sábado, 16 de abril de 2011

A violência em debate


É assustadora a estatística de assassinatos divulgados pela mídia. A recente chacina em uma Escola Pública de Realengo, chocante por vitimar crianças, adolescentes, e pelos detalhes perversos confirma o nível de violência a que chegamos.
Atônitas, as pessoas sentem-se inseguras, invadidas pelo medo, imaginando riscos. No açodamento do primeiro impacto das notícias deprimentes, a população arrisca opiniões sobre as causas da violência. Há um pouco de verdade em cada uma das causas levantadas pelo povo. A deficiência do aparato policial, a morosidade do ministério público no julgamento e punição dos culpados, a frouxidão administrativa e a corrupção dos governantes, a omissão da coletividade por medo de ficar na mira de bandidos impiedosos, a descrença num poder maior justo e infalível são fatores favoráveis à criminalidade... mas nenhum é determinante, por si só. Por trás de todas as causas elencadas está a problematicidade do homem e sua implicação na irrupção da violência.
A emergência da consciência, coetânea da liberdade representou o salto evolutivo mais importante na história da vida, implicando ambas no exercício da responsabilidade. A partir deste salto a Evolução já não dependeria mais de determinismos físico-químicos e feedbacks biológicos, mas de escolhas livres do homem. O vetor evolutivo não seria mais o aperfeiçoamento biológico, mas a organização de uma sociedade solidária... cabendo ao homem construí-la mediante escolhas pessoais. Mas no próprio homem há uma carência ontológica refletida na consciência de que não é o autor da vida... Numa introspecção profunda esta carência é percebida como um “vazio” - a “falta” original.  Todavia, o homem está condenado a realizar-se, assumindo total responsabilidade ao edificar uma base (concepção de si mesmo) para o seu “vir a ser”, inextrincavelmente ligado à organização social.
Como um ser querente e livre o homem tem um comportamento imprevisível. Cabe-lhe aferir suas escolhas por um valor universal capaz de dar “sentido” à “existência” pessoal... Não um qualquer,  mas um sentido  abrangente que enobreça o universo humano, integrando-o num todo absoluto, significativo. Isso faz toda diferença no comportamento social, sabendo-se que na subjetividade humana se digladiam um selvagem e um poeta... Portanto, a existência se estrutura mediante determinação volitiva que demanda permanente disciplina (autocontrole) e autoconhecimento para o desempenho equânime e coerente do indivíduo na coletividade. Esta postura se reflete no comportamento individual por onde começam tanto os males que põem em risco a humanidade, quanto a iniciativa que a redime da derrocada fatal. O homem é a porta de entrada dos novos dados a serem processados na “individuação”[1] e socialização[2] que caminham juntas no processo cultural.
Considerando toda complexidade que envolve a existência, não se pode pôr o dedo em cima de uma causa específica para a violência praticada pelo homem contra seu semelhante. Mas podemos dizer com segurança que não há uma causa dominante. É mais provável que todas estejam implicadas e se permutem influências entre si. Nessa dinâmica psicossocial, equívocos acumulados durante milênios levaram à prática de comportamentos destoantes do ideal solidário. Séculos seguidos, a Humanidade vem dissipando suas potencialidades existenciais associativas na embriaguês da ira, avareza, luxúria, preguiça, soberba... mas, ao mesmo tempo, proclamando veleidades éticas. Desta orientação cínica, já não pode o homem tirar o alimento espiritual para uma existência plena de “sentido”, e sem este “sentido” assume atitudes radicais e dispersivas para sufocar a angústia existencial, aturdindo-se. Desorientado, o homem se perde em sua própria insensatez. A análise crítica da conjuntura histórica atual deixa no ar a dolorosa impressão de que, por leviandade e improbidade, o homem está ignorando o sentimento comunitário presente no inconsciente coletivo.  E sem este sentimento a humanidade vira uma horda.
