sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Aconselhamento Filosófico IV



No diálogo terapêutico é indispensável que o Conselheiro e o Cliente encarem os fatos em discussão sem qualquer julgamento de valor. Durante o exame do seu problema o cliente analisa as emoções despertadas, e identifica possíveis associações com experiências anteriores. Reconhecendo-as poderá contornar influências estranhas à conjuntura atual. Neste processo se denunciam os parâmetros comportamentais já incorporados culturalmente. Todavia, para responder com pertinência às situações novas, o Cliente deverá deter-se, examinando-as e avaliando as alternativas de resposta responsável.
No Aconselhamento Filosófico é fundamental o compromisso do Conselheiro e do Cliente com a autenticidade. Disposição que ajudará o consulente a reorientar-se livre e objetivamente. Neste clima de liberdade se tornará mais fácil para ele manifestar espontaneamente suas ideias e seus sentimentos, permitindo-se reconhecer os próprios deslizes. Dessa forma reunirá condições para elaborar a resposta pessoal às demandas existenciais.  Quando não ocorrer espontaneamente, o conselheiro estimulará o Cliente a descobrir no seu comportamento as intenções não reconhecidas, de ganhos secundários. Esta é a oportunidade de o Conselheiro  examinar com o consulente as premissas filosóficas desenvolvidas na obra de um filósofo conhecido que trate de questões afins às dificuldades do cliente, e descobrir a sua orientação filosófica. Reconhecendo sua própria postura diante da realidade, o cliente poderá reorienta-la, se for o caso, motivado pela coerência pessoal. A tendência filosófica do aconselhado pode ser, por exemplo, a de agravar (dramatizando) as situações conflitantes, esperando com isso ganhar atenções, um ganho secundário ainda não reconhecido explicitamente. E, descobrindo essa disposição, o cliente percebe o engodo que sua conduta encerra. A partir desta descoberta é possível que mude o próprio modo de agir, atendendo ao desejo de valorização pessoal. Igualmente, quando o cliente consegue integrar numa nova visão de mundo o problema que o aflige, alivia muitas tensões psíquicas aflitivas. Reconhecendo algo essencial sobre si mesmo, compreende a essência do conflito evocado na  sessão terapêutica. O problema pode estar associado à confusão de conceitos erroneamente interpretados como sinônimos, que implicam, porém, em posturas existenciais diferentes. É o caso, por exemplo, da diferença conceitual nem sempre percebida claramente entre os vocábulos indivíduo e pessoa, dano e ofensa. No primeiro exemplo, indivíduo é apenas a unidade taxinômica de uma espécie qualquer, enquanto a pessoa é cada ser humano considerado pelas qualidades psíquicas superiores que se atribuem exclusivamente á espécie Homo Sapiens sapiens[1], e  abrem espaço para relações interindividuais peculiares. Na prática social, a confusão entre estes conceitos deixa margem para avaliações distorcidas da dignidade humana com repercussão no comportamento. Esta falta de clareza conceitual atropela o caráter dialógico do “eu”[2] a cuja constituição está atrelado o fundamento da solidariedade. A percepção de que a pessoa é um indivíduo especial com características ímpares faz toda diferença. Mesmo reduzido a privações morais e físicas, o homem, como pessoa, é credor de um tratamento especial. No segundo exemplo, na prática, a indistinção entre dano e ofensa pode gerar sofrimento desnecessário. Ora, enquanto o dano é unilateral, a ofensa é bilateral. Ou seja, não haverá ofensa sem que alguém se sinta ofendido e o sentir-se ofendido não é uma postura essencial, pode ser modificada por opção pessoal esclarecida. Já o dano não depende do objeto danificado. Por exemplo, uma martelada no dedo causa um dano que independe da reação do indivíduo lesado, isto é, o dano tem um valor absoluto. Diferente da ofensa que tem a dimensão conferida pelo ofendido. Um apelido só pega se o apelidado reagir irado. A ofensa depende da reação do ofendido, não tem, portanto, valor absoluto. Não distinguindo existencialmente o dano, da ofensa o cliente poderá sofrer desnecessariamente como danos, ofensas que só se consolidarão com o seu consentimento. Ao assimilar intelectual e emocionalmente a distinção conceitual entre indivíduo e pessoa, e entre dano e ofensa, o Cliente impedir-se-á, respectivamente, de praticar ações ofensivas ao outro, e de sofrer aflições desnecessárias.  
