sexta-feira, 8 de junho de 2012

Sensualidade, amor e sexo


O prazer dos sentidos se esgota na sua própria fugacidade, e escraviza por despertar a necessidade de repetir a experiência prazerosa. Tem suas raízes no egoísmo. E o ego insaciável coisifica o “outro” quando o procura como objeto do desejo numa abordagem puramente sensual. Isto significa destituir o “outro” da dignidade de que se reveste como ser humano. Comportamento equivocado não raro presente no desfrute do prazer sexual. Nesta perspectiva os indivíduos envolvidos ficam expostos à manipulação recíproca, mesmo quando haja a intenção de respeitarem-se. O respeito imposto pela vontade não é o mesmo que, originalmente, se manifesta como atributo inerente ao amor entre as pessoas. A consideração ao “outro”, forjada pela vontade disciplinada, em termos psicodinâmicos é um expediente para atenuar a inquietação ética, e não uma virtude. Além disso, a observância forçada de preceitos e regras nem sempre é suficiente para filtrar a perversidade do impulso egoico. Só a interação humana de gêneros, que represente uma relação interpessoal calorosa e criativa fundamento existencial do amor, garante a intersubjetividade respeitosa dos pares humanos ao se permitirem intimidades sensuais prazerosas. Na experiência amorosa, o prazer alcançado através da intimidade física é secundário. Quando os parceiros se procuram como pessoas, a experiência física revela-se apenas coadjuvante. Neste contexto a sensualidade em si mesma não é um fim, porém um meio de comunicação. O contrário de quando a aproximação do par humano não tem profundidade existencial e busca, freneticamente, a intimidade física... caso em que a formalidade afetiva se denuncia como um disfarce apenas do objetivo sensual prioritário. A prática da sensualidade sem amor é uma maneira grosseira de aproximar os indivíduos, que não deve ser confundida com a grandeza de uma relação amorosa autêntica. E a diferença não é apenas ética, mas também factual na medida em que havendo ternura e envolvimento afetivo o prazer é muito mais intenso do que o proporcionado pela intimidade apenas erótica.
            Na aproximação entre um homem e uma mulher, a procura do outro pode começar pelo desejo sensual, porém só se consolida pela riqueza afetiva e amadurecimento emocional das pessoas envolvidas.  Só o amor consegue integrar na libido o respeito pelo “outro”, configurando a legitimidade de uma intimidade física completa. E mesmo assim, este roteiro está sempre ameaçado pela demanda dos sentidos ávidos de prazer. É preciso vigiar. Por outro lado, a experiência sensual legitimada pelo amor pode ser empobrecida pelo zelo ético escrupuloso que suprime a liberdade criativa da libido. O equilíbrio é muito sutil. A moralidade formal suaviza o egoísmo com a prática disciplinada do respeito ao “outro”, mas não pode ser priorizada quando existe o amor verdadeiro, marcado em sua própria natureza pela estima e pelo respeito mútuo. Expressão emblemática desta verdade é a célebre afirmação de Santo Agostinho: “Ama e faze o que quiseres!”. Obviamente o Santo referia-se ao amor-caridade[1] respeitoso e responsável, liberto da tirania dos sentidos. Quando a moralidade do encontro não leva o sinete deste amor, mantém-se vivo o risco da satisfação egoísta da libido, ameaçando o altruísmo do verdadeiro sentimento amoroso... então, já não é lícito fazer tudo que se quer!
