terça-feira, 5 de abril de 2011

Uma palavra de estímulo



            O sofrimento dos “excluídos”[1] numa sociedade injusta  suscita desolação e um sentimento incômodo de impotência. Não se avistam indicadores que justifiquem a expectativa da solução cabal dos problemas que afligem grandes massas humanas famintas, doentes, analfabetas, sem teto, sem emprego, sem renda. Enquanto prevalece a corrupção política despudorada, e a competição aética no mundo dos negócios com prejuízo para uma maioria de consumidores mal assistidos e explorados. É escandalosa a diferença do padrão de vida entre os que têm muito e os que nada têm. Qualquer ser humano com um mínimo de sensibilidade ficará indignado diante do panorama deprimente no qual se desenham as injustiças e os crimes praticados contra a pessoa... e, ao mesmo tempo, sentir-se-á esmagado pela pergunta angustiante sobre como conduzir-se com brio como agente transformador deste quadro dantesco... O grande problema é: o que fazer? O primeiro impacto face à urgência de responder à pergunta perturbadora é de atordoamento e desamparo. Mas, contextualizando historicamente o fenômeno humano e seus desdobramentos sócio-culturais, o observador atento adverte-se de que os ricos e poderosos sempre tripudiaram e, certamente, hão de continuar pisando sobre os pobres e os fracos. Esse comportamento desumano é uma secreção produzida pelo egoísmo, que corrói a solidariedade das relações humanas... não se modificará enquanto houver ricos poderosos e pobres fragilizados. Tendo em vista a magnitude do problema torna-se claro que para reparar os danos inerentes aos equívocos político-sociais e econômicos, insistentemente, reproduzidos geração após geração é necessário mobilizar todas as forças que tecem a malha social. Daí porque as iniciativas que visam a promover o comportamento solidário são difíceis de implementar... As campanhas organizadas com esse propósito se exaurem em pouco tempo por não estarem culturalmente sedimentadas em hábitos de vida, limitando-se a esforços isolados, ligados a movimentos pontuais que pretendem estimular o ideal comunitário. De qualquer modo o melhor resultado depende de mudanças pessoais. “Não se iluda, que nada muda se você não mudar.”[2]
            Obviamente, a desigualdade social milenar não será resolvida pelo esforço isolado de uma pessoa ou de um grupo. O débito social das classes favorecidas em relação aos excluídos só poderá ser resgatado pela sociedade toda num mutirão, envolvendo políticos, empresários, educadores, enfim,  todos os cidadãos válidos, unidos numa corrente de solidariedade.           Mas isto é utopia, dirão! Sem dúvida, sim. Mas utopia na qual acreditaram todos os grandes líderes espirituais da humanidade e nós próprios aspiramos a tornar realidade. O que todos precisamos saber é que crer não é simplesmente acreditar, mas, sobretudo é criar as condições para que aconteça aquilo no que acreditamos. De outra forma o nosso ideal nunca se fará realidade.             Nessa perspectiva, que cada um faça o que puder para tornar visível a solidariedade nas suas relações sociais... Como político, empresário, educador, profissional liberal, cidadão comum, cada um pode fazer muito em prol deste ideal. Basta que ao agir permaneça focado no respeito à dignidade humana, comprometido com a verdade e a justiça. Façamos, pois, o que pudermos, com objetividade e determinação. Poupemo-nos da violência de impor-nos uma responsabilidade que ultrapassa os limites pessoais, sem esquecer que “a união faz a força”.          Não adianta descabelar-se por não poder solucionar de vez e para sempre os problemas humano-sociais. Demos nossa colaboração mediante ações efetivas, sem lamentações ou registros depressivos. Em vez disso mantenhamos a mente lúcida para o passo seguinte e o façamos confiantes... “Toda caminhada começa com um primeiro passo”... Daí a importância de não retardá-lo. Nada se constrói com lamentações e explicações medrosas... É preciso agir com determinação para fazer o que se pode agora, já, na área em que militamos profissionalmente, e socialmente, sem descurar das responsabilidades de cidadão. Mas é preciso que o façamos com a confiança de quem acredita na possibilidade da vitória final. Sobrevirão momentos de fraqueza em que o desânimo ameaçará a disposição e firmeza de propósitos. Afinal estamos todos sujeitos à tentação da preguiça, da luxúria, da soberba, da ira, da avareza que desviam o foco do agente social, para os seus interesses individuais imediatos... Para superar as crises a que estamos existencialmente expostos é necessário cultivar a disciplina e a autoconfiança. São tantas as armadilhas do egoísmo humano que ameaçam, permanentemente, os ideais comunitários! Por isso é indispensável que façamos todo dia uma profissão de fé na capacidade humana de conversão à prática honesta da cooperação e da partilha. Até porque de outra forma não haverá salvação para a humanidade. Diante do risco de tornar a espécie Homo sapiens sapiens inviável, o comportamento solidário já não é apenas a virtude que enriquece um currículo de “santidade”, mas o ingrediente social indispensável para a sobrevivência do homem. Não se trata de atender a uma evocação mística, mas de responder, objetivamente, a uma constatação lógica. Esta exigência coerente com o processo evolutivo exige uma escolha, já... a prática solidária caracterizada pela cooperação e pela partilha. Se nos ativermos à análise econômica, política e social da conjuntura histórica atual, certamente, vamos deparar detalhes sórdidos que destoam dessa orientação e confundem o ativista democrático. Pior quando técnicos e administradores estão envolvidos nas falcatruas... evidencia-se, então, um impasse estrutural sem saída...são situações refratárias às soluções democráticas! Felizmente casos dessa natureza são pontuais. Afortunadamente, tanto entre os detentores do poder político, como no meio empresarial há homens honrados que procedem corretamente... Eles são o sustentáculo da ordem pública...
            O apoio nas urnas aos Políticos que têm espírito público é a forma mais radical de resolver os problemas inerentes à conquista de um Estado democrático de fato. Mas a escolha eleitoral politicamente correta envolve, necessariamente, o conhecimento dos candidatos, da sua competência e honorabilidade. Na dificuldade inerente ao acesso direto a dados biográficos confiáveis dos candidatos, os eleitores se valem das informações oferecidas pela mídia que assume, então, um papel relevante no processo de formação dos nossos quadros de legisladores e executivos públicos.
Quem estiver atento a este relato não me surpreenderá se levantar a questão da interatividade entre os políticos carreiristas, e parcelas não confiáveis do empresariado e do eleitorado. Com tristeza constata-se que esta interação se faz mais frequentemente no sentido da perpetuação da falta de decoro político social, mediante acordos de cafajestes entre as forças envolvidas no processo eleitoral. Para ganhar o apoio dos poderes constituídos e garantir vantagens econômicas, a mídia faz o jogo dos políticos vivaldinos e dos empresários desvairados pelo lucro. Os políticos cedem à pressão do lobby do poder econômico que lhes garante o financiamento da compra dos votos de eleitores venais. Nesse compasso dançam todos, ao ritmo satânico da cobiça... organizam-se, priorizando o egoísmo comum aos vários segmentos envolvidos, resumindo-se tudo a um comércio espúrio de interesses privados. No fim acabam levando vantagem o político desonesto e o empresário cobiçoso, aético... Enquanto isso, quase sempre, os eleitores conscientes ficam a ver navios, votando em candidatos desonestos, insistentemente, badalados pela mídia que usa de expedientes, simulando seriedade. Este é o ciclo vicioso das influências nefastas que subvertem o processo democrático, emperrando o verdadeiro desenvolvimento humano. O circuito destas influências fica facilitado pela ignorância e pobreza em que vivem muitos eleitores predispostos a vender o voto a um mau político por um emprego, e até por recompensas materiais desprezíveis. No conjunto, esses descalabros lesivos à Democracia criam uma situação de fato que o tempo vai sedimentando até transformar num bloco sólido monolítico de fatos concretos consumados. É difícil quebrá-lo, depois que por assim dizer se “institucionaliza” o comportamento cínico. A realidade socioeconômica vista através desta análise sucinta é tão mais trágica quanto mais resistente às tentativas de mudança. Porém, sabe-se que a rocha mais compacta, depois de muitas marretadas, acaba desmoronando a uma última, não mais vigorosa do que as anteriores. Se valer a analogia, esperamos que assim também acontecerá com o bloco aparentemente sólido da conjuntura político-social e econômica que vimos de descrever. Não será ingenuidade, portanto, insistir em ações cidadãs que visam a mudar a realidade atual no sentido da construção, contra todas as expectativas, de uma verdadeira democracia.            


