sábado, 28 de julho de 2012

A missão do Filósofo


O Filósofo aspira a entender a essência das coisas, mas a capacidade racional de conhecer a realidade esbarra no fenômeno.  O discurso filosófico se desenvolve, então, como uma construção especulativa integrante cuja credibilidade se apoia em sua coerência lógica quando da incorporação dos fenômenos singulares numa totalidade complexa harmoniosa. Contextualizando os fenômenos num todo significativo o Filósofo constrói uma visão de mundo e nesta construção depara a necessidade de admitir que um imponderável misterioso permeia a realidade cósmica e psicossocial. As especulações filosóficas envolvem, portanto, abstrações que transcendem a objetividade científica, na tentativa de jogar alguma luz  sobre o elemento indefinível que trespassa o real concreto.
A realidade sobre a qual o Filósofo se debruça inclui o Universo e o homem. Uma longa evolução ensejou a emergência das funções psíquicas superiores inerentes à consciência reflexiva, à racionalidade, ao sentimento e à vontade. Utilizando-se dessas funções o homem assume o comando do seu próprio devir (existência)[1] e é capaz de intervir no mundo do qual faz parte. Para isso é fundamental o exercício da “liberdade de..., e da liberdade para...”[2], como veremos logo mais.
A crítica racional se dá conta da fragilidade do processo gnosiológico que apreende o fenômeno sem penetrar-lhe a essência. Então, curiosa da verdade metafísica, a razão se empenha em abstrações cada vez mais abrangentes que a levam, afinal, à proposta de um absoluto, absurdo racional no qual, todavia, o homem busca arrimar o sentido último de seu vir a ser. A busca de sentido é uma exigência do ser consciente. Ao configurar uma visão de mundo[3] o homem identifica os valores que orientam coerentemente suas escolhas, imprimindo um sentido na existência. Esta mundividência representa um absoluto que dá suporte aos valores éticos no devir pessoal.
Para o Filósofo, a primeira questão que se coloca no processo gnosiológico é: onde está a verdade? No objeto ou no pensamento? Na coisa concreta ou na ideia que resulta da sua percepção? A resposta a esta indagação define duas correntes filosóficas opostas: o Materialismo que prioriza o objeto (a coisa), e o Idealismo que prioriza a ideia (o conceito da coisa). Mal começa a caminhada filosófica já se abre uma bifurcação na abordagem da realidade “consciência / mundo” cuja unidade o homem só pode experimentar mediante uma vivência mística. No centro desta realidade o homem descobre-se perplexo como um ser carente desejoso de orientação segura, envolvido com uma determinada linha cultural[4] que lhe aponta diretrizes. Surpreende-se livre para questionar os valores que lhe são culturalmente impostos, consciente, porém, de que não pode dispensar inteiramente a cultura em que está imerso. E para criticá-la precisa objetiva-la num esforço subjetivo disciplinado incomum para os ingênuos representantes incondicionais dessa mesma cultura. Somente o homem capaz de manter a distância crítica necessária analisa o processo cultural respondendo de forma pessoal coerente e responsável às suas exigências pessoais quando estas conflitam com o estabelecido culturalmente. E o faz, não sem luta e determinação, mudando sua própria realidade individual (a existência é uma obra sua) e a sociedade em que vive. Assim, torna-se evidente que, além da “liberdade de” dizer “não” aos velhos condicionamentos, é fundamental o exercício da “liberdade para” agir dessa ou daquela forma inovadora inerente às mudanças necessárias. Feita a escolha, no exercício da “liberdade de” afirma-se a atividade voluntária esclarecida, e na prática da “liberdade para” manifesta-se a criatividade humana.