Tragédia como a chacina de Realengo é um sinal de alerta. Ninguém se iluda. Estamos vivendo um momento crítico na História da Humanidade. O organismo social apresenta sintomas evidentes de desequilíbrio. É inquietante a defecção das autoridades diante da violência assassina. Sem recursos institucionais para enfrentar a causa profunda da violência, apontam o desarmamento geral como uma maneira de prevenir futuros episódios igualmente criminosos e deploráveis! É evidente que esta medida não atinge as causas determinantes da criminalidade! É até ingênua porque a indústria de armas envolve bilhões de Reais e, uma campanha antiarmamentista está fadada ao fracasso por ferir o interesse de investidores ávidos de lucro.  Por outro lado é importante saber que o problema da violência não se resolve mediante campanhas deste tipo, nem através de medidas policiais e jurídicas; a solução se configura como um longo processo educacional de treinamento das pessoas na prática da solidariedade.
É tempo ainda de impedir o desastre. Comecemos já a cultivar a solidariedade, por mais hostis que sejam as circunstâncias. É preciso dar crédito e deixar vir à tona a solidariedade arquetípica inserida no inconsciente coletivo. Concomitantemente se fará a mudança dos paradigmas culturais atualmente caracterizados pela competição (aética muitas vezes) e pelo acúmulo de bens. Esta orientação, além de determinar a diferença flagrante e injusta das condições de vida entre ricos e pobres é lesiva à dignidade pessoal porque cultiva a prioridade do “ter”, em detrimento do “ser”. No mundo do “ter” tudo tem um preço, inclusive a “pessoa” que se torna objeto de manipulação. Daí ao desrespeito à vida humana, e à banalização da morte é apenas um passo.
A grande mudança ocorre a partir da adesão a uma visão holística da realidade, que prioriza o “ser”, e parte do princípio que o todo (comunidade) é maior do que a soma de suas partes (indivíduos) mutuamente solidárias, sob os paradigmas culturais da cooperação e da partilha. A dificuldade inerente à mudança radical dos padrões comportamentais justifica a descrença de muitos. Perseveramos, porém,  em persegui-la (a mudança), confiando em que o homem será capaz de superar-se para cumprir a missão evolutiva que lhe está destinada! Para os incrédulos esta é uma leitura ingênua da realidade; para nós, porém, é mais do que uma opção de confiança infantil nas forças vivas da Evolução. Fundamenta-se numa releitura da Psicologia Profunda[3], e do significado epistemológico da experiência original da horda humana. No período pré-histórico em que o homem vivia da cata de frutas e da caça, exposto aos riscos da vida selvagem, a associação dos indivíduos em prol de um objetivo comum foi decisiva para a sobrevivência da espécie. Esta experiência deixou marcas arquetípicas no inconsciente coletivo. Certamente foi a primeira experiência na qual a horda humana viveu um tipo, ainda tosco de organização social. Experiência tão forte e decisiva na história da Evolução, que deixou um arquétipo impresso na imagística inconsciente, origem semântica do que chamamos solidariedade. O potencial solidário nunca nos abandonou, mas ficou soterrado pelas facilidades surgidas com o domínio da Natureza, pela Ciência, que deu lugar à pseudo-suficiência do homem moderno, cercado por tecnologia avançada, cada vez mais voltado para si mesmo. Todavia, o arquétipo solidário aflora espontaneamente nas situações de risco, para defender a integridade dos indivíduos e o seu território, ou para atacar o inimigo comum. Disso temos exemplos numerosos na História da Humanidade.
A violência urbana desenfreada e o desequilíbrio ecológico induzido por ações irresponsáveis do homem estão sinalizando um risco sério para a sobrevivência da espécie e, mais uma vez, tal como no passado, a união dos homens será a salvação. A exposição midiática dos problemas ecológicos e do escândalo da fome mundial demonstra que o núcleo arquetípico da solidariedade já foi despertado e já começou a operar silenciosa e até explicitamente, urdindo novos caminhos para a História do homem. Num momento qualquer este trabalho subterrâneo da Evolução em marcha se tornará visível e o homem começará a viver a aurora radiosa de novos tempos de entendimento e paz comunitária.
Tendo em vista o potencial criativo do homem, no limiar deste terceiro milênio, malgrado os equívocos acumulados podemos pressagiar um futuro de plenitude para a Humanidade... Temos conhecimento e tecnologia suficientes... Faltam apenas decisões políticas sábias. Crendo nessa possibilidade influiremos, decisivamente, na dinâmica histórica criando as condições para que se torne realidade a “paz comunitária” que tanto almejamos.  Não há certezas absolutas quanto ao nosso porvir... Mas, a análise da Evolução oferece bons motivos para apostar na plenitude do ser humano, contra o pessimismo de todos os indicadores disponíveis.
            Everaldo Lopes


