sábado, 31 de agosto de 2013

Sensualidade e espiritualidade



                                 “Dignificaste  a espécie, na nobreza
                        Das grandes  sensações  de Harmonia e Beleza
                        Disseste a glória de viver, e, agora,
                        O teu eco a cantar pelos tempos em fora,
                        Dirá aos homens que o melhor destino,
Que o sentido da vida e o seu arcano
                        É a imensa aspiração de ser divino,
                        No supremo prazer de ser humano!”[1]
           
            Ao nascer trazemos ao mundo a “condição humana”[2]. Exercitando-a, enquanto vivemos buscamos alcançar a plenitude da “existência” definida, culturalmente, por escolhas e decisões vinculadas aos valores morais assumidos.  Para atingir sua plena realização a consciência livre e responsável pode trilhar muitos caminhos. Mas sob a influência da cultura vigente a maioria dos homens respeita as normas éticas habitualmente estabelecidas.
O homem é uma construção que só se define depois de  colocado o último tijolinho da sua existência. O que é dado pela natureza,  basicamente, é a “condição humana”; o homem não é um ser natural. Como Natureza a Evolução parou na infraestrutura biopsíquica capaz de sediar reflexões, escolhas e decisões. Desde então o processo evolutivo se mantém numa dimensão predominantemente cultural através do desenvolvimento psicossocial do homem, idealmente, tendo em vista a edificação de uma comunidade. Nesta caminhada o homem constrói sua “existência”, o modo de ser que lhe é próprio.
Permanece impenetrável o mistério de como emergiram na infraestrutura biológica, manifestações noéticas eminentemente espirituais como a consciência reflexiva, o pensamento abstrato e a intuição criativa! Enfim, continua de pé a questão: o homem é a espiritualização da sua ancestralidade animal, ou uma experiência humana do Espírito? A segunda alternativa é a mais coerente com a tese monista espiritualista na qual se propõe que a matéria e sua evolução acabam sendo o resultado da ordem impressa pelo Espírito absoluto.
Não sendo um ser natural, o homem assume alguns modelos culturais que são módulos valiosos enquanto construções trabalhadas pela responsabilidade pessoal. Distinguem-se, entre outros, os modelos estoico, espiritualista religioso ou filosófico, o materialista, o naturalista, etc. Esses modelos resumem formas diferentes de interpretação da realidade, que inspiram princípios fundamentais de normas e costumes disciplinares da conduta.  Fenomenologicamente, da interação das tensões desse confronto entre a Natureza e os Valores éticos resulta a humanização. Os valores éticos assumidos e as tendências naturais agem como forças psíquicas que representam no interior do homem, respectivamente, o “poeta” e o “selvagem" que existem em cada um de nós. Mas, se a luta entre estes polos dinâmicos for radicalizada no sentido da vitória absoluta de um deles, o resultado já não será o homem. Porque este se caracteriza, exatamente, pela tensão permanente nas tentativas de integração dessas forças contrárias, mediante um equilíbrio instável, que resulta na constante criação do “humano”.
“A imensa aspiração de ser divino” e o “supremo prazer de ser humano” se integram no desejo de transcender a dicotomia inerente à polarização existencial entre a “espiritualidade” e a “sensualidade”. Na busca de uma integração destas qualidades cria-se uma expectativa que de algum modo ilumina criativamente os caminhos da “existência” na direção do ser pessoal cada vez mais consciente, livre e responsável. A tentativa do Poeta de unificar a existência Implica em apostar na harmonia essencial entre a inspiração divinatória (espiritualidade), e a sombra da ancestralidade animal (sensualidade). Esta última disciplinada mediante o comportamento ético alcançado inicialmente pela interdição dos instintos primitivos, e depois pela prática solidária inspirada no amor, manifestação do Espírito, que norteia o processo evolutivo desde o começo e se torna explícito no homem através das funções psíquicas superiores.
Historicamente a Filosofia clássica, fiel a uma epistemologia racional não conseguiu anular as oposições existenciais.  Ficou oscilando num movimento pendular do pensamento especulativo, aproximando-se mais, ora do espírito, ora da matéria. Superando esta metodologia do conhecimento baseada em contrastes, o pensamento filosófico existencialista libertou a “existência” das oposições internas, mediante uma visão intuitiva e dinâmica da realidade visível e invisível, unificada na vivência totalizante que se sobrepõe ao entendimento puramente racional objetivo. A experiência existencial vinculada à visão holística[3] da realidade transcende a percepção reduzida a conceitos estanques. A intuição criativa vislumbra a unidade estrutural da realidade universal, e predispõe à experiência de fé[4]. Nesta perspectiva abre-se espaço subjetivo para a aceitação da unidade transtemporal da Natureza e do homem. Então já não nos parecerá infantil ou aparentemente estranho o diálogo de São Francisco de Assis com o “irmão Sol” e com a “irmã Lua”.
Numa perspectiva ética naturalista como dizia Montaigne “Devo o que posso”. Mas a espiritualidade se torna evidente na perspectiva de dependência existencial recíproca e responsável das relações humanas interpessoais, nas quais o homem busca a perfeição comunitária, procurando aproximar-se dela cada vez mais mesmo sabendo-a  inatingível.
Numa tentativa de absorção dos polos existenciais na unidade do Todo universal, diríamos que o êxtase místico é o “orgasmo” espiritual de uma comunicação íntima do homem com o Absoluto criador, enquanto o orgasmo sensual é a confirmação física de um verdadeiro encontro  do par humano. Ambos, o orgasmo espiritual e o sensual, reunidos numa mesma vivência sinalizam a perfeita unidade do Espírito na sua experiência humana. Assim, de alguma forma podemos imaginar que “a imensa aspiração de ser divino” inclui “o supremo prazer de ser humano”. Esta é a minha versão da provocação que o Poeta faz nos três últimos versos da estrofe derradeira de “Ode a um Poeta morto”. O desdobramento das especulações sobre a convergência do “amor divino” e do “prazer humano” pode levar o pensamento a descobertas sutis, surpreendentes, no sentido de aproximar sem conflitos os opostos inerentes à construção do modo de ser peculiar do homem - a “existência”. Desmitificando a espiritualidade da relação pessoal com o absoluto criador, e espiritualizando a sensualidade da relação do par humano ter-se-á o êxtase total numa vivência definitiva de ser pleno. Esta experiência inexcedível arremataria, afinal, o esforço existencial de integração do sujeito consciente na unidade absoluta que se projeta além do tempo.
Everaldo Lopes.