De uma coisa se tem certeza. É indispensável ao homem um chão cultural feito de normas e preceitos, para que possa caminhar no seu devir com os outros no mundo, tecendo as malhas da “existência”. Este lastro acaba preenchendo o “nada absoluto” sobre o qual o homem se constrói... “vazio” que é fonte de angústia[5]. Alguém pode não concordar com todos os valores da cultura em que nasceu, mas para descarta-los quando não os aprova necessita criar outros. E para que estes venham a medrar é preciso que sejam aceitos por uma massa crítica expressiva da sociedade. Sem isso, qualquer comportamento destoante dos padrões vigentes será considerado imoral para o grupo, e rejeitado como um implante que não vinga. Neste preâmbulo fica evidente a intimidade entre o exercício da consciência reflexiva livre e responsável, as possibilidades da “existência”, e a ordem social. As interações psicossociais desta intimidade urdem o tecido cultural que ganha aspectos diferentes de acordo com o grau de desenvolvimento humano, de peculiaridades étnicas e ambientais. Para salvaguardar o núcleo essencial (universal) do fenômeno humano é de grande ajuda a tentativa do Filósofo de lograr o discernimento efetivo da realidade total, unindo seus aspectos cósmico, psicossocial e histórico, embora pareça impossível um entendimento tão completo. Mesmo assim a curiosidade filosófica continua a instigar o homem a prosseguir na faina demiúrgica para alcançar a mais completa compreensão do mundo e de si mesmo. Como resultado desse esforço se constroem os sistemas filosóficos na tentativa heroica de explicar o homem e o mundo contextualizando-os num todo indissociável, um absoluto.
Lembro-me de um texto emblemático que li há muitos anos no prefácio de Uma História da Filosofia, em que o autor dizia ser o Filosofar uma tarefa inacabada e, contudo, referindo-se ao esforço filosofante concluía como se falasse em nome de todos os homens, com o próprio Criador: “No entanto, Senhor, que maior prova podemos dar de nossa dignidade, senão este soluço que rola de século em século e vai se derramar aos pés de Vossa Majestade!”
Na verdade, mais do que um “soluço” a Filosofia abre  janelas na subjetividade para realidades cada vez mais abrangentes em busca do Absoluto inabordável pela razão. Na tentativa de integrar a existência pessoal num todo significativo, à falta de uma experiência mística autêntica, a prática filosófica intelectualmente cativante aquieta o espírito do homem sem obriga-lo às exigências da fé em dogmas institucionalizados numa igreja convencional. As religiões tradicionais têm o mérito histórico de guardar o tesouro das “mensagens existenciais” deixadas por grandes líderes espirituais da Humanidade. Mas não se pode institucionalizar uma “mensagem existencial”, da mesma forma que não se pode “ensina-la”, mas apenas aponta-la!... Daí a dificuldade pedagógica das Igrejas de fazê-la chegar ao coração dos seus fieis. Mesmo assim as organizações eclesiais, incarnando as fraquezas humanas que as fazem por vezes caminhar na contramão, têm desempenhado seu papel histórico no resgate das mais nobres virtudes do homem.
                                   Everaldo Lopes            