[1]Processo por meio do qual uma pessoa se torna consciente de sua individualidade, de acordo com C.G. Jung (1875-1961) Dic. Houaiss 3

[2] Ação ou efeito de desenvolver, nos indivíduos de uma comunidade, o sentimento coletivo, o espírito de solidariedade social e de cooperação. Dic. Houaiss 3

[3] Implicada na teoria dos arquétipos e do inconsciente coletivo.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Uma palavra de estímulo



            O sofrimento dos “excluídos”[1] numa sociedade injusta  suscita desolação e um sentimento incômodo de impotência. Não se avistam indicadores que justifiquem a expectativa da solução cabal dos problemas que afligem grandes massas humanas famintas, doentes, analfabetas, sem teto, sem emprego, sem renda. Enquanto prevalece a corrupção política despudorada, e a competição aética no mundo dos negócios com prejuízo para uma maioria de consumidores mal assistidos e explorados. É escandalosa a diferença do padrão de vida entre os que têm muito e os que nada têm. Qualquer ser humano com um mínimo de sensibilidade ficará indignado diante do panorama deprimente no qual se desenham as injustiças e os crimes praticados contra a pessoa... e, ao mesmo tempo, sentir-se-á esmagado pela pergunta angustiante sobre como conduzir-se com brio como agente transformador deste quadro dantesco... O grande problema é: o que fazer? O primeiro impacto face à urgência de responder à pergunta perturbadora é de atordoamento e desamparo. Mas, contextualizando historicamente o fenômeno humano e seus desdobramentos sócio-culturais, o observador atento adverte-se de que os ricos e poderosos sempre tripudiaram e, certamente, hão de continuar pisando sobre os pobres e os fracos. Esse comportamento desumano é uma secreção produzida pelo egoísmo, que corrói a solidariedade das relações humanas... não se modificará enquanto houver ricos poderosos e pobres fragilizados. Tendo em vista a magnitude do problema torna-se claro que para reparar os danos inerentes aos equívocos político-sociais e econômicos, insistentemente, reproduzidos geração após geração é necessário mobilizar todas as forças que tecem a malha social. Daí porque as iniciativas que visam a promover o comportamento solidário são difíceis de implementar... As campanhas organizadas com esse propósito se exaurem em pouco tempo por não estarem culturalmente sedimentadas em hábitos de vida, limitando-se a esforços isolados, ligados a movimentos pontuais que pretendem estimular o ideal comunitário. De qualquer modo o melhor resultado depende de mudanças pessoais. “Não se iluda, que nada muda se você não mudar.”[2]
            Obviamente, a desigualdade social milenar não será resolvida pelo esforço isolado de uma pessoa ou de um grupo. O débito social das classes favorecidas em relação aos excluídos só poderá ser resgatado pela sociedade toda num mutirão, envolvendo políticos, empresários, educadores, enfim,  todos os cidadãos válidos, unidos numa corrente de solidariedade.           Mas isto é utopia, dirão! Sem dúvida, sim. Mas utopia na qual acreditaram todos os grandes líderes espirituais da humanidade e nós próprios aspiramos a tornar realidade. O que todos precisamos saber é que crer não é simplesmente acreditar, mas, sobretudo é criar as condições para que aconteça aquilo no que acreditamos. De outra forma o nosso ideal nunca se fará realidade.             Nessa perspectiva, que cada um faça o que puder para tornar visível a solidariedade nas suas relações sociais... Como político, empresário, educador, profissional liberal, cidadão comum, cada um pode fazer muito em prol deste ideal. Basta que ao agir permaneça focado no respeito à dignidade humana, comprometido com a verdade e a justiça. Façamos, pois, o que pudermos, com objetividade e determinação. Poupemo-nos da violência de impor-nos uma responsabilidade que ultrapassa os limites pessoais, sem esquecer que “a união faz a força”.          Não adianta descabelar-se por não poder solucionar de vez e para sempre os problemas humano-sociais. Demos nossa colaboração mediante ações efetivas, sem lamentações ou registros depressivos. Em vez disso mantenhamos a mente lúcida para o passo seguinte e o façamos confiantes... “Toda caminhada começa com um primeiro passo”... Daí a importância de não retardá-lo. Nada se constrói com lamentações e explicações medrosas... É preciso agir com determinação para fazer o que se pode agora, já, na área em que militamos profissionalmente, e socialmente, sem descurar das responsabilidades de cidadão. Mas é preciso que o façamos com a confiança de quem acredita na possibilidade da vitória final. Sobrevirão momentos de fraqueza em que o desânimo ameaçará a disposição e firmeza