segunda-feira, 2 de julho de 2012

Construção da identidade existencial


O comprometimento do indivíduo com a ordem social define sua identidade existencial. Sobre cada um recai a responsabilidade de contribuir para a harmonia do convívio na sociedade organizada. Nesta perspectiva, sobressai o comportamento solidário indissociável do ideal comunitário. A satisfação dos desejos individuais desvinculados dos interesses grupais leva a ações equivocadas que deformam o processo evolutivo ensejando consequências danosas para o homem e para o planeta. A Sociobiologia demonstra[1] que a capacidade de organização social, característica de algumas espécies animais (formigas, abelhas e homens) [2] é vantajosa para a Evolução. Portanto, a prática solidária representa um progresso. E quanto maior for a participação inteligente e solidária do indivíduo na construção da coletividade humana melhor será o seu desempenho existencial.
O homem constrói sua existência sobre o nada absoluto,  um vazio original que deverá ser simbolicamente preenchido.  O chão existencial do homem não é dado pela Natureza é construído, sim, por um ato de fé nos valores assumidos em torno dos quais o indivíduo conduz o próprio vir a ser. O nada absoluto sobre o qual se configura a existência[3] se revela ao homem pela angústia existencial[4]. Pressionado por esta disposição afetiva nem sempre o homem assume comportamentos construtivos. Ameaçado pela insegurança frequentemente administra mal sua liberdade, reincidindo em comportamentos individualistas pobres de compromisso social. De geração em geração a repetição destas condutas vem introduzindo distorções sociais desagregadoras. E por conta destes descaminhos a humanidade se debate, historicamente, em crises intermináveis. O descumprimento das responsabilidades[5] pessoais em relação ao ideal comunitário acumulou ao longo dos anos disparidades econômicas no seio das sociedades organizadas, e entre as Nações. Ainda hoje, dispondo de recursos científicos e tecnológicos suficientes para assegurar vida farta e tranquila para todos os homens, predominam os procedimentos mesquinhos que alimentam as desigualdades sociais. Embora a História registre exemplos dignificantes de homens que testemunharam com suas vidas uma espiritualidade centrada na presença do “outro”, essência da solidariedade. A questão é que para consolidar socialmente esta postura é preciso estrutura-la política e economicamente no contexto social segundo o modelo comunitário, o que não tem acontecido de forma expressiva. Para alcançar este objetivo a competição selvagem e o acúmulo de bens materiais  (parâmetros capitalistas preponderantes em nossos dias), terão que evoluir, respectivamente, para a prática da cooperação, e para a partilha destes mesmos bens, sob inspiração da solidariedade. O comportamento solidário chave da organização social exemplar reforça no homem a pujança de sua identidade existencial.
Salta à vista a unidade psicossocial inerente ao desenvolvimento humano que envolve uma dimensão espiritual inabordável racionalmente. O homem sabe que a realidade toda ultrapassa as possibilidades racionais, embora o conhecimento alcançado sugira a existência deste algo mais que excede a compreensão objetiva. Algo a que atribuímos o caráter de realidade sem poder prova-lo objetivamente. Assim o ser racional entra nos domínios da fé. Desta forma, “ter fé não é crer no que não se vê, mas criar o que não se vê”[6]. Uma virtude que abre espaço na subjetividade humana para a experiência mística, assimilando como verdade de fé uma transcendência espiritual absoluta, Deus que se confunde com um Dinamismo Eternamente Criativo[7].  Crença na qual se fundamenta a religiosidade adulta que transcende, no amor universal, a simples necessidade de crer em forças sobrenaturais criadoras e protetoras, e que dá lugar à expectativa de uma projeção transtemporal da existência pessoal histórica. Cabe aqui um comentário complementar. O ideal humanístico comunitário visa ultrapassar a formalidade comportamental, ritualística, em favor de uma prática solidária edificante. E as propostas socioculturais originárias das Igrejas universais convergem para a prática da organização comunitária. Neste sentido as grandes Religiões são existencial e socialmente estruturantes quando praticadas num nível ontológico e não apenas ético. Desta afirmação deduz-se a importância das religiões no processo de humanização. Lamentavelmente, porém, com frequência, a pregação de muitos pastores de almas insinua ou é interpretada como apelo à prática de uma ética autoritária nas relações entre o homem impotente diante dos seus limites, e Deus todo poderoso. Orientação, aliás, de que está impregnada a infância da espiritualidade religiosa[8], mas sobre a qual não deve recair a catequese adulta, porque as relações éticas (negociáveis) precisam evoluir na maturidade espiritual para o amor caridade.  Na verdade, sabemos que só a fé adulta embasada pelo amor incondicional a Deus e aos homens promove a eficácia na prática dos valores universais (Verdade, Justiça e Bondade) que fundamentam as decisões pessoais, dignificando a pessoa humana. Aliás, não há amor sem fé, mas o amor é a virtude maior. E por isso, amando, exercitamos a suprema ventura de crer sem restrições. “Não é preciso crer nas cousas, basta ama-las, / Sendo que amar é muito mais que crer...”[9] Na penumbra do intervalo entre a razão e a fé, as especulações transcendentais de natureza intelectual não são suficientes para anular o desassossego existencial. É preciso crer verdadeiramente para esperar sem subterfúgio um epílogo apoteótico transtemporal da existência pessoal. Há que desenvolver o dom da fé que todos trazemos de origem, mas nem sempre cultivamos. Só uma crença arraigada confere o caráter de realidade à cosmogonia espiritualista monista que prolonga a existência pessoal no além do horizonte temporal.  Assim, a fé consolida a presença espiritual na constituição da identidade existencial, banindo o desespero do homem diante de sua finitude biológica. Nesta perspectiva, é que alguém já disse que “A existência não é uma experiência espiritual do homem, mas uma experiência humana do Espírito.”   
                                          Everaldo Lopes                                                                                                               


