quarta-feira, 18 de maio de 2011

Espiritualidade transparente


Antecedentes.
A consciência reflexiva é uma função de natureza indefinível que só se identifica quando o sujeito pensante toma consciência de algo. A consciência se reconhece, sempre, como consciência de alguma coisa. Dobrando-se sobre si mesma (reflexão) ela se depara com o “nada”. Mas este “nada” não corresponde ao “não ser”, e sim à potência de ser capaz de registrar, simbolicamente, o mundo objetivo na subjetividade do sujeito do conhecimento. Na leitura deste registro, representação da realidade apreendida na relação consciência – mundo, a consciência se recaptura ao reconhecer sua própria subjetividade. Dessa forma, a consciência se identifica a si mesma, transcendendo o servomecanismo neural (córtex cerebral) através do qual se manifesta como função psíquica superior, lastro do conhecimento e do livre arbítrio[1]. Na ação mútua entre a consciência e o “mundo”, o homem constrói a si mesmo exercitando, livremente, suas escolhas pessoais, embora, comece esta jornada heróica a partir de uma situação já estabelecida - a facticidade[2]. Isso faz do homem um “ser para si”[3]. Diferentemente, o “ser em si” [4](ou coisa) é pura determinação de tempo e espaço só percebida como objeto pelo sujeito do conhecimento.
Por outro lado, o cosmo inaugura o espaço e o tempo, mas não sendo responsável por sua própria origem, aponta, retrospectivamente, para um “antes absoluto”. Concepção sem base fenomenológica sustentável, porém logicamente indispensável para justificar o Universo em que vivemos.
Outrossim, desde o Big-bang os mecanismos físico-químicos e biológicos proveram, mediante um “determinismo misterioso”, a “ferramenta” para a construção de uma ordem complexa crescente. Ordem que permite supor uma intenção, um plano deliberado que demanda, necessariamente, atividade consciente. Pois não há ordem sem intenção de alcançar um objetivo consciente! Assim, o ser humano é, naturalmente, conduzido a conviver com a idéia da “consciência absoluta”[5] que presidiu a Evolução, da matéria primitiva à vida consciente. Os físicos quânticos dão o nome de “Consciência Cósmica” a esta “transcendência absoluta” que na linguagem mística é associada à ideia de Deus[6].
Como sinto Deus...
Só consigo simbolizá-Lo como um “Dinamismo Absoluto, eternamente criativo”. Existencialmente, Ele é meu Alter ego mais radical, o totalmente outro, e, todavia, minha realidade mais profunda. Meu destino é reconhecer e cumprir Sua vontade, ou não terei nenhum. Não obstante privo da liberdade na medida em que não sou totalmente condicionado. Deus me transcende ao infinito e, ao mesmo tempo, me é inerente, ao realizar comigo minha própria essência, confirmando-me no exercício do livre arbítrio inerente à condição humana. Sinto que não posso influir no meu Deus, mas, trabalhando, consciente e responsavelmente minha própria realidade psicofísica estou fruindo o Seu poder, ao receber d´Ele  tudo de que preciso para minha máxima realização pessoal.
Sendo Deus totalmente desconhecido, reconheço, todavia, Sua presença, momento a momento, na interação do meu núcleo mais pessoal com os meus semelhantes e com a Natureza. Nesta intimidade solidária com as demais “criaturas” exercito o meu amor a Deus sem conhecê-Lo, assumindo a responsabilidade de prolongar sua Criação, ao contribuir para a construção da “comunidade humana”.  Assim integro-me num “Todo” significativo, exercitando a verdade e a justiça que me transcendem, centrado na coerência existencial do meu “agora” responsavelmente inserido nesta comunidade[7].
Não posso fazer cobranças àquele que me transcende ao infinito, mas, quando caio em desgraça posso suplicar a intervenção divina na minha intimidade respeitosa com o Criador, submetendo-me à Sua vontade.
“- Senhor! Se for possível afastai de mim este cálice!”
Com esta exclamação, submeto-me à Vontade do Criador sem, contudo, desistir da minha própria individualidade. Rendo-me à onipotência misericordiosa de Deus, fazendo um apelo humilde e confiante. E, mesmo não sendo atendido, sem perder a confiança concluo:
“- Senhor! Está tudo consumado; em Vossas mãos entrego a minha alma!”.
A espiritualidade que se desenvolve a partir do contexto relacional consciente e solidário entre as criaturas consiste em vivenciar a experiência ímpar de estar em conexão com um TODO absolutamente confiável, harmônico, completo e inexcedível que se revela numa “presença” universal absorvente. Nesta perspectiva a criatura sabe-se inteiramente à mercê da Vontade do Criador e não tem como modificá-La mediante apelo piedoso, mas não se sente abandonada. Esforçando-se para coadjuvar sua invocação com vivências e ações sociais integrativas, o “ser consciente” cria no seu devir condições para absorver as projeções da Consciência Universal, tornando-se veículo da vontade divina. A interlocução com o “Dinamismo Absoluto eternamente criativo” é existencial, envolvendo escolhas pessoais (consciência local), sempre criativas, organicamente entrelaçadas na unidade sistêmica da Consciência Cósmica[8], e fortalecedoras da comunidade humana universal.
O Dinamismo Absoluto eternamente criativo não depende das Suas criações. Portanto, o homem, por seus supostos “merecimentos” não pode induzi-Lo ao que quer que seja. A sintonia da existência pessoal com o dinamismo divino (consciência cósmica) é que proporciona à criatura a realização do seu destino histórico e transcendental. A interpretação semântica do encontro entre a criatura e o Criador diverge processualmente, quer seja o mesmo (encontro) contextualizado numa perspectiva (espiritualidade) “quântica” como resultado da coincidência da “consciência local” e da “Consciência Cósmica”, quer seja visto do ponto de vista da “espiritualidade tradicional”. Enquanto esta antropomorfiza Deus para um encontro devoto; na “espiritualidade quântica” o encontro é numinoso[9], implícito na experiência da presença de um Deus totalmente desconhecido, mas absolutamente confiável, do qual nos tornamos parceiros, em fazendo bom uso dos dons que d´Ele recebemos.
O fato de ser consciente e livre[10] distingue o homem das demais criaturas, tornando-o responsável por suas escolhas pessoais. Por isso ele precisa dispor de critérios baseados em valores referenciais absolutamente confiáveis. Neste sentido necessita contextualizar-se numa cosmovisão na qual possa ancorar, com total segurança, os valores que nortearão seu vir a ser. Todavia, para construir uma mundividência totalmente confiável teria que arrimá-la numa “transcendência absoluta”. Mas a transcendência absoluta” é inacessível à razão. Sob o ponto de vista estritamente racional, dela nada se pode afirmar ou negar. Portanto, na prática do vir a ser cotidiano, para vencer as incertezas de seu devir, o “ser para si” necessita apoiar-se na “razão e na fé como os dois olhos da alma; na verdade[11] e na crença[12]  como os dois pólos da vida”[13].                                  
Everaldo Lopes