Diante do desejo egoico, avaro, a consciência equânime defronta uma alternativa... Negar radicalmente, por esforço da vontade, a satisfação do desejo que explode fora do contexto afetivo de sentimentos superiores, ou, na ausência destes, permitir-se arriscar atendê-lo, monitorando cuidadosamente a satisfação inerente mediante auto avaliação judiciosa e respeito ao livre consentimento esclarecido do outro! A segunda alternativa exige muita maturidade para não degenerar numa acomodação cínica. Mas uma análise mesmo superficial demonstra que a atitude radical inibidora, necessariamente moralista, não acrescenta nada ao indivíduo como pessoa, embora garanta o controle da libido. Sob este ponto de vista se torna um procedimento socialmente útil... porém frustra muitas vezes a promessa de um encontro existencial profundo, responsável, autêntico. É o que acontece quando a exclusão radical da experiência sensual interrompe a aproximação de parceiros potencialmente capazes de desenvolver um vínculo amoroso, embora ainda não experimentem um “nós” maiúsculo. Desde que resguardada a dignidade humana pelo consentimento desejado, livre e esclarecido de ambos, a satisfação da sensualidade entre parceiros adultos, não só enche de alegria as pessoas envolvidas, como faculta-lhes a oportunidade de virem a experimentar afeição, zelo e compaixão mútuos, consumando afinal a experiência do “nós”, essencialmente amorosa. A decisão de optar pela exclusão radical da intimidade promissora vincula-se geralmente à rigidez dos parceiros submissos aos preceitos morais inflexíveis de caráter religioso, para fugir à tortura íntima do sentimento de culpa.
            No nível da sensualidade, a disciplina do ego na satisfação dos parceiros sexuais é a marca inconfundível da dimensão humana. Seja a disciplina que emerge naturalmente do encontro amoroso, seja a resultante da intervenção do componente ético assumido livremente. Em qualquer dos casos, a condição humana exige que os parceiros do encontro sexual participem deste por inteiro (corpo e alma) livre, consciente e responsavelmente. Quando eles não estão pessoal e mutuamente ligados em prol do pleno bem estar recíproco, a relação equivale a uma masturbação a dois. A meia verdade afetiva numa relação sensual afunda na pobreza da realização pessoal de ambos os participantes do encontro.
Os sentidos são as lentes através das quais a subjetividade humana percebe o mundo circundante. São, portanto, instrumentos de comunicação que se priorizados em detrimento da integração intelectual, afetiva e volitiva das informações obtidas desservem a unidade existencial. E só o amor legítimo realiza esta integração. Portanto, não há realização existencial (pessoal) sem amor. A autonomia dos sentidos subverte a ordem dos valores que dignificam a condição humana fundamentada no exercício da consciência responsável. A relação interpessoal essencialmente amorosa capaz de dominar os sentidos externos, disciplinando a própria sensualidade caracteriza a legitimidade do encontro sexual entre os seres humanos.
Everaldo Lopes


