quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Amar com a cabeça e pensar com o coração



Faz muitos anos, numa conversa informal entre amigos, fui desafiado a tecer alguns comentários sobre a proposta aparentemente extravagante contida no título deste texto. Não me senti intimado a aceitar o desafio, mas fiquei curioso de descobrir ao que me levaria um ensaio sobre o tema sugerido. Com este espírito comecei a escrever sobre o assunto, sem qualquer pretensão de transformar em tese um simples exercício intelectual. E por falta de maior motivação, esqueci no computador uma minuta alinhando algumas ideias que me surgiram na primeira tentativa de escrever sobre “amar com a cabeça e pensar com o coração.” A postagem anterior neste blog, sobre a “Essência do homem” me fez escarafunchar os arquivos salvos no meu micro, em busca do rascunho esquecido, para retomar o tema proposto anos atrás. Comecei indagando-me: Que sentido se poderia atribuir a este disparate? Percebi então que as resposta às dúvidas subentendidas nesta pergunta ecoavam no fundo da minha alma, sinalizando a ideia de amar sem paixão e de pensar generosa e solidariamente. Situações que não se definiriam claramente numa linguagem dialética, mas poderiam ser expressas em alegorias significativas de uma realidade psíquica indescritível, porém indiscutível. No ensaio iniciado à época do desafio tentara representar alegoricamente, e com algum sucesso, a unidade essencial do sentimento e do pensamento. Reescrevo, portanto, e amplio as anotações resgatadas, supondo que a metalinguagem utilizada na tentativa de anular as contradições da “proposta extravagante” facilite o entendimento do texto precedente neste blog - a essência do homem.
A experiência sugere, e o uso consagrou a ideia de ser a cabeça o lugar do pensamento, e o coração o do sentimento. Por definição, o “pensamento é metódico, objetivo, busca responder dialeticamente aos questionamentos do ser consciente, e seu desempenho impõe fidelidade a um algoritmo lógico na avaliação da realidade; enquanto o “sentimento” é caprichoso, responde aos estímulos percebidos com flutuações do humor, que se acompanham de repercussões corporais agradáveis ou desagradáveis. Usando uma linguagem literária, dir-se-ia que o “pensamento” é mais ordenado, espiritual, estável, e o “sentimento” é mais dispersivo, visceral, inconstante. A verdade do pensamento é lógica, apoia-se numa realidade metodológica, portanto virtual; a verdade do sentimento é ontológica apoia-se  em si mesma, é uma expressão imediata, livre, do “ser em si”.
Nas relações do homem com os “outros” e com o mundo, nem sempre o “cérebro” e o “coração” estão de acordo, porém não são, obrigatoriamente, polos de uma contradição irreconciliável. Em verdade, o “pensamento” e o “sentimento” se misturam e se refletem simultaneamente no comportamento pessoal; ambos são indispensáveis à construção da existência. Admitido esse pressuposto, a proposta de “pensar com o coração e amar com a cabeça” satisfaz, simbolicamente à aspiração de harmonizar o sentimento e a razão, fazendo-os fecundarem-se mutuamente na construção de uma unidade existencial.
No momento atual, assumimos que a Evolução[1] caminha no sentido de harmonizar as funções do “cérebro” e do “coração” nas relações intersubjetivas e objetais do homem com os outros e com o mundo. Na verdade, não há pensamento que não esteja associado a um sentimento; nem sentimento que não possa ser pensado, ou analisado racionalmente. O produto da síntese da razão e do sentimento, sob o império da coerência lógica e da disciplina emocional, respectivamente, deverá corresponder a uma decisão responsável, coerente e transparente. Na prática, porém, respeitando o compromisso ético do vir a ser pessoal e a liberdade existencial, esta decisão guarda uma intimidade maior, ora com a razão, ora com o sentimento; e quando prevalece o sentimento rebelde, ocorrem conflitos existenciais difíceis de resolver.
