quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Homenagem póstuma




Minha irmã, muito querida, Tia Maléa, assim a chamam até hoje todos os meus filhos, já não está entre nós, mas dela guardamos a presença inconfundível, numa imensa saudade.
Na sua dedicação à soberania da mensagem cristã, deixou inúmeros manuscritos nos quais comenta os Evangelhos. Suas sobrinhas Ruth e Maria Ângela tomaram para si a incumbência de digitá-los e enviá-los a mim, aos seus irmãos e amigos comuns.
Esta semana recebi o texto que vai abaixo transcrito.

(MATEUS 7, 7-11) – SABER DISCERNIR – CONFIANÇA NO PAI

Jesus nos aconselha o discernimento ao semear a sua palavra, para que seja valorizada e não usada levianamente. Suscita também em nós a confiança no Pai que ouve  e sabe dos nossos pedidos e necessidades, nunca deixando sem resposta.

Vejamos:
Saber discernir
 “Não dêem  aos  cães  o que  é santo, nem  atirem pérolas aos porcos; eles poderiam pisá-las com os pés e, virando-se, despedaçar vocês”
Confiança no Pai
“Peçam e lhes será dado! Procurem e encontrarão! Batam e abrirão a porta para vocês! Pois todo aquele que pede, recebe; quem procura acha; e a quem bate, a porta será aberta. Quem de vocês dá ao filho uma pedra, quando ele pede  um  Pão? Ou lhe dá uma cobra, quando ele pede um peixe? Se vocês que são maus, sabem dar as coisas boas a seus filhos, quanto mais o Pai  de  vocês que está no Céu dará coisas boas aos que lhe pedirem.”
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Jesus nos orienta e aconselha a termos intimidade com Deus procurando-o, pedindo-lhe  e  batendo  a sua porta. Enfim, confiando-lhe os nossos desejos, necessidades, aflições e dúvidas, assim como um filho pede ao pai, da terra, certo de que  ele  fará  o melhor. De  forma muito mais eficaz e plena o Pai do Céu nos escutará e atenderá aos nossos pedidos.
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Senhor Jesus!
            Entendemos a tua mensagem. Tu nos estimulas a chegar até o Pai, através da oração, do diálogo aberto com o nosso criador. Sabemos que não é necessidade do Pai, e sim necessidade do filho em sentir a mão protetora do Pai, consolo, paz e confirmação do seu amor gratuito e misericordioso. Essa intimidade confiante com o nosso Deus absoluto, e  Pai nos dá Paz interior, e a certeza de que sempre teremos um espaço reservado no seu sagrado coração de Pai.
            Senhor Jesus, deduzimos que é preciso também escutá-lo e sentir os seus sinais, as suas respostas, pois nem sempre elas estão naquilo que pedimos, e sim, no que sentimos, nos acontecimentos muitas vezes, ou quase sempre não entendidos, não compreendidos pela lógica ou desejo humanos. É preciso que saibamos confiar integralmente, pois o Pai nos dará sempre o melhor, estará sempre atento às nossas necessidades, e nos quer alegres e felizes.
Senhor Jesus, como é bom ouvir a tua palavra que nos orienta, nos ensina, aumenta a nossa fé  pequena e vacilante. Ela norteia a nossa vida e certamente através de tua Santa Palavra chegaremos ao Pai.
Meus irmãos, Façamos a nossa  oração na certeza de que o pai nos escuta e nos dará o melhor. Não procuremos entender a lógica de Deus. Não determinemos o que é melhor para nós, para o nosso irmão, para essa ou aquela situação. Nem sempre acertamos o que é melhor para os nossos filhos, como poderemos ter a pretensão de ter certeza do que é melhor para nós.
Senhor Jesus! Ninguém como tu tiveste tanta intimidade com o Pai. Ajuda-nos a orar com toda a nossa alma, todo o nosso ser. Amém.
           
