sábado, 27 de agosto de 2011

Construindo uma visão de mundo coerente


A observação dos dados conhecidos sobre a história do mundo mostra a coerência do processo evolutivo desde a matéria primitiva, objetivando a vida consciente. Este fato demonstrável constitui-se em base sólida para a construção de uma visão de mundo convincente.  Teilhard de Chardin[1] chamou a atenção, repetidamente, para a complexidade crescente da matéria em organizações cada vez mais complicadas, deste o “big bang”. Evolução que se comprova pelo estudo da trajetória evolutiva do cosmo até a emergência da vida e, finalmente, a eclosão da consciência.
Impõe-se, então a pergunta: como tudo isso começou? Os pensadores se dividem entre  o acaso e  a intervenção de um ordenador supremo – o Criador? Contra a primeira proposta explicativa levanta-se uma limitação de tempo.   Segundo estimativas estatísticas descritas por Lecomte du Nouy[2],  a Evolução do cosmo teria chegado, hoje, no máximo, à produção de uma molécula proteica das mais simples. Daí porque, tendo em vista o estádio evolutivo da matéria alcançado em nossos dias, aceitar que  tudo resultou da sucessão de acasos felizes altamente improváveis levaria a admitir a necessidade de um “anti acaso”[3] que, epistemologicamente, assumiria as características do Criador.  Diante disto, a lógica racional ratifica a hipótese criacionista. Embora a ideia de um Criador, necessariamente cifrado na própria criação [4] seja, aparentemente, tão fantástica quanto a geração casual do Universo ou a eternidade da matéria. Todavia a complexidade crescente da matéria revela, necessariamente, uma intenção implícita comandando o processo evolutivo que, de outra forma não teria caminhado bilhões de anos fiel ao projeto de uma consciência reflexiva. Como uma extensão desse raciocínio, sendo a “intenção” um fenômeno da esfera da consciência, a ordem crescente à qual obedeceu a organização da matéria pressupõe uma Consciência Absoluta (Deus), berço do Universo. Assim, a tese espiritualista, criacionista ganha corpo e a ela nos filiamos,  por coerência especulativa, embora não se possa prová-la, objetivamente.
Dado este primeiro passo surge outra questão. A afirmação de um Criador implica a necessidade de definir a Sua relação com a criatura consciente, o homem, e o lugar deste no plano da Criação.  A emergência da consciência conata da liberdade individual é o ponto crítico da Evolução. Não se pode entender liberdade sem consciência e vice-versa. No roteiro evolutivo, este ponto crítico se caracteriza pelo desvio processual, da linearidade determinista das reações físico-químicas e feedbacks biológicos indispensáveis, para a tomada de decisões livres e conscientes inerentes a uma complexidade que torna imprevisível o comportamento humano. O homem (ser consciente e responsável[5]) passou a ser o divisor de águas da Evolução, agora voltada para a organização social, política e econômica da sociedade. O papel do homem no contexto da Evolução é o de promover a comunidade humana, ou seja, a convivência comunitária alicerçada na solidariedade que é fundamental para a sobrevivência da espécie Homo Sapiens sapiens. Mas, consciência livre e responsável implica no livre arbítrio. Em razão disto o homem tornou-se um ser problemático, de vez que pode desgarrar-se “momentaneamente” do plano do Criador. Para evitá-lo ele se impõe o dever de escolher o caminho do equilíbrio existencial, integrando-se, harmoniosamente, na consciência universal. Nesse perfil comportamental, para fazer suas escolhas o homem define uma estrutura de orientação ligada a uma visão de mundo correspondente à tese espiritualista criacionista. Nessa perspectiva a matéria não resume toda realidade, e a consciência não é apenas um epifenômeno dela dependente, mas uma manifestação do Espírito Eterno (criador) que manipula a matéria com propósitos que a transcendem e vão além do próprio homem. A relação entre a liberdade absoluta (do Criador) e a liberdade contingente (da criatura) é um dos capítulos mais árduos da Teologia e não tenho fôlego para mergulhar tão fundo,   embora reconheça que ambas se encontram no exercício da consciência responsável. Na trilha desse encontro se revela a ética da solidariedade  que garante a sobrevivência da espécie Homo Sapiens sapiens.   Todo esforço normativo implícito na obediência a esse valor visa, em última análise, ajudar a resolver a problemática do ser consciente ao exercitar sua própria liberdade sem ferir a do “outro”, e sem sucumbir às incertezas do vir a ser, fonte da angústia existencial.