As lentes da afetividade e da racionalidade revelam nuances diferentes de uma mesma realidade, acentuando e ampliando, ora o colorido emocional, ora a transparência racional das relações interpessoais e objetivas de que o homem é capaz. No primeiro caso, o paradigma é o poeta, levado a exprimir o encantamento diante do mundo, manipulando o signo verbal na construção de analogias e metáforas sugestivas da realidade conceitualmente indescritível que o inspira. Utilizando a linguagem simbólica ele tenta desvelar a intuição de uma face da realidade oculta aos olhos da razão, apenas pressentida pela sensibilidade exaltada do artista que a descreve alegoricamente através de uma criação original. No segundo caso, o racionalista curioso de compreender o mundo ensaia a análise da realidade objeto de sua atenção, e a coerência lógica deste ensaio fundamenta a verdade assegurada pela precisão do exame crítico e pela clareza das conclusões alcançadas.
De acordo com o senso comum, pensar com a cabeça e amar com o coração é o que todo mundo faz espontaneamente, o coração e o cérebro atuando simultaneamente na elaboração da conduta humana. Uma análise mesmo superficial do comportamento pessoal revela que nenhuma resposta à realidade que se apresenta a cada um dispensa a participação simultânea da razão e da emoção.  De certo modo, na coerência da intelecção conceitual já existe uma beleza que produz alguma emoção; assim como no comprometimento emocional do sujeito consciente com a realidade, a razão discerne um conhecimento implícito cuja extensão e clareza a emoção despertada amplia ou restringe. Analisadas, fenomenologicamente, estas situações se implicam numa complexidade dinâmica surpreendente. Nesta perspectiva, amar com a cabeça seria mergulhar de forma tão profunda na realidade fragmentada pela análise que, no limite da razão, o pensamento se ultrapassa numa vivência intuitiva que consegue amalgamar na mesma experiência um todo unitário significativo, recuperando a realidade fragmentada pela análise racional. Diante da impossibilidade de o pensamento atingir a essência das coisas, amplia-se o compromisso entre a razão e o sentimento, mediante a intuição que recompõe a realidade pulverizada pela análise num todo cuja beleza significativa deslumbra o coração. Por outro lado, pensar com o coração, seria amar tão profundamente que o sentimento, numa tentativa desesperada de fixar o momento do êxtase estético implode a racionalidade, cobrando do pensamento uma descrição do momento inspirador, para fixar no tempo a experiência ímpar; e esta cobrança acaba criando uma  aura de encantamento estético. O “coração”, sensibilizando o pensamento e sendo por ele sensibilizado inspira uma descrição simbólica estética do objeto arrebatador, e a beleza da descrição acaba emocionando, na prosa poética, num poema, numa tela, numa escultura. Assim, o intelecto atende ao apelo do coração participando da intuição artística para construir um nicho que abrigue a verdade apaixonante que irradie uma beleza divinal. 
Dessa forma, a cabeça e o coração se associam na construção da verdade existencial, embora a “cabeça” fique sempre devendo ao “coração” a generosidade da beleza que não consegue representar integralmente numa linguagem simbólica aliciante que tenta  descrever com fidelidade a verdade do coração.   É evidente que as duas formas de abordar a verdade, amando-a, e pensando-a coexistem em proporções variáveis no mesmo indivíduo com predominância em cada experiência, ora da razão, ora do sentimento. E a criação artística é a expressão potencializada desta coexistência inextrincável. Fala-nos disso, com muito talento poético, o segundo terceto do soneto de Raul de Leoni intitulado “Sabedoria”: “Vê que a vida afinal, - sombras, vaidades - / É bela, é louca e bela, e que a Beleza / É a mais generosa das verdades...”
As operações psíquicas inerentes à interação entre o sentimento e o pensamento, convergindo ambos para uma síntese transcendental além dos limites funcionais do “coração” e da “cabeça” apontam para o caráter metafísico da essência do homem.     
                       