Admirando a sabedoria da minha irmã, imaginei uma forma de homenageá-la, subscrevendo a interpretação amorosa que ela faz da “Boa Nova” anunciada pelo Evangelista, com minha pobre análise racional, especulativa, concordante com a sua visão mística, porém desprovida do calor humano que Maléa transmite nos seus comentários e orações. Minha intervenção é apenas um testemunho de como te entendo minha irmã!
Fiquei imaginando como se processa na intimidade existencial, a responsabilidade pessoal da criatura humana feita à imagem e semelhança de Deus...
            O Evangelista sabe que no ser consciente a presença de Deus se torna existencial pela inserção pessoal do homem no dinamismo comunitário da Santíssima Trindade - o Deus uno em três pessoas distintas: o Deus Pai, o Deus Filho e o Deus Espírito Santo.
O Genesis descreve a criação do homem “à imagem, e conforme a semelhança de Deus”; portanto, ele conserva a Sua natureza comunitária. Diante do mistério impenetrável, o intelecto tenta uma abordagem racional pobre do simbolismo que une a razão e o coração, destacando a analogia, apenas plausível, da dinâmica existencial humana com a da Santíssima Trindade.
Nesta perspectiva, o ser consciente, reflexivo, identifica-se (ego), e dialoga consigo mesmo (alter ego), numa conversa trabalhada pela criatividade (obra do Espírito) em busca de níveis cada vez mais elevados de integração dos homens entre si, e da consciência individual com a Consciência Cósmica.
Na jornada existencial, o ego e o alter-ego dialogam como  o Filho e o Pai respectivamente, em busca de solução para os problemas pessoais emergentes... neste diálogo, intermediado pela capacidade criativa (Espírito Santo), a integridade pessoal do Filho (ego) consolida-se, no contexto existencial, assimilando a comunidade humana à comunidade divina. Caminhada subjetiva em que a inspiração que move à ação responsável, justa e verdadeira revela o Espírito que une o Pai e o Filho, participando, ontologicamente, de ambos.
Quando Cristo ensina: “Pedi e vos será dado; procurai e encontrareis; batei e a porta se vos abrirá” está convidando o homem a interiorizar-se para encontrar as respostas de que precisa para alcançar a vida plena, reforçando a disposição de pô-las em prática. Então, pedir ao Pai é solicitar de si mesmo a melhor performance na solução dos problemas que afligem o Filho (o ser humano que pede), contando com a eficácia dos seus próprios recursos intelectuais, afetivos, volitivos e criativos, viabilizados pelo Espírito (Santo) para que o Filho realize a vontade do Pai.