[1] A última estrofe da “Ode a um poeta morto” de Raul de Leoni, dedicado à memória de  Olavo Bilac.
[2] Ser consciente, livre e responsável.
[3] Referente  à tendência que se supõe ser própria do Universo de sintetizar unidades em totalidades organizadas.(Aurélio)
[4] Miguel de Unamuno- “Ter fé não é crer no que não vimos, mas criar o que não vemos.”

sábado, 17 de agosto de 2013

Todos somos responsáveis



Considerando apenas a relação linear entre dois eventos subsequentes imediatos, pode-se imaginar com alguma verossimilhança a conexão entre causa e efeito no processo em questão. Porém, quando se considera a influência das ocorrências colaterais e pregressas, multiplicam-se as variáveis que compõem a rede de causas entremeadas, suprimindo-se a certeza do encadeamento entre causa e efeito no fenômeno observado. Isso acontece na complexidade do nosso universo humano. Face à impossibilidade de integrar todas as variáveis causais de um evento, não o podemos prever com certeza. Numa complexidade[1] a relação de causa e efeito fica diluída. Então, dado que tudo tem a ver com tudo, a imprevisibilidade do desdobramento do vir a ser contingente se torna evidente. Sob uma visão complexa da realidade, é problemática qualquer avaliação antecipada do resultado da integração de todos os fatores influentes possíveis na emergência de cada evento. Com o advento da consciência e da liberdade abre-se uma janela para a criatividade humana que introduz elementos novos na evolução dos acontecimentos. Por isso cresce a imprevisibilidade do vir a ser histórico. No universo das relações humanas, o exercício da liberdade sobreleva-se aos determinismos cósmicos, ampliando as fronteiras do possível até então. Só para exemplificar. De um homem amadurecido espera-se um comportamento equilibrado. Todavia, não obedecendo rigorosamente aos determinismos biológicos psicossociais, ele pode reagir violentamente, de forma inesperada, a uma palavra perturbadora (para ele) no desenrolar de uma conversa aparentemente inocente. Visando sua reação, isoladamente, tudo acontece de forma inusitada, inexplicável porque a simples sucessão de dois momentos subsequentes inerentes à situação em foco é insuficiente para a compreensão da realidade complexa. Contudo, contextualizando a turbulência do comportamento insólito daquele homem, habitualmente calmo, na complexidade da rede infinita de influências envolvendo suas experiências pregressas e colaterais, poder-se-ia descobrir a razão verdadeira do seu comportamento inusitado. As experiências vividas deixaram marcas influentes na maneira de aquele homem experiente, ponderado, interpretar o estímulo provocador do seu comportamento atual diferente do habitual. Estas influências esquecidas no inconsciente o teriam predisposto a maior sensibilidade diante de estímulos evocadores das emoções suscitadas por uma experiência anterior marcante, induzindo comportamentos inesperados. Os estímulos capazes de despertar variações incomuns da conduta podem estar relacionados com o conteúdo do evento em curso ou com a maneira de proceder dos interlocutores envolvidos. A sensibilidade exaltada também pode reagir anomalamente à postura, à simples atitude reticente de um deles, ao seu tom de voz, interpretando-os como agressivos, o que resulta numa resposta inesperada. Então, o acontecimento inusitado no presente que, isoladamente, parecera inexplicável se torna uma probabilidade previsível.
