente à postura, à simples atitude reticente de um deles, ao seu tom de voz, interpretando-os como agressivos, o que resulta numa resposta inesperada. Então, o acontecimento inusitado no presente que, isoladamente, parecera inexplicável se torna uma probabilidade previsível.
O reconhecimento da complexidade psicossocial causal do comportamento humano justifica duas afirmações que ouvimos com certa frequência, muitas vezes repetidas num tom de sabedoria impenetrável: “Nada acontece por acaso” e “Não há castigos, há consequências”. Estas afirmações remetem à ideia que a realidade é una e não se pode avaliar qualquer fato isolado do seu contexto histórico. Embora, para fins práticos, as limitações do raio de observação do sujeito consciente obriguem, até juridicamente, a restringir a avaliação das ações pessoais inteiramente aos seus atores e às circunstâncias mais próximas, ignorando a influência das anteriores e colaterais. Obviamente a responsabilidade dos atores destas ações, se analisada no contexto da complexidade histórico-evolutiva ficaria diluída entre tantos outros (atores) que se chegaria à conclusão que, evolutivamente, todos somos responsáveis direta ou indiretamente por tudo que acontece. Tendo em vista o ideal de justiça absoluta não se teria como dosar, rigorosamente, o grau de culpa de cada um diante do crime de que alguém é acusado. Nem o próprio réu seria capaz de avaliar as influências que o levaram ao desfecho criminoso. Isso não o inocenta, mas alerta para o grau de responsabilidade de quantos ao correr da história contribuíram para o crime em julgamento. Sob esta ótica os códigos penais são tentativas práticas necessárias para disciplinar o comportamento humano atual, mas sua aplicação não pode ter a pretensão de fazer Justiça. Numa perspectiva holística a verdadeira justiça envolveria o comprometimento de todos os homens uma vez que na imensa rede de relações sociais e ambientais as ações humanas estão sempre na ponta de um processo multipolar que começou com a emergência da consciência e da liberdade na história da Evolução, e se expandiu através das pessoas, numa cascata de influências, até nossos dias. Para ser integralmente responsável, a prática do livre arbítrio implicaria num alerta absoluto da consciência individual, na tentativa da percepção instantânea de todas as influências convergentes para uma determinada escolha, tarefa que é impossível para as limitações existenciais, pois ultrapassa a condição precária do eu consciente. Mesmo assim os códigos e os consensos consuetudinários[2], apesar de insuficientes são indiscutivelmente necessários para medir as responsabilidades pessoais, e para manter a ordem social.
Todos reconhecem as dificuldades inerentes ao comportamento virtuoso, o que faz sobressair a importância das interdições psicológicas e sociais. Reconhecimento que evidencia ser a humildade a base de todo esforço real para a prática virtuosa. Ninguém está em condições de dizer que nunca errou. Caberia aqui lembrar a sabedoria do Mestre dos mestres quando diante da mulher adúltera desafiou os seus (dela) supostos algozes dizendo: quem nunca pecou atire a primeira pedra. E todos sabem o desfecho desta passagem bíblica.
Essas considerações nos levam a ser mais humildes e compassivos nos nossos julgamentos e ações. Afinal, cada evento está na ponta de um processo do qual não se pode avaliar com precisão a malha das influências que o afetam, a partir das escolhas de quantos participaram retrospectivamente como intermediários desconhecidos, mas influentes na origem do evento atual. Em resumo, do ponto de vista ético evolutivo, considerando a unidade histórica da humanidade, não há como tergiversar diante da participação imediata ou remota de cada um no erro do outro. Se todos estão envolvidos no processo evolutivo ninguém está isento de erro. Só para fins práticos, esgotados os recursos investigativos disponíveis, se convenciona atribuir a culpa do erro a um único indivíduo como executor imediato do crime pelo qual toda humanidade deveria responder. Mas como todo homem pode sempre reavaliar sua conduta e reinventar-se, torna-se soberana a máxima cristã que manda condenar o pecado e perdoar o pecador. A Justiça perfeita é impossível, mas para garantir em nível aceitável o equilíbrio social, “julgar” e “punir” dentro de suas limitações faz parte da precariedade contingente do homem.
                                   Everaldo Lopes


[1] Conjunto de coisas, fatos ou circunstâncias que têm qualquer conexão ou nexo entre si. (Aurélio)
[2] Fundados  nos costumes