[1] Modo de ser peculiar do homem, caracterizado pelo exercício da consciência responsável.
[2] De Erich Fromm em “Medo à liberdade”. Conceitualmente, “liberdade de” (libertação de velhos condicionamentos),  “liberdade para” (executar a intuição criativa).
[3] Compreensão geral do universo e da posição que nele ocupa o homem.
[4] Cultura – O conjunto de características humanas que não são inatas, e que se criam e se preservam ou aprimoram através da comunicação e cooperação entre indivíduos em sociedade. (Nas ciências humanas opõe-se por vezes à ideia de natureza ou de constituição biológica e está associada a uma capacidade de simbolização considerada própria da vida coletiva e que é a base das interações sociais.) Dic. De Aurélio.
[5] Heidegger, Martim

terça-feira, 10 de julho de 2012

A minha crença I


Percebo Deus como Dinamismo absoluto[1] eternamente criativo presente na intimidade de suas criaturas! A lógica complexa do processo evolutivo cósmico, biológico, psicológico e social é a própria essência de Deus. As leis invioláveis que presidem a Criação representam o discurso divino. E o amor do Criador às suas criaturas se manifesta na harmonia do Universo, prenúncio de radiosa unidade (encontro).  Amar é reunir o que está separado, e separação pressupõe unidade original absoluta. Unidade rota para o observador temporal (criatura inteligente) cuja percepção limitada à contingência, fragmenta a simultaneidade absoluta dos momentos (eternidade). O “Todo Absoluto” é o encontro definitivo, sem tempo, expressão ontológica do Amor divino (o que justifica a afirmação de S. João: “Deus é amor”). Enquanto o amor humano é a vivência da expectativa do “encontro”. O homem se insere no contexto da Criação como colaborador na construção de uma convivência justa e solidária, numa busca ativa (existencial) do encontro total que só se realiza em Deus, mas passa necessariamente pelas relações humanas solidárias.
Nossa Ciência e vã Filosofia jamais penetrarão o mistério[2] da Criação. Todavia o assimilamos quando intuímos a complexidade insondável do macro e do microcosmo, ou vivemos a sintonia das variadas manifestações do amor, ou vivenciamos momentos de plena integração numa totalidade inexcedível (experiência mística que se traduz na vivência da unidade consciência-mundo). Reconhecendo a perfeição do Todo (absoluto), vivemos sem resistência o mistério do “Ser”, numa atitude de entrega mística... Conscientes de que a rebelião contra as limitações da contingência humana é uma incongruência existencial que descuida a disciplina da sensualidade ambiciosa e impede a plenitude do encontro. O verdadeiro místico vive humildemente a integração num Todo perfeito e significativo, identificando-se com o Absoluto no “momento” completo em si mesmo da vivência de unidade de todas as consciências pessoais em perfeita comunidade. Nesta perspectiva a verdadeira prece é mais do que um discurso, são atitudes interiores de solidariedade e compaixão, confirmadas por ações correspondentes. Na oração, reconhecemos nosso vir a ser precário, mas damos testemunho de gratidão ao Criador pela graça das possibilidades imensas que nos assistem. Pedir a Deus é pôr em prática as nossas potencialidades temporais como membros de uma comunidade, para alcançar os objetivos mais nobres, pessoais com implicações coletivas.
O Absoluto cifrado[3] no Universo revela-se no homem através das funções psíquicas superiores. Mergulhando no reino da subjetividade é inevitável assuntar o toque misterioso do link entre as reações físico-químicas que ocorrem na intimidade dos neurônios, e a emergência da consciência reflexiva, do pensamento lógico matemático, do sentimento, e da vontade.  E, por outro lado, não se pode negar a influência psíquica sobre o soma[4]. Porém jamais a Ciência poderá determinar o ponto de transição entre os fenômenos biológicos e as funções psíquicas superiores, nem como se explica na intimidade celular a influência dos estados de espírito (humor) sobre a biologia da célula, reduzindo as defesas imunológicas e desencadeando muitas doenças. É sabido que as defesas decaem quando o indivíduo vive crises de pessimismo, e se elevam por influência do otimismo e do sentimento de segurança; o estresse prolongado produz úlcera gástrica, doenças coronarianas e outras.  