Cristo levou à perfeição, na sua existência, a dinâmica da Santíssima Trindade. Sendo homem, como Filho realizou a proeza inexcedível de viver integralmente a vontade do Pai, confiante na assistência infalível do Espírito Santo. E assim deu testemunho autêntico dos Valores Universais do homem, convidando-nos a todos nós a segui-Lo como irmãos, incluindo a Humanidade inteira, a partir desta fraternidade, na unidade absoluta de Deus. A confiança depositada na palavra do Pai é que nos leva a exigir de cada um de nós mesmos o máximo de eficiência para a realização da Sua vontade numa verdadeira parceria. Para tanto, utilizamos os recursos humanos conhecidos e os poderes ainda desconhecidos que hão de se tornar realidades pela fé (confiança absoluta na interveniência imponderável do parceiro divino) no que dizemos e fazemos, integrados em relações intersubjetivas (comunitárias) autênticas. Nessa linha de pensamento entende-se Miguel de Unamuno, grande pensador espanhol, quando afirma que “crer não é acreditar no que não se vê, mas, criar o que não se vê”. A observação empírica da força do pensamento coletivo é uma evidência do poder da fé... sem esquecer que, vivenciada intensamente por um ou mais membros da coletividade a fé é contagiante.
Quando Jesus adverte: “Não dêem aos cães o que é santo, nem atirem pérolas aos porcos; eles poderiam pisá-las com os pés e, virando-se, despedaçar vocês”... é que na sua imensa sabedoria Ele conhece as imperfeições humanas a serem trabalhadas contra os percalços do ego, no processo de humanização. Esta advertência é apenas um lembrete pedagógico: é preciso adubar a terra para depois lançar a semente... a solidariedade fraterna não deve esquecer que é um risco certo propor idéias e condutas para as quais o outro não esteja motivado. Embora saibamos que o verdadeiro filho não se nega à vontade do Pai, mesmo que, aparentemente, ela pareça estar em detrimento da vida do próprio filho. Dando um exemplo emblemático de aceitação incondicional da Vontade suprema do Pai, Cristo se deixou crucificar.
Sobre esta visão humanista, e também mística da relação criatura / Criador cada um de nós dá testemunho da presença de Deus no seu ser temporal, transcendendo-se pela esperança de realização plena intemporal. Apoiados em especulações convincentes projetamos, assim, nossa esperança num ato de fé que nos realiza na unidade absoluta de Deus, cifrado na nossa própria existência. Maléa diz tudo isso e muito mais, nas suas ponderações simples e profundas.
Não obstante toda coerência especulativa que eu pudesse desenvolver, posso afirmar, estribado em minha experiência existencial, que, para além do rigor intelectual argumentativo, o que realmente dá segurança ao homem e suaviza a angústia do vir a ser incerto é um elemento sutil que pelo ato de fé torna efetiva a confiança (entrega) da criatura no Criador... é neste intervalo de confiança que o “dom” da fé ultrapassa ao infinito o conhecimento racional. A verdade é que ninguém consegue fechar a gestalt humana, sem o concurso da fé que redime o homem de sua contingência fatal.
Tua lição de vida minha irmã há de sempre iluminar os nossos caminhos!
Everaldo Lopes

