sábado, 8 de janeiro de 2011

Conjuntura político social

Diante do momento político ultrajante que vivemos, experimento um sentimento de “impotência”... uma   perspectiva de “inutilidade” que induziria ao niilismo, não fora a determinação responsável de persistir na luta pelos ideais democráticos. E neste sentido se impõe a grande questão: “Que fazer para sanear as Instituições e promover o desenvolvimento humano neste Brasil de tantas possibilidades?” Esta pergunta que os brasileiros esclarecidos se fazem é ignorada pelos que detêm o poder. É notório que os falsos políticos não estão interessados em resgatar da desinformação e da miséria uma grande maioria dos brasileiros. Esta condição facilita as manobras eleitoreiras. Por outro lado, o cidadão consciente dos seus deveres cívicos, resolvido a não deixar-se abater, sente-se marginalizado num país em que as eleições são decididas por maioria desinformada... revolta-se com a desfaçatez dos políticos desonestos e manipuladores... desencanta-se com um   Judiciário frágil, incapaz  de defender os direitos democráticos do cidadão comum.
Para varrer a podridão político-administrativa do cenário nacional é preciso eliminar a corrupção expressa no fisiologismo eleitoreiro, nos atos explícitos de improbidade e no comércio espúrio de influência, que desvirtuam o processo democrático. Sanear a prática político-administrativa implica numa mudança radical de mentalidade. Jornada heróica, uma vez que subentende a conversão de cada indivíduo... uma mudança de atitude, algo mais do que o simples reconhecimento teórico dos cânones éticos... requer a disposição voluntária e a determinação pessoal de exercitar a cidadania, responsavelmente.  Ninguém assume uma postura solidária, compatível com o bem comum, sem um esforço pessoal contra a tendência inata egoística, ambiciosa, auto-condescendente. Esta mobilização de forças interiores é o cerne da evolução desde a emergência evolutiva da condição humana caracterizada pelo exercício da consciência responsável. Para dar este salto de qualidade cada um terá que superar sua própria facticidade[1]. Mas o tamanho do desafio não justifica o abstencionismo cômodo. O laisser-faire aplicado ao devir pessoal, ou à organização político-social e econômica é uma deserção da responsabilidade de ser homem.
Na longa caminhada saneadora político social não se deve insistir, ingenuamente, apenas, em combater ideologias como se elas fossem  representações do real. Este tipo de engajamento acaba se consumindo em polêmicas teóricas. O real está nas relações sociais entre os seres humanos... e elas têm um caráter existencial, são de natureza econômica e política, singularizadas por interações psicodinâmicas  pessoais complexas.
Sociólogos modernos trabalhando em parceria com psicanalistas advogam que a verdadeira luta se trava na mobilização de forças conscientes e inconscientes para a construção do subjetivismo moldado nos valores que inspiram a solidariedade e a cooperação, visando o bem comum. É o desejo de justiça que se vivencia na profunda indignação diante do sofrimento dos pobres e oprimidos, que move a consciência esclarecida e sensível a cultivar e liderar as ações comunitárias... é o desejo de que não haja mais exploração nem dominação, que motiva à ação solidária. Nada se conseguirá de forma efetiva sem mexer nos desejos pessoais. E isso ultrapassa o simples esforço intelectual, é uma opção de vida que envolve também o sentimento e a vontade. Implica em mudança de comportamento, um novo modo de ser.
  Em tese, o exercício responsável da consciência deve levar a relações interpessoais autênticas que sirvam de base à construção da comunidade humana, promovendo consenso na disposição de fazer do bem comum o alvo de todas as atenções do grupo. Isto posto, assoma um problema prático. Estamos indignados com as injustiças sociais... sabemos qual é o remédio eficaz para tratar essa chaga, mas a eficácia terapêutica depende da livre adesão  de cada indivíduo ao tratamento... e, lamentavelmente, o homem está mergulhado em equívocos que o tornam refratário, preso a enganos, embalsamado na inércia cultural, resistente às mudanças necessárias. O impacto desta constatação poderia ser fatal para os nossos ideais democráticos, se nos faltasse a “esperança”.
Enfim, é preciso mexer com a subjetividade das pessoas para reelaborar os paradigmas vigentes em prol de uma nova ordem. E é óbvio que esta mudança não acontecerá por um passe de mágica! É preciso insistir em fazer o que achamos politicamente correto, malgrado os contratempos e dissabores. Em termos gerais a proposta consiste em que todos os que forem tocados pelos ideais magnos de verdade, justiça e solidariedade, alinhados pela coerência do ideal democrático insistam na ação destemida em prol da construção da comunidade humana. É preciso acreditar em que, seguindo esta trilha somar-se-ão nossas ações singulares, inspiradas pelo mesmo ideal, na promoção da solidariedade entre os homens. Este é o projeto que embala o nosso sonho democrático. E sonhar pode resultar em mais do que perder-se em propostas românticas... É oportuno lembrar aqui o que escreveu Eduardo Giannetti em um dos seus livros: “Quando a criação do novo está em jogo, resignar-se ao provável e ao exequível é condenar-se ao passado e à repetição. No universo das relações humanas, o futuro responde à força e à ousadia do nosso querer. A capacidade de sonhar fecunda o real, (re)embaralha as cartas  do provável e subverte as fronteiras do possível. Os sonhos secretam o futuro”.
A vontade reforça o desejável e prioriza a realização do que sonhamos construir, tornando-o mais provável!!! Nesta perspectiva nos colocamos como agentes políticos, fazendo o que está ao nosso alcance, e confiando na arregimentação dos que acreditam na causa da humanidade para encorpar o movimento redentor.