O Conselheiro Filosófico ajuda o Cliente a compreender-se melhor à luz da leitura filosófica das situações existenciais que vivencia, capacitando-se a assumir atitudes voluntárias, maduras e objetivas.
            Para Sócrates, todos nós temos ciência das coisas, apenas precisamos lembrar o que já está dentro de nós; mas não raro se faz necessária ajuda externa para trazer à tona esse conhecimento. Para comprovar sua tese Sócrates fazia uma série de perguntas correlatas para que o interpelado respondendo-as chegasse por si mesmo à solução definitiva da questão que supunha ignorar. A Maiêutica[3] e o Aconselhamento Filosófico embora sejam metodologias distintas contam sempre com a capacidade intelectual e domínio emocional do par dialogal: respectivamente, o Filósofo e o Discípulo, o Conselheiro e o Cliente. É preciso confiar na perspicácia do interlocutor, para conduzi-lo com proveito numa introspecção investigativa. O conselheiro não oferece verdades acabadas, mas dá orientações para quem esqueceu ou negligenciou os meios de examinar a si mesmo, a fim de que encontre a resposta que lhe parecer verdadeira. A evolução deste processo dependerá do nível de liberdade existencial do Cliente para elaborar respostas originais resolutivas face aos desafios do vir a ser consciente. O CF pressupõe no orientando a sensibilidade necessária à percepção de sutilezas do seu conteúdo subjetivo intelectual e afetivo, e a capacidade de estabelecer analogia entre este conteúdo e as reflexões filosóficas inseridas nas doutrinas que marcaram a evolução histórica do pensamento[4]. Exemplificando. Enquanto os Empiristas distinguem o conhecimento teórico do prático, privilegiando este último, em detrimento do meramente racional, os Racionalistas enfatizam a razão, e não a experiência prática, como referencial de valor. Muitos de nós seguimos uma destas duas orientações como diretrizes de vida e não nos damos conta das suas implicações existenciais. Porém, consciente de haver adotado uma ou outra destas alternativas, o cliente poderá ter um insight revelador sobre sua própria orientação existencial, descobrindo um pouco de si mesmo e, quiçá, o motivo dos seus conflitos. Na verdade, Empiristas e Racionalistas assumem posições extremas e, todavia, a vivência do equilíbrio existencial demanda a perfeita coerência integrativa da teoria e da prática. Aí entra a criatividade do Cliente. É óbvio que estes exemplos simplificados apenas mostram como funciona o aconselhamento Filosófico. Como dissemos no texto anterior, “é o diálogo, a troca de ideias que é terapêutica.” Na medida em que o CF e o cliente debatem impessoalmente as doutrinas filosóficas evocadas, multiplicam-se as oportunidades de esclarecer questões pontuais relacionadas com os conflitos do consulente. Nestes debates, só para exemplificar, quanta sabedoria se descobre na proposta kierkegaardiana de uma transcendência necessária, em resposta à angústia diante da finitude! Quanto discernimento se revela na afirmação de Schopenhauer: “estamos sempre tentando dissipar a obscura perspectiva do nada”. Perspectiva que ameaça a existência de instante para instante, e que tentamos superar apostando seriamente em crenças que podem não passar de invenção articulada, com alguma probabilidade de acerto. Situação que poderia parecer ao mesmo tempo aleatória, patética ou ridícula para pessoas que se querem solidamente objetivas. Mas que, uma vez assumida e vivida com entusiasmo mediante um ato de fé é a verdade de cada um. De repente, o que poderia parecer um simples palpite ingênuo se transforma em referência essencial ao exercício da consciência crítica!...