[1] Estudos de Edward Wilson da Universidade de Harvard. “As espécies sociais totalizam apenas 3% das que povoam a Terra, mas representam 50% da biomassa “.
[2] Vale a pena salientar que a sociabilidade das formigas e abelhas é determinada instintivamente, enquanto a do homem é livremente construída e assumida.
[3] Modo de ser próprio do homem, resultante do exercício responsável da liberdade consciente.
[4] Segundo Heiddeger, a disposição afetiva pela qual se revela ao homem  o nada absoluto sobre o qual se configura a existência.(Houaiss).
[5] A prática da cooperação e da partilha
[6] Miguel de Unamuno. Escritor espanhol (1864 – 1936)
[7] Falaremos deste conceito em breve num texto dedicado à minha postura espiritualista.
[8] Desenvolvida em torno da necessidade humana de crer em forças sobrenaturais criadoras e protetoras com as quais o homem pode negociar sua própria salvação, ante a consciência da finitude biológica..
[9] Raul de Leoni em “Do meu Evangelho”

quarta-feira, 20 de junho de 2012

As escolhas definem a existência


A autoestima cresce com o reconhecimento de habilidades específicas e com a consciência da capacidade decisória baseada na verdade e na justiça. Estes valores são marcos existenciais que enriquecem a personalidade. Crendo no seu merecimento intrínseco a pessoa humana torna-se mais compassiva diante das fraquezas dos seus semelhantes. Otimista e solidária abrir-se-á, então, ao encontro fraterno e confiará na reeducação dos seus irmãos envolvidos em deslizes de conduta. Por outro lado se não for reconhecido por seus valores, o indivíduo perderá a confiança em si mesmo e duvidará da própria competência. Não se reconhece apto para transformar-se em alguém melhor e, por extensão, descrê da reabilitação dos seus pares... terá a autoestima diminuída e, pessimista, restringirá o convívio social.
A análise cultural evidencia que na história familiar e pessoal, fatores psicológicos e factuais afetam a personalidade no seu nascedouro, predispondo às atitudes otimista e pessimista... posturas influentes no desdobramento das relações do sujeito consciente com a sua circunstância. Na caminhada existencial cada um faz de si mesmo julgamento favorável ou desfavorável mediante introspecção analítica, e quanto mais desfavorável (pessimista) for esta apreciação, maior será a insegurança diante das decisões existenciais.
Na dinâmica da existência são os desejos que impelem o ser consciente para a ação. E é preciso aprender a trilhar os caminhos da sabedoria para alcançar o equilíbrio existencial possível na realização dos anseios pessoais. Neste vir a ser temporal marcado pela incerteza a cautela recomenda que ninguém se pavoneie na sua melhor performance nem se rebaixe no pior desempenho. A prudência virtuosa exige uma grande dose de humildade para aceitar o possível na luta por algo mais, distinguindo, inteligentemente, o que se pode, do que não se pode mudar! O pressuposto é que os homens foram feitos para ser feliz, pensando, sentindo, agindo livremente, numa relação de confiança, envolvidos num fluxo de sentimentos recíprocos de aproximação. Não obstante, nesta vida é preciso aprender a lidar com o sofrimento inevitável, a má fé e o desamor... é necessário estar preparado para enfrentar a doença, a velhice e a morte. Na sua infância psíquica o homem busca a felicidade, evitando encarar o sofrimento... só na maturidade psicológica entende que  a felicidade e o sofrimento são consequências, e as situações originárias não são inteiramente