[1] O poder que as pessoas têm de escolher suas ações, no sentido que o “agente”, embora limitado por sua contingência, não é totalmente condicionado por fatores antecedentes, e tem vontade própria.
[2] No heideggerianismo, situação característica da existência humana que, lançada ao mundo, está submetida às injunções e necessidades dos fatos.

[3] Ser que implica na consciência, conhecimento a seu próprio respeito e a respeito do mundo. (Sartre)
[4] Podemos entender um Em-si como qualquer objeto existente no mundo e que possui uma essência definida. (Sartre
[5] Que não depende de ninguém, de coisa alguma; independente, soberano            que não sofre nem comporta restrição ou reserva; inteiro, infinito    que não admite condições, limites; incondicional.

[6] . Princípio supremo de explicação da existência, da ordem e da razão universais, e garantia dos valores morais.
[7]  Agrupamento de todos os homens que se caracteriza por forte coesão baseada no consenso espontâneo dos indivíduos. 
[8] Amit Goswami in “O Ativista Quântico”. Segundo a Teoria Quântica, a realidade são probabilidades que se materializam mediante escolhas da Consciência Cósmica (não localizada) e da consciência pessoal (local). Ed. Aleph.
[9] Segundo Rudolf Otto (1869-1927), teólogo e filósofo alemão, o sentimento único vivido na experiência religiosa, a experiência do sagrado, em que se confundem a fascinação, o terror e o aniquilamento.  Aurélio Sec.XXI
[10] Liberdade limitada pela própria contingência humana, obviamente.
[11] Produto da razão
[12] Produto da fé
[13] Guerra Junqueiro em “A velhice do Padre Eterno”.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Quem somos nós?