Impõe-se, portanto, indagar como consolidar a paz e a tranquilidade do homem (indivíduo) face à consciência da própria finitude e da inevitabilidade da morte. Seria  possível ao ser consciente conviver sem sobressaltos com sua condição de ser para a morte? A experiência milenar da humanidade demonstra que a consciência da finitude e o desejo de permanecer no “ser” são os polos de uma contradição inerente à condição humana. Como tal ela (a contradição) pode ser elaborada, mas nunca resolvida com naturalidade. Na busca de uma explicação que permitisse uma abordagem resolutiva para a problemática humana  criaram-se os mitos, as religiões e desenvolveu-se o pensamento filosófico metafísico. Mas só a experiência mística pode dar ao homem a verdadeira dimensão de suas  possibilidades existenciais, e uma resposta cabal aos seus anseios transcendentais.
Na maior parte do tempo temos de conviver com a consciência da precariedade da existência. Certamente, nesta perspectiva o estado de espírito acompanhante é influenciado pela ideia que fazemos da morte. Um sono eterno, sem sonhos(?), ou a possibilidade da vivência plena  da verdade, da beleza e da bondade com que sonhamos a vida inteira e sempre nos escaparam? São duas visões diferentes correspondentes, respectivamente, à mundividência materialista, e à espiritualista que fazem eco no “ser” consciente. De um lado, é comovente o desamparo do materialista ateu diante da aceitação tácita do fim inevitável. Para os espiritualistas criacionistas tudo depende do tipo de relação vivida na subjetividade individual, entre a criatura e o Criador. Neste grupo me incluo, participando da crença na “cosmogonia criacionista, espiritualista, monista” . Na verdade, não me parece compatível com a concepção de um Deus único, qualquer tipo de maniqueísmo, portanto, tudo deverá culminar, necessariamente, numa apocatástase[6] consistente na salvação final de todos os homens, ou seja, “...na restauração final de todas as coisas na unidade absoluta de Deus”. Tese proposta por Orígenes e condenada pelo Santo Ofício, como heresia, no século III da era cristã.
Não obstante o fundamento ontológico da espiritualidade assim concebida, não se está impedido de construir uma estrutura de orientação prática para o comportamento humano. Tomando a Evolução como um dos fundaments da realidade conhecida pode-se construir uma ética racional que garanta a sustentabilidade da Evolução. Mas o comportamento puramente ético apenas atende os requerimentos sociais, não satisfaz, plenamente, o desejo humano de transcendência absoluta que caracteriza o ser consciente. Por isso, a elaboração da angústia existencial  difere entre materialistas e espiritualistas. O materialista esbarra na postura estoica, convencido de que nada mais há depois da morte, enquanto o espiritualista alimenta a esperança de desfrutar a plenitude inexcedível do “ser”, depois da morte, mercê da misericórdia do Criador, necessariamente, fonte inesgotável de amor. 
Para a nossa visão espiritualista, não eclesiástica, a opção mais coerente do ser consciente é manter-se totalmente submisso à vontade do Criador impressa nas leis da Natureza, fiel à consciência da verdade e da justiça que devem presidir as relações humanas. Uma postura ética racional compatível com a responsabilidade do homem de cumprir o seu papel no processo evolucionário. Na sua precariedade contingente a criatura não tem como ganhar merecimento para cobrar do criador uma intervenção pessoal nas dificuldades inevitáveis que lhe sobrevêm durante a vida. Teoricamente, esta é a perspectiva da relação criatura / Criador no  catecismo humanista racional; tudo que a criatura recebe é por pura misericórdia divina, contrastando com a proposta eclesial que antropomorfiza Deus, e garante ao crente ganhar a interseção divina mediante suas  orações e pedidos. Não obstante, as Religiões ocupam lugar de destaque na história do homem. A opção por uma das posturas espiritualistas passa a depender da sensibilidade de cada um. Cabe aqui lembrar, a bem da verdade, a repercussão psicológica benéfica dos rituais religiosos na atitude psíquica afetiva do homem, e nas suas relações sociais (intersubjetivas). Há grandes experimentos coletivos que demonstram ser a convergência de muitas mentes no sentido de um objetivo colimado, determinante da sua concretização. Para os verdadeiros místicos, porém, é marcante a intimidade subjetiva, pacífica e enriquecedora com o Criador, sem intermediários, e através dele a comunhão com o Universo inteiro. Orar seria conversar com Deus. A forma como se desenvolve a relação criatura / Criador depende, então, do temperamento do crente, do seu quociente intelectual e emocional, bem como de fatores indeterminados que arrolamos como imponderáveis. No conjunto, estas atitudes subjetivas e as circunstâncias em que vivem as pessoas, delimitam sua espiritualidade. Há inclusive as que necessitam da caracterização simbólica da transcendência, a fim de exercitar sua espiritualidade mediante rituais institucionalizados. O papel das religiões convencionais é, exatamente, traduzir em sinais palpáveis, criados pela fé, o símbolo abstrato de um Poder superior incompreensível à luz da razão, mas vivenciado como presença sutil no mais íntimo da subjetividade.
Everaldo Lopes