controláveis, mas são elas que forjam a felicidade ou o sofrimento. Para o comportamento sábio é fundamental o entendimento da natureza do sofrimento e da felicidade, bem como o conhecimento de suas causas e contextualização de ambos (felicidade e sofrimento) na existência pessoal. Impõe-se para isso a análise correta e isenta de cada situação. Conhecendo as potencialidades e limitações do ser consciente no exercício da liberdade, podemos trabalhar as nossas possibilidades para agir com mais segurança. A ação eficaz livra o homem da indiferença e da depressão. A grande conquista será manter elevado o desejo de viver, a despeito da angústia existencial. Viver para o amor, viver para criar, viver para cooperar com os outros na construção de um mundo melhor. Quando fenece este desejo, sobrevém a depressão. Portanto é preciso vigiar permanentemente para prevenir a insegurança, o medo, o tédio de viver. Atuando, o eu agente imprime o sinete pessoal da sua existência através das escolhas que faz.
As ciências ditas humanas, a psicologia, a sociologia, a antropologia não são capazes de dar uma solução ou resposta tranquilizadora à questão do sofrimento humano. Mas, o conhecimento do dinamismo psíquico abre espaço para o controle das dificuldades existenciais, mediante monitorização dos estados d´alma inerentes ao infortúnio.  É bom, e dá mais segurança saber onde estamos pisando. É bom e aquieta as dúvidas irredutíveis sopesar criteriosamente as possibilidades que se apresentam nas situações conflituosas. Vivendo esta prática mergulhamos na vida, encarando a dor, a velhice e a morte, correndo riscos, ferindo-nos, sangrando e acumulando cicatrizes, mas acabamos atravessando a existência da única maneira possível dentro das limitações pessoais... Agiremos como parvos, covardes, cínicos, ou heróis, mas conscientes de que todos esses “modos de ser” devem evoluir na linha da dignidade humana, desde que não nos falte o empenho pessoal necessário para resgatar, respectivamente, a capacidade crítica, o valor, a coerência e a generosidade. A atitude mais madura é a de respeito à liberdade dos outros, revestindo-se o indivíduo da coragem de ser autêntico no seu intento de superar-se na conquista dos valores universais, imbuído da convicção de poder alcança-los, sem ignorar as dificuldades implícitas e possíveis derrotas.
Embora pareça ousado afirmar, o modo de enfrentar as adversidades é uma questão de opção, e esta será tanto mais consequente quanto maior a compreensão do sofrimento e da dinâmica da existência; tanto mais sábia (a opção) quanto mais integrativa do vir a ser existencial.
Com inteligência e disciplina emocional podemos controlar as reações pessoais diante da realidade. Tudo depende do autocontrole e da criatividade de que formos capazes. Ajuda muito ter ao nosso favor as crenças positivas e o otimismo realista a que aludimos anteriormente neste texto. Estas crenças e a expectativa do melhor geram confiança, fazem crescer a autoestima, estimulam a criatividade e mantêm a existência num equilíbrio prazeroso. Enfim, as escolhas existenciais nobres fertilizam a convivência harmoniosa entre as pessoas, proporcionando-lhes o prazer da interdependência comunitária, numa intimidade respeitosa, sem competitividade mesquinha... Postura que implica em adesão irrestrita à verdade exclui todo ressentimento e qualquer tentativa dissimulada de destilar revolta mal contida.
                                                                       Everaldo Lopes