            Everaldo Lopes


[1] Segundo Spencer (1820-1903) e Bergson (1859- 1941), processo de desenvolvimento natural, biológico e espiritual em que toda a natureza, com seus seres vivos ou inanimados, se aperfeiçoa progressivamente (Dic.de Houaiss)

domingo, 2 de setembro de 2012

A essência do homem



Ao nascer o ser humano carrega em potencial a consciência e a liberdade; depois, define ao longo do tempo o “homem” que será. Mediante a capacidade de pensar e refletir o ser consciente faz escolhas entre as alternativas que se apresentam na sua circunstância, construindo-se a partir da própria existência. Neste sentido tem razão Sartre ao anunciar que no homem “a existência precede a essência”.
Na perspectiva existencialista há que distinguir a vertente materialista, da cristã. Em ambos os casos a consciência e a liberdade estão intimamente ligadas e são fundamentais. Mas na linha espiritualista, o exercício da liberdade deve ater-se a uma ordem inerente às Leis eternas da Criação, que precedem a existência e permanecem influindo no vir a ser existencial, sob a forma de valores universais formadores do pensamento humanístico e posturas éticas correspondentes.  
Para orientar-se no seu devir, o homem necessita de critérios seguros que o capacitem a julgar e decidir. Pressionado por esta necessidade, filosofa, busca descobrir por meio da razão os critérios fidedignos de valor, mas permanece atônito ante a responsabilidade que a liberdade lhe impõe. O mistério do “ser” esconde a verdade primordial, suporte absoluto dos valores essenciais infalíveis do comportamento humano. Mas ninguém explica o “ser em si”, nem consegue comunicar a intuição através da qual ele se revela ao homem. O cientista debruça-se sobre o Universo, disposto a esmiuçá-lo e encontrar o fundamento racional do “ser”; esbarra, porém, no fenômeno que manifesta o “ente” sem revelar a sua essência. O místico mergulha em dimensões vertiginosas da subjetividade, e emerge com a vivência de maravilhas incomunicáveis. Nem o cientista mais criativo e determinado, nem o místico mais espiritualizado são capazes de traduzir numa linguagem dialética o enigma do “ser”.  É emblemático o exemplo de São Tomaz de Aquino (1225 – 1274), o Filósofo mais importante da Idade Média. Segundo seus biógrafos, ao despertar de um êxtase místico ele teria confidenciado a um discípulo dileto que não escreveria mais nada, porque tudo que havia escrito lhe “parecia palha” ante o que vira na sua experiência mística. É importante registrar que a esta altura ele já publicara os inúmeros e alentados volumes da Suma Contra os Gentios e da Suma Teológica, suas principais obras.
O “ser” enquanto “ser” é indefinível, todavia todos vivem a realidade deste enigma sob o impacto de um olhar compassivo e amoroso, num abraço emocionado, ouvindo uma melodia tocante... Vivendo estes momentos ímpares, por um átimo, o homem vislumbra a transcendência do “ser” na vivência de plenitude do “si mesmo”[1], uma experiência pessoal intraduzível, mas indiscutível. Vivência a partir da qual se abrem possibilidades infinitas de realização existencial, mediante escolhas livres que, rigorosamente, devem ser responsáveis em relação aos valores universais que presidem a dinâmica social do homem. A criatividade no exercício da liberdade consciente tem suas raízes nos estratos profundos da psique individual. Mas só quando o homem vive em plenitude a relação com os “outros” e com o mundo, suas virtudes criativas ganham dimensão objetiva.
Parece óbvio o fosso que separa a materialidade do servomecanismo biopsíquico (o Sistema Nervoso Central), e suas funções psíquicas superiores, intelectual, afetiva e volitiva. Mas as especulações cosmogônicas evolutivas contradizem a separação entre a consciência e o mundo... O homem é um prolongamento do cosmo; através dele o Universo toma conhecimento de si mesmo. Portanto, por definição, a separação entre a consciência (espiritual), e o mundo físico é apenas uma aparência fenomênica, tendo em vista a ideia que repousa na crença em um absoluto, Princípio único constitutivo de toda a realidade.
O homem comum vive a unidade consciência / mundo nas práticas familiares, sociais, profissionais, e políticas, definidas em modelos culturais. Nesta trilha, ao longo da sua História, o ser consciente, constrói uma cultura feita de tabus, mitos, hábitos e costumes, supostamente capazes de atender à necessidade de entender a realidade e cultivar valores que deem um “sentido” às escolhas feitas na condução do vir a ser existencial. Assim a cultura emerge como uma linguagem através da qual o homem se relaciona com os outros e com a Natureza. Inventariando a interpretação dos fenômenos físicos e psíquicos, a cultura cria uma interface entre a consciência e o mundo, aproximando-os. No vir a ser temporal a conexão assim construída se traduz, objetivamente, nas transformações adaptativas que afetam a Natureza e o homem, com reflexos na sua organização social. Neste sentido a “linguagem” comunitária configura o ideal de convivência humana fundamentada na prática da solidariedade expressa nas relações interpessoais amorosas, verdadeiras e justas. Mesmo cumprindo formalmente seu papel social, familiar, profissional e político, sem viver a experiência solidária o homem termina sua jornada histórica, consciente do dever cumprido, mas cônscio, também, de não haver alcançado a plenitude existencial almejada. Donde se conclui que a realização plena da Humanidade repousa na prática do amor que transcende o apelo dos sentidos, e vai além das interações puramente éticas. A razão é indispensável para quantificar o mundo físico e distinguir o verdadeiro e o falso, expandindo as possibilidades humanas de resolver problemas práticos. Mas a verdadeira realização do homem é eminentemente intuitiva afetiva, liberta da tirania dos sentidos, uma experiência mística. Nesta perspectiva a razão e o sentimento não conflitam necessariamente; porém não basta que afinem pelo mesmo diapasão, é preciso que ambos se integrem na intuição reveladora da unidade pessoal que os envolve. Na construção desta unidade[2] a razão e o sentimento se complementam nos seus limites interagindo livremente. Assim, a essência do homem é criativa, algo mais do que a interação de funções psíquicas complexas. Excede qualquer definição formal, e, paradoxalmente, é imanente e transcendente aos fenômenos psíquicos superiores que tornam possível o exercício da consciência e da liberdade.
 Everaldo Lopes