A condição humana define-se pelo exercício consciente e responsável da liberdade. A consciência reflexiva libertou a Evolução dos determinismos físico-químicos e biológicos. O processo passou a ser conduzido pela inteligência e capacidade criativa do homem... funções psíquicas superiores que transcendem a complexidade psicobiológica pelas quais se revelam. A consciência inteligente sobrepôs-se, pelo conhecimento racional, à inteligência instintiva. Mas a capacidade cognoscitiva do homem não reconhece as essências... o conhecimento racional é fenomênico, sempre aproximativo, não comporta certezas absolutas. Para dar continuidade ao processo evolutivo, o ser consciente desafia os obstáculos à sua jornada existencial fazendo escolhas cuja legitimidade depende da integridade e universalidade dos critérios utilizados. Na esteira destas escolhas vai se construindo uma cultura de valores da qual o homem participa como ator e mentor, simultaneamente.
Ao despertar, a consciência reflexiva fica desamparada no Universo misterioso e indiferente à sua presença. Mas a vontade impulsiona a “existência”[1], tirando sua força de um núcleo pessoal misterioso que nutre expectativas, e acredita, tem fé no seu próprio projeto.
Por sua finitude desamparada, o homem não passa de um animal que ganhou subjetividade consciente. Mas neste retiro interior diferenciou-se, desenvolveu a habilidade de simbolizar idéias e confrontá-las... Aprendeu a ler as leis que governam o mundo, e, manipulando este conhecimento tornou-se capaz de dominar a Terra em benefício próprio... produzindo artefatos para seu conforto, e realizando mega-projetos arquitetônicos e industriais para fins específicos. Erigiu a cultura que o contextualiza, e continua desbravando esse mundo cheio de surpresas. Não sabe quem lhe tomará o bastão nesta “corrida de revezamento”[2], mas crê em que alguém o fará. Ao participar da aventura da vida sabe que nascimento e morte são ocorrências cotidianas... mas a “corrida” continua... tudo impulsionado pela fé na capacidade de conquistar o Universo.
O homem, por sua condição consciente e livre é um estranho no mundo. E quando isolado do seu contexto civilizacional, sem as amarras culturais criadas por ele mesmo, apresenta-se ora cômico, ora trágico, ora ridículo. Só no congraçamento comunitário sua existência ganha um sentido nobre,  e assume a dignidade que lhe cabe.
Rigorosamente, transcender é o dinamismo básico da consciência, e, portanto, o homem estaria sempre, em tese, a serviço de um bem maior, transcendendo-se. Esta capacidade permanente de superação lhe confere uma dignidade específica. Mas há defecções inerentes à imperfeição do ser humano... A assimilação de um sentido para a “existência” é o arremate definitivo da humanização. Nesta perspectiva a razão é uma arma poderosa, mas, sozinha não basta... a assimilação pessoal do “sentido” arrimado em valores não é uma operação racional, porém afetiva e intuitiva... depende mais de uma crença do que de um conhecimento. Arrisco-me dizer, pois, que só a salva o homem de “ser para nada” (ausência de sentido), ou seja, de existir como uma aberração no Universo indiferente ao seu destino... Mas a fé é um dom fugidio que precisa ser alimentado com humildade e talento criativo. Este processo exige do ser consciente sensibilidade ética e disposição consciente responsável para trilhar os caminhos da verdade e da justiça... e ao apelo desses valores no devir histórico de cada um, os homens respondem diferentemente, revelando  fraqueza  ou grande firmeza de caráter.
A pergunta “Quem somos nós?” permanece um enigma cuja interpretação dependerá do roteiro do nosso próprio ser histórico. Detemos o poder de construir-nos, responsavelmente, como seres livres voltados para objetivos que nos transcendem. E assim fazemos a História. Então, como pivô da História o homem pode transformá-la num poema épico ou numa piada de mau gosto, tornando-se, ele próprio, respectivamente, herói ou farsante. A escolha é pessoal, mas depois de a orientação implícita (na escolha) ganhar foro cultural, (assumida pelo grupo, por unanimidade ou maioria) passa a influir nas decisões individuais. Cada um será aquilo a que se determinar “ser”, mas não pode esquivar-se da influência de sua cultura... Sem perder de vista, porém, que não alcançará a humanidade plena se não se integrar num projeto comunitário universal... É indispensável, portanto que insira na cultura da qual é também mentor, a solidariedade como um valor fundamental. O que somos está inscrito na sociedade na qual nos contextualizamos. Porque é na relação com o “outro” que se define a humanidade. Sozinho, o homem não alcança realizar-se como pessoa porque a constituição do “eu” subentende a relação com um “tu”... portanto a realidade pessoal inclui o outro, necessariamente. A intersubjetividade é a experiência psicossocial na qual se insere a “pessoa”. Como pessoa cada um é o resultado da interação entre a subjetividade individual (“eu”) e a circunstância[3] centrada no “tu”.
Acabamos por compreender que a pergunta “quem somos nós?” não tem uma resposta conceitual, mas nos coloca diante de um dinamismo que leva a realidades diferentes. Somos potencialidades, ou possibilidades que se atualizam num contexto definido por valores assumidos responsavelmente. O homem cria “valores” em torno dos quais constrói sua existência, e estes valores definem o que será,  delimitando o espaço subjetivo do livre arbítrio. Todavia, é notório que dentre as escolhas possíveis, a prática da solidariedade é fundamental para consubstanciar a comunidade humana. E disto depende a sobrevivência do  Homo sapiens sapiens.
                        Everaldo Lopes