[1] Indivíduos que foram deixados de fora dos recursos materiais e das conquistas sociais.
[2] Da Música “Companheiros” - Marcelo Barra, Naire e Tibério Gaspar

segunda-feira, 21 de março de 2011

O mistério do cosmo e da consciência


Big-bang, matéria e anti-matéria, bilhões de galáxias somando trilhões de estrelas com seus sistemas solares (planetas e luas), a matéria escura, a energia escura, quasares e buracos negros, Universo em expansão... Eis alguns dos fenômenos espetaculares do cosmo misterioso. Finalmente, a previsão de um fim catastrófico daqui a bilhões de anos, seguido pela criação de novos Universos. Este é o quadro estonteante da realidade que os Astrônomos e Astrofísicos nos revelam.
Nesta turbulência cósmica, o planeta Terra gira com relativa tranqüilidade, orbitando uma estrela de 5ª grandeza, na Via Láctea, uma entre bilhões de galáxias espalhadas no Universo. O astro que habitamos faz parte do sistema solar e nele ocupa espaço insignificante do cosmo, mas reúne as condições necessárias à emergência da vida que, no curso de uma Evolução caprichosa, produziu um servomecanismo biológico[1] capaz de manifestar a consciência reflexiva. Todos esses acontecimentos só foram possíveis porque dentre infinitas “possibilidades”, a Terra estava no lugar certo, no tempo certo, dentro do esquema gravitacional da nossa galáxia!... Nada impede que entre os trilhões de estrelas dos bilhões de galáxias que povoam o Universo, outros planetas tenham reproduzido as mesmas condições físico-químicas e ecológicas da Terra, podendo abrigar, também, vida inteligente. Mas no cosmo imenso, o nosso Planeta é, até agora, o único exemplo conhecido, não obstante a procura incansável dos Cientistas, munidos de poderosos telescópios e sondas espaciais programadas para o reconhecimento da existência dos nossos irmãos cósmicos. O extremo avançado da complexidade a que chegou a matéria é o servomecanismo biopsíquico que tornou possível a manifestação da inteligência consciente... um fenômeno cuja natureza transcendental[2] não se esgota, inteiramente, na organização biológica. Pela consciência reflexiva o Universo se dá conta de si mesmo como um “todo” que reúne o infinitamente grande, o infinitamente pequeno e o infinitamente complexo. Transitando entre estes infinitos, a consciência pressente a grandeza de um Todo Absoluto... Absurdo racional que abre espaço para a especulação intuitiva de um Dinamismo Absoluto (permanentemente criativo) inscrito no mundo, e na vida.
Utilizando os recursos mais sofisticados da tecnologia, a Ciência cria ambientes artificiais que reproduzem as condições geológicas do momento em que surgiu a matéria e a vida, tentando desvendar os segredos que se escondem no mundo. Mas apenas consegue arranhar a superfície da ordem por vezes incompreensível que preside a caminhada espetacular desde a matéria primitiva (desordenada), até a eclosão da consciência que exige uma organização biológica de máxima complexidade. Já não podemos dar as costas para esta saga protagonizada pela matéria no roteiro de uma “complexificação crescente”[3] que no extremo avançado da Evolução permite a manifestação da consciência reflexiva. Desta estória nos tornamos testemunhas, ou melhor seus principais atores. Quando despertamos como seres conscientes, racionais, afetivos e querentes, estamos projetando no cosmo uma epifania[4] difícil de contestar, mas impermeável à compreensão racional. Pela contingência biológica somos imanência[5], e pela consciência reflexiva somos transcendência[6]. Nada descreve melhor o que vivenciamos diante de tal realidade estonteante, do que o “sentimento do sagrado” que o Teólogo Rudolph Otto cognominou “numinoso”[7]. É este sentimento que inunda o ser consciente diante do escândalo racional de um Dinamismo Absoluto que faz surgir de sua própria imaterialidade, o “nada”(?), a matéria primitiva, atuando na sua intimidade, moldando-a até o ponto de tornar-se nela manifesto através da alma humana, “...estado divino da matéria”[8]. Um cometimento que desafia a perspicácia da razão. O homem experimenta a consciência reflexiva, porém não sabe explicá-la...
É ingênuo perguntar: por que tudo isso? A trajetória foi longa e prodigiosa, desde a matéria primitiva feita de ondas energéticas e partículas subatômicas, caoticamente desorganizadas, até a complexidade da organização biológica e a emergência, no homem, da vida inteligente e consciente... Afinal, aqui estamos e somos uma prova inconteste desta Evolução!
Diante da grandiosidade do Cosmo – do big-bang ao fim catastrófico, seguido da origem de novos Universos – todo e qualquer projeto temporal vivido pessoalmente tem a efemeridade de uma bolha de sabão que se rompe sem deixar marcas... Mas fazendo um zoom na história do homem cada “pessoa” é uma realidade ímpar, elo misterioso entre Universos diferentes...
Cercada de incertezas, racionalmente incapaz de explicar o mundo e a consciência, a alma humana assume o monólogo hipotético do próprio cosmo, personificando-o, como se, identificando-se com ele, mitigasse suas próprias dúvidas, deixando-o falar por si mesmo.
“Sinto o calor da matéria nova
ávida de ser, voluntariosa,
cinzelada à bigorna do tempo.
Ouço crepitar as partículas
Da  ígnea nebulosa original,
na lida caótica, medonha.