sábado, 27 de agosto de 2011

Construindo uma visão de mundo coerente


A observação dos dados conhecidos sobre a história do mundo mostra a coerência do processo evolutivo desde a matéria primitiva, objetivando a vida consciente. Este fato demonstrável constitui-se em base sólida para a construção de uma visão de mundo convincente.  Teilhard de Chardin[1] chamou a atenção, repetidamente, para a complexidade crescente da matéria em organizações cada vez mais complicadas, deste o “big bang”. Evolução que se comprova pelo estudo da trajetória evolutiva do cosmo até a emergência da vida e, finalmente, a eclosão da consciência.
Impõe-se, então a pergunta: como tudo isso começou? Os pensadores se dividem entre  o acaso e  a intervenção de um ordenador supremo – o Criador? Contra a primeira proposta explicativa levanta-se uma limitação de tempo.   Segundo estimativas estatísticas descritas por Lecomte du Nouy[2],  a Evolução do cosmo teria chegado, hoje, no máximo, à produção de uma molécula proteica das mais simples. Daí porque, tendo em vista o estádio evolutivo da matéria alcançado em nossos dias, aceitar que  tudo resultou da sucessão de acasos felizes altamente improváveis levaria a admitir a necessidade de um “anti acaso”[3] que, epistemologicamente, assumiria as características do Criador.  Diante disto, a lógica racional ratifica a hipótese criacionista. Embora a ideia de um Criador, necessariamente cifrado na própria criação [4] seja, aparentemente, tão fantástica quanto a geração casual do Universo ou a eternidade da matéria. Todavia a complexidade crescente da matéria revela, necessariamente, uma intenção implícita comandando o processo evolutivo que, de outra forma não teria caminhado bilhões de anos fiel ao projeto de uma consciência reflexiva. Como uma extensão desse raciocínio, sendo a “intenção” um fenômeno da esfera da consciência, a ordem crescente à qual obedeceu a organização da matéria pressupõe uma Consciência Absoluta (Deus), berço do Universo. Assim, a tese espiritualista, criacionista ganha corpo e a ela nos filiamos,  por coerência especulativa, embora não se possa prová-la, objetivamente.
Dado este primeiro passo surge outra questão. A afirmação de um Criador implica a necessidade de definir a Sua relação com a criatura consciente, o homem, e o lugar deste no plano da Criação.  A emergência da consciência conata da liberdade individual é o ponto crítico da Evolução. Não se pode entender liberdade sem consciência e vice-versa. No roteiro evolutivo, este ponto crítico se caracteriza pelo desvio processual, da linearidade determinista das reações físico-químicas e feedbacks biológicos indispensáveis, para a tomada de decisões livres e conscientes inerentes a uma complexidade que torna imprevisível o comportamento humano. O homem (ser consciente e responsável[5]) passou a ser o divisor de águas da Evolução, agora voltada para a organização social, política e econômica da sociedade. O papel do homem no contexto da Evolução é o de promover a comunidade humana, ou seja, a convivência comunitária alicerçada na solidariedade que é fundamental para a sobrevivência da espécie Homo Sapiens sapiens. Mas, consciência livre e responsável implica no livre arbítrio. Em razão disto o homem tornou-se um ser problemático, de vez que pode desgarrar-se “momentaneamente” do plano do Criador. Para evitá-lo ele se impõe o dever de escolher o caminho do equilíbrio existencial, integrando-se, harmoniosamente, na consciência universal. Nesse perfil comportamental, para fazer suas escolhas o homem define uma estrutura de orientação ligada a uma visão de mundo correspondente à tese espiritualista criacionista. Nessa perspectiva a matéria não resume toda realidade, e a consciência não é apenas um epifenômeno dela dependente, mas uma manifestação do Espírito Eterno (criador) que manipula a matéria com propósitos que a transcendem e vão além do próprio homem. A relação entre a liberdade absoluta (do Criador) e a liberdade contingente (da criatura) é um dos capítulos mais árduos da Teologia e não tenho fôlego para mergulhar tão fundo,   embora reconheça que ambas se encontram no exercício da consciência responsável. Na trilha desse encontro se revela a ética da solidariedade  que garante a sobrevivência da espécie Homo Sapiens sapiens.   Todo esforço normativo implícito na obediência a esse valor visa, em última análise, ajudar a resolver a problemática do ser consciente ao exercitar sua própria liberdade sem ferir a do “outro”, e sem sucumbir às incertezas do vir a ser, fonte da angústia existencial.