                  Termino lembrando que o saber filosófico milenar é um recurso poderoso para ajudar o homem a lidar com a realidade. Acredito em que o “Aconselhamento Filosófico” pode ser um auxiliar valioso da Psicanálise, fazendo uma ponte entre milênios de sabedoria e o enfrentamento dos desafios existenciais atuais, ajudando as pessoas a levarem uma “vida examinada” como preconizava Sócrates.
                 Everaldo Lopes


         [1] Racionalidade, consciência de si, discernimento de valores.
[2] O “tu” está presente na constituição do “eu” ; um não existe sem o outro ( Vide Martim Buber  no seu livro “eu e    tu”.  )  
[3] Método socrático que consiste na multiplicação de perguntas, induzindo o interlocutor na descoberta de suas próprias verdades e na conceituação geral de um objeto. Houaiss

        [4]Vide texto anterior

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Aconselhamento Filosófico III


    Os filósofos nos legaram lições de sabedoria. Todas elas objetivam elaborar uma “visão de mundo”[1] para contextualizar a existência[2], ensejando a plena realização das  potencialidade humanas. O exemplo de Epicuro (342aC - 271aC) é emblemático. Ele filosofava exercitando-se para aumentar a autoestima em busca da felicidade serena, transformando em alegria o medo profundo diante de um devir incerto. Desde então, o pensamento evoluiu através de Escolas Filosóficas que buscaram entender a realidade cósmica e como nela se contextualiza o fenômeno humano. A partir de uma intuição fundamental, cada Pensador tem contribuído para o patrimônio cultural da Humanidade com mundividências diferentes.
Platão (470a.C-399a.C) defendeu o primado das essências. Acreditava na existência das formas puras (essências), abstratas, das quais os objetos materiais são cópias imperfeitas. Para ele conhecer a essência das coisas é o propósito mais belo do homem, embora as essências sejam inalcançáveis. Todavia o pensador pode delas se aproximar pelo conhecimento sem nunca alcança-las. No exercício da consciência responsável, a essência da felicidade estaria vinculada à realização intelectual e afetiva do ser consciente, à luz de critérios éticos. Orientação específica do modo de ser próprio do homem.
Aristóteles (384a.C-322aC) inventou a lógica, instrumento intelectual indispensável para a orientação da resposta coerente ao problema existencial cuja compreensão está sujeita a erros do pensamento crítico. É muito nítida a relação entre a atitude intelectual diante da realidade e as ações empreendidas pelos seres conscientes. Daí a importância da Lógica no desenvolvimento da existência de cada um. Nesta perspectiva a especulação metafísica realiza o coroamento do pensamento filosófico, construindo uma mundividência logicamente coerente e significativa na qual se contextualiza a “existência”[3].
Montaigne (1533-1692) filosofava auscultando os próprios pensamentos. Entendia a Filosofia como uma forma de cultura[4], e não uma ginástica intelectual acadêmica que tenta encher os vazios da vida com pensamentos abstratos. Para ele, filosofar é a arte de viver corretamente. Montaigne queria fazer um auto retrato do seu pensamento para evidenciar os meandros existenciais, entende-los e corrigi-los quando necessário. Seus Ensaios demonstram que qualquer movimento do espírito, e toda e qualquer mudança física pode ganhar cor na tela da consciência. Os sentimentos encarados sem censura, mas com respeito e inteligência são os grandes companheiros do homem sincero, autêntico, capaz de enfrentar a solidão. Como ele mesmo dizia: “Acho que não posso proporcionar nada melhor ao meu espírito do que permitir que ele dialogue consigo mesmo de modo centrado, em plena tranquilidade”... desta forma encontrará a coerência e a paz existencial.