de propósitos. Afinal estamos todos sujeitos à tentação da preguiça, da luxúria, da soberba, da ira, da avareza que desviam o foco do agente social, para os seus interesses individuais imediatos... Para superar as crises a que estamos existencialmente expostos é necessário cultivar a disciplina e a autoconfiança. São tantas as armadilhas do egoísmo humano que ameaçam, permanentemente, os ideais comunitários! Por isso é indispensável que façamos todo dia uma profissão de fé na capacidade humana de conversão à prática honesta da cooperação e da partilha. Até porque de outra forma não haverá salvação para a humanidade. Diante do risco de tornar a espécie Homo sapiens sapiens inviável, o comportamento solidário já não é apenas a virtude que enriquece um currículo de “santidade”, mas o ingrediente social indispensável para a sobrevivência do homem. Não se trata de atender a uma evocação mística, mas de responder, objetivamente, a uma constatação lógica. Esta exigência coerente com o processo evolutivo exige uma escolha, já... a prática solidária caracterizada pela cooperação e pela partilha. Se nos ativermos à análise econômica, política e social da conjuntura histórica atual, certamente, vamos deparar detalhes sórdidos que destoam dessa orientação e confundem o ativista democrático. Pior quando técnicos e administradores estão envolvidos nas falcatruas... evidencia-se, então, um impasse estrutural sem saída...são situações refratárias às soluções democráticas! Felizmente casos dessa natureza são pontuais. Afortunadamente, tanto entre os detentores do poder político, como no meio empresarial há homens honrados que procedem corretamente... Eles são o sustentáculo da ordem pública...
            O apoio nas urnas aos Políticos que têm espírito público é a forma mais radical de resolver os problemas inerentes à conquista de um Estado democrático de fato. Mas a escolha eleitoral politicamente correta envolve, necessariamente, o conhecimento dos candidatos, da sua competência e honorabilidade. Na dificuldade inerente ao acesso direto a dados biográficos confiáveis dos candidatos, os eleitores se valem das informações oferecidas pela mídia que assume, então, um papel relevante no processo de formação dos nossos quadros de legisladores e executivos públicos.
Quem estiver atento a este relato não me surpreenderá se levantar a questão da interatividade entre os políticos carreiristas, e parcelas não confiáveis do empresariado e do eleitorado. Com tristeza constata-se que esta interação se faz mais frequentemente no sentido da perpetuação da falta de decoro político social, mediante acordos de cafajestes entre as forças envolvidas no processo eleitoral. Para ganhar o apoio dos poderes constituídos e garantir vantagens econômicas, a mídia faz o jogo dos políticos vivaldinos e dos empresários desvairados pelo lucro. Os políticos cedem à pressão do lobby do poder econômico que lhes garante o financiamento da compra dos votos de eleitores venais. Nesse compasso dançam todos, ao ritmo satânico da cobiça... organizam-se, priorizando o egoísmo comum aos vários segmentos envolvidos, resumindo-se tudo a um comércio espúrio de interesses privados. No fim acabam levando vantagem o político desonesto e o empresário cobiçoso, aético... Enquanto isso, quase sempre, os eleitores conscientes ficam a ver navios, votando em candidatos desonestos, insistentemente, badalados pela mídia que usa de expedientes, simulando seriedade. Este é o ciclo vicioso das influências nefastas que subvertem o processo democrático, emperrando o verdadeiro desenvolvimento humano. O circuito destas influências fica facilitado pela ignorância e pobreza em que vivem muitos eleitores predispostos a vender o voto a um mau político por um emprego, e até por recompensas materiais desprezíveis. No conjunto, esses descalabros lesivos à Democracia criam uma situação de fato que o tempo vai sedimentando até transformar num bloco sólido monolítico de fatos concretos consumados. É difícil quebrá-lo, depois que por assim dizer se “institucionaliza” o comportamento cínico. A realidade socioeconômica vista através desta análise sucinta é tão mais trágica quanto mais resistente às tentativas de mudança. Porém, sabe-se que a rocha mais compacta, depois de muitas marretadas, acaba desmoronando a uma última, não mais vigorosa do que as anteriores. Se valer a analogia, esperamos que assim também acontecerá com o bloco aparentemente sólido da conjuntura político-social e econômica que vimos de descrever. Não será ingenuidade, portanto, insistir em ações cidadãs que visam a mudar a realidade atual no sentido da construção, contra todas as expectativas, de uma verdadeira democracia.            