[1] Pe. Jesuita, Teólogo, Filósofo e Paleontólogo francês.
[2] Biofísico francês e Filósofo.
[3] Artur Edington – Astrofísico inglês
[4] Sem o suporte de um “Dinamismo absoluto eternamente criativo” a matéria (contingência)não teria condições de subsistência.
[5] Esta é, a meu ver, a definição antropológica mais fiel à realidade.
[6] Retorno de todos os seres à sua condição original de ausência de culpa, esp., nas tradições judaico-cristãs, pela graça da redenção divina (Houauss 3)


[7] Que inspira “fascinação”, “terror” e “aniquilamento”... Sentimento numinoso, termo cunhado por Rudolph Otto Teólogo Alemão.

sábado, 20 de agosto de 2011

Devaneio especulativo III


A autenticidade existencial e o vínculo comunitário.

Do ponto de vista evolutivo é admissível que os símbolos[1] presentes no “inconsciente coletivo”[2]  sejam a linguagem cifrada da passagem crítica da atividade neuronal cerebral integrada, para o estado de consciência reflexiva que marca a emergência do homem, ou seja, de um ser consciente, livre e responsável.
Estes símbolos representam a intimidade da condição humana com os estágios primários da psique animal. Sobre eles se estratifica a consciência individual que evolui através do processo da “individuação”[3]. Assim, o modo de ser peculiar do homem (a “existência”) fundamenta-se no exercício da consciência individual livre e responsável.
Neste nível, a concordância entre a formalidade do comportamento e sua consistência intelectual, afetiva, e volitiva é o sinete da autenticidade. O gesto amoroso, apenas, sem o background existencial, não basta... não realiza o milagre do amor genuíno - sentimento complexo e arrebatador que é a senha para acesso à plenitude existencial das interações humanas.
A maturidade intelectual e afetiva da relação intersubjetiva se constrói ao longo do processo da individuação. Processo no qual se cruzam e integram a espiritualidade e a dinâmica psicológica. A espiritualidade é o elo entre a história que escrevemos com nossa “existência temporal” e a extensão transcendental da “existência”, centrada na eternidade do Espírito (“Consciência Universal”)... Está vinculada ao processo de humanização implícito na descoberta progressiva e assimilação vivencial dos “valores existenciais”[4] que sintetizam as dimensões objetivas e espirituais do homem, comprometendo-o por inteiro, razão, sentimento e vontade, no exercício da consciência responsável. Na sequência dos estádios evolutivos da “individuação”, a resposta pessoal às necessidades do “outro” evoluirão, idealmente, da indiferença à solidariedade. Desta forma, na melhor hipótese, a individuação sedimentará os estágios progressivos dos elementos intelectuais e afetivos das relações humanas, tornando o indivíduo mais flexível, tolerante e compreensivo. O amor reúne todas estas potencialidades virtuosas, sintetizando-as num sentimento sutil de integração. Porém o amor, tal como a fé, não é algo que se imponha ou ensine a alguém. O amor e as demais virtudes teologais (fé e esperança) são dons. Obviamente, todos os homens carregam a predisposição para exercitá-los como dotes que precisam ser cultivados, diligentemente, desde as suas manifestações mais incipientes. Estas manifestações são estimuladas na infância através do convívio familiar amoroso e “verdadeiro”... e desenvolvidas na idade adulta mediante o esforço assimilativo do respeito à pessoa do outro”. O cultivo das práticas virtuosas requer empenho criativo e compromisso que demandam do indivíduo a determinação necessária. Quando falta o entusiasmo inerente ao exercício deste compromisso existencial, abre-se espaço para o comportamento ético baseado no dever, ou seja, na prática obrigatória dos valores que honram a dignidade do ser consciente. Mas o dever não gera amor, embora mantenha a ordem social.
No processo de individuação, todavia, recorre-se frequentemente à prática valorativa de preceitos normativos impostos pelo medo da punição, ou pelo “suborno”, mediante a promessa de vantagens materiais, e até da salvação eterna. Este recurso leva a um comportamento ético, ou religioso, estruturado no dever... Diferente da conduta ontologicamente estruturada no amor.