O reconhecimento da complexidade psicossocial causal do comportamento humano justifica duas afirmações que ouvimos com certa frequência, muitas vezes repetidas num tom de sabedoria impenetrável: “Nada acontece por acaso” e “Não há castigos, há consequências”. Estas afirmações remetem à ideia que a realidade é una e não se pode avaliar qualquer fato isolado do seu contexto histórico. Embora, para fins práticos, as limitações do raio de observação do sujeito consciente obriguem, até juridicamente, a restringir a avaliação das ações pessoais inteiramente aos seus atores e às circunstâncias mais próximas, ignorando a influência das anteriores e colaterais. Obviamente a responsabilidade dos atores destas ações, se analisada no contexto da complexidade histórico-evolutiva ficaria diluída entre tantos outros (atores) que se chegaria à conclusão que, evolutivamente, todos somos responsáveis direta ou indiretamente por tudo que acontece. Tendo em vista o ideal de justiça absoluta não se teria como dosar, rigorosamente, o grau de culpa de cada um diante do crime de que alguém é acusado. Nem o próprio réu seria capaz de avaliar as influências que o levaram ao desfecho criminoso. Isso não o inocenta, mas alerta para o grau de responsabilidade de quantos ao correr da história contribuíram para o crime em julgamento. Sob esta ótica os códigos penais são tentativas práticas necessárias para disciplinar o comportamento humano atual, mas sua aplicação não pode ter a pretensão de fazer Justiça. Numa perspectiva holística a verdadeira justiça envolveria o comprometimento de todos os homens uma vez que na imensa rede de relações sociais e ambientais as ações humanas estão sempre na ponta de um processo multipolar que começou com a emergência da consciência e da liberdade na história da Evolução, e se expandiu através das pessoas, numa cascata de influências, até nossos dias. Para ser integralmente responsável, a prática do livre arbítrio implicaria num alerta absoluto da consciência individual, na tentativa da percepção instantânea de todas as influências convergentes para uma determinada escolha, tarefa que é impossível para as limitações existenciais, pois ultrapassa a condição precária do eu consciente. Mesmo assim os códigos e os consensos consuetudinários[2], apesar de insuficientes são indiscutivelmente necessários para medir as responsabilidades pessoais, e para manter a ordem social.
Todos reconhecem as dificuldades inerentes ao comportamento virtuoso, o que faz sobressair a importância das interdições psicológicas e sociais. Reconhecimento que evidencia ser a humildade a base de todo esforço real para a prática virtuosa. Ninguém está em condições de dizer que nunca errou. Caberia aqui lembrar a sabedoria do Mestre dos mestres quando diante da mulher adúltera desafiou os seus (dela) supostos algozes dizendo: quem nunca pecou atire a primeira pedra. E todos sabem o desfecho desta passagem bíblica.
Essas considerações nos levam a ser mais humildes e compassivos nos nossos julgamentos e ações. Afinal, cada evento está na ponta de um processo do qual não se pode avaliar com precisão a malha das influências que o afetam, a partir das escolhas de quantos participaram retrospectivamente como intermediários desconhecidos, mas influentes na origem do evento atual. Em resumo, do ponto de vista ético evolutivo, considerando a unidade histórica da humanidade, não há como tergiversar diante da participação imediata ou remota de cada um no erro do outro. Se todos estão envolvidos no processo evolutivo ninguém está isento de erro. Só para fins práticos, esgotados os recursos investigativos disponíveis, se convenciona atribuir a culpa do erro a um único indivíduo como executor imediato do crime pelo qual toda humanidade deveria responder. Mas como todo homem pode sempre reavaliar sua conduta e reinventar-se, torna-se soberana a máxima cristã que manda condenar o pecado e perdoar o pecador. A Justiça perfeita é impossível, mas para garantir em nível aceitável o equilíbrio social, “julgar” e “punir” dentro de suas limitações faz parte da precariedade contingente do homem.
                                   Everaldo Lopes