Nessa experiência telúrica,
sofro  mil mortes, cada segundo,
e mil renascimentos, também.
Borbulhante, a matéria incipiente
busca  sem saber, mas resoluta,
formas  diferentes de acontecer...
E sob esse tumulto, fermenta
o mistério das transformações!
Nessa forja, o princípio de tudo...

Ondas, partículas e átomos,
moléculas, macromoléculas,
tudo foi se arrumando ao seu tempo.
Num prolongamento desse arranjo
Inexplicável e caprichoso,
circulavam nos mares primitivos
complexidades inesperadas...

Deu-se, então, o salto imprevisto...
Súbito a vida irrompe viçosa,
na noite mineral penumbrosa!

Afinal, criação ou anti acaso?
Qual a distinção metafísica?

Ouço a explosão da consciência
a reboar no espaço infinito,
quebrando o silêncio atro abismal.
Ouço o verbo, finalmente, audível,                                         
bradando a liberdade insólita
no coração dos determinismos.

Sofro na carne o apelo sensual
da matéria ingênua, exigente.
Sofro n’alma o apelo do “sentido”,
despertado pela intuição
da unidade de tudo que existe.

Fecho os olhos e sinto sem querer...
A dor de ser alma, e de existir
à  sombra da contradição fatal,
vivendo a morte, na impermanência
inevitável da contingência.


Fecho os olhos e sinto abismado...
o equacionamento dos contrastes,
invisível aos olhos da razão,
sobreposto a todos os colóquios
na intimidade holística, una.

Fecho os olhos e sinto, no entanto,
cada vez mais e sempre, ameaçada
pela fugacidade de tudo...
a vida perplexa e desprotegida,
ancorada apenas na esperança...
na expectativa de um amanhã.

Abre-se a cortina e vejo afinal:
a  perplexidade embaraçosa,
a esperança desfeita em dúvidas,
o eu patético, e contraditório,
submisso ao império dos sentidos,
postulando, pretensiosamente,
ideais éticos ilibados!

Dói-me essa fatal incompetência
de abraçar, com amor, a finitude...
Sabe-me humilhante derrota
a espera passiva da morte!

Fecho os olhos e “intuo” atônito...
A verdade racional não basta
para preencher os desvãos da alma
sequiosa de amor e segurança...

Afinal, coerente, descubro...
Na gestalt pessoal convergem
a verdade, a beleza e a bondade,
prolongando o Princípio supremo
nos talentos criativos do homem.
Simples assim, e misterioso!...

Compreendo então a pura verdade!
Para transformar este mistério
Numa simples vivência intuitiva,
bastará que a razão, genuflexa,
renda-se ao absoluto intangível,
princípio e fim de tudo que existe,
que pulsa no tempo feito vida.
            Essa humildade liberta a alma dos equívocos maniqueístas integrando-a, com todas as consciências individuais, na unidade da Consciência Universal. Fascinado pelo mistério do Cosmo e da consciência, deponho a ousadia intelectual e me rendo à intuição singela de uma verdade de fé – um “Princípio absoluto” – origem meio e fim de tudo quanto existe. Ou isso ou o mergulho no estoicismo niilista, num sono eterno, sem sonhos. Fico mais à vontade aderindo à primeira opção.
           