Em verdade, o comportamento humano autêntico fundamenta-se no sentimento amoroso indissociável da solidariedade entre os homens. Neste contexto, a conduta ética flui como uma decorrência linear da natureza humana. Mas uma vez que não se pode ensinar a amar, o catecismo humanista deverá enfatizar a “compreensão” dos limites da condição humana, e a constatação  de que a solidariedade comunitária é indispensável para a mais completa realização pessoal. Entendendo profundamente o papel da condição humana no processo evolutivo, as pessoas se darão conta da necessidade de estabelecer relações intersubjetivas verdadeiras em que o “eu” e o “tu” se integram na complementaridade recíproca do “nós” que os une no mesmo destino histórico. Se forem convencidas de que a solidariedade é condição sine qua non para a sobrevivência da espécie humana, as pessoas reconhecerão que sem os “outros” não sobrevivem, e serão induzidas a abrir mão do egoísmo suicida, em prol da convivência comunitária.
Quando existe amor, o gesto generoso é espontâneo e existencialmente rico. Inspirado pelo dever, o mesmo gesto nobre é válido de imediato pelas consequências sociais positivas que produz... mas só a longo prazo, a repetição do comportamento generoso, torna o doador uma pessoa melhor, envolvendo-o em interações humanas peculiares, estimulantes da fraternidade. Desta forma, é provável que o comportamento ético acabe produzindo ressonâncias pessoais naqueles que insistem, por “obrigação”, na pratica de comportamentos magnânimos.
Tendo em vista o egoísmo natural do homem, é necessário o direcionamento da vontade no sentido da prática “solidária” em relação às necessidades do outro. A compreensão de que todos somos capazes das melhores e das piores coisas nos torna menos pretensiosos e une mais as pessoas. Cônscios da fragilidade existencial, e da necessidade racional de adesão a uma ética inclusiva, mesmo que nos faltem as virtudes essenciais vale a pena insistir na prática da verdade e da justiça. Compreendendo a história e as fraquezas do outro podemos repudiar os seus equívocos comportamentais, sem, contudo, amaldiçoá-lo, negando-lhe o perdão. Não faríamos jus à dignidade que nos confere a condição de seres conscientes e responsáveis, se não respeitássemos a dignidade pessoal do outro e sua capacidade de recuperação. Todavia, a postura correta demanda elaboração pessoal, não emana sem esforço. Portanto, o empenho em compreender o outro e tratá-lo tão generosamente quanto possível torna-se, no mínimo, uma obrigação para o ser consciente e responsável. Seguindo este caminho o homem pode finalmente assumir o comportamento solidário, comunitário, indispensável à sobrevivência da humanidade, mesmo que não esteja empolgado pelo amor que redime.
Assim, à falta da solidariedade amorosa, a abordagem intelectual especulativa centrada na verdade e na justiça social constitui-se em base sólida para uma prática ética racionalmente concebida, que podemos considerar uma forma incipiente de amar.
O primeiro passo, como vimos, é o reconhecimento da pobreza existencial, comum a todos os homens. Uma vez conscientes da precariedade da condição humana é de esperar que percamos as carapaças egóicas durante o percurso da jornada existencial, purificando o sentimento de fraternidade no convívio responsável com os outros no mundo.
Define-se assim um fundamento racional para as relações interpessoais solidárias que sedimentam os vínculos comunitários[5]. Na trilha da “compreensão” que se pode considerar como um marco elementar da convivência amorosa, precisamos estar de bem com nossa própria fragilidade, sem ódios ou ressentimentos, para acolher o próximo, compreensiva e empaticamente. Numa perspectiva espiritualista diria: Afinal somos todos “Um” na unidade comunitária de todas as consciências... Ideia que resume a presença de um “dinamismo absoluto eternamente criativo” (Deus), misteriosamente, imanente e transcendente no próprio homem e no mundo... verdade de fé que a razão, todavia, pode tangenciar amparada em especulações coerentes.   
Everaldo Lopes