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Sensualidade, amor e sexo


O prazer dos sentidos se esgota na sua própria fugacidade, e escraviza por despertar a necessidade de repetir a experiência prazerosa. Tem suas raízes no egoísmo. E o ego insaciável coisifica o “outro” quando o procura como objeto do desejo numa abordagem puramente sensual. Isto significa destituir o “outro” da dignidade de que se reveste como ser humano. Comportamento equivocado não raro presente no desfrute do prazer sexual. Nesta perspectiva os indivíduos envolvidos ficam expostos à manipulação recíproca, mesmo quando haja a intenção de respeitarem-se. O respeito imposto pela vontade não é o mesmo que, originalmente, se manifesta como atributo inerente ao amor entre as pessoas. A consideração ao “outro”, forjada pela vontade disciplinada, em termos psicodinâmicos é um expediente para atenuar a inquietação ética, e não uma virtude. Além disso, a observância forçada de preceitos e regras nem sempre é suficiente para filtrar a perversidade do impulso egoico. Só a interação humana de gêneros, que represente uma relação interpessoal calorosa e criativa fundamento existencial do amor, garante a intersubjetividade respeitosa dos pares humanos ao se permitirem intimidades sensuais prazerosas. Na experiência amorosa, o prazer alcançado através da intimidade física é secundário. Quando os parceiros se procuram como pessoas, a experiência física revela-se apenas coadjuvante. Neste contexto a sensualidade em si mesma não é um fim, porém um meio de comunicação. O contrário de quando a aproximação do par humano não tem profundidade existencial e busca, freneticamente, a intimidade física... caso em que a formalidade afetiva se denuncia como um disfarce apenas do objetivo sensual prioritário. A prática da sensualidade sem amor é uma maneira grosseira de aproximar os indivíduos, que não deve ser confundida com a grandeza de uma relação amorosa autêntica. E a diferença não é apenas ética, mas também factual na medida em que havendo ternura e envolvimento afetivo o prazer é muito mais intenso do que o proporcionado pela intimidade apenas erótica.
            Na aproximação entre um homem e uma mulher, a procura do outro pode começar pelo desejo sensual, porém só se consolida pela riqueza afetiva e amadurecimento emocional das pessoas envolvidas.  Só o amor consegue integrar na libido o respeito pelo “outro”, configurando a legitimidade de uma intimidade física completa. E mesmo assim, este roteiro está sempre ameaçado pela demanda dos sentidos ávidos de prazer. É preciso vigiar. Por outro lado, a experiência sensual legitimada pelo amor pode ser empobrecida pelo zelo ético escrupuloso que suprime a liberdade criativa da libido. O equilíbrio é muito sutil. A moralidade formal suaviza o egoísmo com a prática disciplinada do respeito ao “outro”, mas não pode ser priorizada quando existe o amor verdadeiro, marcado em sua própria natureza pela estima e pelo respeito mútuo. Expressão emblemática desta verdade é a célebre afirmação de Santo Agostinho: “Ama e faze o que quiseres!”. Obviamente o Santo referia-se ao amor-caridade[1] respeitoso e responsável, liberto da tirania dos sentidos. Quando a moralidade do encontro não leva o sinete deste amor, mantém-se vivo o risco da satisfação egoísta da libido, ameaçando o altruísmo do verdadeiro sentimento amoroso... então, já não é lícito fazer tudo que se quer!