[1] Indivíduos que foram deixados de fora dos recursos materiais e das conquistas sociais.
[2] Da Música “Companheiros” - Marcelo Barra, Naire e Tibério Gaspar

segunda-feira, 21 de março de 2011

O mistério do cosmo e da consciência


Big-bang, matéria e anti-matéria, bilhões de galáxias somando trilhões de estrelas com seus sistemas solares (planetas e luas), a matéria escura, a energia escura, quasares e buracos negros, Universo em expansão... Eis alguns dos fenômenos espetaculares do cosmo misterioso. Finalmente, a previsão de um fim catastrófico daqui a bilhões de anos, seguido pela criação de novos Universos. Este é o quadro estonteante da realidade que os Astrônomos e Astrofísicos nos revelam.
Nesta turbulência cósmica, o planeta Terra gira com relativa tranqüilidade, orbitando uma estrela de 5ª grandeza, na Via Láctea, uma entre bilhões de galáxias espalhadas no Universo. O astro que habitamos faz parte do sistema solar e nele ocupa espaço insignificante do cosmo, mas reúne as condições necessárias à emergência da vida que, no curso de uma Evolução caprichosa, produziu um servomecanismo biológico[1] capaz de manifestar a consciência reflexiva. Todos esses acontecimentos só foram possíveis porque dentre infinitas “possibilidades”, a Terra estava no lugar certo, no tempo certo, dentro do esquema gravitacional da nossa galáxia!... Nada impede que entre os trilhões de estrelas dos bilhões de galáxias que povoam o Universo, outros planetas tenham reproduzido as mesmas condições físico-químicas e ecológicas da Terra, podendo abrigar, também, vida inteligente. Mas no cosmo imenso, o nosso Planeta é, até agora, o único exemplo conhecido, não obstante a procura incansável dos Cientistas, munidos de poderosos telescópios e sondas espaciais programadas para o reconhecimento da existência dos nossos irmãos cósmicos. O extremo avançado da complexidade a que chegou a matéria é o servomecanismo biopsíquico que tornou possível a manifestação da inteligência consciente... um fenômeno cuja natureza transcendental[2] não se esgota, inteiramente, na organização biológica. Pela consciência reflexiva o Universo se dá conta de si mesmo como um “todo” que reúne o infinitamente grande, o infinitamente pequeno e o infinitamente complexo. Transitando entre estes infinitos, a consciência pressente a grandeza de um Todo Absoluto... Absurdo racional que abre espaço para a especulação intuitiva de um Dinamismo Absoluto (permanentemente criativo) inscrito no mundo, e na vida.