[1] No sentido Junguiano de “self”; centro da psique.
[2] Tendo em vista a dificuldade dialética de discorrer verbalmente sobre este tema, dele falaremos alegoricamente no texto seguinte: “Amar com a cabeça e pensar com o coração”.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O desejo e o dinamismo existencial


O “sim” e o “não” autênticos refletem escolhas pautadas por valores responsavelmente assumidos. Obviamente, perde autenticidade quem afirma ou nega com o objetivo de mascarar interesses espúrios. Mesmo assim o protagonista fraudulento pode teatralizar a impostura, e o seu interlocutor não ter como desmascará-lo. Por má-fé o mentiroso faz uso de argumentos inescrupulosos, inviabilizando o diálogo. Para evitar discussões estéreis a vítima da mentira astuciosa deverá, não sem algum esforço interior, conter a indignação no limite da cortesia e reafirmar serena e decididamente seu ponto de vista, sem alimentar a expectativa de alcançar uma interlocução proveitosa. Sua serenidade sábia fundamenta-se na convicção de que a realidade possui uma consistência ontológica cuja essência a mentira não pode alterar.
Somos livres para escolher e temos a obrigação moral de adotar comportamentos ilibados, embora sejamos todos susceptíveis de nos corrompermos. Daí a possibilidade permanente de tropeços éticos. Tudo dependerá do ânimo pessoal para superar as fraquezas humanas. Diante da falta cometida pelo “outro” a prática da compassividade vai além da postura serena à medida que o interlocutor injuriado acrescenta o perdão à compreensão da dinâmica psicossocial do comportamento condenável. Quem perdoa reconhece humildemente que ninguém é perfeito, e sabe que na profundidade subjetiva do sujeito consciente o “sim” e o “não” escondem dúvidas que jamais serão esclarecidas! Além do que, ao perdoar está se libertando de afogar-se na ira e no ódio.
O homem é um animal inteligente que afinal aprendeu a ler algumas das leis que governam o Universo. E esse conhecimento lhe permite trabalhar a Natureza, e a realidade psicossocial na qual está contextualizado, em proveito próprio e no da espécie. Assim, desbrava o mundo e edifica civilizações. Na corrida civilizatória o homem não sabe a quem passará o bastão, mas espera que alguém o tomará e a memória cultural dará  continuação às conquistas de cada geração, que repercutem sobre as seguintes. Afinal, todos somos responsáveis pelo destino da Humanidade.
No processo de interação consciência / mundo um imenso edifício cultural foi construído por conta da vontade humana heroica de seguir em frente, abrindo novos horizontes mediante conquistas científicas, tecnológicas e políticas... Avanços que assegurariam bem estar a um número cada vez maior de indivíduos no seio da coletividade, não fora a falta de uma organização política, social e econômica suficientemente inclusiva. No âmbito deste processo a intenção solidária faz toda diferença na prática existencial, impondo um “valor”[1] para ordenar as escolhas pessoais.
Uma vez isolado do seu contexto civilizacional o homem é uma criatura destoante da ordem cósmica. Visto sem o envolvimento com os valores que representam uma interface entre a consciência reflexiva e o mundo, sua existência não teria sentido[2]. Só o homem engajado na unidade evolutiva universal assume a dignidade ética que lhe cabe. Nesta perspectiva, participando de um todo significativo, o homem salva-se de ser para nada... Vivendo sua condição de ser consciente e responsável dará sentido à própria existência, construindo-a em torno de valores que o transcendem, e orientam o seu comportamento. Não há um modelo natural do homem; ele se constrói através das suas escolhas, decisões e ações. 
A subjetividade criativa emerge então como cerne da existência, e por seu caráter abstrato abre espaço para especulações metafísicas, evidenciando-se no vir a ser consciente uma transcendência inexplicável pelas leis que regem o universo material. Transcendência que remete à ideia de liberdade como fundamento da própria consciência[3]. Afinal, ter consciência é transcender-se constantemente...   o que equivale a libertar-se continuamente de algo, para alcançar alguma coisa diferente. Este movimento subjetivo dá lugar à especulação sobre um substrato espiritual eterno universal escondido na organização biológica na qual se manifesta a consciência sob a forma de um “movimento intencional voltado para o mundo”[4]. Esta especulação pressupõe um absoluto transracional cuja afirmação se sustenta necessariamente num ato de fé. Uma vez que é impossível afirmar ou negar racionalmente o “absoluto”, só uma crença firme o reconhece como Verdade, ou seja, um “Princípio” de certeza que liberta o ser consciente da insegurança, nas suas escolhas e decisões existenciais. Este “Princípio” corresponde a um Valor assumido pelo próprio homem no qual ele “aposta todas as fichas”. Então, crendo ele o cria, ao afirmar o que não vê, e dá suporte ao sentido de sua própria existência. Esta dinâmica faz da “existência” um empreendimento de risco. E o “desejo” é o motor da “existência”, derrubando a resistência ao temor de arriscar.
Assim, entre a razão e a o homem constrói sua história pessoal, e envelhece, frequentemente sem realizar o “encontro existencial” com que sonhara. Não lhe morre o desejo, e nem perde a esperança de plenitude, mas vive a realização deste sonho como “...Um adiamento eterno que se espera, / Numa eterna esperança que se adia...”[5]
Enfim, atropelado pela precariedade da própria finitude o homem fica sensível ao pensamento místico. Abre-se-lhe a porta dessa experiência, quando se lhe manifesta na subjetividade insegura o desejo de acolhimento por um Poder Absoluto paternal e provedor no seio do qual se sentiria protegido. Mas desejar esta acolhida só beneficiará o sujeito consciente se houver a disposição de completa rendição existencial... a verdadeira entrega a um Poder maior, que exige total autenticidade. Só assim o desejo que dinamiza a existência será humilde, não se arrogará o direito de fazer jus a qualquer recompensa. A entrega há que ser gratuita para ser verdadeira. Nesta entrega o homem há que desejar amando, e não pedindo ou mandando. A entrega ao amor divino implica numa vivência sutil de bem-aventurança que projeta o homem para além do tempo, numa intimidade espiritual resultante da perfeita reverência da criatura à majestade divina, sedimentada na cumplicidade confiante criatura / criador. Nesta entrega ao Absoluto, os componentes biológico, psicológico e espiritual do homem se integram num desejo humilde de completude como fonte de inspiração existencial.
 Everaldo Lopes