[1]  Caráter próprio da condição humana pelo qual cada homem se encontra sempre já comprometido com uma situação não escolhida. 

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

O valor dos papeis sociais

O valor dos papéis sociais.
No dia a dia todos encenamos papeis essenciais à dinâmica social. A prática de esquemas comportamentais apropriados disciplina as relações sociais e funcionais entre os membros da coletividade, seja o exercício de protocolos que garantam a harmonia no convívio humano, sejam atividades profissionais que preencham funções importantes para o bem estar da coletividade. Por exemplo, diante das doenças que afligem o homem, médicos, enfermeiras e atendentes desempenham os papéis que o paciente, seus familiares e a sociedade esperam deles. O mesmo se diga dos papéis atribuídos ao pai, à mãe, aos irmãos, em relação às expectativas comportamentais no seio da família. É longa a relação dos papeis interpretados no cotidiano por líderes ou liderados nas diversas atividades humanas.
Mas é preciso lembrar sempre, que por trás de cada representação há uma pessoa cujos dotes definem a performance do papel que lhe é atribuído... Rigorosamente, é sua originalidade que molda o desempenho do papel, e não o contrário.   O melhor desempenho ocorre quando a pessoa investida de um papel específico está disposta a doar-se ao representa-lo. Quando o eu agente não se doa, apenas encena um conjunto de ações vazias de compromisso efetivo com o bem-estar do outro e, deste modo, pode até servi-lo, mas, alienado e empobrecido interiormente...  É possível que nem se dê conta da alienação em que incorre... e se o percebe é complacente consigo mesmo, numa tentativa infantil de valorizar a auto imagem.
Os papeis culturalmente codificados são uma garantia da estabilidade social e ajudam a transpor o fosso existencial que separa um indivíduo do outro, quando não flui mútua simpatia.
Ao identificarem a dinâmica psíquica que preside a distinção do comportamento formal e da conduta existencialmente consistente, as pessoas aprendem a ser mais tolerantes. Compreendendo a fragilidade do comportamento imaturo dos que se atêm à formalidade, (des)dramatizam conflitos existenciais, latentes, com seus interlocutores... tentam passar-lhes uma mensagem de maturidade (geralmente sem sucesso), e deixam-nos viver a própria escolha... a vida os ensinará... lamentavelmente, da forma mais dolorosa. E nos momentos em que falta inspiração para inovar, ou para lutar contra situações adversas, os mais conscientes dos próprios limites sabem usar os papéis que lhes cabem, com eficiência... nesta entrega encontram o sentido existencial do seu momento, e desta forma ficam imunes à perplexidade ou ao marasmo. Porém sempre alertas, para não se deixarem fixar na mediocridade dos lugares comuns.
Poder-se-á sempre agir de maneira crítica, desde que se representem os papeis assumidos sem perder de vista que a verdade pessoal está contida no self[1], instância profunda da psique, e não no ego[2], mais superficial, que absorve os papeis a serem representados... Cria-se assim uma distância virtual, subjetiva, que permite ao “eu agente” analisar a situação e flexibilizar o comportamento, evitando conflitar com os obstáculos ao bem comum, sem perder o foco do ideal perseguido... sabendo ser o papel desempenhado naquele momento apenas uma janela de comunicação, talvez a única em determinada conjuntura. Assim fazendo, o indivíduo preserva a sua verdade singular sem prejudicar a ordem coletiva.
Por tudo isso, importa reconhecer que representar papéis na vida real, é fundamental para a manutenção da ordem social... Mas é preciso ter consciência de que é a pessoa que define o valor do papel desempenhado, e não o contrário. O conhecido aforismo “O hábito faz o monge”, só é válido formalmente... na verdade é o comportamento autêntico do monge que dignifica e reforça o simbolismo do hábito.
Everaldo Lopes