Diante do desejo egoico, avaro, a consciência equânime defronta uma alternativa... Negar radicalmente, por esforço da vontade, a satisfação do desejo que explode fora do contexto afetivo de sentimentos superiores, ou, na ausência destes, permitir-se arriscar atendê-lo, monitorando cuidadosamente a satisfação inerente mediante auto avaliação judiciosa e respeito ao livre consentimento esclarecido do outro! A segunda alternativa exige muita maturidade para não degenerar numa acomodação cínica. Mas uma análise mesmo superficial demonstra que a atitude radical inibidora, necessariamente moralista, não acrescenta nada ao indivíduo como pessoa, embora garanta o controle da libido. Sob este ponto de vista se torna um procedimento socialmente útil... porém frustra muitas vezes a promessa de um encontro existencial profundo, responsável, autêntico. É o que acontece quando a exclusão radical da experiência sensual interrompe a aproximação de parceiros potencialmente capazes de desenvolver um vínculo amoroso, embora ainda não experimentem um “nós” maiúsculo. Desde que resguardada a dignidade humana pelo consentimento desejado, livre e esclarecido de ambos, a satisfação da sensualidade entre parceiros adultos, não só enche de alegria as pessoas envolvidas, como faculta-lhes a oportunidade de virem a experimentar afeição, zelo e compaixão mútuos, consumando afinal a experiência do “nós”, essencialmente amorosa. A decisão de optar pela exclusão radical da intimidade promissora vincula-se geralmente à rigidez dos parceiros submissos aos preceitos morais inflexíveis de caráter religioso, para fugir à tortura íntima do sentimento de culpa.
            No nível da sensualidade, a disciplina do ego na satisfação dos parceiros sexuais é a marca inconfundível da dimensão humana. Seja a disciplina que emerge naturalmente do encontro amoroso, seja a resultante da intervenção do componente ético assumido livremente. Em qualquer dos casos, a condição humana exige que os parceiros do encontro sexual participem deste por inteiro (corpo e alma) livre, consciente e responsavelmente. Quando eles não estão pessoal e mutuamente ligados em prol do pleno bem estar recíproco, a relação equivale a uma masturbação a dois. A meia verdade afetiva numa relação sensual afunda na pobreza da realização pessoal de ambos os participantes do encontro.
Os sentidos são as lentes através das quais a subjetividade humana percebe o mundo circundante. São, portanto, instrumentos de comunicação que se priorizados em detrimento da integração intelectual, afetiva e volitiva das informações obtidas desservem a unidade existencial. E só o amor legítimo realiza esta integração. Portanto, não há realização existencial (pessoal) sem amor. A autonomia dos sentidos subverte a ordem dos valores que dignificam a condição humana fundamentada no exercício da consciência responsável. A relação interpessoal essencialmente amorosa capaz de dominar os sentidos externos, disciplinando a própria sensualidade caracteriza a legitimidade do encontro sexual entre os seres humanos.
Everaldo Lopes