Séculos depois John Locke (1632-1704), representante maior do Empirismo[5] distinguia conceitualmente informação e reflexão. Entendendo que a informação é adquirida pelos sentidos, e que a reflexão é o tratamento especulativo da informação colhida pela introspecção, através de processos mentais como pensar, acreditar, imaginar, querer. A informação adquirida através dos sentidos poderá ser comprovada na prática, levando a conclusões objetivas. Mas a reflexão é da ordem do subjetivo e não pode ser comprovada objetivamente. Estas incursões filosóficas estabeleceram a distinção entre o conhecimento teórico e o prático, conferindo ênfase especial ao pensamento objetivo, empírico, experimental.
Os Racionalistas vieram depois, liderados por Imannuel Kant (1724-1804). Para estes a razão, e não a experiência é o giz que escreve nas páginas em branco do cérebro. A reflexão ganhou força pondo o indivíduo no centro do processo social e político; diferentemente do teocentrismo dos primeiros séculos da idade Média. Com esta orientação ocorreu uma exaltação da razão pura. A razão prática ficou encrustada na razão crítica, na medida em que esta define princípios gerais que delimitam o comportamento humano conferindo coerência à prática existencial.
Realçando a afetividade, como uma reação ao racionalismo, quase ao mesmo tempo, Rousseau (1712-1770) e Hegel (1770-1831) inauguraram o Romantismo. Esta visão alimentou o nacionalismo que consolidou os Estados europeus. Neste mesmo contexto histórico, Jeremy Bentham (1748-1832) pregava que o objetivo do homem é promover “a maior felicidade para o maior número de pessoas”. Este Pensador inaugurou a Filosofia Utilitarista segundo a qual o conhecimento (pensamentos) e as ações humanas (práticas) valeriam pelo quanto pudessem melhorar a qualidade de vida da maioria das pessoas.
Na sequência, Arthur Schopenhauer (1788-1860), denuncia o otimismo das pessoas. Dizia ele: “Este otimismo é um escárnio ante o indescritível sofrimento da humanidade”. Assim como a criança teme a escuridão, “estamos sempre tentando dissipar a obscura perspectiva do nada” que ameaça a existência de instante para instante. Como? Apostando em formas de pensar que não passam de invenção articulada, aleatória, com alguma probabilidade de acerto. Situação que é ao mesmo tempo patética e ridícula para pessoas que se querem sérias. Mas que, assumida e realizada com entusiasmo o que seria “invenção articulada” passa a ser a verdade de cada um. 
Posteriormente, William James (1842-1910) e John Dewey (1859-1952) propuseram o Pragmatismo, a única Escola Filosófica moderna  exclusivamente americana como uma reação à presunção do Racionalismo e à ingenuidade do Romantismo. O pensamento pragmático assim se resume: “a verdade de uma teoria, a justeza de uma ação, e o valor de uma atividade são demonstrados pelo proveito imediato”. Orientação que abriu espaço para o desenvolvimento do Capitalismo.
No século XIX a descoberta das consequências da teoria da Relatividade, as formulações do princípio de indeterminação de Heisemberg e da Teoria Quântica coincidiram com a derrocada do iluminismo[6]. Ficou demonstrado que não há verdade absoluta, tudo muda em relação a tudo, dependendo da posição do observador. Essa perspectiva contrasta com a expectativa de que as Ciências pudessem resolver todos os problemas humanos. Os Existencialistas surgiram então nesta lacuna cultural. Rejeitaram o “Essencialismo” platônico; admitiram não existir nenhuma essência inicial, somente o ser fenomênico, pelo menos em relação ao homem. E no rastro deste posicionamento veio o questionamento inevitável. Se não há nenhuma essência somos todos ocos. Bradou, então, Nietzsche (1844-1900): “Deus está morto e nós o matamos.” O Universo é imprevisível e indiferente (que desespero!). Por que então levantar amanhã? Esse desespero foi pavor para Kierkegaard (1813-1855) Teólogo Dinamarquês, náusea para Sartre (1905-1980), absurdo para Cumus (1913-1960). Fundamentalmente, o existencialismo estava empenhado na busca de uma moral para fazer a coisa certa sem Deus. Fazer a coisa certa pelo próprio Bem e não por medo de punição ou por vantagens (ganho secundário). Isto demonstra que o  existencialismo conta com um núcleo de esperança e bondade encoberto na retórica depressiva. Os existencialistas descobriram de fato a moralidade na dignidade de ser consciente e livre. Kierkegaard acentuou a dificuldade de encarar a existência pura, sem essência, sem significado, sem propósito. O Teólogo transcendeu este impasse consolidando o conceito do nível “ético religioso” da existência.