[1] “Eu” que centraliza a consciência ampliada – o si mesmo.
[2] Extrato superficial da personalidade, centro na consciência clara.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Divagações sobre as possibilidades do homem

No 12º andar do residencial onde moro, olhando o entorno, quedo-me pensativo... Lá em baixo a cidade se espalha nas silhuetas irregulares das casas com telhados marcados pelo tempo, entremeando arranha-céus imponentes que se elevam espaçados. Na via pública movimentada, destaca-se o colorido dos veículos que cruzam céleres, em todas as direções. O olhar perdido na paisagem familiar, meu espírito vagueia... sonho projetos impossíveis... Enquanto a sombra do mistério permanece no fundo da mente inquisitiva, carente de certezas.
Olho o desenho da cidade lá em baixo. O Sol se pôs e se multiplicaram em pontos de luz, as janelas das casas e apartamentos. Pensei... Lá dentro, milhares de seres como eu sentem a vida fluindo através das suas existências singulares... Para onde? Cada um tem um perfil peculiar, mas as preocupações são as mesmas: a sobrevivência, o sexo, o poder, a necessidade de comunicação, sobretudo, o sentido da “existência”. Empolgadas por essa demanda, as pessoas demonstram humor variado de acordo com o caráter de cada uma... são alegres, esperançosas, tristes, revoltadas, entediadas ou perdidas, desesperadas. Cada uma agarrada a um autoengano[1] necessário para estruturar a própria existência, nele investindo inteligência, sentimento e vontade. Nesse vir a ser pendulam entre o certo e o errado, entre o belo e o feio, entre o agradável e o desagradável... Assim vamos todos flutuando entre os extremos, na experiência de ser com os outros no mundo. E quantas vezes nos perdemos em equívocos que nos arrastam vida a baixo, e nos fazem sofrer...
A curiosidade sobre o significado do homem no contexto universal tem sido o motivo de muita especulação. Em torno desta questão desenvolveram-se teses filosóficas e doutrinas religiosas, em busca de respostas para a necessidade humana de “sentido”...  
Existir só por existir é um destino pobre demais para o esforço da Evolução que em milhões de anos perseguiu a complexidade, e desembocou  na consciência reflexiva. Diante da Evolução um raciocínio linear sugere que seu propósito transcende os “sem roteiros tristes périplos[2]” de um devir repetitivo e enfadonho. Mas para superar este horizonte mesquinho há que aplicar talento... uma aptidão natural ou habilidade adquirida. Na esteira desse empenho subjetivo o homem espera alcançar um destino grandioso, seja no plano histórico, seja numa outra dimensão, misteriosamente, oculta na sua própria realidade temporal. Mas é preciso ter fé, acreditar na força do sonho.... Todavia, a fé, assim como o amor, são dons que não se deixam manipular. Resta, pois, aos que não foram agraciados com essas dádivas, render-se, humildemente, ao imediatismo e transitoriedade dos projetos temporais, numa perspectiva de ser para a morte.
Com esta visão da existência contemplo os coirmãos equivocados da família humana que, envoltos numa aura de esperteza ingênua chegam a ser petulantes em suas convicções empíricas. Adultos na cronologia dos anos vividos conservam mentalidade imatura, sentem-se diligentes donos da verdade, embora inobjetivos e faltos de bom senso... O observador imparcial que percebe a falácia das propostas equivocadas os vê instalados numa ilusão de segurança... todavia, eles caminham, confiantes, através da vida... O imediatismo os absorve, inteiramente. Embriagam-se com a posse de bens materiais, com o poder político, ostentando prestígio e cultura intelectual, inebriados pelo sucesso, afogados na vaidade. Do outro lado estão os que investem, conscientemente, num autoengano que fundamenta valores transcendentais, algo que dê um sentido à existência, no qual apostam todas as fichas.
Afinal, para os seres contingentes, finitos, não há certezas absolutas!!! Ingênuos alienados, ou críticos perspicazes todos acabam defrontando o mistério da consciência e do mundo. A diferença é a falta de um suporte existencial autêntico entre os parvos, servos dos próprios equívocos, contrastando com o ideal de verdade e solidariedade universais dos que encaram consciente e responsavelmente o desafio da existência. Todavia não há indicadores objetivos para comprovar esta diferença. Formalmente, os dois grupos por vezes se confundem.
Do fundo da sua existência precária, o homem sonha, aspira à paz e à tranqüilidade. Deseja, ardentemente, penetrar a essência das coisas, que escapa à percepção dos sentidos. Sonha com a justiça sem jaça, com a aceitação da realidade que não se pode mudar, e com a criatividade para mudá-la quando for possível e necessário; anseia pela capacidade de valorizar o minuto fatal com lucidez... E para realizar tudo isso é necessário que esteja polarizado por um ideal transcendental só acessível, e existencialmente funcional, através da lente da fé. Tudo isso se passa no foro íntimo de cada homem e só o próprio conhece a verdade de sua realidade interior... Daí a sabedoria bíblica que recomenda “não julgueis!.”
Enfim, o homem é um ser problemático... Considerando os limites inextensíveis da razão, ouso dizer que só na experiência dos místicos que viveram a noite dos sentidos, o ser consciente encontra a plenitude inaudita da verdade, beleza, paz e felicidade a que pode aspirar. É na experiência mística que o homem alcança o alvo supremo da Evolução e consegue viver a “imensa aspiração de ser divino, no supremo prazer de ser humano”[3].