  Everaldo Lopes


[1] Sistema Nervoso Central, sobretudo o córtex cerebral.
[2] Para observar-se e criticar-se, o ser consciente precisa sair de si (ultrapassar-se) sem desgarrar-se do seu núcleo pensante.
[3] Teilhard de Chardin – “O Fenômeno Humano”
[4]Aparecimento ou manifestação reveladora de qualquer divindade. Dic. De Houaiss
[5] Atributo do que é inerente ao mundo concreto e material, à natureza
[6] A capacidade de ultrapassar o real concreto ( imanência)  é a natureza íntima da consciência.
[7]  Segundo Rudolf Otto (1869-1927), teólogo e filósofo alemão, o sentimento único vivido na experiência religiosa, a experiência do sagrado, em que se confundem a fascinação, o terror e o aniquilamento.  Aurélio Sec. XXI.
[8] Raul de Leoni  do poema “De um fantasma”

segunda-feira, 14 de março de 2011

Ato Médico - uma breve história


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Médico à moda antiga, confirmei em cinqüenta e quatro anos de profissão, o que sempre soube: a anamnese[1] contribui com pelo menos 50% de subsídios para o diagnóstico; a boa relação médico / paciente é o fator mais importante no processo de cura; para resguardar as virtudes hipocráticas, o respeito à vida deve permear todas as ações inerentes à atividade médica. Esses conceitos básicos continuam de pé, mas têm sido esquecidos. Esquecimento que desfigura a excelência do exercício da Medicina. A compaixão e a empatia associadas à missão de cuidar do enfermo são vistas, hoje, como virtudes românticas pelos que massificam a prática médica, principalmente, na rede pública de assistência. Sem a disposição de personalizar o cuidado com o paciente, em respeito à dignidade da pessoa humana que ele personifica, o exercício da Medicina fica desfigurado. Sob a influência desse descompromisso em relação à responsabilidade inerente ao ato médico desenvolvem-se práticas incompetentes, deformando-se a postura do médico diante do paciente.
É fácil constatar que a humanidade toda está passando por uma crise ética. Basta olhar como caminha o mundo, hoje, afogado na corrupção e na violência. Mas quando esse relaxamento moral afeta atividades nobres como o exercício da Medicina e o Sacerdócio Religioso provoca grande indignação.  Por isso, em nossos dias, nenhum abalo moral é mais escandaloso do que o desvirtuamento do ethos médico e do comportamento exemplar dos pastores de almas.
É notório que o comportamento capitalista legitima a competição e o acúmulo de bens materiais como procedimentos defensáveis e desejáveis. A flexibilidade moral implícita nos comportamentos político, social e econômico, vigentes no sistema despreza, insidiosamente, a ética e premia a esperteza. Este quadro está rascunhando um capítulo negro na História da Humanidade. Nesse contexto, o progresso da Ciência e da Tecnologia aumenta cada dia a eficácia técnica da assistência médica, mas, ao mesmo tempo encarece os procedimentos, impedindo que deles se beneficiem todos os pacientes. O custo assistencial passou a ser fator decisivo na prestação dos serviços médicos! É de lamentar que se tenha perdido o controle dessa situação, principalmente, no setor público, com repercussão perniciosa para a assistência aos que dependem, entre nós, exclusivamente, do Sistema Único de Saúde (SUS).
Paralelamente, o achatamento da classe média, decorrente de uma política econômica excludente torna a assistência médica proibitiva para uma fatia maior da população. Só os ricos podem arcar com o custo de um tratamento médico, quanto mais complexo mais caro. Disso se aproveitam as instituições financeiras que administram os assim chamados Planos de Saúde, com vistas ao lucro embutido nas prestações antecipadamente pagas pelos segurados para garantirem-se assistência médica quando lhes sobrevier, eventualmente, uma doença. Esta atividade “empresarial”, como sabemos, movimenta grande quantidade de dinheiro, tornando-se apetitoso o ágio cobiçado. E logo se multiplicaram os Planos de Saúde. Mas eles introduziram mudanças traiçoeiras na relação entre o médico e o paciente. O acordo de trabalho até então autônomo entre o paciente e seu médico passou a ser intermediado pelas operadoras dos Planos de Saúde, instituições necessariamente burocráticas que, por sua própria natureza exigem do médico obediência a critérios administrativos impessoais. Ao intermediar este contrato de trabalho, as “Operadoras” se insinuam, inevitavelmente, como agentes dominantes do processo. Por um mecanismo psicológico fácil de entender, o paciente que paga antecipada e pontualmente mensalidades polpudas, sente-se de alguma forma com direitos adquiridos. Antes, diante do seu médico sentia respeito e confiança, agora, além disso, sente-se um pouquinho “patrão”, também. Por outro lado, o médico se obriga a aceitar as tabelas e normas propostas pelos Planos de Saúde, para garantir-se uma clientela, criando assim um vínculo de dependência que lhe impõe alguma restrição à total autonomia.