[1] Conjunto de coisas, fatos ou circunstâncias que têm qualquer conexão ou nexo entre si. (Aurélio)
[2] Fundados  nos costumes

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Sexualidade na terceira idade



A ideia que a atividade sexual está ausente na terceira idade é muito difundida. Todavia, a demanda sexual dos idosos sadios diminui, mas permanece. Estatísticas confiáveis revelam que 90% dos homens de sessenta anos continuam sexualmente ativos. Os mesmos estudos dão conta de que 70% dos maiores de setenta e cinco anos e 50% dos nonagenários conservam o interesse sexual, embora apenas 15% dentre eles sejam sexualmente ativos. Segundo estudiosos do assunto, não obstante a redução da atividade sexual na terceira idade, a sexualidade do idoso continua intacta e prazerosa. Certamente a “crença” difundida sobre a negação da sexualidade no idoso deve-se a que vulgarmente considera-se apenas a sexualidade consumada no coito. Esta visão ignora outras práticas que preenchem o conceito científico de sexualidade. A literatura especializada define-a como a “disposição corporal e psíquica para responder com prazer aos estímulos adequados que podem chegar ao coito e ao orgasmo, porém não necessariamente.” Entre os idosos as carícias e toques que satisfazem a libido são práticas sucedâneas que atendem a esta definição. Portanto não se pode negar a sexualidade entre os idosos, apenas por dificuldades eventuais ou persistentes no coito. Não obstante, se a sociedade conserva uma imagem desfavorável do perfil sexual dos que ultrapassaram a meia idade, e as pesquisas estatísticas que mostram uma realidade diferente não são amplamente divulgadas, os idosos se sentem desamparados para manifestar sua libido. Assim, a falsa informação adversa acerca do comportamento sexual humano após os 60 anos ensombrece o ânimo dos homens e mulheres da terceira idade, condenando-os à conformidade, e induzindo-os a esconder seus desejos para não se exporem à crítica pública.   Conduta que empobrece desnecessariamente a perspectiva existencial dos maiores de sessenta anos.
É óbvio que o idoso continua sensível aos padrões de beleza estética da juventude; equivoca-se, porém, ao associar sua sexualidade às práticas inerentes aos anos da adolescência e maturidade física. Este engano seria patético. Mas, a coerência crítica do idoso consciente de suas limitações o protege contra o enleio em fantasias impróprias para sua idade; e o predispõe a conviver com as mudanças inevitáveis do seu comportamento sexual, sem constrangimento diante do envelhecimento do próprio perfil corporal e dos seus pares. A maturidade psíquico-afetiva conquistada com a experiência caminha paralelamente à vivência espiritual da existência, apoiada em valores universais. Isto implica num refinamento da libido que permite admirar a beleza estética do homem e da mulher sem o apelo erótico exigente! 
 É sabido que em ambos os sexos o coito se torna progressivamente problemático com a idade; no homem por dificuldades na ereção, e na mulher pela falta de lubrificação e estreitamento vaginal decorrentes da ausência dos hormônios femininos estrogênicos, após a menopausa. Porém estas mudanças fisiológicas e anatômicas são progressivas, e evoluem com ritmo e intensidade diferentes de um indivíduo para outro.  Quando o problema se torna incapacitante está indicado, opcionalmente, o uso de drogas que prolongam a ereção, e a reposição hormonal cuidadosamente controlada por médico especialista, para anular os efeitos da deficiência estrogênica.  Estas providências podem contornar as dificuldades referidas, mas não rejuvenescem, nem são essenciais para a manifestação da libido; portanto a sua prática deve ser submetida a uma avaliação crítica objetiva da realidade, até porque tais procedimentos só valem a pena quando existe sintonia afetiva na interação do casal.