Impõe-se, portanto, indagar como consolidar a paz e a tranquilidade do homem (indivíduo) face à consciência da própria finitude e da inevitabilidade da morte. Seria  possível ao ser consciente conviver sem sobressaltos com sua condição de ser para a morte? A experiência milenar da humanidade demonstra que a consciência da finitude e o desejo de permanecer no “ser” são os polos de uma contradição inerente à condição humana. Como tal ela (a contradição) pode ser elaborada, mas nunca resolvida com naturalidade. Na busca de uma explicação que permitisse uma abordagem resolutiva para a problemática humana  criaram-se os mitos, as religiões e desenvolveu-se o pensamento filosófico metafísico. Mas só a experiência mística pode dar ao homem a verdadeira dimensão de suas  possibilidades existenciais, e uma resposta cabal aos seus anseios transcendentais.
Na maior parte do tempo temos de conviver com a consciência da precariedade da existência. Certamente, nesta perspectiva o estado de espírito acompanhante é influenciado pela ideia que fazemos da morte. Um sono eterno, sem sonhos(?), ou a possibilidade da vivência plena  da verdade, da beleza e da bondade com que sonhamos a vida inteira e sempre nos escaparam? São duas visões diferentes correspondentes, respectivamente, à mundividência materialista, e à espiritualista que fazem eco no “ser” consciente. De um lado, é comovente o desamparo do materialista ateu diante da aceitação tácita do fim inevitável. Para os espiritualistas criacionistas tudo depende do tipo de relação vivida na subjetividade individual, entre a criatura e o Criador. Neste grupo me incluo, participando da crença na “cosmogonia criacionista, espiritualista, monista” . Na verdade, não me parece compatível com a concepção de um Deus único, qualquer tipo de maniqueísmo, portanto, tudo deverá culminar, necessariamente, numa apocatástase[6] consistente na salvação final de todos os homens, ou seja, “...na restauração final de todas as coisas na unidade absoluta de Deus”. Tese proposta por Orígenes e condenada pelo Santo Ofício, como heresia, no século III da era cristã.
Não obstante o fundamento ontológico da espiritualidade assim concebida, não se está impedido de construir uma estrutura de orientação prática para o comportamento humano. Tomando a Evolução como um dos fundaments da realidade conhecida pode-se construir uma ética racional que garanta a sustentabilidade da Evolução. Mas o comportamento puramente ético apenas atende os requerimentos sociais, não satisfaz, plenamente, o desejo humano de transcendência absoluta que caracteriza o ser consciente. Por isso, a elaboração da angústia existencial  difere entre materialistas e espiritualistas. O materialista esbarra na postura estoica, convencido de que nada mais há depois da morte, enquanto o espiritualista alimenta a esperança de desfrutar a plenitude inexcedível do “ser”, depois da morte, mercê da misericórdia do Criador, necessariamente, fonte inesgotável de amor. 
Para a nossa visão espiritualista, não eclesiástica, a opção mais coerente do ser consciente é manter-se totalmente submisso à vontade do Criador impressa nas leis da Natureza, fiel à consciência da verdade e da justiça que devem presidir as relações humanas. Uma postura ética racional compatível com a responsabilidade do homem de cumprir o seu papel no processo evolucionário. Na sua precariedade contingente a criatura não tem como ganhar merecimento para cobrar do criador uma intervenção pessoal nas dificuldades inevitáveis que lhe sobrevêm durante a vida. Teoricamente, esta é a perspectiva da relação criatura / Criador no  catecismo humanista racional; tudo que a criatura recebe é por pura misericórdia divina, contrastando com a proposta eclesial que antropomorfiza Deus, e garante ao crente ganhar a interseção divina mediante suas  orações e pedidos. Não obstante, as Religiões ocupam lugar de destaque na história do homem. A opção por uma das posturas espiritualistas passa a depender da sensibilidade de cada um. Cabe aqui lembrar, a bem da verdade, a repercussão psicológica benéfica dos rituais religiosos na atitude psíquica afetiva do homem, e nas suas relações sociais (intersubjetivas). Há grandes experimentos coletivos que demonstram ser a convergência de muitas mentes no sentido de um objetivo colimado, determinante da sua concretização. Para os verdadeiros místicos, porém, é marcante a intimidade subjetiva, pacífica e enriquecedora com o Criador, sem intermediários, e através dele a comunhão com o Universo inteiro. Orar seria conversar com Deus. A forma como se desenvolve a relação criatura / Criador depende, então, do temperamento do crente, do seu quociente intelectual e emocional, bem como de fatores indeterminados que arrolamos como imponderáveis. No conjunto, estas atitudes subjetivas e as circunstâncias em que vivem as pessoas, delimitam sua espiritualidade. Há inclusive as que necessitam da caracterização simbólica da transcendência, a fim de exercitar sua espiritualidade mediante rituais institucionalizados. O papel das religiões convencionais é, exatamente, traduzir em sinais palpáveis, criados pela fé, o símbolo abstrato de um Poder superior incompreensível à luz da razão, mas vivenciado como presença sutil no mais íntimo da subjetividade.
Everaldo Lopes