[1]A solidariedade
[2] Sentido aqui considerado não apenas em sua dimensão existencial  histórica inerente ao desejo de satisfazer uma falta objetiva,  mas também e principalmente em sua dimensão  metafísica de  preencher  a “falta” original representada pelo   nada absoluto sobre o qual se constrói a existência.

[3] Esta foi a grande intuição de Sartre ao interpretar criativamente a Fenomenologia de Husserl.
              [4] Definição fundamentada  na Fenomenologia de Husserl. 
[5]Raul de Leoni em seu soneto “Legenda dos Dias”.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

O enigma da vida de cada um


Para avaliar os comportamentos pessoais é preciso entender as dificuldades inerentes à “existência”[1]. Quando percebemos a intrincada malha psicossocial da vida em grupo salta aos olhos a complexidade das relações humanas, e torna-se possível avaliar com imparcialidade as atitudes e reações dos indivíduos.
Ao tomar conhecimento pela primeira vez do próprio “vir a ser”, sem se dar conta ainda claramente de sua realidade existencial, o homem defronta-se, com a “Esfinge”[2] a desafia-lo com uma pergunta singular: “Que sentido queres dar à tua vida?” Cada um se esforça para construir-se como pessoa, nem sempre consciente de estar respondendo à esfinge. É que a resposta ao enigma da “vida consciente”[3] é irredutível a um jogo lógico de ideias claras. Deverá ser modulada pelos talentos individuais nas condições impostas pela facticidade[4], ao modo de um acordo temático criativamente elaborado entre a razão e o sentimento com o auxílio da vontade, tendo em vista um propósito definido. Nesta modulação se inscreve o sentido que o indivíduo dá à sua existência. O homem responde à pergunta exigente da esfinge assumindo responsavelmente, mediante suas posturas e ações, as decisões inerentes às escolhas que faz no seu vir a ser existencial.  
As incertezas inerentes à contingência humana geram ansiedade. Mas, por trás da angústia do devir incerto, o ser consciente tem a intuição nebulosa de uma totalidade universal organizada, um “absoluto” que unifica o mundo e a consciência. Este todo harmônico cuja complexidade é apenas entrevista reflete-se na visão de um mundo que o homem tem a responsabilidade de completar através de escolhas e ações coerentes com o eixo temático de sua existência. Nesta perspectiva define-se a função da liberdade inerente à vida consciente no contexto da Evolução do universo. Tendo em vista que a solidariedade humana é o resultado de relações interpessoais livres, pode-se dizer que a introdução da liberdade no processo evolutivo preenche um propósito implícito na Ordem do universo. Avaliando, hoje, retrospectivamente o caminho percorrido pela “Evolução” pode-se concluir que a intervenção da consciência está centrada na organização social solidária. Isto implica na transição da “inteligência instintiva” (presente na organização social das abelhas e das formigas) para a “inteligência racional”, consciente, capaz de criar livremente uma forma de convivência solidária que é condição indispensável para a sobrevivência da espécie Homo Sapiens sapiens. Esta mudança evidencia o papel do homem no plano da Evolução, remetendo o indivíduo ao esforço permanente no sentido de consolidar o autoconhecimento, a disciplina emocional e a determinação, ingredientes da maturidade psicossocial que garantem o equilíbrio do vir a ser existencial no convívio solidário. Este esforço acompanha o exercício responsável da liberdade.
      Ninguém pode ter certeza absoluta do acerto da sua resposta à Esfinge exigente. Mas, quando a consciência está centrada na construção de uma existência significante engajada no processo evolutivo universal, o eu reflexivo vivencia a paz e o sentimento de dignidade que são indicadores do acerto das decisões assumidas no curso da vida.
     O tecido psicossocial é feito de desejos, esperanças e atos cujos protagonistas se atritam em busca da realização pessoal através de experiências intra e intersubjetivas. Nas relações sociais cada um de nós tem expectativas quanto ao tratamento que merece receber do outro. Opinião direcionada pela consideração que imaginamos merecer em vista da autoavaliação favorável que cada um faz de si mesmo. Portanto, o outro, obviamente, alimenta expectativa semelhante à minha, igualmente tributária de uma autovalorização propícia. Pode-se imaginar como é frágil a malha social cujos fios são pressupostos comprometidos na sua origem com avaliações privilegiadas baseadas na autoestima de cada um. Além disso para uma relação interpessoal equânime é