Ora, para que tudo isto ocorra são necessárias incontáveis interações bioquímicas nas células do nosso corpo físico. A realidade é muito complexa e a partir de certo momento escapa às mensurações científicas. Mas há interações sutis ditas instintivas entre os seres vivos e a Natureza. Senão, como explicar fenomenologicamente os grandes movimentos migratórios de aves e peixes? No plano psicossocial também não se explica objetivamente como se dá a comunicação subliminar. Mas ela é um fato. Li, não sei onde, o resultado de uma experiência em que se projetava, durante a exibição de um filme, em letras ilegíveis num cantinho da telona a recomendação “Coma pipocas”. E após a projeção, ao sair do cinema os espectadores foram em bandos comprar pipocas. Eles não tinham consciência da leitura do anúncio, mas se comportaram como se tivessem sido sugestionados (de forma subliminar) pela insinuação nele contida. Testes cientificamente conduzidos demonstraram a eficácia de comunicações telepáticas fisicamente inexplicáveis!... Todos estes fatos evidenciam que na realidade palpável atuam forças que escapam à explicação científica. Então, por que não admitir que a prece coletiva feita com fervor opera resultados extraordinários? O que habitualmente recebe a denominação de milagre é um encurtamento do tempo que a natureza levaria para alcançar espontaneamente um efeito determinado. Em se tratando de fenômenos físicos corresponderia a uma catálise inusitada, pela intervenção de recursos naturais ainda não conhecidos. Em se tratando de fenômenos sociais implicaria num reforço à realização de um desejo comum, que resulta da convergência de forças psíquicas. Em ambos os casos o milagre escapa a uma explicação científica, objetiva, mas não viola as leis que regem a Criação, abrindo espaço, todavia, para atribuir-se aos fenômenos incomuns a intervenção de um poder absoluto misteriosamente presente no mundo aparente, palpável!... Não foi à toa que Jesus, o homem mais inteligente, intuitivo e sábio que já habitou este Planeta disse aos que o seguiam: “Quando dois ou mais de vós vos reunirdes em meu nome estarei presente entre vós”. Ele sabia que a unanimidade das consciências pessoais retém um poder que ninguém possui individualmente. O que se opõe, então, à admissão de que este poder, agindo através da comunhão de criaturas inteligentes é uma emanação do próprio Deus, capaz de promover resultados que não se explicam cientificamente? Segundo o Holismo[5] representaria no contexto de uma lógica complexa a influência do Todo na organização das partes!
Lamentável e inevitavelmente, a mensagem existencial e comunitária dos mestres espirituais, ontologicamente alicerçada, se transforma em um discurso ético nas pregações pastorais. Mumificada na rigidez da letra, a mensagem apenas estabelece limites éticos nas relações entre a criatura e seu Criador.  Assim, as preces se tornam uma prática solitária. Mesmo reconhecendo o valor histórico das Instituições religiosas, sabemos que é impossível institucionalizar uma mensagem existencial. Todavia não há outra forma de transmiti-la através das gerações senão num contexto institucional. Sem este recurso poder-se-ia perder o “lembrete” da mensagem original, uma fórmula apenas, todavia capaz de induzir reflexões transcendentais, e de sensibilizar os que tiverem a ventura de ler nas entrelinhas, uma verdade que não se pode verbalizar.
É mister rever a pedagogia da evangelização, enfatizando mais o valor da ação solidária, do que a obediência cega ao estatuto ético. Vista por esta ótica, a virtude é própria da ação comunitária, e não se resume à aceitação intelectual de um preceito!
É inteiramente incompatível com a coerência lógica a desvinculação do Dinamismo Absoluto eternamente criativo, de sua criação. Conceitualmente o Absoluto tudo inclui, nada existe fora d´Ele. N´Ele o Todo é que determina a integração das partes! A Criação não é um fato isolado, mas um fazer permanente no qual a criatura consciente e o Criador estão necessariamente implicados. Nesta perspectiva, a eternidade não vem depois, mas é algo que já está no “presente”, movimento intérmino, constante... janela através da qual o ser consciente assiste ao desfile do tempo cósmico que se desfaz no absoluto intangível, sem princípio e nem fim.
Perdoem-me os realistas científicos e dogmáticos. Não me confundam com um panteísta materialista. Mas, vivo a crença num Dinamismo Eternamente Criativo indissociável da sua criação; humildemente, minha Religião se confunde com o exercício consciente e responsável do Livre Arbítrio em busca da perfeição perdida; a minha Catedral é o Mundo; minha família é a Humanidade!         