[1] Modo de ser próprio do homem
[2] Ver texto publicado neste blog “Corrida de revezamento”.
[3] Lembro aqui o que diz Ortega y Gasset: “ Eu sou eu e minha circunstância”.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Os temores humanos


            Só o presente é real. O passado e o futuro são lembranças e expectativas, respectivamente, de eventos acontecidos e por acontecer que não correspondem à realidade do presente que flui... portanto, não passam de ilusões. 
O medo quando não suscitado por um perigo atual, real, se caracteriza pela expectativa ansiosa de um acontecimento futuro, assustador. Emoção que antecipa no imaginário uma situação que, bom número de vezes não chega a tornar-se realidade.  Em verdade, os medos humanos estão frequentemente associados a ilusões. Com os elementos da expectativa pessimista ou culposa o imaginário cria fantasmas perturbadores que, dominando a cena subjetiva, produzem tortura psicológica naqueles que lhes dão trela.           Nestas condições o temor prenuncia um perigo ilusório, e na maioria dos casos não existiria se a sua vítima pudesse prever o futuro, com certeza. Pois, por maior que seja a probabilidade de acontecer o imaginado, não há certeza de que ocorra, e frequentemente não se confirma. Não obstante, o temor  ilusório tortura os que se deixam atormentar por fantasias catastróficas. Obviamente, quando o fato desencadeante do medo é real, atual, o temor é bem-vindo porque estimula o improviso e implementação das defesas contra o risco iminente.
Então, os temores correspondem ora a ameaças ilusórias, ora a riscos reais contra a segurança pessoal. Em ambos os casos reforçam o sentimento de precariedade da vida. Mas, normalmente, só os riscos “reais” deveriam suscitar o temor estimulante de respostas defensivas essenciais à salvaguarda pessoal. Os riscos apenas presumidos não abalam o equilíbrio existencial de uma pessoa normal. Para tipificar o comportamento anormal tomemos o exemplo de um hipocondríaco. Ele gostaria de viver quinze anos mais, porém, ainda que seja possível ou mesmo provável que se cumpra esta expectativa de vida, teme, sem uma razão objetiva, não alcançar a longevidade desejada. E pode até, excepcionalmente, morrer a qualquer momento por motivos variados sobre os quais não tem controle.  Mas, ao alimentar o temor de meras possibilidades que contrariam a sua expectativa de longevidade o hipocondríaco vive minuto a minuto o medo da interrupção de uma sobrevida que desejara longa... mas o tempo passa e nada acontece. Portanto é insano avaliar a própria sobrevida tomando por base as exceções. No caso do hipocondríaco seria como assumir a experiência ridícula da contradição de viver cada momento para experimentar o medo de que o próximo (momento) não aconteça. Viveria assim, uma “quase” vida!... O ser consciente empolgado pelo temor de uma possibilidade indefinida, não escolhe, não decide e não age... fica bloqueado... frustrando-se a vitalidade do seu agora. O “agora” passa em branco, ou apenas nele se esboçam intenções, mas não é vivido plenamente. E na sucessão das vivências de temores que não se confirmam, o tempo corre, e a capacidade de realização de qualquer projeto existencial fica prejudicada na sua pujança. Em grau extremo, esta situação leva o indivíduo timorato a não sentir a plenitude do “agora. Assim, o neurótico flutua sobre a própria existência, mas não existe realmente. Por sua timidez obsessiva é um morto vivo, O temor crônico tira-lhe o vigor criativo, reduz sua capacidade de comprometer-se por inteiro com seus projetos... e por isso o mantém sempre à distância de um “quase” do objetivo projetado. Nestes termos, “quase” se saiu bem no negócio; “quase” conseguiu equilibrar as relações familiares; “quase” vomitou algumas verdades na cara daquele sócio cínico... finalmente, ele “quase” vive. Isso foi resumido, emblematicamente, num texto muito divulgado: “Embora quem quase morreu ainda vive, quem quase vive já morreu.”[1]. Os temores não superados levam à paralisação da dinâmica existencial.
Contra o marasmo de uma vida temerosa, a rebeldia disciplinada pelo bom senso é um antídoto poderoso. Todavia há que graduar corretamente estes parâmetros, tendo em vista que o bom senso exagerado, leva à interdição sistemática de toda rebeldia... é uma ducha fria na criatividade humana! Ousar é, portanto, fundamental para manter viva a chama de uma existência criativa que valha a pena viver. Mas é preciso saber ousar... aprendendo a distinguir o que pode e o que não pode ser  mudado, para que a ousadia não destrua o rebelde.
            A perspicácia e a coragem desenvolvidas no íntimo de cada um hão de alcançar a melhor performance com a sabedoria acumulada durante o vir a ser pessoal bem analisado, meditado. Há que aprender a balancear a coragem na medida certa, em contraponto ao temor intimidante, para que a existência flua produtiva em busca de uma meta significativa - conquista responsável na caminhada histórica de cada homem. Este feito é um aprendizado que se concretiza mediante esforço permanente de compreensão da condição humana, autoconhecimento, disciplina emocional e compromisso com valores universais. A disciplina emocional envolve não apenas a capacidade de sustar as respostas impulsivas, porém, igualmente, a de manter sob controle os medos ilusórios. Todos estes ingredientes psicodinâmicos remetem à “coragem de ser”, tema abordado em texto anterior postado neste blog, no qual discutimos “o medo e a covardia”.  
 Everaldo Lopes