indispensável o  consenso dos interlocutores quanto a que ninguém é melhor do que o outro, nem dono da verdade... que cada um define o ponto de corte dos julgamentos que faz, mediante ideias e valores produzidos por sua contingência falível, tidos momentaneamente como certos. Daí a importância que assume a tolerância mútua dos que dialogam. Então, as posturas adotadas por cada um não devem ser cultivadas como se fossem irretocáveis. Quando elas são inflexíveis refletem a tirania dos valores culturais, gerando a intolerância mãe de todos os preconceitos. Na verdade, só enriquecido pela sabedoria da maturidade o indivíduo baixa a guarda e admite que a razão pode estar com o outro. Desta maturidade depende o futuro do homem na face da Terra!
Quando a expectativa das pessoas em relação às demais não corresponde ao esperado entre elas ocorrem turbulências ameaçadoras da confiança recíproca e da paz social. É a hora de cada um reavaliar sua participação pessoal na formação da onda turbulenta para aliviar as tensões atuais, e programar as medidas preventivas de crises futuras. Há que haver predisposição dos interlocutores para a análise psicossocial compassiva das situações que induzem o comportamento de cada um, sem fugir das verdades universais que devem presidir o julgamento imparcial dos conflitos emergentes. O melhor a fazer nestes momentos de inquietação é descrever com precisão objetiva o fato concreto determinante da aflição vivenciada. Ao expô-lo à luz da razão, a distância subjetiva criada entre a instância crítica racional e a representação mental vivenciada do fato em questão enseja uma trégua emocional, permitindo redimensionar com isenção as ações a serem implementadas. É o momento de apreciar os aspectos positivos possíveis da situação, valorizando-os; de tentar compreender as razões do outro e argumentar desapaixonadamente para equacionar os termos conflitantes de uma situação frustrante. Estes procedimentos fundamentam-se no respeito à dignidade própria e à do outro, e se consolidam no difícil aprendizado da compaixão. Seguindo esta linha de conduta, aos poucos se vai aprendendo a conduzir as relações sociais com objetividade e brandura... Calar é muitas vezes o comportamento mais sábio. Não há que discutir a razão e as consequências de uma discórdia interpessoal a menos que os interlocutores tenham assimilado os pressupostos do diálogo[5]... De outra forma a discussão seria desgastante e improdutiva.  Finalmente, para tornar eficiente o desempenho do homem no âmbito da Evolução cumpre conservar a disposição de perdoar sempre, por mais difícil que pareça. Nesta perspectiva, o maior desafio é o de lidar com uma pessoa de boa índole, mas inconformada com as próprias limitações intelectuais, culturais, sociais e econômicas, ofuscada pelo desejo de ser reconhecida e valorizada num patamar superior ao de sua envergadura pessoal. É difícil, mas indispensável, trata-la com serenidade quando num esforço comovente esta pessoa procura superar-se, sem a necessária disciplina intelectual e emocional, valendo-se de um discurso improvisado afoito e tendencioso, ou arriscando-se em projetos que não tem condições de realizar... e ainda chama a isso de coragem! Na verdade falta-lhe a humildade necessária para aceitar-se como é sem perder a perspectiva de possíveis conquistas pessoais. Obviamente, faltando-lhe a prudência crítica esta pessoa foge da realidade e, perdida no esforço desordenado de sustentar uma autoimagem idealizada, diz e faz coisas que não pode comprovar nem justificar. Nestes lances, sem o necessário controle emocional, não percebe que desrespeita a inteligência e a dignidade dos demais com os quais convive. Agressões que os circunstantes só podem superar relevando-as, compassivamente.
           Depreende-se desta análise sumária que as relações sociais  sensatas exigem, necessariamente, autoconhecimento, disciplina emocional e o reconhecimento humilde das dificuldades inerentes ao desempenho da condição humana. A partir do momento em que cada um se reconhece exposto aos mesmos impasses diante da exigência de uma existência virtuosa, todos compreendem melhor uns aos outros e se tornam mais aptos a exercitar a empatia e o perdão. Entendemos afinal que a pergunta da “esfinge” não é um desafio intelectual, mas um apelo disfarçado ao empenho existencial na luta de cada um contra as armadilhas da libido descontrolada, do orgulho imoderado, da vaidade, da ambição e do medo, que permeiam o vir a ser incerto do “ser consciente”.         
Everaldo Lopes                                          