Com o fim de fugir do determinismo sócio-econômico pelo qual o trabalho médico entra no circuito assistencial como mercadoria sobre a qual  o capital anônimo contabiliza lucros, faz mais de 40 anos, criaram-se as UNIMEDs (União de Médicos) no Brasil. A idéia central é que essas Cooperativas de médicos libertam o facultativo da exploração de terceiros, passando o cooperado a gerir a recompensa de sua própria atividade profissional... O que é uma conquista revigorante da autonomia do Médico no exercício do seu ofício. Mas, como era de esperar, as UNIMEDs cresceram, passaram a movimentar milhões de reais e para tanto tiveram que se organizar, burocraticamente, como qualquer plano privado de saúde, sustentável. Obviamente, Isso tem um custo operacional que não é pequeno. Tal como as coisas estão postas, o segurado da UNIMED recebe assistência médica mediante pagamento mensal de um montante variável, de acordo com o tipo do plano escolhido. E o médico cooperado recebe a sua produção calculada em unidades de serviço. O cálculo desta unidade é feito sobre o saldo de toda arrecadação da Cooperativa depois de efetuado o pagamento aos fornecedores, de descontado o custo operacional da máquina burocrática, e de ser contemplado com quota prefixada, um fundo de reserva destinado a cobrir as variações da arrecadação, tendo em vista os gastos fixos da Cooperativa. Em verdade, o que sobra para o rateio com os cooperados é sempre muito pouco. Mesmo assim, a Cooperativa é uma alternativa para o médico, visando a libertar o seu trabalho da condição de mercadoria comercializada, lucrativamente, pelo “capital anônimo”. Todavia a relação médico-paciente continua ressentindo-se de uma intermediação indesejável, por força da burocracia indispensável... afinal, a UNIMED também é um  Plano de Saúde!
Não estamos aqui apreciando um problema local, brasileiro, apenas, mas é todo mundo médico que está vivendo as conseqüências da evolução inexorável da tecnologia, e da deplorável distribuição irregular de renda. Esses fatores, o técnico científico e o econômico social acabam influindo, direta ou indiretamente, na qualidade e distribuição da assistência médica. Esgarçado o vínculo ético dos que praticam a medicina e atividades afins, abrem-se caminhos tortuosos visando vantagens materiais na prestação da assistência à saúde. Lamentavelmente, quando descomprometido com as virtudes hipocráticas, o agente de saúde, sem a devida formação moral, encontra facilidade para fazer do seu métier uma atividade “comercial”. Não queremos generalizar, e aproveito o ensejo para homenagear os verdadeiros discípulos de Hipócrates que ainda são maioria. Mas  tudo só tende a piorar na medida em que proliferam as diplomações de graduandos em cursos médicos de baixa qualidade técnica (salvo honrosas exceções), mantidos pela iniciativa privada que, via de regra, visa, prioritariamente, o lucro financeiro.
Gostaria de concluir este texto mostrando uma luz no fim do túnel ou seja, uma perspectiva otimista que garantisse expectativa favorável à promoção de assistência médica de boa qualidade para todos. Mas os indicadores disponíveis não apontam para este desfecho a curto ou médio prazo.
Espero que as novas gerações, com mais fôlego, hão de encontrar os caminhos para uma sociedade justa e solidária, implementando política sócio econômica capaz de propiciar assistência médica de boa qualidade, para todos, indistintamente. Certamente isso não ocorrerá sem profundas mudanças culturais. É oportuno lembrar que a raiz do mal está nos paradigmas sociais e econômicos vigentes, que reforçam a cobiça do homem envolvido num processo competitivo que visa a “ter mais”, em detrimento do ideal de “ser mais”[2]. Estas orientações definem alternativas do comportamento humano que fazem toda diferença nos desdobramentos da organização social. E todos sabemos qual a repercussão social da competição aética orientada no sentido de “ter mais”... Orientação que desfavorece a distribuição equitativa dos bens entre os indivíduos, e incide brutalmente na qualidade de vida das populações economicamente excluídas, complicando ainda mais os problemas de saúde pública, e dificultando a assistência médica universal de excelência.
                                   Everaldo Lopes