Utilizando os recursos mais sofisticados da tecnologia, a Ciência cria ambientes artificiais que reproduzem as condições geológicas do momento em que surgiu a matéria e a vida, tentando desvendar os segredos que se escondem no mundo. Mas apenas consegue arranhar a superfície da ordem por vezes incompreensível que preside a caminhada espetacular desde a matéria primitiva (desordenada), até a eclosão da consciência que exige uma organização biológica de máxima complexidade. Já não podemos dar as costas para esta saga protagonizada pela matéria no roteiro de uma “complexificação crescente”[3] que no extremo avançado da Evolução permite a manifestação da consciência reflexiva. Desta estória nos tornamos testemunhas, ou melhor seus principais atores. Quando despertamos como seres conscientes, racionais, afetivos e querentes, estamos projetando no cosmo uma epifania[4] difícil de contestar, mas impermeável à compreensão racional. Pela contingência biológica somos imanência[5], e pela consciência reflexiva somos transcendência[6]. Nada descreve melhor o que vivenciamos diante de tal realidade estonteante, do que o “sentimento do sagrado” que o Teólogo Rudolph Otto cognominou “numinoso”[7]. É este sentimento que inunda o ser consciente diante do escândalo racional de um Dinamismo Absoluto que faz surgir de sua própria imaterialidade, o “nada”(?), a matéria primitiva, atuando na sua intimidade, moldando-a até o ponto de tornar-se nela manifesto através da alma humana, “...estado divino da matéria”[8]. Um cometimento que desafia a perspicácia da razão. O homem experimenta a consciência reflexiva, porém não sabe explicá-la...
É ingênuo perguntar: por que tudo isso? A trajetória foi longa e prodigiosa, desde a matéria primitiva feita de ondas energéticas e partículas subatômicas, caoticamente desorganizadas, até a complexidade da organização biológica e a emergência, no homem, da vida inteligente e consciente... Afinal, aqui estamos e somos uma prova inconteste desta Evolução!
Diante da grandiosidade do Cosmo – do big-bang ao fim catastrófico, seguido da origem de novos Universos – todo e qualquer projeto temporal vivido pessoalmente tem a efemeridade de uma bolha de sabão que se rompe sem deixar marcas... Mas fazendo um zoom na história do homem cada “pessoa” é uma realidade ímpar, elo misterioso entre Universos diferentes...
Cercada de incertezas, racionalmente incapaz de explicar o mundo e a consciência, a alma humana assume o monólogo hipotético do próprio cosmo, personificando-o, como se, identificando-se com ele, mitigasse suas próprias dúvidas, deixando-o falar por si mesmo.
“Sinto o calor da matéria nova
ávida de ser, voluntariosa,
cinzelada à bigorna do tempo.
Ouço crepitar as partículas
Da  ígnea nebulosa original,
na lida caótica, medonha.

Nessa experiência telúrica,
sofro  mil mortes, cada segundo,
e mil renascimentos, também.
Borbulhante, a matéria incipiente
busca  sem saber, mas resoluta,
formas  diferentes de acontecer...
E sob esse tumulto, fermenta
o mistério das transformações!
Nessa forja, o princípio de tudo...