[1] Pe. Jesuita, Teólogo, Filósofo e Paleontólogo francês.
[2] Biofísico francês e Filósofo.
[3] Artur Edington – Astrofísico inglês
[4] Sem o suporte de um “Dinamismo absoluto eternamente criativo” a matéria (contingência)não teria condições de subsistência.
[5] Esta é, a meu ver, a definição antropológica mais fiel à realidade.
[6] Retorno de todos os seres à sua condição original de ausência de culpa, esp., nas tradições judaico-cristãs, pela graça da redenção divina (Houauss 3)


[7] Que inspira “fascinação”, “terror” e “aniquilamento”... Sentimento numinoso, termo cunhado por Rudolph Otto Teólogo Alemão.

sábado, 20 de agosto de 2011

Devaneio especulativo III


A autenticidade existencial e o vínculo comunitário.

Do ponto de vista evolutivo é admissível que os símbolos[1] presentes no “inconsciente coletivo”[2]  sejam a linguagem cifrada da passagem crítica da atividade neuronal cerebral integrada, para o estado de consciência reflexiva que marca a emergência do homem, ou seja, de um ser consciente, livre e responsável.
Estes símbolos representam a intimidade da condição humana com os estágios primários da psique animal. Sobre eles se estratifica a consciência individual que evolui através do processo da “individuação”[3]. Assim, o modo de ser peculiar do homem (a “existência”) fundamenta-se no exercício da consciência individual livre e responsável.
Neste nível, a concordância entre a formalidade do comportamento e sua consistência intelectual, afetiva, e volitiva é o sinete da autenticidade. O gesto amoroso, apenas, sem o background existencial, não basta... não realiza o milagre do amor genuíno - sentimento complexo e arrebatador que é a senha para acesso à plenitude existencial das interações humanas.
A maturidade intelectual e afetiva da relação intersubjetiva se constrói ao longo do processo da individuação. Processo no qual se cruzam e integram a espiritualidade e a dinâmica psicológica. A espiritualidade é o elo entre a história que escrevemos com nossa “existência temporal” e a extensão transcendental da “existência”, centrada na eternidade do Espírito (“Consciência Universal”)... Está vinculada ao processo de humanização implícito na descoberta progressiva e assimilação vivencial dos “valores existenciais”[4] que sintetizam as dimensões objetivas e espirituais do homem, comprometendo-o por inteiro, razão, sentimento e vontade, no exercício da consciência responsável. Na sequência dos estádios evolutivos da “individuação”, a resposta pessoal às necessidades do “outro” evoluirão, idealmente, da indiferença à solidariedade. Desta forma, na melhor hipótese, a individuação sedimentará os estágios progressivos dos elementos intelectuais e afetivos das relações humanas, tornando o indivíduo mais flexível, tolerante e compreensivo. O amor reúne todas estas potencialidades virtuosas, sintetizando-as num sentimento sutil de integração. Porém o amor, tal como a fé, não é algo que se imponha ou ensine a alguém. O amor e as demais virtudes teologais (fé e esperança) são dons. Obviamente, todos os homens carregam a predisposição para exercitá-los como dotes que precisam ser cultivados, diligentemente, desde as suas manifestações mais incipientes. Estas manifestações são estimuladas na infância através do convívio familiar amoroso e “verdadeiro”... e desenvolvidas na idade adulta mediante o esforço assimilativo do respeito à pessoa do outro”. O cultivo das práticas virtuosas requer empenho criativo e compromisso que demandam do indivíduo a determinação necessária. Quando falta o entusiasmo inerente ao exercício deste compromisso existencial, abre-se espaço para o comportamento ético baseado no dever, ou seja, na prática obrigatória dos valores que honram a dignidade do ser consciente. Mas o dever não gera amor, embora mantenha a ordem social.
No processo de individuação, todavia, recorre-se frequentemente à prática valorativa de preceitos normativos impostos pelo medo da punição, ou pelo “suborno”, mediante a promessa de vantagens materiais, e até da salvação eterna. Este recurso leva a um comportamento ético, ou religioso, estruturado no dever... Diferente da conduta ontologicamente estruturada no amor.