[1] Crença que afirma o que não é óbvio
[2] Drummond de Andrade em “A máquina do mundo”
[3] Raul de Leoni em “Ode a um Poeta morto”

sábado, 25 de dezembro de 2010

Virar a página


O tempo é inexorável. Segundo após segundo, dia após dia, tudo se transforma. Na verdade, o tempo não passa. Determinante do vir a ser físico e biológico, o tempo é uma dimensão da realidade cósmica evolutiva. As mudanças vão deixando seu rastro, no mundo e em nós mesmos. A consciência reflexiva registra estas mudanças e distingue nelas uma sequência, extraindo desta experiência a falsa impressão de que o tempo passa. Todavia, nós é que passamos, individualmente, como seres temporais, ao nos identificarmos com a própria finitude. Inquietos, nos damos conta de que nos exaurimos nos determinismos físico-biológicos. Os processos físico-químicos, cada vez mais complexos, que resultaram na vida são eternos, a existência individual do ser biológico é que é finita. E nesse vir a ser finito caracterizam-se, num movimento temporal, as mudanças centradas no presente. Tomando-o como referência, o presente que flui separa o já vivido, e o que está por vir. Portanto, o presente, numa perspectiva linear, é um corte do tempo, vivenciado na “existência”[1], ao separar o passado e o futuro. Um átimo tão fugaz que, psicologicamente, é difícil identificá-lo. Todavia, o real, em ato, só ocorre no presente. Portanto, o culto do ontem e o fascínio do amanhã podem obstruir a única chance que temos de agir livremente em cada momento das nossas vidas. Perdemos, assim, a única oportunidade de trabalhar o hoje, preparando um futuro auspicioso. Porque o passado congelado no presente não deixa espaço para a ação livre. E a plenitude do amanhã depende das diligências efetivas no hoje.
            Guardemos, pois, as lembranças agradáveis no seu arquivo próprio, evocando-as quando forem úteis ao presente criativo. A experiência acumulada ajuda, mas é a inspiração atual que cria o “novo” no presente que flui. Projetemos grandes feitos, e ajamos, agora, coerentes com os propósitos definidos na elaboração dos nossos projetos. Mas não nos escravizemos nem às lembranças que entulham o presente, nem às expectativas projetadas, pois, a todo o momento é possível inovar. Deixemos espaço no presente para agir livremente, porque só no “agora” podemos criar e amar. Ninguém ama ou cria no passado ou no futuro, mas no aqui e agora... “criando” e “amando” vivemos os momentos áureos da “existência”...  
            Façamos uma analogia entre a “existência”, e a leitura de um livro. A “existência” se desdobra num vir a ser pontuado por ontens, hojes e amanhãs. Mas as ações são sempre realizadas no hoje. O livro, por sua vez, é um condensado de idéias que se desenvolvem em torno de um eixo temático, e são expostas ao longo das páginas impressas. Ao ler o livro é absolutamente necessário que façamos esta leitura página por página até a última. Podemos memorizar lances já lidos do texto, e alimentar a curiosidade pelo desfecho da estória desenvolvida no livro, mas é na leitura de cada página que estamos concentrados, vivenciando as emoções do enredo, ou vislumbrando a mensagem do texto.
Contudo, se ao lermos a primeira página ficarmos a contemplar a verdade e beleza que dela emanam, sem vira-la, as seguintes nunca serão conhecidas. Dessa forma, “aborta” no nascedouro a possibilidade de conhecer a obra, e o leitor deixará de apreciar o desenvolvimento do tema em questão. Analogicamente seremos “abortos” existenciais se não formos capazes de virar as páginas da nossa própria “existência”, uma por uma, cada uma a seu tempo.
            Com essa analogia queremos enfatizar a necessidade de não nos deixarmos paralisar, hipnotizados pelos encantos do passado que foi bom enquanto durou, mas sendo apenas memória, não é real e não deve obstruir a oportunidade de agir, agora, concretamente. Isso implica num esforço concentrado da vontade dirigida, objetivamente,  contra o enleio fantasista no deleite da lembrança de um momento que não se repetirá jamais.
            Ao virar a página do livro, ou da existência poderemos deparar, respectivamente, com um lance emocionante do enredo, ou com uma experiência existencial nova e enriquecedora...