Ondas, partículas e átomos,
moléculas, macromoléculas,
tudo foi se arrumando ao seu tempo.
Num prolongamento desse arranjo
Inexplicável e caprichoso,
circulavam nos mares primitivos
complexidades inesperadas...

Deu-se, então, o salto imprevisto...
Súbito a vida irrompe viçosa,
na noite mineral penumbrosa!

Afinal, criação ou anti acaso?
Qual a distinção metafísica?

Ouço a explosão da consciência
a reboar no espaço infinito,
quebrando o silêncio atro abismal.
Ouço o verbo, finalmente, audível,                                         
bradando a liberdade insólita
no coração dos determinismos.

Sofro na carne o apelo sensual
da matéria ingênua, exigente.
Sofro n’alma o apelo do “sentido”,
despertado pela intuição
da unidade de tudo que existe.

Fecho os olhos e sinto sem querer...
A dor de ser alma, e de existir
à  sombra da contradição fatal,
vivendo a morte, na impermanência
inevitável da contingência.


Fecho os olhos e sinto abismado...
o equacionamento dos contrastes,
invisível aos olhos da razão,
sobreposto a todos os colóquios
na intimidade holística, una.

Fecho os olhos e sinto, no entanto,
cada vez mais e sempre, ameaçada
pela fugacidade de tudo...
a vida perplexa e desprotegida,
ancorada apenas na esperança...
na expectativa de um amanhã.

Abre-se a cortina e vejo afinal:
a  perplexidade embaraçosa,
a esperança desfeita em dúvidas,
o eu patético, e contraditório,
submisso ao império dos sentidos,
postulando, pretensiosamente,
ideais éticos ilibados!

Dói-me essa fatal incompetência
de abraçar, com amor, a finitude...
Sabe-me humilhante derrota
a espera passiva da morte!

Fecho os olhos e “intuo” atônito...
A verdade racional não basta
para preencher os desvãos da alma
sequiosa de amor e segurança...

Afinal, coerente, descubro...
Na gestalt pessoal convergem
a verdade, a beleza e a bondade,
prolongando o Princípio supremo
nos talentos criativos do homem.
Simples assim, e misterioso!...

Compreendo então a pura verdade!
Para transformar este mistério
Numa simples vivência intuitiva,
bastará que a razão, genuflexa,
renda-se ao absoluto intangível,
princípio e fim de tudo que existe,
que pulsa no tempo feito vida.
            Essa humildade liberta a alma dos equívocos maniqueístas integrando-a, com todas as consciências individuais, na unidade da Consciência Universal. Fascinado pelo mistério do Cosmo e da consciência, deponho a ousadia intelectual e me rendo à intuição singela de uma verdade de fé – um “Princípio absoluto” – origem meio e fim de tudo quanto existe. Ou isso ou o mergulho no estoicismo niilista, num sono eterno, sem sonhos. Fico mais à vontade aderindo à primeira opção.
           
  Everaldo Lopes


[1] Sistema Nervoso Central, sobretudo o córtex cerebral.
[2] Para observar-se e criticar-se, o ser consciente precisa sair de si (ultrapassar-se) sem desgarrar-se do seu núcleo pensante.
[3] Teilhard de Chardin – “O Fenômeno Humano”
[4]Aparecimento ou manifestação reveladora de qualquer divindade. Dic. De Houaiss
[5] Atributo do que é inerente ao mundo concreto e material, à natureza
[6] A capacidade de ultrapassar o real concreto ( imanência)  é a natureza íntima da consciência.
[7]  Segundo Rudolf Otto (1869-1927), teólogo e filósofo alemão, o sentimento único vivido na experiência religiosa, a experiência do sagrado, em que se confundem a fascinação, o terror e o aniquilamento.  Aurélio Sec. XXI.
[8] Raul de Leoni  do poema “De um fantasma”