[1]   Informação acerca do princípio e evolução sintomática de uma doença até a primeira consulta com o médico.  
[2] Erich Fromm

quinta-feira, 3 de março de 2011

A norma e a exceção



A atividade prática absorve a maioria dos homens na luta pela sobrevivência, ou no afã de satisfazer o desejo de riqueza e de poder. Muitos não têm consciência de suas inquietações transcendentais... embora as vivam como superstições ou alguma prática religiosa primária. Não os afetam, explicitamente, questões teóricas, seja no campo da lógica, da ética ou da estética. Acomodam-se aos modelos culturais vigentes, preocupados tão somente com problemas de ordem prática, relacionados a interesses imediatos. Tendo em vista o comprometimento pessoal com a realidade, para alguns as situações problemáticas criadas no vir a ser existencial têm o matiz de tragédia; para outros elas se revestem de um colorido cômico; outros, ainda, as vivem sem analisá-las, repetindo a mesmice dos modelos consagrados pela tradição. Os que têm uma visão trágica do mundo transformam seu problema existencial em dilema e se condenam a suportar o rigor de uma realidade indesejável e fatal... aceitam, estoicamente, um carma de sofrimento, em vez de empenharem-se, corajosamente, na tarefa demiúrgica de reescrever seu próprio script... faltam-lhes criatividade e coragem de assumir responsabilidades inerentes a projetos existenciais mais arrojados. Os que têm uma propensão a enxergar o ridículo de situações psicossociais extravagantes que fazem rir, são mais perspicazes... percebem a comicidade de lances embaraçosos... e acabam rindo e fazendo rir das limitações humanas, sem talento, todavia, para ultrapassá-las. Finalmente os que são acólitos fiéis do “sistema”, entregam-se ao esforço de adaptação aos cânones vigentes, sem discussão. Neste afã se perdem da própria originalidade e, consciente ou inconscientemente, praticam certo cinismo pragmático... neste viés comportamental importa mais parecer do que ser. Assim caminham seres dotados de livre arbítrio, que desperdiçam seu potencial criativo, desfilando comportamentos padronizados. Perdidos em perplexidades eles se exaurem nas tentativas vãs de auto-afirmação pelo imediatismo sensual, necessariamente, egoísta e utilitário, e não conseguem “ancorar” a “existência” num ideal que lhe dê sentido.  Todos acomodados com práticas rotineiras, longe do risco da criação do “novo”. Sem espiritualidade, a necessidade de “transcender” fica reduzida a demandas da ordem do “ter”. Na correria do consumismo inconsequente, a satisfação destas demandas estruturadas num nível imediatista utilitário e sensual não preenche o vazio existencial. Tudo é artigo de consumo... bens materiais, fast-food, barzinhos e boates, sexo, amizades e até, contraditoriamente, as verdades de fé inerentes ao mundo do “ser”. Com certeza, “ter mais” é o que pretendem alcançar os que fazem a “norma”. Até mesmo quando tentam incorporar um comportamento “religioso” buscam, equivocadamente, “ter” as virtudes almejadas, e por isso não conseguem “ser” virtuosos. Em geral o consumista caminha inconformado com o próprio destino, sem um ancoradouro interior para o seu sentimento de “ser” pessoa. A “norma” é uma coletividade de indivíduos assim bitolados. A criatividade a determinação, a inventividade e o arrojo empreendedor decisivos para o progresso científico e tecnológico, por si sós, podem até enriquecê-los materialmente, porém não enaltecem os ideais superiores da “existência”.[1] Só o modo “ser de existir”[2] resgata o homem da tirania do egoísmo imediatista, abrindo-lhe o caminho para a realização pessoal mediante a prática da solidariedade comunitária. O homem só se realiza como pessoa na interação com os outros... este é o modo “ser de existir”... a base de uma sociedade centrada em pessoas, e não em coisas.
De longe em longe indivíduos privilegiados enxergam além do horizonte da “norma”... eles constituem as “exceções”. Homens talentosos e corajosos capazes de reescrever as diretrizes culturalmente normatizadas. Cientistas, Políticos reformadores, Educadores inovadores, Inventores originais, Místicos e, sobretudo, Artistas, descortinando horizontes novos forçam mudanças, provocando instabilidade social transitória inerente ao “passo” cultural para patamares evolutivos superiores.
O Artista, por sua sensibilidade invulgar constitui um grupo à parte...  ele têm um lugar peculiar, dentro do concerto social. Para o Artista o ideal é captar e representar a essência das coisas. Nesta perspectiva sonha com a obra prima, fruto de sua criatividade... ideal que se configura no desejo de apreender a essência e a beleza do mundo, dos homens, do “ser”.  Nesta busca incansável, sua alma é um turbilhão de imagens, símbolos, formas, cores e sons onde a inspiração vai colher a matéria prima para exprimir intuições sutis. A perfeição que ele persegue faz contra ponto com o torturante sentimento da incapacidade de transmitir a unidade harmônica vislumbrada por trás da realidade fenomênica que se exprime em contrastes. Avoluma-se, então, no espírito do Artista o anseio irreprimível e transbordante de revelar esta unidade harmoniosa, através da sua pena, do pincel, do cinzel, ou trabalhando a escala musical, e até o próprio corpo numa coreografia. Para ele se torna, desde então, imperioso escrever, pintar, cinzelar, compor, tocar, representar, dançar... e muitas vezes sua criação se aproxima do ideal perseguido. É o momento de glória do Artista. É tão intensa a experiência do ideal estético que, por mais perfeitas que fossem a poesia, a tela, a escultura, a composição musical, a performance interpretativa vocal ou instrumental, a coreografia, o Artista ainda não teria conseguido dizer tudo sobre sua intuição do belo inefável. E assim, a beleza deslumbrante aos olhos e ouvidos dos demais lhe parece ainda pobre diante do projeto original concebido por sua sensibilidade refinada. “Por que não falas?” Disse Michelangelo, “transtornado”, ao seu Moisés - escultura de beleza estética deslumbrante. Esta é a angústia do Artista... a de não poder ultrapassar os próprios limites e, todavia, sentir-se obrigado por uma força interior que o domina, a tentar alcançar a meta inalcançável. Suponho que a propalada arrogância do artista é mais uma explosão da sua revolta face à “incapacidade” de transmitir a harmonia escondida no seu mundo de possibilidades infinitas.
Livre de preocupações grosseiras, o Artista se doa ao seu trabalho, tendo em vista melhorar a própria performance, sonhando com poder revelar seu mundo invisível... Os Artistas se comprazem com o entusiasmo criativo! Empolgados pela inventividade, concebem o novo, e esta vivência os projeta nas culminâncias de uma experiência viva de liberdade... a liberdade do criador. Acho que há um pouco do Artista em cada indivíduo que se transcende, criativamente, em busca de algo além do imediatismo prático da “norma” estabelecida. 
Mas tudo tem seu lugar e significado na dinâmica de um mundo holístico, perfeito. Os homens comuns, os que seguem a “norma” garantem a estabilidade social, por tenderem a repetir o passado. Os que veem além da “norma”, os “excepcionais”, é que fazem a diferença no curso da História da Humanidade. A “tradição” e a “novidade”, respectivamente, a “norma” e a “exceção” rivalizam, mas se necessitam, no processo histórico, para fazer andar o trem da Evolução sem descarrilar. Não há um equilíbrio mensurável entre a “instabilidade” criativa da exceção e a “solidez” conservadora da “norma”. Os homens criativos, inventores, reformadores, Inspirados, paladinos das Artes vão à frente, rasgando horizontes novos, enquanto os normais garantem a estabilidade necessária à vida social. É assim que a Evolução tem caminhado depois do advento da consciência. As conquistas excepcionais construídas com talento e genialidade só são culturalmente absorvidas pela “norma” depois de um processo psicossocial longo e por vezes doloroso...
            Se existissem óculos especiais para tornar visível o brilho dos espíritos iluminados por seus dons “excepcionais”, certamente veríamos no cortejo humano, ao longo do tempo, pontinhos luminosos espalhados e distantes um dos outros. Os gênios e os talentos excepcionais acontecem raramente, e deixam marcas culturais emblemáticas no século em que viveram.
            Extrapolando as consequências evolutivas da “norma” e da “exceção” é forçoso reconhecer que um mundo só de “Artistas” seria caótico; mas um mundo só de homens comuns (normais) seria apático e enfadonho. Seguramente, a “norma” sem as “exceções” faria da história humana uma terrível monotonia, por sua mesmice repetitiva; mas as “exceções” sem a “norma” atropelariam a caminhada histórica pela incapacidade de promoverem uma organização social minimamente estável e coerente.
Everaldo Lopes    
           


[1] Modo de ser próprio do homem.
[2]Erich Fromm. Consulte o livro “Ter e Ser”