[1] Vida consciente

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Corrida de revezamento



O idoso é mais sensível ao tratamento que recebe dentro da própria família, como profissional, ou membro da coletividade. É óbvio que esta sensibilidade exaltada tem a ver com a idéia que o idoso faz de si mesmo. Aliás, isso acontece em qualquer idade. Nossas reações são subordinadas à autoavaliação que fazemos... quanto mais elevada a autoestima, mais ponderadas são nossas respostas nas situações existenciais em que nos envolvemos. O agravante, no caso do idoso é que, dadas as circunstâncias do envelhecimento, cresce a necessidade de atenção especial sem a qual ele se sente abandonado... pior ainda quando pressupõe ser credor desse cuidado como prêmio por seu desempenho nos anos idos. Embora uma visão crítica deste pressuposto mostre ser injustificada a idéia de os filhos obrigarem-se a dar assistência integral ao idoso pelo que ele fez no passado. Injustificada porque os feitos apresentados como o motivo de tal presunção fizeram parte, à época, da postura politicamente correta exigida pela conjuntura familiar. Portanto, nada é devido a quem quer que seja por ter agido da única forma decente que a ocasião exigia. O que não anula o respeito mútuo, e a solidariedade entre filhos e pais idosos, alicerçada em sentimentos espontâneos. A gratuidade do envolvimento sincero de idosos e jovens confere uma aura de nobreza ao relacionamento entre ambos. Mas esses laços de solidariedade são construídos numa longa convivência equânime, justa e generosa. Consolidá-los custa uma vida de pequenas renúncias, muita paciência e  disponibilidade para doação.
São tantas as perdas sofridas, que o sentimento de menos valia do idoso é muito frequente. Ele percebe que está ficando para trás, natural e inevitavelmente. É a realidade. O trem da história está em movimento permanente, e dele temos de saltar na hora certa para ceder lugar aos que vão chegando. Essa retirada para os bastidores da “existência” é sempre dolorosa, mas não precisa ser trágica. É salutar a analogia com uma corrida de revezamento. Indispensável se torna passar aos mais jovens a missão histórica que nos coube, depois de cumprirmos a nossa parte. Da mesma forma que não há desdouro em entregar o bastão ao atleta descansado, na competição esportiva que tomamos como paradigma.
Os mais jovens, ciosos de ocuparem os espaços que pleiteiam e que merecem, deslocam os mais velhos das posições que ocuparam quando no pleno uso das suas capacidades. Na vida social algo semelhante acontece. Os papos habituais dos moços giram em torno de acontecimentos acadêmicos, esportes, encontros lúdicos, festas, e namoricos... Por mais atualizado, participante, e aberto às novidades que seja, o idoso não consegue acompanhar a vida trepidante dos mais moços; assim como são raros os jovens que estão dispostos a sorver a sabedoria dos mais velhos numa conversa interessante.
Todo homem sabe de sua própria fragilidade e finitude. Mas ao passar dos anos choca-se com a realidade. Poucos estão realmente preparados para enfrentar as perdas da velhice com estoicismo, bom senso e ânimo para continuar produtivo, de alguma forma.
Entre os idosos existencialmente centrados, a humildade e a sabedoria andam sempre juntas. Surpreendentemente, há indivíduos iletrados que se tornam sábios, não obstante serem ignorantes. Isto confirma que o equilíbrio das potências da alma no culto à verdade e no compromisso com a justiça é latente na dinâmica da consciência reflexiva. Portanto, ninguém está excluído da possibilidade de desenvolver a humildade com a própria experiência de vida... mas isso demanda sempre um esforço consciente dirigido, a longo prazo. Pelo que o número de anos vividos não garante a sabedoria, irmã gêmea da humildade...
Para muitos a saudade incontrolável dos verdes anos obstrui a serenidade no ocaso da vida. Mas chega sempre o momento em que a realidade vence a fantasia dos saudosistas e a própria Natureza ensina como fazer o revezamento necessário e inevitável, nesta corrida histórica na qual fomos inscritos compulsoriamente.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Enigma do feminino