[1] Termo escolhido pelos cristãos antigos para caracterizar o amor que move a vontade à busca efetiva do bem de outrem.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

A convivência das gerações


Na medida em que evolui a inversão da pirâmide etária, mais visíveis são os problemas que emergem com a longevidade. Um número cada vez maior de idosos divide, hoje, o mesmo espaço geográfico e social com pessoas mais jovens. E nem todos os idosos conservam sua autonomia. Não raro se tornam dependentes. Alguns exigem dos filhos e netos tratamento especial, tomando-os como seus cuidadores naturais. Imaginam que lhes é devida a mesma atenção e zelo que dispensaram aos seus descendentes enquanto recém-nascidos, crianças e adolescentes. Como logo veremos esta cobrança é só aparentemente justa. Não obstante, o zelo dos filhos e netos dedicados, respectivamente, aos seus pais e avós reflete nobreza de caráter merecedora de admiração e respeito.
 Enquanto os jovens crescem, os seus “cuidadores” envelhecem, invertendo-se os termos da relação de dependência. Realidade que dá suporte a eventuais queixas dos idosos que se sentem abandonados. E, exatamente porque as suas reivindicações explícitas ou silenciosas são conflitantes com a realidade que vivem seus descendentes, a situação deve ser avaliada objetivamente para evitar atitudes passionais no equacionamento dos problemas suscitados, e no encaminhamento de soluções equânimes. Estes problemas envolvem conflitos afetivos, econômicos, sociais e políticos cuja abordagem superficial pode confundir o julgamento das pessoas envolvidas.
Do ponto de vista prático, os cuidados básicos (alimentação, abrigo e proteção) com o recém-nascido e as crianças menores são absolutamente necessários, e não admitem discussão nem restrições. Com variações mínimas, a cultura prevalente coloca a responsabilidade desses cuidados sobre os ombros dos pais biológicos, ou sucedâneos. O que à primeira vista parece razoável, uma vez que o filho foi gerado por iniciativa do casal, e assumido, espontaneamente pelos pais adotivos, quando for o caso. No modelo social atual, aos pais compete maior responsabilidade no apoio material educacional e moral ao filho até que este conquiste autonomia jurídica e econômica. A Escola Pública oferece ajuda expressiva, porém ainda insuficiente tendo em vista a assistência integral ao jovem até sua completa formação. Com o passar dos anos aumenta a autonomia do filho e decresce a influência parental. Todavia, a esta altura da vida os seus descendentes já assumiram compromisso moral e material com mulher e filhos, formando uma nova família, a sua própria, e absorvidos por esta responsabilidade, se não forem ricos estarão impossibilitados  de dar assistência total aos seus ascendentes carentes. Neste ponto teve influência decisiva a mudança dos parâmetros sociais inerente à transformação da família extensa[1] (patriarcal entre os povos da antiguidade clássica), na família departamental ou elementar[2]. Dependendo das finanças dos descendentes, a soma das despesas com duas famílias em ambientes diferentes cria obstáculos econômicos e administrativos ponderáveis. Muitas vezes as dificuldades se tornam críticas, configuradas em situações