Everaldo Lopes.


[1] Diz-se do que existe em si e por si, não depende de outrem ou de coisa alguma. Realidade que fala através dos fenômenos porém transcende as dimensões espacial e temporal.
[2] Mesmo que seja confirmada a descoberta recente do Boson de Higgs esta conquista da Ciência continua sendo apenas uma aproximação, nunca a revelação do mistério da Criação.
[3] Termo criado por Carl Jaspers para caracterizar a presença do absoluto no ser contingente.
[4] O conjunto das células do organismo vivo, com exceção dos gametas.
[5] Holismo: abordagem, no campo das ciências humanas e naturais, que prioriza o entendimento integral dos fenômenos, em oposição ao procedimento analítico em que seus componentes são tomados isoladamente [Por ex., a abordagem sociológica que parte da sociedade global e não do indivíduo.](Houaiss3)
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segunda-feira, 2 de julho de 2012

Construção da identidade existencial


O comprometimento do indivíduo com a ordem social define sua identidade existencial. Sobre cada um recai a responsabilidade de contribuir para a harmonia do convívio na sociedade organizada. Nesta perspectiva, sobressai o comportamento solidário indissociável do ideal comunitário. A satisfação dos desejos individuais desvinculados dos interesses grupais leva a ações equivocadas que deformam o processo evolutivo ensejando consequências danosas para o homem e para o planeta. A Sociobiologia demonstra[1] que a capacidade de organização social, característica de algumas espécies animais (formigas, abelhas e homens) [2] é vantajosa para a Evolução. Portanto, a prática solidária representa um progresso. E quanto maior for a participação inteligente e solidária do indivíduo na construção da coletividade humana melhor será o seu desempenho existencial.
O homem constrói sua existência sobre o nada absoluto,  um vazio original que deverá ser simbolicamente preenchido.  O chão existencial do homem não é dado pela Natureza é construído, sim, por um ato de fé nos valores assumidos em torno dos quais o indivíduo conduz o próprio vir a ser. O nada absoluto sobre o qual se configura a existência[3] se revela ao homem pela angústia existencial[4]. Pressionado por esta disposição afetiva nem sempre o homem assume comportamentos construtivos. Ameaçado pela insegurança frequentemente administra mal sua liberdade, reincidindo em comportamentos individualistas pobres de compromisso social. De geração em geração a repetição destas condutas vem introduzindo distorções sociais desagregadoras. E por conta destes descaminhos a humanidade se debate, historicamente, em crises intermináveis. O descumprimento das responsabilidades[5] pessoais em relação ao ideal comunitário acumulou ao longo dos anos disparidades econômicas no seio das sociedades organizadas, e entre as Nações. Ainda hoje, dispondo de recursos científicos e tecnológicos suficientes para assegurar vida farta e tranquila para todos os homens, predominam os procedimentos mesquinhos que alimentam as desigualdades sociais. Embora a História registre exemplos dignificantes de homens que testemunharam com suas vidas uma espiritualidade centrada na presença do “outro”, essência da solidariedade. A questão é que para consolidar socialmente esta postura é preciso estrutura-la política e economicamente no contexto social segundo o modelo comunitário, o que não tem acontecido de forma expressiva. Para alcançar este objetivo a competição selvagem e o acúmulo de bens materiais  (parâmetros capitalistas preponderantes em nossos dias), terão que evoluir, respectivamente, para a prática da cooperação, e para a partilha destes mesmos bens, sob inspiração da solidariedade. O comportamento solidário chave da organização social exemplar reforça no homem a pujança de sua identidade existencial.
Salta à vista a unidade psicossocial inerente ao desenvolvimento humano que envolve uma dimensão espiritual inabordável racionalmente. O homem sabe que a realidade toda ultrapassa as possibilidades racionais, embora o conhecimento alcançado sugira a existência deste algo mais que excede a compreensão objetiva. Algo a que atribuímos o caráter de realidade sem poder prova-lo objetivamente. Assim o ser racional entra nos domínios da fé. Desta forma, “ter fé não é crer no que não se vê, mas criar o que não se vê”[6]. Uma virtude que abre espaço na subjetividade humana para a experiência mística, assimilando como verdade de fé uma transcendência espiritual absoluta, Deus que se confunde com um Dinamismo Eternamente Criativo[7].  Crença na qual se fundamenta a religiosidade adulta que transcende, no amor universal, a simples necessidade de crer em forças sobrenaturais criadoras e protetoras, e que dá lugar à expectativa de uma projeção transtemporal da existência pessoal histórica. Cabe aqui um comentário complementar. O ideal humanístico comunitário visa ultrapassar a formalidade comportamental, ritualística, em favor de uma prática solidária edificante. E as propostas socioculturais originárias das Igrejas universais convergem para a prática da organização comunitária. Neste sentido as grandes Religiões são existencial e socialmente estruturantes quando praticadas num nível ontológico e não apenas ético. Desta afirmação deduz-se a importância das religiões no processo de humanização. Lamentavelmente, porém, com frequência, a pregação de muitos pastores de almas insinua ou é interpretada como apelo à prática de uma ética autoritária nas relações entre o homem impotente diante dos seus limites, e Deus todo poderoso. Orientação, aliás, de que está impregnada a infância da espiritualidade religiosa[8], mas sobre a qual não deve recair a catequese adulta, porque as relações éticas (negociáveis) precisam evoluir na maturidade espiritual para o amor caridade.  Na verdade, sabemos que só a fé adulta embasada pelo amor incondicional a Deus e aos homens promove a eficácia na prática dos valores universais (Verdade, Justiça e Bondade) que fundamentam as decisões pessoais, dignificando a pessoa humana. Aliás, não há amor sem fé, mas o amor é a virtude maior. E por isso, amando, exercitamos a suprema ventura de crer sem restrições. “Não é preciso crer nas cousas, basta ama-las, / Sendo que amar é muito mais que crer...”[9] Na penumbra do intervalo entre a razão e a fé, as especulações transcendentais de natureza intelectual não são suficientes para anular o desassossego existencial. É preciso crer verdadeiramente para esperar sem subterfúgio um epílogo apoteótico transtemporal da existência pessoal. Há que desenvolver o dom da fé que todos trazemos de origem, mas nem sempre cultivamos. Só uma crença arraigada confere o caráter de realidade à cosmogonia espiritualista monista que prolonga a existência pessoal no além do horizonte temporal.  Assim, a fé consolida a presença espiritual na constituição da identidade existencial, banindo o desespero do homem diante de sua finitude biológica. Nesta perspectiva, é que alguém já disse que “A existência não é uma experiência espiritual do homem, mas uma experiência humana do Espírito.”   
                                          Everaldo Lopes                                                                                                               