E assim, nesta mesma linha existencialista, ao longo do tempo, o fenômeno humano (existencial) foi examinado e associado a diferentes maneiras de pensar. Há existencialistas materialistas e os há espiritualistas convictos vinculados a uma orientação religiosa. Kierkegaard é considerado por muitos como existencialista cristão e Gabriel Marcel (1889-1973) como o representante católico desta corrente do pensamento.
          Martim Buber (1878-1965) demonstrando que o “eu” se constitui existencialmente no confronto com um “tu”, descobriu o homem na sua relação identitária com o outro. Dessa forma, a busca assumida de alguém com quem se possa partilhar a experiência de existir assume importância renovada. A concepção buberiana da relação “eu-tu” pode ser considerada como a base psicossocial da solidariedade.
          Bérgson (1859-1941) ao pregar a originalidade do homem argumentou: “Que tipo de mundo existiria se a mecanização dos espíritos, imbuídos de uma tecnologia absorvente, avassalasse a raça humana levando os povos e as pessoas à uniformidade das coisas?” Este questionamento sugere que as diferenças estão inscritas no conceito amplo de Humanidade e devem ser superadas pelo efetivo exercício da consciência livre e responsável.
Como sempre os Filósofos nos põem diante de verdades que eles experimentaram ao longo de profundas meditações, mas discordam em muitos pontos. Com essa autoridade Pitágoras nos afirma: Nenhum homem é livre se não puder comandar a si mesmo. Para Hobbes, sem um poder que todos reverenciem, os homens guerreiam, inevitavelmente. O que contraria os que confiamos na possibilidade de evolução deste estado de beligerância para uma convivência comunitária através da prática solidária, encampada espontaneamente pelo próprio homem.
        O Aconselhamento Filosófico (A.F.) vale-se das lições de sabedoria que os Filósofos deixaram, para ajudar o homem na difícil tarefa de “existir” enfrentando problemas novos a serem absorvidos pelo vir a ser existencial. Desta forma o Aconselhamento Filosófico ampliou o significado da Filosofia Prática já utilizada pela Ética Aplicada. E está ajudando as pessoas a levarem uma vida examinada como preconizava Sócrates, fazendo uma ponte entre milênios de sabedoria e a necessidade de enfrentar os desafios atuais.  
             A verdade é que há intransigente necessidade humana de contato social. O próprio Nietzsche, enfatizando o caráter social do homem disse que        para viver só, ou se é um animal ou um Deus! Neste contexto, apresenta-se o vazio já denunciado por Schoupenhauer quando anunciou que o dinamismo da existência está montado em cima de uma “falta”. A assimetria no vir a ser existencial é que gera o dinamismo de atualização da condição humana e o preenchimento desta falta ou vazio representa um valor ancorado na razão ou na fé. Valor que confere significado aos comportamentos pessoais. Para Sartre o homem é aquilo que faz de si mesmo. Eu acrescentaria: a partir da facticidade e contando com o imponderável - elemento que supõe algo ultra fenomênico- essencial, para arrimar o desenvolvimento da existência. Acho que não se pode ignorar a possibilidade de um princípio metafísico inerente à existência para que o ser consciente possa construir sua própria essência. Mas só o outro preenche o vazio, a falta original. E isto aponta a capacidade humana de transcender-se, denunciando o Princípio metafísico já mencionado[7].