O comportamento sexual humano sofre influência de fatores coadjuvantes para o melhor ou pior desempenho. Entre estes fatores sobressai a inexistência de parceiro/a por morte de um dos cônjuges, ou separação dos casais. Porém mesmo em relacionamentos oficiais estáveis, muitos casais idosos podem até aparentar sintonia aceitável, mas vivem realmente um distanciamento psíquico afetivo irredutível que equivale a não ter parceiro algum! Este geralmente é o desfecho de um casamento que não chegou a ser um verdadeiro encontro existencial. Como se vê, a atividade sexual na terceira idade sofre muitas influências psicossociais. Mas, também  interferem na sexualidade dos idosos as características biopsíquicas dos pares sexuais[1] e a influência negativa dos transtornos vasculares, decorrentes do Diabetes e doenças sistêmicas mais incidentes nessa faixa etária, obrigando ao uso de medicação específica que influi na resposta sexual.
O aumento da expectativa de vida está fazendo crescer o interesse pelo assunto de que tratamos aqui. Nos últimos 20 anos aumentou o número de idosos que buscam ajuda para melhorar o desempenho sexual. Esta demanda superaquecida tem sido explorada economicamente pela indústria farmacêutica e por charlatães inescrupulosos com ou sem titulação profissional.
Sumariando, o exercício exemplar da sexualidade humana envolvendo fatores biológicos, psicossociais e culturais é problemático em qualquer idade. Porém é mais problemático ainda na terceira idade por conta dos fatores coadjuvantes negativos já mencionados. São tantos os problemas circunstanciais que interferem na atividade sexual na terceira idade, e é tão grande a importância da sexualidade na qualidade de vida, que o aumento da longevidade humana reforça a importância da pesquisa médica, psicológica e sociológica inerente a este tema. Certamente a sexualidade na terceira idade virá a ser um capítulo dos mais complexos e de enorme importância da Gerontologia.
Entre casais idosos, é usual o julgamento estético recíproco desfavorável dos pares, ao avaliarem-se a si mesmos e às/aos parceiras/os. Reconhecemos que não é fácil assimilar o perfil corporal marcado pelo tempo. E como extensão disso, cada indivíduo, cônscio de haver perdido sua própria silhueta sedutora é assaltado pelo pudor de expor-se, inseguro, duvidando de ser alvo do interesse do seu par. É óbvio que o entrave estético é superado pelos casais que conseguiram sustentar, excepcionalmente, um sentimento de aproximação intenso depois de longa convivência conjugal.  
Como se pode perceber ao examinar a questão, o companheirismo cúmplice prolongado emoldurado por intensa afetividade, não obstante excepcional, é seguramente a alternativa mais completa para a prática sadia e compensadora da sexualidade na terceira idade! Por outro lado, a experiência recente de um encontro exitoso dos que estão solteiros nesta fase da vida é tão improvável que se pode comparar a uma loteria.
Conclui-se de tudo que ficou dito que a sexualidade na terceira idade é menos erótica do que na juventude, não obstante é satisfatória e na melhor hipótese tende a ser rica de afetividade e sentimentos de aproximação numa intimidade gratificante, cúmplice e confiante. Situação intimamente associada à fortuna de um consórcio conjugal alicerçado desde o começo por afinidades psíquico-afetivas e culturais.
Everaldo Lopes


[1] A atividade sexual  na terceira idade sofre influência tanto da forma como cada um encara as mudanças corporais inerentes à idade, como de atitudes e expectativas impostas pela cultura vigente. Para muitos que não conseguiram despedir-se da valorização física dos atributos da juventude o envelhecimento do próprio corpo e o da companheira/o é uma agressão à sensibilidade estética.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Cultura da solidariedade