de insolvabilidade financeira, cruéis para os idosos carentes; e dramáticas para o filho que não dispõe dos recursos necessários para atendê-los. O exame desapaixonado da questão mostra a íntima relação dessas dificuldades com o tipo de organização social vigente, o que demonstra a importância do modo como o Estado burocrático encara o problema. Afinal, do ponto de vista evolutivo a procriação objetiva a sobrevivência da espécie[3]. O amor entre pais e filhos é uma prática virtuosa no decorrer do processo evolutivo. Porém, por mais amor que os pais dediquem ao seu rebento este está predestinado a servir à sociedade e à espécie. Portanto o Estado, teoricamente responsável pelo equilíbrio social e econômico da vida coletiva deveria assumir a maior cota de responsabilidade nos cuidados e obrigações, hoje, atribuídos aos pais biológicos ou adotivos. Outrossim, por justa retribuição, também deverá dar cobertura assistencial integral aos idosos que já não podem mais contribuir materialmente para  a sociedade que ajudaram a construir, incapazes, agora, de suprir as próprias necessidades básicas. No regime democrático, esta reorientação da política assistencial pressupõe atuação inteligente, íntegra e efetiva do Legislativo, do Executivo e do Judiciário, refletindo os anseios da própria sociedade. O problema se agrava pela prática cínica, instalada no âmbito de uma economia de mercado que, através de competição não raro aética e do estímulo ao acúmulo de bens materiais torna o rico cada vez mais rico e o pobre cada vez mais pobre. Neste clima, a cooperação e a partilha, inerentes ao comportamento solidário já não inspiram as iniciativas comunitárias, sejam governamentais ou pessoais. A prática social solidária, nobre e justa fica limitada a opções generosas de espíritos sensíveis movidos por sentimentos caridosos. Tudo isso leva a enfatizar a necessidade de criar mecanismos institucionais de participação do Estado na assistência a ser dispensada aos cidadãos no começo e no fim de suas vidas quando não podem dar conta de suas próprias necessidades. Tendo em vista a globalização da economia, a amplitude dos problemas expostos não se restringe mais a uma questão ética familiar, mas tem que ver com o equilíbrio da vida no Planeta e, consequentemente, envolve a própria Evolução. Portanto o Estado, representado pelos Poderes constituídos não pode omitir-se das responsabilidades que lhe cabem na solução dos problemas peculiares às crianças, aos jovens e aos idosos. Todavia, além dos ajustes formais do comportamento político dos gestores públicos, faz-se necessária a prática solidária entre os componentes da sociedade organizada.
No momento histórico em que vivemos, a ausência do Estado e do exercício extensivo da solidariedade deixam desamparados os economicamente excluídos, com prejuízo mais ostensivo para os infantes, adolescentes e idosos que não contam com a assistência dos familiares aos quais faltam os recursos financeiros necessários. Situações muitas vezes caracterizadas por dramas familiares incontornáveis.
 Everaldo Lopes


[1] Constituída pela associação de duas ou mais famílias elementares.
[2] Constituída pelo casal e filhos.
[3] Ler neste blog “Aspectos éticos da sexualidade”