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Monologando


Viver o rigor comportamental que me imponho, por formação, é uma chatice! Não me dou sequer uma “toleranciazinha”! Tenho que levar tudo a sério... tomando como premissa irrevogável que a verdade, este ideal fugidio, está acima de tudo. Isso num mundo em que os mentirosos pintam e bordam, tirando vantagem das inverdades que tramam com mestria... Com esse timbre pessoal carrego o fardo de abominar as cavilações e imposturas sem poder desmascará-las todas como desejara. E o pior é que muitas vezes elas não passam de estratégias de sobrevivência, ingenuamente, pérfidas!... É isso mesmo... o equivalente à perfídia praticada por crianças psicologicamente desamparadas, como um mecanismo de defesa... E, ao perceber a mentira ardilosa, depois do primeiro impacto, o sentimento que seus protagonistas me despertam é de compaixão. Resultado... de frustração em frustração fui me fechando em mim mesmo. Convencido de que não posso consertar o mundo, não reneguei, todavia, a minha responsabilidade no processo cultural em que estou envolvido. Para justificar as exigências comportamentais que me imponho passei a defender a tese que o exemplo de seriedade e probidade contribui, didaticamente, para a salvação da humanidade! Todavia, esta tese, politicamente correta, soa ingênua porque conta com a adesão espontânea das pessoas ao esforço comum para assimilar o bom exemplo contra as tendências atávicas egóicas... Enfim, agarrei-me à idéia de levar adiante a missão que me impus, dando testemunho da minha visão de mundo e do lugar que nela ocupo. Inicialmente, tomei como ponto de partida a diferença específica do homem, a condição de um ser consciente. E passei a filosofar sobre as conseqüências que dimanam do, e são inerentes ao exercício da consciência. Enquanto especulava sobre a existência[1] mergulhei em cogitações místicas. Visitei muitas fontes científicas e filosóficas do saber... Encontrei respaldo especulativo e científico (indiretamente) para um posicionamento místico... Até que, outro dia, um amigo de muitas décadas que se diz agnóstico, me falou, literalmente, com a intimidade que a longa amizade nos permite, ser o meu “misticismo chué originário do medo da morte”. Resolvi então investigar, tirar essa estória a limpo para meu próprio conhecimento. Fiel ao princípio de verdade que tomei como paradigma existencial, preciso ser transparente para mim mesmo! Pensei... Será que a minha espiritualidade é uma farsa? Essa possibilidade começou a incomodar-me. Concordo em ser o medo motivação para boa parte das nossas atitudes e ações. E também é verdade que a parca me assusta, isso eu não posso negar; mas quem no gozo perfeito das suas faculdades mentais a quer por perto? Depois, deixei de prestar atenção a este medo porque compreendi que quando chegar a “hora” tudo se arranjará da melhor forma possível, e nunca ninguém vai sofrer mais do que lhe permite sua resistência física e moral! E, curiosamente, quando deixei de prestar atenção ao medo da morte, ele perdeu a sua força! Mesmo assim, ficou-me o desejo de permanecer no “ser”, presente na expectativa da possibilidade de uma vida além da morte... Ficou claro para mim que o ganho mais palpável da crença na imortalidade da alma é, principalmente, o espaço que se abre para a esperança de experimentar a felicidade, num mundo “hipotético”, mais justo e mais belo, idéia na qual estou apostando todas as fichas. Este seria o aspecto prático, imediato, do mergulho de ponta cabeça na crença da imortalidade da alma pessoal. Obviamente, esta esperança alivia a tensão da expectativa de um aniquilamento total com a morte física...  Mas não é este lenitivo que valoriza a crença... certamente não valeria a pena sobreviver para uma repetição enfadonha, por toda eternidade, das incertezas, sacrifícios, sobressaltos já experimentados, sempre renovados.  Mas há um custo existencial para usufruir os benefícios dessa crença... não basta aceitar, intelectualmente, a cosmovisão espiritualista correspondente, ou agir como se... É necessário consumar uma relação absoluta com o absoluto (abstração superlativa inefável) que caracteriza a experiência mística; e para tanto é preciso mais, muito mais do que, apenas, admitir, intelectualmente, a alternativa espiritualista. É necessário “viver” as virtudes teologais[2] cuja incorporação pelo crente exige dedicada determinação, humildade e autodisciplina... é  preciso senti-las como emanação do próprio “ser”... É abismal a profundidade existencial dessas virtudes! Para falar só de uma, a caridade (amor), que engloba todas as demais, só vislumbrei sua grandiosidade quando li a segunda carta de Paulo aos Coríntios[3]. Confesso que fico tonto só de pensar a altitude existencial a que preciso alçar-me para viver caridosamente!... Equivoca-se o beato que pratica o ritual místico, formalmente, sem realizar a experiência numinosa[4] implícita na relação absoluta com o absoluto. Dessa forma, fica bastante claro que o misticismo não é uma panacéia para curar o medo de morrer. O exorcismo deste temor é o resultado de uma experiência profunda que tem mais a ver com o amor do que com o medo. Por outro lado, focalizando a questão de um ângulo genealógico, a proposta de uma vida além túmulo, de alguma forma está vinculada  à lógica interna da vida consciente... Senão vejamos. A análise fenomenológica do existir autêntico[5] põe em evidência a capacidade de transcender inerente à própria consciência. Capacidade que independe do medo que se tenha de morrer, e que, processualmente, por sua dinâmica aponta para uma realidade que não se confina aos limites temporais. A necessidade de transcender implica numa atividade que exige após cada conquista, novo esforço de ultrapassagem, até o infinito. Eis a enrascada em que nos meteu a consciência!!!