[1] De Sarah Westphal, segundo o próprio Luiz Fernando Veríssimo, a quem se tem atribuído a citação

sábado, 16 de abril de 2011

A violência em debate


É assustadora a estatística de assassinatos divulgados pela mídia. A recente chacina em uma Escola Pública de Realengo, chocante por vitimar crianças, adolescentes, e pelos detalhes perversos confirma o nível de violência a que chegamos.
Atônitas, as pessoas sentem-se inseguras, invadidas pelo medo, imaginando riscos. No açodamento do primeiro impacto das notícias deprimentes, a população arrisca opiniões sobre as causas da violência. Há um pouco de verdade em cada uma das causas levantadas pelo povo. A deficiência do aparato policial, a morosidade do ministério público no julgamento e punição dos culpados, a frouxidão administrativa e a corrupção dos governantes, a omissão da coletividade por medo de ficar na mira de bandidos impiedosos, a descrença num poder maior justo e infalível são fatores favoráveis à criminalidade... mas nenhum é determinante, por si só. Por trás de todas as causas elencadas está a problematicidade do homem e sua implicação na irrupção da violência.
A emergência da consciência, coetânea da liberdade representou o salto evolutivo mais importante na história da vida, implicando ambas no exercício da responsabilidade. A partir deste salto a Evolução já não dependeria mais de determinismos físico-químicos e feedbacks biológicos, mas de escolhas livres do homem. O vetor evolutivo não seria mais o aperfeiçoamento biológico, mas a organização de uma sociedade solidária... cabendo ao homem construí-la mediante escolhas pessoais. Mas no próprio homem há uma carência ontológica refletida na consciência de que não é o autor da vida... Numa introspecção profunda esta carência é percebida como um “vazio” - a “falta” original.  Todavia, o homem está condenado a realizar-se, assumindo total responsabilidade ao edificar uma base (concepção de si mesmo) para o seu “vir a ser”, inextrincavelmente ligado à organização social.
Como um ser querente e livre o homem tem um comportamento imprevisível. Cabe-lhe aferir suas escolhas por um valor universal capaz de dar “sentido” à “existência” pessoal... Não um qualquer,  mas um sentido  abrangente que enobreça o universo humano, integrando-o num todo absoluto, significativo. Isso faz toda diferença no comportamento social, sabendo-se que na subjetividade humana se digladiam um selvagem e um poeta... Portanto, a existência se estrutura mediante determinação volitiva que demanda permanente disciplina (autocontrole) e autoconhecimento para o desempenho equânime e coerente do indivíduo na coletividade. Esta postura se reflete no comportamento individual por onde começam tanto os males que põem em risco a humanidade, quanto a iniciativa que a redime da derrocada fatal. O homem é a porta de entrada dos novos dados a serem processados na “individuação”[1] e socialização[2] que caminham juntas no processo cultural.
Considerando toda complexidade que envolve a existência, não se pode pôr o dedo em cima de uma causa específica para a violência praticada pelo homem contra seu semelhante. Mas podemos dizer com segurança que não há uma causa dominante. É mais provável que todas estejam implicadas e se permutem influências entre si. Nessa dinâmica psicossocial, equívocos acumulados durante milênios levaram à prática de comportamentos destoantes do ideal solidário. Séculos seguidos, a Humanidade vem dissipando suas potencialidades existenciais associativas na embriaguês da ira, avareza, luxúria, preguiça, soberba... mas, ao mesmo tempo, proclamando veleidades éticas. Desta orientação cínica, já não pode o homem tirar o alimento espiritual para uma existência plena de “sentido”, e sem este “sentido” assume atitudes radicais e dispersivas para sufocar a angústia existencial, aturdindo-se. Desorientado, o homem se perde em sua própria insensatez. A análise crítica da conjuntura histórica atual deixa no ar a dolorosa impressão de que, por leviandade e improbidade, o homem está ignorando o sentimento comunitário presente no inconsciente coletivo.  E sem este sentimento a humanidade vira uma horda.