A humanidade tem evoluído mediante um processo educativo permanente. Este processo resulta em comportamentos moldados por valores criados pelo próprio homem, cuja prática enseja repercussões que excedem todas as expectativas do vir a ser natural. Delimita-se assim o caráter cultural[1] da solidariedade que coincide com a interdição, no sujeito consciente, de manifestações e tendências naturais opostas aos comportamentos aprendidos.
A prática solidária indissociável do amor abnegado[2] não sendo um epifenômeno da infraestrutura biológica abre espaço para a crença no Espírito; absoluto que antecede a matéria e manifesta-se no homem através das funções psíquicas superiores. Especulações metafísicas sobre a gênese do Universo[3] e a evolução da matéria até a vida consciente reflexiva dão suporte teórico à tese deste absoluto criador. O conhecimento retrospectivo da Evolução evidencia um sentido, um objetivo deste processo, e remete à ordem que preside o Universo, preestabelecida desde sempre.
O objetivo da Evolução não pode ser outro senão confirmar a perfeição da unidade absoluta na comunhão universal. A fim de alcança-lo a Evolução desviou-se do crescente aperfeiçoamento biológico, para a organização social exemplar. O sucesso da organização social que envolve a divisão do trabalho coletivo, como acontece entre as abelhas e as formigas, já se demonstrara eficiente, constituindo-se num marco avançado do progresso evolucionário. Porém nos exemplos citados a divisão social instintiva do trabalho, predeterminada geneticamente, não permite variações ocasionais inteligentes e oportunas. Obstáculo que foi superado quando o “vir a ser” consciente e livre inaugurou a possibilidade de o homem organizar-se em sociedade voluntariamente e de modo flexível, funcional. Nessa perspectiva tornou-se possível enriquecer o processo de socialização com ações solidárias mais eficazes com vistas ao bem estar dos indivíduos, à sustentabilidade da vida, da sociedade, e do Planeta. A grande questão nesta linha evolutiva é como explicar a transição dos fenômenos biológicos para as funções psíquicas superiores que possibilitam as manifestações espirituais representadas pela percepção, pela imaginação, pelo pensamento criativo, pela solidariedade etc. Afinal, “Como se funda o campo subjetivo que torna possível a realização de trocas simbólicas que envolvem, numa perspectiva construtiva, relações de reciprocidade, lealdade, solidariedade, cooperação, fidelidade etc.?” Não sabemos responder a este questionamento. A ciência só tem acesso cognitivo a uma parte desse processo; o seu fundamento último continua inexplicável. Não obstante é no “campo subjetivo” do “eu” que se desenvolve o esforço civilizatório em que o comportamento natural é submetido ao crivo de uma ordem existencialmente concebida, tendo em vista objetivos específicos do projeto humano pessoal e coletivo que prolonga a Evolução. A solidariedade e a integração comunitária em última análise emergem com a substituição do egoísmo pela vivência inclusiva do “nós”.  O ser consciente é capaz de sentir o encantamento da unidade implícita no todo universal intuitivamente concebido, sendo esta a motivação transcendental para a prática solidária em favor do projeto comunitário. Porém o encanto, apenas, não garante a resposta humana autêntica. Numa perspectiva humanística o sujeito consciente só se torna “pessoa”[4] mediante a assimilação do caráter reciprocamente constituinte do “eu” e do “tu”, fundamento da experiência solidária e base psicossocial do esquema comunitário. A elaboração desse processo começa com o comportamento ético, e só se consuma na prática amorosa da solidariedade. Mas, como transformar um comportamento ético, consciente, numa prática amorosa entre as pessoas; ou, como ensinar as pessoas a serem solidárias? Mais uma vez precisamos reconhecer que a psicossociologia não nos dá conta dos passos necessários desta pedagogia, limitando-se a ratificar a excelência das práticas solidárias realizadas pelos indivíduos que alcançaram razoável integração pessoal no exercício da razão, do sentimento e da vontade.