Ao adentrar pela idade da razão nos perguntamos com certa sofreguidão: de onde viemos e para onde vamos? Questionamentos que, se levados às últimas conseqüências nos remetem ao absoluto misterioso (absurdo lógico) no qual estamos imersos. Este absoluto que, por definição, encerra o mistério do primeiro princípio e do último fim remata uma cosmovisão consistente, coerente, que propicia o lastro (apoio) para valores confiáveis em torno dos quais se constrói uma existência plena de sentido. Os valores contingentes são sempre discutíveis, mesmo quando são absolutizados pelo homem! Então, do ponto de vista lógico, especulativo, é preciso admitir a premissa de um absoluto infalível (absurdo para a razão) a fim de respaldar valores totalmente confiáveis. Para dar à existência este respaldo, contudo, impõe-se um ato de fé. Eis o impasse... não controlamos a fé! Todavia, precisamos dela para fechar a gestalt do vir a ser consciente com um absoluto que é um absurdo lógico, mas, indispensável para banir o absurdo existencial representado pela vivência de contradições insolúveis. Na verdade pode-se conviver com o absurdo lógico (absoluto), mas o absurdo vivencial que implica viver a própria contingência, conscientemente, dilacerado pelas dicotomias da existência[6] é desagregador da própria existência. Para aceitar o absurdo lógico e fechar a gestalt da existência será, então, indispensável adotar uma atitude humilde de fé numa transcendência absoluta. Enfim, um princípio ético intemporal é fundamental para estruturar uma ética, com valores válidos universalmente. Dostoievski (1821 – 1881) disse em “Os Irmãos Karamazov”, “se Deus não existe tudo é permitido”! Evidentemente, a frouxidão ética, a que se permitiria o homem na ausência de Deus (absoluto), subentendida na afirmação do grande romancista russo não implica, necessariamente, na não existência de qualquer esquema ético. Mas neste patamar seria preciso estabelecer um valor temporal que, absolutizado, representaria o referencial decisório. Este é o caminho insidioso do estóico materialista que insiste corajosa e temerariamente em assumir a “dignidade” de ser a medida de todas as coisas. Que equívoco! Continuei monologando... Lembrei então... É exatamente neste ponto que Kierkegaard (1813 – 1855) propôs na sua filosofia existencial, a passagem de um nível ético para o nível ético-religioso de existência que inclui , pela fé, a “presença do absoluto” necessário para dar um suporte (garantia) transcendental às escolhas éticas do homem... Disposto a esgotar as minhas dúvidas, continuei questionando... Ora, ao crer neste absoluto, não é o próprio homem que O está criando? Teoricamente, sim... Mesmo acatando o testemunho de uma “revelação” é sua opção de fé que cria o absoluto!... Entendi, então, o motivo da afirmação de  Miguel de Unamuno (1864 – 1936): “Ter fé não é crer no que não se vê, mas criar o que não se vê”. Continuei na minha caminhada investigativa... Conjecturei... da mesma forma que o amor por sua amada impregna toda subjetividade do amante, não lhe deixando dúvidas  sobre a existência do seu sentimento; não temos como negar a autenticidade, no transe místico, da vivência empolgante, absorvente, de uma presença inefável.... Nela o místico se deixa absorver sem reservas! A afirmação de São Paulo resume esta vivência: “Já não sou eu que vivo, mas Cristo que vive em mim”.(Gl. 2,20)

Afinal, fiz a minha opção. Trata-se de uma opção, sim, porque não há como provar, racionalmente, qualquer das duas teses (materialista e espiritualista) e, dessa forma, do ponto de vista estritamente racional, é tão absurdo afirmar como negar a existência de um Absoluto. Assumo, pois, a responsabilidade da escolha, uma reedição da velha aposta pascaliana. Escolho Deus (Absoluto) e a alternativa cosmogônica espiritualista. Talvez a inquietação mais profunda escondida por trás desta opção esteja resumida no estado de espírito tão bem descrito por Fernando Pessoa (sob o pseudônimo de Bernardo Soares) no “Livro do Desassossego”: “E de repente, tudo parece tão absurdo... Eu, o mundo e o mistério de nós ambos”. Para não soçobrar no absurdo vivencial, estou me confiando, conscientemente, ao mistério do ser (assumindo-o sem discuti-lo) como o caminho para  alcançar a vida plena! Estou convencido de que no transe místico o mistério se desfaz. Mas sei que todo esforço consciente, voluntário, feito nesse sentido se esboroa na tentativa vã de expandir a existência numa relação absoluta com o absoluto, por mero esforço da vontade... A experiência de fé é uma dádiva, não se pode ensiná-la ou aprendê-la. Mas, em nome de uma expectativa confiante podemos comprometer todo nosso potencial intelectivo, afetivo e volitivo, predispostos a realizar um ideal de unidade, harmonia e perfeição, oculto aos olhos do tempo indiferente.  Enfim, a investigação que conduzimos até aqui deixa-nos à vontade para dizer que a crença na imortalidade da alma não resulta do medo de morrer... Admiti-lo equivaleria a acreditar que o medo do anonimato é motivação e causa eficiente da inspiração do artista... quando sabemos que a experiência mística e a criação da obra de arte são o apanágio de espíritos sensíveis agraciados por dons excepcionais.



[1] Resultado do exercício da consciência
[2] Fé, Esperança e Caridade (Amor).
[3] Entre outras afirmações destaco esta: “E ainda que eu distribuísse todos os meus bens entre os pobres e ainda que eu entregasse meu próprio corpo à cremação, se não tivesse caridade nada disso me aproveitaria.
[4] Segundo Rudolf Otto (1869-1927), teólogo e filósofo alemão, o sentimento único vivido na experiência religiosa, a experiência do sagrado, em que se confundem a fascinação, o terror e o aniquilamento.Dic.Aurélio Sec.XXI
[5] Modo de ser do homem consciente e responsavelmente
[6] Nascer sem pedir e saber que vai  morrer sem querer; aspirar a tudo poder e saber que reterá apenas uma pequena parcela de poder; desejar  tudo conhecer e saber que terá acesso a um conhecimento limitado.