Alguém já disse que a dimensão telúrica da mulher fundamenta--se na sua relação com Natureza. A mulher está “no mundo” (dentro), e não “com o mundo” (fora), como acontece com o homem. São duas maneiras de o “ser consciente” relacionar-se com sua circunstância. A mulher sente o mundo, enquanto o homem precisa analisá-lo para compreendê-lo. A intuição feminina assentaria nessa intimidade com a Natureza, consubstanciada na identidade do inconsciente feminino com as forças vivas da criação. Por tudo isso o encantamento que o feminino evoca repercute a magia de um enigma.
Não se pode definir com precisão o “feminino”, e, todavia, é nele que está o poder de sedução pelo qual a mulher se torna provocante e “poderosa”. O mistério que a envolve, é o “leitmotiv” do sonho romântico e da poesia, em oposição à obviedade masculina. O homem se revela por inteiro, expondo-se, desarmado, ao olhar do “outro”. Por isso, sai do sério quando se descobre, quase indefeso, sem chão para uma pretensa superioridade, culturalmente, construída...
A mulher é amável por todas as manifestações legítimas do gênero feminino. As que tocam os sentidos externos encantam e seduzem pela beleza estética fonte do estímulo que induz o frisson sensual; as que tocam os sentidos internos comovem pela modulação afetiva delicada e sutil. O máximo fascínio está no “feminino exemplar”, o modelo que reúne todas as virtudes representativas do gênero. Embora só exista como idéia pura, o mistério que o envolve está presente em todas as mulheres. Assim, a mulher seduz por sua presença física, mas cativa por suas virtudes menos óbvias como a cordura, a receptividade, a disponibilidade confiante e sensata, a segurança, a fidelidade crítica e delicada a si mesma, e a coerência dos próprios sentimentos.
Nas relações de gênero, a cupidez do homem diante da plástica harmoniosa feminina evolui, insensivelmente, para a sensualidade que busca o contato pele a pele, e, ainda assim, num lampejo de espiritualidade diviniza a imagem da mulher amada. A atração implícita nestas relações se exerce, de início, através do encanto, da sedução, e da expectativa do prazer sensual. Mas o climax do encontro é a relação inter-subjetiva, consubstanciada no “nós” existencial. Contudo, este é, também, um modelo ideal. O homem nunca desiste de realizar o encontro perfeito, mas raramente o consegue e, na maioria das vezes, contenta-se com relacionamentos menos exemplares sem os quais, porém, sua vida seria mais vazia. Lamentavelmente, a maioria dos pares humanos vive sob o império da sensualidade e muitos não percebem a pobreza existencial desse nível de ligação
Em quaisquer circunstâncias, o enigma do “feminino” confere à mulher um poder sobre o homem que só o poeta sabe exaltar em cantos e versos. É pena que algumas não saibam utilizar este potencial inato, desperdiçando-o ...
            No seu significado mais transcendental, o enigma do feminino se reporta à origem do Universo. Nesta perspectiva é oportuno lembrar o pensamento oriental ao afirmar que o encontro, em plenitude, do feminino (Yin) e do masculino (Yang) reflete a união dos Princípios eternos, opostos e indissociáveis que constituem a unidade do absoluto (Tao). No plano histórico, o masculino e o feminino obedecem à “lógica fatal das coisas, lei eterna da criação”[1] como diz o Poeta inspirado no mistério da existência humana que elege como ideal “...a imensa aspiração de ser divino no supremo prazer de ser humano”[2].


[1] Raul de Leoni em “Instinto”
[2] Raul de Leoni em “Ode a um Poeta morto”.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O diálogo possível