Há uma distância considerável entre o conhecimento racional da importância dos valores éticos universais (verdade, justiça, solidariedade, amor) e a prática coerente desses valores. Tomando-os como referenciais, todos sabem o que é certo e o que é errado, e nem por isso agem coerentemente fazendo valer o que é certo. É notório que a diferença entre o hábito do bem (virtude) e o hábito do mal (vício) envolve muitos elementos influentes nas relações psicossociais. A complexidade destas influências não permite total compreensão da dinâmica da relação intersubjetiva, reforçando a tese da imprevisibilidade do comportamento humano. Embora a “voz da consciência ética” ecoe no íntimo de cada um a ação coerente com os valores positivos assumidos depende de um ato voluntário resultado da determinação pessoal. Mas não se pode falar com precisão de como se pode induzir, didaticamente, o sentimento de solidariedade que impele a vontade à prática do “bem”. Os pedagogos discutem sobre qual o elemento catalizador da reação psicossocial inerente ao aprendizado do comportamento virtuoso. Na verdade, este elemento envolve a vontade pessoal de atender ao apelo virtuoso transcendental. Para pô-lo em prática, porém, urge reconhecer as limitações que impedem o homem de realizar-se moralmente, amparado apenas por sua infraestrutura biológica. Ele necessita de algo mais para a transmutação da conduta ética impositiva, no comportamento solidário amoroso. Neste ponto os místicos enfatizam a ajuda transcendental sem a qual ninguém daria conta de amar o suficiente para agir solidariamente. Daí a interpretação mística de serem a fé, a esperança e o amor (caridade) dons de Deus infusos na condição humana, indispensáveis à própria humanização. Não dá para descrever o roteiro da solidariedade. Dir-se-ia, misticamente, que o apelo inicial (motivação) vem de Deus. Mas no seu caminhar existencial cada um precisa estar disposto a responder a esse chamamento. E para isso tem que confiar na disponibilidade dos outros e na própria para o encontro verdadeiro que enseja a experiência amorosa eminentemente inclusiva num “todo” absoluto, perfeito. Talvez o caminho pedagógico mais eficaz para induzir a experiência redentora de participar deste “todo” seja trabalhar na intimidade subjetiva a dificuldade de confiar! Vencendo-a, abrem-se as portas da subjetividade para uma aproximação aberta, e integração do sujeito consciente num contexto solidário. Integração que depende, não da confiança baseada em probabilidade estatística, mas aquela que se confunde com a atitude de entrega total a um absoluto intangível, perfeito por definição, em obediência incondicional a uma determinação superior (à “Vontade de Deus”). Isso implica em ter fé, acreditar em algo capaz de contrapor-se à improbabilidade estatística, ou seja, confiar em influências vinculadas a imponderáveis que trabalham, graciosamente, em favor da conquista do bem desejado – a vivência comunitária; movimento subjetivo, místico, que se apoia numa crença. Mas para que seja uma convicção íntima eficaz, esclarecida, o sujeito consciente precisa vivê-la num dialogo responsável com a ordem universal (Deus) através da convivência com os seus pares. Na prática esse comportamento exige a candura de uma criança e o equilíbrio de um sábio... implica na experiência sutil e exigente de crer no amor, e imolar a própria vida nesta crença. Ou seja, para conviver solidariamente precisamos superar radicalmente as fragilidades humanas, numa rebelião pacífica, heroica, contra toda forma de egoísmo! Isso é amor. Neste mundo dominado pela economia capitalista que privilegia a competição ambiciosa não espanta ver que a humanidade ainda esteja tão distante do ideal comunitário. Contudo não podemos negar que no jogo das contradições históricas é cada vez maior o número dos que se rendem à evidência de que ou nos salvamos todos ou ninguém se salvará. Atropelados pelos percalços do comportamento exclusivista que leva a humanidade à desagregação suicida, o homem está descobrindo a excelência da prática solidária.   
  Everaldo Lopes


[1] Entende-se por cultura o conjunto de características humanas que não são inatas e que se criam e se preservam ou aprimoram através da comunicação e cooperação entre os indivíduos em sociedade.
[2] Amor que move a vontade à busca efetiva do bem de outrem.
[3] Vide devaneio especulativo I neste Blog
[4] Pessoa- Cada ser humano considerado na sua individualidade física ou espiritual, portador de qualidades que se atribuem exclusivamente à espécie humana, quais sejam, a racionalidade, a consciência de si, a capacidade de agir conforme fins determinados pelo discernimento e adoção de valores solidários.