[1] Termo escolhido pelos cristãos antigos para caracterizar o amor que move a vontade à busca efetiva do bem de outrem.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

A convivência das gerações


Na medida em que evolui a inversão da pirâmide etária, mais visíveis são os problemas que emergem com a longevidade. Um número cada vez maior de idosos divide, hoje, o mesmo espaço geográfico e social com pessoas mais jovens. E nem todos os idosos conservam sua autonomia. Não raro se tornam dependentes. Alguns exigem dos filhos e netos tratamento especial, tomando-os como seus cuidadores naturais. Imaginam que lhes é devida a mesma atenção e zelo que dispensaram aos seus descendentes enquanto recém-nascidos, crianças e adolescentes. Como logo veremos esta cobrança é só aparentemente justa. Não obstante, o zelo dos filhos e netos dedicados, respectivamente, aos seus pais e avós reflete nobreza de caráter merecedora de admiração e respeito.
 Enquanto os jovens crescem, os seus “cuidadores” envelhecem, invertendo-se os termos da relação de dependência. Realidade que dá suporte a eventuais queixas dos idosos que se sentem abandonados. E, exatamente porque as suas reivindicações explícitas ou silenciosas são conflitantes com a realidade que vivem seus descendentes, a situação deve ser avaliada objetivamente para evitar atitudes passionais no equacionamento dos problemas suscitados, e no encaminhamento de soluções equânimes. Estes problemas envolvem conflitos afetivos, econômicos, sociais e políticos cuja abordagem superficial pode confundir o julgamento das pessoas envolvidas.
Do ponto de vista prático, os cuidados básicos (alimentação, abrigo e proteção) com o recém-nascido e as crianças menores são absolutamente necessários, e não admitem discussão nem restrições. Com variações mínimas, a cultura prevalente coloca a responsabilidade desses cuidados sobre os ombros dos pais biológicos, ou sucedâneos. O que à primeira vista parece razoável, uma vez que o filho foi gerado por iniciativa do casal, e assumido, espontaneamente pelos pais adotivos, quando for o caso. No modelo social atual, aos pais compete maior responsabilidade no apoio material educacional e moral ao filho até que este conquiste autonomia jurídica e econômica. A Escola Pública oferece ajuda expressiva, porém ainda insuficiente tendo em vista a assistência integral ao jovem até sua completa formação. Com o passar dos anos aumenta a autonomia do filho e decresce a influência parental. Todavia, a esta altura da vida os seus descendentes já assumiram compromisso moral e material com mulher e filhos, formando uma nova família, a sua própria, e absorvidos por esta responsabilidade, se não forem ricos estarão impossibilitados  de dar assistência total aos seus ascendentes carentes. Neste ponto teve influência decisiva a mudança dos parâmetros sociais inerente à transformação da família extensa[1] (patriarcal entre os povos da antiguidade clássica), na família departamental ou elementar[2]. Dependendo das finanças dos descendentes, a soma das despesas com duas famílias em ambientes diferentes cria obstáculos econômicos e administrativos ponderáveis. Muitas vezes as dificuldades se tornam críticas, configuradas em situações de insolvabilidade financeira, cruéis para os idosos carentes; e dramáticas para o filho que não dispõe dos recursos necessários para atendê-los. O exame desapaixonado da questão mostra a íntima relação dessas dificuldades com o tipo de organização social vigente, o que demonstra a importância do modo como o Estado burocrático encara o problema. Afinal, do ponto de vista evolutivo a procriação objetiva a sobrevivência da espécie[3]. O amor entre pais e filhos é uma prática virtuosa no decorrer do processo evolutivo. Porém, por mais amor que os pais dediquem ao seu rebento este está predestinado a servir à sociedade e à espécie. Portanto o Estado, teoricamente responsável pelo equilíbrio social e econômico da vida coletiva deveria assumir a maior cota de responsabilidade nos cuidados e obrigações, hoje, atribuídos aos pais biológicos ou adotivos. Outrossim, por justa retribuição, também deverá dar cobertura assistencial integral aos idosos que já não podem mais contribuir materialmente para  a sociedade que ajudaram a construir, incapazes, agora, de suprir as próprias necessidades básicas. No regime democrático, esta reorientação da política assistencial pressupõe atuação inteligente, íntegra e efetiva do Legislativo, do Executivo e do Judiciário, refletindo os anseios da própria sociedade. O problema se agrava pela prática cínica, instalada no âmbito de uma economia de mercado que, através de competição não raro aética e do estímulo ao acúmulo de bens materiais torna o rico cada vez mais rico e o pobre cada vez mais pobre. Neste clima, a cooperação e a partilha, inerentes ao comportamento solidário já não inspiram as iniciativas comunitárias, sejam governamentais ou pessoais. A prática social solidária, nobre e justa fica limitada a opções generosas de espíritos sensíveis movidos por sentimentos caridosos. Tudo isso leva a enfatizar a necessidade de criar mecanismos institucionais de participação do Estado na assistência a ser dispensada aos cidadãos no começo e no fim de suas vidas quando não podem dar conta de suas próprias necessidades. Tendo em vista a globalização da economia, a amplitude dos problemas expostos não se restringe mais a uma questão ética familiar, mas tem que ver com o equilíbrio da vida no Planeta e, consequentemente, envolve a própria Evolução. Portanto o Estado, representado pelos Poderes constituídos não pode omitir-se das responsabilidades que lhe cabem na solução dos problemas peculiares às crianças, aos jovens e aos idosos. Todavia, além dos ajustes formais do comportamento político dos gestores públicos, faz-se necessária a prática solidária entre os componentes da sociedade organizada.
No momento histórico em que vivemos, a ausência do Estado e do exercício extensivo da solidariedade deixam desamparados os economicamente excluídos, com prejuízo mais ostensivo para os infantes, adolescentes e idosos que não contam com a assistência dos familiares aos quais faltam os recursos financeiros necessários. Situações muitas vezes caracterizadas por dramas familiares incontornáveis.
 Everaldo Lopes


[1] Constituída pela associação de duas ou mais famílias elementares.
[2] Constituída pelo casal e filhos.
[3] Ler neste blog “Aspectos éticos da sexualidade”