É notório ser o diálogo um caminho para o convívio solidário. Todavia, é desconcertante o despreparo humano para dialogar. A prática corrente (equivocada) da liberdade destrói o respeito mútuo sem o que não há diálogo. Neste clima, prevalece a inobjetividade entre os atores sociais interessados em fazer valer seu próprio benefício. Assim posicionados, sobram críticas recíprocas, com prejuízo da comunicação. O desencontro é a regra... sem acordo, as questões discutidas permanecem abertas e os indivíduos isolados em suas “opiniões”... cada um preocupado  em justificar a própria excelência.
Um bom começo para mudar esse quadro será assumir racional e emocionalmente que somos todos, em potencial, “farinha do mesmo saco”. Reconhecimento que não significa condescendência, ou relaxamento ético, mas vacina contra a presunção de alguém ser melhor do que o outro, numa conjuntura definida, porque conseguiu “segurar a barra” e não caiu na tentação. Ninguém é melhor do que ninguém; todos somos capazes de praticar virtudes e de escravizar-nos a vícios... Depende de um esforço concentrado agir de acordo com padrões aceitáveis... postura ética que está sempre por um fio, e depende muitas vezes de circunstâncias. Nesta perspectiva, as pessoas que não se acertam, estão focadas em determinar quem tem a culpa do que. Orientação diversa do tom solidário e compassivo da relação comunitária.
Desde que somos todos carentes, o mais inteligente é nos tornarmos parceiros de uma mesma causa, a da solidariedade comunitária. Será muito mais favorável a todos um comportamento cooperativo, com base na partilha de obrigações e benefícios. Mas a linearidade dessa conclusão racional não encontra respaldo no sentimento. O egoísmo primário do homem nas relações inter-humanas o arrasta mais para a ambição do que para a equanimidade. Por isso, predomina a competição que, no plano econômico leva à concentração dos bens em poucas mãos. Comportamento culturalmente institucionalizado na prática do capitalismo global.
Numa perspectiva de culpa e castigo, as pessoas, que estão interessadas em se livrarem de suposta culpa antecipam-se, agressivas, muitas vezes, projetando no outro seus próprios erros... E desta forma estão mais próximas de se excluírem, reciprocamente, do que de se engajarem numa política de inclusão.
A visão crítica da questão mostra que a coisa mais sábia a fazer para preservar o diálogo é deslocar a atenção dos indivíduos interagentes, do plano ético para o plano ontológico[1]. Neste plano o fundamental não é apontar deslizes éticos, mas buscar compreender o outro nas suas fraquezas... não para desculpá-lo, mas para oferecer-lhe a oportunidade de redimir-se mediante iniciativa pessoal de mobilização das próprias forças morais para corrigir eventuais deslizes. Com este objetivo, cada um terá de ampliar o auto-conhecimento e a auto-disciplina... e, arrimado na autonomia pessoal e na liberdade responsável abre espaço para o diálogo. Nesse campo de negociação as pessoas se encontram para descobrir a verdade objetiva e não para tentar impingir opiniões viciadas por interesses pessoais, consciente ou inconscientemente. A ascese exigida de cada homem para realizar o que poderíamos chamar uma “revolução copernicana”[2] é a prova de fogo em que a humanidade tropeça na sua caminhada heroica.