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Cogitações sobre o tempo


Recebi uma mensagem por e-mail mostrando fotos de Brigitte Bardot nas várias fases da sua vida. As fotografias denunciam a ação do tempo sobre o seu perfil corporal. No texto do e-mail ao qual estava anexada a mensagem, um questionamento da minha filha:
- “O tempo é justo?”
- “Fisicamente, definitivamente, acho que não”.
Projetei nesta apreciação a minha própria relutância em aceitar a faina devastadora do tempo... Fiquei matutando um pouco... A mente vagou, displicentemente, sobre o envelhecimento. Lembrei-me das táticas de autoajuda que a título de compensação tentam realçar as conquistas da idade avançada tais como o conhecimento, a experiência de vida, a disciplina emocional, que coincidem com o aparecimento das rugas e de outros sinais de decadência física... associação que não me parece tão constante...  E concentrei a atenção na diferença essencial entre o tempo cósmico descontínuo (mensurável em unidades) e o tempo subjetivo, contínuo, (in)delimitável... respectivamente, o tempo do corpo (sujeito às leis da matéria) e o “tempo” (sem tempo) da alma, sutil,  vivido na intimidade subjetiva. São dois momentos diferentes no todo existencial que tudo engloba. No tempo interior o “eu” escolhe e decide, exerce o livre arbítrio, imprimindo colorido estético e ético nas escolhas pessoais. As virtudes decantadas do idoso são ecos espirituais desta experiência. Atentando para a (in)dissociabilidade destes dois momentos não se pode deixar de reconhecer a intersecção da imanência cósmica e da transcendência absoluta na intimidade subjetiva de cada homem. Por conta disso o sujeito consciente reflexivo assiste do seu presente eterno (atemporal em relação ao fluxo do tempo cósmico) ao envelhecimento do servomecanismo biológico. O pensamento místico associa este referencial imóvel à presença misteriosa do Espírito incriado (objeto de fé) que habita todas as criaturas. Mas ao negar a perspectiva da atemporalidade, ou ignorando-a, o ser humano reduz-se ao servomecanismo através do qual se manifesta a consciência... e se descobre inexoravelmente tragado pela voragem do tempo físico, esmagado pela finitude intransponível! Então, assim massacrado pela fragilidade do corpo naturalmente sujeito ao envelhecimento e à morte, o homem diz que o tempo é injusto. Tem uma intuição confusa da eternidade do espírito... e, participando existencialmente das dimensões espiritual e cósmica sente dificuldade de contornar a tirania da contingência muito mais dolorosa sem a ligação com seu fundamento transcendental. É necessário um esforço especulativo para distinguir, na “própria carne” as duas dimensões. O espírito não envelhece com a matéria evanescente na qual se manifesta. Por isso o homem pode observar o caminhar do tempo cósmico no próprio corpo. O grande desafio da condição humana é a elaboração da antinomia: finitude x desejo de permanecer no ser, que coloca o indivíduo diante da aparente contradição entre a eternidade e o tempo. Contradição aparente porque `só a eternidade é real, o tempo e tudo que dele depende são ilusões´. Esta visão cosmogônica monista espiritualista, absurda para o Agnóstico, foi a grande intuição da espiritualidade hinduísta, sete séculos antes de Cristo. Nesta perspectiva a matéria é uma projeção virtual do Espírito eterno... Ideia que não passa de pura fantasia, do ponto de vista materialista. Por outro lado, tomando por base este mesmo ponto de vista materialista que nega qualquer transcendência não se pode dar uma explicação racional para a origem do universo e para a ordem implícita, progressiva, no micro e no macrocosmo. A Física Quântica oferece um respaldo teórico à tese da cosmogonia monista espiritualista ao afirmar que os “seres” são possibilidades tornadas realidades por escolha da “consciência não localizada”, admitindo desta forma uma causalidade descendente que, a partir de um Todo absoluto induz a complexificação da matéria, ressuscitando o velho conceito da consciência universal, correspondente ao Deus Criador. Impulsionado por uma curiosidade insistente, absorto nestas cogitações, comecei pensar nas duas formas de encarar o tempo e na impertinência de julgar justo ou injusto o tempo que marca a idade do corpo. Na verdade, o tempo cósmico é um fenômeno que em si mesmo nada tem de justo ou injusto, é um acontecimento natural. No tempo interno da experiência subjetiva é que se manifesta a consciência pessoal reflexiva que permite ao “eu” pensante fazer atribuições pessoais assumindo a responsabilidade inerente. Então a existência ingênua se permite achar que o tempo é injusto. Todavia esta atribuição não resiste a uma análise fenomenológica transcendental. A justiça e a injustiça são produtos do julgamento humano sob a forma de atribuições inspiradas por afetos gratuitos. Na verdade, o tempo cósmico não é réu de julgamento, ele não tem autonomia decisiva, é apenas o caminho de uma sequência de fenômenos que obedecem a uma ordem sobre a qual não tem controle. Como tal não pode ser considerado justo ou injusto.
A destruição da beleza de Brigite ao longo dos anos é inerente à sua contingência material. Não foi o tempo que a envelheceu, mas a fugacidade da própria realidade biológica da qual o “tempo cósmico” e o “espaço” são os fundamentos fenomenológicos.
Everaldo Lopes