[1] Aquilo que, por sua forma ou sua natureza evoca, representa ou substitui, num determinado contexto, algo abstrato ou ausente:
[2]  Parte do inconsciente individual que procede da experiência ancestral e transparece em certos símbolos encontrados nas lendas e mitologias antigas, constituindo os arquétipos. (Aurélio sec.XXI)
[3] Processo por meio do qual uma pessoa se torna consciente de sua individualidade, de acordo com C.G. Jung (1875-1961) (Houaiss, dic.)

[4] Consciência, liberdade, responsabilidade, veracidade.
[5] Agrupamento que se caracteriza por forte coesão baseada no consenso espontâneo dos indivíduos.  Houaiss.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Um esclarecimento oportuno.

          
            Imagino que o comentário de Ruth sobre “devaneio Especulativo II” deu voz a muitos leitores desejosos de uma compreensão mais objetiva do assunto em pauta. Seu depoimento me mostrou ser necessário um adendo explicativo do objetivo do texto em referência e da metodologia utilizada.
Todas as dificuldades da leitura em questão giram em torno da impossibilidade lógica de unir, funcionalmente, conceitos antitéticos como transcendência e imanência, eternidade e tempo. O “senso comum”[1] separa radicalmente estes opostos. De fato, a compreensão unitária destes termos contrapostos é inacessível à razão humana.  Esta impossibilidade lógica é, certamente o motivo, por exemplo, da crença num Deus Criador (transcendência absoluta) “separado da sua criação”, reinando sobre as criaturas (imanência) como uma entidade distante!... Crença que varou os séculos e continua viva no espírito dos homens!... A contradição semântica, implícita nesta crença é ignorada pelo senso comum que não questiona a ilogicidade da existência de um Deus (transcendência absoluta), dialogando com suas criaturas (imanência), como realidades distintas. Nesta perspectiva, a convicção religiosa subentende, sem analisar, que a imanência, uma vez criada assume o “caráter de ser por si mesma” o que faria dela um absoluto... e isto é, logicamente, inaceitável porque não pode haver dois “absolutos”, um transcendental (espiritual – criador) e outro imanente (material - criado)... Por definição, o absoluto é inclusivo e nada deixa de fora... desta forma configura-se e pratica-se a incoerência de separar o Criador, da sua obra.
Do ponto de vista racional, o problema começa com o reconhecimento da impossibilidade lógica de explicar o Universo por ele mesmo. Como explicá-lo, então? Nestas circunstâncias desponta a necessidade lógica especulativa de um Dinamismo Criativo Absoluto (DCA) que existe em si e por si, responsável pela criação do Universo (imanência) e, logicamente, por sua subsistência... pois, entregue à sua própria sorte depois de criada, a imanência  não subsistiria como tal. Então, teoricamente, o Absoluto Criativo original deve incluir a imanência como sua extensão... A criação é, pois, necessariamente, um processo contínuo original e eterno...
A admissão da inseparabilidade da transcendência e da imanência no Dinamismo Absoluto Eternamente Criativo leva a devanear sobre a “continuidade misteriosa do Criador na criatura, não obstante a descontinuidade essencial entre ambos!” Situação contraditória, misteriosa, que se espelha em expressões poéticas como: “Alma, estado divino da matéria!...”[2] ou, invertendo os termos deste verso: Matéria, estado temporal de Deus!