[1] Estudos de Edward Wilson da Universidade de Harvard. “As espécies sociais totalizam apenas 3% das que povoam a Terra, mas representam 50% da biomassa “.
[2] Vale a pena salientar que a sociabilidade das formigas e abelhas é determinada instintivamente, enquanto a do homem é livremente construída e assumida.
[3] Modo de ser próprio do homem, resultante do exercício responsável da liberdade consciente.
[4] Segundo Heiddeger, a disposição afetiva pela qual se revela ao homem  o nada absoluto sobre o qual se configura a existência.(Houaiss).
[5] A prática da cooperação e da partilha
[6] Miguel de Unamuno. Escritor espanhol (1864 – 1936)
[7] Falaremos deste conceito em breve num texto dedicado à minha postura espiritualista.
[8] Desenvolvida em torno da necessidade humana de crer em forças sobrenaturais criadoras e protetoras com as quais o homem pode negociar sua própria salvação, ante a consciência da finitude biológica..
[9] Raul de Leoni em “Do meu Evangelho”

quarta-feira, 20 de junho de 2012

As escolhas definem a existência


A autoestima cresce com o reconhecimento de habilidades específicas e com a consciência da capacidade decisória baseada na verdade e na justiça. Estes valores são marcos existenciais que enriquecem a personalidade. Crendo no seu merecimento intrínseco a pessoa humana torna-se mais compassiva diante das fraquezas dos seus semelhantes. Otimista e solidária abrir-se-á, então, ao encontro fraterno e confiará na reeducação dos seus irmãos envolvidos em deslizes de conduta. Por outro lado se não for reconhecido por seus valores, o indivíduo perderá a confiança em si mesmo e duvidará da própria competência. Não se reconhece apto para transformar-se em alguém melhor e, por extensão, descrê da reabilitação dos seus pares... terá a autoestima diminuída e, pessimista, restringirá o convívio social.
A análise cultural evidencia que na história familiar e pessoal, fatores psicológicos e factuais afetam a personalidade no seu nascedouro, predispondo às atitudes otimista e pessimista... posturas influentes no desdobramento das relações do sujeito consciente com a sua circunstância. Na caminhada existencial cada um faz de si mesmo julgamento favorável ou desfavorável mediante introspecção analítica, e quanto mais desfavorável (pessimista) for esta apreciação, maior será a insegurança diante das decisões existenciais.
Na dinâmica da existência são os desejos que impelem o ser consciente para a ação. E é preciso aprender a trilhar os caminhos da sabedoria para alcançar o equilíbrio existencial possível na realização dos anseios pessoais. Neste vir a ser temporal marcado pela incerteza a cautela recomenda que ninguém se pavoneie na sua melhor performance nem se rebaixe no pior desempenho. A prudência virtuosa exige uma grande dose de humildade para aceitar o possível na luta por algo mais, distinguindo, inteligentemente, o que se pode, do que não se pode mudar! O pressuposto é que os homens foram feitos para ser feliz, pensando, sentindo, agindo livremente, numa relação de confiança, envolvidos num fluxo de sentimentos recíprocos de aproximação. Não obstante, nesta vida é preciso aprender a lidar com o sofrimento inevitável, a má fé e o desamor... é necessário estar preparado para enfrentar a doença, a velhice e a morte. Na sua infância psíquica o homem busca a felicidade, evitando encarar o sofrimento... só na maturidade psicológica entende que  a felicidade e o sofrimento são consequências, e as situações originárias não são inteiramente