Cada um poderá reconhecer em si mesmo as condições para a relação dialogal, interrogando-se: 1) Sou capaz de ouvir o que o outro tem a dizer, contrariando-me, disposto a revisar posicionamentos anteriores? 2) Sou capaz de manifestar meu entendimento contrário ao do outro, sem ser agressivo, ao contradizê-lo?  3)Sou capaz de adiar uma discussão que me pareça estéril, face à inflexibilidade do outro, propondo a interrupção da conversa iniciada, sem guardar ressentimentos, e esperar um momento mais oportuno para retomá-la? 4) Sou capaz de manter certa distância entre o meu eu mais profundo e os problemas suscitados na interação com o outro, sem  me identificar com os sentimentos hostis que a discussão me possa induzir? Se a resposta a todos esses itens for afirmativa, com certeza será possível dialogar. Esses pré-requisitos são necessários para que prevaleça, no diálogo, o compromisso com a verdade... Porém eles não são espontâneos, demandam, como vimos, um esforço dirigido no sentido do auto-conhecimento e da auto-disciplina.
Na operação dialogal é essencial não confundir o eu sujeito com a mente[3], sendo esta a expressão do falso eu. Tomarei emprestado de Eckhart Tolle uma imagem que poderá tornar mais claro o que estou querendo dizer. Comparemos a psique humana total com um grande lago de águas profundas. Na superfície podem ocorrer ondulações, certa agitação provocada pelos ventos, mas na profundidade as águas permanecem tranquilas. Tomemos a superfície da massa líquida como sendo a mente construída à base de preconceitos traduzidos em normas, crenças e valores culturais. Enquanto isso, o fundo do lago representa o eu transcendental, a consciência pura, anterior à absorção dos conteúdos volúveis da mente consciente. Nessa profundeza deverá prevalecer a paz interior de cada um de nós, a alegria de ser.
Ao atrelar a nossa auto-estima aos preconceitos, crenças e valores culturais ficamos vulneráveis às suas influências.  Essa “identificação da pessoa com sua mente” equivale, na imagem utilizada, permitir que as marolas da superfície do lago consigam agitar suas águas profundas. O que seria um desastre ecológico total. Não obstante, provocamos em nós mesmos este desastre quando permitimos que nossas idéias, preconceitos, sentimentos tomem conta de nós e comandem nossas relações com os outros. É a isto que os místicos chamam “identificação com a mente”, situação em que perdemos a perspectiva de uma auto-avaliação honesta, e mergulhamos na inobjetividade... Dessa forma anulamos a chance do diálogo.
Na busca da paz e serenidade, a maior luta é a que travamos conosco mesmos no sentido de ser fiel à verdade, à justiça e à bondade de que formos capazes, sem o que também não há diálogo possível.
           


[1] Relação empática, inter-subjetiva, pessoal, baseada no respeito e não no dever.
[2] Analogia com o resultado da colaboração de Copérnico, autor da teoria Heliocêntrica, contrapondo-se à concepção clássica, então, de ser a Terra o centro do Sistema Planetário.
[3] Mente no sentido do conjunto de condicionamentos culturais que ensejam respostas egóicas ou reações estereotipadas.