Tragédia como a chacina de Realengo é um sinal de alerta. Ninguém se iluda. Estamos vivendo um momento crítico na História da Humanidade. O organismo social apresenta sintomas evidentes de desequilíbrio. É inquietante a defecção das autoridades diante da violência assassina. Sem recursos institucionais para enfrentar a causa profunda da violência, apontam o desarmamento geral como uma maneira de prevenir futuros episódios igualmente criminosos e deploráveis! É evidente que esta medida não atinge as causas determinantes da criminalidade! É até ingênua porque a indústria de armas envolve bilhões de Reais e, uma campanha antiarmamentista está fadada ao fracasso por ferir o interesse de investidores ávidos de lucro.  Por outro lado é importante saber que o problema da violência não se resolve mediante campanhas deste tipo, nem através de medidas policiais e jurídicas; a solução se configura como um longo processo educacional de treinamento das pessoas na prática da solidariedade.
É tempo ainda de impedir o desastre. Comecemos já a cultivar a solidariedade, por mais hostis que sejam as circunstâncias. É preciso dar crédito e deixar vir à tona a solidariedade arquetípica inserida no inconsciente coletivo. Concomitantemente se fará a mudança dos paradigmas culturais atualmente caracterizados pela competição (aética muitas vezes) e pelo acúmulo de bens. Esta orientação, além de determinar a diferença flagrante e injusta das condições de vida entre ricos e pobres é lesiva à dignidade pessoal porque cultiva a prioridade do “ter”, em detrimento do “ser”. No mundo do “ter” tudo tem um preço, inclusive a “pessoa” que se torna objeto de manipulação. Daí ao desrespeito à vida humana, e à banalização da morte é apenas um passo.
A grande mudança ocorre a partir da adesão a uma visão holística da realidade, que prioriza o “ser”, e parte do princípio que o todo (comunidade) é maior do que a soma de suas partes (indivíduos) mutuamente solidárias, sob os paradigmas culturais da cooperação e da partilha. A dificuldade inerente à mudança radical dos padrões comportamentais justifica a descrença de muitos. Perseveramos, porém,  em persegui-la (a mudança), confiando em que o homem será capaz de superar-se para cumprir a missão evolutiva que lhe está destinada! Para os incrédulos esta é uma leitura ingênua da realidade; para nós, porém, é mais do que uma opção de confiança infantil nas forças vivas da Evolução. Fundamenta-se numa releitura da Psicologia Profunda[3], e do significado epistemológico da experiência original da horda humana. No período pré-histórico em que o homem vivia da cata de frutas e da caça, exposto aos riscos da vida selvagem, a associação dos indivíduos em prol de um objetivo comum foi decisiva para a sobrevivência da espécie. Esta experiência deixou marcas arquetípicas no inconsciente coletivo. Certamente foi a primeira experiência na qual a horda humana viveu um tipo, ainda tosco de organização social. Experiência tão forte e decisiva na história da Evolução, que deixou um arquétipo impresso na imagística inconsciente, origem semântica do que chamamos solidariedade. O potencial solidário nunca nos abandonou, mas ficou soterrado pelas facilidades surgidas com o domínio da Natureza, pela Ciência, que deu lugar à pseudo-suficiência do homem moderno, cercado por tecnologia avançada, cada vez mais voltado para si mesmo. Todavia, o arquétipo solidário aflora espontaneamente nas situações de risco, para defender a integridade dos indivíduos e o seu território, ou para atacar o inimigo comum. Disso temos exemplos numerosos na História da Humanidade.
A violência urbana desenfreada e o desequilíbrio ecológico induzido por ações irresponsáveis do homem estão sinalizando um risco sério para a sobrevivência da espécie e, mais uma vez, tal como no passado, a união dos homens será a salvação. A exposição midiática dos problemas ecológicos e do escândalo da fome mundial demonstra que o núcleo arquetípico da solidariedade já foi despertado e já começou a operar silenciosa e até explicitamente, urdindo novos caminhos para a História do homem. Num momento qualquer este trabalho subterrâneo da Evolução em marcha se tornará visível e o homem começará a viver a aurora radiosa de novos tempos de entendimento e paz comunitária.
Tendo em vista o potencial criativo do homem, no limiar deste terceiro milênio, malgrado os equívocos acumulados podemos pressagiar um futuro de plenitude para a Humanidade... Temos conhecimento e tecnologia suficientes... Faltam apenas decisões políticas sábias. Crendo nessa possibilidade influiremos, decisivamente, na dinâmica histórica criando as condições para que se torne realidade a “paz comunitária” que tanto almejamos.  Não há certezas absolutas quanto ao nosso porvir... Mas, a análise da Evolução oferece bons motivos para apostar na plenitude do ser humano, contra o pessimismo de todos os indicadores disponíveis.
            Everaldo Lopes