Na impossibilidade de explicar a unidade das antíteses, inerente à realidade humana (espírito e matéria centrados pela consciência do eu) valemo-nos do artifício de justificá-la como uma situação ilógica (absurda) embutida em outra de cuja lógica formal não se pode duvidar, qual seja a impossibilidade de dois absolutos... Nesta perspectiva se alinham outras afirmações assimiláveis a abstrações de abstrações como as que se seguem: “O `espírito´ e o corpo físico não são entidades diferentes, mas uma alternância criadora na qual o Espírito eterno ora projeta, virtualmente, uma imagem corporal no tempo, ora a recolhe no Seu seio onde se realiza a unidade de tudo quanto existe...” ... “O Espírito (eterno) já está presente aqui e agora neste corpo, o meu, o seu, e o dos entes que povoam o mundo. É-lhes imanente e transcendente... e esta diferença formal pode ser experienciada pelo homem, como uma unidade ao identificar-se como um “eu”, sem que se tenha uma explicação racional da alquimia psíquica desta vivência. Eis o mistério que a Teologia[3] enfeixa num conjunto de conhecimentos fundamentados no ato de fé.” ...“Para o homem, a morte seria a porta que comunica o mundo `virtual´ (visível, aparente), e o mundo Espiritual, o universo real das essências das quais o mundo visível é apenas uma projeção (recapitulando a intuição platônica)![4] Por outro lado, considerando a impossibilidade de traduzir conceitos abstratos em linguagem objetiva, recorro nos “devaneios especulativos” ao recurso de analogias, contradições, palavras e expressões em sentido figurado, metáforas, representando realidades complexas que não comportam definições perfeitas... A intenção não é transmitir um “conhecimento, mas despertar no espírito do leitor a emergência de símbolos que levem à intuição sugestiva de uma realidade indescritível”. Nesta perspectiva, permitimo-nos pensar o espaço e o tempo como Projeções virtuais do Espírito Eterno. Numa leitura linear, este linguajar é inconsistente para uma lógica dualista, enquanto tributário de um monismo espiritual... Mas, deixando solta a verve imaginativa, pode-se esperar, no sujeito pensante, a eclosão de uma intuição ou vivência de integração cuja raiz simbólica é a “unidade” Criador/criação, Consciência/mundo. Consideramos estas experiências equivalentes à da unidade Criador/criatura (integração mística num todo significativo) e a da auto-referência do “eu”. Na primeira não se pode estabelecer o limite entre a transcendência e a imanência; na segunda é igualmente impossível estabelecer o limite entre o ser biológico e o “espírito” que o transcende, reflexionando, para a identificação do “eu” pessoal.
“Todos reconhecemos no homem, aptidões sutis (intuição criadora, inteligência linguístico matemática...) que não se explicam, linearmente, pelas funções biológicas...” De que forma, estas aptidões sutis (espirituais), se manifestam funcionalmente através do Sistema Nervoso Central com participação decisiva do córtex cerebral (servomecanismo biológico)?... Jamais se entenderá, como se processa a transdução[5] da energia bioquímica do Sistema Nervoso, operando na intimidade do neurônio, em atividades psíquicas específicas como o pensamento, a intuição criadora e a vontade. Neste sentido pode-se afirmar que “Jamais se poderá estabelecer na intimidade biopsíquica o limite entre o espírito e a matéria...”
A Física Quântica afirma que os objetos não são coisas determinadas; os objetos são certas possibilidades escolhidas pela “consciência” dentre as inúmeras que fluem na onda permanente e infinita de possibilidades. Esta visão dá suporte a uma compreensão da realidade que dispensa o dualismo, porque ao escolher, sendo o cérebro escolha da consciência, estaria escolhendo as possibilidades da própria consciência. O que corresponderia dizer, numa linguagem mística: DEUS É CONSCIÊNCIA.[6]