Em verdade, o comportamento humano autêntico fundamenta-se no sentimento amoroso indissociável da solidariedade entre os homens. Neste contexto, a conduta ética flui como uma decorrência linear da natureza humana. Mas uma vez que não se pode ensinar a amar, o catecismo humanista deverá enfatizar a “compreensão” dos limites da condição humana, e a constatação  de que a solidariedade comunitária é indispensável para a mais completa realização pessoal. Entendendo profundamente o papel da condição humana no processo evolutivo, as pessoas se darão conta da necessidade de estabelecer relações intersubjetivas verdadeiras em que o “eu” e o “tu” se integram na complementaridade recíproca do “nós” que os une no mesmo destino histórico. Se forem convencidas de que a solidariedade é condição sine qua non para a sobrevivência da espécie humana, as pessoas reconhecerão que sem os “outros” não sobrevivem, e serão induzidas a abrir mão do egoísmo suicida, em prol da convivência comunitária.
Quando existe amor, o gesto generoso é espontâneo e existencialmente rico. Inspirado pelo dever, o mesmo gesto nobre é válido de imediato pelas consequências sociais positivas que produz... mas só a longo prazo, a repetição do comportamento generoso, torna o doador uma pessoa melhor, envolvendo-o em interações humanas peculiares, estimulantes da fraternidade. Desta forma, é provável que o comportamento ético acabe produzindo ressonâncias pessoais naqueles que insistem, por “obrigação”, na pratica de comportamentos magnânimos.
Tendo em vista o egoísmo natural do homem, é necessário o direcionamento da vontade no sentido da prática “solidária” em relação às necessidades do outro. A compreensão de que todos somos capazes das melhores e das piores coisas nos torna menos pretensiosos e une mais as pessoas. Cônscios da fragilidade existencial, e da necessidade racional de adesão a uma ética inclusiva, mesmo que nos faltem as virtudes essenciais vale a pena insistir na prática da verdade e da justiça. Compreendendo a história e as fraquezas do outro podemos repudiar os seus equívocos comportamentais, sem, contudo, amaldiçoá-lo, negando-lhe o perdão. Não faríamos jus à dignidade que nos confere a condição de seres conscientes e responsáveis, se não respeitássemos a dignidade pessoal do outro e sua capacidade de recuperação. Todavia, a postura correta demanda elaboração pessoal, não emana sem esforço. Portanto, o empenho em compreender o outro e tratá-lo tão generosamente quanto possível torna-se, no mínimo, uma obrigação para o ser consciente e responsável. Seguindo este caminho o homem pode finalmente assumir o comportamento solidário, comunitário, indispensável à sobrevivência da humanidade, mesmo que não esteja empolgado pelo amor que redime.
Assim, à falta da solidariedade amorosa, a abordagem intelectual especulativa centrada na verdade e na justiça social constitui-se em base sólida para uma prática ética racionalmente concebida, que podemos considerar uma forma incipiente de amar.
O primeiro passo, como vimos, é o reconhecimento da pobreza existencial, comum a todos os homens. Uma vez conscientes da precariedade da condição humana é de esperar que percamos as carapaças egóicas durante o percurso da jornada existencial, purificando o sentimento de fraternidade no convívio responsável com os outros no mundo.
Define-se assim um fundamento racional para as relações interpessoais solidárias que sedimentam os vínculos comunitários[5]. Na trilha da “compreensão” que se pode considerar como um marco elementar da convivência amorosa, precisamos estar de bem com nossa própria fragilidade, sem ódios ou ressentimentos, para acolher o próximo, compreensiva e empaticamente. Numa perspectiva espiritualista diria: Afinal somos todos “Um” na unidade comunitária de todas as consciências... Ideia que resume a presença de um “dinamismo absoluto eternamente criativo” (Deus), misteriosamente, imanente e transcendente no próprio homem e no mundo... verdade de fé que a razão, todavia, pode tangenciar amparada em especulações coerentes.   
Everaldo Lopes



[1] Aquilo que, por sua forma ou sua natureza evoca, representa ou substitui, num determinado contexto, algo abstrato ou ausente:
[2]  Parte do inconsciente individual que procede da experiência ancestral e transparece em certos símbolos encontrados nas lendas e mitologias antigas, constituindo os arquétipos. (Aurélio sec.XXI)
[3] Processo por meio do qual uma pessoa se torna consciente de sua individualidade, de acordo com C.G. Jung (1875-1961) (Houaiss, dic.)

[4] Consciência, liberdade, responsabilidade, veracidade.
[5] Agrupamento que se caracteriza por forte coesão baseada no consenso espontâneo dos indivíduos.  Houaiss.