controláveis, mas são elas que forjam a felicidade ou o sofrimento. Para o comportamento sábio é fundamental o entendimento da natureza do sofrimento e da felicidade, bem como o conhecimento de suas causas e contextualização de ambos (felicidade e sofrimento) na existência pessoal. Impõe-se para isso a análise correta e isenta de cada situação. Conhecendo as potencialidades e limitações do ser consciente no exercício da liberdade, podemos trabalhar as nossas possibilidades para agir com mais segurança. A ação eficaz livra o homem da indiferença e da depressão. A grande conquista será manter elevado o desejo de viver, a despeito da angústia existencial. Viver para o amor, viver para criar, viver para cooperar com os outros na construção de um mundo melhor. Quando fenece este desejo, sobrevém a depressão. Portanto é preciso vigiar permanentemente para prevenir a insegurança, o medo, o tédio de viver. Atuando, o eu agente imprime o sinete pessoal da sua existência através das escolhas que faz.
As ciências ditas humanas, a psicologia, a sociologia, a antropologia não são capazes de dar uma solução ou resposta tranquilizadora à questão do sofrimento humano. Mas, o conhecimento do dinamismo psíquico abre espaço para o controle das dificuldades existenciais, mediante monitorização dos estados d´alma inerentes ao infortúnio.  É bom, e dá mais segurança saber onde estamos pisando. É bom e aquieta as dúvidas irredutíveis sopesar criteriosamente as possibilidades que se apresentam nas situações conflituosas. Vivendo esta prática mergulhamos na vida, encarando a dor, a velhice e a morte, correndo riscos, ferindo-nos, sangrando e acumulando cicatrizes, mas acabamos atravessando a existência da única maneira possível dentro das limitações pessoais... Agiremos como parvos, covardes, cínicos, ou heróis, mas conscientes de que todos esses “modos de ser” devem evoluir na linha da dignidade humana, desde que não nos falte o empenho pessoal necessário para resgatar, respectivamente, a capacidade crítica, o valor, a coerência e a generosidade. A atitude mais madura é a de respeito à liberdade dos outros, revestindo-se o indivíduo da coragem de ser autêntico no seu intento de superar-se na conquista dos valores universais, imbuído da convicção de poder alcança-los, sem ignorar as dificuldades implícitas e possíveis derrotas.
Embora pareça ousado afirmar, o modo de enfrentar as adversidades é uma questão de opção, e esta será tanto mais consequente quanto maior a compreensão do sofrimento e da dinâmica da existência; tanto mais sábia (a opção) quanto mais integrativa do vir a ser existencial.
Com inteligência e disciplina emocional podemos controlar as reações pessoais diante da realidade. Tudo depende do autocontrole e da criatividade de que formos capazes. Ajuda muito ter ao nosso favor as crenças positivas e o otimismo realista a que aludimos anteriormente neste texto. Estas crenças e a expectativa do melhor geram confiança, fazem crescer a autoestima, estimulam a criatividade e mantêm a existência num equilíbrio prazeroso. Enfim, as escolhas existenciais nobres fertilizam a convivência harmoniosa entre as pessoas, proporcionando-lhes o prazer da interdependência comunitária, numa intimidade respeitosa, sem competitividade mesquinha... Postura que implica em adesão irrestrita à verdade exclui todo ressentimento e qualquer tentativa dissimulada de destilar revolta mal contida.
                                                                       Everaldo Lopes