                        (Continua no próximo texto)
                        Everaldo Lopes


[1] Compreensão geral do Universo e da posição nele ocupada pelo homem, que   se expressa por um conjunto mais ou menos integrado de representações e que deve determinar, em última instância, a vontade e os atos do seu portador.(Aurélio)
[2]No pensamento de Kierkegaard (1813-1855) e no existencialismo contemporâneo, modo de ser próprio do homem. (Dic.Houaiss)

[3] Modo de ser próprio do homem.
[4] Categoria dialética de análise do processo pelo qual o homem, por meio de sua atividade concreta (espiritual e material ), ao mesmo tempo que modifica a Natureza, cria a si mesmo como sujeito social da História.
[5] Empirismo é um movimento que acredita nas experiências como únicas (ou principais) formadoras das ideias, discordando, portanto, da noção de ideias inatas.(Wikipédia)
          [6] Movimento intelectual do século XVIII, caracterizado pela centralidade da
          ciência e da racionalidade crítica no questionamento filosófico, o que implica
          recusa a todas as formas de dogmatismo, especialmente o das doutrinas
          políticas e religiosas tradicionais.
[7] Vide o texto Existência, esperança e fé, neste blog.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Aconselhamento Filosófico II



Os Filósofos sempre estiveram envolvidos com questões como a origem e destino do Universo e do homem, o sentido da vida, o uso responsável da liberdade... A consciência da precariedade do vir a ser incerto do homem demanda um apoio confiável para sua existência. Urge embasa-la racional e emocionalmente. Daí a necessidade de responder às interrogações filosóficas: Como tudo começou? O que somos nós? Como tudo acabará? A instabilidade existencial se desdobra em conflitos entre a razão e a emoção, em crises de significado do mundo e da vida, e nas perspectivas de envelhecimento e morte pessoais, ou dos entes queridos. Destes impasses ninguém escapa. Especulando metodicamente sobre esses temas os Filósofos chegaram a definir alguns posicionamentos básicos. Para enfatizar esta preocupação lembro o testemunho de Epicuro que dizia ser vazio o argumento do Filósofo que não alivia a aflição humana. Sócrates, por seu turno, afirmava que a vida não analisada não vale a pena ser vivida, e defendia o auto aprimoramento do homem mediante o conhecimento de si mesmo, sendo este saber a vocação mais elevada do ser humano em prol de uma vida mais realizada. Os defensores do Aconselhamento Filosófico admitem como fator de instabilidade a vivência não esclarecida da desordem dos conceitos filosóficos que servem de paradigmas ao vir a ser consciente... e apostam em que, ordenando-os, abre-se o espaço para resgatar o equilíbrio existencial. Neste sentido é de grande ajuda a contribuição do Aconselhamento Filosófico (AF) na medida em que põe o Cliente em contato com ideias e doutrinas positivas que podem contextualizar, corrigindo-o, o desacerto intelectual e afetivo problemático. A missão do Conselheiro é captar a sabedoria dos Filósofos que tentaram compreender o fenômeno humano, e apresenta-la ao cliente, aproveitando o ensejo para situar os seus problemas num todo significativo. O ser consciente precisa encontrar o verdadeiro sentido de sua existência no Universo estruturado que reúne o infinitamente pequeno, o infinitamente grande, e o infinitamente complexo. O Aconselhamento Filosófico oferece orientações gerais para descobrir o papel do vir a ser consciente no contexto da estrutura evolutiva do Universo. Não há um método geral de Aconselhamento Filosófico; o Conselheiro apenas apresenta ao cliente uma visão mais ampla de suas possibilidades de encarar a dificuldade. Com este objetivo alinham-se os cinco passos do Aconselhamento: 1) definir e examinar, progressivamente o Problema; 2) sopesar e canalizar criativamente a Emoção a ele vinculada; 3) ganhar a distância subjetiva necessária para Análise objetiva da situação e das alternativas de solução; 4) olhar em perspectiva o processo para a Contemplação do todo; 5) buscar numa totalidade significativa o Equilíbrio da resposta ao problema focalizado. A paz interior duradoura é o objetivo a ser alcançado... Coincidentemente, as iniciais das etapas do processo descrito formam a palavra “PEACE”.