segunda-feira, 7 de maio de 2012

A espiritualidade do ateu

Especulações baseadas no conhecimento acumulado sobre a evolução do mundo físico e da vida dão suporte a uma cosmovisão espiritualista criacionista. A causa primeira de tudo continua impermeável à razão humana, suscitando cogitações metafísicas que abrem espaço para um Absoluto criador, objeto de fé. Todavia, é evidente a “complexificação” crescente da matéria desde o “Big-bang”[1]. A matéria primitiva desorganizada evoluiu até a complicada estrutura do Sistema Nervoso Central, culminando no córtex cerebral do homem que ensejou o advento da consciência reflexiva. Avaliado o tempo decorrido desde o “Big-bang”, se esta sequência evolutiva tal como ocorreu se devesse apenas a coincidências felizes, a esmo, não teria sido possível estatisticamente alcançar o estádio atual da Evolução... a matéria jogada ao acaso levaria um tempo infinitamente maior.  Portanto, para justificar a ordem crescente no cosmo e na vida até o patamar que se constata hoje, ter-se-ia que recorrer a um “anti acaso” que, então, teria o mesmo peso epistemológico de um Deus criador.  Na verdade há mais razões para crer do que para descrer em Deus, Dinamismo absoluto eternamente criativo.
A condição humana[2] passa a ser um divisor de águas no curso do processo evolutivo. A partir do homem a Evolução foi redirecionada, do aperfeiçoamento biológico do indivíduo para o da organização consciente e voluntária da sociedade na qual ele está contextualizado. Nesta perspectiva o livre arbítrio tornou mais flexíveis as mudanças evolucionárias, agora, orientadas por escolhas que visam a ordem política e econômica da comunidade humana. Saber-se parte de um todo integrado, permite ao homem criar critérios de comportamento no vir a ser pessoal, tendo em vista sua relação com o todo em que está situado. Nesta perspectiva a consciência já não pode mais ser considerada um epifenômeno da matéria, porém o cerne de uma realidade autônoma, livre, criativa capaz de influir nos rumos da própria Evolução... o que torna o homem um colaborador do “Dinamismo Absoluto Eternamente Criativo”[3].
Para atender à coerência inerente ao exercício da “condição humana”[4] a organização social deverá garantir a salvaguarda da verdade e da justiça. Estes valores pautam as responsabilidades humanísticas, sejam elas entendidas numa perspectiva espiritualista que além de buscar o bem estar social aposta na comunhão transcendental de todos os homens na unidade absoluta de Deus, sejam elas inspiradas na lógica temporal da convivência justa e confortável a que aspira o Agnóstico.  Uma vez preservadas as características da “condição humana” o resultado prático imediato da postura socializante é o mesmo em ambos os casos. Mas o compromisso social do Agnóstico resulta sempre num comportamento apenas ético, enquanto o do Místico o envolve com seus pares num comprometimento intersubjetivo amoroso. O Agnóstico põe em prática os esquemas culturais que regem seu comportamento social, pragmaticamente, com base em razões objetivas. O Místico transcende o imediatismo pragmático do comportamento social, prolongando seu ideal humanístico para além do horizonte temporal. Assim, a integridade da postura humanística tranquiliza em ambos os casos a consciência ética mediante comportamentos satisfatórios que diferem apenas nos seus fundamentos. Mas esta distinção pesa muito na solução da angústia existencial comum a uns e a outros. A desvantagem do ateu é que lhe falta o amparo da fé em um Poder transcendental providente no qual se resolvam todas as contradições inerentes à realidade temporal, e com o qual possa manter uma relação pessoal. Em contrapartida, para que o Místico se beneficie é necessário que esteja possuído por uma fé inabalável! Diante deste confronto entre Espiritualistas e Materialistas críticos, fica evidente que os primeiros atendem mais cabalmente ao anseio de transcendência inerente à própria consciência. Escudando-se em especulações coerentes eles concebem e creem numa cosmogonia espiritualista, criacionista que promete uma perfeição trans temporal. Enquanto os agnósticos, materialistas, simplesmente se negam a aceitar a mesma mundividência porque não creem num Absoluto criador... Embora não saibam explicar o origem da ordem que a própria Ciência constata na realidade cósmica e biológica. Este comportamento pode ser assimilável a um ato voluntarioso. Lembro aqui o relato que me foi feito por um amigo já falecido, da conversa que tivera na sua juventude com um frade professor de Teologia. Falando de Felix Le Dantec (1869 – 1917), Biólogo francês, materialista, o monge contara-lhe que este grande homem de Ciência dizia rilhando os dentes como se consumasse sua autoafirmação num ato de rebeldia: “- Sou ateu porque quero!”. Com isto o mentor espiritual do meu amigo quisera realçar a humildade necessária para exercitar o dom da fé. Todavia, por trás desta rebeldia está, não raro, uma pessoa intimidada pela consciência da própria contingência, hipercrítica, racionalista, carente de uma experiência existencial amorosa, suspicaz, resistente à entrega de si mesma às incertezas de um vir a ser imprevisível.
Aliás, rigorosamente, a negação da transcendência absoluta é também um testemunho de fé. Pois, do ponto de vista estritamente racional não se pode “afirmar” ou “negar” o “Absoluto”. Portanto, ao negar Deus os incrédulos o fazem mercê de uma crença! Por outro lado, o Ateu coerente com o exercício da condição humana, pratica uma ética humanística, nutre sentimentos de solidariedade e o desejo de ser veraz e autêntico, superando de algum modo a angústia existencial. Livre de quaisquer imposições dogmáticas está predisposto a desenvolver maior tolerância nos seus contatos sociais. Nesta perspectiva se desenvolve a espiritualidade do Ateu! Embora uma espiritualidade sufocada pelo tempo.
Everaldo Lopes