[1] Modo de ser próprio do homem; consciente e responsável.
[2] Na Grécia antiga, monstro fabuloso com corpo, garras e cauda de leão, cabeça de mulher, asas de águia e unhas de harpia, que propunha enigmas aos viandantes e devorava quem não conseguisse decifrá-los
[3] Existência
[4] Caráter próprio da condição humana pelo qual cada homem se encontra sempre já comprometido com uma situação não escolhida. Dic.Aurélio.
[5] Autoconhecimento, disciplina emocional e respeito à dignidade do outro.

sábado, 28 de julho de 2012

A missão do Filósofo


O Filósofo aspira a entender a essência das coisas, mas a capacidade racional de conhecer a realidade esbarra no fenômeno.  O discurso filosófico se desenvolve, então, como uma construção especulativa integrante cuja credibilidade se apoia em sua coerência lógica quando da incorporação dos fenômenos singulares numa totalidade complexa harmoniosa. Contextualizando os fenômenos num todo significativo o Filósofo constrói uma visão de mundo e nesta construção depara a necessidade de admitir que um imponderável misterioso permeia a realidade cósmica e psicossocial. As especulações filosóficas envolvem, portanto, abstrações que transcendem a objetividade científica, na tentativa de jogar alguma luz  sobre o elemento indefinível que trespassa o real concreto.
A realidade sobre a qual o Filósofo se debruça inclui o Universo e o homem. Uma longa evolução ensejou a emergência das funções psíquicas superiores inerentes à consciência reflexiva, à racionalidade, ao sentimento e à vontade. Utilizando-se dessas funções o homem assume o comando do seu próprio devir (existência)[1] e é capaz de intervir no mundo do qual faz parte. Para isso é fundamental o exercício da “liberdade de..., e da liberdade para...”[2], como veremos logo mais.
A crítica racional se dá conta da fragilidade do processo gnosiológico que apreende o fenômeno sem penetrar-lhe a essência. Então, curiosa da verdade metafísica, a razão se empenha em abstrações cada vez mais abrangentes que a levam, afinal, à proposta de um absoluto, absurdo racional no qual, todavia, o homem busca arrimar o sentido último de seu vir a ser. A busca de sentido é uma exigência do ser consciente. Ao configurar uma visão de mundo[3] o homem identifica os valores que orientam coerentemente suas escolhas, imprimindo um sentido na existência. Esta mundividência representa um absoluto que dá suporte aos valores éticos no devir pessoal.
Para o Filósofo, a primeira questão que se coloca no processo gnosiológico é: onde está a verdade? No objeto ou no pensamento? Na coisa concreta ou na ideia que resulta da sua percepção? A resposta a esta indagação define duas correntes filosóficas opostas: o Materialismo que prioriza o objeto (a coisa), e o Idealismo que prioriza a ideia (o conceito da coisa). Mal começa a caminhada filosófica já se abre uma bifurcação na abordagem da realidade “consciência / mundo” cuja unidade o homem só pode experimentar mediante uma vivência mística. No centro desta realidade o homem descobre-se perplexo como um ser carente desejoso de orientação segura, envolvido com uma determinada linha cultural[4] que lhe aponta diretrizes. Surpreende-se livre para questionar os valores que lhe são culturalmente impostos, consciente, porém, de que não pode dispensar inteiramente a cultura em que está imerso. E para criticá-la precisa objetiva-la num esforço subjetivo disciplinado incomum para os ingênuos representantes incondicionais dessa mesma cultura. Somente o homem capaz de manter a distância crítica necessária analisa o processo cultural respondendo de forma pessoal coerente e responsável às suas exigências pessoais quando estas conflitam com o estabelecido culturalmente. E o faz, não sem luta e determinação, mudando sua própria realidade individual (a existência é uma obra sua) e a sociedade em que vive. Assim, torna-se evidente que, além da “liberdade de” dizer “não” aos velhos condicionamentos, é fundamental o exercício da “liberdade para” agir dessa ou daquela forma inovadora inerente às mudanças necessárias. Feita a escolha, no exercício da “liberdade de” afirma-se a atividade voluntária esclarecida, e na prática da “liberdade para” manifesta-se a criatividade humana.