Confrontando as conclusões inspiradas nos sistemas filosóficos afins com o problema que aflige o cliente, o Conselheiro ajudá-lo-á a alcançar uma posição de equilíbrio fundamentada na compreensão da própria existência, preparando-o para agir apropriadamente tendo em vista a solução de sua problemática pessoal.
Diferentes Escolas Filosóficas oferecem interpretações peculiares da situação existencial do cliente, das quais se tiram orientações gerais sobre o que fazer. Cabe ao Conselheiro discutir uma posição filosófica que seja ao mesmo tempo justificável por seus méritos, coerente com a natureza do problema apresentado pelo cliente e compatível com suas potencialidades. Depois de o cliente articular o problema, depois de exprimir suas emoções e assumir uma posição filosófica consentânea, estará mais próximo de conseguir o equilíbrio psíquico afetivo a que aspira.
As pessoas são auto referentes mas em geral o homem alienado de sua realidade mais íntima assume o que lhe convêm, circunstancialmente, e dissocia-se de tudo que compromete sua autoestima, atribuindo-o a terceiros. Este descompasso interior leva à irresponsabilidade neurótica que é o cerne de um comportamento de fuga inconsciente, de uma realidade insuportável. Uma visão panorâmica do problema existencial corretamente contextualizado pode despertar o homem “alienado” de si mesmo, e abrir caminho para a recomposição de sua integridade pessoal. A análise filosófica das situações existenciais conflitantes pode ajudá-lo a compreender a incoerência de sua alienação. Este passo rumo ao comportamento centrado, objetivo elimina a ansiedade e amplia a liberdade pessoal, condições indispensáveis à plenitude existencial .   
A evolução das doutrinas filosóficas através dos tempos mostra os posicionamentos correspondentes a modos peculiares de explicar, e responder às inquietações do “ser consciente”.
Representado pelo exercício da consciência responsável, o devir humano é em si mesmo problemático. As incertezas inerentes à situação humana mobilizam as potencialidades do ser consciente num esforço heroico para a construção de um apoio no meio de tantas dúvidas. Esta mobilização de forças, intelectuais e morais, resultou na busca de um saber universal que é o cerne da Filosofia. E o Aconselhamento Filosófico pressupõe que este saber pode ajudar na reordenação existencial do cliente.
Faremos na próxima postagem uma breve incursão na história do pensamento, destacando os desenvolvimentos especulativos mais marcantes sobre os fundamentos fenomenológicos do exercício da consciência livre e responsável. É importante o reconhecimento teórico dos fundamentos existenciais. Todavia, para mudar o rumo da história pessoal é preciso que o conhecimento profundo mobilize a afetividade, ou melhor, nela se continue insensivelmente, e ative a vontade para a ação pertinente livremente escolhida pelo sujeito consciente... Não conheço melhor aplicação para o conceito deuleuziano de “dobra”[1], do que a implicação funcional complexa  do conhecimento, da afetividade e da vontade no laboratório subjetivo da existência pessoal.
(Continua no próximo texto) Everaldo Lopes.            


[1] “Dobra”- caráter coextensivo do dentro e do fora; do pensamento que representa conceitualmente uma relação específica de conhecimento e a afetividade,  indistinguíveis no mundo subjetivo.