[1] Entendido como a grande explosão que deu início ao tempo e ao espaço cósmicos inerentes à matéria.
[2] Consciência  reflexiva  livre e responsável; capacidade de escolha e decisão.
[3] Deus
[4] Caracterizada pela prática  da Consciência reflexiva, da Liberdade e da Responsabilidade.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Uma razão para viver...


Viver por viver, ou viver os prazeres que a sensualidade proporciona, sem a participação do sujeito consciente centrado em valores morais é um desperdício das potencialidades humanas. Alguém já disse do homem que a verdadeira coragem de ser é caminhar para a morte, lutando pela vida. Concordo com esta afirmação, mas numa perspectiva de vida apaixonada pela conquista de um ideal que atenda aos anseios legítimos do ser humano, empós de soluções criativas para as contradições da existência[1]. A partir desta visão convenhamos, para que sua vida tenha sentido e valha a pena é essencial que o homem alimente a esperança da construção de uma existência coerente em relação ao ideal comunitário universal.  Todavia, ao eleger a “paixão” de suas vidas muitas pessoas se perdem em projetos equivocados. Deparamos um cenário no mínimo curioso ao olhar retrospectivamente os antecedentes pessoais dos que sentem a proximidade do fim, e buscam socorro nas emergências médicas. Com a esperança de vencer a parca impiedosa, os intensivistas prestam socorro médico valiosíssimo aos enfermos ameaçados de morte iminente. A ideia predominante destes enfermos é viver, viver mais. O desejo de viver não desanima sequer diante da impossibilidade de vencer a morte, finalmente, inevitável. Arrisca-se tudo para retardar a “partida”. Não há nada condenável no desejo de prolongar a vida, ao contrário é normal e desejável que assim seja. Todavia chama atenção a imprevidência reinante, pois excluídas as emergências decorrentes estritamente da violência urbana e das más condições sanitárias ambientais, a história pregressa dos pacientes graves que enchem as UTIs revela que eles são vítimas dos próprios excessos. As doenças (dis)metabólicas e degenerativas longamente precedidas por maus hábitos alimentares, sedentarismo e distúrbios psicossomáticos crônicos são as que matam mais. As vítimas desses males desgastaram-se por longo tempo com alimentação desregrada, pouca ou nenhuma atividade física, bebidas alcoólicas, drogas ansiolíticas, antidepressivas e até euforizantes. Estressaram-se na busca de alvos levianos, meteram-se em aventuras ousadas desafiando riscos quase suicidas. E agora padecem as consequências dos seus desmandos. Sob ameaça de morte, apavorados, buscam adiar o desfecho a todo custo. Continuam sedentos de mais vida. Porém, comumente, salvos do risco imediato voltam para suas rotinas morbígenas, sem jamais alcançarem a almejada felicidade fátua projetada no prazer sensível, no fascínio do poder e na “adrenalina” de uma aventura emocionante, mas inconsequente. Muitos desses pacientes não saberão o que fazer das suas vidas depois da alta hospitalar, senão dar seguimento à rotina de uma existência pautada pelos padrões culturais vigentes sem qualquer originalidade. Todos aspiram a viver mais, embora ignorem como dar vida aos anos conquistados.
Certamente, ganhar a plenitude a que aspiramos é obra nossa... Portanto, é oportuno o conselho do Poeta, “Interpreta a existência com a medida / do teu Ser! (a verdade é uma obra tua!) / porque em cada alma o Mundo se insinua, / como uma nova Ilusão desconhecida.”[2] Obviamente, para pôr em prática este sábio conselho é preciso acreditar num ideal de plenitude vinculado à atualização da proposta existencial de um vir a ser autêntico, liberto da tirania dos condicionamentos culturais. É preciso confiar na força criativa subjacente à existência, que permite ao homem ousar o improvável e tentar, sempre, a realização de uma existência significativa. Dada a sua fragilidade contingente, para superar os obstáculos existenciais o homem precisa exercitar a coragem que arrisca tudo a fim de forjar no agora um comportamento que não amesquinhe sua existência.
Exercitar o equilíbrio existencial nas relações humanas e na interação com o mundo custa muita disciplina, paciência, e persistência quase missionária. Este é o preço pago para injetar mais vida nos dias em que vamos.
 Pode parecer até estranho insistir em viver mais, quando falta entusiasmo por um ideal, e a angústia, a ansiedade, o medo dispersam as potencialidades infinitas do ser humano. Porém é trágico malversar estas potencialidades em busca do prazer sensual que se esgota em si mesmo, do poder fugaz, e de uma segurança ilusória. A cura da angústia humana, dor muda que fustiga as entranhas da existência se encontra na sublimação da libido em realizações criativas, amoráveis e solidárias. Esta elaboração consiste no projeto heroico do ser consciente voltado para o equacionamento das antinomias existenciais perturbadoras, que se prolonga na organização solidária da sociedade.
Contra a opressão depressiva é necessário opor o “sustento íntimo” que ampara o homem nas suas fraquezas, com a força da esperança. Na perspectiva humanística evolutiva, esta força interior é fundamental para alimentar o “sonho” de construir uma comunidade solidária, onde os problemas existenciais partilhados se resolveriam já, aqui mesmo na Terra, numa epopeia de paz e serenidade. São muitos os obstáculos à prática da solidariedade, mas esta é a única saída para a espécie (Homo Sapiens sapiens)!... Pode-se imaginar que num clima coletivo solidário, as virtualidades humanas se expandirão sem atrito, e florescerão, ensejando a atualização de projetos existenciais plenos de sentido. Só assim acrescenta-se valor à vida, e prolongá-la será uma verdadeira conquista.
Everaldo Lopes


[1] Aspiração à vida x a certeza da morte; desejo de poder ilimitado  x a impotência de criatura finita; ambição de conhecer tudo x as limitações inerentes ao saber humano.
[2] Raul de Leoni no soneto “ Egocentrismo”