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Cogitações sobre o tempo


Recebi uma mensagem por e-mail mostrando fotos de Brigitte Bardot nas várias fases da sua vida. As fotografias denunciam a ação do tempo sobre o seu perfil corporal. No texto do e-mail ao qual estava anexada a mensagem, um questionamento da minha filha:
- “O tempo é justo?”
- “Fisicamente, definitivamente, acho que não”.
Projetei nesta apreciação a minha própria relutância em aceitar a faina devastadora do tempo... Fiquei matutando um pouco... A mente vagou, displicentemente, sobre o envelhecimento. Lembrei-me das táticas de autoajuda que a título de compensação tentam realçar as conquistas da idade avançada tais como o conhecimento, a experiência de vida, a disciplina emocional, que coincidem com o aparecimento das rugas e de outros sinais de decadência física... associação que não me parece tão constante...  E concentrei a atenção na diferença essencial entre o tempo cósmico descontínuo (mensurável em unidades) e o tempo subjetivo, contínuo, (in)delimitável... respectivamente, o tempo do corpo (sujeito às leis da matéria) e o “tempo” (sem tempo) da alma, sutil,  vivido na intimidade subjetiva. São dois momentos diferentes no todo existencial que tudo engloba. No tempo interior o “eu” escolhe e decide, exerce o livre arbítrio, imprimindo colorido estético e ético nas escolhas pessoais. As virtudes decantadas do idoso são ecos espirituais desta experiência. Atentando para a (in)dissociabilidade destes dois momentos não se pode deixar de reconhecer a intersecção da imanência cósmica e da transcendência absoluta na intimidade subjetiva de cada homem. Por conta disso o sujeito consciente reflexivo assiste do seu presente eterno (atemporal em relação ao fluxo do tempo cósmico) ao envelhecimento do servomecanismo biológico. O pensamento místico associa este referencial imóvel à presença misteriosa do Espírito incriado (objeto de fé) que habita todas as criaturas. Mas ao negar a perspectiva da atemporalidade, ou ignorando-a, o ser humano reduz-se ao servomecanismo através do qual se manifesta a consciência... e se descobre inexoravelmente tragado pela voragem do tempo físico, esmagado pela finitude intransponível! Então, assim massacrado pela fragilidade do corpo naturalmente sujeito ao envelhecimento e à morte, o homem diz que o tempo é injusto. Tem uma intuição confusa da eternidade do espírito... e, participando existencialmente das dimensões espiritual e cósmica sente dificuldade de contornar a tirania da contingência muito mais dolorosa sem a ligação com seu fundamento transcendental. É necessário um esforço especulativo para distinguir, na “própria carne” as duas dimensões. O espírito não envelhece com a matéria evanescente na qual se manifesta. Por isso o homem pode observar o caminhar do tempo cósmico no próprio corpo. O grande desafio da condição humana é a elaboração da antinomia: finitude x desejo de permanecer no ser, que coloca o indivíduo diante da aparente contradição entre a eternidade e o tempo. Contradição aparente porque `só a eternidade é real, o tempo e tudo que dele depende são ilusões´. Esta visão cosmogônica monista espiritualista, absurda para o Agnóstico, foi a grande intuição da espiritualidade hinduísta, sete séculos antes de Cristo. Nesta perspectiva a matéria é uma projeção virtual do Espírito eterno... Ideia que não passa de pura fantasia, do ponto de vista materialista. Por outro lado, tomando por base este mesmo ponto de vista materialista que nega qualquer transcendência não se pode dar uma explicação racional para a origem do universo e para a ordem implícita, progressiva, no micro e no macrocosmo. A Física Quântica oferece um respaldo teórico à tese da cosmogonia monista espiritualista ao afirmar que os “seres” são possibilidades tornadas realidades por escolha da “consciência não localizada”, admitindo desta forma uma causalidade descendente que, a partir de um Todo absoluto induz a complexificação da matéria, ressuscitando o velho conceito da consciência universal, correspondente ao Deus Criador. Impulsionado por uma curiosidade insistente, absorto nestas cogitações, comecei pensar nas duas formas de encarar o tempo e na impertinência de julgar justo ou injusto o tempo que marca a idade do corpo. Na verdade, o tempo cósmico é um fenômeno que em si mesmo nada tem de justo ou injusto, é um acontecimento natural. No tempo interno da experiência subjetiva é que se manifesta a consciência pessoal reflexiva que permite ao “eu” pensante fazer atribuições pessoais assumindo a responsabilidade inerente. Então a existência ingênua se permite achar que o tempo é injusto. Todavia esta atribuição não resiste a uma análise fenomenológica transcendental. A justiça e a injustiça são produtos do julgamento humano sob a forma de atribuições inspiradas por afetos gratuitos. Na verdade, o tempo cósmico não é réu de julgamento, ele não tem autonomia decisiva, é apenas o caminho de uma sequência de fenômenos que obedecem a uma ordem sobre a qual não tem controle. Como tal não pode ser considerado justo ou injusto.
A destruição da beleza de Brigite ao longo dos anos é inerente à sua contingência material. Não foi o tempo que a envelheceu, mas a fugacidade da própria realidade biológica da qual o “tempo cósmico” e o “espaço” são os fundamentos fenomenológicos.
Everaldo Lopes