Quando falo do presente como uma brecha no tempo refiro-me a um ponto móvel que separa no “agora”, as lembranças (passado), das expectativas (futuro)... O “agora” passa a ser o presente “temporal” no qual a gente vive (experimenta o tempo). O “presente”, aquele ponto móvel no “agora”, que não se esgota nunca... este “presente” é a própria escolha, não o fisgamos jamais porque não é mensurável temporalmente... Como uma manifestação espiritual é percebido sob a forma de uma vivência da disponibilidade total permanente de liberdade de escolha dentro do “agora” em que está contextualizado... “liberdade” e “consciência” se confundem na escolha. Não podemos descrever este lance fundamental da existência, uma vez que não tem expressão temporal, mas podemos rastreá-lo pela ação transformadora da “existência” (consciência responsável – reflexo da consciência cósmica) que vai deixando uma trilha de atos concretos alinhados, memorizados como passado. Ora, o que é intemporal é eterno! Logo, a eternidade permeia o “agora” no “presente”.
Nestes “Devaneios Especulativos”, não pretendemos alcançar um conhecimento objetivo (impossível, no caso), mas tão somente sensibilizar a criatividade intuitiva e vivencial do leitor. E para esta sensibilização usamos uma linguagem simbólica que busca arrimo na lógica especulativa, sem o apoio de evidência sólida. Creio que esta especulação sobre as verdades de fé foi uma forma que encontrei de domar a minha índole racionalista, sensibilizando-me a mim mesmo para o exercício da fé num Dinamismo Absoluto Eternamente Criativo que cuide da Sua “criatura”. Crença difícil de cultivar quando a gente perde a ingenuidade infantil. Na verdade, as especulações metafísicas não substituem a ingenuidade, porém ajudam a mostrar a necessidade de ser humilde para participar da convicção íntima de um absurdo lógico... esta é a verdadeira essência da fé: crer num Absoluto (Princípio constitutivo e explicativo de toda realidade) que, obviamente, não se enquadra nas categorias racionais.
Mas não basta numa primeira etapa reconhecer, intelectualmente, a existência de “Deus” mediante a ajuda de lucubrações especulativas... algumas fundamentadas em dados científicos tirados da pesquisa quântica. É preciso senti-Lo como guia e protetor na peregrinação existencial que cada um de nós faz ao longo do ciclo biológico. Esta segunda etapa da evolução espiritual envolve sentimentos que a razão não controla... demanda disposição psíquica afetiva peculiar que não se ensina... resulta de experiências pessoais intransferíveis. Amparado pela lógica discursiva vivi a primeira etapa da caminhada mística, existencial, com certa facilidade. Porém, marcado por experiências emocionais arcaicas, vividas nos primórdios do meu ciclo biológico, que inscreveram as pautas comportamentais do meu caráter, sinto dificuldade de superar a segunda etapa, para colher os frutos de uma verdadeira fé. Preso às tendências inscritas na minha psique, simplesmente, não consigo sentir-me cuidado e protegido por um poder maior (senão pontualmente, em momentos especiais), mas gostaria de experimentar esta proteção... Embarafustado nos meus medos, incertezas e angústias, esforço-me, consciente e voluntariamente, para me tornar receptivo à proteção transcendental que, inconscientemente, não me permito ter... É assim que funciona o inconsciente influindo dissimuladamente no vir a ser consciente. Nada me garante que alcançarei realizar a entrega mística, mas continuarei tentando até o fim... não há outra solução para o problema humano!
Everaldo
[1]  Conjunto de opiniões e modos de sentir que, por serem impostos pela tradição aos indivíduos de uma determinada época, local ou grupo social, são ger. aceitos de modo acrítico como verdades e comportamentos próprios da natureza humana.  (Aurélio sec.XXI)
[2] Raul de Leoni no poema, “De um Fantasma”.
[3] Ciência ou estudo que se ocupa de Deus, de sua natureza e seus atributos e de suas relações com o homem e com o universo (Houaiss3)