De uma coisa se tem certeza. É indispensável ao homem um chão cultural feito de normas e preceitos, para que possa caminhar no seu devir com os outros no mundo, tecendo as malhas da “existência”. Este lastro acaba preenchendo o “nada absoluto” sobre o qual o homem se constrói... “vazio” que é fonte de angústia[5]. Alguém pode não concordar com todos os valores da cultura em que nasceu, mas para descarta-los quando não os aprova necessita criar outros. E para que estes venham a medrar é preciso que sejam aceitos por uma massa crítica expressiva da sociedade. Sem isso, qualquer comportamento destoante dos padrões vigentes será considerado imoral para o grupo, e rejeitado como um implante que não vinga. Neste preâmbulo fica evidente a intimidade entre o exercício da consciência reflexiva livre e responsável, as possibilidades da “existência”, e a ordem social. As interações psicossociais desta intimidade urdem o tecido cultural que ganha aspectos diferentes de acordo com o grau de desenvolvimento humano, de peculiaridades étnicas e ambientais. Para salvaguardar o núcleo essencial (universal) do fenômeno humano é de grande ajuda a tentativa do Filósofo de lograr o discernimento efetivo da realidade total, unindo seus aspectos cósmico, psicossocial e histórico, embora pareça impossível um entendimento tão completo. Mesmo assim a curiosidade filosófica continua a instigar o homem a prosseguir na faina demiúrgica para alcançar a mais completa compreensão do mundo e de si mesmo. Como resultado desse esforço se constroem os sistemas filosóficos na tentativa heroica de explicar o homem e o mundo contextualizando-os num todo indissociável, um absoluto.
Lembro-me de um texto emblemático que li há muitos anos no prefácio de Uma História da Filosofia, em que o autor dizia ser o Filosofar uma tarefa inacabada e, contudo, referindo-se ao esforço filosofante concluía como se falasse em nome de todos os homens, com o próprio Criador: “No entanto, Senhor, que maior prova podemos dar de nossa dignidade, senão este soluço que rola de século em século e vai se derramar aos pés de Vossa Majestade!”
Na verdade, mais do que um “soluço” a Filosofia abre  janelas na subjetividade para realidades cada vez mais abrangentes em busca do Absoluto inabordável pela razão. Na tentativa de integrar a existência pessoal num todo significativo, à falta de uma experiência mística autêntica, a prática filosófica intelectualmente cativante aquieta o espírito do homem sem obriga-lo às exigências da fé em dogmas institucionalizados numa igreja convencional. As religiões tradicionais têm o mérito histórico de guardar o tesouro das “mensagens existenciais” deixadas por grandes líderes espirituais da Humanidade. Mas não se pode institucionalizar uma “mensagem existencial”, da mesma forma que não se pode “ensina-la”, mas apenas aponta-la!... Daí a dificuldade pedagógica das Igrejas de fazê-la chegar ao coração dos seus fieis. Mesmo assim as organizações eclesiais, incarnando as fraquezas humanas que as fazem por vezes caminhar na contramão, têm desempenhado seu papel histórico no resgate das mais nobres virtudes do homem.
                                   Everaldo Lopes            


[1] Modo de ser peculiar do homem, caracterizado pelo exercício da consciência responsável.
[2] De Erich Fromm em “Medo à liberdade”. Conceitualmente, “liberdade de” (libertação de velhos condicionamentos),  “liberdade para” (executar a intuição criativa).
[3] Compreensão geral do universo e da posição que nele ocupa o homem.
[4] Cultura – O conjunto de características humanas que não são inatas, e que se criam e se preservam ou aprimoram através da comunicação e cooperação entre indivíduos em sociedade. (Nas ciências humanas opõe-se por vezes à ideia de natureza ou de constituição biológica e está associada a uma capacidade de simbolização considerada própria da vida coletiva e que é a base das interações sociais.) Dic. De Aurélio.
[5] Heidegger, Martim