[1]Processo por meio do qual uma pessoa se torna consciente de sua individualidade, de acordo com C.G. Jung (1875-1961) Dic. Houaiss 3

[2] Ação ou efeito de desenvolver, nos indivíduos de uma comunidade, o sentimento coletivo, o espírito de solidariedade social e de cooperação. Dic. Houaiss 3

[3] Implicada na teoria dos arquétipos e do inconsciente coletivo.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Uma palavra de estímulo



            O sofrimento dos “excluídos”[1] numa sociedade injusta  suscita desolação e um sentimento incômodo de impotência. Não se avistam indicadores que justifiquem a expectativa da solução cabal dos problemas que afligem grandes massas humanas famintas, doentes, analfabetas, sem teto, sem emprego, sem renda. Enquanto prevalece a corrupção política despudorada, e a competição aética no mundo dos negócios com prejuízo para uma maioria de consumidores mal assistidos e explorados. É escandalosa a diferença do padrão de vida entre os que têm muito e os que nada têm. Qualquer ser humano com um mínimo de sensibilidade ficará indignado diante do panorama deprimente no qual se desenham as injustiças e os crimes praticados contra a pessoa... e, ao mesmo tempo, sentir-se-á esmagado pela pergunta angustiante sobre como conduzir-se com brio como agente transformador deste quadro dantesco... O grande problema é: o que fazer? O primeiro impacto face à urgência de responder à pergunta perturbadora é de atordoamento e desamparo. Mas, contextualizando historicamente o fenômeno humano e seus desdobramentos sócio-culturais, o observador atento adverte-se de que os ricos e poderosos sempre tripudiaram e, certamente, hão de continuar pisando sobre os pobres e os fracos. Esse comportamento desumano é uma secreção produzida pelo egoísmo, que corrói a solidariedade das relações humanas... não se modificará enquanto houver ricos poderosos e pobres fragilizados. Tendo em vista a magnitude do problema torna-se claro que para reparar os danos inerentes aos equívocos político-sociais e econômicos, insistentemente, reproduzidos geração após geração é necessário mobilizar todas as forças que tecem a malha social. Daí porque as iniciativas que visam a promover o comportamento solidário são difíceis de implementar... As campanhas organizadas com esse propósito se exaurem em pouco tempo por não estarem culturalmente sedimentadas em hábitos de vida, limitando-se a esforços isolados, ligados a movimentos pontuais que pretendem estimular o ideal comunitário. De qualquer modo o melhor resultado depende de mudanças pessoais. “Não se iluda, que nada muda se você não mudar.”[2]
            Obviamente, a desigualdade social milenar não será resolvida pelo esforço isolado de uma pessoa ou de um grupo. O débito social das classes favorecidas em relação aos excluídos só poderá ser resgatado pela sociedade toda num mutirão, envolvendo políticos, empresários, educadores, enfim,  todos os cidadãos válidos, unidos numa corrente de solidariedade.           Mas isto é utopia, dirão! Sem dúvida, sim. Mas utopia na qual acreditaram todos os grandes líderes espirituais da humanidade e nós próprios aspiramos a tornar realidade. O que todos precisamos saber é que crer não é simplesmente acreditar, mas, sobretudo é criar as condições para que aconteça aquilo no que acreditamos. De outra forma o nosso ideal nunca se fará realidade.             Nessa perspectiva, que cada um faça o que puder para tornar visível a solidariedade nas suas relações sociais... Como político, empresário, educador, profissional liberal, cidadão comum, cada um pode fazer muito em prol deste ideal. Basta que ao agir permaneça focado no respeito à dignidade humana, comprometido com a verdade e a justiça. Façamos, pois, o que pudermos, com objetividade e determinação. Poupemo-nos da violência de impor-nos uma responsabilidade que ultrapassa os limites pessoais, sem esquecer que “a união faz a força”.          Não adianta descabelar-se por não poder solucionar de vez e para sempre os problemas humano-sociais. Demos nossa colaboração mediante ações efetivas, sem lamentações ou registros depressivos. Em vez disso mantenhamos a mente lúcida para o passo seguinte e o façamos confiantes... “Toda caminhada começa com um primeiro passo”... Daí a importância de não retardá-lo. Nada se constrói com lamentações e explicações medrosas... É preciso agir com determinação para fazer o que se pode agora, já, na área em que militamos profissionalmente, e socialmente, sem descurar das responsabilidades de cidadão. Mas é preciso que o façamos com a confiança de quem acredita na possibilidade da vitória final. Sobrevirão momentos de fraqueza em que o desânimo ameaçará a disposição e firmeza de propósitos. Afinal estamos todos sujeitos à tentação da preguiça, da