[4] Vide “O Mito da Caverna, de Platão, descrito por Marilena Chaui no seu livro Convite à Filosofia... Ler o anexo ao fim do texto.


[5] Processo pelo qual uma energia se transforma em outra de natureza diferente.

[6] Vide  ao “Ativista Quântico” de Amit Goswami


O mito da caverna.
“Imaginemos uma caverna separada do mundo externo por um alto muro, cuja entrada permite a passagem da luz exterior. Desde seu nascimento, geração após geração, seres humanos ali vivem acorrentados, sem poder mover a cabeça para a entrada, nem locomover-se, forçados a olhar apenas a parede do fundo, e sem nunca terem visto o mundo exterior nem a luz do Sol. Acima do muro, uma réstia de luz exterior ilumina o espaço habitado pelos prisioneiros, fazendo com que as coisas que se passam no mundo exterior sejam projetadas como sombras na parede do fundo da caverna. Por trás do muro, pessoas passam conversando e carregando nos ombros figuras de homens, mulheres, animais cujas sombras são projetadas na parede da caverna. Os prisioneiros julgam que essas sombras são as próprias coisas externas, e que os artefatos projetados são os seres vivos que se movem e falam atrás do muro. Um dos prisioneiros, tomado pela curiosidade, decide fugir da caverna. Fabrica um instrumento com o qual quebra os grilhões e escala o muro. Sai da caverna, e no primeiro instante fica totalmente cego pela luminosidade do Sol, com a qual seus olhos não estão acostumados; pouco a pouco, habitua-se à luz e começa ver o mundo. Encanta-se, deslumbra-se, tem a felicidade de, finalmente, ver as próprias coisas, descobrindo que, em sua prisão, vira apenas sombras. Deseja ficar longe da caverna e só voltará a ela se for obrigado, para contar o que viu e libertar os demais. Assim como a subida foi penosa, porque o caminho era íngreme e a luz ofuscante, também o retorno será penoso, pois será preciso habituar-se novamente às trevas, o que é muito mais difícil do que habituar-se à luz. De volta à caverna, o prisioneiro será desajeitado, não saberá mover-se nem falar de modo compreensível para os outros, não será acreditado por eles e correrá o risco de ser morto pelos que jamais abandonaram a caverna.
A caverna, diz Platão, é o mundo sensível onde vivemos. A réstia de luz que projeta as sombras na parede é um reflexo da luz verdadeira (as ideias) sobre o mundo sensível. Somos os prisioneiros. As sombras são as coisas sensíveis que tomamos pelas verdadeiras. Os grilhões são nossos preconceitos, nossa confiança em nossos sentidos e opiniões. O instrumento que quebra os grilhões e faz a escalada do muro é a dialética. O prisioneiro curioso que escapa é o filósofo. A luz que ele vê é a luz plena do Ser, isto é, o Bem, que ilumina o mundo inteligível como o Sol ilumina o mundo sensível. O retorno à caverna é o diálogo filosófico. Os anos despendidos na criação do instrumento para sair da caverna são o esforço da alma, descrito na Carta Sétima, para produzir a “faísca” do conhecimento verdadeiro pela “fricção” dos modos de conhecimento. Conhecer é um ato de libertação e de iluminação.
O Mito da Caverna apresenta a dialética como movimento ascendente de libertação do nosso olhar que nos libera da cegueira para vermos a luz das ideias. Mas descreve também o retorno do prisioneiro para ensinar aos que permaneceram na caverna como sair dela. Há, assim, dois movimentos: o de ascensão (a dialética ascendente), que vai da imagem à crença ou opinião, desta para a matemática e desta para a intuição intelectual e à ciência; e o de descensão (a dialética descendente), que consiste em praticar com outros o trabalho para subir até a essência e a ideia. Aquele que contemplou as ideias no mundo inteligível desce aos que ainda não as contemplaram para ensinar-lhes o caminho. Por isso, desde o “Menon”, Platão dissera que não é possível ensinar o que são as coisas, mas apenas ensinar a procurá-las.
Os olhos foram feitos para ver; a alma, para conhecer. Os primeiros estão destinados à luz solar; a segunda, à fulguração da ideia. A dialética é a técnica liberadora dos olhos do espírito.
O relato da subida e da descida expõe a paideia como dupla violência necessária: a ascensão é difícil, dolorosa, quase insuportável; o retorno à caverna, uma imposição terrível à alma libertada, agora forçada a abandonar a luz e a felicidade. A dialética, como toda a técnica, é uma atividade exercida contra uma passividade, um esforço (pónos) para concretizar seu fim forçando um ser a realizar sua própria natureza. No mito, a dialética faz a alma ver sua própria essência (eidos) – conhecer – vendo as essências (ideia) – o objeto do conhecimento –, descobrindo seu parentesco com elas. A violência é libertadora porque desliga a alma do corpo, forçando-a a abandonar o sensível pelo inteligível.”