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Sensualidade, amor e sexo


O prazer dos sentidos se esgota na sua própria fugacidade, e escraviza por despertar a necessidade de repetir a experiência prazerosa. Tem suas raízes no egoísmo. E o ego insaciável coisifica o “outro” quando o procura como objeto do desejo numa abordagem puramente sensual. Isto significa destituir o “outro” da dignidade de que se reveste como ser humano. Comportamento equivocado não raro presente no desfrute do prazer sexual. Nesta perspectiva os indivíduos envolvidos ficam expostos à manipulação recíproca, mesmo quando haja a intenção de respeitarem-se. O respeito imposto pela vontade não é o mesmo que, originalmente, se manifesta como atributo inerente ao amor entre as pessoas. A consideração ao “outro”, forjada pela vontade disciplinada, em termos psicodinâmicos é um expediente para atenuar a inquietação ética, e não uma virtude. Além disso, a observância forçada de preceitos e regras nem sempre é suficiente para filtrar a perversidade do impulso egoico. Só a interação humana de gêneros, que represente uma relação interpessoal calorosa e criativa fundamento existencial do amor, garante a intersubjetividade respeitosa dos pares humanos ao se permitirem intimidades sensuais prazerosas. Na experiência amorosa, o prazer alcançado através da intimidade física é secundário. Quando os parceiros se procuram como pessoas, a experiência física revela-se apenas coadjuvante. Neste contexto a sensualidade em si mesma não é um fim, porém um meio de comunicação. O contrário de quando a aproximação do par humano não tem profundidade existencial e busca, freneticamente, a intimidade física... caso em que a formalidade afetiva se denuncia como um disfarce apenas do objetivo sensual prioritário. A prática da sensualidade sem amor é uma maneira grosseira de aproximar os indivíduos, que não deve ser confundida com a grandeza de uma relação amorosa autêntica. E a diferença não é apenas ética, mas também factual na medida em que havendo ternura e envolvimento afetivo o prazer é muito mais intenso do que o proporcionado pela intimidade apenas erótica.
            Na aproximação entre um homem e uma mulher, a procura do outro pode começar pelo desejo sensual, porém só se consolida pela riqueza afetiva e amadurecimento emocional das pessoas envolvidas.  Só o amor consegue integrar na libido o respeito pelo “outro”, configurando a legitimidade de uma intimidade física completa. E mesmo assim, este roteiro está sempre ameaçado pela demanda dos sentidos ávidos de prazer. É preciso vigiar. Por outro lado, a experiência sensual legitimada pelo amor pode ser empobrecida pelo zelo ético escrupuloso que suprime a liberdade criativa da libido. O equilíbrio é muito sutil. A moralidade formal suaviza o egoísmo com a prática disciplinada do respeito ao “outro”, mas não pode ser priorizada quando existe o amor verdadeiro, marcado em sua própria natureza pela estima e pelo respeito mútuo. Expressão emblemática desta verdade é a célebre afirmação de Santo Agostinho: “Ama e faze o que quiseres!”. Obviamente o Santo referia-se ao amor-caridade[1] respeitoso e responsável, liberto da tirania dos sentidos. Quando a moralidade do encontro não leva o sinete deste amor, mantém-se vivo o risco da satisfação egoísta da libido, ameaçando o altruísmo do verdadeiro sentimento amoroso... então, já não é lícito fazer tudo que se quer!
Diante do desejo egoico, avaro, a consciência equânime defronta uma alternativa... Negar radicalmente, por esforço da vontade, a satisfação do desejo que explode fora do contexto afetivo de sentimentos superiores, ou, na ausência destes, permitir-se arriscar atendê-lo, monitorando cuidadosamente a satisfação inerente mediante auto avaliação judiciosa e respeito ao livre consentimento esclarecido do outro! A segunda alternativa exige muita maturidade para não degenerar numa acomodação cínica. Mas uma análise mesmo superficial demonstra que a atitude radical inibidora, necessariamente moralista, não acrescenta nada ao indivíduo como pessoa, embora garanta o controle da libido. Sob este ponto de vista se torna um procedimento socialmente útil... porém frustra muitas vezes a promessa de um encontro existencial profundo, responsável, autêntico. É o que acontece quando a exclusão radical da experiência sensual interrompe a aproximação de parceiros potencialmente capazes de desenvolver um vínculo amoroso, embora ainda não experimentem um “nós” maiúsculo. Desde que resguardada a dignidade humana pelo consentimento desejado, livre e esclarecido de ambos, a satisfação da sensualidade entre parceiros adultos, não só enche de alegria as pessoas envolvidas, como faculta-lhes a oportunidade de virem a experimentar afeição, zelo e compaixão mútuos, consumando afinal a experiência do “nós”, essencialmente amorosa. A decisão de optar pela exclusão radical da intimidade promissora vincula-se geralmente à rigidez dos parceiros submissos aos preceitos morais inflexíveis de caráter religioso, para fugir à tortura íntima do sentimento de culpa.
            No nível da sensualidade, a disciplina do ego na satisfação dos parceiros sexuais é a marca inconfundível da dimensão humana. Seja a disciplina que emerge naturalmente do encontro amoroso, seja a resultante da intervenção do componente ético assumido livremente. Em qualquer dos casos, a condição humana exige que os parceiros do encontro sexual participem deste por inteiro (corpo e alma) livre, consciente e responsavelmente. Quando eles não estão pessoal e mutuamente ligados em prol do pleno bem estar recíproco, a relação equivale a uma masturbação a dois. A meia verdade afetiva numa relação sensual afunda na pobreza da realização pessoal de ambos os participantes do encontro.
Os sentidos são as lentes através das quais a subjetividade humana percebe o mundo circundante. São, portanto, instrumentos de comunicação que se priorizados em detrimento da integração intelectual, afetiva e volitiva das informações obtidas desservem a unidade existencial. E só o amor legítimo realiza esta integração. Portanto, não há realização existencial (pessoal) sem amor. A autonomia dos sentidos subverte a ordem dos valores que dignificam a condição humana fundamentada no exercício da consciência responsável. A relação interpessoal essencialmente amorosa capaz de dominar os sentidos externos, disciplinando a própria sensualidade caracteriza a legitimidade do encontro sexual entre os seres humanos.
Everaldo Lopes


[1] Termo escolhido pelos cristãos antigos para caracterizar o amor que move a vontade à busca efetiva do bem de outrem.