luxúria, da soberba, da ira, da avareza que desviam o foco do agente social, para os seus interesses individuais imediatos... Para superar as crises a que estamos existencialmente expostos é necessário cultivar a disciplina e a autoconfiança. São tantas as armadilhas do egoísmo humano que ameaçam, permanentemente, os ideais comunitários! Por isso é indispensável que façamos todo dia uma profissão de fé na capacidade humana de conversão à prática honesta da cooperação e da partilha. Até porque de outra forma não haverá salvação para a humanidade. Diante do risco de tornar a espécie Homo sapiens sapiens inviável, o comportamento solidário já não é apenas a virtude que enriquece um currículo de “santidade”, mas o ingrediente social indispensável para a sobrevivência do homem. Não se trata de atender a uma evocação mística, mas de responder, objetivamente, a uma constatação lógica. Esta exigência coerente com o processo evolutivo exige uma escolha, já... a prática solidária caracterizada pela cooperação e pela partilha. Se nos ativermos à análise econômica, política e social da conjuntura histórica atual, certamente, vamos deparar detalhes sórdidos que destoam dessa orientação e confundem o ativista democrático. Pior quando técnicos e administradores estão envolvidos nas falcatruas... evidencia-se, então, um impasse estrutural sem saída...são situações refratárias às soluções democráticas! Felizmente casos dessa natureza são pontuais. Afortunadamente, tanto entre os detentores do poder político, como no meio empresarial há homens honrados que procedem corretamente... Eles são o sustentáculo da ordem pública...
            O apoio nas urnas aos Políticos que têm espírito público é a forma mais radical de resolver os problemas inerentes à conquista de um Estado democrático de fato. Mas a escolha eleitoral politicamente correta envolve, necessariamente, o conhecimento dos candidatos, da sua competência e honorabilidade. Na dificuldade inerente ao acesso direto a dados biográficos confiáveis dos candidatos, os eleitores se valem das informações oferecidas pela mídia que assume, então, um papel relevante no processo de formação dos nossos quadros de legisladores e executivos públicos.
Quem estiver atento a este relato não me surpreenderá se levantar a questão da interatividade entre os políticos carreiristas, e parcelas não confiáveis do empresariado e do eleitorado. Com tristeza constata-se que esta interação se faz mais frequentemente no sentido da perpetuação da falta de decoro político social, mediante acordos de cafajestes entre as forças envolvidas no processo eleitoral. Para ganhar o apoio dos poderes constituídos e garantir vantagens econômicas, a mídia faz o jogo dos políticos vivaldinos e dos empresários desvairados pelo lucro. Os políticos cedem à pressão do lobby do poder econômico que lhes garante o financiamento da compra dos votos de eleitores venais. Nesse compasso dançam todos, ao ritmo satânico da cobiça... organizam-se, priorizando o egoísmo comum aos vários segmentos envolvidos, resumindo-se tudo a um comércio espúrio de interesses privados. No fim acabam levando vantagem o político desonesto e o empresário cobiçoso, aético... Enquanto isso, quase sempre, os eleitores conscientes ficam a ver navios, votando em candidatos desonestos, insistentemente, badalados pela mídia que usa de expedientes, simulando seriedade. Este é o ciclo vicioso das influências nefastas que subvertem o processo democrático, emperrando o verdadeiro desenvolvimento humano. O circuito destas influências fica facilitado pela ignorância e pobreza em que vivem muitos eleitores predispostos a vender o voto a um mau político por um emprego, e até por recompensas materiais desprezíveis. No conjunto, esses descalabros lesivos à Democracia criam uma situação de fato que o tempo vai sedimentando até transformar num bloco sólido monolítico de fatos concretos consumados. É difícil quebrá-lo, depois que por assim dizer se “institucionaliza” o comportamento cínico. A realidade socioeconômica vista através desta análise sucinta é tão mais trágica quanto mais resistente às tentativas de mudança. Porém, sabe-se que a rocha mais compacta, depois de muitas marretadas, acaba desmoronando a uma última, não mais vigorosa do que as anteriores. Se valer a analogia, esperamos que assim também acontecerá com o bloco aparentemente sólido da conjuntura político-social e econômica que vimos de descrever. Não será ingenuidade, portanto, insistir em ações cidadãs que visam a mudar a realidade atual no sentido da construção, contra todas as expectativas, de uma verdadeira democracia.            


[1] Indivíduos que foram deixados de fora dos recursos materiais e das conquistas sociais.
[2] Da Música “Companheiros” - Marcelo Barra, Naire e Tibério Gaspar